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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Coisas de cangaço

Objetos de decoração, consumo ou vestimenta para quem gosta do tema

Pra começar, que tal este aparador de livros...


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sexta-feira, 3 de agosto de 2018

No coito do pesquisador...

Como vai você, Luiz Ruben?

Aderbal Nogueira visita ao acervo do pesquisador pernambucano Luiz Ruben, uma referência no estudo do cangaço no Brasil.



Parte 2



Pescado no pioneiro, canal de Seu Aderbal

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Menino Pedro, do Cordel e do Baião

Estimulado pelos pais a ler livros, garoto de oito anos devorou Chico Bento, adora versos do cordel e se diz um grande fã de Luiz Gonzaga

Por Nélson Gonçalves    

Pedro Popoff
Foto: Alan Schneider/G1
Seus roteiros contêm emboscadas, retratam com fidelidade os perrengues do sertão entre a volante (polícia do tempo do cangaço) e o grupo de Virgolino Lampião, tudo regado a espontaneidade, mas sem descuido da ambientação e do figurino. O toque pessoal na trama começa com o fim determinando o começo, onde a morte do cangaceiro-protagonista é lançada, logo na primeira cena, para sustentar a dinâmica de interrogação ao longo de toda a enquete. Quem quiser saber o desfecho da cilada inicial tem de acompanhar o confronto até a última cena.

A descrição acima é de um roteiro de enquete teatral de autoria de Pedro Motta Popoff, um menino de oito anos, filho de pais comerciantes. Para contar sua historinha, o garoto simulou as cenas, cantarolou a sonoplastia e consumiu vários minutos para que seus desenhos, em sequência, fossem compreendidos do jeito que ele pensou a encenação.

O computador existe na vida de Pedro, mas para baixar músicas do baião ou para pesquisar sobre personagens do cangaço, Anastácia, Luiz Gonzaga, Tião Carrero... A ‘arma virtual’ que hipnotiza a molecada, para o pequeno Pedro, é apenas ferramenta. O que realmente rouba sua atenção é o mundo do cangaço, a literatura de cordel e uma variedade de canções de bom gosto que causa surpresa até no mais experiente apreciador de gêneros nacionais.

Os pais, Marcelo Motta e Carla Popoff, apresentam referências da mediação que foi feita com o filho desde seu nascimento. “O pai tem parente com fazenda, então isso pode ter despertado o amor que ele tem por animais. Ele ama bichos e, em especial, cavalos”, conta a mãe. Marcelo menciona que Pedro sempre foi convidado a ler, desde menino e, ainda durante a gestação, “convidado” a ouvir música fora do circuito comercial, sobretudo MPB, um prato sonoro recheado de autores na casa da família. “Ele lia revistinhas do Chico Bento e a partir de um DVD  se apaixonou pelo Chico. Ele troca muito presente de brinquedo por livro”, cita.

Pergunte a Pedro o que ele acha do sertanejo universitário e saberá se a “receita” de apresentação de estímulos, pelos pais, ajudou: “Sertanejo universitário não é música!”.

No ano passado, Pedro pediu de presente uma vitrola. “Fomos à feira do rolo e compramos um aparelho que toca vinil. Ele não desgruda do aparelho”, contam. O garoto ganhou um Xbox, mas o game perde feio para os livrinhos de cordel e os discos na disputa pelo seu tempo para brincar.


Mais radiola, menos Xbox
Foto: Alan Schneider/G1
O detalhe nos estímulos culturais apresentados pelos pais ao garoto: “Colocávamos MPB para ele ouvir ainda na minha barriga e vamos lhe oferecendo livros e autores tanto de música como de literatura. Mas ele escolhe. É uma apresentação democrática”, esclarece a mãe.

Pedro fica pela manhã com os pais, em uma loja na região central, quase na esquina entre a avenida Duque de Caxias e a rua 13 de Maio. Após o almoço, vai para a escola. Quem circula pela rua 13 já não mais se surpreende com um garoto, por vezes, pendurado em galho de uma das árvores na frente do terreno da loja dos pais. De chapéu do cangaço na cabeça (Pedro tem uns 20 tipos de chapéu e quer ir a todo lugar com a indumentária), o menino recita trechos de cordel e canta baião e xaxado. O xaxado foi difundido pelo grupo de Lampião como uma dança de guerra e entretenimento.
“Os cangaceiros eram corajosos e Lampião formou o bando para matar o coronel e enfrentar a volante, que era a polícia lá do sertão. A mulher mais valente do cangaço foi Dadá, mulher do Corisco, vingador de Lampião. Ela era corajosa também. Já a Maria era a mais Bonita, por isso casou com Lampião. O tenente Bezerra, da volante, é quem matou Lampião, mas foi em uma emboscada na fazenda Angico em Sergipe. Ele foi pego pelos macacos. Macaco e volante é a mesma coisa viu!”,
descreve Pedro Motta Popoff ao ser perguntado sobre o que é o cangaço.

A resposta é absolutamente espontânea, sem consultar livro algum. Em sua coleção pessoal, o garoto tem “Lampião, o rei dos cangaceiros”, de Billy Jaynes Chandler, entre outros.

Talvez do gosto do pai, o menino também adora música raiz, em específico os ponteados na viola de Tião Carrero, e também Raul Seixas. “Eu assisti ao filme ‘De Pai para filho’, que fala da história do rei do baião, o Luiz Gonzaga. Mas o Gonzaguinha no filme parece mais com o Raul do que com o filho do rei do baião”, opina o menino.

É disco que ele gosta
Foto: Alan Schneider/G1
Quando bati palmas na chegada à sua casa, do portão era possível ouvir o pequeno cantando baião rasgado enquanto tomava banho.

“É todo dia assim. Tomar banho é uma cantoria. E ele vai cantando e algumas vezes parte para inventar letras ou canções. Um dia percebi que ele cantava algo triste e me aproximei sem ele perceber.

Anotei o que ele cantava e era uma música que falava da tristeza pelo fim da infância. Anotei o que entendi à mão.

Mas interrompi porque ele passou a chorar muito e não me aguentei e o abracei embaixo do chuveiro”, lembra Carla Motta.

Brincar de baião

Pedro não desgruda de uma costureira (ele mesmo explica que é o nome que o cangaceiro dava à metralhadora) feita em papel machê e, ao criar seus roteiros do mundo de Lampião, nunca deixa de usar botina, camisa xadrez, o porta cartucho de couro feito pela mãe enfeitando o peito e, claro, o chapéu do sertão.

Foi um pouco mais de uma hora, ao lado da vitrola, para conhecer apenas as 10 canções que Pedro Motta Popoff mais gosta. A lista ia crescendo, com apontamentos de autores também de fora do mundo do baião. E ele, com um dó danado, tentou insistir em não ter de cortar nenhuma das “melhores” de sua coleção (veja a lista acima).

Ele não só conhece as letras, como tenta interpretar o estilo típico do sertanejo cantar. Pedro também arrisca passos do xaxado. Ao final de cada canção lança comentários sobre o que ouviu.

Pedro e sua fã nº 1 a mamãe Carla Motta. 
Foto: Alan Schneider/G1

No início, a mãe teve preocupação com sua convivência na escola. “Fiquei preocupada com algum tipo de discriminação, porque ele quer ir de chapéu na aula e não gosta de brincar de jogo eletrônico com os meninos. Mas ele é bem resolvido com isso. Nós sempre dissemos a ele que contasse aos amigos que é isso que ele gosta, de chapéu e botina. Ele fala para os meninos que eles precisam conhecer a cultura do nosso País”, sorri a mãe.

Na TV e no computador, Pedro usa seu tempo para assistir a documentários. “Ele ama a Inesita Barroso e insistiu tanto que eu tive de levá-lo para assistir à gravação do Viola Minha Viola na TV Cultura em São Paulo”, acrescenta a mãe. Uma particularidade: Pedro não odeia, mas não liga para o mestre dos causos Rolando Boldrin. “Eu gosto de ponteio de viola do Tião Carrero”, finaliza.

Pesquei no JC Net

No sentido de enriquecer a matéria que não trazia ilustrações ripei fotos do Site G1 que também produziu uma matéria sobre o menino Pedro.  Confira

terça-feira, 19 de março de 2013

HQ clássica

Tio Patinhas "um Cangaceiro milionário"

Nós já publicamos as aventuras de Zé Carioca, Pateta e Mickey contra cangaceiros, Clique Aqui. Ontem o confrade João de Sousa Lima, desencavou outra pérola da Disney com influência na história e cultura tupiniquim.

Capa feita por Jorge Kato para o Almanaque 28, lançado em novembro de 1967.
Nunca foi republicado. Imagem colhida no Blog Chutinosaco.

Interessado? Dica: Pesquisei e descobri que há um exemplar a venda no site de compras "Toda Oferta" por R$ 15,00  Clique Aqui

Poreeeeeeeeeeeeem: O nosso colaborador Geziel Moura, que teve acesso ao conteúdo da revista, alerta que as estórias nada têm de cangaço, só a capa retrata tal movimento.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Meu cumpadi Wilson

Colecionador do Piauí reúne mais de 500 itens sobre Luiz Gonzaga 
Wilson Seraine estuda há 15 anos a história e obra do 'Rei do Baião'. Ele também é presidente da 1ª Colônia Gonzaguena do Brasil, em Teresina.

Por: Pedro Santiago do G1, PI

Foto: Pedro Santiago/G1
O professor de física Wilson Seraine é um dos especialistas mais respeitados do Piauí e do Nordeste quando se trata da vida e obra de Luiz Gonzaga. Segundo ele, a paixão pelo sanfoneiro já era antiga, mas ficou realmente séria há 15 anos, quando passou a intensificar a compra de livros, revistas, chapéus, CDs, DVDs, LPs, partituras e fotos do Velho Lua. Atualmente já são mais de 500 itens em sua coleção particular.

Além de apaixonado pela história do ícone nordestino, Seraine é um grande divulgador de sua obra. O professor tem um programa de rádio há quase sete anos no qual fala de cultura popular, especialmente do autor de Asa Branca.
“Temos o programa de rádio e ainda realizamos, há quatro anos em Teresina, a Procissão da Sanfona no dia da morte de Luiz Gonzaga, 2 de agosto. Conseguimos juntar mais 50 sanfoneiros na procissão deste ano”, relata.

Paixão pelo Rei do Baião já era antiga, mas ficou séria
há 15 anos (Foto: Pedro Santiago/G1)
Wilson Seraine e Luiz Lua Gonzaga

A admiração pelo trabalho de Luiz Gonzaga fica evidente quando se entra na casa do pesquisador. Lá, existe o Espaço Cultural Luiz Gonzaga com dezenas de rádios, telefones, gravuras, cartazes, quadros, bebidas e outros utensílios que lembram a cultural popular nordestina e obra de Gonzaga. Em outro cômodo estão os LPs, livros, revistas, cordéis que remetem ao Velho Lua.
“Luiz apresentou o Nordeste inteiro para o brasileiro. Ele cantou nossas lendas, a culinária, a sabedoria popular, os vaqueiros e os estados nordestinos como ninguém fez. Luiz Gonzaga é o próprio nordeste”, afirma o pesquisador.

Segundo ele, o fato de ser um professor de física, com mestrado em Ciências Matemáticas, ainda ser um especialista em Luiz Gonzaga, causa estranheza. “Sou antes de tudo nordestino. Já era fã do Velho Lua antes de me tornar pesquisador de sua obra. José Leite Lopes, o maior físico brasileiro, aconselhou os físicos a lerem sobre cultura e história quando cansarem de estudar sua área. Eu não esperei isso acontecer”, disse.


A admiração por Gonzagão fica evidente quando se entra 
na casa do pesquisador. (Foto: Pedro Santiago/G1)

“Passei a viajar muito quando terminei o meu mestrado quatro anos atrás. Fui à Exu (PE), Juazeiro do Norte(CE), Crato(CE) e Paulo Afonso (BA) para dar palestras, participar de congressos e garimpar material. Nessas viagens, a gente consegue vídeos caseiros da região, livros antigos e músicas diferentes. Toda viagem que faço é um intercâmbio cultural com a região e sempre há algo de novo sobre Luiz Gonzaga”, afirma.

Entrada da 1ª Colônia Gonzagueana do Brasil, fundada
em Teresina (Foto: Pedro Santiago/G1)
Colônia Gonzagueana

O amor pela vida obra de Luiz Gonzaga lhe rendeu o cargo de presidente da I Colônia Gonzagueana do Brasil. “Um dia estávamos confraternizando em casa com o Reginaldo Silva, um especialista sobre Gonzagão, e amigos quando ele decretou que estava fundada a Colônia e eu era o presidente.

No início levei na brincadeira, mas as comemorações pelo centenário do cantor fizeram com que levássemos a coisa mais a sério. Temos perfis nas redes sociais, estamos construindo nosso site e contamos com cada vez mais adeptos”, explica Seraine que sedia a organização em sua casa.

O sanfoneiro Geri Wilson é um dos Gonzaguenos. Ele conta que é músico profissional há mais de 20 anos, mas que se apaixonou pela obra de Luiz Gonzaga há apenas quatro anos. “Eu participava de bandas que tocavam ritmos populares de sucesso rápido, quando um belo dia caiu a ficha. “Agora eu quero tocar é Asa Branca”, pensei. Passei então a pesquisar, cantar e acabei fundando uma banda que tem como maior influência o Gonzagão”, conta.

Isac é apaixonado pela história de
Gonzaga (Foto: Pedro Santiago/G1)
Não há restrição de idade para participar da Colônia Gonzaguena. Isac Prado tem apenas 10 anos, mas já é um sanfoneiro de respeitado em todo o Piauí. “A primeira música que aprendi foi Asa Branca e a maioria das canções que toco são de Luiz Gonzaga”, afirma o pequeno músico que aprendeu sozinho, aos 6 anos, a tocar o instrumento.

A I Colônia Gonzaguena do Piauí é organizadora da Missa dos Sanfoneiros, que será celebrada nesta quinta-feira (13), dia em que Luiz Gonzaga completaria 100 anos. A missa será realizada na Igreja São Benedito, em Teresina. Antes da celebração, vários sanfoneiros da região farão um encontro no Adro da igreja.
As comemorações pelo centenário de Luiz Gonzaga envolvem apresentações musicais do Coral Nova Visão, da Associação dos Cegos do Piauí; da Banda do 25 BC, com repertório especial de Luiz Gonzaga; de Solange Veras, piauiense compositora parceira do Rei do Baião; e da Big Band Luiz Gonzaga.

A programação, organizada pela Colônia Gonzagueana/Piauí, inclui ainda uma apresentação de dança, com Sidh Ribeiro; apresentação de sanfoneiros e a realização de um leilão cultural, com a arrecadação destinada às vítimas da seca no semiárido piauiense.

Pescado no G1 Piauí

sábado, 13 de outubro de 2012

Companheiros inseparáveis

Faca, facão e punhal: Poder e vaidade no Cangaço

Por William White
(Com a exceção da primeira, as demais fotos ficaram por conta e risco do Lampião Aceso).

Um projeto da envergadura e abrangência deste catálogo sobre Facas Brasileiras precisa tratar, mesmo que em rápidas palavras, de um movimento  típico do Nordeste brasileiro que fez uso permanente e intensivo de diversos tipos de armas brancas: o cangaço. Cangaço  era o agrupamento de indivíduos em bandos de variados tamanhos, desde 3 ou 4 a mais de uma centena, em geral jovens oriundos da zona rural  que se juntavam para cometer crimes diversos, sempre motivados por três objetivos: vingar-se de alguém, proteger-se de alguma vingança ou simplesmente ter uma “profissão” rendosa.


Não se sabe exatamente com quem, onde ou quando esse tipo de atividade teve início. Entretanto, se a localizarmos nos Estados de Pernambuco e Bahia nas primeiras décadas do século 19 e, mais precisamente, de 1850  em diante, certamente estaremos muito próximos da realidade. Importante para os objetivos desta publicação é saber que seu apogeu ocorreu nas décadas de 1920 e 1930 do século XX,  período que coincidiu com o domínio absoluto do mais terrível  dos chefes cangaceiros: Virgulino Ferreira da Silva que, sob o vulgo de Lampião, aterrorizou sete estados do Nordeste brasileiro.


Lampião nasceu a 4 de junho de 1898 no Sítio Passagem das Pedras, município de Vila Bela, atual Serra Talhada, no Estado de Pernambuco. Desde muito cedo mostrou-se dono de inteligência anormalmente desenvolvida para os padrões da classe social a que pertencia.  Era almocreve por profissão, além de hábil produtor de arreios e roupas de couro, sanfoneiro, vaqueiro de primeira ordem, amansador de burros e sabia ler e escrever regularmente. Por motivos ainda hoje controversos, tornou-se cangaceiro com cerca de 16 anos juntamente com seus irmãos Antônio, Livino e, posteriormente, Ezequiel.

Os irmãos Ferreira acabaram por unir forças com Sinhô Pereira, chefe do até então principal grupo de cangaço em atividade na área e que, ao abandonar a vida de bandoleiro por volta de junho de 1922, deixa seu bando sob o comando de Lampião que à época contava apenas 24 anos. Foi agraciado com a falsa patente de Capitão em 1926 por pressão de personalidades do Juazeiro do Norte (CE), entre eles o Deputado Federal Floro Bartolomeu e o próprio Padre Cícero Romão Batista com a intenção de que combatesse a Coluna Prestes, de passagem pela região.  Morreu na Grota de Angico, município de Porto da Folha (SE), atualmente pertencente ao município de Poço Redondo, em 28 de julho de 1938, aos 40 anos de idade e após 22 anos de atividade cangaceira ininterrupta.

Os bandos do cangaço lampiônico, se assim podemos chamar o período áureo desta atividade, eram prioritariamente compostos por jovens oriundos de algum latifúndio pertencente a um coronel-de-barranco, tremenda força política de então nas caatingas, onde exerciam a função de vaqueiros ou simples moradores e parceiros. Assim sendo, e por força das próprias atividades que desempenhavam, estes indivíduos desde a mais tenra idade se familiarizavam com o sangue de animais que abatiam e com as lâminas com que desempenhavam esta função. Era tudo muito mecânico, normal e rotineiro. A intimidade que tinham com facas e a indiferença pelo sangue e a morte eram fatores importantes quando entravam para um bando cangaceiro.

Além deste aspecto, os jovens delinqüentes eram vistos com extrema admiração pelas moças de vilas e fazendas, pois que andavam sempre vestidos à sua maneira vistosa característica, endinheirados e exalavam poder já que muito raramente encontravam resistência em suas andanças e ataques. Parece inclusive ter ocorrido uma certa reordenação na hierarquia do poder sertanejo, já que de certa forma  o coronel latifundiário também foi cerceado em seu mandonismo absoluto pelo rifle insolente do cangaceiro, de maneira que a arma substituía a posse da terra na estrutura social da caatinga. O cangaço usava do sequestro a dinheiro, do fogo em pastos, casas e currais, da matança indiscriminada de rebanhos e de uma série de outras ameaças largamente cumpridas para obter recursos e manifestar seu efetivo poder não apenas em relação ao coronel, mas à população sertaneja em geral.

Alguns autores têm se ocupado em pesquisar a estética do cangaço apesar da escassa fonte de informações existente. Muita divergência surge desses trabalhos, mas há unanimidade quando se referem à vaidade do cangaceiro. E por muitos aspectos. A citada intimidade do homem em geral e do cangaceiro em particular com as armas brancas é histórica, ficando até a dúvida de que se seria mesmo o cão o melhor amigo do homem do cangaço. A estética de sua indumentária lembra algo de mouro trazido pelos portugueses durante o período colonial e particularizada ao sertão.

A marca registrada dessa composição, não há dúvida, é o grande chapéu de couro com a aba rebatida na frente e atrás, fortemente adornado com medalhas de santos, moedas de prata e ouro, signos de Salomão e outros penduricalhos. Apesar de haver um padrão relativamente bem definido de suas vestimentas e adornos, cada indivíduo do grupo tinha o direito, e o exercia com capricho, de manifestar sua vaidade como melhor entendesse. Isso ia do tipo de meia que usavam  à aplicação de enfeites nas alças dos mosquetões e fuzis, ao número e tipo de anéis que adornavam suas mãos, muitas vezes um em cada dedo - sendo alguns destes premiados com dois -, o comprimento dos cabelos e o trato de brilhantina e perfume que recebiam, os óculos de grau ou de sol,  a luneta e uma infinidade de outros quesitos com particular atenção dedicada às facas, facões e punhais.

Lambedeiras de Elétrico e Quinta-Feira. Abaixo: "Estoque" de Catingueira e Pajeuzeira de Avelino, 1909 Coleção de Frederico Pernambucano de Mello. 
Foto de Valentina Fildini. In Estrelas de Couro - A estética do Cangaço, pág 135.

Quanto à importância de cada lâmina carregada pelo cangaceiro pode ser dito que o facão era utilizado nas tarefas mais duras como o corte de galhos de árvores para montagem de suas barracas, o esquartejamento de bovinos e outros. No geral não chamavam muito a atenção com a honrosa exceção de um que Lampião portava e possuía cabo de prata lavrada com muito esmero e apresentando em sua porção final uma cabeça de águia esculpida. Mas por serem de feitio comum e carregados por poucos elementos do cangaço, eram praticamente escondidos sob a axila de seu proprietário,  de forma que permaneciam muito pouco visíveis. Ressalte-se aqui que mesmo feiosos e sem grande prestígio, tais facões acabaram, por ironia do destino, participando do ato final da epopéia cangaceira ao serem utilizados para decapitar os onze cangaceiros mortos na grota sergipana naquela garoenta madrugada do inverno de 1938. Dois anos antes, a 7 de junho de 1936, o cangaceiro José Baiano, violento chefe de um subgrupo, foi morto à traição juntamente com outros 3 companheiros e teve sua cabeça “separada do pescoço por sucessivos golpes de facão”,  conforme atesta a Certidão de Exumação emitida pela Secretaria de Segurança Pública de Sergipe.
Rasparam minha cabeça
Como quem raspa um leitão
Botaram água fervendo
Caía pêlo no chão
Eu berrava como um bode
Minha barba e meu bigode
Raparam com um facão    

Em vez da noiva enxerguei
De cartucheira na mão
Um grupo de cangaceiros
E o bandido Lampião
Pensei que estava sonhando
Quando acordei fui levando
Uma surra de facão¹
(...)

Facão curto de Lampião: Gavião guarnecido por cachorro, 1938.
Coleção privada. In Estrelas de Couro - A estética do cangaço pág. 134.
Frederico Pernambucano de Melo.

A faca talvez tenha sido a lâmina de maior utilidade pois servia a muitos fins,  como matar, esfolar e retalhar pequenas criações, castrar animais e, vez por outra, homens, cortar couro e tecidos para a produção de arreios e roupas, retirar balas alojadas em seus corpos, descascar frutas, cortar queijo e o que mais fosse necessário. Estas facas apresentavam características muito diversas umas das outras e algumas eram verdadeiras obras de arte muitíssimo trabalhadas. Apresentavam lâminas de cerca de 20 a 30 cm com cabos caprichosamente executados por alguns cuteleiros que se tornaram famosos, casos da família Caroca na Paraíba e da família Pereira no Cariri cearense.


Eram cabos compostos por pequenos discos de materiais diversos como chifre bovino, caprino ou ovino, madeira, prata, cobre, níquel, alpaca, marfim, osso e eventualmente até ouro. No entanto, o uso deste metal estava longe de ser a regra. Comumente, para o uso cotidiano, as facas eram lâminas simples e com cabo de madeira ordinária, especialmente com o advento da industrialização por volta de 1930, fato que colaborou bastante para a extinção da cutelaria artística como era até então conhecida. Era mais importante que seu aço pegasse bom fio do que tivesse alto senso estético.  Estas também pouco apareciam na indumentária do cangaço. Quase sempre estavam guardadas no cós da calça, nas costas, ou na mesma posição do facão, ou seja, sob as axilas.

Porque na ponta da faca
Uma barriga não erro
E um ladrão que me rouba
Até o cabo eu enterro
Pule o que for mais valente
Para eu corrê-lo no ferro²

Dei uma volta na rua
Encontrei um camarada
Com uma faca de ponta
Feita de aço de espada
No momento que eu cheguei
Sem desejar encontrei
Um princípio de zoada³
(...)

Finalmente, e com notável destaque, havia o punhal. Utilizado apenas como arma perfurante, posto não possuir fio em nenhum dos lados, mas apenas a ponta extremamente aguçada própria para sangrar animais em geral, inclusive homens, como atestam inúmeros registros de diversos autores. Tratamento especial e diferenciado sempre foi dedicado aos punhais, estes sim, motivo de orgulho e vaidade de seus proprietários.

Eram sempre carregados de forma ostensiva, transversalmente ao abdome que lhes servia de perfeita moldura, e sustentados pelo cinturão de balas.


A vaidade de cada um se manifestava neles de diversas maneiras: pelo material com que era produzida sua lâmina, a composição de sua empunhadura e sua bainha, o cuteleiro que o confeccionou, seu comprimento e a habilidade que cada um possuía ao manejá-lo. Material para as lâminas era quase sempre importado: espadas quebradas, ferramentas agrícolas e especialmente pedaços de trilhos de ferrovias  e do sistema de vagonetes utilizados na indústria açucareira. A forja e montagem desses punhais eram feitas em locais denominados tendas, que nada mais eram que rústicas cutelarias bastante disseminadas pelo Nordeste, em especial nos Estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Ceará, onde a movimentação de cangaceiros era intensa.

Sobre esta imagem o colecionador e especialista em cutelaria Dênis Artur Carvalho faz a seguinte observação: O cangaceiro Atividade está portando três armas brancas: Uma faca de ponta com cabo de embuá na cintura, um facão de cortar mato abaixo do braço e uma faca paulista à altura do peito. Eu nunca tinha visto nenhuma fotografia de cangaceiro portando uma faca típica da região de São Paulo. Preferiam a boa faca de ponta nordestina ou as famosas lâminas europeias principalmente alemãs. Abaixo, uma peça idêntica, de minha coleção:



Faca de ponta com empunhadura "Embuá" também da nossa coleção:

A estética e características gerais de forma, tipo de cabo, comprimento de lâmina e material e modelo da bainha era função da criatividade do cuteleiro e dos recursos de quem encomendava o produto. De maneira geral,  o punhal tinha forma bastante esguia, longa e fina, arrematado pela empunhadura de estilo muito semelhante ao utilizado pelas facas artesanais acima descritas. Mesmos materiais, mesmas formas. As bainhas também eram caprichosamente elaboradas, quase sempre por terceiros, podendo ser de couro ou metal. Quando metálicas, por vezes eram forradas de couro ou veludo e podiam possuir uma ou duas articulações, ao logo de seu comprimento, como delicadas dobradiças, de forma a facilitar o andar e o montar de quem as usasse.

Prestando mais atenção
Eu vi um grande punhal
Fabricado com três quinas
De um tamanho desigual
O cabo de ouro e prata
Nunca se viu então igual⁴
(...)
   
Conduzia o seu punhal
Passado na cartucheira
Com setenta e três centímetros
Respeito da cabroeira
Moedas de prata e ouro
Lhe enfeitavam a bandoleira
(...)
No cangaço parece não ter havido uma relação direta entre o tipo de punhal e faca utilizados e a hierarquia interna do grupo.  Tudo era exatamente uma questão de gosto, vaidade e dinheiro. Embora nem fosse de uso mais freqüente, os punhais longos exerciam especial fascínio entre os cangaceiros, sendo curioso reproduzir aqui parte do “Inventário dos objetos apreendidos, pertencentes ao famigerado “Lampeão”, produzido pelo Regimento Policial Militar de Maceió, em 26 de novembro de 1938:

FACA: de folha de aço, com 67 cm de dimensão, com cabo e terço de níquel, adornado o cabo com três anéis de ouro, notando-se na lâmina, uma mossa produzida naturalmente por bala; bainha toda de níquel,    com forro interno de couro, notando-se também na parte interna superior o estrago produzido por bala.


Sabe-se pela literatura a respeito do tema que aos 67 cm de lâmina são acrescidos 15 cm de cabo, perfazendo um comprimento total de 82 cm. Qual a utilidade prática de tamanho exagero? Talvez nenhuma, exceto manifestar o que vem sendo escarafunchado aqui: poder e vaidade.


Muito embora este relato se refira aos despojos particulares de Lampião, outros membros do bando também possuíam punhais igualmente longos, o que é visível na famosa “foto das cabeças” e que viria reforçar a tese da inexistência de vínculo entre o comprimento dos punhais e a posição hierárquica do indivíduo no grupo. 


E Luís Pedro, rico e garboso...


...Findou caboclo

Para sangrar um homem ao estilo do cangaço, ou seja, fazendo o punhal penetrar pela fossa clavicular esquerda para atingir coração e pulmão não era necessário esse exagero de comprimento, coisa de 70 cm.

O tamanho de punhal mais disseminado entre os cangaceiros era de aproximadamente 35 a 40 cm, incluída a empunhadura. Claro está que o fato de a arma ser de menor porte em nada atrapalhava a expressão da vaidade em sua confecção. Era carregada com o mesmo orgulho e tinha o mesmo poder especialmente frente a adversários civis.


"O rifle de ouro" também tinha sua lâmina.
Coleção privada.


Vale ressaltar que muito provavelmente existia um aspecto psicológico, mórbido e doentio quando se considera o significado que o sangramento tinha, e tem, para o homem rústico do sertão nordestino. Ao usar sua arma esteticamente  mais expressiva para esse fim, o indivíduo manifestava, a um só tempo, sua vaidade em relação ao punhal,  e também um importante poder sobre a vítima, não apenas porque esta sempre se encontrava subjugada pelo grupo mas também porque sangrar era, e é, ato de extrema ofensa para quem o sofria,   extensiva a toda a família da vítima. Ou seja, para o sertanejo, o drama não estava em morrer,  mas sim em ser sangrado. Ofensa inadmissível, passível de vingança necessária e obrigatória e muitas vezes origem das famosas brigas de família. Sangrar era para porco, cabrito, boi – não para o homem.

Finalmente, é importante mencionar um vínculo havido entre a morte de Lampião, decretando o início do fim do cangaço, o poder e a vaidade que aqui se explicou. Após mais de vinte anos de atividade em circunstâncias quase sempre muito adversas, “morando debaixo do chapéu”, como certa vez disse o Rei do Cangaço, parece que a atividade já não exercia nele o mesmo fascínio de outros tempos. Sua mobilidade era bastante menor e sua área de ação estava mais ou menos restrita ao baixo rio São Francisco, ora em Alagoas, ora em Sergipe onde, até por influência das mulheres do bando, passaram a tomar muito mais cuidado com a higiene pessoal, fato demonstrado pela adoção de novos costumes tais como banhos frequentes, lavagem de roupas e um acesso mais rotineiro a melhores alimentos mandados buscar em feiras através de seus coiteiros.

Esses fatos, acrescidos à onipresente sensação de impunidade, à extorsão praticada à larga contra as elites urbana e rural apenas via bilhetes, à confiança exacerbada em sua rede de coiteiros, à  cada vez maior delegação de autonomia aos chefes de subgrupos, à enorme quantia de dinheiro em espécie e ouro que acumulara e portava e à venalidade dócil e obediente dos militares responsáveis por sua captura parecem ter provocado o afloramento simultâneo de sua sensação de poder e vaidade pelo que já obtivera e não mais perderia. Lampião certamente tinha ciência de que sua morte não era conveniente a muitos caatingueiros que, de uma forma ou outra, dele dependiam para sobreviver ou auferir maiores ganhos.



Inclua-se aí desde grandes latifundiários e militares até o mais simples morador que fazia e vendia queijos. Lampião sempre pagou regiamente pelos produtos que adquiria, fossem alpercatas, rapaduras ou mosquetões e sua munição.

Certa vez perguntaram ao Cel. José Lucena de Albuquerque Maranhão, foto ao lado, que quando sargento havia sido responsável pela morte do pai de Lampião:
- Cel. Lucena, quem matou mesmo Lampião?
- O dinheiro dele!
- Nem só, Coronel, nem só!

¹ Macedo, Nertan. Lampião-Capitão Virgulino Ferreira. Rio de Janeiro: Editora Renes,1975. pp. 84-85.
² D’Almeida, Manoel, Os Cabras de Lampião – São Paulo, Ed. Prelúdio Ltda. 1970, pág 19
³ Macedo, Nertan, obra citada, pág.82
Macedo, Nertan, obra citada, pág. 57 - D’Almeida, Manoel, obra citada, pág.9

Disponível em: Coleção Orsini

Créditos para o amigo Ernane Cunha.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Sertão afiado

A riqueza da cutelaria brasileira: coleção Alberto Orsini 

Colaboração de Ernane Cunha  

Depois de rastejar por longo tempo pela sequidão do imenso sertão chamado Google, encontrei finalmente um pequeno porém significativo oásis mantido pelo advogado paulistano Alberto Orsini Neto. Este senhor, juntamente com 5 pesquisadores, especialistas nas diferentes facas brasileiras, reuniu em um catálogo luxuoso sua “modesta” coleção de facas que representam a glória da antiga cutelaria legitimamente nacional, ou seja, as facas Sorocabanas, Mineiras, Franqueiras, Gaúchas e claro as Nordestinas, que compõem parte de seu acervo de 350 peças.


Coordenado pelo engenheiro e museólogo Manuel Julio Vera Del Carpio, esse catálogo muito pouco divulgado e que teve uma tiragem limitada, e que hoje pode ser adquirido por um valor não inferior a R$300,00 em alguns sebos, claro, chamou muito minha atenção, especialmente devido à belíssima coleção de punhais e facas nordestinas que apresenta e pelas quais tenho admiração especial. Bom para minha sorte e para a dos demais interessados este senhor, que deveria servir de exemplo para os colecionadores particulares, institutos históricos e mesmo museus de nosso país que com raras exceções, ainda vive a época de egoísmo, disponibilizou o conteúdo do referido catálogo impresso integralmente na internet. 

Tenho certeza de não ser o único interessado no assunto. Apesar do esforço, quase heróico daqueles que se dedicam a resgatar a história não só do cangaço, mas do nordeste como um todo e da vastidão que compõe a bibliografia cangaceira, a escrita da história da cutelaria nordestina e daqueles que a forjaram nas incontáveis tendas do sertão de outrora ainda espera por ser feita de um modo mais detalhado e apresentada ao mundo em todo o seu esplendor. 

Exemplares para ilustrar essa história sei que não faltam, estão por aí nas muitas gavetas e prateleiras desse Brasil, aguardando serem libertadas por alguma alma ilustrada. Segue o primeiro dos principais textos do site em questão para deleite especial dos "cangaceirólogos":

Att. Ernane R. C. Cunha
Cachoeira de Minas - Sul de Minas Gerais

Facas do Nordeste: Conhecidas como facas de pontas

Por Mário dos Santos Carvalho (*)
As inserção das imagens foi por conta e risco do Lampião Aceso.

Embora muito antigo em nosso país, o termo faca de ponta tornou-se  a designação genérica de vários tipos de  lâminas produzidas e usadas especificamente na região Nordeste do Brasil. A área de  produção e uso das antigas facas de ponta iniciava-se no Sul da Bahia,  abrangia  toda a região Nordeste e chegava até os  Estados do Norte, os quais nunca tiveram uma cutelaria de estilo próprio.  Assim, ao lado dos clássicos facões de mato, as facas de ponta foram, sem qualquer dúvida, as mais utilizadas lâminas brasileiras, tanto por parte de simples  trabalhadores que participaram dos ciclos da cana-de-açúcar, do gado, do cacau e da borracha quanto pelos senhores que os comandavam.

Dois exemplos de faca de ponta e um punhal da mesma manufatura .
In: Knifenetwork

Entretanto, não devemos não devemos nos esquecer  que este também  foi o primeiro nome de facas brasileiras destinadas à defesa, sendo ainda interessante notar que o nome faca de ponta iniciou-se, pelo menos de forma documental, em lei (bando) de 1722,  da então Capitania de São Paulo, mas – a exceção do Rio Grande do Sul -  foi voz corrente em todas as outras regiões do Brasil  e, pelo menos até a década de 1920, sendo utilizado inclusive no sertão paulistano, conforme nos cientifica este trecho do conto "Pedro Pichorra", publicado em 1919 no livro "Cidades Mortas" de Monteiro Lobato: "...realizara o sonho de toda criança da roça, a faca de ponta. Dera-lhe o pai, como diploma de virilidade: - Menino, doravante és homem..."

Do livro "Apontamentos sobre a faca de ponta" de Oswaldo Lamartine. 

Segundo registros escritos de 1817, as facas de ponta do Nordeste teriam nascido na antiga Aldeia de Pasmado, atual cidade de Abreu e Lima, no Estado de Pernambuco, embora a atividade cuteleira na região fosse bem conhecida desde 1780. Essas antigas crônicas dizem que o viajante ao aproximar-se da aldeia já ouvia  intenso e marcante som de lâminas sendo forjadas, tamanho era  o número de cutelarias que lá existia.

Naquelas regiões, as oficinas que produziam, entre outros,  itens de cutelaria eram conhecidas como tendas de ferreiro, ou simplesmente  tendas, e quando a faca era requintada costumava-se chamá-la de “faca-jóia”.

De acordo com o famoso autor Gustavo Barroso (no conto "O Patuá", em "Praias e Várzeas", de 1915), também  no Ceará do século XIX alguns cuteleiros já eram famosos: "...tinha um verdadeiro arsenal. Andava... com uma faca feita pelos Fernandes do Crato, os ferreiros mais afamados do Ceará."

Ainda nas primeiras décadas do século XIX também ficaram muito famosas as facas de ponta e punhais produzidos no Vale do Pajeú de Flores, em Pernambuco, especialmente aquelas oriundas de povoados da Serra de  Baixa Verde e tão grande foi essa fama que a essas lâminas se emprestou os nomes ora de “Pajeú”, ora de  “Baixa Verde” . Conforme alguns autores regionais e estudiosos, nessas localidades teria sido criado o característico estilo da empunhadura “embuá”, um verdadeiro ícone na configuração das facas nordestinas.


Um exemplo de punhal "Baixa Verde" parte do acervo do Museu do Ceará.
Indicação de Dênis Artur Carvalho (foto Fátima Garcia) in Ceará em Fotos

É também especialmente curioso o fato de que algumas cutelarias de Flores (PE) produziam lâminas de extrema flexibilidade, especialmente para punhais, os quais, segundo alguns autores nordestinos, “retiniam como um sino quando nelas se batia” e  apresentavam “...a técnica do enverga-mas-não-quebra, dos cortes e da perfuração sem fazer força”.

TIPOS

Algumas das mais requintadas facas de ponta têm a empunhadura em prata, ou alpaca, e estas são, geralmente, na forma de estruturas bulbosas, os metais sendo intercalados com vários materiais tais como madeiras regionais, chifres bovinos, ossos, cascas  duras de frutas, moedas, botões de madrepérola, etc. Igualmente, algumas podem ter a lâmina enterçada, podendo ou não serem originárias  de antigas espadas.

Dois punhais de mesma lavra do usado por Lampião Essas peças testemunham a exclusividade de Virgolino. A da esquerda 67 Cm de lâmina, idem a peça que está em exposição no Instituto Histórico de Alagoas.

Os tipos mais básicos destas antigas lâminas são:

- a faca de ponta propriamente dita, com um só fio e de dorso caído, também lembrando muito o clássico formato das facas mediterrâneas. Habitualmente, seu ricasso tem algum trabalho, desde simples entalhes de lima até a inclusão de tiras de prata, alpaca ou latão, com ou sem lavrações. A partir de 1900 e seguramente até 1930,  algumas cutelarias européias, principalmente as alemãs, passaram a produzir e exportar modelos similares de facas de ponta, alguns deles com inscrições regionais nas lâminas, tais como  “Pernambucana”, “Cearense”, “Salve Pátria”, “Livra Vida”, etc e outras alusivas a personagens de destaque da vida política brasileira do período;


"Um exemplar de Livra vida"
Acervo de Alberto Orsini, foto do catálogo. 

- punhais, claramente inspirados em seus correspondentes mediterrâneos do século XVIII, especialmente os de origem espanhola e italiana, destes últimos tendo herdado o costume de ter o ricasso com algum trabalho de lima e, por vezes, também a aplicação das tiras de metal, lisas ou com trabalho de lavração. Os mais antigos têm suas lâminas de perfil oblongo, ou meia-cana, igualmente como os mediterrâneos. Também estes punhais nordestinos foram copiados por cutelarias européias no mesmo já mencionado período das facas  e igualmente alguns deles podem conter lavrações similares em suas lâminas;
 
- “Parnaibas” ou “facas de arrasto” constituem um dos mais imponentes tipos da região Nordeste do Brasil, sendo designações populares da variante da  faca de ponta quando com lâmina exageradamente longa e de pouca largura. Esse nome refere-se à cidade de Parnaíba, no Piauí, onde o tipo teria surgido no final do século XVIII. A designação de “faca de arrasto” teria se originado no fato de que por terem lâminas muito longas levavam mais tempo para serem sacadas, ou "arrastadas", da bainha.

 Faca Parnaiba ou de Arrasto com guarda em "D".
foto in: Mercado Livre

Uma outra versão para a origem do nome é de que, por serem muito longas, essas facas se arrastavam no chão. Podem ou não ter a guarda em “D”. É um tipo atualmente bastante raro, mas foi muito retratado em ilustrações do Brasil Colônia, normalmente com lâmina de mais de 45 cm e guarda em "D" e  citado na literatura brasileira do século XIX e começo do XX. Uma interessante variante de “Parnaíba” sem guarda em “D” tinha o pomo abrindo-se (para melhor travar a mão) em formato similar ao rabo de um peixe e 3 exemplares vistos nessa configuração, todos comprovadamente oriundos do Nordeste, são muito semelhantes apresentando  ricassos ricamente trabalhados com a aplicação de 7  listras de prata/alpaca, empunhaduras em talas de chifre bovino e decoradas com muitos pinos pequenos dos mesmos metais, fazendo supor que foram produzidos por um mesmo cuteleiro ou numa mesma oficina;

- com empunhadura de embuá, este é o nome regional do piolho-de-cobra, pequeno animal invertebrado da classe Diplopoda, mas sendo  também a designação popular  de um estilo de empunhadura de facas e punhais das regiões Norte e Nordeste do Brasil onde finos discos de materiais diversos (principalmente chifre bovino escuro, mas também osso, madeiras, fibras ou em raros casos até marfim) são intercalados com outros de metais (latão, prata,  , alpaca, zinco, alumínio, etc), oferecendo um contraste visual agradável. Essa denominação popular ganhou tanto prestígio que lâminas com essa variante de empunhadura são atualmente classificadas como um tipo;


 Facas de empunhadura Embuá.  
Coleção de Dênis Artur Carvalho in Knifenetwork

- facas e punhais de Santa Luzia (PB), as primeiras normalmente apresentando maior largura mas espessura menor do que as facas de ponta comuns. Muitas vezes as facas da região de Santa Luzia eram chamadas localmente de “Lambideiras" (ou “Lambedeiras”)  e essa designação popular já era conhecida de forma escrita em 1848 , tendo nascido do fato de que, por terem lâminas bem largas, deviam ser  “lambidas” na pedra para serem afiadas. Existiram ainda as  ditas “lambidas dos dois lados”, que eram aquelas afiadas também no dorso ou alguns punhais afiados que eram igualmente tratados dessa forma;

- “língua de (tatú) peba", designação popular de raríssimos punhais com lâmina de formato triangular (ou "de três quinas", como também eram chamadas na região Nordeste). Esse tipo de punhal é citado em algumas crônicas da Guerra de Canudos (1897), na Bahia;

- facões  “Canindé”, também denominação popular da região Nordeste originada  na cidade cearense de Canindé, que desde o início do século XIX atraía grandes romarias de devotos de São Francisco, com isso tendo desenvolvido muito alguns artesanatos regionais, entre eles toscos facões curtos, normalmente com lâminas largas de 15 a 18 polegadas de comprimento e com empunhaduras em talas de madeiras ou chifre bovino. Segundo estudiosos locais, esses facões foram usados apenas por populações rurais da região, mas como eram de excelente têmpera, sua fama se estendeu até Fortaleza e em algumas outras cidades do Ceará. De acordo com as mesmas fontes, já por volta de 1940 não eram mais produzidos;

- “quicé”, tratando-se da menor faca nordestina e nada mais sendo do que uma utilitária de pequeninas dimensões, para pequenos trabalhos no campo, similar e equivalente da gaúcha “cherenga”.

 Exemplo de Faca "Cherenga" ou "Quicé"

É importante notar que a primeira leva de nordestinos que se dirigiu aos seringais da região Norte em 1877 levava consigo suas lâminas, as quais foram usados em larga escala por todo o Ciclo da Borracha (1877-1945). Quando dos conflitos no Acre, há registros escritos de que os combatentes bolivianos tinham grande temor dos cearenses justamente por sua habilidade no manejo dos facões, isto tendo, criado um dito popular entre a soldadesca do país vizinho que dizia “os cearenses nascem pequenos e com uma pequena faca, mas conforme vão crescendo o tamanho da faca aumenta”!

A partir do início do século XX, produtores industriais de lâminas da região Sudeste passaram a produzir cópias dos modelos artesanais de facas utilitárias do Nordeste e a abastecer aquele mercado. Tais facas industriais ficaram conhecidas localmente como “peixeiras” (ou “pexeras”) e muitas tornaram-se também instrumentos de defesa por parte dos sertanejos.

LÂMINAS DOS CANGACEIROS

Entre as mais caras possessões dos cangaceiros estavam seus punhais, facas e facões, e isto – este apreço por lâminas – existia tanto por questões culturais da região  Nordeste da época (onde a honra  masculina determinava que as questões entre  homens devessem ser resolvidas na ponta e no corte de uma lâmina) quanto pelo terror que o ritual da sangria infligia aos  inimigos. Como sabemos, a maior parte das  execuções sumárias feitas  pelos cangaceiros se dava através  da chamada sangria, a qual era a técnica de desferir um único golpe de punhal longo na clávicula esquerda (na região popularmente conhecida por “saboneteira”), que atingia coração e pulmão e causava  morte lenta e agonizante.


Do livro "Estrelas de Couro -  A estética do cangaço"
de Frederico Pernambucano de Mello.

É fato bem conhecido entre os estudiosos do cangaço que os integrantes do bando de Lampião (e o próprio) tinham especiall predileção por lâminas produzidas pela família Pereira, da cidade de Jardim, no Ceará, a qual atuou nessa área por três gerações a partir dos anos iniciais do século XX. Quando, a partir dos anos de 1960, , publicaram-se diversos livros sobre o famoso bando, essa família chegou a ficar conhecida, pelo menos regionalmente, como “os cuteleiros de Lampião”.

As criações atribuídas a essa família são de boa qualidade e  embora não tenham acabamento superlativo, grande  parte delas apresenta empunhaduras do clássico tipo “embuá”, de forma total ou parcial, sendo que as lâminas de tamanhos mais habituais também costumam apresentar as iniciais dos cuteleiros que as produziram preenchidas com latão. Devido a serem mais trabalhosas, as empunhaduras com “embuá” total eram as mais caras dentre as oferecidas por essa família.

Como até a edição desta obra não foi possível um contato com o Sr. Paulo Pereira (último cuteleiro da famosa família e atualmente residindo em endereço incerto em Juazeiro do Norte, Bahia), nos é licito presumir que, por detalhes construtivos, as lâminas timbradas “JP” seriam as mais antigas, pela lógica então pertencendo ao patriarca, aquele que iniciou o oficio; depois e pelo mesmo motivo, viriam as timbradas “MP”, que seriam de seu filho ou irmão e, finalmente, as cunhadas “PP” , estas seguramente referindo-se a Paulo Pereira, que – segundo informações fidedignas – estaria atualmente com mais de 85 anos e no final da década de 1990 teria se mudado para a Bahia.

Entretanto, deve ser especialmente notado que 99% dos punhais longos destinados a combate e/ou sangria (habitualmente com mais de 45 cm de lâmina) produzidos por integrantes  dessa família NÃO apresentam as iniciais de seus produtores, esta ausência servindo para não demonstrar ligação ou envolvimento dos cuteleiros com os cangaceiros ou com as  mortes por eles praticadas, uma vez que lâminas de grande comprimento sempre foram destinadas especificamente aos bandoleiros e com esse único fim.

O fato de Lampião e alguns outros integrantes de seu bando terem sido fotografados  quase sempre portando punhais cujas lâminas tinham mais de 60 cm de comprimento, não significa que o uso de versões extremamente longas fosse uma constante absoluta por parte de todos os cangaceiros. Outras fotos de seu bando e também de integrantes das volantes (principalmente a de "nazarenos") mostram que o tipo de punhal mais habitualmente portado tinha lâmina entre 30 e 40 cm de comprimento.

Volante comandada pelo célebre nazareno "Odilon Flor" (1º à esquerda na fila inferior).
Foto de Benjamim Abrahão, 1936.

Pela cuidadosa análise de antigas fotos do bando de Lampião, é possível observar que – de maneira comprovada e além dele – somente  outros 2 lideres de seu grupo portavam habitualmente  punhais extremamente longos, os cangaceiros Juriti e Corisco. É também  especialmente digno de nota o fato de que numa das fotos em que figuram Lampião e Juriti, o longo punhal deste último parece ser idêntico àquele portado pelo primeiro numa outra imagem. Alguns autores especializados ainda citam que o líder cangaceiro Azulão também costumava portar um longo punhal.


Lampião e Juriti, in foto de Benjamim Abrahão, 1936.
Acervo ABA Film.

Estas constatações levam à hipótese provável de que os punhais de lâminas extra-longas também servissem como uma espécie de  símbolo de “status” e de  liderança dentro  dos bandos, não sendo entretanto os de maior uso, pois – do estrito ponto de vista da praticidade - portar uma lâmina com mais de 60 cm de comprimento não devia ser algo  confortável nas andanças pela caatinga...

Faca de ponta de manufatura bastante primitiva, curiosidade que na área do ricasso encontra-se incrustado em metal amarelo (latão) as iniciais JB. José Bahiano. 
Foto: Ivanildo Silveira

Com a morte de Lampião em 1938 e o consequente fim do cangaço, os punhais de lâminas muito longas foram perdendo sua aura de arma famosa e a demanda diminuiu muito. Especialistas acreditam que já na década de 1950 sua produção normal teria sido interrompida pela maioria dos artesãos.

Entretanto, os cangaceiros não apreciavam, ou usavam, somente punhais e, novamente, as mesmas fotos comprovam isso: diversos usavam facas de ponta e facões curtos; Catingueira, do bando de Gato, portava uma baioneta no peito, além de um punhal médio na cintura; de maneira geral, as mulheres do cangaço portavam punhais menores e Inacinha, companheira de Gato, é vista com o que parece ser um pequenino Caroca.


Inacinha in foto de Benjamim Abrahão, 1936.

Uma citação encontrada na página 160 do livro “De Virgolino a Lampião” nos traz curioso relato sobre uma faca de ponta encomendada  pelo cangaceiro Sabino do bando de Lampião a Julio Pereira (sem ligação com a familia de cuteleiros homônimos), de Juazeiro,  e que juntamente com armas de fogo e munições deveria ser trazida por Antonio da Piçarra:
“...de Sabino tinha recebido quinhentos mil réis para mandar fazer um faca com cabo de prata, um anel de ouro no meio da lâmina, a bainha e o entrançado também de prata...”

Julio Pereira teria respondido a Antônio: “Não tem encomenda nenhuma. Tive de enterrá-la num terreno, choveu muito, e as águas levaram tudo. A faca de Sabino, a ferrugem comeu. Pode dizer isso a Lampião.”

A FAMÍLIA CAROCA

A partir dos anos iniciais do século XX, as criações de toda uma família nordestina de cuteleiros se tornariam conhecidas como as mais requintadas facas de ponta já produzidas. Suas facas  e punhais ficaram famosas pelo nome genérico de “Carocas”, designação emprestada do apelido do patriarca  de uma  família da Paraiba, José Torquato dos Santos (27/09/1898 – 15/12/1978), conhecido como “Zé Caroca”  por apreciar muito corridas de cabriolas (espécie de charrete) conhecida localmente como caroca).

Vindo do Rio Grande do Norte por volta de 1915, “Zé Caroca”  mudou-se para Santa Luzia, na Paraíba, e em diversas cidades desse Estado seus sete filhos dedicaram-se às artes da Cutelaria. Em Santa Luzia, o 2º filho mais velho, Francisco, tornou-se extremamente famoso nesse ofício e ficou conhecido como Mestre Chicó, tendo sido o responsável por transmitir sua técnica aos irmãos  e, segundo alguns estudiosos regionais,  dominando segredos de excelente têmpera em suas lâminas.

Bem no início da década de 1930, o filho mais velho, Fortunato, estabeleceu-se em  Juazeiro do Norte, no Ceará, e não obstante as mais de 200 cutelarias da época que atendiam as constantes romarias, suas criações eram disputadíssimas. No mesmo período, o filho mais moço, José, mudou-se para Campina Grande, na Paraíba, onde também suas criações tornaram-se extremamente famosas e prosseguiram, com os descendentes, até a década de 1960.

Faca de ponta "Caroca" Ancestral 43 Cm. ponta de espada.
Segundo anuncio do: Mercado Livre

Enquanto Mestre Chicó usou aço de trilhos ferroviários para suas lâminas, algumas das mais requintadas facas e punhais  iniciais de Fortunato e de José utilizaram pontas de espadas  e as mais antigas deste último apresentavam lâminas gravadas a ácido com  o têrmo “Campina Gr.” (“Gr.” foi uma antiga forma de abreviar a palavra Grande) inserido num retângulo.

Consta que em Campina Grande a produção de José aumentou tanto que ele chegou a ser dono de 30 cutelarias da cidade, já não mais timbrando suas criações até meados da década de 1940, quando teria decidido timbrar as  mais populares com o nome Caroca, este gravado com as então recém- lançadas canetas elétricas de gravação de pontinhos.

Tanto Fortunato em Juazeiro do Padre Cícero quanto José em Campina Grande foram os pioneiros em utilizar marfim de antigas bolas de bilhar na empunhadura  de algumas de suas mais requintadas criações.

De maneira geral, tão importantes e famosas foram as criações de ambos que elas tornaram-se um quase estilo de faca, muitas vezes produtos similares de boa qualidade mas produzidos por outros cuteleiros da região sendo tratadas genericamente de “Carocas”.

REBENQUES - ESTOQUE

São versões do clássico chicote curto nordestino de tocar mulas que apresentam pequena lâmina de punhal oculta em seu corpo. A maioria dos exemplares vistos se caracteriza por apresentar empunhadura constituida da pata do pequeno veado campeiro (ou veado catingueiro), alguns ainda tendo  lindos trabalhos de cestaria  típicos daquela região.

Embora seja impossível estimar-se a origem e o advento de tais rebenques-estoque, o apogeu de sua produção e  comercialização se deu na cidade cearense  de Juazeiro do Norte a partir das romarias que lá ocorreram promovidas pelo famoso Padre Cícero a partir de 1890.

Assim como sucedeu com pequenos punhais produzidos por grande número de cutelarias da cidade e da região, também os rebenques-estoque do Nordeste eram adquiridos como lembranças  da participação em romarias e festas santificadas e  alguns podem ter sido feitos pela família Caroca.

A partir do início da década de 1950, a produção desses rebenques-estoque cessou e hoje esses itens são raros, tendo ficado na lembrança dos mais velhos como mais um tipo de artesanato dentre os muitos que as romarias  do Padre Cícero incentivaram naquela região.

Só como exemplo: Um dos mais raros exemplares da clássica cutelaria gaúcha do Brasil. Produzido por "prateiro" do Rio Grande do Sul entre 1900 e 1920, este rebenque tem suas furnituras em prata e lâmina da famosa marca Scholberg, belga, de 12 polegadas de comprimento. In Knifeco

CRIAÇÕES DO SUL DA BAHIA

Um tipo bem mais requintado de faca de ponta e de punhal  é aquele particular a região do Estado da Bahia que faz fronteira com Minas Gerais e  ficou conhecido entre os colecionadores pelo nome de facas do Sul da Bahia. Certamente muitas dessas facas baianas foram criações das mesmas oficinas de ourives que produziram requintados balangandãs e figas de prata e, no geral, elas  podem ser classificadas como todo um ramo das facas de pontas, de vez que existem distintas variações do tipo.

As criações do Sul da Bahia iniciam sua trajetória sendo, básica e inicialmente, cópias das mineiras, principalmente nos tipos mais simples, normalmente de função mais utilitária. Entretanto, , rapidamente ganharam estilo e elegância particulares, já no final do século XVIII surgindo exemplares de facas e punhais baianos com bastante requinte, apresentando lâminas mais esguias. Logo em seguida, por volta dos anos 1800, começam a surgir as primeiras variantes com empunhadura e bainha em prata, em 3 (tres) modelos básicos: com lâmina de um só fio, de duplo fio (adaga) e punhais (sem fio, apenas para perfurar).

Mas, de maneira geral, a confecção de cutelaria artesanal  no Sul da Bahia apenas pode ser considerada atividade organizada  por volta de 1820 e na região do Rio das Contas, a qual ganhou muita prosperidade graças a este e outros tipos de artesanatos afamados.

A partir da metade do século XIX, as criações do Sul da Bahia ganhariam uma personalidade própria no formato da empunhadura e teriam seu apogeu no chamado Ciclo do Cacau, cuja cultura (que foi a maior riqueza da Amazônia no início do período colonial) fixou-se naquela região baiana a partir de 1880, quando sua exportação tomou impulso. Na época, os ricos fazendeiros que se dedicaram a essa cultura na região ficaram conhecidos como barões do cacau devido a vida opulenta que levavam. As principais cidades do sul da Bahia a beneficiar-se do ciclo do cacau foram Itabuna, Eunápolis, Itacaré, Itambé (já na época também um grande centro de criação de gado), Ibiaú, Olivença, Una,  Valença e Ilhéus, esta última com o porto que escoava toda a produção da região.

Esses modelos apresentam empunhaduras de forte influência mourisca, normalmente com o material de empunhadura no formato de gomos e, quando com bainha de prata, o batente da ponteira é sempre menor, de proporções mais delicadas, do que aquele visto em criações mineiras.

As facas mais sofisticadas do Sul da Bahia foram as que mais utilizaram pedaços de espadas como lâminas e na região aquelas assim constituídas são até hoje conhecidas como “lâmina ponta de espada”. É também neste tipo regional de antiga faca brasileira que mais se observam as curiosas bainhas de prata com dobradiças, artificio empregado, principalmente nas mais longas, com o objetivo de  evitar que essa parte se entorte ou amasse quando o possuidor subia no cavalo ou tinha outra atividade que lhe exigisse grandes movimentos corporais. Essas  bainhas com dobradiça(s) tinham couro em seu interior (assim, era uma dentro da outra) e existem exemplares longos o suficiente para ter 2 ou até 3 dobradiças nessa parte.

Habitualmente, o trabalho de lavração na bainha e empunhadura na prata das facas do Sul da Bahia é algo tão ou mais  elaborado do que aquele das “franqueiras”, mineiras e gaúchas, embora nesse tipo de faca brasileira do passado a ocorrência de ouro nas mencionadas partes seja mais raro.

É curioso notar que algumas das mais refinadas facas do Sul da Bahia apresentam a lâmina com o timbre “Saldanha & Cia – Rua do Hospício”, isto referindo-se a uma grande empresa importadora, das muitas que existiam nessa célebre rua de Recife (PE). A julgar-se pelas características construtivas de algumas antigas facas do Sul da Bahia, essa empresa parece ter atuado (ou iniciado atividades) nos anos de 1860.

O HOMEM DO FACÃO GRANDE

No passado brasileiro, houve um curioso e raro tipo de faca de ponta executado a partir de espadas e espadins das Guardas Nacionais, hoje extremamente desejado por colecionadores.

Em realidade, a maioria dessas criações originou-se de espadas e espadins importados da célebre cidade alemã de Solingen e tido como "oficiais", embora  adquiridos privadamente por muitos dos chamados coronéis das regiões Norte e Nordeste.

As Guardas Nacionais brasileiras foram criadas e organizadas em 1831 pelo Regente Diogo Antônio Feijó e duraram até a derrubada da primeira república brasileira em 1930. Nas mencionadas regiões brasileiras, desde os tempos do império, era comum qualquer homem de destaque político obter o oficialato das Guardas Nacionais e o título de coronel passou a ser sinônimo de fazendeiro, ricaço ou político renomado.

Como era comum um coronel de verdade ter uma espada ou espadim de oficial, rapidamente surgiram  tipos comerciais que imitavam os originais, sendo comum a substituição das habituais empunhaduras de madeira por outras de chifres bovinos, mais ao gosto e imitando a configuração das já clássicas facas de ponta.

É por este costume de portar uma espada ou espadim, modificado ou não, que no antigo sertão Norte-Nordeste chamavam o chefe político de "homem do facão grande"


(*) Mário dos Santos Carvalho, 51, de São Paulo (SP), é advogado e antiquário e atua no mercado de arte e antiguidades há 23 anos. Sua família é oriunda do sertão pernambucano e desde 1972 ele viaja frequentemente ao Nordeste pesquisando lâminas e outros aspectos culturais da região.

Disponível em: Coleção Orsini