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sexta-feira, 20 de março de 2026

27 de setembro de 1936

Gato invade Piranhas 

Texto e pesquisa de João Lucas/Cangaço Brasileiro.

𝐀 𝐢𝐧𝐯𝐞𝐬𝐭𝐢𝐝𝐚 𝐧𝐚 𝐟𝐚𝐳𝐞𝐧𝐝𝐚 𝐏𝐢𝐜𝐨𝐬. 𝐎 𝐜𝐨𝐦𝐛𝐚𝐭𝐞 𝐞𝐧𝐭𝐫𝐞 𝐁𝐞𝐳𝐞𝐫𝐫𝐚 𝐞 𝐒𝐚𝐧𝐭𝐢𝐥𝐢𝐨.


Subgrupo de Gato - Por Benjamin Abrahão

Domingo, de 27 de setembro de 1936, Piranhas, Alagoas. Mais ou menos na derrocada da tarde, chegando na beira da noite, o sargento João Bezerra, baseado em suas ligações com coiteiros “controlados”, é avisado de que havia um pequeno grupo cangaceiro arranchado há 20 quilômetros da cidade, na fazenda Picos. Na ânsia de ser o mais temido dos bandoleiros, aquele que por tempos perseguia, Bezerra pergunta ao seu informante se era Lampeão, recebendo, em seguida, a resposta: “não, seu sargento, mas é Gato. Está certo que ele tá “segurado” por lá, já que a mulher tá com bucho”.

É claro que Gato não era o mesmo que Virgolino, digo em sua fama como Rei do Cangaço, mas o fato é que este já fazia muitos estragos nas regiões alagoanas, sergipanas, pernambucanas e baianas. Sua fama como rei era pouca, mas a sua de causar terror nos moradores e na volante, com seus métodos de tortura e morte, passava até mesmo do seu próprio “Capetão”. Era mais do que necessário dar um fim a isso.

João, com o auxílio do também sargento Aniceto Rodrigues, reúne a tropa de dezenove soldados já bem treinados e castigados naquela campanha, dando as primeiras instruções do ataque, porém rasas (para que essas não fossem “capturadas, levadas e entregues” aos sequazes); e às 23h00, antes de zarpar para a missão, alarma o prefeito João Correia Britto sobre a situação. Certamente que o trajeto iria ser feito de automóvel e, chegando perto da região combinada, terminariam a pé. No amanhecer do 28 de setembro, às 05h30 da manhã, a volante alagoana chega ao local. Não se via muita coisa pois ainda estava escuro; um ou outro vulto aparecia, bem como vozes dos temidos encourados.

No local do coito, além de Gato e Inacinha, via-se também os bandoleiros Pancada; Mangueira; Peitica (irmão de Mangueira); Maria Jovina, companheira de Pancada; e mais dois cachorros. Como a mulher de Gato estava grávida de 8 meses, todo cuidado era pouco, por isso a necessidade de uma segunda figura feminina na hora. Bezerra e Aniceto davam os direcionamentos. À disposição da força, se encontravam duas metralhadoras.

Quando estavam para fechar o cerco, preparando a tocaia, os cães escutam o chacoalhar dos soldados no mato, começando a latir para a tropa. Já vendo que não dava mais para fazer o elemento surpresa, o comandante manda abrir fogo contra o grupo, e este reage da mesma forma. Uma intensa fuzilaria tomou de conta do som, e a fumaça dos tiros tomou de conta da região. Os cangaceiros iam correndo, parando, atirando e resistindo; já a polícia ia seguindo, parando, atirando e rechaçando a trupe. Em certo momento uma cangaceira se encontrava caída no chão, baleada, enquanto outro bandoleiro a levantava, segurando-a nos braços, levando embora do combate. A troca de tiros era tanta, e a força gasta para levar a mulher no colo, que fez o homem deixá-la no chão, enquanto urrava de dor e ódio por ter feito aquilo. Ela, mesmo ferida, ainda conseguiu andar 1km até cair novamente. A bandida era Inacinha, e o bandido, Gato.

No fim do combate, além de terem apreendido a jovem moça, a força alagoana adquire os espólios de guerra, que seria apetrechos de roupa, farta munição, uma máquina de costura, um fuzil que tinha dezesseis moedas de prata costuradas na bandoleira e os dois cachorros. Pensando no bem-estar de Inacinha, pelo seu estado de gravidez e pelo ferimento de bala no quadril (que não ofendeu o osso e tampouco a criança), João Bezerra parte com o seu comando para a cidade de Olho D’Água do Casado/AL, que dista 18 quilômetros, para primeiros tratamentos. Chegando por lá, às 08h30, manda um telegrama para Piranhas dizendo: “ataquei cangaceiros. Estou com mulher baleada. Cangaceira Inacinha. Tenha cuidado, todo cuidado.”.

Não precisava de uma bola de cristal para saber que tal atitude poderia culminar numa retaliação maior dos mal feitores. Bezerra acaba entregando e percebendo isso, com o final “tenham cuidado, todo cuidado”. Continuemos, agora, com a drástica visão dos bandoleiros.

𝐑𝐞𝐯𝐢𝐝𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐝𝐨 𝐦𝐞𝐬𝐦𝐨 𝐩𝐞𝐬𝐨: 𝐚 𝐚𝐣𝐮𝐝𝐚 𝐝𝐞 𝐌𝐨𝐝𝐞𝐫𝐧𝐨, 𝐂𝐨𝐫𝐢𝐬𝐜𝐨 𝐞 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐮𝐞̂𝐬.

Margeando o horário de 06h00 para 06h30, após os cinco integrantes terem sobrevivido ao combate, procuram de imediato os outros cangaceiros que por perto estavam. Eram os chefes Corisco, Moderno e Português. Os três, ao todo, comandavam cerca de dezessete cangaceiros (11 homens e 6 mulheres). Todos relataram o ocorrido, enquanto Santilio (o Gato) urrava, gritava, xingava e chorava. Queria a todo custo pegar sua companheira, rogando apoio dos camaradas. Em certo momento, Moderno afirma que não podiam fazer nada, pois possivelmente Inácia já estava a caminho de Maceió/AL, caso não tivessem parado antes em Piranhas. “Vamo intão invadi ela, cumpadi! Inacinha devi tá por lá. Se não, peguemo intão a mulher de Bezerra, qui também tá gravida!” falou Gato. Para satisfazer o desejo do colega, Moderno compra a ideia do baiano, da mesma forma fez Corisco e Português.

Ao todo, 25 cangaceiros e cangaceiras irão percorrer o caminho de sangue até a bendita e flagelada cidade. Naquela orda, eram: Gato, Corisco, Moderno, Português, Moreno, Jacaré, Mangueira, Peitica, Gitirana, Cobra Verde, Pontaria, Cruzeiro, Cocada, Tempestade, Pancada, Velocidade, Atividade, Canário, Dadá (companheira de Corisco), Durvinha (companheira de Moderno), Cristina (companheira de Português), Moça (companheira de Jacaré), Marina (companheira de Tempestade), Maria Jovina (companheira de Pancada) e Adília (companheira de Canário).

𝐎 𝐜𝐚𝐦𝐢𝐧𝐡𝐨 𝐝𝐞 𝐬𝐚𝐧𝐠𝐮𝐞 𝐟𝐞𝐢𝐭𝐨 𝐩𝐨𝐫 𝐆𝐚𝐭𝐨.

Santilio, ensandecido, parte na frente com o seu grupo, abandonando o restante. Era necessário correr para acompanhá-lo. Na estrada de terra que direcionava para a cidade ligada ao São Francisco, Gato encontra dois sertanejos próximos ao rio Pau de Arara, de região do mesmo nome. Eram Antônio Tirana e Lelinho (Lerinho ou Antônio de Lero), que estavam por ali cortando lenha com um machado. Pobres homens que faziam um tão bom trabalho, mas num horário tão ruim. Sem misericórdia ou tempo de conversarem, Gato pega a ferramenta de trabalho de um destes, mata-os com a mesma e, para finalizar, esquarteja-os com machadadas. As partes destes se encontravam espalhadas nos arredores. Estes foram as primeiras vítimas, as primeiras respostas de Gato por terem roubado o que era seu, descontando seu ódio em seres inocentes.

Emílio Ângelo, morador da fazenda Boa Vista, tinha ouvido os tiros que proviam de Picos. Premeditando que a coisa seria feia, monta em seu cavalo e sai desesperado para avisar aos vizinhos. Três quilômetros mais à frente, Gato iria fazer outra parada: a fazenda Cachoeirinha, onde morava João Celino Monteiro, coiteiro do mesmo. Por achar que este tinha o traído, culminando no tiroteio, o temido cangaceiro iria aplicar-lhe um corretivo. Próximo da morada, o mesmo avista Ângelo montado perto da cancela. O sertanejo, equipado com seus trajes de vaqueiro, galopa em desabalada carreira para fugir, quando escuta um tiro em sua direção. Era Gato que tinha disparado. Emílio abriu os braços e a bala pega em seu gibão, não o atingindo. Por sorte, correu e sobreviveu. Ali já marcava umas 07h00.

Na casa, se encontravam doze pessoas, todas parentes, mas nada de João Celino. Para descontar a raiva que sentia, Gato começa a fazer sua matança: tiros de fuzil ou revólver, facãozadas e episódios de homens e mulheres sangrados. O total foi de sete vítimas: Maria Ferreira, Manoel Ferreira, Delfina Ferreira, Ana Ferreira, Elísia Monteiro, Júlia Monteiro e Emiliano Monteiro. Uma das vítimas mulheres carregava um bebê na barriga. Vendo as aberrações que Gato praticava, Moderno chamou Corisco para que segurassem a matança, que ia de adulto para criança, uma grotesca carnificina. Ao impedir Santilio de matar um bebê que estava na rede, Corisco o repreende por tal atitude, dizendo que não era necessário tal barbaridade. “Elis pegaro minha muié com meu fio. Nem sei se estão vivos ou mortos. Se eu perco, pru quê os outros não pode perder?” respondeu fervorosamente o intrépido facínora.

Uma jovem mulher, que tinha também um menino em seus braços, vendo aquela cena toda fica perplexa, travada pelo medo. Por um resquício de compaixão, um dos cangaceiros que estavam acompanhando aquela caminhada mortal empurra a moça para fugirem, que se salvassem senão morriam lá. Foi necessário gritos e puxões para ela acordar, fazendo aquilo que o homem pediu.

Outra chamada de Emorgência, tinha levado um corte profundo da boca até a garganta e outros nos braços pelo dito bichano que virou onça. Dadá achou que ela morreria rapidamente, mas esta sobreviveu, conseguindo escapar com uma cicatriz que fazia-a lembrar amargamente do episódio. E mais um garoto, de 12 anos apenas, que recebendo uma bala na bochecha, se jogou bruscamente no chão para fingir-se de morto. Engatinhando lentamente, conseguiu escapar no meio da caatinga.

Após finalizar o caos que se propagou na fazenda, o grupo desce para Piranhas a cavalo, percorrendo cerca de 7 quilômetros.

𝐀𝐬 𝐩𝐫𝐢𝐦𝐞𝐢𝐫𝐚𝐬 𝐧𝐨𝐭𝐢𝐜𝐢𝐚𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐏𝐢𝐫𝐚𝐧𝐡𝐚𝐬 𝐫𝐞𝐜𝐞𝐛𝐞. 𝐎𝐬 𝐬𝐢𝐭𝐢𝐚𝐝𝐨𝐬 𝐬𝐞 𝐚𝐥𝐚𝐫𝐦𝐚𝐦. 𝐀 𝐜𝐡𝐞𝐠𝐚𝐝𝐚 𝐝𝐨𝐬 𝐛𝐚𝐧𝐝𝐨𝐥𝐞𝐢𝐫𝐨𝐬 𝐧𝐨 𝐥𝐨𝐜𝐚𝐥.

Na então vila, nada sabiam do que estava acontecendo nas cercanias. O senhor Francisco Rodrigues, apelidado carinhosamente de Chiquinho Rodrigues, se direcionava para a sua venda no mercado principal da localidade. Percebe que tudo estava calmo, meio vazio, sem nenhuma figura soldadesca nos arredores. Achou estranho. Ao passar o coronel Antônio de Britto, conhecido como Pai Nosso, nas portas do armazém de Chiquinho, é logo perguntado se sabia de algo para não ter policiamento na cidade. “Bezerra saiu meia noite para dar combate aos bandidos” afirmou o coronel. O mercador se espanta, mas logo se acalma; momentos como esse eram comuns por lá. Ficou Antônio, sentado na venda.

Às 08h30, o telegrafista de Piranhas recebe a mensagem do sargento sobre o ataque aos bandidos, que leva ao conhecimento de Antônio de Britto e Chiquinho. “É, pelo visto eles estão vindo pra cá. Ele que disse que é para ter cuidado!” explanou o coronel enquanto se levantava da cadeira. Não demorou muito e chega Emílio Ângelo cansado, com o cavalo escorrendo suor, já dando a parte de todo o acontecimento que ocorreu com Antônio Tirana e Lerinho, ainda falando que “Gato ficou ali matando uma família em Cachoeirinha”. A esposa de Chiquinho, Dona Nira, também estava de resguardo. O comerciante pega em sua venda duas caixas de munição e diz que irá para casa, pois a empregada o intimou para ver a sua filha e a sua mulher.

Chegando nela, sua mãe pergunta o que está acontecendo para ele chegar todo municiado. Explica que os bandidos chefiados por Gato e Corisco iriam invadir as moradas. Dentre tantos rogos, ela implora “meu filho, não se entregue!”, “não irei, mãe!”, e logo pede para que ela, sua esposa, sua filha e a empregada se protegessem no quarto, rezando; enquanto iam, o destemido rapaz subia para o segundo andar da residência.

Já com aquelas informações vindas do militar e do vaqueiro, a cidade se alarmou em pavor, com correrias e fechações de portas e janelas. Um jovem rapaz, chamado Abílio Bezerra, estava indo para a antiga casa de arreios que ficava próximo ao velho cemitério da cidade. Iria pegar um cavalo para fazer seus afazeres. Foi também avisado sobre a chegada desenfreada dos bandidos, que poderia morrer. Abílio levou o caso com humor, soberba, e continuou o seu trajeto. Ao chegar em seu destino, pega um cabresto e caminha pela estrada da Lagoa da Mulata, se deparando com o bando sinistro. De imediato é exigido que subisse no poste e cortasse os fios do telégrafo, para que não fossem mais recebidas ou enviadas mensagens de regiões vizinhas. Perguntam se tinha polícia por lá, recebendo a resposta que não. “Intão irá descer conosco como garantia. Se houver, vai ser o primeiro a morrer!” disse um dos chefes enquanto desciam pela estrada. Era quase 09h00.

𝐆𝐫𝐮𝐩𝐨 𝐝𝐢𝐯𝐢𝐝𝐢𝐝𝐨. 𝐀𝐬 𝐩𝐫𝐢𝐦𝐞𝐢𝐫𝐚𝐬 𝐭𝐫𝐨𝐜𝐚𝐬 𝐝𝐞 𝐭𝐢𝐫𝐨𝐬. 𝐎 𝐝𝐞𝐥𝐞𝐠𝐚𝐝𝐨 𝐞 𝐬𝐮𝐚 "𝐜𝐨𝐫𝐚𝐠𝐞𝐦".

Na entrada da cidade, o bando é dividido em dois: Pancada e o grupo de Português ficariam pelos morros do local, junto com as mulheres, dando cobertura aos demais; Moderno e seus seguidores desceriam junto com Corisco e Gato, percorrendo a rua principal (a atual Antônio Rodrigues). Acompanhariam na invasão as cangaceiras Maria de Pancada e Dadá, ambas com a corruptela de Gato e Corisco. 

Algazarra total nas calçadas. Bandoleiros gritando, rindo, atirando e proferindo ofensas. Tudo isso com o cangaceiro Gitirana soltando versos improvisados. Havia um grupo formado por moradores, na liderança de Joãozinho Carão, que tinha se entrincheirado nas lápides do campo santo,  onde conseguia observar as pedras e as ruas do local. Talvez dando de cara com Português nos lajedos, começaram a abrir fogo contra eles, iniciando aí os primeiros ensaios da dança. 

Nesse momento, Chiquinho já se encontrava protegido em seu sobrado, com as janelas abertas e de rifle na mão. Quando organizava as munições, avista o delegado Cipriano Pereira com mais oito soldados descendo a rua, correndo em direção ao rio; ou seja, fugindo. O Sr. Rodrigues convida-os para se alojarem com ele e resistir aos atacantes. O convite foi recusado imediatamente, afirmando que tinham pouca munição para combaterem. “Você que faz isso é um safado e covarde! Delegado de vergonha não corre!” retruca Chiquinho.  Seguem o mesmo destino dos fardados os paisanos Cícero Martins e Arthur Palmeira, metido a valente, que, próximos aos grotões íngremes, dão alguns tiros. Somente o jovem João Marcelino que se juntou com Francisco para confrontar os bandidos.

𝐀 𝐟𝐢𝐠𝐮𝐫𝐚 𝐡𝐞𝐫𝐨𝐢𝐜𝐚 𝐝𝐞 𝐂𝐲𝐫𝐚 𝐁𝐫𝐢𝐭𝐭𝐨 𝐞 𝐨 𝐭𝐢𝐫𝐨 𝐪𝐮𝐞 "𝐦𝐚𝐧𝐬𝐨𝐮" 𝐨 𝐛𝐢𝐜𝐡𝐚𝐧𝐨.

Chegando à rua Delmiro Gouveia (a provável rua Antônio Rodrigues), se encontrava a casa de João Bezerra, onde Cyra Britto via-se sozinha e em seu primeiro período de gravidez. Cyra, presenciando aquela situação, corre para fechar as portas e janelas que estavam abertas, quando aparece um cangaceiro solo, perto de um pé de planta, ameaçando-a de morte. Encostada na parede e com calma, a valente Britto pega um rifle e atira contra o bandido, ocorrendo mais uma troca de tiros na localidade. Era 10h30.

O restante ia percorrendo ainda mais a rua principal, parando na casa que pertencia a Totonha Seixas Britto (ou Totonia), irmã do prefeito. Invadem-na, encontrando somente a mulher, suas filhas e um filho, João Seixas Britto, de 16 anos. Corisco pergunta se tinha homem (de briga) na casa, onde é avisado que não. Pergunta novamente se tinha polícia, e recebe a negativa como resposta. “Intão esse menino vai ser nossa valia! Se houver, morre!” e levam o jovem Britto como mais um refém, deixando a mãe aos prantos. O caminho, agora, seria a delegacia da cidade, possível local em que a amásia estava. Ainda trocando tiros com os poucos que se arriscavam, os cangaceiros vão chegando no edifício, não encontrando a mulher. “Vamo imbora daqui, Gato. Não tem nada pra nois pur cá!”, grita Cristino, o Corisco, enquanto protegia as costas dos bandidos. “Antis, quero tocar fogo no mercado, cumpade!” fala Santilio.

No momento em que este vai caminhando pela ladeira direcionada aos armazéns, é atingido na espinha por uma bala vinda de uma casa. O cangaceiro cai no mesmo momento, gritando “matou-me, fi da peste!”, largando de banda seu fuzil. Quem tinha o acertado foi Chiquinho em seu sobrado, como uma cobra esperando sua presa chegar para dar o bote.

𝐎 𝐟𝐮𝐦𝐚𝐜𝐞𝐢𝐫𝐨 𝐧𝐚𝐬 𝐣𝐚𝐧𝐞𝐥𝐚𝐬 𝐝𝐞 𝐂𝐡𝐢𝐪𝐮𝐢𝐧𝐡𝐨. 𝐀 𝐦𝐨𝐫𝐭𝐞 𝐝𝐞 𝐉𝐨𝐚̃𝐨 𝐞 𝐀𝐛𝐢́𝐥𝐢𝐨. 𝐀 𝐛𝐫𝐮𝐭𝐚 𝐫𝐞𝐭𝐢𝐫𝐚𝐝𝐚 𝐝𝐨 𝐛𝐚𝐧𝐝𝐨.

Nesse interim, a trupe correu para acudir o ferido; uns pegando nos braços e pernas enquanto outros atiravam em direção a morada do Rodrigues. E ainda, vão descendo alguns cangaceiros pelas escadas existentes para chegarem à morada resistente. Jacaré, um dos que atiravam contra o destemido alagoano, acaba recebendo um tiro de raspão no pescoço. O fumaceiro dos fuzis de Chiquinho e Marcelino cobrem a visão das janelas. No momento do combate, Francisco acaba cortando os lábios e a mão devido ao coice da arma. Os bandoleiros já perto da entrada do sobrado ameaçam de invadir, e Chiquinho grita que se vierem levarão bala. Ao disparar inúmeras vezes pela porta e janela, os arruaceiros desistem de fazer tal proeza.

Ao ver o estado de Santilio, ferido e agonizando de dor, Corisco ordena que sangrasse João Seixas e que desse um tiro na cabeça de Abílio, ali naquele momento, de frente a delegacia, por terem sido “os responsáveis” por aquele episódio. Dadá e Maria Jovina estavam dentro de uma casa quando esse fato ocorreu, pedindo um copo d’água. Vendo o companheiro ferido, de urgência trazem uma cadeira para colocarem-no. Os cangaceiros já estavam se preparando para se retirarem com Corisco dando retaguarda pela esquina da prefeitura. Um tiro ecoa na rua, acertando os embornais de Cristino, fazendo-o rodopiar logo em seguida e descobrindo quem tinha feito aquilo. Era Cyra que tinha deixado de combater o outro bandido para brigar, agora, com o “loirão”. Outra chuva de balas cai na Lapinha do Sertão.

No alvoroço de saírem o mais rápido possível, subindo os íngremes caminhos da cidade, o tiroteio aumentava. Os bandoleiros se juntavam, revezando para levar o companheiro ferido. Virgínio, o Moderno, começa a passar mal pelo cansaço, tropicando nas pedras, sendo necessário algumas mãos para o sustentar. A salvação destes foi terem encontrado no meio do caminho um jumento carregado de lenha. Derrubam a carga e colocam Gato nele, com um cabra segurando em cada lado. Mais ao final da cidade, passando próximo ao cemitério, encontram outras montarias de jumentos, jogando agora o citado cangaceiro que “amarelou-se de febre”.

O relógio batia entre 12h40 e 13h00 quando os asseclas foram rechaçados. Tinham pegado novamente a direção da Lagoa da Mulata, passando próximo a casa de Emílio Ângelo (onde atiram em sua porta como represália), e se acoitam na fazenda Mogiana, nos rincões de Canindé de São Francisco/AL. Ali, Gato morreria oito dias depois.

Após o fim da investida cangaceira, a cidade se encontrava menos perturbada, porém, dava para ouvir os choros de alguns moradores. Chiquinho e João Marcelino, ainda eufóricos e começando a perceber que o perigo já tinha passado, contam as balas gastas. Totalizam 140. Com as armas, saem da residência para verem o estrago feito. Na rua da delegacia, viram a poça de sangue que Gato tinha deixado; ao lado, os dois rapazes assassinados pelos carniceiros. Identificando o seu compadre João como uma das vítimas, posicionado de cócoras, Rodrigues o puxa para cima e recebe um jato de sangue em suas roupas. Aos poucos vão saindo os habitantes de suas casas, todos se concentrando no palco maior do embate. Muitos eram parentes. Olhavam, choravam, cochichavam e rezavam. Se prontificaram, agora, de cuidarem do velório dos 11 mortos. Chegava todo assustado e melancólio o garoto Enéas na vila. Noticia como achou o corpo de seu pai, Antônio Tirana, e do colega Lerinho. Retalhados, em estado brutal, dignos de um filme de horror.

Sem as ações de Chico, Marcelino, Cyra, Joãozinho Carão e os demais corajosos, com toda certeza o desejo dos bandoleiros de destruírem a cidade seria perfeitamente concretizado. Heróis eu digo.

𝐂𝐡𝐞𝐠𝐚𝐝𝐚 𝐝𝐚 𝐭𝐫𝐨𝐩𝐚 𝐜𝐨𝐦 𝐚 𝐛𝐚𝐧𝐝𝐢𝐝𝐚 𝐜𝐚𝐩𝐭𝐮𝐫𝐚𝐝𝐚.

Às 20h00 da noite, chega a tropa de Bezerra em Piranhas com a baleada, levando-a primeiro para a prefeitura. Francisco entra e vai em direção a prisioneira. Com ela conversou um pouco, fornecendo também algumas mudas de roupa e um perfume para Inacinha. Depois, puxa o comandante para entender o motivo de não terem ficado na cidade, deixando-a descuidada e sem policiamento. Repetia que estava com a mulher baleada. “Que matasse essa peste, ou então deixasse ela num ponto!” disse Chiquinho. E assim ficou.

No dia seguinte, dia 29, a volante e a bandoleira são fotografadas na parte baixa da cidade, ao lado do mercado. Depois, é direcionada para a cadeia, permanecendo lá por algumas semanas, sendo tratada por um médico. Quanto ao seu bebê, dá a luz nas grades da prisão, mas sem vida, infelizmente. No dia 22 de outubro, é recambiada para Maceió/AL, chegando na capital no dia 24. Depois de entrevistada, fotografada e identificada, a companheira do finado cangaceiro é levada para a sela, permanecendo até meados de 1937.

Naquele dia, a fama do temido Gato fora apagada. A caça virou o caçador. Todavia, mesmo que o brado heróico da boca dos fuzis dos sitiados tenham falado mais alto, o carrasco do sertão conseguiu cessar a voz de singelos sertanejos, que nada tinham culpa, pelo seu gosto diabólico da vingança.


















𝐹𝑂𝑁𝑇𝐸𝑆: 𝐺𝑒𝑛𝑡𝑒 𝑑𝑒 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜: 𝐷𝑎𝑑𝑎́ 𝑒 𝐶𝑜𝑟𝑖𝑠𝑐𝑜 – 𝐴𝑛𝑡𝑜𝑛𝑖𝑜 𝐴𝑚𝑎𝑢𝑟𝑦; 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜: 𝑎𝑠 𝑀𝑢𝑙𝒉𝑒𝑟𝑒𝑠 𝑒 𝑜 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 - 𝐴𝑛𝑡𝑜𝑛𝑖𝑜 𝐴𝑚𝑎𝑢𝑟𝑦; 𝑃𝑖𝑟𝑎𝑛𝒉𝑎𝑠 𝑛𝑜 𝑇𝑒𝑚𝑝𝑜 𝑑𝑜 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 - 𝐺𝑖𝑙𝑚𝑎𝑟 𝑇𝑒𝑖𝑥𝑒𝑖𝑟𝑎; 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜 𝑒𝑚 𝑃𝑎𝑢𝑙𝑜 𝐴𝑓𝑜𝑛𝑠𝑜 - 𝐽𝑜𝑎̃𝑜 𝑑𝑒 𝑆𝑜𝑢𝑧𝑎 𝐿𝑖𝑚𝑎; 𝐶𝑜𝑟𝑜𝑛𝑒𝑙 𝐽𝑜𝑎̃𝑜 𝐵𝑒𝑧𝑒𝑟𝑟𝑎: 𝑜 𝐶𝑜𝑚𝑎𝑛𝑑𝑎𝑛𝑡𝑒 𝑑𝑎 𝑉𝑜𝑙𝑎𝑛𝑡𝑒 𝑞𝑢𝑒 𝑀𝑎𝑡𝑜𝑢 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜 - 𝑃𝑎𝑢𝑙𝑜 𝐵𝑟𝑖𝑡𝑡𝑜 𝑒 𝐵𝑒𝑛𝑛𝑒𝑟 𝐵𝑟𝑖𝑡𝑡𝑜; 𝑃𝑖𝑟𝑎𝑛𝒉𝑎𝑠 𝐴𝑙𝑎𝑔𝑜𝑎𝑠, 𝑃𝑜𝑟𝑡𝑜 𝑑𝑒 𝐻𝑖𝑠𝑡𝑜́𝑟𝑖𝑎𝑠 - 𝐽𝑎𝑖𝑟𝑜 𝐿𝑢𝑖𝑧; 𝐹𝑜𝑟𝑐̧𝑎𝑠 𝑉𝑜𝑙𝑎𝑛𝑡𝑒𝑠 𝑑𝑒 𝐴 𝑎 𝑍 – 𝐵𝑖𝑠𝑚𝑎𝑟𝑐𝑘 𝑀𝑎𝑟𝑡𝑖𝑛𝑠; 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐𝑒𝑖𝑟𝑜𝑠 𝑑𝑒 𝐴 𝑎 𝑍 – 𝐵𝑖𝑠𝑚𝑎𝑟𝑐𝑘 𝑀𝑎𝑟𝑡𝑖𝑛𝑠; 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜 𝑒 𝑜 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 𝑛𝑎 𝐻𝑖𝑠𝑡𝑜𝑟𝑖𝑜𝑔𝑟𝑎𝑓𝑖𝑎 𝑑𝑒 𝑆𝑒𝑟𝑔𝑖𝑝𝑒, 𝑉𝑜𝑙. 𝟏 – 𝐴𝑟𝑐𝒉𝑖𝑚𝑒𝑑𝑒𝑠 𝑀𝑎𝑟𝑞𝑢𝑒𝑠; 𝑀𝑜𝑟𝑒𝑛𝑜 𝑒 𝐷𝑢𝑟𝑣𝑖𝑛𝒉𝑎: 𝑆𝑎𝑛𝑔𝑢𝑒, 𝐴𝑚𝑜𝑟 𝑒 𝐹𝑢𝑔𝑎 𝑑𝑜 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 - 𝐽𝑜𝑎̃𝑜 𝑑𝑒 𝑆𝑜𝑢𝑧𝑎 𝐿𝑖𝑚𝑎; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐷𝑖𝑎́𝑟𝑖𝑜 𝑑𝑒 𝑃𝑒𝑟𝑛𝑎𝑚𝑏𝑢𝑐𝑜 – 𝟏𝟗𝟑𝟔; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐴 𝑁𝑜𝑖𝑡𝑒/𝑅𝐽 - 𝟏𝟗𝟑𝟔; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐷𝑖𝑎́𝑟𝑖𝑜 𝑑𝑎 𝑁𝑜𝑖𝑡𝑒/𝑅𝐽 - 𝟏𝟗𝟑𝟔; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐺𝑎𝑧𝑒𝑡𝑎 𝑑𝑒 𝐴𝑙𝑎𝑔𝑜𝑎𝑠 – 𝟏𝟗𝟑𝟔; 𝐶𝑎𝑛𝑎𝑙 𝐴𝑑𝑒𝑟𝑏𝑎𝑙 𝑁𝑜𝑔𝑢𝑒𝑖𝑟𝑎, 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 - 𝑌𝑜𝑢𝑡𝑢𝑏𝑒; 𝐶𝑎𝑛𝑎𝑙 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜𝑙𝑜𝑔𝑖𝑎 - 𝑌𝑜𝑢𝑡𝑢𝑏𝑒; 𝐶𝑎𝑛𝑎𝑙 𝑂 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 𝑛𝑎 𝐿𝑖𝑡𝑒𝑟𝑎𝑡𝑢𝑟𝑎 – 𝑌𝑜𝑢𝑡𝑢𝑏𝑒; 𝐶𝑎𝑛𝑎𝑙 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 𝐸𝑡𝑒𝑟𝑛𝑜 – 𝑌𝑜𝑢𝑡𝑢𝑏𝑒; 𝐵𝑙𝑜𝑔 𝑑𝑜 𝑀𝑒𝑛𝑑𝑒𝑠; 𝐵𝑙𝑜𝑔 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜 𝐴𝑐𝑒𝑠𝑜; 𝑆𝑒𝑚𝑖𝑛𝑎́𝑟𝑖𝑜 𝐶𝑎𝑟𝑖𝑟𝑖 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜: 𝑃𝑖𝑟𝑎𝑛𝒉𝑎𝑠; 𝑃𝑒𝑠𝑞𝑢𝑖𝑠𝑎𝑑𝑜𝑟𝑒𝑠 𝑒 𝐴𝑚𝑖𝑔𝑜𝑠: 𝐽𝑢𝑛𝑖𝑜𝑟 𝐴𝑙𝑚𝑒𝑖𝑑𝑎, 𝐶𝑒𝑙𝑠𝑖𝑛𝒉𝑜 𝑅𝑜𝑑𝑟𝑖𝑔𝑢𝑒𝑠, 𝐹𝑎́𝑏𝑖𝑜 𝑀𝑜𝑢𝑟𝑎 𝑒 𝑀𝑎𝑛𝑜𝑒𝑙 𝑆𝑒𝑣𝑒𝑟𝑜, 𝑆𝑒́𝑟𝑔𝑖𝑜 𝐷𝑎𝑛𝑡𝑎𝑠, 𝐷𝑗𝑎𝑙𝑚𝑎 𝑒 𝑀𝑜𝑎𝑏𝑒 𝑂𝑙𝑖𝑣𝑒𝑖𝑟𝑎.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O coito da Fazenda Quiribas...

 ... E a morte do cangaceiro Pau Ferro


Por Manoel Belarmino

Fiz a foto abaixo exatamente no local onde existiu o casarão da Fazenda Quiribas do Manoel do Brejinho, nas margens do Riacho Novo (extensão do Quatarvo), e também onde foi local de coitos de cangaceiros no tempo do Cangaço. Nas proximidades da fazenda, também foi morto o cangaceiro Pau Ferro, irmão do cangaceiro Colchete que morreu em Angico, em 1938.



Um grupo de cangaceiros, liderado por Corisco, Zé Sereno, Mariano e Mané Moreno, estava acoitado nas terras da fazenda Quiribas de Manoel do Brejinho, nas margens do Riacho Novo, próximo ao então povoado Poço Redondo, em 30 de janeiro de 1936. No grupo, além dos cangaceiros filhos de Poço Redondo e seus chefes, estavam também os perigosos Mormaço, Moita Braba e Juriti. O coito foi avistado pelo soldado Miguel Feitosa que passava por ali, em uma de suas idas para a Fazenda Badia dos Britto. Numa carreira só, o soldado fez meia volta e foi avisar ao comandante do destacamento, sargento Ernane, no quartel em Poço Redondo.

O comandante imediatamente chamou oito soldados para atacarem o coito dos cangaceiros. Vendo que havia muitos cangaceiros ali, mais de quinze, ainda à distância, dois soldados, Pedro e João Santana, dispararam contra os cangaceiros. Um tiro acertou o cangaceiro Pau Ferro que foi a óbito no local. Os soldados deram dois tiros e uma carreira, ou carreiras de todos, pois os cangaceiros reagiram rapidamente botando os soldados do comandante Ernane pra correr. Os cangaceiros não conseguiram alcançá-los.

Antes de deixarem o coito das Quiribas, os cangaceiros enterraram, ali mesmo embaixo de uma quixabeira, o corpo do cangaceiro Pau Ferro.

Depois que os cangaceiros deixaram o coito das Quiribas, os soldados retornaram ao local do coito e encontraram a cova de Pau Ferro. Desenterraram-no e obrigaram um rapaz de Poço Redondo, chamado Tonho Bioto, a cortar a cabeça do cangaceiro. O próprio Tonho Bioto colocou a cabeça de Pau Ferro, já em deformação, em uma lata de querosene e levou-a para o quartel em Poço Redondo.

O resto do corpo de Pau Ferro permaneceu enterrado ali na Fazenda Quiribas, nas margens do Riacho Novo (local hoje submerso na Barragem das Quiribas) e a sua cabeça, depois de exibida ao público, foi enterrada pelos soldados nas proximidades do quartel, onde era o casarão de China, na Praça da Igreja, hoje Praça da Matriz, no centro de Poço Redondo.

Depois da morte de Pau Ferro, os cangaceiros prometeram invadir Poço Redondo e destruir o quartel. A população do Poço e os soldados tremiam de medo. O medo era tão grande que numa certa noite um barulho do trotar dos burros de Julião Nascimento na Praça da Igreja fez os soldados e toda a população correrem da cidade e se esconderem no mato.

Ainda como vingança à morte de Pau Ferro, o grupo de Corisco e Dadá matou os soldados Cici e Antônio Vicente numa emboscada na estrada do Curralinho.

Assim se deu mais um pedaço da história do cangaço em Poço Redondo.

Poucos sabem que nas Quiribas, numa das margens do Riacho Novo, está enterrado o corpo do cangaceiro Pau Ferro e a sua cabeça, no centro da cidade, nas proximidades de onde era o quartel, na atual Praça da Matriz

sábado, 4 de novembro de 2023

"O Estado de São Paulo" - 7 de março de 1996

Quando Dadá conversou com Rosemberg Cariry

Por Helena Salem (Transcrição de Antonio Correia Sobrinho)

O status inconteste de Dadá, de verdadeira cangaceira, associado à sua forte ascensão e influência sobre o esposo Corisco, faz desta mulher, penso eu, mais do que imaginamos, mais do que uma simples cangaceira. Dadá foi a líder intelectual do grupo de bandoleiros comandado pelo seu marido. 
 
Condição esta que ela, nas inúmeras entrevistas dadas à imprensa ao longo de seus anos de vida pós-cangaço, conseguiu embora deixasse aqui e ali transparecer, não tornar claro esta sua real posição dentro do grupo, o que vejo como amplamente justificável, uma vez que todo cangaceiro sobrevivente usou de mecanismos de defesa, como, não dizer completamente de seus atos delituosos, para mitigar as suas responsabilidades. 
 
No caso de Dadá, também, quem sabe, para não tirar do seu amado o holofote maior da história.  Antonio Correia
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Sérgia da Silva Chagas, a Dadá, nasceu em 25 de abril de 1914, no interior de Pernambuco, e morreu em 7 de fevereiro de 1994, de câncer. O filho Silvio conta que, na noite de sua morte, chamou uma psicóloga do hospital em que estava internada em Salvador, pediu um batom e um pente para se arrumar “bem bonita”, porque tinha sido convidada para ir a uma festa com Jesus e não podia chegar feia”. Uma hora depois, morreu.
 
Vaidosa, corajosa, Dadá – que teve uma perna amputada em consequência dos ferimentos à bala no momento de sua prisão (ela saiu atirando com as duas mãos) junto a Corisco (ele morreu na mesma noite), em 1940 – foi depois anistiada e se casou de novo, com o empreiteiro Alcides chaves. Refez a vida, porém, não teve mais filhos. E continuou sendo, sempre, a mulher forte que se impôs frente a Corisco, conquistou o respeito e a amizade de Lampião, a admiração de todo o cangaço e até de José Rufino, o matador de cangaceiros, para quem ela era “brava como um homem”. 
 
Elogio maior, naquele ambiente tão machista, era quase impossível.
 
Entre 1989 e 1990, o diretor Rosemberg Cariri gravou em vídeo uma longa entrevista com Dadá. Seguem alguns trechos dessa entrevista inédita, na qual a ex-cangaceira fala, entre outros pontos, de seu amor por Corisco, da Coluna Prestes e de como era a vida das mulheres no cangaço.
 
Comunismo: “ouvia falar muito. De noite ficava todo mundo lá sentado e Lampião dizia: ‘Rapaz, se eu pudesse sair disso, se viesse aí um doido, uma revolução que abatesse esses miseráveis todos. Nós passava pra frente deles. Ah! Luiz Carlos Prestes. 
 
Nós encontrava com este homem, nós abre o mundo e vamos embora’. Eles falavam muito nisso, mas nunca apareceu nenhum. 
 
Quando aparecia, era pra matar. Mataram, mataram, aleijaram, acabou, pronto. Agora, tem muito cangaceiro aí bem de vida, os que se entregaram. São funcionários, os filhos são formados, vivem muito bem.”
 
Mulheres: “Era uma convivência maravilhosa. Todo mundo tinha seu marido. Um amor danado. Uma costurava, outra ajeitava um vestidinho, uma coisa. Uma vida bacana. Com Lampião ali, ninguém dava um nome, ninguém se "inxeria" com coisa nenhuma. Agora, se ela saísse fora da linha, o chumbo comia, matavam, como aconteceu com Cristina e Lídia.”
 
 
Maria Bonita (mulher de Lampião)
: “Era terrível, orgulhosa, metida. Era assim pequenina, toda redondinha, bem-feitinhas as pernas, mas pisava assim. Quer ver? Olhe no retrato, ela tem os pés pra frente. 
 
Orgulhosa, metida à besta, barulhenta. Só vivia com encrenca com um e com outro. Mas ninguém ligava, não. Era assim, bonitinha, alvinha, agora bacana era só ela, e queria ser mais.”
 
A relação com Corisco: “Eu tinha uma boa vida com Corisco. Era um homem bom. Nunca chegou um dia de falar comigo aborrecido. Quando ele queria dizer ‘não’, dia ‘não sei, você é que sabe’. Mas se ele dissesse ‘faça’, era o ‘sim’. Eu falava alto, eu xingava, vá pros inferno. 
 
Aí ele ficava com aquilo: ‘Fale baixo, num grita. Dadá, mulher pra ser uma mulher completa tem de ter modo até no pisar’ (...) Ele ficava dando risada, virava a cara assim pra num dar ousadia. E dizia: ‘Uma mulher é como uma flor, se a pessoa encosta nela, machuca.’ Ele dizia tanta coisa bonita pra mim, pra ver se me conformava. Mas eu era malcriada com ele.”
 
A vida no cangaço: “As mulheres não cozinhavam. Só se ela quisesse. Ela lavava tudo, botava tempero e entregava para eles cozinharem. Quando tava pronto, tava pronto. Aí vinha Lampião e eu dividir, porque Lampião tinha o povo dele e eu o meu. Maria não ia pegar em nada disso. Era bacana. Cada dia um cozinhava, outro lavava a panela, negócio tudo organizado. Não tinha de ‘não faço’. 
 
Chamava, era seu dia, tinha de fazer. Tudo limpinho, ajeitado, acabava de comer a gente dividia, mas mulher não ia para a beira do fogo. (...) Os cangaceiros eram muito amorosos, tinham tato carinho que eram capaz até de se esquecer das armas. Como teve muitos que morreram num descuido, entretido lá com mulher.”
 
Dadá, Corisco e Benjamim
 
A morte de Lampião: “Corisco ficou louco. Ele não era de chorar nem de falar, ficava calado. Mas ele parecia um maluco. Eu disse ‘deixa pra lá, Corisco’, mas ele falava ‘eu vingo’. Era quinta-feira e ele disse: ‘Se fosse os homens que tivessem morrido, não era nada demais, porque nós vivemo esperando isso. Mas uma mulher não se mata. Porque nem cem cabeças paga a de Maria.’ Aí foi quando ele fez aquele salseiro; eu quase nem consigo contar isso.”

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Jornal do Brasil, 11 de maio de 1977

 A contagem regressiva para a morte de Lampião

Uma Interessante Entrevista Com Joca Bernardo, o Homem Que em Agosto de 1938 Informou a Polícia Quem Conhecia a Localização do Esconderijo de Lampião e Foi o Responsável Pelo Massacre de Toda Uma Família, Perpetrado Pelo Cangaceiro Corisco, Que Buscou Vingar a Morte do Rei do Cangaço.

Autor do texto – Jornalista Roberto Vilanova – Maceió, Alagoas.

Fonte – O blog TOK DE HISTÓRIA informa que recebeu o material original dessa reportagem com o nome do autor, o número da página (12), mas sem a indicação de data de publicação e do nome do jornal, ou revista. Sabemos que o Jornalista Roberto Vilanova publicou reportagem semelhante no Caderno B do Jornal do Brasil, edição de 11 de maio de 1977, página 5, sugerindo uma época da publicação original desse texto, que agora apresentamos. Com Exceção das Fotos Originais da Reportagem, Todas as Outras Fotografias Aqui Publicadas, São de Responsabilidade do blog TOK DE HISTÓRIA.

A história não reservou para Joca Bernardo, quase 80 anos de idade, uma linha sequer. Mas é bem melhor assim, porque ele entrou para a história intima do sertão como traidor de Virgulino Ferreira  – o Lampião, e, talvez por arrependimento, recusou receber o prêmio maior pela delação: a patente de sargento da Polícia Militar de Alagoas. Por causa disso sua esposa, desde essa época, lhe abandonou depois de argumentar e tentar convencê-lo de que não deveria jogar fora a sorte. Como jogou, ela preferiu ir embora para São Paulo no primeiro pau-de-arara que cortou as estradas secas do sertão, não lhe dando mais notícias.

Mas não é fácil encontrar Joca, apesar dele viver discretamente no distrito do Piau, pertencente a Piranhas, a mais de 350 quilômetros de Maceió, porque o sertanejo é, também, antes e tudo, muito desconfiado. Aliás, a sua própria existência só é sabida por quem conhece a fundo a história de Lampião, como o presidente da Arena de Piranhas, Antônio Rodrigues, que lhe descobriu para essa reportagem.

A bela cidade de Piranhas, Alagoas, a margem do Rio São Francisco  
– Foto – Rostand Medeiros.
Medo da morrer
A troca de identidade, complementada pelos cumprimentos à mão estendida, durou pouco, mas Joca Bernardo mantinha-se olhando por baixo dos olhos, como se estivesse diante de um Tribunal. À pergunta se escondia com medo de morrer, respondeu que não. E explicou que era para evitar comentários que, na certa, iriam lhe trazer recordações. E ele não deseja recordar as inconveniências naturais de um traidor. Nesse pé a conversa se expandiu e tomou gosto, porque se Joca se manteve, durante todo esse tempo, calado, chega mesmo um momento, principalmente na sua idade, em que o peso da consciência rompe a barreira do silêncio que se impõe por conveniências. 

O silêncio é quebrado também pelo conflito interno que Joca passou a viver logo depois da morte de Lampião, não porque traiu o bandido, mas porque, para escapar da morte que Corisco espalhou como vingança, acabou delatando um inocente. Ou seja, disse a Corisco, com quem se encontrou mais tarde, que o vaqueiro Domingos Silvino, empregado do sogro do tenente Bezerra, é quem havia delatado Lampião à polícia. Corisco foi à casa de Domingos e matou ele, a mulher, uma visita e três só deixou vivo apenas o de menor idade, Antônio Silvino, que mora hoje em Piranhas e não quer ver Joca na sua frente.

Joca Bernardo.
Foi o próprio Antônio Silvino quem relatou o massacre a sua família e, conforme Corisco disse a seu pai, Joca é o único responsável. Silvino falou que um dos cangaceiros chegou a puxar o punhal para matá-lo, mas Corisco o conteve. Nessa época, ele, Antônio, tinha 6 anos de idade e recebeu a missão de conduzir, de burro, as cabeças de toda a sua família que deveria ser entregue ao tenente Bezerra, em Piranhas, com um bilhete atrevido.

Silvino Ventura tinha seis anos de idade quando viu sua família ser covardemente trucidada pelo famigerado Corisco na Fazenda Patos e foi obrigado a transportar em um animal as cabeças cortadas de seus familiares para a casa do tenente José Bezerra, em Piranhas. Faleceu de um acidente em Piranhas, no dia 30 de julho de 1985, aos 54 anos de idade.
“Quando eu passei pelas ruas de Piranhas era dia de feira. O Corisco juntou as cabeças dentro de um caçuá e mandou eu tanger o burro. Nas ruas o povo pensava que o sangue que escorria era carne de bol. E quando eu parei na porta do tenente Bezerra foi que juntou gente”, conta Silvino.

A casa extremada era a residência do tenente José Bezerra, 
para onde a criança Silvino Ventura trouxe as cabeças 
ensanguentadas de seus familiares dentro de um caçuá, 
transportado por um animal – Foto -Rostand Medeiros.
Nega tudo
Joca Bernardo nega a delação ao vaqueiro Domingos Silvino, mas confirma que se encontrou com Corisco. Até o seu relato do encontro – surpresa e, até mesmo, as circunstâncias dele, Joca parece não mentir. Mas na reprodução do diálogo ele acaba revelando uma certa frieza:
“Eu tava juntando o gado quando o Corisco pulou de cima de um lajedo. O Corisco e mais uns cinco cabras, inclusive a Dadá, que foi a minha salvação. Aí o Corisco falou se era verdade que tinham matado Lampião Eu respondi que ouvi dizer. Até ele disse: vou matar muita gente para vingar a morte. E vou começar logo por você. Aí a Dadá ”ó xente, home. Que história é essa? A gente mata quem tem culpa, inocente não,” relatou.

Ruínas da propriedade Patos, onde a família Ventura foi trucidada 
– Foto – Rostand Medeiros.
A História, segundo se sabe através do Sr. Antônio Rodrigues, de tradicional família de Piranhas e político influente na região, é bem diferente. Corisco soube que Joca havia traído Lampião e foi procurá-lo. No encontro, disse que ia matá-lo e Joca, com medo, falou que se morresse, seria inocente. E lamentou que tivesse servido de coiteiro para Lampião e, agora, “qual o pagamento que recebia?”. Corisco titubeou, principalmente diante da interferência de Dadá, e resolveu tirar a história a limpo. Foi então que Joca Bernardo lembrou, maliciosamente, “onde Lampião teria passado antes de ir para Angicos”, seu até então inexpugnável esconderijo.

Lampeão, antes de atravessar o rio São Francisco, passou na fazenda do sogro do tenente Bezerra (o fazendeiro Antônio Brito). Com isso, Joca quis insinuar que o vaqueiro Domingos Silvino Ventura, sempre à disposição para cumprir ordens fazer recado do bando, teria denunciado os planos de Lampeão de se alojar em Angico por alguns dias. A verdade é que Corisco aceitou a justificativa, se não teria evitado o massacre da família Silvino Ventura, de quem sobrou, a propósito, apenas Antônio Silvino, o filho mais novo, na época, do vaqueiro.

Corisco.
Traição a Lampião
Na verdade, Joca Bernardo não tinha nada contra Lampeão – a quem ajudava, na medida do possível, para poder ir levando a vida sem ser molestado pelo seu bando, se bem que tivesse de enfrentar as inconveniências da polícia que sempre se confundia, pelas arbitrariedades cometidas, com os cangaceiros, às vezes, praticando horrores em nome da Lei que a bem da verdade era material, porque estava simbolizava na mira de um fuzil “bem azeitado e municiado”.

Assim, dentro do possível ou de acordo com os conformes, Joca e tantos outros coiteiros se prestavam ao serviço de acoitar Lampião e seu bando porque não tinha mesmo escolha. E entre ser morto pelos cangaceiros ou pela polícia, o que dá, no fundo, no mesmo, era preferível morrer tentando ser fiel a Deus e ao diabo, mesmo sem se saber quem era quem. Ou seja, quem era Deus e quem era Diabo.

Pedro de Cândido.
Mas como a miséria só quer começo, um dos maiores coiteiros de Lampião, Pedro de Cândido – ninguém duvidava da sua ligação com Lampião, mas Pedro vivia imune em Piranhas, no dia em que os cangaceiros se arrancharam em Angico, foi comprar queijo que Joca fabricava. E apesar de sempre levar dinheiro suficiente, dado por Lampião acabava usurpando o chefe e não pagava as mercadorias, o que criava, naturalmente, um clima de animosidade não só para ele, como para o bando.

Tiro fatal

Naquele dia, porém, Pedro de Cândido, inadvertidamente, engatilhou a arma que desfechou em Lampião o tiro fatal. Utilizando-se da fama de valente, talvez imposta pela condição de coiteiro chefe de Lampião, Pedro bateu à casa de Joca Bernardo para comprar “todos os que queijos que tivesse na hora ou a fazer durante os próximos 15 dias”, que era o tempo de descanso dos cangaceiros.

– Foto – Rostand Medeiros.
Joca respondeu que tinha uma encomenda de queijo do Juiz de Pão de Açúcar e não podia ceder o volume já encontrado pronto. O argumento não foi levado em consideração, porque Pedro de Cândido retrucou abusado: – “Cabra safado, eu tou pedindo o queijo e não quero saber de história. Vou levar tudo agorinha mesmo”, recorda Joca.

Apesar de se saber que Pedro era coiteiro de Lampião Joca ainda duvidou para quem seria tamanho carregamento de queijo até que descobriu:

– “Eu pensei assim” – conta ele – “o Pedro não negocia e se quer tanto queijo só pode ser pra muita gente. se é para Muita gente, Lampião tá por aqui.”

Ruínas da propriedade Patos – Foto – Rostand Medeiros.
Joca não reagiu e Pedro de Cândido levou todo o carregamento de queijo que havia sido encomendado pelo Juiz de Pão de Açúcar. Mas naquele mesmo dia o sargento Aniceto, que tinha ficado em Piranhas, enquanto o coronel Lucena, o tenente bezerra e o aspirante Chico Ferreira saíram em diligência por Delmiro Gouveia, atrás de Lampião foi informado da situação. O relate ainda é de Joca.

“Eu fui procurar o tenente Bezerra, mas ele não estava. Encontrei o sargento Aniceto e lhe contei: sargento, saber eu não sei não senhor, mas o senhor quiser saber onde Lampião tá escondido, aperte o Pedro de Cândido que ele diz. Agora só digo uma coisa ao senhor: Lampião está aqui por perto e não veio com pouca gente não. Têm uns 100 homens com ele. E contei também o caso dos queijos que o Pedro me tomou.”

Muro formado por pedras na propriedade Patos. – 
Foto – Rostand Medeiros.
A partir daquele momento começou a contagem regressiva da vida de Lampião e seu bando. Mas como o próprio Joca admite a delação não tinha a intenção de trair Lampião porque, do jeito que até hoje alguém afirme que o cangaceiro não morreu, naquele tempo acreditava-se na sua imortalidade, pelo menos à bala ou à faca. Joca desejava que Pedro levasse uma surra, através do “aperto” da polícia, e não admitia que a polícia desse fim a Lampião, porque o bandido sempre escapava aos cercos ileso, Mas não foi assim: o cangaceiro morreu mesmo.

Recusa

O sargento Aniceto se encarregou de assegurar junto ao tenente Bezerra e ao coronel Lucena o trabalho decisivo de Joca Bernardo, ajudando à Polícia. Aí os dois oficiais chamaram Joca a Piranhas e anunciaram o prêmio: 5 contos de réis e a patente de sargento da Polícia Militar de Alagoas, que lhe seria dada pelo Governo do Estado. Joca recusou as divisas e aceitou apenas o dinheiro, que acabou não recebendo em toda sua totalidade.

– “Eu acho que o Governador mandou o dinheiro todo, mas o portador ficou com um pedaço. Eu só recebi 1 conto e réis,” relembra.

Bela região do Rio São Francisco – 
Foto – Ricardo Trigueiro Morais.
Ele recusou as divisas de sargento, porque teria de vir morar na Capital e um sargento, naquela época, não ganhava suficiente para sustentar uma família. Então, Joca preferiu continuar tangendo gado e fazendo queijo, sem pagar aluguel de casa e sem ter outros gastos que naturalmente teria de assumir se mudasse de cidade e de vida. Mas sua mulher não aceitou a argumentação e como não pôde fazê-lo receber a patente, preferiu abandonar a casa. Foi morar em São Paulo.

Por ironia, quem recebeu as divisas foi o Pedro de Cândido. Joca, que pensava em se vingar da sua violência, não só lhe proporcionou a reaproximação com as autoridades de Piranhas e de Alagoas, como lhe deu a própria chance de ser autoridade, porque logo em seguida ser incorporado à polícia como sargento, Pedro foi nomeado delegado no sertão. E morreu assassinado por culpa, ao que se sabe, de seus dotes de “dom Juan”, sem que lhe respeitassem, ao menos, a posição de delegado.

Joca amarga a fama de traidor – na verdade o traidor é ele mesmo e se não fosse a aposentadoria do Funrural, engordada pelo frete que consegue tangendo urro carregado d’água, estaria na miséria. Sequer conseguiu o intento de fazer Pedro de Cândido levar uma surra porque Pedro, ao ser preso, não reagiu e nem foi difícil contar o esconderijo de Lampião.

Pescado no Tok de História

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Jornal "A Noite" 5 de agosto de 1938

A chacina da Fazenda Patos

Transcrição de Antonio Correia Sobrinho

Arrastadas pelos cabelos para a degola! Depois da formidável chacina perpetrada com inomináveis requintes de crueldade, Corisco" e seu bando dançam alegremente ao som do realejo - Poupadas à sanha assassina "para contarem história.

PEDRA (Alagoas), 5 (Dos enviados especiais de A NOITE) – Segundo informações aqui recebidas em Piranhas, “Corisco”, à frente de um grupo composto de oito pessoas, inclusive duas mulheres, foi visto ontem na fazenda Bem-Feita, em Mata Grande. A polícia do Estado, através de suas forças volantes, já está no encalço, nesta direção.


Refere-se também que o assalto à fazenda dos Patos, de propriedade do sogro do capitão João Bezerra, foi realizado sem se disparar um tiro sequer. Todas as vítimas foram degoladas vivas pelos bandidos, o vaqueiro Domingos, sua mulher e três filhos cujas cabeças foram mandadas para o capitão João Bezerra, na falta de prefeito de Piranhas, ausente no momento.
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PIRANHAS (Alagoas), 5 (Serviço especial de A NOITE) – O assalto do grupo de “Corisco” à fazenda dos Patos foi realizado pela madrugada. Os bandidos puderam assim aproximar-se sem serem pressentidos, atacando de surpresa as vítimas. Seis pessoas, como já informamos, foram então decapitadas, sendo as cabeças enviadas ao capitão João Bezerra. Acompanhava os despojos, que incluíam duas cabeças de mulher, o seguinte recado: “As cabeças destas mulheres pagaram as duas mortas”.

O grupo de Corisco, depois da chacina, conseguiu montada na própria fazenda, batendo em retirada. Comunicado o fato às autoridades, saiu em perseguição do grupo o sargento Aniceto, que, anuncia-se, já conseguiu a pista dos bandidos.
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IMPRESSIONANTE! – O FESTIM SINISTRO

PIRANHAS, 5 (Dos enviados especiais de A NOITE) – Urgente – Acabamos de chegar a Piranhas, a cidade do interior alagoano que Corisco escolheu para palco do seu sanguinolento revide pela morte de Lampião. Ainda todos os habitantes da localidade se encontram sob a penosa impressão do monstruoso crime. Ouvimos, a respeito, o Sr. Manoel João da Costa, cunhado do vaqueiro Domingos José Ventura, o infeliz morador da fazenda dos Patos que encontrou morte horrível, juntamente com toda a sua família, nas mãos ávidas de vingança do bandoleiro Corisco e seu bando.

Ainda tomado de profunda emoção, o Sr. Manoel João da Costa, narrou-nos o drama tremendo, verdadeiro festim de sangue e horror.
Demos a palavra ao nosso entrevistado:

- “Corisco” chegou noite fechada já na fazenda dos Patos. Eram mais ou menos oito horas. Ao estrepito dos bandoleiros, que se aproximaram como demônios batendo as coronhas das armas no terreiro, a família do vaqueiro Ventura acordou em pânico. Mas nada mais era possível fazer; nem fugir! “Corisco”, à frente do bando, com os olhos verdes fuzilando de ódio, ordena rispidamente à mulher e à filha do morador:

- Faça café para todo o pessoal!

Em seguida, apontando para o vaqueiro e seu filho Manoel, ordena aos seus “caibras” que os levem para trás do curral, o que é feito imediatamente, sem qualquer gesto de resistência dos prisioneiros.
Os dois homens são amarrados e arrastados para fora.

No local escolhido, “Corisco” então contempla mais uma vez com uma expressão de sinistro sarcasmo as duas vítimas e, em voz ríspida, grita para os seus homens, que já haviam desembainhado os punhais agudíssimos:

- Degolem esses bandidos!

HEDIONDO!

- Uma angustiada expressão de desesperança perpassa pelas fisionomias dos homens que iam ser imolados. Inútil qualquer apelo a quem já perdeu o último resquício de bondade humana.
Os cangaceiros escolhidos para carrascos apressam-te para a tarefa macabra. Fuzilam os punhais na meia luz do luar. Rápidas como raios, as lâminas cortam o espaço e duas cabeças tombam sobre a terra, entre golfadas de sangue. Os troncos decepados oscilam ainda uma última vez e caem pesadamente sobre o solo empapado de sangue.

ÓDIO DE BANDIDO

Não satisfeitos em sua insaciável sede de vingança, “Corisco” e seus homens, depois de amaldiçoarem em altos brados as vítimas indefesas, voltam à casa, onde tinham ficado os outros “caibras”, guardando os demais moradores. Um frêmito de horror circula pelo sistema nervoso daquelas pobres criaturas, ao verem de volta o sombrio “Corisco”, cujas pupilas com um ódio inextinguível.

Chegou a vez dos filhos do vaqueiro Ventura: José, solteiro, e Odon, casado. Os facínoras amarram-lhe as mãos para trás, conduzem-nos para o terreiro, e aí, entre imprecauções demoníacas, degolam-nos de um só golpe, com a sua alucinante maestria de sangradores.

AGORA AS MULHERES!

- Agora as mulheres! – grita “Corisco”, enquanto seus homens agarram pelos cabelos a mulher e a filha do vaqueiro, Guilhermina Nascimento Ventura e a jovem Waldomira Ventura.
- Vocês vão pagar a morte de Maria Bonita e Enedina – diz o bandido olhando para as mulheres.
Nenhuma sombra de piedade naquelas fisionomias que só o ódio sabe fazer vibrar. As mulheres são brutalmente arrastadas para fora, e ainda o feroz “Corisco”, com a sua impassibilidade desumana, ordena e assiste ao seu degolamento.

MÚSICA!

- Parece momentaneamente aplacada a cólera do chefe. Seus cabeças jazem sobre o solo, imobilizadas numa última expressão de angústia e sofrimento. Mas nada comove o bandoleiro empedernido. Gritos de satânica satisfação atroam os ares. É a alegria das feras saciadas. Os bandoleiros estão superexcitados. Voltam à casa, no meio de um vozerio infernal. “Corisco” ordena então que se comemore condignamente a vingança.

Manda transformar em salão de baile a sala da casa assaltada. E, estimulados pela cachaça, entregam-se a desenfreadas manifestações de alegria, dançando e gritando. Alguns dos bandidos trazem violas e realejos com que animam a dança. É um festim macabro. Pantomina de horror e sangue. Farândula de demônios alucinados.

O SAQUE – BILHETE AO CAPITÃO BEZERRA

- Quando se dão por satisfeito, “Corisco” ordena o saque geral da fazenda, depois do que dá instruções para a retirada. Dirigem-se todos para a fazenda Pedrinhas, próxima à fazenda dos Patos, pertencente também ao Sr. Antônio José de Brito, vulgo, “coronel Antonio Menino”. Aí então “Corisco” redige uma carta injuriosa e violenta ao capitão Bezerra, endereçando-lhe as cabeças sangrentas. Entrega o bilhete ao portador, que foi o vaqueiro João Crispim Moraes, dizendo:

- Vá entregar isto ao tenente Bezerra. Diga a ele para comer uma, frita. Na falta dele, entregue ao prefeito.

POUPADOS PARA CONTAREM A HISTÓRIA!

- Os bandidos deixaram vivos três outros filhos do vaqueiro Ventura: Antonio, de doze anos, Silvino, de dez e Carmelita, de onze.

Por isso, ao despedir-se do portador da macabra encomenda, “Corisco” acrescentou:

- Os meninos ficaram para contar a história. Mas brevemente voltarei para matá-los, pois faço questão de extinguir toda a raça daquele vaqueiro traidor, que nos denunciou à polícia.
As cabeças foram enterradas no cemitério da cidade, sendo que aos corpos foi dada sepultura cristã na fazenda Patos.




 Os meninos com o jornalista Melchiades da Rocha
Acervo Robério Santos

O vaqueiro tão tragicamente trucidado tem ainda uma filha que reside em companhia da família do “coronel Menino”. Receia-se aqui nova façanha dos bandidos, que prometeu vingar a morte de Lampião impiedosamente.

Na carta dirigida ao tenente Bezerra enviando as cabeças, diz “Corisco”: “Matei duas mulheres para vingar a morte de Maria Bonita e Enedina.

A esposa de Odon Ventura, que também se encontrava na casa assaltada, foi perdoado pelos bandidos em virtude de ter dato à luz há oito dias. A criancinha também nada sofreu. Os três filhos sobreviventes do vaqueiro que foram mandados por “Corisco” juntamente com as cabeças de seus pais e irmãos, nada quiseram declarar.

Seguimos viagem para Angicos


Na mesma edição do dia 05/08/1938, este mesmo jornal, sobre a chacina na fazenda Patos, publicou notícia de uma outra fonte, a Agência Nacional, nos seguintes termos:


MACEIÓ, 4 (Agência Nacional) – A população desta capital continua sob a forte impressão da vindita tomada por Corisco e seu bando, composta todo ele dos fugitivos da fazenda Angicos. Os jornais dão amplo noticiário do fato sangrento. Conhecem-se, agora, os mortos da fazenda de Patos, onde Corisco chegou de surpresa, não tendo sido possível nenhuma resistência.

Chegou e não conversou. Amarrou todas as pessoas encontradas, em número de seis, fuzilou-as, cortando, depois as cabeças e mandando-as num saco para o prefeito de Piranhas, com um bilhete, no qual dizia que as onze cabeças da fazenda de Angicos fariam rolar muitas outras. O saco com o presente macabro foi levado por uns caboclos, que chegaram a Piranhas pela madrugada. Esses caboclos, que vivem nas redondezas onde se deu a chacina, foram obrigados a cumprir a tarefa, sob a ameaça de que se não levassem o saco e não o depositassem no lugar determinado, mais tarde seriam sacrificados e decapitados.

O saco foi encontrado pela criada do prefeito, no batente da porta da rua. Alarmada, a empregada saiu correndo e gritando. As pessoas da casa vieram ver o que se passava, e deram com aquela coisa horrível. O prefeito de Piranhas também foi ver e deparou com as cabeças, empapadas em sangue e terra. A notícia espalhou-se com rapidez, e dentro em pouco a residência do chefe do executivo municipal estava cercada por uma multidão de curiosos, que ali ficou comentando a trágica represália, entre indignada e transida de pavor.

BRUTAL!

MACEIÓ, 4 (A. N.) – As pessoas mortas e decapitadas na fazenda de Patos pelo bandoleiro Corisco, em revanche à morte de Lampião, foram o vaqueiro do coronel Antonio Brito, sua mulher e quatro filhos menores. A família do proprietário da Fazenda lá não se encontrava. Mas a vingança foi tirada, somente porque essas pessoas trabalhavam para o coronel Brito, que é, como já mandamos dizer, avô da esposa do atual capitão João Bezerra. Corisco, entretanto, depois de sacrificar seis vidas inocentes, num ato de incrível barbaridade, incendiou a fazenda, que é, agora, por informações de pessoas vindas de lá, um campo ressequido e devastado.

NO COMANDO DAS FORÇAS VOLANTES

MACEIÓ, 4 (A. N.) – O primeiro-tenente Francisco Ferreira de Mello, por determinação do coronel Lucena, assumiu o comando das tropas volantes, que saíram em perseguição do novo bando de cangaceiros, chefiado por “Corisco”.

 Silvino Ventura, filho de Domingos Ventura
morreu vitima de um acidente em Piranhas, 
em dia 30 de julho de 1985, aos 54 anos.


Imagens: Acervo Lampião Aceso.