terça-feira, 20 de outubro de 2009

Prazer em conhecer: Lampião Aceso entrevistou o pesquisador e escritor Antonio Amaury

O Mestre 

Lampião Aceso completa hoje 1 ano de atividades. Há tempos que alguns leitores me cobravam ocorrências para o referido assunto. Pra comemorar a data, pela estima e admiração que tenho pelo entrevistado reservei esta pauta proporcionada pelo nosso terceiro encontro, espero que gostem. 

Amigos e especialmente o pessoal que está chegando agora conheçam um pouco mais da história e de algumas preferências do maior pesquisador brasileiro, no estudo do cangaço.

Antonio Amaury Corrêa de Araújo é o sulista mais nordestino de todos os tempos, É hoje, sem duvida, o maior e mais profundo conhecedor do ciclo épico do cangaço e do Padre Cícero também, enfim, Amaury tem nordestinidade em seu DNA, é natural de Boa Esperança do Sul interior de São Paulo, hoje reside na capital. Frequentador da web inclusive páginas de relacionamento, participa de algumas comunidades do Orkut sempre com disposição para contatos e dirimir dúvidas.

Ele entrevistou (está gravado) mais de 40 ex-cangaceiros, com membros das forças policiais com pessoas da sociedade da época e familiares remanescentes sendo que a maioria dos depoimentos foram gravados em K7, na cidade de São Paulo e outros Estados. Teve cangaceiro, que passou mais de 03 meses na casa do Dr. Amaury, pelos mais diversos motivos: além da colaboração com depoimentos alguns aproveitaram a hospitalidade do mestre para tratamento de saúde.

É consultado, com frequência por jornalistas, cineastas, professores universitários, alunos e estudiosos do cangaço de uma forma geral.

Que Deus lhe dê muitos anos de vida, energia para os próximos seminários e que sua pena (força de expressão) "seu computador" venha, ainda a produzir, muitas obras de interesse dos brasileiros e, sobretudo dos nordestinos no tocante aos sertões.

Incansável em busca de informações sobre o assunto, realizou mais de 6.000 entrevistas. Suas pesquisas minuciosas, diretas, imparciais, fazem-no um autêntico mestre, criterioso e honesto.
Nos anos 70, tornou-se conhecido em todo o Brasil ao participar do "Programa 8 ou 800", da TV Globo, respondendo sobre Lampião.

Tem vários livros publicados sobre o assunto, entre eles:
Lampião: Segredos e Confidências do Tempo do Cangaço; Assim Morreu Lampião; Lampião: As Mulheres e o Cangaço; Gente de Lampião: Dada e Corisco; Gente de Lampião: Sila e Zé Sereno; O Espinho do Quipá e De Virgolino a Lampião, Ambos em co-autoria com Vera Ferreira, neta de Lampião, Lampião e a Maria
Fumaça e mais recente cabeças cortadas co-autoria com Luiz Ruben e A Medicina e o Cangaço em co-autoria com Leandro Cardoso Fernandes. E outros títulos saindo do forno os quais vamos revelar na entrevista a seguir.


Antonio Amaury, que em novembro estará completando 75 anos de idade, sendo 61 dedicados à pesquisa foi um dos ilustres convidados para abrilhantar o 1º Cariri Cangaço, aproveitamos a oportunidade para solicitar uma audiência com ele, vamos conferir.

Qual é o filho preferido do acervo?
Assim morreu Lampião.

E de outro autor?
"Lampião" de Ranulfo Prata.

Qual é literatura recomendada para um calouro?
Vai soar com autopromoção, mas entre os mais de 200 títulos existentes eu indico que comecem pelo meu acervo que foi fruto de uma pesquisa séria além de muita intuição para repassar depoimentos e narrativas de quem viveu o cangaço.

Atualizando em números: Com o aparecimento de Durvinha, Moreno e Aristéia quantos personagens desta história foram entrevistados por Antonio Amaury?
Moreno e Durvinha não acrescentaram nada, entenda, para o que já sabíamos. Aristéia tem menor importância ainda, pois só viveu seis meses num subgrupo, nunca participou de um combate e nem sequer conheceu Lampião, Maria Bonita etc. Possuo precisamente sete mil entrevistas a maioria em arquivo de áudio. As mais importantes seriam: Sinhô Pereira, João Ferreira e Mané Veio foram peças de grande valia para a construção da história.

Quem foi o primeiro?
Foi uma figura apagada, filho de um coiteiro que tinha 15 anos quando conheceu Lampião na ocasião de uma visita a fazenda do pai. Mas no ano de 67 eu tive um contato coletivo... um acúmulo de conhecimentos com vários envolvidos conheci: Dadá, João Bezerra, Mocinha (irmã de Lampião ainda viva).

Quais destes contatos foram os mais difíceis?
Quase sempre com soldados houve certa resistência para dar depoimentos.

Amaury teve que pagar para obter entrevista?
Sim, várias vezes.

Qual o contato que não foi possível e lhe deixou de certo modo frustrado?
Aconteceu mais de uma vez, mas lamento mesmo não ter tido um encontro com o jornalista Melchiades da Rocha ele era do jornal "A noite ilustrada" do Rio de Janeiro e estava em Angico três dias após o Massacre, ele viveu aquele momento conversamos por telefone eu insisti para um encontro, mas ele não cedeu, não quis aproximação.

Um cangaceiro?
Balão.

Um volante?
Manoel Neto.

Um coadjuvante?
Tenente João Maria, de Serra Negra. (Hoje Pedro Alexandre-BA)

Uma personagem secundária?
Jogo para esta posição na pirâmide o cabo Antonio Honorato, dá impressão que teve grande importância, ele se rogava "o homem que atingiu Lampião", mas nunca foi provada a sua ação.

O que pretende fazer com as centenas de horas em entrevistas colhidas em vídeo?
Estamos com a proposta de um estúdio e possivelmente vamos criar uma coletânea de vídeos afinal são mais de 250 horas de imagens.

E quanto às peças e relíquias é real o desejo de montar um museu particular? 
Sim, mas já existe uma exposição itinerante com parte de meu acervo que atualmente circula pelo nordeste sob os cuidados de Ricardo Albuquerque neto de Adhemar Albuquerque da ABA films.

Nós que gostaríamos de ver um filme que retratasse um cangaço autêntico, fiel aos fatos, sem licença poética, sem erro primário enfim sem exagero da ficção lamentamos a eterna necessidade de se ter finalmente uma produção digna da saga, de preferência um épico ou uma trilogia, enquanto isto não foi possível qual a película mais lhe agradou?
O mais próximo com a verdade "Corisco o diabo loiro", com Leila Diniz e Maurício do Vale.

Eleja a pérola mais absurda que já leu sobre Lampião?
Ultimamente tenho ouvido cada balela que é difícil destacar a pior, mas "Alguém" disse... pessoas descompromissadas afirmaram para um jornal: Lampião tinha pretensões de ser governador.

Além da nova edição ampliada da obra Assim morreu Lampião qual a próxima novidade que teremos em nossas estantes?
"Assim morreu Lampião" ainda está encaminhada, "Cidades invadidas ou visitadas" também, estou preparando um livro sobre "Maria Bonita", mas meu próximo livro mesmo, o qual esperava ter lançado aqui no Cariri Cangaço é "Lampião, herói ou bandido?" a editora não me entregou a tempo de viajar.

Qual é o capitulo preferido do mestre Amaury?
A história do cangaço é um tema tão controverso tem capítulos extraordinários e chocantes. Elejo três: Lampião em Juazeiro, Mossoró, e a batalha de Serra Grande.

Diante de tantas polêmicas surgidas posteriormente a tragédia em Angico alguma chegou a fazer sentido, levando-o a dar atenção especial ex.: Ezequiel reaparece anos mais tarde, João Peitudo filho de Lampião, O Lampião de Buritis e esta, mais recente sobre a paternidade de Ananias?
Sim, o caso "Ananias", pois acompanhei de perto. Foi interessante até determinado ponto, depois achei por bem recuar.

Qual foi o melhor momento deste Cariri Cangaço?
Gostei de todas as palestras, mas as mais interessantes foram a do Promotor Ivanildo Silveira e a de Honório de Medeiros.



Texto: Compilado nas comunidades do Orkut Cangaço Discussão técnica e Lampião grande rei do cangaço,  
Entrevista: Kiko Monteiro  
Foto: Rubervanio "Rubinho" Lima. 

11 comentários:

Leandro C. Fernandes disse...

Gostaria de parebenizar o "Lampião Aceso", no qual já navegava, mesmo antes de conhecer o Kiko no Cariricangaço. Minhas homenagens ao mestra Amaury, que, nesta excelente entrevista mostra que, mesmo após 5 décadas de pesquisa, não perdeu nada do vigor. Vem muita coisa ainda pela frente, tirada da manga do nosso mestre. Ele é realmente um espelho para nós pesquisadores. Parabéns.
Leandro C. Fernandes

Charles disse...

Tive o imenso prazer quando residia em São Paulo, de ir em inúmeras oportunidades, à casa do maior pesquisador do Brasil em termos de cangaço, meu querido amigo Antonio Amaury. Tive o privilégio de conferir pessoalmente seu belíssimo acervo, e maior satisfação ainda, foi poder ouvir em áudio entrevistas raríssimas realizadas por ele durante seus cinquenta anos de pesquisa, dentre elas, as de: João Bezerra, Dadá, Balão, António Jacó e outros. Para mim foi uma espécie de " pós-graduação " estar ao lado desse grande mestre.

Anônimo disse...

SOU UM APRENDIZ NO TEMA, RECONHEÇO, MAS PRECISO COMENTAR ALGO A RESPEITO DA ENTERVISTA:
APESAR DO VALOR DESTA, ESTRANHO O FATO DO DR. AMAURY, DESDE QUE O CONHECI, TER SEMPRE SE REFERIDO DE 'FORMA NEGATIVA' A ESTE LIVRO DE RANULFO PRATA. SEGUNDO O DR. AMAURY ME CONTOU ALGUMAS VEZES, O REFERIDO AUTOR JAMAIS ESTEVE NO LOCAL DOS FATOS E ESCREVIA O QUE LHE MANDAVAM DO SERTÃO. SEMPRE ME FOI DITO PELO ENTREVISTADO QUE SE TRATAVA DE UM LIVRO RUIM...
NÃO COMPREENDI, ATÉ AGORA, A MUDANÇA DE CONCEITO...
SOBRE MORENO E DURVINHA, TAMBÉM CUMPRE-ME DISCORDAR. ELES ACRESCENTARAM E MUITO À HISTORIA DO CANGAÇO, COMO PODE SE VER NO EXCELENTE TRABALHO DE JOÃO DE SOUZA LIMA. CREIO QUE ESTÁ HAVENDO AÍ UM ERRO DE JULGAMENTO, PELO SIMPLES FATO DESTES DOIS CANGACEIROS TEREM NARRADO ALGUNS FATOS DE FORMA DIVERSA DA QUE FOI CONTADA PELA MUSA DADÁ, ORÁCULO MAIOR PARA ALGUNS.
TAMBÉM ME CAUSA ESTRANHEZA APONTAR BALÃO COMO UM GRANDE CANGACEIRO. LEMBRO QUE O ENTERVISTADO CHEGOU A ME AFIRMAR VÁRIAS VEZES QUE 'BALÃO' EXAGERAVA OS FATOS, INVENTAVA, ERA PRESUNÇOSO, ETC...O QUE TERÁ O ENTERVISTADO DESCOBERTO ULTIMAMENTE PARA ELEVAR BALÃO A UM 'EXEMPLO' DE CANGACEIRO?
CABE CONSIDERAÇÕES....

Sergio, Natal

Kiko Monteiro disse...

Quero expressar nosso agradecimento ao estimado amigo o escritor Leandro Fernandes pela visita e menção honrosa ao nosso humilde trabalho, saiba que sua paletra engrandeceu nossa opinião que tens um admirador aqui.

E ao caríssimo Charles Garrido que volta e meia contribui com seus comentários e adendos as nossas informações devemos nosso controle de qualidade a estas ações. Obrigado e se tiver qualquer artigo que deseje ver publicado envie pra nós coracoesementes@infonet.com.br

Sergio Dantas disse...

Corrigindo o texto acima, leia-se ENTREVISTADO.
Grato.
Sérgio.'.

Carlos Ribeiro disse...

Acho Ranulfo Prata um das piores obras sobre Lampião.
Mas cada um tem sua opinião.
Carlos Ribeiro
FORTALEZA
caribeiru@bol.com.br

Charles disse...

Prezado Sr. Sérgio, saudações.

Quanto às suas considerações sobre Ranulfo Prata, e aos ex-cangaceiros Moreno e Durvinha, prefiro não comentar. Entretanto, quanto ao referido escrito sobre Balão, embora saibamos que realmente o mesmo deixava-se levar pela vaidade em algumas ocasiões, creio que o nobre Sr. Antônio Amauri, queria referir-se ao próprio, como exemplo de valentia e destemor. Pois a própria Dadá, quando interrogada sobre quais cangaceiros ela nomearia como valentes, a mesma foi bastante enfática em citar os nomes de dois: Balão e Criança ( isso está gravado em aúdio ). Pra finalizar, gostaria de frizar também, que nós seres humanos também temos o direito de rever nossos conceitos, que em outrota pareciam contrários. Isso é sinal de evolução, e acima de tudo humildade em reparar algumas atitudes anteriores.

Charles Garrido
Pesquisador do Cangaço
Fortaleza - Ce

Sérgio Dantas.'. disse...

Pois não, prezado Charles. Tenho meu ponto de vista, mas respeito plenammente suas ponderações. Faço minhas as palavras de Montesquieu: "posso não concordar consigo, porém lutarei com todas as minhas forças para que seja preservado o seu direito de dizê-las".
Se esta inspiradora filosofia fosse considerada por aqueles que tratam de Ciências Humanas (incluindo aí a História), não haveria disensos ou confrontos desnecessários.
Grande abraço
Sérgio, Natal

João de Sousa Lima disse...

só contribuindo como informação ao amigo Amaury, a cangaceira Aristeia Soares de Lima, passou oito meses no cangaço e não seis.
ela foi importante sim, apesar de não ter conhecido Lampião, essa aproximação com o chefe superior do cangaço não acrescenta em nada o grau de importância de uma pessoa.
ela participou do três combates, inclusive viu seu companheiro Catingueira morrer vitimado por um balaço. è só ler o livro Moreno e Durvinha que lá esta registrado ou vir até Paulo Afonso para conversar pessoalmente com ela que ainda encontra-se lúcida.

Anônimo disse...

Moreno e Durvinha são um achado de altíssima relevância para a história do cangaço sim! Pena que não foi o Sr. que achou, né Sr. Antonio Amaury? Mas tudo que o Sr. fez até hoje é incrível e incontestável. Louvado seja Deus por termos alguém como o Sr. para nos prestigiar com tantas escritas sobre o cangaço que ficarão para muitas gerações. Tá perdoado pelo lapso!

lupercio antonio disse...

Eu já li entrevistas nas quais o Dr. Amaury diz que Balão fantasiava, inventava muito. Não intendo essa mudança de postura.