sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A pergunta que não quer calar

Por quê Lampião não entrou em Lagarto

Por Joel Silveira

Era fim de tarde, eu conversava com Rubem Braga na cobertura (que era também granja) do seu apartamento em Ipanema e, enquanto me servia do sempre generoso uísque do anfitrião, ia matraqueando sem parar sobre os mais diversos assuntos. Braga limitava-se a ouvir, quietamente mergulhado na espaçosa rede baiana que o pintor Carybé lhe mandara de presente. Eu falava, falava, ele balouçava.

Foi quando a conversa passou a ser Lagarto, a cidade da minha infância, lá em Sergipe. Inflado de incontrolável orgulho, lá para as tantas informei ao sabiá da crônica que Lampião, apesar de toda a sua proclamada valentia, jamais tivera coragem de entrar em Lagarto.
Mansamente, num demorado esforço, Braga emergiu da rede e falou:
- Quer dizer que Lampião nunca entrou em Lagarto?
- Nunca!

Braga silenciou por alguns segundos, disse em seguida:
- Pois eis aí o que se chama de um homem sensato. Afinal, que diabo Lampião ia fazer em Lagarto?
E conclusivo, antes de mergulhar na rede:
- Lagarto não é lugar para entrar, mas para sair.

FONTE: Revista Continente - Diário de uma víbora - Edição Nº 08 - Agosto/2001.

Procurando ocorrencias para diversos temas relacionados no site revista Continente encontrei esta pergunta que me chamou a atenção de cara evidente que eu também queria saber, Mas no fim só há mesmo a genial irreverencia do nosso Joel. Lagarto é uma das maiores e mais antigas cidades de Sergipe. Só de amancipação política lá se vão 129 anos. Vejamos um pequeno resumo histórico e nosso comentário posteriormente
 "A ocupação do território lagartense ocorre por volta da segunda metade do século XVII, enquadrando-se no movimento de expansão para oeste da Capitania de Sergipe D’El Rei (território pertencente à Capitania da Bahia de Todos os Santos), promovido pela doação de sesmarias pelos Capitães Donatários de então. A nova zona da terra sergipana seria utilizada para a criação de gado, daí nossa vocação para a pecuária. Esta penetração deu-se via rio Vaza-Barris, que corta o nosso município.
Em 1658, o novo território passou a ter a presença de um distrito militar, a fim de salvaguardá-lo de possíveis invasores, especialmente holandeses. Anos mais tarde, a 11 de novembro de 1679, torna-se Freguesia, sob a invocação de Nossa Senhora da Piedade, com um pároco para fazer às vezes espirituais à população circunvizinha.
 Com uma economia, inicialmente sustentada na criação de gado, a nova Freguesia já se destacava como uma das maiores produtoras de fumo da região. Atendendo exigência de Vossa Majestade, o Rei de Portugal, diante da necessidade de povoar o interior sergipano, o Governador Geral do Brasil, Dom João de Lancastro determinou, por Portaria ao Ouvidor Geral da Capitania de Sergipe D’El Rei, Diogo Pacheco Pereira, no dia 20 de Outubro de 1697, a criação das Vilas de Itabaiana e Nossa Senhora da Piedade do Lagarto."

* O Texto aqui ligeiramente editado foi publicado originalmente em 2001, por ocasião do Sesquicentenário de Nascimento de Sílvio Romero (folheto) e no mesmo ano, no Jornal Folha de Lagarto, Por Claudefranklin Monteiro Santos e Patrícia dos Santos Silva Monteiro.


ADENDO:
Claro que aquela guarnição militar foi desativada ao longo dos anos em que não mais se fez necessária a proteção contra os invasores estrangeiros. Mas em outro texto impresso que não localizei para compartilhar, tomamos conhecimento que desde a década de 20, a cidade além de um razoável contingente policial, já possuia um batalhão de TG (Tiro de guerra). Enfim a cidade tinha armas suficiente pra intimidar qualquer grande grupo. Alguns leitores devem lembrar de um relato em um livro da saudosa Sila, de Zé Sereno: aquele em que a ex cangaceira no ano de 1984 vem à Lagarto ao ancontro de um famoso pecuarista José Almeida ou "Martins Almeida" (já falecido). Na época em que o cangaço atormentava os sergipanos ele era amigo pessoal do Tenente João Maria e do Cel Liberato. E mais um dos fãs assumidos do rei do cangaço. Este lhe confessa a tristeza de não ter conhecido nem ao menos Zé Sereno. Quando Zé Sereno e seu subgrupo se encontravam na fazenda do Sr Dorinha, outro Cel. lagartense, mas que possuia uma grande propriedade em Simão Dias - SE, o velho desejava presentear o cabra de Lampião com uma pistola, dinheiro etc. Enfim, Lampião tinha conhecimento de uma provável resistencia ou de possuir estes tietes na região, deve ter tirado algum proveito por meio de recados, quem sabe? capítulos desconhecidos por nós.


Sei que o velho Joel tem toda razão quando afirma "Lagarto é lugar pra sair" principalmente no campo da cultura, não há valorização necessária, aliás ai está um mal que afeta todo o estado. 


Abraçando
Kiko Monteiro
Lagartense teimoso 

3 comentários:

Sérgio Dantas disse...

Amigo Kiko:

Você escerveu: "no campo da cultura, (em Lagarto) não há valorização necessária, aliás ai está um mal que afeta todo o estado".
Ora, afeta o país inteiro, amigão!
Vejamos o Nordeste:
Depois da invenção do que se convencionou chamar 'ô xente music', com roupas, instrumentos e sotaques horrorosos, a 'cultura' local perdeu muito de sua identidade. Tornou-se um híbrido terrivelmente bizarro.
E há aí um curioso binômio: De um lado, o gosto exacerbado por essa cultura de massa, apelativa e sem conteúdo. Do outro, disseminou-se uma epécie de 'vergonha' pela música ancestral.
Isso só para citar o que ocorre aqui em nossa região.
O saudoso maestro Antônio Carlos Jobim já vaticinava: "Saída para o músico brasileiro é o aeroporto do Galeão".
Sei o que é bem isso, pois, embora amador, sou músico também.
Abraço e vamos aguardar (mesmo quase sem esperança) uma revolução cultural.
Sérgio

Sérgio Dantas disse...

SÓ PARA CONSTAR e evitar que alguém fique CONSTANADO:

No comentário acima, onde se lê "Você Escerveu", leia-se 'VOCÊ ESCREVEU'...
Esse meu problema de vernáculo é terrível.
Vou ter que contratar um corretor permanente....
Abraço
SD

paitoninhoxango disse...

muito bom essa comunidade onde todos fala sobre o cangaço