Mostrando postagens com marcador Jurity. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jurity. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 24 de junho de 2020

E Jurity volta aos tribunais

Veja decisão de Juíza quanto a processo que pedia por censura de filme sobre o chefe cangaceiro

"Memória histórica coletiva se sobrepõe a interesse individual", diz juíza

O interesse coletivo à formação e à informação por meio da base histórica se sobrepõe aos direitos individuais. O entendimento é da juíza Gardênia Carmelo Prado, da 2ª Vara Cível de Aracaju (SE), em decisão proferida no último dia 3 de junho.


 Da esquerda pra direita, Barra Nova, Neném, Jurity e Gorgulho


A magistrada extinguiu, com resolução do mérito, uma ação que buscava condenar a Google e um professor de Sergipe pela publicação de dois vídeos que narram o assassinato dos cangaceiros Jurity e Neném.

Segundo o material, os cangaceiros foram mortos por uma tropa volante comandada pelo sargento Amâncio Ferreira da Luz, conhecido como sargento De Luz. As filhas do militar solicitaram que os vídeos fossem apagados e que os réus pagassem reparação por danos morais.

"O ponto atinente ao direito ao esquecimento, invocado pelas autoras como fundamento da lide e pedidos, quanto às ações laborais do pai envolvendo o cangaço, não pode ser aplicado nesta situação. Nas linhas de narrativa histórica de âmbito nacional ou local com relevância cultural, como foi a do cangaço e de outros movimentos destacados, não pode vigorar e ter seus efeitos ativados esse direito ao esquecimento, mecanismo de extirpação dos registros da história para certas pessoas e em certas situações", afirma a decisão.

Interesse público

A juíza argumentou que, em casos como o julgado, cabe ao magistrado analisar se existe interesse público atual na divulgação da informação. Caso ele exista, não é possível aplicar o direito ao esquecimento.

"Não há como apartar os fatos históricos dos personagens que os marcaram nesta situação em especial, justo porque a atribuição do fato se voltou para o grupo militar identificado pelo seu comandante — cujo nome e fama são emblemas da história do segmento — e extirpar tal dado da narrativa histórica feriria de morte a própria compreensão da história do cangaço, seu contexto, suas ambiências etc. Assim seria também se outros personagens fossem extirpados ou ocultados dessas narrativas", diz.

Sendo assim, prossegue a decisão, a publicação dos vídeos não possui nenhum ato ilícito, uma vez que o material apenas publiciza conteúdo histórico, informativo, fruto de extensa pesquisa, sem sequer trazer menção expressa ao pai das autoras.

"Sem desonrar os sentimentos por ambas [as autoras] experimentados e a veracidade com que devem ser considerados, os vídeos que trazem o conteúdo desse sofrimento não são senão mais uma menção histórica que envolve o nome de parente próprio das mesmas, como um registro inevitável da história da qual aquele participou — nesse caso, emprestando o nome ao agrupamento que comandava. E mesmo que, por hipótese, houvesse a imputação expressa e direta dos fatos ali narrados ao pai das autoras, a imputação em si, numa fiel e desapaixonada narrativa histórica, não seria capaz de ensejar uma indenização, justo por se tratar de conteúdo histórico elaborado e apresentado, em tese, sem intuito algum de ofender, mas tão somente de informar e formar", conclui.

Clique AQUI para ler a decisão
0044386-18.2018.8.25.0001


Publicado originalmente no Portal Conjur

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Os últimos dias de um reinado

 O cerco se fechava

Por Sálvio Siqueira

Desde o segundo meado do séc. XVIII que o cangaço infestava as terras nordestinas. O Fenômeno Social surgiu na zona canavieira pernambucana e, aos poucos, migra para o interior do Estado das Alagoas numa época denominada na História como “A Era do Couro” e, em sequência, estende-se aos sertões dos Estados vizinhos.

O interior pernambucano, mais precisamente a microrregião Pajeú das Flores, torna-se um verdadeiro celeiro de cangaceiros. Porém, da Paraíba, Ceará, Rio Grande do Norte, Sergipe, Bahia e do próprio Alagoas, começam a surgir inúmeros bandoleiros por ‘n’ motivos. Nesse tempo, final do Império e início da República Velha, o sertão nordestino estava infestado por esse tipo de banditismo. As autoridades dos vários Estados da Região Nordeste assolados pelos bandos fazem de tudo para darem fim, ou pelo menos diminuírem, esse tipo de criminosos rurais, sem conseguirem seus intentos.

Ocorreram vários fatores que impediram o extermínio dos bandos de bandoleiros naquela época. O contingente das Províncias, depois Estado, não era grande, e o pouco que tinham não poderia enviá-las para o foco do problema para não correrem o risco de ações criminosas nas zonas urbanas que também viviam abarrotadas de problemas inclusive com imigrantes dos interiores. As longas e cruéis estiagens deixavam quase que impossível algum ser humano viver, ou conviver, dentro da caatinga.

Não havia água nem comida disponível para abastecer as tropas.

A comunicação via telégrafo não existia em todo lugar. As volantes sabiam de onde iriam partir, porém, jamais sabiam para onde iriam nem tão pouco quando chegariam a algum lugar habitado. Os governadores até que tentavam, na medida do possível, abastecerem os locais com praças, no entanto, ocorre um grande problema causando o impedimento da continuação dessa ação devido o soldado, formado em outras terras e usando equipamento inadequado, adoecerem, principalmente dos pés ao ponto de não conseguirem prosseguir com as perseguições. A falta de estradas era outro empecilho que as volantes tinham para transporem. E outros problemas mais...

Volante atuando no Estado da Bahia


Além de todos esses problemas, havia o ataque nas emboscadas colocadas pelos bandoleiros abrindo brechas enormes nas fileiras das tropas.

O soldado não sabia em quem confiar, passando a usar um modo operante totalmente equivocado onde todo e qualquer roceiro eram suspeitos. Com essa maneira errada de trabalhar, em vez de conquistarem os sertanejos, conseguiram foi o seu afastamento e falta de colaboração. Vendo essa insatisfação dos sertanejos os chefes dos bandos usam de tática diferente. Protegendo, ajudando e respeitando vários deles, com outros usaram também a ‘moeda’ de troca de favores. Então começa a surgirem, a se criar, uma malha de protetores e colaboradores onde, mais tarde, essa mesmo é o fator principal da longevidade do Fenômeno Social. Essa “malha” foi alimentada por “favores”, dinheiro e proteção dos chefes cangaceiros. No decorrer do tempo, grandes latifundiários e produtores rurais começam a fazerem parte da mesma, assim como pequenos e grandes comerciantes e até militares. A falta de receberem o seu pequeno soldo, vários soldados desertam da Força Militar e se engajavam aos vários bandos nômades de bandoleiros levando seu fardamento, armas e munição.

Essa pirâmide de colaboradores tem sua maior extensão quando do cangaço implantado pelo chefe cangaceiro Virgolino Ferreira, alcunhado de Lampião, o “Rei dos Cangaceiros”, entre os anos 1918/19 e 1938, segunda personagem mais biografada na América Latina. Lampião não foi o criador da malha de colaboradores nem foi o criador da ‘guerra de movimentos’, mas foi aquele que mais a aperfeiçoou no decorrer de seu cangaço nos contrafortes da Mata Branca, onde tendo a contribuição dessas e outras táticas, conseguiu permanecer por quase longos vinte anos assombrando o sertão nordestino. Porém, como tudo nessa vida tem seu início, meio e fim, na segunda metade da década de 1920, o cangaço começa a sofrer tombos que algum tempo depois o leva ao clímax, ao epílogo de uma era sangrenta, dolorosa e enlutada para os sertanejos.



Os anos considerados mais gloriosos das ações cangaceiras estão entre 1919 e 1927, já na fase do cangaço lampiônico, mesmo haverem, na época, mais de 40 bandos com chefes distintos nos sertões dos Estados nordestinos, o comandado por Lampião destaca-se notoriamente, apesar de entre os anos de 1921 e 1922 a Força Pública pernambucana ter sido uma ‘pedra nas Xô-boi’ dos bandos na região do Pajeú das Flores. Até fins de 1926 e início de 1927 os cangaceiros tinham um ‘aliado’ bastante benéfico: era que as tropas militares em perseguição aos bandos de cangaceiros não podiam transpor as divisas de Estado, legalmente, dando continuação a uma perseguição.

Eurico de Souza Leão
Quando Estácio Coimbra assume o governo do Leão do Norte em fins de 1926, nomeia o jovem Eurico de Sousa Leão, Chefe da Segurança do Estado. Estudando o problema do banditismo nos confins do sertão, após a colaboração do Chefe de Gabinete, sociólogo Gilberto Freire e do ex chefe cangaceiro preso desde 1914 na Casa de Detenção do Recife, Antônio Silvino, Manoel Batista de Morais, elaboram um plano, dentro desse uma emenda donde surge uma nova “Lei” para colaborar com o Estado no combate ao banditismo rural. Essa “Lei” fica conhecida nas hastes da historiografia cangaceira como “A Lei do Diabo”. Coimbra, através do Chefe de Segurança, convoca os governadores e/ou representantes dos Estados envolvidos com o problema e dessa resulta a liberação para que as volantes tivessem livre acesso em qualquer um dos territórios não importando a qual deles pertencesse.

No plano colaborado pelo “Rifle de Ouro” determinam-se focar as investigações e ações militares na malha colaboradora, roceiros, vaqueiros, militares, fazendeiros, comerciantes e etc.. Até aquele momento todas as tentativas de combaterem o banditismo rural focava-se diretamente em sua figura maior, Lampião. Silvino, tendo sido chefe cangaceiro, sabia que dentro da ‘malha’ de colaboradores existiam aqueles que serviam de ‘pombos-correios’, servindo quase que exclusivamente para levar e trazer recados, notícias e etc.. A coisa estava tão séria que mesmo antes de uma ordem direta para determinado comandante de volante chegar ao mesmo, Lampião já estava ciente da mesma.

Com isso tinha tempo para organizar uma emboscada ou mesmo mudar totalmente sua direção apagando seus sinais. Podemos concluir que a partir daí inicia-se o começo do fim do Fenômeno Social. Logicamente, devido a inúmeros obstáculos surgidos, como por exemplo, uma extensão territorial enorme, colaboradores na alta sociedade e militares de alta patente, leva-se mais de 10 anos para terem o resultado final, para que o laço fosse se fechando objetivando a extinção do Cangaço.

Uma das decisões principais para que se desse fim ao movimento social cangaço, a nosso ver, foi à admissão de sertanejos nas colunas militares perseguidoras. A ‘matéria prima’ para formar-se um cangaceiro era um vaqueiro, um roceiro, um sertanejo nato, homem disposto, sem medrar a nada, nem mesmo a morte, estava pronto para tudo. Além disso, fora forjado em um ambiente duro, cruel, sentindo na pele a selvageria causada pelos homens dos ‘coronéis’ em seus familiares, amigos e conhecidos. Então, quando da decisão de nomear homens do sertão, vaqueiros, roceiros e sertanejos natos, a coisa começou a ficar equilibrada. Havia homens de mesmo ‘quilate’ de ambos os lados e todos eram conhecedores dos perigos da caatinga. Vestimentas, calçados e coragem agora estavam equidistantes. Os comandantes militares locados em diversas cidades interioranas tiveram a ordem de admitir aquele que quisesse fazer parte da Força Pública, aqueles que quisessem ser contratados e ainda de aceitarem a ajuda daqueles que se fizessem voluntários, por ‘n’ motivos, para darem combate aos cangaceiros. Aí passou a ser “cobra engolindo cobra”.

Lampião, em princípios de 1926 é convocado para fazer parte do Batalhão Patriótico, medida tomada pelo Governo Federal com o intuito de dar combate a “Coluna Prestes” em vários Estados da Nação, situado na cidade de Juazeiro do Norte, CE. Virgolino recebe a patente de Capitão Provisório dos Batalhões Patrióticos, consequentemente, seu Estado-Maior também recebe suas devidas divisas militares. Além disso, a agora ‘tropa militar’, recebe dinheiro, uniformes e equipamento bélico de alta precisão para a época. O bando de Lampião torna-se tão forte que em novembro daquele mesmo ano, no local chamado Serra Grande, no município de Calumbi, PE, causa a maior derrota até hoje registrada a Polícia Militar de Pernambuco. Porém, essa vitória deixa o chefe mor do cangaço bastante afoito, fugindo notadamente de sua maneira de agir, e no primeiro meado do ano seguinte sofre grande derrota em terras potiguares.

Fugindo com o rabo entre as pernas, o bando do “Rei Cego” a cada investida das Forças Públicas de vários Estados vai diminuindo rapidamente. Tanto que no segundo meado de 1928, contando apenas com cinco homens, migra para terras baianas onde remonta seu império do terror. A maneira de Virgolino agir, suas táticas empregadas, sempre chamou atenção até entre seus perseguidores e inimigos. Sempre planejando antes de agir, causa grandes baixas nas fileiras das colunas militares que sai em sua perseguição.

Logicamente não se tratava apenas de táticas no campo de batalha, também havia aquela usada junto aos colaboradores, principalmente aqueles que tinham o dever de persegui-lo.
Ficando um bom tempo na ‘moita’, Lampião começa a conquistar os baianos. Aos poucos vai recrutando e aumentando, novamente, o contingente de seus asseclas. Porém, Lampião depois de algum tempo, sai da Bahia e vai instalar-se em terras sergipanas, ficando o território baiano como zona de ataques periódicos. No início dos anos 1930, “O Cocho” toma uma decisão fantástica em termos de guerrilha: divide seu bando em pequenos grupos e cada grupo com seus respectivos chefes. Com isso as Forças perseguidoras ficam um tanto desbaratinadas sem saberem ao certo quando, realmente, estavam dando combate ao cangaceiro mor do Pajeú das Flores. Essa ação deixa até os jornais, meio único de comunicação em massa na época, desnorteados e, automaticamente, seus leitores. Há, nos arquivos de vários periódicos, ações noticiadas de em um mesmo dia, em cidades distintas e longe uma da outra, praticadas pelo “Rei do Cangaço”. Quando na verdade eram praticadas por asseclas daqueles pequenos grupos.

Após as pancadas que levou no lombo no decorrer da década de 1920, seu primeiro decênio de reinado, o terceiro filho de José Ferreira já no envelhecer do corpo físico, mantem-se mais nos acampamentos. Entre fins de 1936 e início de 1937 até meados de 1938, quando de sua morte, Lampião passou a comandar diferentemente seus cabras. Nessa fase, o “Rei Cego” passa quase que exclusivamente a executar os famosos bilhetes de extorsão e enviar cangaceiros e coiteiros de confiança para que trouxessem mantimentos, armas e munição. O chefe cangaceiro distribui entre a população, nessa época, seu ‘passaporte’ de livre passagem. Para se transitar pelo sertão fazia-se necessário pagar um percentual ao neto predileto de dona Jacoza, ou corria o risco de enfrentar a boca de um fuzil ou a ponta de um punhal. E não eram apenas os ‘pequenos’ que sofriam de imposição, os grandes produtores, industriais, fazendeiros e latifundiários também faziam parte das ‘colaborações’.

“(...) No atacado, no plano dos grossos capitais, houve o caso exemplar da fábrica de tecidos da Pedra, em Alagoas, cujo caminhão somente teve a jornada diária garantida, as cargas não mais deixando de atingir a ponta do trilho da Great Western em Rio Branco, (Arcoverde) Pernambuco, a cada dia, quando o gerente, José Borba, despiu-se dos escrúpulos e sentou à mesa discretamente com Lampião, lá mesmo na vila alvíssima do finado coronel Delmiro Gouveia, em meio a goles de uísque. Onerada a folha da empresa em um conto de réis por mês, o sossego fez-se total. Negócio bom é o que interessa a ambos os lados, devem ter pensado industrial e cangaceiro (...).” (MELLO, pg 251, 2012)

Alguns jornais começam a prestar um serviço digno para a população e com isso começa a ‘balançar’ o poder daqueles que tinham as ‘rédeas do poder nas mãos’. Outros, pensando apenas em vender seu produto, até inventar inventam notícias sobre o que ocorria nos sertões dos Estados: na aurora de 1938 o jornal Diário de Notícias, da cidade soteropolitana, Capital do Estado da Bahia, noticia a morte de Virgolino Ferreira. O cangaceiro mor teria morrido vítima de tuberculose em sua própria cama. Hoje podemos até darmos risadas de uma notícia dessas, porém, naquele tempo as coisas eram por demais sérias, tanto que a notícia é postada pelo jornal nova-iorquino New York Times, onde disse: “O fora da lei número um morre em sua cama, no Brasil”. (MELLO, pg 270, 2012)

De uma ou de outra forma os Jornais levaram as informações ao público. Em fim, prestando excelentes serviços. Tanto que a população dos grandes centros urbanos começa a exigir mais e eficientes ações das autoridades. Alguns vespertinos, já tendo o povão ao seu lado, começam a ‘apertar’ o nó de cânhamo no gogó de alguns chefes militares envolvidos diretamente com as ações no combate ao banditismo rural. Nas Alagoas o alvo é diretamente o comandante do II Batalhão, major, na época, José Lucena de Albuquerque, em Pernambuco a coisa recai no lombo do tenente Luís Mariano da Cruz, ‘sucessor’ de Manoel de Souza Neto que havia deixada a Força Volante voluntariamente em janeiro de 1936.

O oficial pernambucano, tenente Luís Mariano, natural do município de São José de Belmonte, PE, é tido como um dos grandes e valorosos oficiais que deram combate aos cangaceiros. O comandante pernambucano, sendo entrevistado por um repórter do Diário de Pernambuco em fins de 1937, diz: “Lampião faz uso dos seus retratos como salvo-conduto, que ele autentica com sua firma e entrega às pessoas que lhe pagam determinado tributo e ao grupo, e que lhes prestam completa lealdade e obediência (...) nesses últimos tempos, tem-se embrenhado nas caatingas do Estado de Sergipe e se demora principalmente nos município de Porto da Folha, Simão Dias, Aquibadã, Gararu e Frei Paulo, sendo nesse último município que o bandido-chefe fez, com certa segurança, o seu quartel-general.

De quando em vez, Lampião, à frente de uma parte de seu grupo, invade a Bahia, entrando ali pelos municípios de Jeremoabo, Cícero Dantas e Paripiranga, que separam os Estados da Bahia e Sergipe. Nessas excursões, pratica grandes roubos e depredações, e retorna aos lugares que lhes servem de coito, onde descansa por meses oculto, guardado por coiteiros de sua absoluta confiança(...).”

Já o periódico “Gazeta de Alagoas”, em sua edição de 9 de julho de 1937, usando um pseudônimo chamado de “Sertanejo”, ataca diretamente o comandante do II Batalhão localizado em Santana do Ipanema, AL, “... alguma de lamentável venha ocorrendo no policiamento feito por alguma volante”, cobrando-lhe, antes e depois, maiores resultados nas ações contra o banditismo. Passa-se mais de trinta dias para que o major Lucena desse uma resposta, em 5 de agosto daquele ano, jogando toda a culpa nas costas dos coiteiros: “... se encontram naturalmente nos coitos, amparados e recebendo munições(...) de modo algum prestam auxílio à polícia.” Citando ainda que as Forças de Combate “trabalham com uma única esperança: a casualidade”. O comandante Lucena se ver tão apertado que se dirige diretamente, através de um boletim/telegrama, ao comandante-geral coronel Teodureto Camargo do Nascimento o qual o jornal Folha de Maceió consegue e o publica, na íntegra, em sua edição do dia 13 de agosto de 1937:

comandante Teodoreto Camargo do Nascimento

“Sipanema – Pls. 93-91, data 11, Hora 11h10, Cel. Teodureto – Reg. Policial Militar, Maceió
Estou posse recorte jornais contendo acusações ação força contra banditismo. Não me admiro isto parta Mata Grande, onde há maiores coitos bandoleiros. Vislumbro bem quais responsáveis artigos, os quais, antes 1930, acoitavam cangaceiros e hoje, mais criminosamente ainda, o fazem. Tais autores deviam, antes de mentir, se preocuparem com misérias deles próprios. Fique pois, digno comandante, tranquilo que saberei cumprir meu dever. Vou responder artigos jornais, pois estou disposto aceitar luta. Saudações – José Lucena de Albuquerque Maranhão, major comandante II Batalhão.” (MELLO, pg 260. 2012)

Depois dessa postagem da “Folha de Maceió”, o “Sertanejo”, através das páginas da “Gazeta de Alagoas”, compra a briga definitivamente e desce o ‘cacete’ no comandante do II Batalhão. Em 18 de agosto, dirigindo-se diretamente a José Lucena, diz: “devia estar em Mata Grande, com seu trabalho, não em Santana do Ipanema”. Referi ainda sobre os criminosos citados pelo major, “criminosos de antes ou de depois de 1930, que tudo seja apurado!”.

Rapaz, depois dessa Lucena fica vendo as saídas se fechando. Apertado, redige imensa carta e envia-a ao jornal que a posta no dia 21 do mês. Nessa carta o major tenta argumentar sobre uma ‘possível’ colaboração de seus subordinados aos cangaceiros: “...quem luta com quatrocentas naturezas espalhadas em todo sertão, por mais que seja rigoroso será surpreendido, vez por outra, com irregularidades de subordinados”. Para nós, há uma concordância em que alguém da corporação, ou mesmo alguns militares, colaboravam com os cangaceiros. O rebu é grande e a população fica na expectativa das providências que serão tomadas pelas autoridades. Porém, só em outubro é que o governador de Alagoas, Osman Loureiro, lança na Gazeta de Alagoas sua determinação de que o II Batalhão permanecerá em Santana do Ipanema.

No dia 11 de novembro daquele ano, Getúlio Vargas, através do Decreto nº 19.398, dissolve o Congresso e dá um golpe no regime que o colocou no Palácio do Catete, implantando uma Ditadura, O Estado Novo. São criadas as Delegacias de Ordem Política e Social, linha dura, e é decretada a pena de morte gerando grande impasse nos redutos advocacionais. O Decreto-Lei 88, sobre a novíssima LSN, Lei de Segurança Nacional, em seu Arti. 122, inciso 13, alínea f, rezava claramente que seriam tomadas medidas radicais no “homicídio cometido por motivo fútil ou com extremos de perversidade”. Logicamente esses termos eram dirigidos para aqueles contrários ao Novo Regime e aos bandos de cangaceiros e seus colaboradores, nunca para as perversidades praticadas pelas volantes. O sociólogo Frederico Pernambucano de Mello, diz a respeito: “parecendo mirar o dia a dia dos cangaceiros e de seus protetores. Carapuça certeira. Cabia o alarme entre chefes políticos do sertão. Entre os favorecedores mais eficientes do cangaço, incorrigíveis até ali”.

No início de 1938, o major José Lucena, comandante do II Batalhão em Santana do Ipanema, AL, é convocado para comparecer urgentemente a presença do coronel Teodureto na Capital do Estado:

“(...) o coronel Teodureto ansiava por ter com ele uma conversa reservada, com vistas a “identificar o dedo misterioso que incidia sobre o contexto da campanha (contra o cangaço) e levava àquele resultado deplorável”. Homem enérgico, embora polido, como se impõe a um oficial superior do Exército, Teodureto abre a fala ressalvando “que não punha em dúvida a lealdade e a competência do seu subordinado, mas que precisava descobrir a causa da frustração e eliminá-la custasse o que custasse”. E porque “cumpria restaurar a confiança das populações massacradas pelo cangaço nas providências de governo”, pontuava palavra por palavra, “não abriria mão, a partir de agora, de ação efetiva e ajustada, sob pena de apelar para medidas drásticas e até arbitrárias contra aqueles que fossem apanhados violando suas determinações”. Lucena pouco fala. Ao fazê-lo, já no final, somente lhe acode rememorar o que dissera à imprensa na polêmica de meses atrás: que lhe parecia impossível garantir a honradez de cada uma das quatrocentas individualidades que comandava no sertão. E deixa o Regimento policial “tão amargurado, que ruma dali para a catedral, a fim de orar e pedir a Deus ânimo e luzes para se safar do sério embaraço em que se via metido”. (MELLO,pgs 268 a 269. 2012)

A partir daí, já vinda desde o Palácio do Catete, a ordem de acabar com Lampião vai passando de esfera em esfera de comando. Cada um que passasse a batata quente para as mãos do seu subordinado imediato. As autoridades lançam panfletos deixando a população ciente de que suas ações tinham carta branca, ou seja, podiam usar as ações que quisessem que o Estado os protegiam. Ocorre uma ruma de gente que deixa seus lugares onde moram e caem no mundo. Outros, já da alta, mudam de lado e começam a serem colaboradores das volantes, outros, porém, não deu tempo e são trancafiados. Mesmo assim alguns gatos pingados, devidos à grana ser alta, permanecem colaborando com Lampião, não outro chefe, apenas ao “Rei dos Cangaceiros”.

Entre os cangaceiros, também há deserções, pois sabiam que o cerco se fechava cada vez mais.


Lampião e Jurity em foto de Abrahão

Aqueles que fizeram parte das fileiras cangaceiras não tinham nenhum compromisso com seus companheiros. Ninguém era por ninguém e cada um que defendesse sua vida particularmente. O respeito e a solidariedade entre eles se baseavam em valores financeiros. Se qualquer um deles tivesse tido a oportunidade de matar o cangaceiro mor, Lampião, para apossar-se de seus ‘bens’, da grana e valores em joias e ouro que levava consigo, com certeza o teria matado. Excetuando-se, logicamente, algumas personagens como Luiz Pedro, na ocasião de sua morte, um Mariano anteriormente, um Gato, Sabino e etc... O cangaço estava prestes a acabar.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Personagens

Sargento De Luz, o matador do cangaceiro Jurity

Rubens Antonio

A localização de imagens relacionadas ao Cangaço é relativamente fácil. Mais difícil é a disposição de imagens em qualidade melhor, incluindo-se nitidez e resolução. O caminho é ainda mais pedregoso quando buscamos uma fotografia que mostre uma personagem determinada.

Uma delas é a do sargento De Luz.

Conforme Alcino Alves Costa, seu verdadeiro nome era Amâncio Ferreira da Silva, um pernambucano, nascido em 1905, que, passando ao Estado de Sergipe, acabou, neste Estado, integrando a sua polícia. Seu maior feito lembrado relaciona-o ao cangaceiro Jurity.


Jurity, em tempo de Cangaço
.
Pós-Cangaço, já como o cidadão Manoel Pereira de Azevedo.
(imagem obtida por Rubens Antonio em suas pesquisas nos arquivos baianos)
.
Localizando-o, o sargento De Luz, ironizou.
"- Não sabia que era tão fácil pegar um jurity!"

Apesar da exibição de documentação comprovando ser uma pessoa quite com a Justiça, valendo-se do mesmo estar desarmado, enquanto estava acompanhado de praças armados, não só lhe deu ordem de prisão. Em um dos atos mais covardes, em tempos já pós-cangaço, foi conduzido a lugar ermo onde executou-o, atirando-o vivo em uma fogueira.
.
A única imagem, até agora, reconhecida, era aquela obtida por Alcino Alves Costa:



Porém a reobservação e reestudo de material disponível pode conduzir a revelações. A foto abaixo, publicada no "A Noite Ilustrada" de 08 de novembro de 1938, mostra a entrega do subgrupo comandando pelo cangaceiro Pancada.
Em sua legenda uma identificação reveladora.



Eis, enfim, uma imagem em melhor qualidade e menos alegórica do temível Sgtº De Luz, uniformizado e aparatado, em um evento relacionado ao fim do Cangaço.


Conforme Alcino Alves Costa, De Luz foi executado em uma tocaia encomendada por seu sogro, em 1952.

Pescado no essencial  Cangaço na Bahia

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Quem é o cara?

Chegamos a uma conclusão

Amigos que opinaram ou que aguardavam o resultado de nossa investigação. Após realizar uma pesquisa, acho que encontrei a solução para o nome  do cangaceiro, o qual nós queremos identificar, na foto postada,  semana passada.

Após o celebre Benjamin Abrahão realizar as filmagens com o bando de Lampião no ano de 1936, o mesmo fez uma série de reportagens para um grande jornal de circulação no nordeste, no caso o "Diário de Pernambuco "..

Em uma dessas matérias ( vide, logo abaixo), datada de 27 de dezembro de 1936,  o mesmo fez a identificação do " cangaceiro " (inclusive, conviveu com ele), como sendo o "Marreca " que na foto publicada no jornal, posa ao lado do famoso "Jurity"..
 

Uma outra foto dos dois cabras em boa resolução para melhor comparação.





Abraço a todos, e respeito quem pensa de forma diferente, portanto estamos disponíveis para o debate se necessário.

Ivanildo Alves  da Silveira
Colecionador do cangaço
Membro do Cariri Cangaço e da SBEC
Natal/RN

Obs.: Na pesquisa dessa foto, agradecemos ao amigo Rostand, pelo envio do material.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Sertão afiado

A riqueza da cutelaria brasileira: coleção Alberto Orsini 

Colaboração de Ernane Cunha  

Depois de rastejar por longo tempo pela sequidão do imenso sertão chamado Google, encontrei finalmente um pequeno porém significativo oásis mantido pelo advogado paulistano Alberto Orsini Neto. Este senhor, juntamente com 5 pesquisadores, especialistas nas diferentes facas brasileiras, reuniu em um catálogo luxuoso sua “modesta” coleção de facas que representam a glória da antiga cutelaria legitimamente nacional, ou seja, as facas Sorocabanas, Mineiras, Franqueiras, Gaúchas e claro as Nordestinas, que compõem parte de seu acervo de 350 peças.


Coordenado pelo engenheiro e museólogo Manuel Julio Vera Del Carpio, esse catálogo muito pouco divulgado e que teve uma tiragem limitada, e que hoje pode ser adquirido por um valor não inferior a R$300,00 em alguns sebos, claro, chamou muito minha atenção, especialmente devido à belíssima coleção de punhais e facas nordestinas que apresenta e pelas quais tenho admiração especial. Bom para minha sorte e para a dos demais interessados este senhor, que deveria servir de exemplo para os colecionadores particulares, institutos históricos e mesmo museus de nosso país que com raras exceções, ainda vive a época de egoísmo, disponibilizou o conteúdo do referido catálogo impresso integralmente na internet. 

Tenho certeza de não ser o único interessado no assunto. Apesar do esforço, quase heróico daqueles que se dedicam a resgatar a história não só do cangaço, mas do nordeste como um todo e da vastidão que compõe a bibliografia cangaceira, a escrita da história da cutelaria nordestina e daqueles que a forjaram nas incontáveis tendas do sertão de outrora ainda espera por ser feita de um modo mais detalhado e apresentada ao mundo em todo o seu esplendor. 

Exemplares para ilustrar essa história sei que não faltam, estão por aí nas muitas gavetas e prateleiras desse Brasil, aguardando serem libertadas por alguma alma ilustrada. Segue o primeiro dos principais textos do site em questão para deleite especial dos "cangaceirólogos":

Att. Ernane R. C. Cunha
Cachoeira de Minas - Sul de Minas Gerais

Facas do Nordeste: Conhecidas como facas de pontas

Por Mário dos Santos Carvalho (*)
As inserção das imagens foi por conta e risco do Lampião Aceso.

Embora muito antigo em nosso país, o termo faca de ponta tornou-se  a designação genérica de vários tipos de  lâminas produzidas e usadas especificamente na região Nordeste do Brasil. A área de  produção e uso das antigas facas de ponta iniciava-se no Sul da Bahia,  abrangia  toda a região Nordeste e chegava até os  Estados do Norte, os quais nunca tiveram uma cutelaria de estilo próprio.  Assim, ao lado dos clássicos facões de mato, as facas de ponta foram, sem qualquer dúvida, as mais utilizadas lâminas brasileiras, tanto por parte de simples  trabalhadores que participaram dos ciclos da cana-de-açúcar, do gado, do cacau e da borracha quanto pelos senhores que os comandavam.

Dois exemplos de faca de ponta e um punhal da mesma manufatura .
In: Knifenetwork

Entretanto, não devemos não devemos nos esquecer  que este também  foi o primeiro nome de facas brasileiras destinadas à defesa, sendo ainda interessante notar que o nome faca de ponta iniciou-se, pelo menos de forma documental, em lei (bando) de 1722,  da então Capitania de São Paulo, mas – a exceção do Rio Grande do Sul -  foi voz corrente em todas as outras regiões do Brasil  e, pelo menos até a década de 1920, sendo utilizado inclusive no sertão paulistano, conforme nos cientifica este trecho do conto "Pedro Pichorra", publicado em 1919 no livro "Cidades Mortas" de Monteiro Lobato: "...realizara o sonho de toda criança da roça, a faca de ponta. Dera-lhe o pai, como diploma de virilidade: - Menino, doravante és homem..."

Do livro "Apontamentos sobre a faca de ponta" de Oswaldo Lamartine. 

Segundo registros escritos de 1817, as facas de ponta do Nordeste teriam nascido na antiga Aldeia de Pasmado, atual cidade de Abreu e Lima, no Estado de Pernambuco, embora a atividade cuteleira na região fosse bem conhecida desde 1780. Essas antigas crônicas dizem que o viajante ao aproximar-se da aldeia já ouvia  intenso e marcante som de lâminas sendo forjadas, tamanho era  o número de cutelarias que lá existia.

Naquelas regiões, as oficinas que produziam, entre outros,  itens de cutelaria eram conhecidas como tendas de ferreiro, ou simplesmente  tendas, e quando a faca era requintada costumava-se chamá-la de “faca-jóia”.

De acordo com o famoso autor Gustavo Barroso (no conto "O Patuá", em "Praias e Várzeas", de 1915), também  no Ceará do século XIX alguns cuteleiros já eram famosos: "...tinha um verdadeiro arsenal. Andava... com uma faca feita pelos Fernandes do Crato, os ferreiros mais afamados do Ceará."

Ainda nas primeiras décadas do século XIX também ficaram muito famosas as facas de ponta e punhais produzidos no Vale do Pajeú de Flores, em Pernambuco, especialmente aquelas oriundas de povoados da Serra de  Baixa Verde e tão grande foi essa fama que a essas lâminas se emprestou os nomes ora de “Pajeú”, ora de  “Baixa Verde” . Conforme alguns autores regionais e estudiosos, nessas localidades teria sido criado o característico estilo da empunhadura “embuá”, um verdadeiro ícone na configuração das facas nordestinas.


Um exemplo de punhal "Baixa Verde" parte do acervo do Museu do Ceará.
Indicação de Dênis Artur Carvalho (foto Fátima Garcia) in Ceará em Fotos

É também especialmente curioso o fato de que algumas cutelarias de Flores (PE) produziam lâminas de extrema flexibilidade, especialmente para punhais, os quais, segundo alguns autores nordestinos, “retiniam como um sino quando nelas se batia” e  apresentavam “...a técnica do enverga-mas-não-quebra, dos cortes e da perfuração sem fazer força”.

TIPOS

Algumas das mais requintadas facas de ponta têm a empunhadura em prata, ou alpaca, e estas são, geralmente, na forma de estruturas bulbosas, os metais sendo intercalados com vários materiais tais como madeiras regionais, chifres bovinos, ossos, cascas  duras de frutas, moedas, botões de madrepérola, etc. Igualmente, algumas podem ter a lâmina enterçada, podendo ou não serem originárias  de antigas espadas.

Dois punhais de mesma lavra do usado por Lampião Essas peças testemunham a exclusividade de Virgolino. A da esquerda 67 Cm de lâmina, idem a peça que está em exposição no Instituto Histórico de Alagoas.

Os tipos mais básicos destas antigas lâminas são:

- a faca de ponta propriamente dita, com um só fio e de dorso caído, também lembrando muito o clássico formato das facas mediterrâneas. Habitualmente, seu ricasso tem algum trabalho, desde simples entalhes de lima até a inclusão de tiras de prata, alpaca ou latão, com ou sem lavrações. A partir de 1900 e seguramente até 1930,  algumas cutelarias européias, principalmente as alemãs, passaram a produzir e exportar modelos similares de facas de ponta, alguns deles com inscrições regionais nas lâminas, tais como  “Pernambucana”, “Cearense”, “Salve Pátria”, “Livra Vida”, etc e outras alusivas a personagens de destaque da vida política brasileira do período;


"Um exemplar de Livra vida"
Acervo de Alberto Orsini, foto do catálogo. 

- punhais, claramente inspirados em seus correspondentes mediterrâneos do século XVIII, especialmente os de origem espanhola e italiana, destes últimos tendo herdado o costume de ter o ricasso com algum trabalho de lima e, por vezes, também a aplicação das tiras de metal, lisas ou com trabalho de lavração. Os mais antigos têm suas lâminas de perfil oblongo, ou meia-cana, igualmente como os mediterrâneos. Também estes punhais nordestinos foram copiados por cutelarias européias no mesmo já mencionado período das facas  e igualmente alguns deles podem conter lavrações similares em suas lâminas;
 
- “Parnaibas” ou “facas de arrasto” constituem um dos mais imponentes tipos da região Nordeste do Brasil, sendo designações populares da variante da  faca de ponta quando com lâmina exageradamente longa e de pouca largura. Esse nome refere-se à cidade de Parnaíba, no Piauí, onde o tipo teria surgido no final do século XVIII. A designação de “faca de arrasto” teria se originado no fato de que por terem lâminas muito longas levavam mais tempo para serem sacadas, ou "arrastadas", da bainha.

 Faca Parnaiba ou de Arrasto com guarda em "D".
foto in: Mercado Livre

Uma outra versão para a origem do nome é de que, por serem muito longas, essas facas se arrastavam no chão. Podem ou não ter a guarda em “D”. É um tipo atualmente bastante raro, mas foi muito retratado em ilustrações do Brasil Colônia, normalmente com lâmina de mais de 45 cm e guarda em "D" e  citado na literatura brasileira do século XIX e começo do XX. Uma interessante variante de “Parnaíba” sem guarda em “D” tinha o pomo abrindo-se (para melhor travar a mão) em formato similar ao rabo de um peixe e 3 exemplares vistos nessa configuração, todos comprovadamente oriundos do Nordeste, são muito semelhantes apresentando  ricassos ricamente trabalhados com a aplicação de 7  listras de prata/alpaca, empunhaduras em talas de chifre bovino e decoradas com muitos pinos pequenos dos mesmos metais, fazendo supor que foram produzidos por um mesmo cuteleiro ou numa mesma oficina;

- com empunhadura de embuá, este é o nome regional do piolho-de-cobra, pequeno animal invertebrado da classe Diplopoda, mas sendo  também a designação popular  de um estilo de empunhadura de facas e punhais das regiões Norte e Nordeste do Brasil onde finos discos de materiais diversos (principalmente chifre bovino escuro, mas também osso, madeiras, fibras ou em raros casos até marfim) são intercalados com outros de metais (latão, prata,  , alpaca, zinco, alumínio, etc), oferecendo um contraste visual agradável. Essa denominação popular ganhou tanto prestígio que lâminas com essa variante de empunhadura são atualmente classificadas como um tipo;


 Facas de empunhadura Embuá.  
Coleção de Dênis Artur Carvalho in Knifenetwork

- facas e punhais de Santa Luzia (PB), as primeiras normalmente apresentando maior largura mas espessura menor do que as facas de ponta comuns. Muitas vezes as facas da região de Santa Luzia eram chamadas localmente de “Lambideiras" (ou “Lambedeiras”)  e essa designação popular já era conhecida de forma escrita em 1848 , tendo nascido do fato de que, por terem lâminas bem largas, deviam ser  “lambidas” na pedra para serem afiadas. Existiram ainda as  ditas “lambidas dos dois lados”, que eram aquelas afiadas também no dorso ou alguns punhais afiados que eram igualmente tratados dessa forma;

- “língua de (tatú) peba", designação popular de raríssimos punhais com lâmina de formato triangular (ou "de três quinas", como também eram chamadas na região Nordeste). Esse tipo de punhal é citado em algumas crônicas da Guerra de Canudos (1897), na Bahia;

- facões  “Canindé”, também denominação popular da região Nordeste originada  na cidade cearense de Canindé, que desde o início do século XIX atraía grandes romarias de devotos de São Francisco, com isso tendo desenvolvido muito alguns artesanatos regionais, entre eles toscos facões curtos, normalmente com lâminas largas de 15 a 18 polegadas de comprimento e com empunhaduras em talas de madeiras ou chifre bovino. Segundo estudiosos locais, esses facões foram usados apenas por populações rurais da região, mas como eram de excelente têmpera, sua fama se estendeu até Fortaleza e em algumas outras cidades do Ceará. De acordo com as mesmas fontes, já por volta de 1940 não eram mais produzidos;

- “quicé”, tratando-se da menor faca nordestina e nada mais sendo do que uma utilitária de pequeninas dimensões, para pequenos trabalhos no campo, similar e equivalente da gaúcha “cherenga”.

 Exemplo de Faca "Cherenga" ou "Quicé"

É importante notar que a primeira leva de nordestinos que se dirigiu aos seringais da região Norte em 1877 levava consigo suas lâminas, as quais foram usados em larga escala por todo o Ciclo da Borracha (1877-1945). Quando dos conflitos no Acre, há registros escritos de que os combatentes bolivianos tinham grande temor dos cearenses justamente por sua habilidade no manejo dos facões, isto tendo, criado um dito popular entre a soldadesca do país vizinho que dizia “os cearenses nascem pequenos e com uma pequena faca, mas conforme vão crescendo o tamanho da faca aumenta”!

A partir do início do século XX, produtores industriais de lâminas da região Sudeste passaram a produzir cópias dos modelos artesanais de facas utilitárias do Nordeste e a abastecer aquele mercado. Tais facas industriais ficaram conhecidas localmente como “peixeiras” (ou “pexeras”) e muitas tornaram-se também instrumentos de defesa por parte dos sertanejos.

LÂMINAS DOS CANGACEIROS

Entre as mais caras possessões dos cangaceiros estavam seus punhais, facas e facões, e isto – este apreço por lâminas – existia tanto por questões culturais da região  Nordeste da época (onde a honra  masculina determinava que as questões entre  homens devessem ser resolvidas na ponta e no corte de uma lâmina) quanto pelo terror que o ritual da sangria infligia aos  inimigos. Como sabemos, a maior parte das  execuções sumárias feitas  pelos cangaceiros se dava através  da chamada sangria, a qual era a técnica de desferir um único golpe de punhal longo na clávicula esquerda (na região popularmente conhecida por “saboneteira”), que atingia coração e pulmão e causava  morte lenta e agonizante.


Do livro "Estrelas de Couro -  A estética do cangaço"
de Frederico Pernambucano de Mello.

É fato bem conhecido entre os estudiosos do cangaço que os integrantes do bando de Lampião (e o próprio) tinham especiall predileção por lâminas produzidas pela família Pereira, da cidade de Jardim, no Ceará, a qual atuou nessa área por três gerações a partir dos anos iniciais do século XX. Quando, a partir dos anos de 1960, , publicaram-se diversos livros sobre o famoso bando, essa família chegou a ficar conhecida, pelo menos regionalmente, como “os cuteleiros de Lampião”.

As criações atribuídas a essa família são de boa qualidade e  embora não tenham acabamento superlativo, grande  parte delas apresenta empunhaduras do clássico tipo “embuá”, de forma total ou parcial, sendo que as lâminas de tamanhos mais habituais também costumam apresentar as iniciais dos cuteleiros que as produziram preenchidas com latão. Devido a serem mais trabalhosas, as empunhaduras com “embuá” total eram as mais caras dentre as oferecidas por essa família.

Como até a edição desta obra não foi possível um contato com o Sr. Paulo Pereira (último cuteleiro da famosa família e atualmente residindo em endereço incerto em Juazeiro do Norte, Bahia), nos é licito presumir que, por detalhes construtivos, as lâminas timbradas “JP” seriam as mais antigas, pela lógica então pertencendo ao patriarca, aquele que iniciou o oficio; depois e pelo mesmo motivo, viriam as timbradas “MP”, que seriam de seu filho ou irmão e, finalmente, as cunhadas “PP” , estas seguramente referindo-se a Paulo Pereira, que – segundo informações fidedignas – estaria atualmente com mais de 85 anos e no final da década de 1990 teria se mudado para a Bahia.

Entretanto, deve ser especialmente notado que 99% dos punhais longos destinados a combate e/ou sangria (habitualmente com mais de 45 cm de lâmina) produzidos por integrantes  dessa família NÃO apresentam as iniciais de seus produtores, esta ausência servindo para não demonstrar ligação ou envolvimento dos cuteleiros com os cangaceiros ou com as  mortes por eles praticadas, uma vez que lâminas de grande comprimento sempre foram destinadas especificamente aos bandoleiros e com esse único fim.

O fato de Lampião e alguns outros integrantes de seu bando terem sido fotografados  quase sempre portando punhais cujas lâminas tinham mais de 60 cm de comprimento, não significa que o uso de versões extremamente longas fosse uma constante absoluta por parte de todos os cangaceiros. Outras fotos de seu bando e também de integrantes das volantes (principalmente a de "nazarenos") mostram que o tipo de punhal mais habitualmente portado tinha lâmina entre 30 e 40 cm de comprimento.

Volante comandada pelo célebre nazareno "Odilon Flor" (1º à esquerda na fila inferior).
Foto de Benjamim Abrahão, 1936.

Pela cuidadosa análise de antigas fotos do bando de Lampião, é possível observar que – de maneira comprovada e além dele – somente  outros 2 lideres de seu grupo portavam habitualmente  punhais extremamente longos, os cangaceiros Juriti e Corisco. É também  especialmente digno de nota o fato de que numa das fotos em que figuram Lampião e Juriti, o longo punhal deste último parece ser idêntico àquele portado pelo primeiro numa outra imagem. Alguns autores especializados ainda citam que o líder cangaceiro Azulão também costumava portar um longo punhal.


Lampião e Juriti, in foto de Benjamim Abrahão, 1936.
Acervo ABA Film.

Estas constatações levam à hipótese provável de que os punhais de lâminas extra-longas também servissem como uma espécie de  símbolo de “status” e de  liderança dentro  dos bandos, não sendo entretanto os de maior uso, pois – do estrito ponto de vista da praticidade - portar uma lâmina com mais de 60 cm de comprimento não devia ser algo  confortável nas andanças pela caatinga...

Faca de ponta de manufatura bastante primitiva, curiosidade que na área do ricasso encontra-se incrustado em metal amarelo (latão) as iniciais JB. José Bahiano. 
Foto: Ivanildo Silveira

Com a morte de Lampião em 1938 e o consequente fim do cangaço, os punhais de lâminas muito longas foram perdendo sua aura de arma famosa e a demanda diminuiu muito. Especialistas acreditam que já na década de 1950 sua produção normal teria sido interrompida pela maioria dos artesãos.

Entretanto, os cangaceiros não apreciavam, ou usavam, somente punhais e, novamente, as mesmas fotos comprovam isso: diversos usavam facas de ponta e facões curtos; Catingueira, do bando de Gato, portava uma baioneta no peito, além de um punhal médio na cintura; de maneira geral, as mulheres do cangaço portavam punhais menores e Inacinha, companheira de Gato, é vista com o que parece ser um pequenino Caroca.


Inacinha in foto de Benjamim Abrahão, 1936.

Uma citação encontrada na página 160 do livro “De Virgolino a Lampião” nos traz curioso relato sobre uma faca de ponta encomendada  pelo cangaceiro Sabino do bando de Lampião a Julio Pereira (sem ligação com a familia de cuteleiros homônimos), de Juazeiro,  e que juntamente com armas de fogo e munições deveria ser trazida por Antonio da Piçarra:
“...de Sabino tinha recebido quinhentos mil réis para mandar fazer um faca com cabo de prata, um anel de ouro no meio da lâmina, a bainha e o entrançado também de prata...”

Julio Pereira teria respondido a Antônio: “Não tem encomenda nenhuma. Tive de enterrá-la num terreno, choveu muito, e as águas levaram tudo. A faca de Sabino, a ferrugem comeu. Pode dizer isso a Lampião.”

A FAMÍLIA CAROCA

A partir dos anos iniciais do século XX, as criações de toda uma família nordestina de cuteleiros se tornariam conhecidas como as mais requintadas facas de ponta já produzidas. Suas facas  e punhais ficaram famosas pelo nome genérico de “Carocas”, designação emprestada do apelido do patriarca  de uma  família da Paraiba, José Torquato dos Santos (27/09/1898 – 15/12/1978), conhecido como “Zé Caroca”  por apreciar muito corridas de cabriolas (espécie de charrete) conhecida localmente como caroca).

Vindo do Rio Grande do Norte por volta de 1915, “Zé Caroca”  mudou-se para Santa Luzia, na Paraíba, e em diversas cidades desse Estado seus sete filhos dedicaram-se às artes da Cutelaria. Em Santa Luzia, o 2º filho mais velho, Francisco, tornou-se extremamente famoso nesse ofício e ficou conhecido como Mestre Chicó, tendo sido o responsável por transmitir sua técnica aos irmãos  e, segundo alguns estudiosos regionais,  dominando segredos de excelente têmpera em suas lâminas.

Bem no início da década de 1930, o filho mais velho, Fortunato, estabeleceu-se em  Juazeiro do Norte, no Ceará, e não obstante as mais de 200 cutelarias da época que atendiam as constantes romarias, suas criações eram disputadíssimas. No mesmo período, o filho mais moço, José, mudou-se para Campina Grande, na Paraíba, onde também suas criações tornaram-se extremamente famosas e prosseguiram, com os descendentes, até a década de 1960.

Faca de ponta "Caroca" Ancestral 43 Cm. ponta de espada.
Segundo anuncio do: Mercado Livre

Enquanto Mestre Chicó usou aço de trilhos ferroviários para suas lâminas, algumas das mais requintadas facas e punhais  iniciais de Fortunato e de José utilizaram pontas de espadas  e as mais antigas deste último apresentavam lâminas gravadas a ácido com  o têrmo “Campina Gr.” (“Gr.” foi uma antiga forma de abreviar a palavra Grande) inserido num retângulo.

Consta que em Campina Grande a produção de José aumentou tanto que ele chegou a ser dono de 30 cutelarias da cidade, já não mais timbrando suas criações até meados da década de 1940, quando teria decidido timbrar as  mais populares com o nome Caroca, este gravado com as então recém- lançadas canetas elétricas de gravação de pontinhos.

Tanto Fortunato em Juazeiro do Padre Cícero quanto José em Campina Grande foram os pioneiros em utilizar marfim de antigas bolas de bilhar na empunhadura  de algumas de suas mais requintadas criações.

De maneira geral, tão importantes e famosas foram as criações de ambos que elas tornaram-se um quase estilo de faca, muitas vezes produtos similares de boa qualidade mas produzidos por outros cuteleiros da região sendo tratadas genericamente de “Carocas”.

REBENQUES - ESTOQUE

São versões do clássico chicote curto nordestino de tocar mulas que apresentam pequena lâmina de punhal oculta em seu corpo. A maioria dos exemplares vistos se caracteriza por apresentar empunhadura constituida da pata do pequeno veado campeiro (ou veado catingueiro), alguns ainda tendo  lindos trabalhos de cestaria  típicos daquela região.

Embora seja impossível estimar-se a origem e o advento de tais rebenques-estoque, o apogeu de sua produção e  comercialização se deu na cidade cearense  de Juazeiro do Norte a partir das romarias que lá ocorreram promovidas pelo famoso Padre Cícero a partir de 1890.

Assim como sucedeu com pequenos punhais produzidos por grande número de cutelarias da cidade e da região, também os rebenques-estoque do Nordeste eram adquiridos como lembranças  da participação em romarias e festas santificadas e  alguns podem ter sido feitos pela família Caroca.

A partir do início da década de 1950, a produção desses rebenques-estoque cessou e hoje esses itens são raros, tendo ficado na lembrança dos mais velhos como mais um tipo de artesanato dentre os muitos que as romarias  do Padre Cícero incentivaram naquela região.

Só como exemplo: Um dos mais raros exemplares da clássica cutelaria gaúcha do Brasil. Produzido por "prateiro" do Rio Grande do Sul entre 1900 e 1920, este rebenque tem suas furnituras em prata e lâmina da famosa marca Scholberg, belga, de 12 polegadas de comprimento. In Knifeco

CRIAÇÕES DO SUL DA BAHIA

Um tipo bem mais requintado de faca de ponta e de punhal  é aquele particular a região do Estado da Bahia que faz fronteira com Minas Gerais e  ficou conhecido entre os colecionadores pelo nome de facas do Sul da Bahia. Certamente muitas dessas facas baianas foram criações das mesmas oficinas de ourives que produziram requintados balangandãs e figas de prata e, no geral, elas  podem ser classificadas como todo um ramo das facas de pontas, de vez que existem distintas variações do tipo.

As criações do Sul da Bahia iniciam sua trajetória sendo, básica e inicialmente, cópias das mineiras, principalmente nos tipos mais simples, normalmente de função mais utilitária. Entretanto, , rapidamente ganharam estilo e elegância particulares, já no final do século XVIII surgindo exemplares de facas e punhais baianos com bastante requinte, apresentando lâminas mais esguias. Logo em seguida, por volta dos anos 1800, começam a surgir as primeiras variantes com empunhadura e bainha em prata, em 3 (tres) modelos básicos: com lâmina de um só fio, de duplo fio (adaga) e punhais (sem fio, apenas para perfurar).

Mas, de maneira geral, a confecção de cutelaria artesanal  no Sul da Bahia apenas pode ser considerada atividade organizada  por volta de 1820 e na região do Rio das Contas, a qual ganhou muita prosperidade graças a este e outros tipos de artesanatos afamados.

A partir da metade do século XIX, as criações do Sul da Bahia ganhariam uma personalidade própria no formato da empunhadura e teriam seu apogeu no chamado Ciclo do Cacau, cuja cultura (que foi a maior riqueza da Amazônia no início do período colonial) fixou-se naquela região baiana a partir de 1880, quando sua exportação tomou impulso. Na época, os ricos fazendeiros que se dedicaram a essa cultura na região ficaram conhecidos como barões do cacau devido a vida opulenta que levavam. As principais cidades do sul da Bahia a beneficiar-se do ciclo do cacau foram Itabuna, Eunápolis, Itacaré, Itambé (já na época também um grande centro de criação de gado), Ibiaú, Olivença, Una,  Valença e Ilhéus, esta última com o porto que escoava toda a produção da região.

Esses modelos apresentam empunhaduras de forte influência mourisca, normalmente com o material de empunhadura no formato de gomos e, quando com bainha de prata, o batente da ponteira é sempre menor, de proporções mais delicadas, do que aquele visto em criações mineiras.

As facas mais sofisticadas do Sul da Bahia foram as que mais utilizaram pedaços de espadas como lâminas e na região aquelas assim constituídas são até hoje conhecidas como “lâmina ponta de espada”. É também neste tipo regional de antiga faca brasileira que mais se observam as curiosas bainhas de prata com dobradiças, artificio empregado, principalmente nas mais longas, com o objetivo de  evitar que essa parte se entorte ou amasse quando o possuidor subia no cavalo ou tinha outra atividade que lhe exigisse grandes movimentos corporais. Essas  bainhas com dobradiça(s) tinham couro em seu interior (assim, era uma dentro da outra) e existem exemplares longos o suficiente para ter 2 ou até 3 dobradiças nessa parte.

Habitualmente, o trabalho de lavração na bainha e empunhadura na prata das facas do Sul da Bahia é algo tão ou mais  elaborado do que aquele das “franqueiras”, mineiras e gaúchas, embora nesse tipo de faca brasileira do passado a ocorrência de ouro nas mencionadas partes seja mais raro.

É curioso notar que algumas das mais refinadas facas do Sul da Bahia apresentam a lâmina com o timbre “Saldanha & Cia – Rua do Hospício”, isto referindo-se a uma grande empresa importadora, das muitas que existiam nessa célebre rua de Recife (PE). A julgar-se pelas características construtivas de algumas antigas facas do Sul da Bahia, essa empresa parece ter atuado (ou iniciado atividades) nos anos de 1860.

O HOMEM DO FACÃO GRANDE

No passado brasileiro, houve um curioso e raro tipo de faca de ponta executado a partir de espadas e espadins das Guardas Nacionais, hoje extremamente desejado por colecionadores.

Em realidade, a maioria dessas criações originou-se de espadas e espadins importados da célebre cidade alemã de Solingen e tido como "oficiais", embora  adquiridos privadamente por muitos dos chamados coronéis das regiões Norte e Nordeste.

As Guardas Nacionais brasileiras foram criadas e organizadas em 1831 pelo Regente Diogo Antônio Feijó e duraram até a derrubada da primeira república brasileira em 1930. Nas mencionadas regiões brasileiras, desde os tempos do império, era comum qualquer homem de destaque político obter o oficialato das Guardas Nacionais e o título de coronel passou a ser sinônimo de fazendeiro, ricaço ou político renomado.

Como era comum um coronel de verdade ter uma espada ou espadim de oficial, rapidamente surgiram  tipos comerciais que imitavam os originais, sendo comum a substituição das habituais empunhaduras de madeira por outras de chifres bovinos, mais ao gosto e imitando a configuração das já clássicas facas de ponta.

É por este costume de portar uma espada ou espadim, modificado ou não, que no antigo sertão Norte-Nordeste chamavam o chefe político de "homem do facão grande"


(*) Mário dos Santos Carvalho, 51, de São Paulo (SP), é advogado e antiquário e atua no mercado de arte e antiguidades há 23 anos. Sua família é oriunda do sertão pernambucano e desde 1972 ele viaja frequentemente ao Nordeste pesquisando lâminas e outros aspectos culturais da região.

Disponível em: Coleção Orsini

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Novas imagens

Prints do filme de Abrahão

Por Ivanildo Silveira

Para o bem da história, e alegria dos cangaceirólogos, a Abafilm, com apoio da Petrobrás e da Cinemateca Brasileira conseguiu recuperar mais quatro minutos do famoso filme sobre Lampião e seu bando, feito por Benjamin Abrahão, em 1936.

Abaixo, temos algumas frames, onde se vê, "Lampião”, como garoto propaganda da empresa Bayer, distribuindo aos seus cangaceiros, a aspirina contra dores e resfriados. O que o árabe Benjamin Abrahão conseguiu de Lampião não foi tarefa fácil para um homem comum.

Vejamos as magníficas imagens extraídas da película:

O rei do cangaço divulga, atesta...

 
... e oferece os comprimidos de Aspirina Bayer aos seus cabras.
 Cangaceiros devidamente identificados

O "sagrado coração”; Lampião ajoelhado, rezando, 
sendo seguido pelo grupo.

 Sob as lentes de Benjamin Abrahão, mais um close de "Corisco - o diabo loiro”, 
e sua famosa companheira " Dadá ".

E que tal esta do Rei cego?



Nesta ultima foto foto, o rei do cangaço aparece sem chapéu e muito próximo da objetiva, mostrando o seu perfil frontal, cabelos compridos,... Outros detalhes interessantes são os óculos e o fuzil.

Um abraço a todos
Ivanildo Alves Silveira
Colecionador do cangaço
Conselheiro do Cariri-Cangaço
Sócio da SBEC
Natal/RN

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Rubens Antonio

Mais um garimpeiro da marca azeda

Confira algumas das imagens e respectivas manchetes de jornais ripadas pelo confrade Rubens Antonio em suas "rastejadas" pela Bahia.

As fotos são escaneadas de jornais deste estado. Infelizmente ainda não conseguimos a nitidez desejada. A intenção é para que nossos leitores constatem que semelhantes a estas há outras imagens que permanecem perecíveis na fragilidade dos jornais e ainda não estão devidamente recuperadas e reproduzidas nos livros.

Quem é este elegante cidadão? 
Esta foto foi "batida" em 1940 na cidade de Salvador quando o ex cangaceiro "Jurity" já em liberdade após um ano e meio de ter se entregado foi visitar os velhos companheiros, cangaceiros do bando de "Labareda", que estavam detidos após as ultimas entregas. Compare com  a sua figura na época do cangaço em foto de 1936.


Os visitados

 Saracura, Jandaia, Labareda, Patativa,  e suas mulheres, com e Deus-te-guie, no centro ao fundo. As meninas eram Zephinha, de Jandaia; Maria Eunice, de Patativa; Flauzina, de Saracura e Ozana, de Labareda.
 
Bônus Lampião Aceso
 
Cangaceiro "Jandaia" em Pinhão-SE 
ao lado do amigo e primeiro prefeito da cidade, Costinha, 
irmão de Joãozinho Veneno
 


05 de junho de 1932, no “A Tarde”: (Grafia da época)

"É presa a companheira de um bandido de Lampeão

Dentre os bandidos do grupo de Lampeão, que infelicita os sertões nordestinos, figura o de alcunha “Ferrugem”, que é um cabra destemido e bem disposto.

A policia tem estado por varias vezes na eminencia de captura-lo, não o logrando por causa da sagacidade e dextreza do caibra. Mesmo assim não houve esmorecimento por parte dos perseguidores.

Há dias, foi capturada ali, a rapariga Maria da Conceição, que tinha nos braços uma criança. Interrogada, confessou ser amante do perigoso “Ferrugem”.

Hontem, Maria da Conceição chegava a esta cidade pelo trem do horario, sendo recolhida ao xadrez da delegacia auxiliar, de onde, pela tarde de hoje vae ser mandada para a detenção.

Maria que é cabocla forte e sadia, ao ser inquerida pela reportagem de “A Tarde” nada quiz responder. Não sabia contar os combates.

Só “Ferrugem” que é homem do cangaço – disse rindo-se bastante, deixando á mostra os seus dentes alvos e certos."

Para quem não consegue enxergar o Cangaço em muitas das suas dimensões... aqui uma delas... Uma foto de um soldado morto em Outubro de 1933.


Pedro Emygdio de Oliveira pernambucano, com 36 anos de idade, morto devido a ferimento em confronto com cangaceiros, sendo enterrado no cemitério da Quinta dos Lázaros, em Salvador, Bahia.
Causa-mortis no laudo cadavérico: "sceptcemia grangrenosa, em consequencia de fractura do femur por projectil de arma de fogo."

Já do ladro negro da força: Os despojos de Alagadiço,SE.


 O que restou dos cangaceiros Zé Baiano, Demundado, Chico Peste e Ascelino. 
Foram assassinados por civis em 1936 no Povoado Alagadiço, município de Frei Paulo, SE. Para facilitar a escavação os corpos foram enterrados em um "formigueiro". Após a exumação Zé Baiano teve a cabeça cortada, mas não foi levada. Foram novamente enterrados, alguns ossos estão expostos no Memorial que fica no mesmo local deste massacre.

Corpo de Zé Baiano e a sua cabeça sob o mesmo.

Detalhe da face da "pantera negra dos Sertões".  
Choca? Agora imaginem esta foto em cores!

Postadas originalmente nas comunidades do Orkut : Cangaço, Discussão Técnica
e Lampião, Grande Rei do Cangaço