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sexta-feira, 20 de março de 2026

27 de setembro de 1936

Gato invade Piranhas 

Texto e pesquisa de João Lucas/Cangaço Brasileiro.

𝐀 𝐢𝐧𝐯𝐞𝐬𝐭𝐢𝐝𝐚 𝐧𝐚 𝐟𝐚𝐳𝐞𝐧𝐝𝐚 𝐏𝐢𝐜𝐨𝐬. 𝐎 𝐜𝐨𝐦𝐛𝐚𝐭𝐞 𝐞𝐧𝐭𝐫𝐞 𝐁𝐞𝐳𝐞𝐫𝐫𝐚 𝐞 𝐒𝐚𝐧𝐭𝐢𝐥𝐢𝐨.


Subgrupo de Gato - Por Benjamin Abrahão

Domingo, de 27 de setembro de 1936, Piranhas, Alagoas. Mais ou menos na derrocada da tarde, chegando na beira da noite, o sargento João Bezerra, baseado em suas ligações com coiteiros “controlados”, é avisado de que havia um pequeno grupo cangaceiro arranchado há 20 quilômetros da cidade, na fazenda Picos. Na ânsia de ser o mais temido dos bandoleiros, aquele que por tempos perseguia, Bezerra pergunta ao seu informante se era Lampeão, recebendo, em seguida, a resposta: “não, seu sargento, mas é Gato. Está certo que ele tá “segurado” por lá, já que a mulher tá com bucho”.

É claro que Gato não era o mesmo que Virgolino, digo em sua fama como Rei do Cangaço, mas o fato é que este já fazia muitos estragos nas regiões alagoanas, sergipanas, pernambucanas e baianas. Sua fama como rei era pouca, mas a sua de causar terror nos moradores e na volante, com seus métodos de tortura e morte, passava até mesmo do seu próprio “Capetão”. Era mais do que necessário dar um fim a isso.

João, com o auxílio do também sargento Aniceto Rodrigues, reúne a tropa de dezenove soldados já bem treinados e castigados naquela campanha, dando as primeiras instruções do ataque, porém rasas (para que essas não fossem “capturadas, levadas e entregues” aos sequazes); e às 23h00, antes de zarpar para a missão, alarma o prefeito João Correia Britto sobre a situação. Certamente que o trajeto iria ser feito de automóvel e, chegando perto da região combinada, terminariam a pé. No amanhecer do 28 de setembro, às 05h30 da manhã, a volante alagoana chega ao local. Não se via muita coisa pois ainda estava escuro; um ou outro vulto aparecia, bem como vozes dos temidos encourados.

No local do coito, além de Gato e Inacinha, via-se também os bandoleiros Pancada; Mangueira; Peitica (irmão de Mangueira); Maria Jovina, companheira de Pancada; e mais dois cachorros. Como a mulher de Gato estava grávida de 8 meses, todo cuidado era pouco, por isso a necessidade de uma segunda figura feminina na hora. Bezerra e Aniceto davam os direcionamentos. À disposição da força, se encontravam duas metralhadoras.

Quando estavam para fechar o cerco, preparando a tocaia, os cães escutam o chacoalhar dos soldados no mato, começando a latir para a tropa. Já vendo que não dava mais para fazer o elemento surpresa, o comandante manda abrir fogo contra o grupo, e este reage da mesma forma. Uma intensa fuzilaria tomou de conta do som, e a fumaça dos tiros tomou de conta da região. Os cangaceiros iam correndo, parando, atirando e resistindo; já a polícia ia seguindo, parando, atirando e rechaçando a trupe. Em certo momento uma cangaceira se encontrava caída no chão, baleada, enquanto outro bandoleiro a levantava, segurando-a nos braços, levando embora do combate. A troca de tiros era tanta, e a força gasta para levar a mulher no colo, que fez o homem deixá-la no chão, enquanto urrava de dor e ódio por ter feito aquilo. Ela, mesmo ferida, ainda conseguiu andar 1km até cair novamente. A bandida era Inacinha, e o bandido, Gato.

No fim do combate, além de terem apreendido a jovem moça, a força alagoana adquire os espólios de guerra, que seria apetrechos de roupa, farta munição, uma máquina de costura, um fuzil que tinha dezesseis moedas de prata costuradas na bandoleira e os dois cachorros. Pensando no bem-estar de Inacinha, pelo seu estado de gravidez e pelo ferimento de bala no quadril (que não ofendeu o osso e tampouco a criança), João Bezerra parte com o seu comando para a cidade de Olho D’Água do Casado/AL, que dista 18 quilômetros, para primeiros tratamentos. Chegando por lá, às 08h30, manda um telegrama para Piranhas dizendo: “ataquei cangaceiros. Estou com mulher baleada. Cangaceira Inacinha. Tenha cuidado, todo cuidado.”.

Não precisava de uma bola de cristal para saber que tal atitude poderia culminar numa retaliação maior dos mal feitores. Bezerra acaba entregando e percebendo isso, com o final “tenham cuidado, todo cuidado”. Continuemos, agora, com a drástica visão dos bandoleiros.

𝐑𝐞𝐯𝐢𝐝𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐝𝐨 𝐦𝐞𝐬𝐦𝐨 𝐩𝐞𝐬𝐨: 𝐚 𝐚𝐣𝐮𝐝𝐚 𝐝𝐞 𝐌𝐨𝐝𝐞𝐫𝐧𝐨, 𝐂𝐨𝐫𝐢𝐬𝐜𝐨 𝐞 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐮𝐞̂𝐬.

Margeando o horário de 06h00 para 06h30, após os cinco integrantes terem sobrevivido ao combate, procuram de imediato os outros cangaceiros que por perto estavam. Eram os chefes Corisco, Moderno e Português. Os três, ao todo, comandavam cerca de dezessete cangaceiros (11 homens e 6 mulheres). Todos relataram o ocorrido, enquanto Santilio (o Gato) urrava, gritava, xingava e chorava. Queria a todo custo pegar sua companheira, rogando apoio dos camaradas. Em certo momento, Moderno afirma que não podiam fazer nada, pois possivelmente Inácia já estava a caminho de Maceió/AL, caso não tivessem parado antes em Piranhas. “Vamo intão invadi ela, cumpadi! Inacinha devi tá por lá. Se não, peguemo intão a mulher de Bezerra, qui também tá gravida!” falou Gato. Para satisfazer o desejo do colega, Moderno compra a ideia do baiano, da mesma forma fez Corisco e Português.

Ao todo, 25 cangaceiros e cangaceiras irão percorrer o caminho de sangue até a bendita e flagelada cidade. Naquela orda, eram: Gato, Corisco, Moderno, Português, Moreno, Jacaré, Mangueira, Peitica, Gitirana, Cobra Verde, Pontaria, Cruzeiro, Cocada, Tempestade, Pancada, Velocidade, Atividade, Canário, Dadá (companheira de Corisco), Durvinha (companheira de Moderno), Cristina (companheira de Português), Moça (companheira de Jacaré), Marina (companheira de Tempestade), Maria Jovina (companheira de Pancada) e Adília (companheira de Canário).

𝐎 𝐜𝐚𝐦𝐢𝐧𝐡𝐨 𝐝𝐞 𝐬𝐚𝐧𝐠𝐮𝐞 𝐟𝐞𝐢𝐭𝐨 𝐩𝐨𝐫 𝐆𝐚𝐭𝐨.

Santilio, ensandecido, parte na frente com o seu grupo, abandonando o restante. Era necessário correr para acompanhá-lo. Na estrada de terra que direcionava para a cidade ligada ao São Francisco, Gato encontra dois sertanejos próximos ao rio Pau de Arara, de região do mesmo nome. Eram Antônio Tirana e Lelinho (Lerinho ou Antônio de Lero), que estavam por ali cortando lenha com um machado. Pobres homens que faziam um tão bom trabalho, mas num horário tão ruim. Sem misericórdia ou tempo de conversarem, Gato pega a ferramenta de trabalho de um destes, mata-os com a mesma e, para finalizar, esquarteja-os com machadadas. As partes destes se encontravam espalhadas nos arredores. Estes foram as primeiras vítimas, as primeiras respostas de Gato por terem roubado o que era seu, descontando seu ódio em seres inocentes.

Emílio Ângelo, morador da fazenda Boa Vista, tinha ouvido os tiros que proviam de Picos. Premeditando que a coisa seria feia, monta em seu cavalo e sai desesperado para avisar aos vizinhos. Três quilômetros mais à frente, Gato iria fazer outra parada: a fazenda Cachoeirinha, onde morava João Celino Monteiro, coiteiro do mesmo. Por achar que este tinha o traído, culminando no tiroteio, o temido cangaceiro iria aplicar-lhe um corretivo. Próximo da morada, o mesmo avista Ângelo montado perto da cancela. O sertanejo, equipado com seus trajes de vaqueiro, galopa em desabalada carreira para fugir, quando escuta um tiro em sua direção. Era Gato que tinha disparado. Emílio abriu os braços e a bala pega em seu gibão, não o atingindo. Por sorte, correu e sobreviveu. Ali já marcava umas 07h00.

Na casa, se encontravam doze pessoas, todas parentes, mas nada de João Celino. Para descontar a raiva que sentia, Gato começa a fazer sua matança: tiros de fuzil ou revólver, facãozadas e episódios de homens e mulheres sangrados. O total foi de sete vítimas: Maria Ferreira, Manoel Ferreira, Delfina Ferreira, Ana Ferreira, Elísia Monteiro, Júlia Monteiro e Emiliano Monteiro. Uma das vítimas mulheres carregava um bebê na barriga. Vendo as aberrações que Gato praticava, Moderno chamou Corisco para que segurassem a matança, que ia de adulto para criança, uma grotesca carnificina. Ao impedir Santilio de matar um bebê que estava na rede, Corisco o repreende por tal atitude, dizendo que não era necessário tal barbaridade. “Elis pegaro minha muié com meu fio. Nem sei se estão vivos ou mortos. Se eu perco, pru quê os outros não pode perder?” respondeu fervorosamente o intrépido facínora.

Uma jovem mulher, que tinha também um menino em seus braços, vendo aquela cena toda fica perplexa, travada pelo medo. Por um resquício de compaixão, um dos cangaceiros que estavam acompanhando aquela caminhada mortal empurra a moça para fugirem, que se salvassem senão morriam lá. Foi necessário gritos e puxões para ela acordar, fazendo aquilo que o homem pediu.

Outra chamada de Emorgência, tinha levado um corte profundo da boca até a garganta e outros nos braços pelo dito bichano que virou onça. Dadá achou que ela morreria rapidamente, mas esta sobreviveu, conseguindo escapar com uma cicatriz que fazia-a lembrar amargamente do episódio. E mais um garoto, de 12 anos apenas, que recebendo uma bala na bochecha, se jogou bruscamente no chão para fingir-se de morto. Engatinhando lentamente, conseguiu escapar no meio da caatinga.

Após finalizar o caos que se propagou na fazenda, o grupo desce para Piranhas a cavalo, percorrendo cerca de 7 quilômetros.

𝐀𝐬 𝐩𝐫𝐢𝐦𝐞𝐢𝐫𝐚𝐬 𝐧𝐨𝐭𝐢𝐜𝐢𝐚𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐏𝐢𝐫𝐚𝐧𝐡𝐚𝐬 𝐫𝐞𝐜𝐞𝐛𝐞. 𝐎𝐬 𝐬𝐢𝐭𝐢𝐚𝐝𝐨𝐬 𝐬𝐞 𝐚𝐥𝐚𝐫𝐦𝐚𝐦. 𝐀 𝐜𝐡𝐞𝐠𝐚𝐝𝐚 𝐝𝐨𝐬 𝐛𝐚𝐧𝐝𝐨𝐥𝐞𝐢𝐫𝐨𝐬 𝐧𝐨 𝐥𝐨𝐜𝐚𝐥.

Na então vila, nada sabiam do que estava acontecendo nas cercanias. O senhor Francisco Rodrigues, apelidado carinhosamente de Chiquinho Rodrigues, se direcionava para a sua venda no mercado principal da localidade. Percebe que tudo estava calmo, meio vazio, sem nenhuma figura soldadesca nos arredores. Achou estranho. Ao passar o coronel Antônio de Britto, conhecido como Pai Nosso, nas portas do armazém de Chiquinho, é logo perguntado se sabia de algo para não ter policiamento na cidade. “Bezerra saiu meia noite para dar combate aos bandidos” afirmou o coronel. O mercador se espanta, mas logo se acalma; momentos como esse eram comuns por lá. Ficou Antônio, sentado na venda.

Às 08h30, o telegrafista de Piranhas recebe a mensagem do sargento sobre o ataque aos bandidos, que leva ao conhecimento de Antônio de Britto e Chiquinho. “É, pelo visto eles estão vindo pra cá. Ele que disse que é para ter cuidado!” explanou o coronel enquanto se levantava da cadeira. Não demorou muito e chega Emílio Ângelo cansado, com o cavalo escorrendo suor, já dando a parte de todo o acontecimento que ocorreu com Antônio Tirana e Lerinho, ainda falando que “Gato ficou ali matando uma família em Cachoeirinha”. A esposa de Chiquinho, Dona Nira, também estava de resguardo. O comerciante pega em sua venda duas caixas de munição e diz que irá para casa, pois a empregada o intimou para ver a sua filha e a sua mulher.

Chegando nela, sua mãe pergunta o que está acontecendo para ele chegar todo municiado. Explica que os bandidos chefiados por Gato e Corisco iriam invadir as moradas. Dentre tantos rogos, ela implora “meu filho, não se entregue!”, “não irei, mãe!”, e logo pede para que ela, sua esposa, sua filha e a empregada se protegessem no quarto, rezando; enquanto iam, o destemido rapaz subia para o segundo andar da residência.

Já com aquelas informações vindas do militar e do vaqueiro, a cidade se alarmou em pavor, com correrias e fechações de portas e janelas. Um jovem rapaz, chamado Abílio Bezerra, estava indo para a antiga casa de arreios que ficava próximo ao velho cemitério da cidade. Iria pegar um cavalo para fazer seus afazeres. Foi também avisado sobre a chegada desenfreada dos bandidos, que poderia morrer. Abílio levou o caso com humor, soberba, e continuou o seu trajeto. Ao chegar em seu destino, pega um cabresto e caminha pela estrada da Lagoa da Mulata, se deparando com o bando sinistro. De imediato é exigido que subisse no poste e cortasse os fios do telégrafo, para que não fossem mais recebidas ou enviadas mensagens de regiões vizinhas. Perguntam se tinha polícia por lá, recebendo a resposta que não. “Intão irá descer conosco como garantia. Se houver, vai ser o primeiro a morrer!” disse um dos chefes enquanto desciam pela estrada. Era quase 09h00.

𝐆𝐫𝐮𝐩𝐨 𝐝𝐢𝐯𝐢𝐝𝐢𝐝𝐨. 𝐀𝐬 𝐩𝐫𝐢𝐦𝐞𝐢𝐫𝐚𝐬 𝐭𝐫𝐨𝐜𝐚𝐬 𝐝𝐞 𝐭𝐢𝐫𝐨𝐬. 𝐎 𝐝𝐞𝐥𝐞𝐠𝐚𝐝𝐨 𝐞 𝐬𝐮𝐚 "𝐜𝐨𝐫𝐚𝐠𝐞𝐦".

Na entrada da cidade, o bando é dividido em dois: Pancada e o grupo de Português ficariam pelos morros do local, junto com as mulheres, dando cobertura aos demais; Moderno e seus seguidores desceriam junto com Corisco e Gato, percorrendo a rua principal (a atual Antônio Rodrigues). Acompanhariam na invasão as cangaceiras Maria de Pancada e Dadá, ambas com a corruptela de Gato e Corisco. 

Algazarra total nas calçadas. Bandoleiros gritando, rindo, atirando e proferindo ofensas. Tudo isso com o cangaceiro Gitirana soltando versos improvisados. Havia um grupo formado por moradores, na liderança de Joãozinho Carão, que tinha se entrincheirado nas lápides do campo santo,  onde conseguia observar as pedras e as ruas do local. Talvez dando de cara com Português nos lajedos, começaram a abrir fogo contra eles, iniciando aí os primeiros ensaios da dança. 

Nesse momento, Chiquinho já se encontrava protegido em seu sobrado, com as janelas abertas e de rifle na mão. Quando organizava as munições, avista o delegado Cipriano Pereira com mais oito soldados descendo a rua, correndo em direção ao rio; ou seja, fugindo. O Sr. Rodrigues convida-os para se alojarem com ele e resistir aos atacantes. O convite foi recusado imediatamente, afirmando que tinham pouca munição para combaterem. “Você que faz isso é um safado e covarde! Delegado de vergonha não corre!” retruca Chiquinho.  Seguem o mesmo destino dos fardados os paisanos Cícero Martins e Arthur Palmeira, metido a valente, que, próximos aos grotões íngremes, dão alguns tiros. Somente o jovem João Marcelino que se juntou com Francisco para confrontar os bandidos.

𝐀 𝐟𝐢𝐠𝐮𝐫𝐚 𝐡𝐞𝐫𝐨𝐢𝐜𝐚 𝐝𝐞 𝐂𝐲𝐫𝐚 𝐁𝐫𝐢𝐭𝐭𝐨 𝐞 𝐨 𝐭𝐢𝐫𝐨 𝐪𝐮𝐞 "𝐦𝐚𝐧𝐬𝐨𝐮" 𝐨 𝐛𝐢𝐜𝐡𝐚𝐧𝐨.

Chegando à rua Delmiro Gouveia (a provável rua Antônio Rodrigues), se encontrava a casa de João Bezerra, onde Cyra Britto via-se sozinha e em seu primeiro período de gravidez. Cyra, presenciando aquela situação, corre para fechar as portas e janelas que estavam abertas, quando aparece um cangaceiro solo, perto de um pé de planta, ameaçando-a de morte. Encostada na parede e com calma, a valente Britto pega um rifle e atira contra o bandido, ocorrendo mais uma troca de tiros na localidade. Era 10h30.

O restante ia percorrendo ainda mais a rua principal, parando na casa que pertencia a Totonha Seixas Britto (ou Totonia), irmã do prefeito. Invadem-na, encontrando somente a mulher, suas filhas e um filho, João Seixas Britto, de 16 anos. Corisco pergunta se tinha homem (de briga) na casa, onde é avisado que não. Pergunta novamente se tinha polícia, e recebe a negativa como resposta. “Intão esse menino vai ser nossa valia! Se houver, morre!” e levam o jovem Britto como mais um refém, deixando a mãe aos prantos. O caminho, agora, seria a delegacia da cidade, possível local em que a amásia estava. Ainda trocando tiros com os poucos que se arriscavam, os cangaceiros vão chegando no edifício, não encontrando a mulher. “Vamo imbora daqui, Gato. Não tem nada pra nois pur cá!”, grita Cristino, o Corisco, enquanto protegia as costas dos bandidos. “Antis, quero tocar fogo no mercado, cumpade!” fala Santilio.

No momento em que este vai caminhando pela ladeira direcionada aos armazéns, é atingido na espinha por uma bala vinda de uma casa. O cangaceiro cai no mesmo momento, gritando “matou-me, fi da peste!”, largando de banda seu fuzil. Quem tinha o acertado foi Chiquinho em seu sobrado, como uma cobra esperando sua presa chegar para dar o bote.

𝐎 𝐟𝐮𝐦𝐚𝐜𝐞𝐢𝐫𝐨 𝐧𝐚𝐬 𝐣𝐚𝐧𝐞𝐥𝐚𝐬 𝐝𝐞 𝐂𝐡𝐢𝐪𝐮𝐢𝐧𝐡𝐨. 𝐀 𝐦𝐨𝐫𝐭𝐞 𝐝𝐞 𝐉𝐨𝐚̃𝐨 𝐞 𝐀𝐛𝐢́𝐥𝐢𝐨. 𝐀 𝐛𝐫𝐮𝐭𝐚 𝐫𝐞𝐭𝐢𝐫𝐚𝐝𝐚 𝐝𝐨 𝐛𝐚𝐧𝐝𝐨.

Nesse interim, a trupe correu para acudir o ferido; uns pegando nos braços e pernas enquanto outros atiravam em direção a morada do Rodrigues. E ainda, vão descendo alguns cangaceiros pelas escadas existentes para chegarem à morada resistente. Jacaré, um dos que atiravam contra o destemido alagoano, acaba recebendo um tiro de raspão no pescoço. O fumaceiro dos fuzis de Chiquinho e Marcelino cobrem a visão das janelas. No momento do combate, Francisco acaba cortando os lábios e a mão devido ao coice da arma. Os bandoleiros já perto da entrada do sobrado ameaçam de invadir, e Chiquinho grita que se vierem levarão bala. Ao disparar inúmeras vezes pela porta e janela, os arruaceiros desistem de fazer tal proeza.

Ao ver o estado de Santilio, ferido e agonizando de dor, Corisco ordena que sangrasse João Seixas e que desse um tiro na cabeça de Abílio, ali naquele momento, de frente a delegacia, por terem sido “os responsáveis” por aquele episódio. Dadá e Maria Jovina estavam dentro de uma casa quando esse fato ocorreu, pedindo um copo d’água. Vendo o companheiro ferido, de urgência trazem uma cadeira para colocarem-no. Os cangaceiros já estavam se preparando para se retirarem com Corisco dando retaguarda pela esquina da prefeitura. Um tiro ecoa na rua, acertando os embornais de Cristino, fazendo-o rodopiar logo em seguida e descobrindo quem tinha feito aquilo. Era Cyra que tinha deixado de combater o outro bandido para brigar, agora, com o “loirão”. Outra chuva de balas cai na Lapinha do Sertão.

No alvoroço de saírem o mais rápido possível, subindo os íngremes caminhos da cidade, o tiroteio aumentava. Os bandoleiros se juntavam, revezando para levar o companheiro ferido. Virgínio, o Moderno, começa a passar mal pelo cansaço, tropicando nas pedras, sendo necessário algumas mãos para o sustentar. A salvação destes foi terem encontrado no meio do caminho um jumento carregado de lenha. Derrubam a carga e colocam Gato nele, com um cabra segurando em cada lado. Mais ao final da cidade, passando próximo ao cemitério, encontram outras montarias de jumentos, jogando agora o citado cangaceiro que “amarelou-se de febre”.

O relógio batia entre 12h40 e 13h00 quando os asseclas foram rechaçados. Tinham pegado novamente a direção da Lagoa da Mulata, passando próximo a casa de Emílio Ângelo (onde atiram em sua porta como represália), e se acoitam na fazenda Mogiana, nos rincões de Canindé de São Francisco/AL. Ali, Gato morreria oito dias depois.

Após o fim da investida cangaceira, a cidade se encontrava menos perturbada, porém, dava para ouvir os choros de alguns moradores. Chiquinho e João Marcelino, ainda eufóricos e começando a perceber que o perigo já tinha passado, contam as balas gastas. Totalizam 140. Com as armas, saem da residência para verem o estrago feito. Na rua da delegacia, viram a poça de sangue que Gato tinha deixado; ao lado, os dois rapazes assassinados pelos carniceiros. Identificando o seu compadre João como uma das vítimas, posicionado de cócoras, Rodrigues o puxa para cima e recebe um jato de sangue em suas roupas. Aos poucos vão saindo os habitantes de suas casas, todos se concentrando no palco maior do embate. Muitos eram parentes. Olhavam, choravam, cochichavam e rezavam. Se prontificaram, agora, de cuidarem do velório dos 11 mortos. Chegava todo assustado e melancólio o garoto Enéas na vila. Noticia como achou o corpo de seu pai, Antônio Tirana, e do colega Lerinho. Retalhados, em estado brutal, dignos de um filme de horror.

Sem as ações de Chico, Marcelino, Cyra, Joãozinho Carão e os demais corajosos, com toda certeza o desejo dos bandoleiros de destruírem a cidade seria perfeitamente concretizado. Heróis eu digo.

𝐂𝐡𝐞𝐠𝐚𝐝𝐚 𝐝𝐚 𝐭𝐫𝐨𝐩𝐚 𝐜𝐨𝐦 𝐚 𝐛𝐚𝐧𝐝𝐢𝐝𝐚 𝐜𝐚𝐩𝐭𝐮𝐫𝐚𝐝𝐚.

Às 20h00 da noite, chega a tropa de Bezerra em Piranhas com a baleada, levando-a primeiro para a prefeitura. Francisco entra e vai em direção a prisioneira. Com ela conversou um pouco, fornecendo também algumas mudas de roupa e um perfume para Inacinha. Depois, puxa o comandante para entender o motivo de não terem ficado na cidade, deixando-a descuidada e sem policiamento. Repetia que estava com a mulher baleada. “Que matasse essa peste, ou então deixasse ela num ponto!” disse Chiquinho. E assim ficou.

No dia seguinte, dia 29, a volante e a bandoleira são fotografadas na parte baixa da cidade, ao lado do mercado. Depois, é direcionada para a cadeia, permanecendo lá por algumas semanas, sendo tratada por um médico. Quanto ao seu bebê, dá a luz nas grades da prisão, mas sem vida, infelizmente. No dia 22 de outubro, é recambiada para Maceió/AL, chegando na capital no dia 24. Depois de entrevistada, fotografada e identificada, a companheira do finado cangaceiro é levada para a sela, permanecendo até meados de 1937.

Naquele dia, a fama do temido Gato fora apagada. A caça virou o caçador. Todavia, mesmo que o brado heróico da boca dos fuzis dos sitiados tenham falado mais alto, o carrasco do sertão conseguiu cessar a voz de singelos sertanejos, que nada tinham culpa, pelo seu gosto diabólico da vingança.


















𝐹𝑂𝑁𝑇𝐸𝑆: 𝐺𝑒𝑛𝑡𝑒 𝑑𝑒 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜: 𝐷𝑎𝑑𝑎́ 𝑒 𝐶𝑜𝑟𝑖𝑠𝑐𝑜 – 𝐴𝑛𝑡𝑜𝑛𝑖𝑜 𝐴𝑚𝑎𝑢𝑟𝑦; 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜: 𝑎𝑠 𝑀𝑢𝑙𝒉𝑒𝑟𝑒𝑠 𝑒 𝑜 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 - 𝐴𝑛𝑡𝑜𝑛𝑖𝑜 𝐴𝑚𝑎𝑢𝑟𝑦; 𝑃𝑖𝑟𝑎𝑛𝒉𝑎𝑠 𝑛𝑜 𝑇𝑒𝑚𝑝𝑜 𝑑𝑜 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 - 𝐺𝑖𝑙𝑚𝑎𝑟 𝑇𝑒𝑖𝑥𝑒𝑖𝑟𝑎; 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜 𝑒𝑚 𝑃𝑎𝑢𝑙𝑜 𝐴𝑓𝑜𝑛𝑠𝑜 - 𝐽𝑜𝑎̃𝑜 𝑑𝑒 𝑆𝑜𝑢𝑧𝑎 𝐿𝑖𝑚𝑎; 𝐶𝑜𝑟𝑜𝑛𝑒𝑙 𝐽𝑜𝑎̃𝑜 𝐵𝑒𝑧𝑒𝑟𝑟𝑎: 𝑜 𝐶𝑜𝑚𝑎𝑛𝑑𝑎𝑛𝑡𝑒 𝑑𝑎 𝑉𝑜𝑙𝑎𝑛𝑡𝑒 𝑞𝑢𝑒 𝑀𝑎𝑡𝑜𝑢 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜 - 𝑃𝑎𝑢𝑙𝑜 𝐵𝑟𝑖𝑡𝑡𝑜 𝑒 𝐵𝑒𝑛𝑛𝑒𝑟 𝐵𝑟𝑖𝑡𝑡𝑜; 𝑃𝑖𝑟𝑎𝑛𝒉𝑎𝑠 𝐴𝑙𝑎𝑔𝑜𝑎𝑠, 𝑃𝑜𝑟𝑡𝑜 𝑑𝑒 𝐻𝑖𝑠𝑡𝑜́𝑟𝑖𝑎𝑠 - 𝐽𝑎𝑖𝑟𝑜 𝐿𝑢𝑖𝑧; 𝐹𝑜𝑟𝑐̧𝑎𝑠 𝑉𝑜𝑙𝑎𝑛𝑡𝑒𝑠 𝑑𝑒 𝐴 𝑎 𝑍 – 𝐵𝑖𝑠𝑚𝑎𝑟𝑐𝑘 𝑀𝑎𝑟𝑡𝑖𝑛𝑠; 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐𝑒𝑖𝑟𝑜𝑠 𝑑𝑒 𝐴 𝑎 𝑍 – 𝐵𝑖𝑠𝑚𝑎𝑟𝑐𝑘 𝑀𝑎𝑟𝑡𝑖𝑛𝑠; 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜 𝑒 𝑜 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 𝑛𝑎 𝐻𝑖𝑠𝑡𝑜𝑟𝑖𝑜𝑔𝑟𝑎𝑓𝑖𝑎 𝑑𝑒 𝑆𝑒𝑟𝑔𝑖𝑝𝑒, 𝑉𝑜𝑙. 𝟏 – 𝐴𝑟𝑐𝒉𝑖𝑚𝑒𝑑𝑒𝑠 𝑀𝑎𝑟𝑞𝑢𝑒𝑠; 𝑀𝑜𝑟𝑒𝑛𝑜 𝑒 𝐷𝑢𝑟𝑣𝑖𝑛𝒉𝑎: 𝑆𝑎𝑛𝑔𝑢𝑒, 𝐴𝑚𝑜𝑟 𝑒 𝐹𝑢𝑔𝑎 𝑑𝑜 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 - 𝐽𝑜𝑎̃𝑜 𝑑𝑒 𝑆𝑜𝑢𝑧𝑎 𝐿𝑖𝑚𝑎; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐷𝑖𝑎́𝑟𝑖𝑜 𝑑𝑒 𝑃𝑒𝑟𝑛𝑎𝑚𝑏𝑢𝑐𝑜 – 𝟏𝟗𝟑𝟔; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐴 𝑁𝑜𝑖𝑡𝑒/𝑅𝐽 - 𝟏𝟗𝟑𝟔; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐷𝑖𝑎́𝑟𝑖𝑜 𝑑𝑎 𝑁𝑜𝑖𝑡𝑒/𝑅𝐽 - 𝟏𝟗𝟑𝟔; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐺𝑎𝑧𝑒𝑡𝑎 𝑑𝑒 𝐴𝑙𝑎𝑔𝑜𝑎𝑠 – 𝟏𝟗𝟑𝟔; 𝐶𝑎𝑛𝑎𝑙 𝐴𝑑𝑒𝑟𝑏𝑎𝑙 𝑁𝑜𝑔𝑢𝑒𝑖𝑟𝑎, 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 - 𝑌𝑜𝑢𝑡𝑢𝑏𝑒; 𝐶𝑎𝑛𝑎𝑙 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜𝑙𝑜𝑔𝑖𝑎 - 𝑌𝑜𝑢𝑡𝑢𝑏𝑒; 𝐶𝑎𝑛𝑎𝑙 𝑂 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 𝑛𝑎 𝐿𝑖𝑡𝑒𝑟𝑎𝑡𝑢𝑟𝑎 – 𝑌𝑜𝑢𝑡𝑢𝑏𝑒; 𝐶𝑎𝑛𝑎𝑙 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 𝐸𝑡𝑒𝑟𝑛𝑜 – 𝑌𝑜𝑢𝑡𝑢𝑏𝑒; 𝐵𝑙𝑜𝑔 𝑑𝑜 𝑀𝑒𝑛𝑑𝑒𝑠; 𝐵𝑙𝑜𝑔 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜 𝐴𝑐𝑒𝑠𝑜; 𝑆𝑒𝑚𝑖𝑛𝑎́𝑟𝑖𝑜 𝐶𝑎𝑟𝑖𝑟𝑖 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜: 𝑃𝑖𝑟𝑎𝑛𝒉𝑎𝑠; 𝑃𝑒𝑠𝑞𝑢𝑖𝑠𝑎𝑑𝑜𝑟𝑒𝑠 𝑒 𝐴𝑚𝑖𝑔𝑜𝑠: 𝐽𝑢𝑛𝑖𝑜𝑟 𝐴𝑙𝑚𝑒𝑖𝑑𝑎, 𝐶𝑒𝑙𝑠𝑖𝑛𝒉𝑜 𝑅𝑜𝑑𝑟𝑖𝑔𝑢𝑒𝑠, 𝐹𝑎́𝑏𝑖𝑜 𝑀𝑜𝑢𝑟𝑎 𝑒 𝑀𝑎𝑛𝑜𝑒𝑙 𝑆𝑒𝑣𝑒𝑟𝑜, 𝑆𝑒́𝑟𝑔𝑖𝑜 𝐷𝑎𝑛𝑡𝑎𝑠, 𝐷𝑗𝑎𝑙𝑚𝑎 𝑒 𝑀𝑜𝑎𝑏𝑒 𝑂𝑙𝑖𝑣𝑒𝑖𝑟𝑎.

quinta-feira, 26 de junho de 2025

O cangaço nas Alagoas

Os quatro de Matta Grande

Por Jaozin Jaaozinn

Nos anos de 1935, a campanha contra o banditismo fervilhava por todos os sertões. Não só contra eles, mas também contra aqueles que mais lhe apoiavam: os coiteiros. Em Alagoas, na fazenda Aroeirinha, das imediações da cidade de Mata Grande/AL, vivia Félix Alves Rocha, coiteiro de cangaceiros. Por sinal, era o senhor o qual Lampião tinha mais apreço nas redondezas, tanto pela lealdade quanto pela amizade que este tinha com seus “meninos”. Mas esta fama ia longe e, como um pássaro, notícias de seus trabalhos para bandidos voou até aos ouvidos do tenente José Joaquim Grande, onde deu o ultimato para o fazendeiro. 

Se não entregasse e cooperasse para a apreensão ou morte dos cangaceiros, seria ele quem arcaria com as consequências. Quem também sofria com esta angústia era o coiteiro Antônio Manoel Filho, conhecido Antônio de Amélia, do sítio Promissão, em que recebeu a mesma mensagem pelo dito militar. Afirmavam que Antônio se juntava com os cangaceiros e saía com eles para fazer estripulias, porém, em depoimento dele para a revista Região (1980) e ao Diário de Pernambuco (1935), disse que penetrou no bando entre os dias 16 e 17 de setembro, junto com o primo Sebastião Alves e o amigo Antônio Tiago — falaram que liquidaram um soldado para que os cangaceiros os aceitassem —, para vingar o compadre Antônio Mizael, sangrado por Corisco, e outras desavenças. Nessa tramoia, antes mesmo de entrar no grupo, combinou com Félix e seus filhos (Sebastião, João, Benedicto, e José Alves, o Zeca) e seus sobrinhos (Alfredo e José Alves da Silva, o Zuza) que iriam dar cabo dos bandidos, livrando, assim, dos crimes de “acoitagem”. 

No dia 18 de setembro, Virgolino deu os afazeres para os sub-grupos e outros pequenos bandos. O bandoleiro Suspeita foi incumbido de pegar algumas encomendas que estavam na fazenda Aroeirinha, de Félix, e depois matar os homens de nome Alfredo Curim, Zé Horácio da Ipueira e 6 ou 7 da família Bento. Para a missão, Suspeita chama os cabras Medalha, Fortaleza e o valente Limoeiro, além de Antônio de Amélia e cia. Com a certa desculpa de que iria preparar tudo, Antônio Manoel partiu primeiro para a casa do compadre, com toda certeza que iria avisar sobre a chegada dos homens. 

O grupo finalmente se arrancha no local. Faz as prévias saudações e ficam no terreiro da casa. O dia vai caindo e a noite vai se levantando; preparam então uma fogueira para se esquentarem. Alfredo e José Alves, o Zeca, já estavam postos; Zeca traz consigo uma rabeca para divertir mais ainda os cangaceiros, pois já estavam bebendo, comendo e jogando cartas descontraidamente. Estavam eles contando causos e relembrando alguns combates. Medalha estava em pé, "encorado" em uma catingueira; Fortaleza tinha colocado o seu embornal em um toco e escorou nele, ficando voltado ao fogo; Limoeiro ao lado de Tiago, ouvindo os assuntos; e Suspeita longe, conversando com Sebastião. Quando bem bêbados, os Alves botam o plano em ação.  

O de Amélia combinou que o primeiro a morrer seria Fortaleza, matado por ele, e que depois seria os demais. Aproveitou o cochilo do bandido e, com o fuzil em mãos, foi por trás, mira na cabeça e o tiro falha. Rapidamente, coloca o fuzil nas costas e passa por debaixo do galho, para despistar. Limoeiro, apreensivo, pergunta o que foi aquilo. Antônio de Amélia diz que a arma detonou na hora que passou pelos galhos. Assim, o cangaceiro voltou a repousar. Descarta a bala e coloca outra, deixando o fuzil preparado. Já estava amanhecendo, umas 04 horas da manhã; o proprietário da fazenda Promissão vai na fogueira e prepara o café. Antônio novamente pega o fuzil, vai até as costas do cabra, mira na sua cabeça e o armamento não nega fogo. Morre o primeiro. O bando acorda e se levanta rapidamente, mas não dão conta.

Tiago já havia se pegado em Limoeiro, enquanto Sebastião se atracou com Suspeita e Alfredo com Medalha.  

Sebastião enrola-se com Suspeita, e vendo que o cangaceiro iria puxar o seu longo punhal, pede para que alguém matasse o bicho, senão morreria rapidamente. Antônio de Amélia, então, dá uma coronhada na boca do bandoleiro, onde conseguem dominar e matar o rapaz. Morre o segundo. Correm até onde estava Tiago com Limoeiro que, mesmo ferido a bala, lutava feito uma fera. Sebastião pega nos cabelos do bandoleiro, afirma que foi ele quem matou Antônio Mizael, e atira contra o primo de Dadá. Morre o terceiro. Todos se juntam para onde Alfredo estava com Medalha, impedindo que o parente matasse o cangaceiro, com o objetivo de tirarem dele alguma informação. 

Em breve diálogo dele (Medalha) com Sebastião, pergunta: “como é que você faz uma coisa dessas; chamar seus parceiros para vir matar a gente?”. Tião responde: “vocês já estão acostumados a matar com facilidade, nós também podemos matar vocês com facilidade”. Porém, no meio da discussão, reparam que havia outro corpo inerte no chão. Era de Félix, pai de Alfredo e dos demais, que morreu ao se aproximar do local. Louco e sedento de sangue, Alfredo saca a pistola do bandido Limoeiro e atira bem na cabeça de Medalha. Morre o quarto.



Os mortos são levados em cima de animais até Inhapy — pertencente à Mata Grande/AL —, apresentando o resultado do combate e da perda lastimosa de Félix Alves para o tenente Joaquim Grande. Encomendam um caixão para o fazendeiro, enquanto simples mourões eram colocados para que fossem amarrados os cangaceiros. Chamam José Uchôa — o mesmo que fotografou o corpo do cangaceiro Cirillo de Engrácia no mesmo lugar e ano —, para imortalizar o momento com suas chapas iconográficas. Primeiro dos quatro sozinhos e depois os seus batedores.  Depois desta, os corpos foram enterrados no cemitério municipal do local: o de Félix certamente em cova familiar; os dos bandoleiros, em cova coletiva. Uma quantia de 4:070$000 foi achada em posse dos sequazes; o dinheiro foi dividido com todos.

Festa total com os moradores, e todos queriam ver a famosa foto. Os Alves ficaram conhecidos como “os matadores de cangaceiros”; alguns até pensaram em se alistar na volante. Porém, a tempestade maior viria. Corisco não deixaria isso passar impune, tampouco Lampião que foi traído por seu coiteiro. O corretivo chegaria, e seria feio. 

𝐹𝑂𝑁𝑇𝐸𝑆: 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐷𝑖𝑎́𝑟𝑖𝑜 𝑑𝑒 𝑃𝑒𝑟𝑛𝑎𝑚𝑏𝑢𝑐𝑜, 1935; 𝑟𝑒𝑣𝑖𝑠𝑡𝑎 𝐴 𝑁𝑜𝑖𝑡𝑒 𝐼𝑙𝑙𝑢𝑠𝑡𝑟𝑎𝑑𝑎/𝑅𝐽, 1935; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐴 𝑇𝑟𝑖𝑏𝑢𝑛𝑎/𝑆𝑃, 1935; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐶𝑜𝑟𝑟𝑒𝑖𝑜 𝑃𝑎𝑢𝑙𝑖𝑠𝑡𝑎𝑛𝑜, 1935; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝑅𝑒𝑔𝑖𝑎̃𝑜/𝐶𝐸, 1980; 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜, 𝐴 𝑅𝑎𝑝𝑜𝑠𝑎 𝑑𝑎𝑠 𝐶𝑎𝑎𝑡𝑖𝑛𝑔𝑎𝑠 — 𝐽𝑜𝑠𝑒́ 𝐵𝑒𝑧𝑒𝑟𝑟𝑎 𝐿𝑖𝑚𝑎 𝐼𝑟𝑚𝑎̃𝑜; 𝑆𝑟. 𝐺𝑢𝑒𝑟𝑟𝑎; 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 𝐸𝑡𝑒𝑟𝑛𝑜 — 𝑐𝑎𝑛𝑎𝑙 𝑑𝑜 𝑌𝑜𝑢𝑡𝑢𝑏𝑒; 𝑁𝑎𝑠 𝑃𝑒𝑔𝑎𝑑𝑎𝑠 𝑑𝑎 𝐻𝑖𝑠𝑡𝑜́𝑟𝑖𝑎 — 𝑐𝑎𝑛𝑎𝑙 𝑑𝑜 𝑌𝑜𝑢𝑡𝑢𝑏𝑒.

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

101 anos depois

Processo de 1922 revela tocaia de Lampião para matar delator de seu pai

Por Carlos Madeiro Portal UOL


Eram por volta das 19h do dia 14 de agosto de 1922, quando Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, dois irmãos e mais um grupo de cangaceiros foram até Água Branca, no sertão alagoano, fazer uma tocaia e cumprir uma missão que juraram a si mesmos.

Eles esperavam a passagem de um homem: Manoel Cipriano de Souza, que foi morto com três tiros, um dado por cada um dos irmãos Ferreira.

Revelação importante

    
Segundo Lampião, foi ele quem delatou o local onde estava seu pai, José Ferreira dos Santos, no dia 18 de maio de 1921. Nessa data, ele foi morto pelo tenente José Lucena de Albuquerque Maranhão, em Mata Grande, sertão de Alagoas.

A morte do pai de Lampião é um episódio marcante para o cangaço. A história conta que os irmãos Ferreira resolveram entrar na vida do crime para vingar os ataques que o pai sofria de um vizinho — que virou inimigo — chamado Zé Saturnino. A morte do pai foi o estopim para eles entrarem no cangaço.
Justiça acha processo

O processo judicial que denunciou Lampião e mais quatro cangaceiros pelo crime estava guardado no Fórum de Maceió. Ele traz detalhes que eram desconhecidos do crime.

O documento foi encontrado recentemente, junto com outros processos, pelo juiz e historiador Claudemiro Avelino. Todas são denúncias que acusam Lampião ou cangaceiros do seu bando por crimes de mortes, roubos e estupros.

No assassinato do suposto delator Cipriano foram denunciadas cinco pessoas

 - Lampião
- Livino Ferreira, irmão de Lampião
- Antônio Ferreira, conhecido como Esperança e também irmão de Lampião
- Antônio Rozendo, conhecido como Antônio Gelo
- Antônio Bagaço (abaixo)


Antônio Augusto (Feitosa ou Correia), Antonio Bagaço


Em depoimento à polícia, a testemunha Manoel Pedro de Alcântara narrou tudo que houve naquela noite. Diz que ele e Manoel Cipriano estavam cruzando a cancela do Mané, vindos da feira de Água Branca, quando homens armados com rifles o abordaram.

Lampião mandou eles descerem dos cavalos e perguntou o nome deles. Cipriano, o primeiro a responder, recebeu logo uma resposta do chefe: "É esse mesmo que estamos esperando."

Ao reconhecer seu alvo, ele mandou que a testemunha se afastasse e não saísse até ele dar uma "ordem expressa."

Cipriano foi então arrastado para um local ao lado do cavalo em que estava, quando Lampião perguntou sobre o dinheiro que ele levava. Ele tinha apenas 10 mil contos de reis, pouco para a época.

Tortura e morte

Outra testemunha do crime, Silvino Antônio dos Santos afirmou à polícia que Cipriano ainda perguntou o que Lampião queria, e disse que "ele daria para salvar a vida."

A frase dita por Cipriano, segundo testemunhas que depuseram, foi:

"Lampião, não me mate. Deixe eu criar minha família", clamou Manoel Cipriano.

Não adiantou. Lampião ainda "judiou" de Cipriano (não há detalhes de como) e o sentenciou em seguida.

"Agora você conhece Lampião. Foi você quem indicou onde meu pai estava para o matarem. Agora você é quem vai pagar.


Lampião então se afasta para trás e dá o primeiro tiro. Os dois irmãos de Lampião que o acompanhavam deram mais dois em seguida.

Foram três tiros; no segundo tiro ele caiu por terra.
Manoel Pedro de Alcântara, testemunha.

 

Processo está guardado no Fórum de Maceió.

Após os tiros, e vendo a vítima no chão, um do cangaceiros disse: "Basta, vamos embora." Foi quando outros integrantes do bando saíram do meio do mato, onde estavam na espreita para dar segurança aos irmãos Ferreira. Na fuga, um dos cangaceiros montou e levou o cavalo da vítima.

A morte não foi a única vingança dos irmãos. Após matarem, eles foram até a casa onde morava Cipriano. Ao chegarem, um filho da vítima perguntou aos cangaceiros o que eles queriam e o que tinham sido os tiros na cancela. Lampião então respondeu: "Vá lá examinar."

As testemunhas narram que eles em seguida empurraram o filho e entraram na casa, onde quebraram portas, baús, celas, móveis e roubaram "tudo que puderam". Logo depois, fugiram em cavalos.

Lampião e mais quatro denunciados

A promotoria pública de Alagoas, após os depoimentos, denunciou Lampião e outros quatro cangaceiros identificados pelas testemunhas no dia 9 de outubro de 1922. Cinco dias depois, o juiz da comarca de Água Branca acolheu e pronunciou (mandou a julgamento) os réus.

 

Parte dos autos em que a promotoria denuncia Lampião

Só que o processo nunca andou, e ninguém foi julgado.

Foram dadas várias ordens de intimação dos réus, mas sempre falavam que não os achavam, ou creio que não iam atrás para notificar. Naturalmente, todos tinham medo de Lampião
Claudemiro Avelino, historiador e juiz

Nenhum dos cangaceiros foi levado a julgamento em nenhuma das denúncias encontradas até aqui em Alagoas.

Em 1939, um ano após Lampião ser morto na grota do Angico, em Sergipe, um dos processos foi declarado extinto. "Nós demais processos não achamos isso essa extinção, mas talvez tenha havido uma ordem para que todos fossem arquivados, mas não encontramos", diz.

Esse e os outros processos achados fazem parte da pesquisa de Claudemiro, que vai render um livro sobre o cangaço. A obra está em fase final de seleção de imagens para publicação…

Todos também serão digitalizados aos poucos e colocados para acesso público.

Esses documentos são essenciais, porque sobre o cangaço há muita fantasia e folclore. O processo é um documento primário, original. Ele serve para espantar todas as dúvidas.


Juiz Claudemiro no acervo histórico do TJ de Alagoas.

Historiador, ele fez um curso de restauração de documentos antigos e passou a analisar cada um deles. O conhecimento sobre o tema o levou a ser chamado para ajudar na montagem do Museu do STF.

Também foi ele responsável pelo museu no TJ (Tribunal de Justiça) de Alagoas.Em Alagoas, diz, será montado um laboratório de restauração de documentos históricos.


Fonte: Portal UOL

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Confira a Programação!

Cariri Cangaço Piranhas - 2022

 


Sertão das Alagoas - Nordeste do Brasil

 

28 de Julho - Quinta-feira
 

NOITE DE ABERTURA

18:30h Centro Cultural Miguel Arcanjo

19:00h – Formação da Mesa Oficial de Abertura

Hino Nacional - Filarmônica Mestre Elísio

MESA

TIAGO FREITAS - Prefeito Municipal

CELSINHO RODRIGUES- Presidente da Comissão Organizadora

MANOEL SEVERO - Curador Cariri Cangaço

MELLINA TORRES FREITAS - Secretária Estadual da Cultura

INÁCIO DE LOIOLA - Deputado Estadual de Alagoas

ARCHIMEDES MARQUES - Presidente da ABLAC - Sergipe

EDUARDO CLEMENTE - Secretário de Cultura e Turismo de Piranhas

ANGELO OSMIRO – Presidente do GECC - Ceará

NARCISO DIAS - Presidente do GPEC – Paraíba

ÁLVARO MOREIRA - Presidente da APLA

19:30h-Entrada do Estandarte do Cariri Cangaço

QUIRINO SILVA e CÉLIA MARIA - João Pessoa PB


19:40h - Apresentação do Cariri Cangaço

EMMANUEL ARRUDA - João Pessoa PB

19:50h – Cumprimentos aos Convidados

CELSINHO RODRIGUES - Conselheiro Cariri Cangaço

MANOEL SEVERO - Curador do Cariri Cangaço

INÁCIO LOIOLA - Deputado Estadual

TIAGO FREITAS - Prefeito Municipal de Piranhas


 20:00h – Posse de Novos Conselheiros Cariri Cangaço

1. JACQUELINE RODRIGUES - Piranhas AL

Entrega de Diploma por JOÃO DE SOUSA LIMA - Paulo Afonso BA

2. PEDRO POPOFF - Bauru SP

Entrega de Diploma por KYDELMIR DANTAS - Nova Floresta PB

3. GILMAR TEIXEIRA - Feira de Santana BA

Entrega de Diploma por  CALIXTO JUNIOR Juazeiro do Norte CE


20:15h – Entrega de Diplomas "Mérito Cultural Cariri Cangaço"
 

1. Prefeitura Municipal de Piranhas - TIAGO FREITAS

Entrega de Diploma por MELLINA FREITAS - Maceió AL

2. Academia Piranhense de Letras e Artes - ÁLVARO MOREIRA

Entrega de Diploma por CRISTINA COUTO - Lavras da Mangabeira CE

3. MFTur - ANTONIO MANOEL DE CARVALHO NETO

Entrega por Conselheiro CELSINHO RODRIGUES -  Piranhas AL


20:30h – Homenagem à Memória de Celso Rodrigues Rego

PADRE LUCIANO JOSÉ RODRIGUES BRITO

20:45h - Comenda de "Personalidade Eterna do Sertão"

CELSO RODRIGUES REGO In Memoriam

SÔNIA RODRIGUES e FAMÍLIA recebem

 de IVANILDO SILVEIRA e JOÃO DE SOUSA LIMA


21:00h - Comenda de "Personagem Histórica do Sertão"

CYRA BRITTO BEZERRA In Memoriam

PAULO BRITTO e ANE RANZAN recebem de INÁCIO LOIOLA


21:15h - Lançamento do Projeto

"CAMINHOS DA RESISTÊNCIA - PELAS RUAS DE PIRANHAS"

CELSINHO RODRIGUES

MIGUEL ALENCAR

29 de Julho - Sexta-feira

MANHÃ

9h30 - Saída para Tour Histórico
Lançamento Projeto
"CAMINHOS DA RESISTÊNCIA - PELAS RUAS DE PIRANHAS"

Apresentação do Roteiro e Episódios
PRISÃO DE INACINHA , INVASÃO E MORTE DE GATO
PERSONAGENS CHIQUINHO RODRIGUES - CYRA BRITTO

TRAMA PARA O CERCO DE ANGICO
PERSONAGENS JOCA BERNARDO - PEDRO DE CÂNDIDO
SARGENTO ANICETO - JOÃO BEZERRA
FERREIRA DE MELO

PRÉDIOS HISTÓRICOS

Explanações sobre o Roteiro e Episódios
CELSINHO RODRIGUES - Piranhas AL
MIGUEL ALENCAR - Piranhas AL
INÁCIO LOIOLA - Piranhas AL
JACQUELINE RODRIGUES - Piranhas AL
PAULO BRITTO - Recife PE
JOÃO DE SOUSA LIMA - Paulo Afonso BA

11:30h - Centro Cultural Miguel Arcanjo
LANÇAMENTOS DE LIVROS

1. Lampião e a Aliança de Gonzaga
VALDIR NOGUEIRA - São José de Belmonte PE

2.Lampião, Herói ou Bandido - A Construção de um Mito
MARIA OTILIA CABRAL SOUSA - Capela SE

3. Lampião em Serrinha do Catimbau
JUNIOR ALMEIDA - Capoeiras PE

4.Guerra de Pau de Colher: Massacre à sombra da Ditadura Vargas
MARCOS DAMASCENO - Dom Inocêncio PI

5. Maria Bonita a Rainha do Cangaço
JOÃO DE SOUSA LIMA - Paulo Afonso BA

6. Corisco e Dadá - Uma Saga de Amor, Cachaça e Sangue
7. Zé Baiano e os Engrácias
JOSÉ BEZERRA LIMA IRMÃO - Salvador BA

8. Lampião e Seus Cangaceiros - 1920 a 1940 Caderno de Anotações
9. Lampião e a Revolução de 1930
10. Lampião em 1931 - O Imperador dos Sertões
11. Lampião em 1932 - O Terror dos Sertões
LUIZ RUBEN BONFIM Recife PE

12. Quem Matou Delmiro Gouveia
GILMAR TEIXEIRA Feira de Santana BA

13. Contadores de História - Lá vem a Maria Fumaça
REGINA CELI BORGES Jatobá PE

13:00h - Almoço

TARDE LIVRE

NOITE

18:30hs Centro Cultural Miguel Arcanjo

18:40h –Sessão Solene da ABLAC
Posse de Novos Acadêmicos
ARCHIMEDES e ELANE MARQUES - Aracaju SE

20:30h - Conferência e Lançamento
 "Memórias Sangradas"
RICARDO BELIEL - Rio de Janeiro RJ
LUCIANA NABUCO - Rio de Janeiro RJ

MESA:
JORGE REMÍGIO - Custódia PE
KIKO MONTEIRO - Lagarto SE
CARLOS ALBERTO SILVA - Natal RN
 

30 de Julho - Sábado

MANHÃ

7:30h - Saída para Grota do Angico - Poço Redondo SE
Porto de Piranhas

8:30h - MOMENTO SOLENE ECUMÊNICO
Onde serão Depositadas no Leito do Rio São Francisco, à bordo do Catamarã, as CINZAS do Pesquisador
ANTONIO AMAURY CORRÊA DE ARAÚJO

CARLOS ELYDIO ARAÚJO
MANOEL SEVERO

10:00h - GROTA do ANGICO
28 de Julho de 1938... A Morte de Lampião - Rei do Cangaço

Apresentação e Debate sobre o Cenário e Episódio
"Mentiras e Mistérios de Angico"

IVANILDO SILVEIRA - Natal RN
LEANDRO CARDOSO FERNANDES - Teresina PI
WESCLEY RODRIGUES - Cajazeiras PB
KYDELMIR DANTAS - Nova Floresta PB
MOACIR ASSUNÇÃO - São Paulo SP
JOSE BEZERRA LIMA IRMÃO - Salvador BA

12:30h - Almoço

TARDE LIVRE

NOITE

18:30hs Centro Cultural Miguel Arcanjo

19:00h – O Homem, a Vida e os Desafios de Antônio Amaury
CARLOS ELYDIO ARAÚJO - São Paulo SP

19:40h - Comenda "Personalidade Eterna do Sertão"
ANTONIO AMAURY CORRÊA DE ARAÚJO In Memoriam
Entrega por MANOEL SEVERO -  Fortaleza CE

20:00h - A Obra e o Legado de Antônio Amaury
LEANDRO CARDOSO FERNANDES - Teresina PI
ANGELO OSMIRO BARRETO - Fortaleza CE
LUIZ RUBEN BONFIM - Recife PE


Realização:
Instituto Cariri do Brasil
Conselho Alcino Alves Costa
Prefeitura Municipal de Piranhas
Secretaria de Cultura e Turismo de Piranhas

Apoio:
APLA - Academia Piranhense de Letras e Artes
SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço
ABLAC - Academia Brasileira de Letras e Artes do Cangaço
GECC - Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará
GPEC - Grupo Paraibano de Estudos do Cangaço
MFTUR


NOTA IMPORTANTE CARIRI CANGAÇO

Para um melhor esclarecimento sobre o Cariri Cangaço Piranhas 2022, ressaltamos que toda a agenda do evento é totalmente grátis, sem necessidade de inscrição prévia nem pagamento de nenhuma taxa. 

Os participantes serão responsáveis por suas próprias despesas; de hospedagem e alimentação. A Comissão Organizadora do Cariri Cangaço Piranhas 2022 coloca a título de sugestão a indicação de hotel; que estará concentrando a grande maioria de nossos convidados; sendo: Hotel Xique Xique - Bairro Xingó - Contato pelo ZAP (82) 98178.8756 ou Email: hotelxiquexiquepiranhas@gmail.com . Esclarecemos ainda que a cidade de Piranhas possui uma espetacular rede hoteleira, atendendo a todos os públicos, dessa forma basta a consulta via internet. 

Reiteramos que nosso compromisso é com você , sem dúvidas nosso maior patrimônio. Sejam todos muito bem vindos ao Cariri Cangaço Piranhas 2022, Território de Grandes Encontros.

Manoel Severo Barbosa - Curador do Cariri Cangaço

Celsinho Rodrigues - Presidente da Comissão Org. do Cariri Cangaço Piranhas

sexta-feira, 27 de março de 2020

A pisada em Alagoas

Cangaço lampiônico em Pão de Açúcar 

 Por Hélio Fialho

Particularmente, no município de Pão de Açúcar, os cangaceiros escondiam-se em fazendas da chamada Região de Cima, principalmente em coitos localizados em Novo Gosto, Emendadas, Bom Nome, Beleza e outras, cujos proprietários eram fiéis protetores  e, por esta razão, os coitos eram bastante frequentados pelos grupos de Lampião e Corisco.

Em razão da permanência desses cangaceiros no município de Pão de Açúcar muito fatos ocorreram, sendo alguns destes registrados em livros publicados e outros apenas narrados por pessoas idosas que presenciaram ou ouviram de pessoas da família, as quais já faleceram.

A nível de Pão de Açúcar, os livros “Histórias e Efemérides” e “Um lugar no Passado”, dos respectivos autores pão-de-açucarenses  Aldemar de Mendonça e Gervásio Francisco dos Santos, são obras que narram um pouco da história da passagem dos cangaceiros por Pão de Açúcar, sendo a invasão de Lampião ao Povoado Meirus a que mais se destaca, principalmente pelo teor de violência praticada pelos cangaceiros quando abateu 102 cabeças de gado, incendiou fazendas e também uma unidade de beneficiamento de algodão.


Aspecto de Pão de Açúcar em 1910
In História de Alagaoas



Segundo narra o livro Um Lugar no Passado,  o que provocou a ira de Lampião foi uma carta escrita pelos senhores Mário Soares Vieira, José Alves Feitosa (Juca) e Manoel Campos, em que em um de seus trechos tinha o teor seguinte:

“Se quisesse tirar raça de homem valente, mandasse a mãe dele aqui para Pão de Açúcar”.

Esta célebre carta foi escrita em resposta a duas cartas enviadas por Lampião aos senhores Luiz Gonzaga e Luiz Henrique, nas quais o Rei do Cangaço exigia a importância de quatro contos de réis.

Outro fato bastante relevante foi o nascimento de Silvio Bulhões, um dos filhos dos cangaceiros Corisco e Dadá, que nasceu em uma fazenda localizada no Sítio Novo Gosto e, em seguida, foi dado para criar ao Padre Bulhões, naquela época, pároco de Santana do Ipanema. Este filho do casal de cangaceiros é considerado hoje um dos maiores historiadores do cangaço no estado de Alagoas.

Fotografias tiradas naquela época, hoje mostram o incêndio praticado por Lampião à casa de beneficiar algodão, localizada no Povoado Meirus e pertencente ao senhor João Pereira de Mello, conhecido como “ Seu Pereirinha”, no dia 15 de janeiro de 1927.





Histórias narradas por alguns moradores dos povoados Meirus e Rua Nova, a exemplo da Mestra Dadá, confirmam a passagem por estas localidades do grupo de cangaceiros comandados por Corisco, inclusive com práticas de sequestro de um morador (fato ocorrido no Povoado Meirus), espancamento de uma mulher por ter cortado os cabelos (fato ocorrido na estrada que liga Rua Nova a Boqueirão) e a extorsão ao fazendeiro Lucilo de Carvalho Mello, cuja fazenda ficava localizada no Povoado Rua Nova.

Outros registros históricos em livros, jornais, etc. confirmam a passagem dos cangaceiros Lampião e Corisco pelas fazendas Emendadas, Novo Gosto, Bom Nome e Beleza, pois nestas propriedades eles contavam com a proteção de seus proprietários, os quais eram considerados fiéis coiteiros.

Pescado Portal Minuto Sertão

quinta-feira, 26 de março de 2020

1921

Os primórdios da Saga de Lampião 

Por Rostand Medeiros


AINDA VIVE O HOME M QUE EM 1921 SEPULTOU O PAI DE LAMPIÃO
Diário de Pernambuco , 29 de março de 1973, Terceiro Caderno, Página 3.
Pesquisa – Tadeu Rocha / Fotos José Valdério
Diário de Pernambuco, 29 de março de 1973, 
Terceiro Caderno, Página 3.
Num velho casarão alpendrado de uma fazenda sertaneja, em plena caatinga pernambucana do Município de Itaíba reside o ancião Maurício Vieira de Barros, que em maio de 1921 sepultou o pai de Lampião, morto por uma força volante da Policia alagoana. Nos seus bem vividos e muito sofridos 86 anos de idade, ele viu e também fez muita coisa, por esse Nordeste das caatingas e das secas, dos beatos e dos cangaceiros, dos soldados de verdade e dos coronéis da extinta Guarda Nacional.
O Sr. Maurício Vieira de Barros nasceu em 2 de abril de 1886, Na casa dos seus 30 anos, foi Subcomissário de Polícia no Estado de Alagoas e, na dos 40, chegou ao posto de Sargento na Polícia Militar de Pernambuco. Depois, respondeu a dois júris por excesso de autoridade e, desde 1955, está vivendo uma velhice descansada no Sítio dos Meios, em companhia de sua filha Dona Jocelina Cavalcanti de Barros Freire.

Se não fossem as ouças, que já estão fracas, o velho Maurício não aparentaria os seus quase 87 anos, pois ainda caminha com passo firme e guarda boa lembrança dos fatos de sua mocidade e maturidade. 

Ele é, agora, a derradeira testemunha viva do início de uma tragédia sertaneja: a transformação do cangaceiro manso Virgulino Ferreira em bandido profissional que convulsionaria os sertões nordestinos durante 17 anos.
Casa do Sítio do Meio em 1973.
UM ATOR NO PROSCÊNIO

A primeira indicação do Sr. Maurício Vieira de Barros como a autoridade policial que sepultou o pai de Lampião nos foi dada, há mais de 20 anos, pelo Major Optato Gueiros, no segundo capítulo do seu livro sobre Virgulino Ferreira. 

O autor das “Memórias de um oficial ex-comandante de forças volantes” ouviu o relato da morte de José Ferreira da boca do próprio Virgulino, nos começos da década de 1920, quando Lampião ainda era um simples cabra de Sinhô Pereira. 

Optato Gueiros também informa que, anos mais tarde, Lampião poupou a vida de Maurício, no povoado de Mariana, em gratidão pelo sepultamento de seu pai.
Maurício Vieira de Barros sendo entrevistado pelo professor e escritor Tadeu Rocha e acompanhado de Bruno Rocha.
Nos meados de dezembro do ano passado, após concluirmos que não foi feito, absolutamente, o registro dos óbitos de Sinhô Fragoso e do pai de Lampião (mortos na primeira “diligência” da volante do Tenente Lucena), julgamos necessário ouvir o Sr. Maurício Vieira de Barros, que nos constou ainda estar vivo e residir para os lados das cidades de Águas Belas ou Buíque. Somente o antigo policial que sepultou os dois cadáveres poderia revelar-nos a data precisa da morte de José Ferreira.

NO RASTO DA TESTEMUNHA

Após consultarmos inúmeras pessoas sobre o paradeiro do ancião Maurício de Barros, afinal soubemos do Sr. Audálio Tenório de Albuquerque que esse seu compadre estava morando na fazenda Sítio dos Meios, no Município de Itaíba. Rumando para Águas Belas, entramos em contato com os nossos parentes do clã dos Cardosos, entre os quais fomos encontrar o jovem veterinário Ricardo Gueiros Cavalcanti, neto do velho Maurício, por parte de pai.
Notícia do ataque dos cangaceiro ao lugar Pariconha em 1921, 
hoje município alagoano distante 354 km de Maceió.
Na tarde quente do dia 17 de janeiro, em companhia do veterinário Ricardo Gueiros Cavalcanti, do fotógrafo José Valdério e do jovem estudante Bruno Rocha, deixamos a cidade de Águas Belas pela rodovia PE—300, na direção de Itaíba. Após cruzarmos o rio Ipanema e o riacho Craíbas. Pegamos uma estrada vicinal, por onde atingimos, dificilmente, o Sítio dos Meios, a uns 2.5 km de Águas Belas, a outros tantos de Itaíba e a 9 da cidade alagoana de Ouro Branco.

Fomos encontrar o velho Maurício no alpendre do casarão da fazenda de sua filha, jovialmente vestido de blusão de mangas compridas c calçado com sandálias havaianas. A presença do seu neto Ricardo e a delicadeza de sua filha Dona Jocelina permitiram-nos conversar longamente com o Sr. Maurício Vieira de Barros. O fotógrafo Jose Valdério documentou a nossa visita e o estudante Bruno Rocha gravou a nossa conversa.
Lampião nos primeiros anos.
SUBCOMISSÁRIO SEPULTA DOIS MORTOS

O Sr. Maurício Vieira de Barros  já exercia o cargo de Subcomissário de Polícia da cidade de Mata Grande, em maio de 1921, quando o Bacharel Augusto Galvão, Secretário do Interior e Justiça de Alagoas na segunda administração do Governador Fernandes Lima, enviou ao sertão uma força volante da Polícia, sob o comando do 2º Tenente José Lucena de Albuquerque Maranhão, a fim de dar combate ao banditismo. Antes que essa força chegasse ao sertão, os cangaceiros saquearam o povoado de Pariconha, na tarde de 9 de maio. Logo que a volante do Tenente Lucena atingiu seu destino, cuidou de prender os participantes desse saque, entre os quais estavam os irmãos Fragoso e os irmãos Ferreira, residentes no lugar Engenho Velho. A volante cercou a casa dos Fragoso e do tiroteio resultou a morte de José Ferreira e Sinhô Fragoso, ficando baleado Zeca Fragoso e saindo ileso Luís Fragoso.

Avisado em Mata Grande das mortes ocorridas no Engenho Velho, o Subcomissário Maurício de Barros dirigiu-se a esse lugar e fez transportar, em redes, os dois cadáveres para a povoação de Santa Cruz do Deserto, em cujo o cemitério os sepultou. O fato de José Ferreira e Sinhô Fragoso terem sidos deixados mortos por uma “diligência” da Polícia Militar de Alagoas levou o Subcomissário de Mata Grande a enterrá-los no cemitério mais próximo.
DATA DA MORTE DO PAI DE LAMPIÃO

Na breve história de 17 anos, qual foi a do cangaceiro Virgulino Ferreira (que se fez bandido profissional em 1921 e foi eliminado em 1938), existem erros de datas de mais de um ano, como no caso da morte de seu pai pela volante do Tenente Lucena. Tem-se escrito que esse fato aconteceu em abril de 1920, o que não corresponde, em absoluto, à verdade histórica.

Ao que apuramos no Arquivo Público e Instituto Histórico de Alagoas, 2º Tenente José Lucena de Albuquerque Maranhão foi nomeado Comissário de Polícia da cidade alagoana de Viçosa em 10 de abril de 1920, assumiu o exercício do cargo logo no dia 15 e permaneceu nessa comissão até princípios de maio do ano seguinte. Ele ainda assinou ofício na qualidade de Comissário de Viçosa em 28 de abril de 1921. No dia 4 de maio esteve no Palácio do Governo, em Maceió. E no dia 10 desse mês, deixava Palmeira dos índios “com destino ao sertão”, estando “acompanhado de um contingente de 24 praças”, conforme registrou o seminário palmeirense O Índio, de 15 de maio, em seu número 16, página 3.
Nota sobre a volante do Tenente Lucena no seminário palmeirense O Índio, de 15 de maio, em seu número 16, página 3.
Viajando a pé, a volante do Tenente Lucena só alcançou o sertão ocidental de Alagoas uma semana mais tarde. Por isso mesmo, sua “diligência” no Engenho Velho somente pode ter ocorrido nos começos da segunda quinzena de maio de 1921. O Sr. Mauricio de Barros não se recorda mais da data do sepultamento dos mortos pela “diligência” no Engenho Velho. Lembra-se, porém, que foi numa quinta-feira. Ora, a primeira quinta-feira da segunda quinzena de maio de 1921 caiu no dia 19, o que permitiu ao Correio da Tarde, de Maceió, publicar no fim desse mês uma carta de Mata Grande, sobre os acontecimentos do Engenho Velho. A esse tempo, os estafetas do Correi levavam, a cavalo, três dias entre as cidades de Mata Grande e Quebrangulo, de onde as malas postais seguiam de trem para Maceió.  
Detalhe da carta enviada de Mata Grande e publicada no final do mês de maio de 1921 pelo jornal Correio da Tarde, de Maceió, sobre os acontecimentos do Engenho Velho.   
EPISÓDIO MUITO CONTROVERTIDO

Sempre foram muito controvertidas as circunstâncias da morte do pai de Lampião. Na primeira entrevista que concedeu a um jornal (o recifense Diário da Noite, de 3 de agosto de 1953), o Sr. João Ferreira, irmão de Virgulino, declarou o seguinte sobre a morte de seu pai: “Findo o tiroteio, seguido pelo abandono do local pela tropa, eu o fui encontrar sem vida, caído sobre um cesto, tendo às mãos uma espiga de milho, que estava debulhando, ao morrer”.

Por seu turno, parentes e amigos do Cel. José Lucena de Albuquerque Maranhão costumam dizer que o velho José Ferreira resistiu à Polícia, atirando de dentro da casa dos Fragoso. Parece-nos que há engano em ambas as versões, pois o Sr. Maurício Vieira de Barros nos disse que encontrou o cadáver do pai de Lampião no terreiro da casa dos Fragosos.
O Tenente José Lucena de Albuquerque Maranhão, 
comandante da desastrada volante que matou o pai de Lampião.
Este depoimento se harmoniza com o informe que nos deu o Sargento reformado Euclides Calu, residente em Mata Grande, e a história que contava o velho Manoel Paulo dos Santos, Inspetor de Quarteirão no Engenho Velho, ao tempo da morte do pai de Lampião. História que nos foi transmitida por seu filho Gabriel Paulo dos Santos e pelo magistrado alagoano Dr. Dumouriez Monteiro Amaral.
O informe do velho Calu e a história contada pelo velho Manoel Paulo referem que José Ferreira foi morto durante o tiroteio do Engenho Velho, quando ia tirar leite em um curral. De fato, o cerco da casa da casa dos Fragosos foi feito ao amanhecer do dia 19 de maio de 1921. E o tiroteio que se seguiu e vitimou José Ferreira ocorreu “antes do café da manhã de um dia muito chuvoso”, como declarou, textualmente, João Ferreira, na citada entrevista a um jornal recifense. E não há dúvida que o Inspetor de Quarteirão Manoel Paulo dos Santos foi a testemunha mais isenta de paixões no episódio da morte do pai de Lampião.

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