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sexta-feira, 19 de julho de 2024

"Ele estava em Angico"

Soldado Otávio Alves da Mota
 

Por Helton Araújo (Canal Cangaço Eterno)
 

Hoje falarei sobre mais um personagem que ficou  oculto em meio a história desse fenômeno social que até hoje mexe com nosso imaginário.
 

Otávio Alves da Mota, nasceu em Itabi-SE, no dia 14 de setembro de 1914 e antes de se aventurar na luta contra os cangaceiros era um simples lavrador, que vivia do suor de seu digno trabalho. Assim como outros tantos, as circunstâncias que os sertanejos da época eram submetidos o fez ter de escolher um lado na guerra entre cangaceiros e volantes.
 


Os motivos que levaram este homem a decidir encarar um desafio tão árduo não foram poucos. Lampião e seu bando atearam fogo no armazém da família da sua então noiva, além do mais, o bando de Mariano extorquiu o pai de Otávio, o mesmo foi molestado e humilhado pelo bando do feroz cangaceiro, além de seus familiares terem animais mortos pelo bando desse mesmo cangaceiro.
 

No ano de 1932, Otávio entrou para volante como soldado contratado, além de também ter trabalhado como rastejador. Atuou de início com o Cabo Nicolau (que seria assassinado anos depois), em seguida com o tenente Zé Rufino e por último com o tenente João Bezerra.
 


Em suas lutas e sofrimentos em perseguição aos cangaceiros, o destino cuidou de colocar em seu caminho um antigo desafeto, o afamado cangaceiro Mariano. Como bem sabemos na região do Cangaleixo em 10 de outubro de 1936, Mariano, Pai Velho e Pavão foram mortos e decapitados pela volante de Zé Rufino, onde em tal ocasião trabalhava o soldado Otávio.
 

Além desse fato, Otávio esteve presente nas mortes dos cangaceiros Serra Branca, Eleonara e Ameaço. Onde integrava a volante de João Bezerra, ele também aparece na foto das entregas dos cangaceiros, onde se fazem presentes junto com os volantes, Pancada, Maria Jovina, Cobra Verde, Vinte e Cinco, entre outros cangaceiros.
 


Já o ápice de sua luta contra o cangaceirismo, foi na famosa ação na grota do Angico em 28 de julho de 1938, onde foram mortos Lampião, Maria Bonita e mais 9 cangaceiros, sendo uma testemunha ocular de um dos fatos mais famosos da história do cangaço. Neste mesmo ano de 1938, o soldado Otávio encerrou suas atividades como volante.
 

Um fato curioso sobre o soldado Otávio é que ele era muito amigo de Antônio de Jacó, o "Mané Véio" e também de Pedro de Cândido, famoso coiteiro de Lampião.


Com o dinheiro que recebeu por seus atos naquele fatídico dia, rumou com sua esposa Eutália Gomes da Mota para o interior de São Paulo onde comprou uma chácara e passou a trabalhar com suínos. Depois disso se mudou para Xambrê no estado do Paraná, onde trabalhava como administrador de uma grande fazenda.
 

Já idoso e acometido por alguns problemas de saúde, um de seus filhos o levou para morar consigo na capital de São Paulo, onde o mesmo veio a falecer meses depois, aos 96 anos por falência múltipla de órgãos, no ano de 2010.
 

O soldado Otávio foi mais um entre tantos que viveu e presenciou as terríveis situações que o cangaço oferecia naquela época. Deixou boas informações para seus familiares, que em breve vos apresentarei em postagens e em uma  live com seu neto Osmar. 







 Agradeço pelas fotos e informações ao amigo Osmar Pedroso , neto do soldado Otávio Alves da Mota.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

José Onias de Carvalho

As impressões de um repórter que esteve no Angico após o massacre

Por Valdir José Nogueira de Moura

Como repórter, o belmontense José Onias de Carvalho, também fez a cobertura do Combate de Angico, em que morreram Lampião e mais dez cangaceiros. Sobre o ocorrido, ele narrou os fatos nas páginas 10, 11 e 12 do livro de sua autoria “Memórias de um Matuto Sertanejo”.
 

José Onias era primo legítimo de Antônio Alves de Carvalho Barros, o famoso Antônio da Umburana, membro dos "futuqués", assassinado em outubro de 1918 na Vila de São João de Campos, hoje Mirandiba, que naquela época era distrito de Belmonte.

 

José Onias no Porto da cidade de Piranhas, AL, quando embarcava para a Grota de Angico, para fazer a cobertura da morte de Lampião.

José Onias de Carvalho nasceu em Belmonte/PE no dia 16 de março de 1901, filho de Antônio Onias de Carvalho e Maria da Luz Onias de Carvalho. Foi prefeito de Propriá no Sergipe, deputado estadual por aquele estado e também por Alagoas, e 6 vezes deputado federal. 

 

Confira neste trecho do livro Memórias de um matuto sertanejo, a descrição da expedição.






segunda-feira, 20 de julho de 2020

Correio Brasiliense (DF) – 12, 13 e 14 de maio de 1966

Uma histórica entrevista com Ferreira de Melo

Transcrição de Antonio Correia Sobrinho

54 anos, neste maio de 2020, da publicação, pelo jornal de Brasília, o Correio Brasiliense, da histórica entrevista do Coronel Francisco Ferreira de Melo, concedida ao jornalista Antônio Sapucaia. Francisco Ferreira de Melo que, como sabemos, foi um dos comandantes das forças militares alagoanas que cercaram e mataram Lampião, em 1938, e se não escreveu livro para dizer deste impressionante e inesquecível acontecimento, como o fez o seu comandante, o Coronel João Bezerra, neste seu depoimento aos Jornais Associados, Francisco Ferreira de Melo apresenta suas impressões e diz sobre a sua participação em Angicos.

Registro que o amigo José Vanderli Silva é o maior responsável por esta postagem, a quem aqui agradeço, visto que foi ele que me consultou sobre esta entrevista, que me levou a buscá-la nos periódicos. E como sempre faço com o que leio e acho interessante, sobre cangaço, trago para os grupos, devidamente digitalizado, para conhecimento e deleite da gente.
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LAMPIÃO EM VERSÃO DEFINITIVA
PUNHAL CRAVADO NO PEITO LEVOU COITEIRO A DENUNCIAR LAMPIÃO


Texto de Antônio Sapucaia

Novas controvérsias sobre a figura lendária e quixotesca de Virgulino Ferreira da Silva – Lampião – levaram dois repórteres associados a percorrer o interior de Alagoas na busca do homem que comandou o ataque decisivo na destruição do bando que durante mais de 20 anos levou a intranquilidade e o pânico a toda região nordestina. Antonio Sapucaia e José Ronaldo localizaram o tenente-coronel da Polícia Militar de Alagoas Francisco Ferreira de Melo, numa fazenda do município litorâneo de Coruripe.


 Assim era o aspirante Ferreira na época do massacre

Pela primeira vez, desde o fatídico 28 de julho de 1938, o coronel Ferreira fala com franqueza e conta tudo sobre o morticínio do bando terrível que matou e saqueou sem piedade em sete Estados da Federação.

Esta, e a história inédita que o coronel Ferreira reteve por 18 anos.
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Durante mais de dois decênios, os sertões nordestinos viveram sobressaltados pelas truculências de Virgulino Ferreira da Silva, o famigerado Lampião, ao lado de outros cangaceiros que lhe obedeciam severamente às ordens recebidas.

Decorridos quase 30 anos do desaparecimento do mais perverso bandido que o Brasil conheceu, vemo-lo transformado em motivo inspirador da nossa música popular, romances, filmes, painéis, enquanto seus familiares vêm travando uma longa batalha: levar ao cemitério a cabeça dele e de Maria Bonita, que se acham insepultas no Museu Estácio de Lima, na Bahia. Ao lado de tudo isto, vem de surgir um fato curioso, envolvendo a “ressurreição” do “Rei do Cangaço” um velhinho paraibano radicado em Fortaleza, que conviveu, conheceu muito bem e até combateu Lampião nas caatingas”, divulgou recentemente que o desalmado cangaceiro não havia morrido e que a existência de Maria Bonita não passava de um mito, porquanto a mesma nunca existira a não ser na imaginação de trovadores e romancistas de feira. Disse ainda que Lampião “está mais vivo do que nunca, negociando gado em Campina Grande e vivendo como um nababo”. Chega a desafiar a qualquer “doutor” a provar o contrário.

Tais afirmações, bem como alguns pontos obscuros e controversos, que existem em torno do “Capitão” Lampião, levaram-nos a uma figura das mais autorizadas sobre o assunto, de vez que assistiu de perto o seu extermínio, lutando e comandando. Trata-se do tenente-coronel reformado, Francisco Ferreira de Melo, aspirante de então que comandara uma das volantes e que, em atenção ao tenente João Bezerra, seu compadre e amigo, e já na pista de Lampião, chegara a orientar o movimento das tropas que cercariam o cangaceiro e seus asseclas. Além disto, foi a sua tripa que primeiro se defrontou com os bandidos, abrindo fogo e os destruindo, na maioria.

A PALAVRA DO CORONEL

Fomos localizá-lo no Poxim, povoado pertencente ao município de Coruripe, estado de Alagoas, onde vive inteiramente voltado para o coqueiral que se estende ao longo dos fundos da sua residência, uma espécie de casa-grande. Durante aproximadamente 13 anos, em pleno vigor da sua mocidade, perseguiu Lampião, tornando-se um dos militares de grande confiança, o que é confirmado pelo fato de ter sido escolhido para comandar uma das volantes, as quais eram subordinas ao comando geral sob a responsabilidade do então coronel Lucena, um homem de fibra, bastante enérgico e vocacionado para a missão.

Homem de 61 anos, em cuja voz e traços fisionômicos percebem-se as pinceladas da velhice, o coronel Ferreira não se faz de rogado. Começa dizendo que retroceder a esse período da nossa história é nos deparar com uma série de atrocidades, lutas, fome, miséria, toda espécie de sofrimento. Fala com entusiasmo, gesticula e procura ser o mais fiel possível.

- “Para muita gente, que se mantinha distante dos acontecimentos, Lampião agia exclusivamente ao lado dos seus cabras, constituindo, todos, apenas um grupo. É puro engano dos que assim pensam. Do mesmo modo que a Polícia tinha as suas volantes, agindo em pontos diferentes, Lampião comandava também vários grupos, que se dispersavam pelas caatingas nordestinas, cometendo as piores misérias. Eu mesmo – prossegue o Coronel – cheguei a travar alguns combates com vários desses malfeitores, sem nunca ter me defrontado com o grupo em que se encontrava o perverso bandido. Com ele, travei apenas um combate – o primeiro e único – que foi o de Angicos, e que culminou com a sua morte.

O certo é que todos eram de uma perversidade extrema e, por onde quer que passassem, deixavam o rastro da sua periculosidade. Só mesmo com disposição, sangue frio e muito espírito de luta é que se poderia enfrentar e dar fim aqueles infelizes malfeitores.


 
 Aspirante Ferreira observa carro queimado por Corisco em 1938

HOMENS SELECIONADOS

- “Os nossos homens eram todos selecionados, escolhidos a dedo, e aquele que demonstrava sinal de fraqueza, não poderia figurar ao nosso lado. Muitos deles, bravos e destemidos, ainda estão por aí, relembrando os dias negros que vivemos, para vermos terminado um verdadeiro período de calamidade, que colocava em pânico todo o Nordeste. Afastados dos nossos lares – continua o Coronel – passamos muitas noites de olhos abertos, em meio à caatinga brava, e era comum passarmos muitos dias de estômago vazio. Se por vezes tínhamos as criações, bodes, carneiros, etc., às vezes nada tínhamos, a não ser a fome que nos deixava assustados.

Incrível que pareça, eu mesmo, certa vez, cheguei a comer pedrinhas, cuidadosamente catadas, tamanha era a fome que de mim se apoderava.

Em 1938, o aspirante Ferreira de Melo tinha o comando da sua tropa sediada em Pedra de Delmiro, a do tenente Bezerra em Piranhas e a do cabo Aniceto, em Mata Grande, enquanto o comando-geral situava-se em Santana do Ipanema.

No dia 27 de julho de 1938, uma quarta-feira, as tropas do aspirante Ferreira e do tenente Bezerra encontravam-se em Pedra de Delmiro, juntas, ocasião em que os seus comandantes traçavam planos para uma batida que julgavam de importância vital para o extermínio ou captura do adversário. Enquanto o tenente Bezerra deixara Piranhas para encontrar-se com o aspirantes Ferreira, na Vila de Pedra, o cabo Aniceto, deixava Mata Grande, sob a alegação de que teria faltado mantimentos que garantissem a permanência do seu pessoal ali, e demandara Piranhas, onde morava sua noiva, por sinal, filha do prefeito daquele Município.

Foi justamente nessa ocasião que, inesperadamente, segundo narra o coronel Ferreira, chegara a Piranhas um caboclo, meio assustado e tímido à procura do tenente Bezerra, manifestando o desejo de com ele se avistar. Interrogado sobre o que desejava, relutou em responder, posto que o sertanejo comumente é desconfiado. Depois de muita insistência, resolveu confessar então que, horas atrás, vira um grupo de cangaceiros em Entremontes, distante dali umas duas léguas.

Detalhadamente, dissera que, no momento em que tangia alguns bodes, observou que alguns bandidos se encontravam em um roçado, quebrando milho e roubando melancias. Reconheceu que pertenciam ao grupo de Lampião. Diante do que vira, estava desejando falar com o tenente Bezerra, a fim de que o oficial rumasse para aquele povoado. Inteirado do fato, sem perder tempo o cabo Aniceto não teve outro caminho, senão telegrafar ao Tenente Bezerra: “Venha urgente boi curral”.

Tão logo a mensagem chegou ao poder do seu destinatário, este acusara o recebimento do telegrama, ao mesmo tempo em que solicitava do seu subordinado que providenciasse uma condução, e os viesse apanhar, pois em Pedra não havia nenhuma condução motorizada naquele momento. Apesar disto, as duas tropas, de Bezerra e Ferreira, partiram com destino a Piranhas, a pé, porque não se poderia perder tempo. Afinal de contas, a condução poderia vir ou não!

Depois de enfrentarem, durante algumas horas, as terras comburidas e o solo causticante, encontraram um caminhão, procedente de Mata Grande, conduzindo alguns feirantes e suas mercadorias. O Tenente Bezerra determinou, assim, que fosse descarregado o caminhão, fizesse a volta e os conduzisse até Piranhas, o que foi feito incontinente, enquanto os passageiros ficaram aguardando o retorno da condução.

NO ENCALÇO DE LAMPIÃO

Em Piranhas, trataram de providenciar uma canoa, a fim de que, através do rio São Francisco, eles pudessem alcançar a localidade onde se encontravam os bandidos. Depois de grande esforço, resolveram ajoujar três canoas – diz o coronel –, única solução viável naquele momento, uma vez que, eram aproximadamente 45 homens e se tornava necessária a presença de todos. O percurso dessa arriscada viagem foi feito à noite, sob forte aguaceiro, tendo os policiais chegado em Entremontes, cerca das 22 horas.

- “Quando alcançamos aquele povoado, ficamos à margem do rio, tendo o tenente Bezerra, comandante das tropas, determinado que o cabo Bida fosse à casa de Pedro de Cândida, bem próximo dali, e o trouxesse preso. Pedro de Cândida – esclarece o coronel – era um dos inúmeros coiteiros de Lampião, vivendo exclusivamente às expensas deste e sempre afirmava que botaria a policial em cima de todos os grupos, menos no de Virgulino Ferreira. Retornando sem haver cumprido a missão, o cabo Bida informou que Pedro de Cândida havia dito que por obséquio, o tenente fosse falar com ele em sua própria casa.

O pior de tudo, é que não trouxe o homem. Ficamos tomados de grande revolta e o único pensamento que me veio à cabeça era de que o Pedro havia fugido e ninguém mais o encontraria. Mas, graças a Deus e à sua ousadia, que era demais, o homem não se arredara de casa e dois soldados foram buscá-lo, dessa vez com fortes recomendações. E o trouxeram, sem muito esforço. Diante do tenente Bezerra – continua o coronel – a despeito dos apertos que levou, o coiteiro-mor nada confessou, afirmando sempre não saber onde esse encontrava Lampião.

Persistindo no intento de arrancar a confissão verdadeira, fosse de que maneira fosse, uma vez que ninguém tinha mais dúvida de que ele poderia tudo esclarecer, o comandante das nossas tropas resolveu encaminhá-lo para mim, no sentido de que eu desse um “jeitinho” para desvendar o mistério em torno do paradeiro dos bandidos.

PEDRO DE CÂNDIDO CONFESSA

- “Chamei-o para um lugarzinho afastado, já tomado de forte cólera, e conclui que a única solução do assunto dependia de uma medida rigorosa que, de fato, pudesse assustar ao maldito coiteiro. Saquei de um punhal que conduzia e encostei ao peito esquerdo dele, e disse com voz firme: “você tem dois caminhos a seguir: ou confessa ou morre. Por duas vezes, encostei-lhe o punhal, furando-o sem grande profundidade. Na terceira vez, quando ele percebeu que eu estava realmente disposto a mandá-lo para o outro mundo, resolveu falar, insistindo para que eu não o matasse.

- “Eu vou contar tudo – disse Pedro de Cândido ao aspirante – mas vai morrer muita gente...”

- Cientifiquei o ocorrido ao compadre Bezerra e mandei que ele próprio ouvisse a confissão. Sem muita demora, foi logo dizendo que os cangaceiros de fato estiveram em Entremontes, porém já haviam atravessado o rio, estando em Sergipe, e que um seu irmão, que residia a margem do rio, no outro lado, sabia esclarecer detalhadamente sobre o paradeiro dos bandidos, principalmente porque, no dia anterior, havia levado um bode assado para o “capitão” Lampião e sua gente. Não é necessário dizer que custamos a acreditar naquela conversa. Mesmo assim, atravessamos o São Francisco, conduzindo entre nós Pedro da Cândida, ocasião em que nos dissera que, se porventura não fosse verdadeiro o que ele acaba de confessar, pudéssemos matá-lo. A partir daquele momento, criamos alma nova e ficamos na certeza de que estávamos nos calcanhares de Lampião. A chuva não cessava e era cada vez maior a nossa esperança de vermos terminada aquela jornada, que havia começado há vários anos, sem ninguém saber quando terminaria!

CORONEL CONFESSA: DEGOLA DOS BANDIDOS FOI LIDERADA POR MIM

Após a confissão de Pedro de Cândida, os “macacos” perceberam que estavam no começo do fim. Ouçamos o coronel Ferreira:

- “ Quando atravessamos o São Francisco, encostamos as canoas em um lajedo e rumamos para a casa do irmão de Pedro de Cândida, cujo nome não consegui gravar. Deixamos o coiteiro em poder de alguns soldados, e procuramos falar com seu irmão, sem dizermos que Pedro se encontrava conosco. Insistimos bastante e ele nada queria nos confessar, sempre negando, até que a nossa paciência se esgotou. Daí, procuramos fazer a acareação dele com o irmão, tendo este, tão logo se avistaram, pedido que confessasse tudo, pois já havia descoberto o que sabia e estava tudo perdido. Seria inútil qualquer tentativa em sentido contrário. Nada mais restava fazer. E o rapazote despejou tudo com facilidade, inclusive confirmou que no dia anterior havia levado um bode assado para Lampião. E acrescentou que ele havia dito que, se não partissem naquela tarde, partiriam no dia seguinte, cedinho.
O Coronel Ferreira respira fundo, esfrega as mãos e diz que a partir daquele instante estava iniciada uma verdadeira via crucis. Estávamos cansados, molhados como patos n’água, mas tínhamos uma missão a cumprir – confessou-nos calmamente.

- “As tropas foram divididas. Cada grupo seguiu o seu rumo e coube à minha volante conduzir Pedro de Cândida, que nos mostraria o local onde se achava o assassino. Andamos de quatro pés, de joelhos, rastejamos, e quanto mais nos aproximávamos, em meio à escuridão, falávamos aos cochichos, evitando, assim, que algum barulho viesse a denunciar a nossa presença. Vivemos momentos de intensa apreensão. Ficou convencionado que o tenente Bezerra, tão logo se aproximasse do esconderijo, daria o primeiro tiro, no que seria seguido por todos nós. O correu, no entanto, que a minha tropa tanto se aproximou dos miseráveis, ao ponto de vermos, a poucos metros da nossa frente, um cangaceiro de cócoras, apanhando água, com uma cabaça, ou cantil. Mais tarde, viemos a saber que se tratava de Zé Sereno.

Ouvimos o chocalho dos animais, fortes gargalhadas, e naquele momento, entre o clarear do dia e a penumbra da noite, o soldado Abdon, viu-se tão perto de um cangaceiro, conhecido por “Quinta Feira” que, sem a menor demora, deu-lhe um tiro. Estava iniciado o tiroteio. Um minuto de indecisão, e naturalmente teríamos levado chumbo. Iniciada a batalha, confesso que nunca vi quadro tão horroroso, principalmente pelos gritos horripilantes que os cangaceiros davam. Eram gritos horríveis, que assustariam a qualquer cristão, mesmo preparado para o difícil momento. O tiroteio durou uns 20 minutos, aproximadamente, em meio a uma fumaceira terrível, onde se misturavam a neblina da manhã com a fumaça vomitada pelas armas, enquanto espirrava cangaceiro por todos os lados. Quando já havíamos derrubado seus bandidos, já a tropa do tenente Bezerra se aproximava, dando prosseguimento ao tiroteio, derrubando os que iam aparecendo.


 Volante do Tenente Ferreira de Mello Chico Ferreira, 
quando retornavam de Angico, dias após a chacina



LAMPIÃO E MARIA BONITA BALEADOS

- “Cessado o fogo, fomos dar balanço das vítimas. Dos nossos companheiros, o soldado Adrião fora baleado mortalmente. Lampião recebera apenas uma bala, atingindo-o no lado esquerdo da região umbilical. Ainda agonizava, quando um dos nossos soldados aproximou-se dele, e, apontando o fuzil em direção da sua cabeça, ia puxando o gatilho, no que foi obstado por um outro soldado, Sebastião Vieira Sandes, conhecido por Santos, meu compadre e um dos mais corajosos milicianos que conheci. Mesmo assim, a bala que se destinaria diretamente à sua testa, ainda o atingiu, embora de raspão.

Ao seu lado, Maria Bonita, com o fato todo de fora, pronunciava palavras incompreensíveis, arrancadas com esforço de moribundo. Luís Pedro, lugar-tenente de Lampião, ainda correu, tendo sido baleado a umas 10 ou 15 braças do local, acompanhado de um seu afilhado, o bandido “Vilanova”. Atingido por balas mortais, insistia com Vilanova para que este o acabasse de matar e que, como lembrança, ficasse com o seu mosquetão. Não resistiu, e o afilhado ficou com o mosquetão e o chapéu de como lembrança. No local – conclui o Coronel Ferreira – além de dois animais que eles conduziam, encontramos duas máquinas de costuras, manuais, comida de várias espécies, principalmente carne de conserva, jornais, medalhas, anéis de todo tipo, além de um verdadeiro arsenal.

DEGOLA: INICIATIVA DO CORONEL

Como se sabe, as vítimas da chacina de Angicos, excluindo o soldado Adrião, perfizeram um total de onze: Lampião, Luís Pedro, Quinta Feira, Mergulhão, Elétrico, Caixa de Fósforo, Cajarana, Diferente, Maria Bonita e Enedina, além de outro cujo nome não conseguimos reter. Cessada a batalha, jaziam alguns cangaceiros, enquanto outros ainda agonizavam.

 O cangaceiro "Diferente"

Tomado de ingente revolta, o aspirante Ferreira chegou a sangrar um dos bandidos, que, num gesto de represália involuntária, jogou-lhe algumas golfadas de sangue, em meio aos horríveis gritos que antecedem aos instantes finais da vida.

- “Qualquer homem de bem, por mais pacato que seja – justifica o coronel – faria o que eu fiz. Bastaria que conhecesse de perto, colocando diante dos olhos os quadros de misérias que as terras sertanejas estavam cansadas de nos expor tendo com responsáveis aqueles perversos e miseráveis bandidos. Certa vez, não pude me controlar e cheguei a chorar, quando cheguei a uma casa e vi toda família, inclusive alguns menores, todos amarrados e queimados, vítimas de Lampião e seus comandados. Em plena caatinga, era hábito encontrarmos esqueletos dependurados em árvores, iniciativa do terrível Virgulino Ferreira. Seria ocioso mencionar as suas perversidades, por demais conhecidas, embora não na sua totalidade.

MARIA ERA MESMO BONITA E O “REI DO CANGAÇO” NÃO MORREU DORMINDO

Dizíamos, no meio desta série de reportagem, que existiam muitos pontos obscuros e controversos sobre Lampião, sua gente, suas façanhas. Um deles, por exemplo, prende-se ao coiteiro-mor Pedro de Cândido, o homem que conduziu o Tenente Bezerra e os seus comandados até ao esconderijo em que se achava o perverso cangaceiro, de conluio com algumas dezenas de divorciados da lei.

Numa série de entrevistas concedias aos Associados, o ex-cangaceiro “Volta Seca”, atualmente Antônio dos Santos, pai de sete filhos, funcionário da Leopoldina, no Rio, dissera entre outras coisas que, após a degola dos cangaceiros, as tropas da polícia alagoana deram cabo de Pedro da Cândido.

- “Nada mais inverídico e falso – refuta o Coronel. Na realidade, quando o conduzíamos em demanda de Angicos, levando-o com certa cautela, eu havia autorizado a dois soldados que, tão logo fosse iniciado o tiroteio, acabasse com a vida dele. Entretanto, apesar de não ser lá nenhum bom coração, resolvi pensar de modo diferente, atendendo aos seus clamorosos apelos, sobretudo com referência à família, que ia ficar desamparada. Assim sendo, através de gestos, eu transmiti aos soldados que nada fizessem, deixassem-no ir embora. E assim foi feito. Não posso esclarecer como ele escapuliu e foi bater em casa, mas uma coisa posso afirmar: um mês depois da chacina, Pedro de Cândida ainda tirava espinhos do corpo, um tanto inchado, em consequência da carreira que dera, enfrentando os mandacarus, xique-xiques e todos os tipos de plantas bravas.

Para desfazer totalmente as informações de Volta Seca, o coronel diz que os governos de Bahia e Alagoas (o interventor de Alagoas era o Dr. Osman Loureiro), juntos, ofertaram cem mil cruzeiros, a serem distribuídos com os participantes da luta, tendo ele e o Tenente Bezerra recebido maiores parcelas, enquanto o restante recebeu quantias iguais, inclusive o próprio Pedro de Cândido. Diz, ainda, que o referido coiteiro ingressara na polícia alagoana, na qualidade de cabo, tendo ido destacar em Entremontes, local em que residia.


 O aspirante Ferreira de Melo e o soldado Noratinho 
mostram a Melchiades da Rocha o local onde Lampião foi decapitado.

ASSASSINADO ANOS DEPOIS

E o coronel revela:

- “Destacando em Entremontes, Pedro de Cândido, que era muito mulherengo, habitualmente deixava aquele distrito, conduzido em uma canoa por ele mesmo remada, em demanda de Piranhas. Naquela cidade, Pedro tinha as suas aventurazinhas amorosas. Nessa época, começou a aparecer um boato de que existia “bicho” naquelas redondezas, chegando a ser “visto” por muitas pessoas. Certa noite, quando um rapazinho de 15 a 16 anos transitava nas imediações do rio São Francisco, e tendo que passar por um caminho que se localizava bem a sua margem, inesperadamente deparou-se com um vulto, braços abertos, dando a ideia de que iria abraçá-lo. Já ciente do boato que circulava em Piranhas, ficou na certeza de que estava fielmente diante do lobisomem. Deste modo, talvez impulsionado pelo próprio medo, puxou do bolso uma “faquinha de cabo preto”, que conduzia, e a cravou no peito esquerdo do suposto fantasma, saindo a gritar dizendo que havia morto o “bicho”.

Com grande surpresa para os habitantes dali, verificaram, depois, que se tratava de Pedro de Cândido, trajando um capote escuro, na época distribuído pela polícia de Alagoas.

LAMPIÃO NÃO MORREU DORMINDO

Outra inverdade divulgada pelo ex-integrante do grupo de Lampião, refere-se à morte do seu ex-chefe, quando afirma que o “rei do cangaço” morreu dormindo, sem tempo para acordar. E acrescenta que “foi encontrado no chão, mas já caiu da rede morto e ensanguentado, com o corpo crivado de balas”.
- “Lampião, diz o coronel Ferreira, sem dúvida alguma foi tomado de surpresa e longe estava ele de acreditar que àquelas horas, naquele seu infeliz amanhecer de 28 de julho de 1938, nossas tropas estivessem, ali, ao seu redor. A bem da verdade, torna-se necessário esclarecer que o fato de termos o agarrado inesperadamente, ajudou-nos bastante, visto que, bastaria uma simples falha nossa, ou até mesmo uma simples indecisão ao abrir fogo, e talvez poucos soldados das nossas volantes viessem a descrever aqueles instante de ferocidade e agonia. Apesar de o termos cercado de surpresa, afirmo categoricamente que Lampião não morreu dormindo, nem foi crivado por várias balas.

Todos os cangaceiros já se encontravam de pé, naturalmente se aprontando para a partida, pois o dia já estava amanhecendo e Lampião, conforme é sabido por todos, não era homem de dormir até tarde, principalmente com os seus subordinados acordados. Isto não passa de conversa mole, que não tem nenhuma razão de ser. Lampião já estava de pé e recebeu apenas uma bala, conforme eu já disse, empunhada pelo cabo Honorato, conhecido por Honoratinho. Todavia, ninguém poderia precisar, em meio ao fumaceiro, às apreensões e a balbúrdia do momento, que esse ou aquele policial tivesse atingido ao nosso terrível adversário. O verdadeiro, no duro, é que foi a minha tropa que exterminou Lampião. Esta é que é a verdade – diz energicamente o Coronel Ferreira.

 


ANTÔNIO FERREIRA É UM PSICOPATA

A entrevista está no fim. “Seu Antônio Ferreira, declarou que Lampião não havia morrido e que Maria nunca existiu, de vez que ele participava também do bando e nunca viu mulher ou mulheres entre eles.

Lemos para o Coronel as ousadas declarações do velhinho paraibano, ouvidas sobre forte gargalhada.

- “Só mesmo um psicopata, poderia fazer tão imbecil afirmativa, sem pé nem cabeça, decerto procurando um início de levar o nome às páginas dos jornais. Se Lampião não morreu, como é que os membros da sua família vêm lutando para sepultar a cabeça dele e de Maria Bonita? Se Lampião não morreu, como é que os próprios sequazes seus, que lado a lado viviam com ele, constantemente se referem ao seu desaparecimento, muito embora nem sempre historiando a verdade dos fatos? Existira prova mais fiel do que a existência da sua cabeça, já mumificada, no museu Estácio de Lima, na Bahia?

- “Não consigo entender como é que uma pessoa afirma que não existiam mulheres no bando de Lampião. Eu mesmo fiquei com algumas fotografias, pertencentes ao desgraçado cangaceiro, retiradas de uma lata que se achava em seu poder, onde se constata a existência das mulheres.

Folheia um álbum, que nos deu para examinar, no qual, dentre várias fotos, encontra-se uma do bandido “Pancada”, ao lado a sua companheira, cujo nome desconhece. Mais adiante, lá estão Lampião e Maria Bonita, esta sentada, entre dois cachorros, e aquele de pé, ao lado, em um jornal. da fotografia, vê-se que Maria Bonita era bonita mesmo e dona de umas lindas pernas.

 Ferreira e o jornalista

 HOMEM DE CONSCIÊNCIA TRANQUILA

Aos 61 anos de idade, o tenente coronel Ferreira de Melo é um homem que diz viver de consciência tranquila, não obstante algumas malvadezas que teve de praticar, forçado pelos ossos do ofício, nem sempre ossos bons de roer. Respeitado e admirado, vive sob a glória de haver concorrido bravamente para o extermínio do maior bandido que o Brasil conheceu e reconhece que o triunfo coube a todos que participaram da chacina e outros que direta ou indiretamente, deram a sua parcela de sacrifício, em defesa da tranquilidade da nação. Cita os nomes do coronel Lucena Maranhão, do Tenente Bezerra, do ex-cabo Aniceto, que morreu baleado em Santana do Mundaú, no de 1959, e não esquece, entre vários outros, o Dr. Osman Loureiro que, na qualidade de Interventor, muito fez para a extinção daquela praga social.

Ainda hoje, na tranquilidade em que vive, fala de Lampião com ares de revolta e ódio.

Bônus:



Francisco Ferreira de Melo em dias de paz.

A Ilustração ficou por conta do Blog Lampião Aceso

terça-feira, 2 de junho de 2020

O Estado de S. Paulo 21/10/2001

Afinal, quem decapitou Maria Bonita? Os volantes Cecílio, Bertoldo ou "Negro"

Por Leonencio Nossa
(Transcrição de Antonio Corrêa Sobrinho)

“NEGRO”, QUE ERA POLICIAL NAQUELA ÉPOCA ,
GARANTE QUE MARIA BONITA JÁ ESTAVA MORTA


OROCÓ (PE) – Ele ajudou a cortar a cabeça de Maria Bonita com faca tão afiada quanto a própria memória. Depois de trocar tiros e punhaladas com cangaceiros na juventude, Augusto Gomes de Menezes, um policial aposentado que acaba de completar 85 anos, virou contador de histórias do cangaço e de Orocó, cidade sertaneja a 620 quilômetros do Recife, às margens do rio São Francisco. Um lugar violento e pobre, com 10 mil moradores, onde mais de 5% das crianças morrem nos primeiros dias de vida.

Negro, como era chamado pelos colegas de polícia, participou de um capítulo decisivo da história do Sertão. O cenário é a fazenda Angicos, em Flor da Mata, atual Poço Redondo (AL), na manhã de 28 de julho de 1938. O bandido Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, escondia-se no local com seus homens. “Morreram nove cangaceiros e duas cangaceiras, Enedina e Maria Bonita”, inicia a prosa.

“Maria Bonita morreu pertinho dele, Lampião, assim como daqui ali naquela parede”. Sentado numa cadeira de plástico, na sala da casa de estuque, onde mora com duas filhas, Negro não reivindica papel de destaque na ação que resultou na decapitação do bando de Lampião. “Quando eu cortei a cabeça dela (Maria Bonita), não estava mais viva, não”, diz. “Num combate anterior, eu gritei pra ele (Lampião): ‘Traz tua mãe, filho da peste, pra tirar raça de homem valente!’ Ele gritava pra gente também: ‘Taca espora na tua mãe, aquela égua’”, exclamou.

Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, do Recife, Frederico Pernambucano de Mello afirma que Negro é personagem desconhecido pela história, talvez por ter sido soldado raso da campanha contra Lampião.

Na avaliação de Mello, o depoimento do aposentado ao “Estado” não apresenta contradições, especialmente na descrição do massacre de Angicos, e preenche lacunas, como por exemplo, a morte do cangaceiro Mané Velho, em 1937. O pesquisador planeja uma viagem a Orocó para conhecê-lo.
Hormônios – O aposentado mostra uma foto da época. “Este aqui sou eu”, aponta para um dos retratados. “Já este aqui é o cabo Terror, que tinha esse apelido porque era um terror mesmo.” Negro desafia o crespúsculo de Orocó. Entre um cigarro de palha e outro, vai construindo imagens mais vivas que o presente, feitas de duelos e sangue.

“Só de bornal nas costas eu tenho cinco anos”, fala numa alusão ao período em que ficou isolado na caatinga. “Desses cinco anos, só descansei oito dias”. Negro ri do fato de o povo de Orocó ter pensado que ele deu o primeiro tiro em Lampião. O aposentado esclarece que não foi bem assim. “Muita gente ainda jura que ele morre por mim, não sabe?” Negro deixa claro que só quem viveu o período é capaz de acreditar nos feitos atribuídos a Lampião. “Numa fazenda em Simão Dias, mataram dois rapazes, defloraram uma moça e cortaram a língua de uma velha”, diz. “A gente perguntou a ela o que acontece, e ela: ahhh... Não disse nada. Coitada, não tinha culpa, pois não tinha língua.”

Homens valentes e mulheres decididas não fizeram sozinhos a história do cangaço. Muitos integrantes do bando de Lampião viviam a explosão dos hormônios. Menores também foram usados na repressão aos bandidos. Negro era um deles. Nascido na cidade baiana de Curaçá, em 1916, foi recrutado ainda menino pelo governo. Não tinha completado 22 anos quando participou do combate de Angicos.


 Augusto Gomes de Menezes (Negro)
“Com 14 anos peguei na espingarda para perseguir gente ruim e só saí quando acabou o derradeiro, em 1941”, afirma, numa referência ao fim do cangaço. E era na caatinga, longe das vilas e cidades que os meninos descobriam a sexualidade. A caça aos cangaceiros levava os jovens das volantes a ficarem meses afastados de mulheres. O jeito era se virar com animais ou, se tivessem sorte, cangaceiras capturadas.

PARA PEGAR BANDIDO NA CAATINGA , SÓ SE FOR A PÉ

Policial aposentado discorda dos meios usados pela polícia e pelo Exército.

Um dos últimos sobreviventes do combate de Angicos, o policial aposentado Augusto Gomes de Menezes, o Negro, discorda das ações atuais das polícias e do Exército contra assaltantes de caminhões e traficantes de drogas em Pernambuco. Ele releva o fato de os fuzis e as metralhadoras terem substituído os punhais no sertão. “Eu não posso informar nada da polícia de hoje, mas o que eu acho é que carro com sirene não é modo de perseguir gente ruim”, afirma. “Na caatinga não dá para entrar de carro.”

Negro lembra que para caçar cangaceiros o jeito era andar a pé, sem mula ou viatura. Vida na caatinga era à base de carne, farinha e rapadura. A farinha ficava no bornal. O jeito era meter a mão no bornal. “A gente não tinha tempo de assar carne, comia crua mesmo, tirava a dente”, conta. A escassez de água levava o grupo a apelar para a rapadura. “A gente passava até sete dias sem beber”, dramatiza. “Isso escureceu a vista de todo mundo.”

O policial aposentado se casou e enviuvou duas vezes. Da primeira união, com Ocília Barbosa, em 1940, nasceram dez filhos. A mulher morreu 33 anos depois, quando os dois já estavam separados. “Ela caiu de repente e morreu”, lembra. Quem também morreu por nada, há oito anos, foi Antônia Maria do Nascimento, com quem teve mais oito crianças. Dos 18 filhos de Negro, restaram dez.

Amigos não faltam; de solidão, reclama pouco. O maior problema, segundo ele, é o salário mínimo que recebe da Previdência Social.

A casa de Negro não tem televisão nem guarda-roupas. Também faltam baús. Segredos e histórias de uma polícia violenta e criminosa estão na memória do homem que após participar das volantes foi chamado para lutar na Segunda Guerra Mundial – chegou a se apresentar em Salvador, mas a guerra acabou uma semana antes.

Negro colaborou com o Exército na repressão aos integralistas da Bahia, durante o Estado Novo de Vargas, e no auge do regime militar, nos anos 60. Sobre essa época, pouco revela. Desconfia-se que passava informações sobre a geografia da região. “Depois de sair da volante, eu trabalhei nesse negócio de pistolagem”, diz sem ir adiante. Em 1965, no governo do marechal Castelo Branco, gente do Exército andou prometendo “coisa” para o policial aposentado. (L.N.).

PARTILHA DE BENS DO CANGAÇO GERAVA DISCÓRDIA ENTRE POLICIAIS

Tenente teria ficado com maior parte do tesouro do bando de Lampião
Os macacos, como os policiais eram chamados pelos cangaceiros, travaram duelo particular pela divisão do tesouro do bando de Lampião. Um dos integrantes da volante que massacrou os criminosos, em 1938, Augusto Gomes de Menezes, o Negro, revela que o chefe, o tenente João Bezerra, morto nos anos 70, ficou com a maior parte da fortuna, cerca de 1200 contos de réis e cinco quilos de ouro. O prêmio máximo da Loteria Federal valia, à época, 200 contos de réis. “A gente tinha ordem do presidente que quem matasse cangaceiro ia ficar com os objetos dos mortos”, diz.
Negro afirma que o tenente não repartiu a fortuna e dá a lista dos nomes dos colegas de farda que teriam sucumbido numa suposta operação travada por João Bezerra para evitar a partilha. “Zé Gomes foi morto por um pistoleiro e Mané Velho conseguiu escapulir.”

Mais de 60 anos depois da maior façanha da volante, Negro ainda tem raiva do tenente. “Eu não fui perseguido pelo João Bezerra, mas ao mesmo tempo posso dizer que fui; eu trabalhei demais”, diz resignado. “eles prometeram um negócio para mim e nunca saiu.” Ele jura que não ficou com nenhum pertence dos cangaceiros. “Eu peguei dez contos de réis de um, mas um colega me traiu.”

O pesquisador Frederico Pernambucano de Mello desconhece as perseguições, mas confirma a revolta dos soldados e a promessa de partilha. Há 40 anos estudando o cangaço, Mello diz que Mané Velho era homem violento e que causava medo entre os colegas. Após o massacre de Angicos, Mané Velho cortou as mãos do cangaceiro Luís Pedro para ficar com os anéis de ouro.

Fotos das revistas da época mostram as cabeças dos onze cangaceiros expostas na escadaria da prefeitura de Piranhas, em Alagoas. O crânio de Lampião aparece no centro. A mórbida cena é atenuada pelos chapéus com pedaços de ouro e signos de Salomão e pelos bornais. “A estética do cangaço é uma arte nascida em circunstância de conflito; seus símbolos não são apenas estéticos, mas possui funções místicas”, avalia Mello, um dos curadores da Mostra do Redescobrimento.

“Numa comparação universal, o traje do cangaceiro só se compara ao do samurai japonês.” Nas andanças pelo sertão, Mello encontrou pessoas que afirmaram que a cena de maior impacto na vida foi ver o bando de Lampião. “Tinha-se a impressão de que o grupo, ao chegar às cidades, estava trajado como se fosse pular carnaval”, diz. “Era uma mistura de pavor e êxtase; um êxtase estético, épico e viril.” (L.N.).

quinta-feira, 2 de abril de 2020

O Jornal nos Municípios’ (Alagoas) Ed. 188.38

Eu vi os pedaços de Lampião

Transcrição de Clerisvaldo B. Chagas


 
7 de agosto de 1938. Santana/Piranhas (AL) “Três ou quatro dias após a remessa das cabeças para Maceió, chegava a Santana uma caravana da Faculdade de Direito do Recife, composta dos acadêmicos Alfredo Pessoa de Lima2, Haroldo Melo6, Décio de Souza Valença4, Elísio Caribé3, Plínio de Souza5 e Wandnkolk Wanderley 1, todos em excursão e desejando ir diretamente a Angicos.

Coincidiu que estavam chegando notícias de que os abutres (urubus) viviam sobrevoando o local do combate, sinal de que os corpos não haviam sido bem sepultados.

O Tenente-coronel Lucena resolveu então formar uma caravana com os acadêmicos e me disse que eu teria de acompanhá-los, menos como sargento do Batalhão, do que como correspondente do Jornal de Alagoas. Partimos, então para Angicos no dia 7 de agosto.


"Com a chegada dos acadêmicos do Recife, tivemos de ir com eles a Angicos, local do combate, lá sepultar os corpos deixados à toa. Encontramo-los já meio ressecados, amarelecidos, a pele agarrada no osso como se a carne houvesse fugido. Já não tinham pelos e era difícil a identificação.

À vista daqueles, em plena caatinga, o acadêmico Alfredo Pessoa fez um discurso capaz de comover até mocós e preás que andassem por ali. E só então tive uma pequena ideia da atrocidade da decapitação. Um corpo sem cabeça, onze corpos sem cabeça e o discurso do Pessoa: que coisa de arrepiar cabelos! (FRUTA DE PALMA, 168).’

Na realidade os corpos não haviam sido sepultados. Ficaram ali mesmo no leito do córrego, cheio de pedregulho. Amontoado os onze, a tropa havia simplesmente feito um montão de pedras por cima. Além de ser difícil cavar sepultura ali, a gana de Bezerra e de seus comandados pelos troféus dos cangaceiros lhes havia retirado todo o restinho de senso humano que possuíssem.




Ficamos ali quase um meio dia, a cavar uma vala comum no mesmo local, pois não havia condições de conduzir aqueles pedaços de gente para parte alguma fora do córrego.

O célebre coiteiro Pedro Cândido era integrante da Caravana e, além de nos descrever as principais fases do combate que ele engendrara, mostrou-nos o corpo de Lampião, da mesma forma identificado por três ou quatro pessoas que integravam a caravana e que também conheciam detalhes físicos do Rei do Cangaço.


 Pedro de "Cândjo" está de traje escuro

Se não foi a única (e não foi), foi uma das poucas vezes em que observei emoções no rosto do Tenente-coronel Lucena: ao ouvir o discurso do acadêmico, encarando os pedaços de Lampião.

Pescado em Blog do autor

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Sila falava sobre...

Os Vagalumes de Maria Bonita

 Raul Meneleu

Na história do Cangaço precisamos ter cuidados em fazermos afirmativas, pois as contradições que muitas vezes, senão em maioria, nunca foram propositais.


 Sila de Zé Sereno sentada na mesma pedra da véspera de 28 de julho.

Destaco o depoimento da cangaceira Sila, quando, contando que na noite anterior do fatídico dia da morte de Lampião e Maria Bonita, junto com mais nove cangaceiros, estava sentada em uma pedra, conversando com Maria e que viu lampejos que ela achava que poderiam ser fachos de lanternas, mas que fora dissuadida por Maria Bonita, que lhe dissera que eram apenas luzes dos vagalumes.

Ela então talvez convencida naquela ocasião, que realmente eram lâmpadas de vagalumes, não ficou preocupada e nem disse isso ao seu companheiro Zé Sereno quando chegou em sua barraca. No depoimento ela diz que após o acontecido,  lembrando dessa conversa, esta lhe marcou a mente, que eram soldados fazendo o cerco ao Angico. Mas pergunto: que hora era  aquela da conversa, se o ataque se deu cedinho pela manhã e temos testemunhos de soldados, que disseram que às 3 horas da manhã, não tinham ainda atravessado o Rio São Francisco?


Avance para '5:03min do vídeo de Aderbal Nogueira, com trechos da entrevista do sargento Antonio Vieira que esteve no massacre de Angico, onde ele afirma o horário que estariam rumando para o cerco na grota.




A mente humana pode ser convencida por algum fato lembrado, mas que necessariamente tal fato não se deu. Boa parte das lembranças do ser humano é falsa. Jamais aconteceu. Não passa de mentiras inventadas pelo cérebro, dizem os psicólogos.

Parte das lembranças é pura imaginação. Isso porque a memória não é um registro da realidade – é uma interpretação construída pela mente. O nosso cérebro inventa o mundo, das cores que a gente vê às experiências que a gente vive. E edita essas informações antes de gravá-las.

Boa parte das lembranças é falsa. Jamais aconteceu. Não passa de mentiras inventadas pelo cérebro. Lembrar é imaginar, e imaginar é distorcer.

Em uma reportagem de Gisela Blanco e Bruno Garattoni publicado na revista Super Interessante de julho de 2018, reportando sobre isso, mostra que essas lembranças sempre afloravam no consultório de algum psicólogo, depois de sessões de terapia com técnicas de hipnose e regressão e se descobriu muitos casos de falsas memórias, que haviam sido acidentalmente induzidas por psicólogos durante sessões de hipnose. É aquela história que de tanto se falar se acredita.

"É uma interpretação construída pela mente. O nosso cérebro inventa o mundo, das cores que a gente vê às experiências que a gente vive. E edita essas informações antes de gravá-las, explica o psicólogo cognitivo Martin Conway, da Universidade de Leeds. Cientistas da Universidade Harvard pediram a voluntários que se lembrassem de uma festa em que tinham estado. Em seguida, eles deviam imaginar uma festa que ainda não havia acontecido. Os pesquisadores monitoraram as cobaias durante todo o experimento e descobriram que, nos dois exercícios, sua atividade cerebral foi praticamente a mesma. Ou seja: os mecanismos que usamos para acessar nossas memórias são os mesmos que usamos para imaginar as coisas. Uma pessoa pode ter lembranças erradas ao ler o que está gravado corretamente na sua memória,

Vocês podem até se lembrar do principal, mas todo o resto será distorcido – com direito a várias informações criadas pelo cérebro. Já que a memória e a imaginação usam os mesmos mecanismos, a mente não vê problema em dar uma inventadinha para completar as lacunas.

Essa tendência é tão forte que a Justiça possui artifícios para se defender disso, e ver se os relatos de testemunhas estão contaminados pela imaginação. Além de propor situações que não aconteceram (como no caso do americano Paul Ingram), os interrogadores evitam perguntas indutivas (“ele estava usando um boné, certo?”) ou que envolvam raciocínio negativo (“isso não está certo, né?”), pois elas acabam levando o cérebro a distorcer as memórias. Mas não há uma maneira de determinar, cientificamente, se uma lembrança é real. Nem mesmo o detector de mentiras consegue desmascarar falsas memórias, e por um motivo simples. Sabe aquela máxima que diz: uma coisa não é mentira quando você acredita nela? Pois é.

Apesar de tudo isso, é difícil imaginar uma sociedade que não acreditasse na memória das pessoas. Não existiria verdade nem realidade coletiva, pois cada indivíduo viveria isolado em seu próprio mundo de lembranças. “A crença na memória é fundamental para várias instituições da sociedade, como a Justiça e as escolas”, afirma Schacter. Ainda bem. Pois, no futuro, nossas memórias serão totalmente diferentes."

Então amigos, não era porque Sila estava mentido. Ela e Maria Bonita realmente conversaram naquela pedra e a lembrança que Sila teve quando algum tempo depois, alguns dias depois ou talvez meses, quando ela lembrou ficou gravado em sua mente que aquelas luzes de lanternas eram dos Soldados. Mas não poderia ser pois, a que horas elas estavam conversando em cima daquelas pedras? Era 3 horas da manhã? Eu duvido que isso se deu nessas horas entre 3 e 4 da manhã! Provavelmente deveria ser, essa conversa, antes de 22h.

Mas aí já entra da minha parte essa interrogação. Mas sinceramente acho muito difícil que essa conversa tenha se dado as 3 horas ou 4 horas da manhã pois os soldados ainda estavam atravessando o rio.


Documentário: Aderbal Nogueira

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Os TIROS que mataram Lampião

Palestra de Ivanildo Silveira durante o Cariri Cangaço 10 Anos

Aderbal Nogueira registrou um dos melhores momentos do Cariri Cangaço 10 anos realizado no último dia 26 de Julho em Juazeiro do Norte,CE.

Dá o play e tire suas conclusões


sexta-feira, 26 de julho de 2019

No Monumento Natural Grota do Angico

22° Missa do Cangaço acontece neste Domingo


Foto Kiko Monteiro (Lampião Aceso)


No próximo dia 28 de julho será realizada a 22ª Missa do Cangaço, celebração que acontece no Monumento Natural Grota do Angico (Mona) − unidade de conservação gerida pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Urbano (Sedurbs/SE) e administrada pela Superintendência do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (SERHMA), na divisa dos municípios de Poço Redondo e Canindé de São Francisco, Sertão do Estado.

O evento que tem início às 8h, marca o 81º aniversário da morte de Virgulino Ferreira da Silva, popularmente conhecido como Lampião, que foi executado na grota ao lado de sua esposa, Maria Bonita, e [parte] de seu bando, depois de emboscada policial. A missa é organizada pela neta de Lampião, Vera Ferreira, e integrantes da [Sociedade do Cangaço], com apoio do Governo do Estado por meio da SERHMA.

De acordo com o Superintendente Especial de Recursos Hídricos e Meio Ambiente, Ailton Rocha, o Estado apoia de forma logística a celebração. “Para receber as pessoas na celebração o Departamento Estadual de Infraestrutura Rodoviária de Sergipe, DER, já melhorou as estradas de acesso ao local do evento. Além disso recepcionamos a população que vem por terra, para isso melhoramos e identificamos as trilhas de acesso à Grota, além de há 12 anos fazermos a preservação ambiental da área com a gestão da Unidade de Conservação da Natureza”, explica.



Foto: Kiko Monteiro (Lampião Aceso)

Grota do Angico

O Monumento Natural (MONA) Grota do Angico que fica no Alto Sertão Sergipano, em Poço Redondo, é uma unidade de conservação estadual criada através do Decreto 24.922 de 21 de dezembro de 2007, a região abriga 2.221 hectares remanescentes florestais da Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro e quase em sua totalidade nordestino. O local, além de deter de elementos culturais importantes para o Estado, mantém a integridade dos ecossistemas naturais da Caatinga, sendo campo de desenvolvimento de pesquisa científica, educação ambiental e ecoturismo.

Segundo o último relatório do Ministério do Meio Ambiente, a Reserva Monumento Natural Grota do Angico, abriga 25 espécies de mamíferos; 150 de aves; 45 de répteis e anfíbios; e 180 de vegetais. A reserva criada pelo Governo do Estado, é administrado pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Urbano e Sustentabilidade (Sedurbs), por meio da Superintendência Especial de Recursos Hídricos e Meio Ambiente, (Serhma).

“O Monumento Natural da Grota do Angico é uma unidade de conservação criada e mantida pelo governo do Estado, que tem uma importância fundamental para a preservação da nossa Caatinga e da fauna também daquela região, ou seja, da biodiversidade. As ações de conservação empenhadas ali mostram o compromisso do Governo com o meio ambiente e com a nossa caatinga, disponibilizando estrutura e área de reserva para a sociedade, para os que fazem estudos pesquisa e, também, para os amantes do ecoturismo”, explica o Superintendente, Ailton Rocha.

Fonte Agencia Sergipana de Notícias

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Armas de fogo

 As 'Bergmann' de Angico

Por A. Fábio Carvalho Costa*

Caros amigos, em homenagem aos 80 anos da morte de Lampião e Maria Bonita, escrevi este texto especialmente para o blog do amigo Kiko, sobre as armas automáticas usadas pela polícia em Angico, espero que apreciem.

Os governos estaduais nordestinos buscavam a todo custo na década de 1930, a erradicação total dos bandos de cangaceiros. Para isso introduziram o conceito de tropas “volantes”, ou seja, tropas com grande mobilidade e sem circunscrição, que seguiam no encalço dos bandidos pelos sertões afora. Por vezes atravessando divisas estaduais com base em acordos celebrados pelos governos nordestinos.

O conhecimento do terreno, e do território, a adaptação às agruras e dificuldades da caatinga, davam aos bandoleiros óbvias vantagens táticas.

A vantagem do armamento policial composto pelos fuzis e mosquetões militares do tipo Mauser (geralmente os mod. 1908), no calibre 7 mm, inicialmente superior aos dos bandidos, foi suprimida em 1926 no afã de combater a coluna Prestes, com a cessão pelo governo federal de armas idênticas (e até mais modernas e cômodas de se usar, como os mosquetões FN 1922), o que se revelou uma estratégia no mínimo equivocada que talvez tenha dado sobrevida a Lampião por mais dez anos.

A solução encontrada foi prover os grupos com armas automáticas mais leves, complementares aos fuzis-metralhadores Hotchkiss 1922 ou Madsen 1918, para que a mobilidade da tropa não fosse comprometida, mas mantendo alguma superioridade de fogo. Principalmente em frações de tropas muito reduzidas.

As submetralhadoras Bergmann MP 28 II eram algumas destas armas automáticas.


 MP28

 MP35

Esta arma foi redesenhada por Hugo Schmeisser com base no modelo MP18.I, e tinham como modificações principais o alojamento do carregador, modificado para receber carregadores retos do tipo caixa, ao invés dos complicados e defeituosos carregadores tipo "caracol" da antecessora. E um seletor de fogo para o tiro intermitente ou automático, que era um pino transversal colocado acima do gatilho, e alça de mira tangencial graduada até mil metros.

O calibre era o 9 mm Parabellum, mas foram fabricadas também em 7,65 mm Parabellum, 7,63 mm Mauser, e talvez em .45 ACP.

As policias Nordestinas as usaram em calibre 7,63 mm Mauser, talvez devido à popularidade das pistolas Mauser C-96 “caixa de pau”.

A submetralhadora Bergmann MP 28 II era uma arma de construção robusta e bem feita, porém cara.

A Força Pública Pernambucana apreendeu em 1931 dos Irmãos Lundgren (além de muitas outras armas) 25 submetralhadoras de fabricação alemã com 71 pentes (SIC) e 23.472 cartuchos; 02 metralhadoras sem coronha. Estas armas pelo período, provavelmente eram estas Bergmann MP 28 II. Consta que foram usadas depois contra os cangaceiros.

A submetralhadora Bergmann MP 28 II foi copiada pelos ingleses durante a segunda guerra com o nome de Lanchester.

As policias Nordestinas ainda usaram submetralhadoras Bergmann MP 35.

O escritor Frederico Pernambucano de Mello cita no livro '”Guerreiros do Sol”, que uma Submetralhadora Bergmann MP34 também estaria presente no ataque a Grota de Angico. Mas uma análise da foto mostra que é uma modelo 1935 (as diferenças eram a longitude do cano, maior na MP34, e outros detalhes secundários).

 O então tenente Bezerra 
e a tropa que dizimou Lampião e parte do seu bando em Angico.

Esta é uma arma rara por aqui, e praticamente desconhecida do grande público. Aparentemente teve uso policial no Brasil somente no Nordeste.

A Submetralhadora Bergmann MP35 derivou-se de uma arma fabricada sob licença pela empresa dinamarquesa Shulz & Larsen, a BMP32, desenhada por Emil Bergmann (filho do célebre Theodor Bergmann, que desenhou a MP18). Esta arma tinha algumas características interessantes (o carregador é montado no lado direito da arma, com a janela de ejeção à esquerda, sendo o contrário mais usado em submetralhadoras. A alavanca de manejo do ferrolho é localizada na traseira da arma, sendo sua operação semelhante a do ferrolho do Fz. Mauser.

Para mover o ferrolho, gira-se para a posição vertical e puxa-se para trás. O gatilho é duplo, com dois estágios. O regime de fogo – semiautomático ou automático- é feito pela pressão do dedo do atirador). A BMP32 tinha cano com jaqueta de refrigeração perfurada, e usava o cartucho padrão dinamarquês cal. 9 mm Bergmann, usado nas pistolas M1910/21.

Bergmann melhorou o design em 1934, padronizando os carregadores das Schmeisser MP28 em cal. 9 mm Parabellum, cartucho padrão do exército tedesco, para facilitar a logistica e melhorando o sistema de segurança da arma. Surgindo assim a modelo MP34. Sendo logo encomendada em grande número pela Alemanha. A famosa casa Walther foi subcontratada pela Theodor Bergmann Und Co. Gmbh para fabricação desta arma.

Em 1935 a arma sofreu novos ajustes para a produção maciça, surgindo as Bergmann MP35 (a maior parte das MP35 foi usada pela Waffen-SS, embora a Wehrmacht, e a Policia alemã também a tivessem usado).

 Nesta imagem, o bravo Manoel Neto, porta uma Bergmann.

Aqui no nordeste creio que foram usadas pela polícia baiana, mas faltam documentos que atestem inequivocadamente seu uso (estaria esta MP35 dentre as duas submetralhadoras emprestadas pela Força Volante da Bahia comandada por Odilon Flor a João Bezerra? Seria esta a sua origem?).

Não nos esqueçamos que a Força Pública de Pernambuco usou também as pistolas automáticas Royal, um clone espanhol da Mauser C-96, que inovou adotando um seletor de fogo e carregador destacável. Estas pistolas metralhadoras também participaram de Angicos.


*Aurelino Fábio Carvalho Costa é baiano de Itapetinga, 49 anos, oplólogo autodidata e historiador amador, especializado em armamento leve sendo estudioso de armas de fogo e balística há mais de 29 anos. Já exerceu as funções de consultor técnico voluntário do Museu da Polícia Militar de São Paulo, e sempre batalha pela conservação da memória e da oplologia na história do Brasil.

Personagens terciários

Delegado Joel Macieira Aguiar

 
  Pescada in academiamaconicadesergipe.com.br

Joel Macieira Aguiar nasceu no dia 11 de agosto de 1905, em Maruim, município distante a 30 Km da capital sergipana , Aracaju. Foi cirurgião dentista, formado pela Faculdade de Medicina da Bahia, em 1926 e Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, pela Faculdade de Direito da Bahia, em 1936.

Aguiar exerceu o cargo de Promotor de Justiça, em Capela e em Neópolis; Foi Delegado de Polícia, em Aracaju, na gestão do Interventor Estadual Eronides de Carvalho; Foi Juiz de Direito, em Maruim, Estância e Aracaju. Mais tarde, tornou-se Desembargador do Tribunal de Justiça e Corregedor Geral da Justiça de Sergipe. 


 A seta indica o delegado na ocasião em que esteve na Grota do Angico.
Jornal A Noite, 3 de Agosto de 1938 

Joel Aguiar era um estudioso e parecia estar anos luz à frente das pessoas de seu tempo. Coordenou o levantamento cadavérico de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, bem como dos demais cangaceiros assassinadas na grota do Angico, em Poço Redondo.

Seu primeiro contato indireto com Virgolino ocorre 8 anos antes:  Ele teria também atuado como promotor no Processo resultante do inquérito que a polícia do município de Nossa Senhora das Dores, zona da mata sergipana, presidido pelo delegado Antônio Paes de Araújo, instaurou no dia 16/10/1930, objetivando investigar a morte do cidadão José Elpídio dos Santos; e como juiz de direito, Nicanor Oliveira Leal.


Faleceu em Aracaju, aos 89 anos, em fevereiro de 1995, e foi sepultado em Maruim.

No dia 27 de junho de 1996, o então prefeito de Aracaju, José Almeida Lima, sanciona a Lei nº 2.416, que denomina a Rua “Desembargador JOEL MACIEIRA AGUIAR” (antes Rua “N”, localizada no Loteamento Tramandaí, bairro Grageru), prestando homenagem ao jurista maruinense.

Com informações e última foto de Keizer Santos do www.jornaldemaruim.com

domingo, 29 de julho de 2018

A ferro e fogo

80 anos da morte de Lampião e Maria Bonita

por Fernando Maia - Repórter

Um Nordeste miserável, assolado por secas intermitentes, abandonado pelo poder público e entregue ao jugo dos coronéis da política foi cenário fácil para o surgimento do cangaço, movimento de banditismo que teve seu auge nas décadas de 20 e 30 do século passado, sob o comando de Lampião, que entrou para a clandestinidade empurrado por uma desavença familiar. Uma rixa com seu amigo de infância e desafeto a partir da adolescência, Zé Saturnino, em Serra Talhada (PE), desencadeou um dos mais sangrentos capítulos da história brasileira.

Com o agravamento da rivalidade, a família de Virgulino deixou suas terras e se mudou para Alagoas. Mas a perseguição não acabou. Por influência política, Zé Saturnino acionou seus contatos em Alagoas. Zé Lucena, chefe de Polícia foi até a moradia dos Ferreira e acabou matando o pai de Virgulino. O episódio foi o estopim para Lampião entrar no cangaço em busca de vingança, pelo grupo do Sinhô Pereira que, dois anos depois, deixou a vida de cangaceiro e entregou a chefia do bando ao filho de José Ferreira, que assumiu as rédeas da organização belicosa.

A versão mais plausível para a morte do Rei do Cangaço, numa Gruta em Angicos, no Município de Poço Redondo (SE), em 28 de julho de 1938, aponta que o coiteiro Pedro de Cândido, que morava abaixo de Piranhas (AL), foi comprar mantimentos a um comerciante chamado Joca Bernardes. Entre as mercadorias adquiridas, pegou oito quilos de queijo. A expressiva quantidade levantou a suspeita de Joca. Ele sugeriu ao sargento Aniceto que interrogasse Pedro de Cândido, que ele forneceria o paradeiro do cangaceiro mais procurado do País. Os métodos de intimidação (ameaça de morte e tortura) usados no interrogatório surtiram efeito. Pedro revelou a localização do Rei do Cangaço.





De imediato, o sargento Aniceto passou um telegrama para o tenente João Bezerra, usando a expressão "tem boi no pasto". O tenente entendeu o recado e rapidamente organizou uma volante que saiu sob o seu comando de Delmiro Gouveia (AL) de caminhão. Três volantes, com 50 policiais, atuaram na chamada batalha de Angicos. As de Aniceto e João Bezerra e a comandada pelo soldado Ferreira. Dos 35 cangaceiros que estavam no local, 11 foram mortos e decapitados; e 24 conseguiram fugir.

Herói/bandido

Além dos 80 anos de morte, completa Lampião 120 de nascimento. Há divergências sobre a data, mas a mais provável é 4 de junho de 1898, indicada no batistério da Diocese de Floresta (PE). As ações de Lampião pela Caatinga são repletas de controvérsias. Para uns, o bandoleiro era herói, um justiceiro social que buscou uma sociedade mais equânime, igualitária; para seus desafetos e algozes, não passou de um assassino frio, calculista e impiedoso. Independentemente dessa querela, é fato que o homem que saqueou o Nordeste devolve hoje com juros tudo aquilo que surrupiou de suas vítimas.

 Seu legado pelos sertões do Nordeste, em particular, Pernambuco, Bahia e Alagoas é impressionante. O turismo, a gastronomia, as artes, incluindo a música, a dança, o teatro, a literatura, vários museus e trilhas por onde passou são a prova da influência viva de Lampião, Maria Bonita e sua entourage. A reportagem refez a trajetória de Virgulino pelos sete estados nordestinos onde atuou com desenvoltura - Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia - para mostrar como as gerações pós-cangaço aproveitaram esse legado.



Publicado originalmente no Site do Jornal Diário do Nordeste

sábado, 28 de julho de 2018

80 anos depois

O Cangaço na Literatura Especial



Muitas teorias foram descritas sobre o que ocorreu naquele 28 de julho de 1938. Nós do Cangaço na Literatura orgulhosamente apresentamos nosso ponto de vista. Compartilhem e valorizem nossa cultura!. Agradecemos ao Gutemberg Barros por emprestar a voz ao Lampião; ao José Roberto por resgatar o traço clássico da literatura em seus desenhos e ao Leonardo que nem sabia que a Xilo que encomendei seria para este trabalho.

Abraço a todos, Robério Santos



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