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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Ângelo Osmiro...

...E as controvérsias de Sila

Durante a noite Cariri Cangaço - GECC, ocorrida em Fortaleza no dia 6 de dezembro tendo como personagem principal a ex-cangaceira Sila; o pesquisador e escritor Ângelo Osmiro (Foto) um dos expoentes do debate; trouxe-nos um apanhado de registros que se encontram nos diversos livros que contaram com a colaboração da mesma; Na oportunidade do debate o trabalho apresentado por Ângelo acabaria sendo um dos pontos referenciais e que agora transcrevemos abaixo:
 
A primeira obra em questão é:  

Pág. 25: Sila diz que Zé Baiano a procurou, entretanto foi morto, e em seu lugar apareceu Zé Sereno. (motivo: Morte de Zé Baiano).

Pág. 26: Diz que não foi à festa (organizada pelos cangaceiros); Em outros livros diz que dançou a noite toda com Luiz Pedro. Em “Sila uma cangaceira de Lampião” diz que Zé Sereno foi seu “par inseparável” durante o baile.

Pág. 27: Conta episódio do encontro, onde caiu no riacho, ficou toda molhada. O encontro seria com Zé Sereno. Em “Sila no divã” conta o mesmo episódio sendo o personagem Zé Baiano (primeiro encontro).

Pág. 28: “[...] Respondi-lhe que só possuía vestidos na bagagem”; Sila em vários depoimentos, diz que foi (para o cangaço) somente com a roupa do corpo.

Pág. 29: “Sentia-me como em outro mundo. Triste, isolada de minha família, desiludida e amedrontada, por não conhecer toda aquela gente estranha...”

Pág. 30: “[...] Mulheres, apenas duas: Nenen e eu. Novo Tempo, Mergulhão, Marinheiro eram os três novos cangaceiros”. (Nenen morreu logo nos primeiros dias, seus irmãos só entrariam depois).

Pág. 38: Repete a informação acima (Desta vez em um encontro na casa de um coiteiro).

Pág.53: “[...] No meio dos cangaceiros passaram a me chamar Maria Bonita”. Palavras de Maria Bonita para Sila, segundo ela.

Pág. 54: Diz que o grupo estava constituído de cinco pessoas.

Pág. 60: Ainda contando a mesma história diz que o grupo era constituído de 10 pessoas.
   

Obra 

Pág. 50: Amaury narra encontro de Sila com os cangaceiros: “Ocorreu o encontro com Zé Baiano, ele ficou de voltar para pegá-la, nesse ínterim foi morto em Alagadiço e Sereno voltou e pegou Sila” continua Amaury: “Poucos meses depois em fins de 1936 ou em janeiro de 1937 os irmãos de Sila resolveram entrar no grupo de cangaceiros”.

Pág. 107: “A escuridão da noite envolvia as duas; [...] Somente se avistava pontos vermelhos de cigarro que as duas fumavam”. “Já seriam mais de 21h00min horas quando foram dormir”

Pág. 108: “[...] Sila corria junto com Candeeiro”. “[...] a mulher de Cajazeira, Enedina, juntou-se ao grupo que fugia”





Obra 

Pág. 13: A própria Sila, segundo Daniel, fala uma vez que nasceu em 1919 e outra em 1924.

Pág. 16: Surge uma terceira data dita por Sila, em entrevista: “em 1927, aos seis anos”. Então aí teria nascido em 1921?

Pág. 23: Diz ter apenas dez anos quando o pai morreu.

Pág. 35: “[...] aos treze anos, Sila conhece as primeiras emoções”; Diz Sila: “Era bastante desenvolvida para minha idade; mas o olho de meu pai estava presente em todos os lugares”. (O pai não teria morrido quando ela tinha dez anos?)

Pág. 36: “[...] Aos doze anos de idade ouvi falar do cangaço. meu pai temia os cangaceiros, uma vez informado que o bando estava próximo de Poço Redondo, escondeu todos os filhos, protegendo-nos contra qualquer perigo”.

Pág. 93: “Ninguém roubava, pedia. Ninguém entrava na casa dos outros para roubar”. “Eu pessoalmente ajudei muitos pobres”.

Pág. 97: “Candeeiro pedia-me para não deixá-lo ali. baleado na perna o cangaceiro implorava ajuda”.


4ª Obra  


Pág. 19: Sila diz que não aceitou as joias que Zé Baiano a presenteou. (Em outros livros disse que recebeu).

Pág. 20: diz que Zé Sereno voltou no dia seguinte. (em outros livros diz cerca de um mês) revela o motivo de Zé Baiano não levá-la e sim Zé Sereno; foi um desentendimento entre os dois. (Em outros livros diz que nunca soube o motivo).

Pág. 24: Deixa evidente que os irmãos não a acompanharam de imediato.

Pág. 29: “Eu não tinha nenhuma notícia dos meus familiares” (em outros livros também diz que os irmãos estavam com ela?) “[...] Íamos para Poço Redondo e encontramos meus irmãos. Eles disseram a José que estavam sendo perseguidos pelos soldados desde que eu entrara no bando” José respondeu: “Se vocês quiserem entrar para o cangaço, entrem”.

Pág. 30: “Lampião dirigiu-se a eles e disse: Du fica sendo chamado de Novo Tempo, Gumercindo de Mergulhão e Antônio de Marinheiro”. “Fiquei muito satisfeita de agora em diante ter meus irmãos junto de mim”.

Pág. 33: “Zé Rufino da polícia sergipana”.

Pág. 50: "Sila diz que Zé Sereno acabara de conhecer Pedro de Cândido e na mesma página diz que Zé Sereno “não gostava daquele coiteiro”.

Pág. 51: "Pedro de Cândido voltou ao coito dia 16 de julho (deve ser erro de impressão)"

Pág. 52: Repete a história da luz

Pág. 57: “Foi lido um ofício do presidente Getúlio Vargas declarando anistia a todos os cangaceiros que se entregassem (na cidade de Jeremoabo)”.

Pág. 59: Repete hist. Ofício de anistia.

Pág. 89: “Fomos lançar no Juazeiro do padre Cícero, lugar que Lampião tantas vezes andou”.


5ª Obra

Pág. 21: “Aos nove anos perdi meu pai” (também diz que perdeu aos10, aos 9 e aos 13 ainda estava vivo)

Pág. 27: “Zé Sereno meu par inseparável” (no baile de despedida). Em outras obras diz ser Luiz Pedro).

Pág. 28: Diz que seus irmãos a acompanharam desde o primeiro dia. (Em outras obras: dias depois ou meses depois)

Pág. 36: Tenente Zé Rufino da polícia de “Sergipe”.

Pag. 42: Em conversa com Maria Bonita ela teria dito se chamar Maria Déa; Quando entrou no grupo passou a ser chamada Maria Bonita. Reunião com chefes de grupo com a presença de Zé Sereno e Zé Baiano em novembro de 1936, Zé Baiano foi assassinado no dia 07 de julho de 1936.

Pág. 43: O coronel Nogueira queria se apossar das terras de Zé Ferreira, daí Virgolino entrou no cangaço.

Pág. 57: “Lampião invade Nazaré e queima as casas dos Nogueira”

Pág. 59: “[...] A polícia cercou a casa do pai (Zé Ferreira) juntamente com Zé Saturnino, a mãe de Virgolino não suporta e morre do coração”.

Pág. 64: “Após a morte de Lampião os companheiros sobreviventes escolheram Zé Sereno para comandante”

Pág. 70: “[...] Botei o fuzil no ombro, cartucheira entupida de balas e toquei...” (arma grande)

Pág. 73: “[...] Descansei o fuzil no meu colo...”

Pág. 75: “[...] Dei um salto e arrebentei a coronha do mosquetão na cabeça do soldado”.

Pág. 76: “costumeiramente passavam alguns dias conosco, Luiz Pedro, Nenen e Zé Baiano”. (Neném não morreu nos primeiros dias?) Morto Lampião, Zé Sereno assume o comando de "200 homens", inclusive Corisco e Dadá, “apesar de estarem afastados de Lampião por divergências”.???

Pág. 77: Sila Identifica amiga Adília como Enedina.

Pág. 80: Confessa ter presenciado a execução

Pág. 96: “[...] O sol desbancava no horizonte quando Maria Bonita me chamou para trocarmos dois dedos de prosa...”

Pág. 98: “[...] Caminhei em direção a tolda, vi novamente a mesma luz...” “[...] Se eu lhe houvesse falado sobre aquela luzinha, tudo teria sido diferente”.
“Um primeiro tiro ecoou matando um companheiro”.
 “Segurei na mão de Enedina e arrastei para o meu lado”.
 “[...] Candeeiro baleado na perna, pedir-me que não o deixasse ali, o cangaceiro implorava ajuda”.

Pág. 102: Entregas: Dulce, Adília e eu permanecemos em Jeremoabo. (Adília dizia ter se entregado em Propriá-SE).

Pág. 118: Em entrevista perguntou ao irmão João Paulo: “Você ficou triste quando Marinheiro, Novo Tempo e Mergulhão saíram para nossa companhia?


Ângelo Osmiro
Presidente do GECC, Sócio da SBEC
Conselheiro Cariri Cangaço


*Obrigado ao confrade Ivanildo Silveira pela cortesia das Capas solicitadas. 

terça-feira, 24 de maio de 2011

Não morda a língua

Não desperdice material, não confunda...


Amigos, sei que falta muita, mas muita coisa.

Avaliei os principais tropeços, reunindo nosso humilde conhecimento e nos valendo de textos e respectivos autores de seriedade, e selecionamos as informações que vocês verão a seguir.

Preciso dizer que o conteúdo do artigo parte do princípio básico.

É direcionado a quem precisa colher, corrigir ou está aplicando tais informações em determinado trabalho e ainda pode refazê-las.

A sofistica é persistente, são muitos os "erros primários" cometidos principalmente pela imprensa, revistas de variedades, música, cinema... e por nós blogueiros inclusive etc.

Vamos aos deslizes menos técnicos.

Engana-se, ou insiste no erro, quem pensa que Virgolino só se tornou cangaceiro com a morte do pai.

De fato, desde a briga com Zé Saturnino, que Virgulino e os seus irmãos Antônio e Levino já estavam vivendo uma vida nômade. Quando foram para Alagoas, juntaram-se ao bando dos Irmãos Porcino. Se os Porcinos já eram cangaceiros famosos no nordeste precisamente no sertão de Alagoas, e Virgulino se junta a eles, certamente já estava sendo cangaceiro.

Ou será que ele estava lá “catequizando” os bons irmãos?

Irmãos Ferreira e irmãos Porcino fizeram um assalto grandioso à Vila de Pariconha/AL, o que gerou a perseguição comandada pelo então Tenente José Lucena, e que veio a culminar com o assassinato do patriarca José Ferreira. Dona Maria Lopes a matriarca da família Ferreira não foi assassinada junto com seu marido. Morreu de infarto fulminante aos 47 anos de idade dia 22 de maio de 1921 na localidade de Engenho Velho próximo ao vilarejo de Santa Cruz do deserto/AL.

José Ferreira aos 48 anos no dia oito de Junho de 1921 é assassinado pela volante comandada por José Lucena Albuquerque Maranhão acompanhado do delegado Amarilio Batista e do sargento Manoel Pereira .

Zé Saturnino, sempre esteve ao alcance de Lampião, e esse, não desejou mais matá-lo, como também, ao grande inimigo Ten. José Lucena. O fato de Lampião deixar seus inimigos ( nº 01 e 02 ), com vida, é para justificar perante a população nordestina, ou seja, pretexto para continuar no cangaço, matando, estuprando, sequestrando, extorquindo, além de outros crimes. Ele passou a gostar da vida errante, e do dinheiro que essa lhe rendia. O escritor Frederico Pernambucano de Mello, denomina isso de " ESCUDO ÉTICO ", em sua belíssima e recomendada obra: Guerreiros do Sol. Também, para justificar sua vida no cangaço, o rei vesgo invoca a morte do seu genitor, no sentido de vingança.

Zé Saturnino faleceu em sua fazenda, a 05 de Agosto de 1980, com a idade de 86 anos e já sem lucidez.

Quanto a Zé Lucena faleceu em maio de 1955, vitimado por uma doença.

Lampião passa a ver no cangaço, " UM MEIO DE VIDA ", uma profissão, visando lucro, vejamos uma interessante passagem colhida por Frederico.

O facínora Pedro Barbosa da Cruz, vulgo 'Pedro Miúdo', encontra-se com o bando de Lampião na Faz Riacho Fundo, perto de Antas, município de Águas Belas. O rei do cangaço, o convida para acompanhá-lo, ao que "Miúdo" lhe responde, que fora soldado de uma volante comandada pelo Ten. José Lucena, e o mataria por "cinco contos de réis". Surpreso, Lampião agradeceu a oferta com um raro gesto de prodigalidade: dá-lhe de presente, uma faca de cabo trabalhado. Em seguida, dirigindo-se ao cabra, devolve a surpresa com a seguinte confidência:

" Deixe isso. Essas questões já estão velhas". (Fonte: Livro - Guerreiros do Sol, pg.123).

 José Lucena e Zé Saturnino.
Questões superadas.

...Que Lampião era cego em virtude de um Glaucoma. Errado.
Virgulino sofria com um Leucoma

De fato, Glaucoma é endurecimento e aumento do volume do globo ocular, causado por um aumento de pressão sanguínea naquela região. Leucoma, ainda segundo o Dicionário Aurélio, é o “embranquecimento ou turvamento da córnea que é transparente”. Até onde se sabe, Lampião já trazia o Leucoma desde a juventude, e se agravou em um combate com um grupo de nazarenos. Reza a história que David Jurubeba, após disparar um tiro, este atingiu uma moita de quipá (palmatória), e um espinho veio a atingir o olho de Lampião, provocando um agravamento de uma situação já preexistente.

... Que o  fato das volantes se trajarem igual aos bandoleiros era tática ou ordem oficial.
Governo nenhum deu determinação para que soldados se vestissem de Cangaceiros. Foi um uso que se formou com o tempo, tanto que em 1926, o Governador de Pernambuco Sérgio Loreto, fez baixar ‘Portaria’ exigindo o uso do traje militar para as tropas volantes.


Aqui é uma das forças volantes de "Nazaré" sob o comando de Euclides Flor.
Por conta das suas vestes as imagens dos Nazarenos em sua totalidade são quase sempre assimiladas aos cangaceiros. 

Encontrei diversos artigos ilustrados que fizeram os grandes chefes se revirarem no túmulo. 

... Que o cangaceiro José Leite de Santana, O Jararaca, "abriu a própria sepultura". 

 Homero Couto, que foi o motorista do carro que levou Jararaca, desmente . Disse que o “buraco já estava aberto e que a ação não durou mais que dez minutos”. Ou dá pra se abrir uma cova nesse espaço de tempo?


 LEGENDAS E TERMOS

Não é gruta  
É GROOOOOOOOTA

Angico não é e nunca foi território Alagoano. 
A fazenda pertencia à antiga região de Campo-Santo do Morgado do Porto da Folha. Porto da Folha, também em Sergipe, é uma  cidade "vizinha" e permanece com este mesmo nome.


  Ambas cidades circuladas no canto superior

Não é Eronildes
É Eronides.

Não é Pedro de "Cândida". 
É Pedro de Cândido, seu nome completo era Pedro Rodrigues Rosa. A mãe de Pedro se chamava Guilhermina, e o pai, Cândido.


 Esta moça não é Maria Bonita é a cangaceira Inacinha
uma das companheiras do cangaceiro Gato. 


Esta também não é Maria. É "Nenêm"
companheira de Luís Pedro.


 À esquerda. novamente "Nenêm", ao centro "Luís Pedro"
seu esposo e a direita "Maria Bonita".


Este é o ator Chico Dias e não o cangaceiro Corisco". Ele interpretou o "diabo loiro" num longa de 1997. Foram detectados trabalhos incluindo esta foto de divulgação entre fotos originais de cangaceiros.


 Vários livros apontaram essa bela cabrocha, Maria Jovina, companheira do cangaceiro 'Pancada' como sendo Lídia, a cangaceira que fora assassinada pelo seu companheiro Zé Baiano, que não possui fotografia.



Pesquisa a partir de textos de: Sérgio Augusto de Souza Dantas, Ivanildo Silveira e Kydelmir Dantas. Os amigos podem colaborar sugerindo outras correções via comentário ou email para uma próxima edição.

Abraçando
Kiko Monteiro 

  

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Antônio Silvino e o crente

Estocado eme Crença 

Por Salomão L. Ginsburg (Foto).

Capítulo do livro A Wandering Jew in Brazil, Salomão L. Ginsburg, 1921 Um Judeu Errante no Brasil. Uma autobiografia de Salomão Luiz Ginsburg. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1931.  

Corrigida e atualizada por Paulo Brabo.


Depois de uma discussão que havia se alongado por três anos, através da imprensa diária, com as forças organizadas do sacerdócio católico em Pernambuco; depois que todos os esforços haviam sido feitos para expulsar-me do Brasil, especialmente do campo de Pernambuco, onde o Senhor nos abençoava, um monge reacionário italiano, chamado Celestino, resolveu eliminar-me por assassinato.

No norte do estado de Pernambuco havia um bando de cangaceiros à solta, cometendo todo tipo de atrocidades. Seu chefe era um dos homens mais destemidos que já apareceu no Brasil: seu nome, Antônio Silvino. Um grande número de crimes era atribuído a esse bando, e o governo havia oferecido a soma de US$10.000 – 40.000 mil réis – pela sua captura, vivo ou morto. Era muito difícil, no entanto, capturar esse homem. Ele tinha o desconcertante dom de atirar e acertar em cheio, normalmente matando aquele que havia ousado atacá-lo. Ele era também generoso com os pobres e dividia com eles grande parte do espólio que tirava dos ricos ou até mesmo do governo.
"A primeira coisa que me passou pela cabeça é que ele devia estar caçando".
Foi a esse homem que o monge italiano recorreu. Ele apelou para a sua credulidade e superstição, e obteve de Silvino o consentimento de me matar pela soma de 250 mil réis (cerca de duzentos e cinqüenta dólares). Eles descobriram o dia exato em que eu deveria chegar ao vilarejo de Moganga e deixaram o homem preparado para me atacar de surpresa.

Deixei a cidade de Nazaré cerca de duas da manhã. Eu levava um companheiro comigo, o irmão Amaro, um convertido nativo que foi como meu guia. Perto das cinco da manhã vi um homem baixo e franzino, mas de aparência rija, em pé num campo próximo à estrada pela qual eu tinha de passar. Em suas mãos ele trazia uma espingarda de cano duplo, e uma longa faixa de cartuchos atravessava o seu peito. A primeira coisa que me passou pela cabeça é que ele devia estar caçando e, como é meu costume, parei o cavalo e cumprimentei o homem, desejando um bom dia e perguntando se ele havia saído para caçar.

Ele não se dignou a responder, então perguntei se já tinha pegado alguma coisa naquela manhã, mas ele permaneceu calado. Assim, dando com as esporas no meu cavalo, eu estava prestes a seguir meu companheiro, que já havia seguido adiante, quando um negro pulou de uma árvore bem diante do meu cavalo, e tive que me esforçar para manter o controle das rédeas. O homem atrás de mim gritou-lhe alguma coisa que não pude compreender, mas ficou claro que o negro sim, porque saltou de imediato para fora do caminho e deixou-me prosseguir a viagem.

Logo em seguida passei por outro vilarejo, chamado Sapé, e ali encontrei Cocada, um encorpado homem branco cuja face pintada de vermelho o denunciava como membro daquele célebre bando de foras-da-lei. Esse sujeito estava sentado no chão recebendo presentes ou ofertas que lhe traziam os habitantes do lugar. Ele nem mesmo olhou para ver quem estava passando. Às oito cheguei ao vilarejo de Moganga, onde deveria passar o dia, pregando e ensinando.

Tão logo cheguei, no entanto, pude ver a surpresa estampada no cada rosto de cada um que encontrava. O líder político do lugar, em cuja casa eu deveria ficar durante minha estada na cidade, recebeu-me com alegria incontida e abraçou-me repetidamente enquanto perguntava o tempo todo: “O senhor viu o Antônio Silvino?”

Respondi que não conhecia esse homem pessoalmente, por isso não podia dizer com certeza se havia me encontrado com ele ou não. Falei, no entanto, sobre os que havia encontrado no caminho, e ele informou-me que o primeiro, segurando a espingarda de cano duplo, era a pessoa em questão.

O líder político contou em seguida que tinha sido informado que esse mercenário havia recebido dinheiro para providenciar que eu fosse removido da terra dos vivos. Tão logo havia ganho conhecimento disso ele havia estado tentando entrar em contato comigo, mas como eu já havia deixado o lugar onde eles haviam esperado me encontrar, o homem havia chegado ao ponto em que não soubera mais o fazer, a não ser entregar nas mãos da Providência, como ele mesmo colocou (o homem não era crente).
"Vieram lhe dizer, para sua consternação, que era Antônio Silvino e queria falar com o Sr. Salomão".
Tive um dia muito atarefado. Regozijando-me por ter escapado das mãos do mercenário, passei um dia glorioso entre os crentes. Nossa reunião pública começou às 7 da noite e durou até quase meia-noite. Tivemos cântico de hinos, pregação, oração e testemunho, bem como a aceitação de candidatos a batismo. Cansado e quase exaurido, porque não tinha dormido na noite anterior, pedi ao irmão nativo que tocasse a reunião e fui para um quartinho que ficava logo atrás da sala da frente da casa do líder político .

Eu estava pronto para espalhar-me na minha rede quando ouviu-se uma batida na porta da frente. A exigência era que a porta fosse aberta imediatamente. O dono da casa foi ver quem estava perturbando a hora da meia-noite quando vieram lhe dizer, para sua consternação, que era Antônio Silvino e queria falar com o Sr. Salomão.

Você pode imaginar como meu coração reagiu quando percebi que aqueles eram provavelmente meus últimos momentos. Eu havia me congratulado por ter escapado do bandido e agora aqui estava ele, na própria casa do líder político e defronte a onde ficava a delegacia de polícia. Caí de joelhos pedindo ao Senhor apenas uma coisa, a força necessária para dar um bom testemunho. O Senhor me deu o dom de não temer coisa alguma ou quem quer que seja, mas deu-me também um espírito muito sensível. Não suporto ver sangue, e toda minha coragem se esvai quando vejo alguém sofrendo. A única coisa de que eu tinha medo era demonstrar medo caso ele resolvesse me torturar, e era para isso que estava pedindo forças. Louvado seja o seu nome, ele não falhou comigo.
“Sabe porque vim até aqui?”
"Sei. Pagaram ao senhor para me matar.”



 Cortesia do escritor Sergio Augusto Souza Dantas

Tão logo ele sentou vieram me chamar, e eu disse a eles que iria num momento. Entrando na sala da frente , um aposento grande e espaçoso, vi o cangaceiro sentado no sofá, a cabeça baixa. O líder político estava pálido e tremendo, enquanto sua esposa e sua filha, duas mulheres esguias, apertavam nervosamente as mãos e choravam como se seus corações fossem se despadaçar.

Caminhando até o homem, senti meu coração fortalecido e disse:
– O senhor desejava me ver; o que posso fazer pelo senhor?
– O senhor sabe quem eu sou? – ele perguntou depois de um intervalo.
– Sim, é o capitão Antônio Silvino – respondi.
– Sabe porque vim até aqui? – ele perguntou.
– Sei. Pagaram ao senhor para me matar.
– É verdade – respondeu ele.
Ali em pé diante do cangaceiro levantei mais uma oração silenciosa a meu pai do céu, pedindo que me ajudasse e tomasse conta de minha esposa e filhos. Alguns momentos se passaram sem que o homem fizesse qualquer movimento.
– Então – eu disse, – porque você não faz de uma vez o que veio fazer?
Ele, no entanto, não se moveu. Depois de alguns momentos de silêncio percebi que ele estava chorando, lágrimas escorrendo pela sua face.
– Não – ele disse, finalmente. – Não vou matar o senhor. Eu queria mesmo é matar a pessoa que me pediu pra lhe matar. Não vou matar um homem como o senhor. Hoje de manhã enquanto eu lhe esperava perto da vila de Sapé, o senhor parou o seu cavalo e falou comigo de um jeito tão gentil e bondoso que fui pego de supresa. Tinham me dito que o senhor era um sujeito perigoso, que suas doutrinas e ensinamentos eram uma maldição para o povo e para o país, e que matar o senhor seria uma benção pra muita gente. Mas o senhor falou comigo com tanta bondade que decidi descobrir mais sobre o senhor. Eu estava presente enquanto o senhor pregava e ensinava e rezava e cantava e posso lhe dizer que não vou matar de jeito nenhum um homem que está fazendo uma obra tão caridosa. 
“Não vou matar um homem como o senhor.”

Passamos aquela noite juntos e ele me contou a história da sua vida, uma das mais tristes que já tive oportunidade de ouvir. Ele não era um criminoso comum. Nascido numa família muito rica e aristrocática, Antônio Silvino era ele mesmo dono de uma grande e valiosa extensão de terra na Paraíba. Mas, por causa de querelas políticas, seu pai, irmãos, tios e primos haviam sido exterminados. Para escapar ao mesmo destino, ele havia decidido tornar-se cangaceiro e destruir não apenas seus inimigos políticos mas todos que ousassem se colocar no seu caminho. Até aquela ocasião ele havia assassinado sessenta e seis pessoas.

Conversamos e oramos juntos até o amanhecer. Depois desse encontro aquele cangaceiro tornou-se um ardente defensor da nossa causa naquela região. Ele não permitia qualquer perseguição contra o evangelho e contra os pregadores. Não tenho dúvidas que minha vida foi salva inúmeras vezes da destruição nas mãos de cangaceiros por causa das ordens estritas recebidas desse homem.

Algum tempo depois fui ao Tenente-Governador e ofereci-me para tirar esse cangaceiro do estado e dar a ele uma chance de regeneração, com a condição de que nem ele nem eu fossemos molestados. Sua excelência, embora um grande admirador do trabalho que estávamos fazendo, não via como conceder o que eu estava pedindo.

Logo depois que deixei Pernambuco, Antônio Silvino foi capturado. Ele foi trazido ferido para a capital do estado, onde foi julgado e condenado ao cárcere. Na prisão o seu prazer era ler a Bíblia e contar às pessoas que iam visitá-lo, bem como aos seus companheiros de prisão, o que o Senhor havia feito por ele. Silvino era encontrado constantemente orando e com a Bíblia nas mãos. O editor de certo jornal vespertino foi visitá-lo e voltou devidamente enojado:

“Tudo que se consegue arrancar de Antônio Silvino”, escreveu ele, “é sobre os batistas e a Bíblia”.


 Pesquei literalmente no: Bacia das Almas
 Imagem de Salomão L. Ginsburg Igreja Batista do Cordeiro 

Sobre o autor e obra.

A Wandering Jew in Brazil, Salomão L. Ginsburg, 1921 Um Judeu Errante no Brasil. Uma autobiografia de Salomão Luiz Ginsburg Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1931.

Obra escrita em inglês em 1921, e traduzida para o português por Manoel Avelino de Souza. Original: A Wandering Jew in Brazil: An Autobiography of Solomon L. Ginsburg. Nashville: Sunday School Board, Southern Baptist Convention, 1922.

Judeu convertido ao cristianismo, saíu da sua terra natal para a Inglaterra, onde foi evangelizado. Seu pai, um rabino ao saber da decisão do filho o deserdou. Foi residir num lar para judeus convertidos, onde aprendeu o ofício da tipografia. Sentindo o chamado missionário preparou-se. Inicialmente foi para Portugal, como missionário da Igreja Congregacional. Teve que se retirar dali ao escrever um folheto polêmico, acusando a Igreja Católica Romana.

Da imensa obra de Ginsburg destaca-se: Foi Ginsburg o editor do primeiro Cantor Cristão (16 hinos) em 1891 e na edição atual do referido Cantor ele aparece como Autor ou Tradutor de 102 hinos. Destaco ainda, conforme nos informa o Pr. Ebenezer Soares Ferreira (veja O Jornal Batista nº 30 de 24/07/94), Ginsburg foi o fundador, na cidade de São Fidélis no Estado do Rio de Janeiro da "Egreja DE CHRISTO, CHAMADA BATISTA" (27/07/1894). que foi a primeira Igreja Batista em São Fidélis Segundo o mesmo autor (9, pg. 64), o primeiro Templo Batista construído no Brasil, foi o da Primeira Igreja Batista de Campos, edificado sob o pastorado de Salomão Ginsburg.

O livro está disponível em PDF para Download no blog  Almanaque de História
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Este encontro teria mesmo ocorrido? Que outro autor narrou o aludido capítulo na vida do "Rifle de ouro"? 

Sempre bom, esclarecer que coloco o texto para análise dos leitores e pesquisadores. Não estamos atestando nada. Alem do mais o que sabemos de concreto sobre Silvino foi absorvido da excelente pesquisa do Dr Sergio Augusto de Souza Dantas publicada em seu livro O cangaceiro, o homem e o mito. Esta passagem era desconhecida para nós.

Me atrevi apenas à grifar algumas linhas que estranhamos de cara. A primeira preferimos não comentar por razões óbvias. Faço questionamentos como: "rostos pintados de vermelho", "Espingarda de dois canos",E quanto ao número de vítimas do governador do Sertão?  Além de algumas atribuições.

Fiquem a vontade para suas observações.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Scans: Revista Veja, 19 de Novembro de 1975.

Encontraram o ex cangaceiro "Curió"






Pedimos ao leitor desconsiderar o trecho: " Preso, Curió foi obrigado pelas volantes a cortar as cabeças de seu chefe, de Maria Bonita, Angelo Roque e Vila Nova..." pois, não corresponde a verdade histórica dos fatos.
 

Créditos: Ivanildo Alves Silveira


Para saber o destino do " velho pássaro" não deixe de ler este adendo de Messier Rostand.

Procurei mais detalhes e descobri no "Diário de Pernambuco, edição de domingo, 19 de Agosto de 1990, um dia antes, as 7:40, havia falecido no Hospital da Restauração, de embolia pulmonar, Marcos Alexandre da Costa. Ele tinha 88 anos, havia sido atropelado por um ônibus no Complexo de Salgadinho, no dia 16 de agosto de 1990.
 

Depois que foi solto em 1975, o então governador de Pernambuco, Moura Cavalcante lhe arranjou um emprego de marceneiro no Juizado de Menores. Morava na chamada Vila Popular, no bairro de Peixinhos, em Olinda. Havia residido anteriormente na Estrada da Caixa D'água.
 

Do seu casamento, depois que foi solto, cuidou de três enteados, que lhe deram 26 netos e 22 bisnetos.
Segundo a reportagem, Curió havia nascido no dia 7 de maio de 1907, na cidade de Bom Conselho, Pernambuco.

Primeiramente, entre 2006 e 2007, eu estava trabalhando em Caicó-RN, onde conheci uma senhora que nasceu em Olinda e vivia (acho que vive ainda) na cidade potiguar e me falou que quando morava em Olinda conheceu "Seu Marcos". Passou-me algumas informações que foram corroboradas, em parte, pela reportagem. Ela comentou que sobre sua vida cangaceira, ele era extremamente reticente em comentar este assunto. Mas na região onde eles viviam todos sabiam quem foi Curió.
 

Em 2007 postei sobre este encontro com esta senhora na comunidade do Orkut "Lampião, Grande rei do cangaço". Mas devido ao silêncio gélido "dos gênios" que aqui comentavam sobre cangaço, achei melhor me resguardar para depois não levar o nome de mentiroso. A única pessoa que se interessou e tentou encontrar alguma coisa sobre este cangaceiro em Recife foi nosso amigo Jal Gomes. Mesmo infrutífera na sua busca, valeu pela iniciativa maravilhosa.
 

Depois achei este artigo no "Diário de Pernambuco", mas aí assunto já tinha morrido. E agora vejo, de forma muito positiva, o amigo Ivanildo trazer este artigo da Veja.

Lembrei-me de outros detalhes: Se não me engano, na época em que Curió foi atropelado, a senhora me comentou que a empresa proprietária do ônibus se chamava “Vera cruz”, mas não tenho certeza. Que a família do ex-cangaceiro ficou revoltada, cogitando até entrar na justiça.
 

Outra coisa que ela me falou foi que em Peixinhos ele igualmente havia morado próximo a um antigo local que foi um “matadouro”. Pessoalmente não conheço estes locais. Seria legal nossos amigos de Pernambuco comentarem se estas informações poderiam, ou não, terem sentido. È só o que recordo.


Analisando esta questão do ex-cangaceiro Curió, percebemos que num primeiro momento ele teve até sorte e sua saída chamou atenção da sociedade local. O próprio governador pernambucano da época mandou buscá-lo em “carro oficial”, lhe recebeu como “herói” no palácio, lhe deu emprego e o utilizou (mesmo sendo ele analfabeto) como “garoto-propaganda” em uma feira regional de municípios.
 

Interessante como estes acontecimentos apontam a mudança de percepção da sociedade pernambucana, e por tabela a brasileira em geral, em relação ao cangaço.
 

Se em 1975, a saída de um ex-cangaceiro da prisão gerava toda esta notoriedade, se ele tivesse sido solto no final da década de 1950, certamente Curió buscaria inicialmente o anonimato, pois seria muito mais fácil ele ser execrado pela população como “marginal”, “bandido”, ou levar uma bala de algum desafeto.
Aparentemente, apesar da sorte inicial, sua vida posterior deve ter sido de muitos apertos.
 

Comento isso analisando as várias fontes apresentadas neste tópico, pois mesmo com o seu emprego de marceneiro no Juizado de Menores, ele deve ter ralado muito o ex-cangaceiro. Vemos que primeiramente passou a residir na “Favela do Córrego do Euclides”, em Casa Amarela, depois aparentemente na “Estrada da Caixa D'Água”, seguindo para a “Comunidade de Peixinhos”, onde viveu próximo ao antigo 
“Matadouro”, ou na “Vila Popular”. Além disso, teve de cuidar da mulher, três enteados, vários netos e bisnetos.
 

Detalhe; Não sei se procede (os colegas de Recife podem me corrigir), mas pelo que sei, estes locais que Curió morou na Região Metropolitana de Recife, são (ou eram) locais de alta periculosidade, de ocorrência de tráfico de drogas, etc. Mas, pelo menos até onde se sabe o ex-cangaceiro não se envolveu com nenhum tipo de problema envolvendo a marginalidade.
 

Não sei, mas creio que Curió foi o último cangaceiro a deixar vivo (e na época totalmente lúcido) um ambiente prisional no Brasil. Será?
 
 

Perda de oportunidade
 

Fosse por que Curió não gostava de falar, ou talvez por que em 1975 os estudiosos do assunto “cangaço” tinham “material de sobra” para pesquisar (ainda haviam muitos dos velhos coronéis, ex-perseguidores, ex-coiteiros, etc). Fosse por que estes estudiosos entendiam que naquela época não valia à pena perder tempo com um cangaceiro que, talvez, não fosse considerado “importante”, ou no bando era apenas um "lavador de cavalos”.
 

Fossem por estas ou outras razões, sei de uma coisa, para aqueles que gostam do assunto, faltou naquela época alguém ir até este Senhor e “furar” a sua barreira de prevenção em relação a falar sobre o seu passado. Faltou alguém ter tido a oportunidade de ao menos tentar conseguir dele a sua memória sobre este período.
 

Faltou naquele tempo um “batalhador da história”, como um João de Sousa Lima, que trouxe a bela a rica saga de Moreno e Durvinha.
 

Vemos que este ex-presidiário só ganhou notoriedade pelas suas andanças no cangaço. Provavelmente a reportagem da Veja, edição de Novembro de 1975, gentilmente postada por Ivanildo, foi publicada a partir de algum “furo” conseguido por algum correspondente da revista lotado em Recife, ou através de notícias publicadas nos jornais recifenses. Se ele não tivesse sido o cangaceiro "Curió", a morte do aposentado Marcos Alexandre da Costa seria uma simples notinha de rodapé da cronica policial recifense.

Um abraço.

 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Curiosidades

"EX-CANGACEIRO MORRE NA FILA DO INSS"

Notícia de "O Globo" de 19-04-91  

Severino Garcia dos Santos, o "Relâmpago" do bando de Lampião, chegou ao Rio de Janeiro na década de 40. Morava no bairro da Saúde e morreu aos 84 anos no INSS tentando receber pensão de CR$ 15.000,00.
Relâmpago, que se aposentou como ferreiro da indústria naval, vangloriava-se de que quando vivia no sertão tinha 12 mulheres e matou mais de 20 com Lampião.

Fonte: Revoluciomnibus

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Devaneios que inspiraram lixos literários

Seu dotô, pode botar aí, que foi verdade! 

Por: Ivanildo Silveira

O jornalista baiano, Juarez Conrado (vide foto), na década de 80, escreveu para o Jornal "A Tarde", uma série de 03 reportagens, depois transformada em livro, sobre os últimos dias de Lampião, antes da chacina, que o vitimou, na Grota do Angicos/SE, em 28/julho/1938.

Com base em depoimentos de coiteiros e ex-cangaceiros, em entrevistas com testemunhas oculares, e apoiado em cuidadosa pesquisa, que incluiu visitas ao cenário dos acontecimentos, o jornalista refez os sete dias, os últimos da vida do Rei dos cangaceiros.

Uma das reportagens feitas pelo citado jornalista, foi com o grande coiteiro " Manoel Félix" (vide foto, logo abaixo). Esse coiteiro esteve com Lampião, na Grota do Angico, em vários dias, seguidos, inclusive, no penúltimo dia que antecedeu a morte do Rei do Cangaço.

O grande coiteiro "Manoel Félix"

Nascido e criado em Poço Redondo, de onde jamais se afastou, trabalhando sempre no campo, Manoel Félix um sertanejo calmo e tranquilo, e, certamente, a principal testemunha de tudo o que ocorreu com "Lampião" e seu bando durante os sete dias de permanência na Grota do Angico, onde, surpreendido pela tropa do tenente Bezerra, encerrou, tragicamente, os 22 anos de aventuras pelos sertões de sete estados nordestinos.

Cortesia do pesquisador/escritor- Dr. Sérgio Augusto de Souza Dantas

Durante muito tempo conviveu com "Lampião", sendo por ele encarregado da aquisição de mantimentos na feira de Piranhas, no Estado de Alagoas, do outro lado do Rio São Francisco, bem à frente de Canindé.

Manoel Félix como a grande maioria dos moradores de Poço Redondo/SE de uma certa idade, viu de perto "Lampião", a quem jamais traiu ou temeu, porque dele ignora qualquer crueldade praticada na região contra os que ali viviam, o que não acontecia, porém, com as "volantes", temidas e odiadas pela barbaridade de seus integrantes que, no afã de compensarem sua incapacidade em descobrirem o bandoleiro, martirizavam com seus impiedosos tratamentos a quantos julgavam "coiteiros".

Manoel Félix , amigo particular de Virgulino Ferreira da Silva, a quem reconhece "um homem fino e educado", embora lamentando o seu trágico fim, "porque um homem como Lampião não devia morrer assim", confessa ter sentido "uma frescura de alivio no espinhaço" ao certificar-se de sua morte, pois, mais dia, menos dia, sabia que também ele acabaria torturado pelas desumanas "volantes".

Seu depoimento gravado, que nos prestou em Poço Redondo/SE, percorrendo em nossa companhia os principais pontos por onde "Lampião" passou, é o maior documento que pode existir sobre os últimos dias do "Governador do Sertão".

Viajou com Lampião

Manoel Félix que já conquistara a confiança de Lampião, teve oportunidade de fazer algumas viagens em companhia do famoso bandoleiro, a última das quais à localidade conhecida como Capoeira, às margens do Rio São Francisco, fato ocorrido após sua chegada à Gruta do Angico.

Em meio à viagem, pegaram uma cabra, do que se encarregou o próprio Manoel Félix, com ela preparando o almoço, já por volta das quatro horas da tarde. Propositadamente, tendo em vista que o encontro se daria à beira do rio, por onde navegavam muitas canoas, "Lampião" permaneceu escondido no mato até o cair da noite, quando foi se avistar com o fazendeiro Joaquim Rizério, com quem fizera as pazes após longos anos de feroz inimizade. O que conversaram ninguém veio a saber, pois a reunião entre ambos foi sigilosa, em local reservado.

Poupava as cobras

Já de retorno à gruta, um fato chamou a atenção de Manoel Félix: a preocupação de Lampião e seu bando em não matarem cobras por mais venenosas que fossem. Disso, aliás, o próprio coiteiro teve provas quando, distraidamente, ia pisando uma cascavel que surgira em meio ao caminho. Pegando de um pau para matá-la, foi impedido por Zé Sereno, que não permitiu, procurando, com muito jeito, fazer com que a cobra retornasse aos matos de onde havia saído.

Em outra,oportunidade, quatro ou cinco dias antes da chacina, Manoel Félix, em companhia do seu irmão Adauto, foi até a gruta levar para Lampião certa quantidade de doce de côco, por ele muito apreciado, tendo o cangaceiro, bastante satisfeito, agradecido o presente, logo distribuído em pequenas quantidades com algumas mulheres do grupo, como Maria Bonita, Enedina, Cila, Maria, Dulce e Maria, mulher de Juriti.

Nesse dia, havia chegado um sobrinho de Lampião, chamado de “José” – de 18 anos, a fim de integrar-se ao bando, tendo "Lampião" encarregado o coiteiro de comprar na feira de Piranhas/AL, do outro lado do rio, a mescla para preparar o bornal do jovem, o que, entretanto, não chegou a acontecer, como veremos mais adiante.

Lampião esperava “Corisco e Labarêda”


Conquanto nada lhe dissesse diretamente, porque com ele não conversava sobre assuntos internos do grupo, Manoel Félix ouviu de Lampião, na véspera de sua morte, estar na expectativa da chegada de Ângelo Roque, o "Labarêda", que fora a Jeremoabo, e de Corisco, que se encontrava do outro lado, em Alagoas.

Embora a conversa sobre esses dois bandoleiros fosse com Zé Sereno, Manoel Félix sentiu por parte de Lampião certa preocupação ante a demora dos mesmos, preocupação que o levou a conjecturar sobre um possível encontro com as volantes, hipótese logo descartada porque, segundo disse, "se fosse macaco a gente já tinha sabido".

Até às 18 horas do dia 27/julho/1938, véspera da morte de Lampião, quando deixou a Grota, Manoel Félix não registrou a chegada de nenhum dos dois celerados, confirmando-se depois que se encontravam ausentes no momento do cerco pela tropa do Tenente João Bezerra.

Contatos

Outro detalhe muito importante relatado por Manoel Félix é o que se relaciona às ligações de Lampião com influentes fazendeiros, principalmente nos estados de Bahia, Alagoas e Sergipe, embora sempre com o cuidado de não revelar, nem mesmo aos seus mais chegados seguidores, a identidade desses indivíduos.

Na última semana de vida, Lampião  manteve, lá do Angico, contatos com vários desses fazendeiros através de emissários que despachava secretamente, e dos quais, por motivos óbvios, exigia absoluto segredo de suas missões, geralmente com o objetivo de apanharem dinheiro, mantimentos, armas e munições.

De quem chegava, ou de onde chegava o que ele precisava, Lampião fazia questão de não relatar, mantendo tudo sob o mais completo sigilo.

A confiança de Luiz Pedro

Por volta das 15 horas do dia 27/Julho/1938, treze horas portanto, antes do cerco que lhe causou a morte, Maria Bonita, que na opinião de Manoel Félix, não competia em beleza com Cila, deixou a gruta, onde se encontrava com os companheiros, e foi banhar-se no riacho que passa próximo a entrada da mesma.

O coiteiro descreveu-nos a fiel e corajosa companheira de Virgulino Ferreira a Silva, assim à vontade, como uma: "mulher baixinha, toda redondinha, uma carinha bonita e com dois olhos pretos e grandes, morena clara, cabelos negros e lisos, quadris relativamente largos, cintura fina, tendo os braços e pernas roliços e muito bem feitos".

Muito "prosista e conversadeira", brincava bastante com alguns dos bandoleiros, pelos quais era respeitada, apesar de muitos deles levarem essa brincadeira mais além, como Luiz Pedro, por ela chamado de “Caititu”, e que gozava da maior confiança e intimidade da mesma e do próprio Lampião, seu compadre.

Nada de anormal até o momento? Realmente o Juarez tava indo até "marro meno"... vejam como a "invenção" de um gesto poe em cheque a autoridade do Rei do cangaço perante seu comandados. (Kiko Monteiro) 

Nessa tarde, por sinal, depois de "caçoar" com Luiz Pedro, deixando de fazê-lo somente no momento em que se dirigia para o riacho, o bandoleiro, que estava sentado sobre uma pedra, deu-lhe uma palmada mais ou menos forte nas nádegas, fazendo-a correr na direção do pequeno córrego, enquanto Lampião, que a tudo assistia, sorriu como se nada tivesse acontecido.

Na véspera da morte

Manoel Félix recorda-se que, na véspera da chacina, quando esteve com Lampião, informou não lhe ter sido possível comprar na feira de Piranhas, em Alagoas, tudo o que ele mandara (carne, peixe, queijo, agulhas, chapéu de couro, uma máquina de costura e brim mescla), porque, como já dissemos na reportagem anterior, a Polícia passou a vigiá-lo.

Ainda assim, entregou as agulhas de Maria Bonita, devolvendo a Lampião os 200.000 réis que dele recebera para adquirir mantimentos. Conversaram durante longo tempo, comendo queijo, que chegara da Fazenda Mulungu, de onde o bando havia recebido certa quantidade de farinha e açúcar.

Lampião mostrava-se bem disposto, pedindo-lhe, inclusive, que lhe cedesse o cinturão em virtude do seu já se encontrar bastante estragado.

Também Maria Bonita, muito "prosista e conversadeira", conversou com Manoel Félix, procurando informar-se da situação financeira do mesmo e dos seus familiares.

Aliás, desde o primeiro encontro que teve com o grupo, na Fazenda Bom Jardim, em Sobradinho, no local conhecido como “ Olho D'Água de Antônio Jorge", quando foi levar banha de peixe que o seu tio Lisboa Félix, também amigo e coiteiro de Lampião, mandara para o cangaceiro "Boa-Noite" passar no joelho doente, que "Maria Bonita" demonstrou haver gostado dele.

Nessa tarde, dia 27 de julho, Manoel Félix recorda-se de que vários cangaceiros jogavam cartas, entre eles Juriti, Passarinho, e Sereno, Luiz Pedro, José de Julião, Moeda, Mergulhão, Colchete, Alecrim, Fortaleza, Cajazeira, Criança, Quinta-Feira, Elétrico, Macela, Canário e Caixa de Fósforo, enquanto outros passeavam nas proximidades.

Luis Pedro, teve oportunidade de mostrar-lhe, e ao seu tio Caduda, que estava em sua companhia, grande quantidade de ouro guardada numa pequena caixa, como anéis, correntões e argolas.

Este bandido, de estatura mediana, claro, cabelo miúdo, e muito alegre, juntamente com Manoel Moreno e Zé Sereno, preparou a comida para o grupo na véspera da morte.

Embora não lhe revelassem plano de ataques a qualquer cidade, Manoel Félix pôde ver que o grupo contava com grande quantidade de armas e munições, como fuzis e revólveres, além de punhais.

Na última tarde que teve de vida, Lampião, segundo  Manoel Félix estava absolutamente tranqüilo, chegando mesmo a fazer pilhérias quando soube do medo que causava ao coiteiro a possibilidade de ser descoberto pelas volantes. Aliás, nos últimos meses, Lampião parecia mais acomodado, um tanto diferente porque sempre pensativo, o que não impedia, porém, de manter a autoridade sobre o grupo, inclusive com os mais temíveis dos seus integrantes, como aconteceu com Luiz Pedro quando este, querendo botar o seu cachorro para brigar com "Guarany” o de "Lampião", acabou se desentendendo com o chefe, de quem levou, sem responder uma única palavra, séria repreensão.

Com relação ao cachorro “Guarany” ocorreu um fato interessante na segunda-feira que precedeu à chacina do Angico: descansando, com a cabeça recostada a uma pedra, Lampião cochilava, tendo ao lado seu fiel cão de guarda, quando dele se aproximou Zé Sereno, trazendo um bode que capturara pouco antes.

Vendo o animal, “Guarany”, latindo muito, avançou sobre ele, assustando-o, fazendo com que bode, espantado, pulasse sobre Lampião, que, extremamente supersticioso, vendo na reação do bicho um possível mau sinal, ordenou, aos gritos, que Zé Sereno soltasse imediatamente "esta peste", no que foi prontamente atendido.

Até às 18 horas do dia 27/julho/1938, aproximadamente, Manoel Félix permaneceu no Angico, de onde saiu com a recomendação feita por Lampião para retornar no dia imediato, madrugada ainda, pois eles teriam que viajar, tudo indicando que, como das vezes anteriores, a última das quais na Fazenda Santa Filomena, distante duas léguas da sede de Poço Redondo/SE, iria receber 50 ou 100 mil reis de gratificação, pelos serviços que prestou.

Este, o encontro que jamais iria se realizar, pois, de acordo com as instruções recebidas, ao se dirigir, na madrugada do dia imediato (28/julho/1938), para a Grota do Angico , à certa distância ouviu o tiroteio terrível, o que lhe deu a convicção de que, afinal, a volante houvera descoberto o esconderijo de Virgulino Ferreira da Silva, cercara-o e se encontrava dando-lhe combate, sobrevindo, a morte do Rei do Cangaço, naquele fatídico dia.

Fonte: Segunda reportagem publicada em 28/05/1980) no Jornal "A TARDE" / Salvador
Autor: Jornalista Juarez Conrado


Considerações

Realmente, eu achei, também, muito estranho, a narrativa do autor da matéria, ao tecer comentários na reportagem sobre "Maria Bonita", tendo informado: É a narrativa de um fato inusitado, envolvendo "Luiz Pedro  e Maria Bonita", e que deixa os estudiosos/pesquisadores do cangaço de "orelha em pé ". Como se vê, ou o jornalista exagerou na sua narrativa, ou o coiteiro Manoel Félix, lhe narrou o fato, de maneira diversa do ocorrido, na realidade. 

Na minha opinião, acho difícil e improvável, que tal fato, tenha ocorrido.

Convém, também salientar, que na literatura cangaceira, pelo menos nos livros que li até hoje, não constatei, nenhuma linha, em relação ao comportamento de Maria Bonita, em que o rei do cangaço tenha externado "cenas de ciúmes", da parte dele, em desfavor de algum cangaceiro " . 
 
Como se constata, há muitas informações relativas ao "casal Rei do Cangaço", que precisam de uma melhor análise, separando-se o fato real, da lenda, bem como as insinuações de alguns escritores .

Um abraço a todos, 
Ivanildo Silveira
Natal/RN

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Opinião... precipitada

Quais os ídolos que queremos?
por Alessandra Bandeira  
Postado originalmente no Blog do Crato


Passado o seminário Cariri Cangaço, que como historiadora não senti a menor vontade de ir, me veio a reflexão. Todo dia acordo e penso : Qual o mundo que quero para meus filhos? Ligo a televisão, acesso a internet e só vejo corrupção, maldade, atrocidades, crimes contra seres humanos, contra a natureza e a cultura das pessoas em valorizar o que é ruim.

O valor que se dá para o forró eletrônico e a bandidagem é indiscutivelmente lamentável. Oras conheço várias pessoas que foram vítimas de violência e nem por isso elas reproduzem o que viveram, mas o Lampião não, esse é o herói, é o cara! Que cara? Que herói? Qual foi o benéficio que esse bandido fez? O que ele fez para mudar o mundo? Vejo pessoas se reclamarem da corrupção, falar que politícos são bandidos, e vem o contrasenso de fazer uma homenagem , de idolatrar um bandido.

Não é contraditório? Como queremos ser moralistas e defensores da honestidade quando idolatramos o que é errado? Por que não fazer seminários por aqueles que lutaram pela liberdade? Por que os exemplos bons são suprimidos? Realmente ,um bandido que vou ensinar meus filhos a ver como herói? Sei que nesse momento virão os defensores de Lampião indignados com o que estou dizendo, mas antes responda à simples pergunta : Qual foi o grande benéficio que este senhor fez ao Brasil, além de levar tumulto , caos e medo, qual a relevante mudança que ele fez para o mundo ?

Quem devo mostrar como herói: Mahatma Ghandi ou Lampião? Dona Bárbara ou Maria Bonita?
Banditismo por pura maldade ou banditismo por uma questão de classe?

Nota deste infame blogueiro. A publicação acima dispensa maiores comentários da nossa parte. Diferente da autora nós participamos do evento em sua totalidade, e o tema do seminário acredito eu que tenha sido Lampião no Ceará - verdades e mentiras e assim foi. Se havia algum palestrante que pretendia  idolatrar... este não foi convidado. Para somar ao nosso "dispensável" manifesto, eis aqui abaixo a ultima matéria do Jornal Diário do Nordeste sobre o evento.


SEMINÁRIO NO CARIRI - Lampião é avaliado como ´bandido´ -
Reportagem: Antonio Vicelmo 

Missão Velha. O "Cariri Cangaço" foi o maior acontecimento do gênero realizado no Nordeste. A declaração é do presidente em exercício da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), Ângelo Osmiro Barreto, no encerramento do encontro que reuniu cerca de 70 historiadores, pesquisadores, ensaístas, professores e estudantes de todo o Brasil.
O encerramento ocorreu domingo, com uma palestra de João Bosco André sobre as ligações de Lampião com o município, que é considerado a porta de entrada do Cariri. Apesar da paixão pelo tema, a maioria dos integrantes não vê os cangaceiros como heróis. Ao contrário, Lampião e seu grupo foram apresentados como bandidos sem nenhuma causa social. "Foram os cangaceiros que introduziram o seqüestro em larga escala no Brasil". Faziam reféns em troca de dinheiro para financiar novos crimes. Caso não recebessem o resgate, torturavam e matavam as vítimas, a tiro ou punhaladas, disse o escritor José Peixoto Júnior, autor do livro "Bom Deveras e Seus Irmãos". Peixoto lembra que, no século passado, o Cariri estava povoado de cangaceiros. Os irmãos Marcelinos, por exemplo, cobravam imposto de quem transitava em cima da serra do Araripe.
O escritor reproduz várias cartas assinadas pelos cangaceiros "Bom Deveras", "Lua Branca" e "João-22", ameaçando incendiar fazendas e matar o gado do proprietário rural que não lhes enviasse uma determinada quantia. O escritor Magérbio Lucena destaca que os cangaceiros ofereciam salvo-condutos, com os quais garantiam proteção a quem lhes desse abrigo e cobertura, os chamados coiteiros. Eles também, segundo Magérbio, "sempre foram implacáveis com quem atravessava seus caminhos: estupravam, castravam, aterrorizavam. Corrompiam militares e autoridades civis, de quem recebiam armas e munição. Um arsenal bélico sempre mais moderno e com maior poder de fogo que aquele utilizado pelas tropas que os combatiam". Com o comentário, o escritor diz que a atual violência nas grandes cidades é uma cópia do comportamento dos cangaceiros de ontem.
Entusiasmado com o sucesso do evento, o coordenador do "Cariri Cangaço", Manoel Severo, anunciou o próximo encontro para agosto de 2010, quando serão debatidos dois temas: "O Fogo das Guaribas" e "Os Nazarenos".
O primeiro tema refere-se à mais violenta batalha ocorrida no Ceará, no município de Porteiras, tendo como protagonista o considerado mais valente de todos os coronéis do sertão do Cariri, Francisco Lucena, conhecido por "Chico Chicote", que não era propriamente um cangaceiro, mas um daqueles valentões típicos da sociedade sertaneja de 1920, no sul do Ceará. Um dia, Chicote trabalhava no campo quando sua casa foi cercada por uma "volante" cearense, comandada pelo tenente José Gonçalves Bezerra. Um amigo de Chicote, de nome Joaquim Morais, o primeiro a tentar resistir, foi logo morto.
Duas outras "volantes", uma pernambucana e outra paraibana, que se achavam próximas, inclusive reforçadas por cangaceiros da família Salviano, inimiga de Chicote, vieram reforçar o cerco. "Foi uma das brigas mais feias daqueles tempos do cangaço", escreveu o escritor Abelardo Montenegro. Já "Os Nazarenos" faz referência a um grupo familiar que dedicava tempo integral na busca e, se possível, destruição de Lampião e seu bando. Eles entraram na Polícia com o objetivo de vingar a morte de parentes. Eram moradores da Vila de Nazaré, hoje Carqueja, no interior de Pernambuco, que se tornaram eternos perseguidores de Lampião. O mais famoso dos Nazarenos foi o tenente David Jurubeba, que morreu em Serra Talhada, terra natal de Lampião, há cinco anos.
Os bandidos de hoje são os cangaceiros de ontem. A violência sem medidas é a mesma"
Magérbio Lucena, Médico e escritor

ANTÔNIO VICELMO 
Repórter do Jornal Diário do Nordeste




É demais para minha cabeça

Hans von Manteuffel /Agência O Globo
 Vem ai o "Cangagay"

Está programada para acontecer no próximo dia 03 de outubro uma parada gay (parada da diversidade) em Serra Talhada. Com expectativa de algo em torno de 5.000 pessoas no evento que conta com o apoio da prefeitura local, até aí para mim ta tudo ok, respeito a opção dessa turma, cada um faz o que quer do seu livre arbítrio.

O que eu não acho legal é o tema dessa parada, que é denominada "CANGAGAY" é essa relação com o cangaço que ta difícil de aceitar, me falaram que confeccionaram um boneco de Lampião (tipo os bonecos de Olinda) todo vestido de rosa com trejeitos afeminados e que terá um bloco que sairá fantasiado de cangaceiros gays.

Quando na realidade isso é um contra-senso, Lampião nunca apoiou nem um movimento homossexual, pelo contrario não tinha a menor tolerância com homem afeminado ou com mulheres metidas a macho, é só buscar na literatura cangaceiristica, tem inúmeros casos.

Eu fico pasmo é das autoridades locais (Deputados, Prefeito, Secretario de cultura...) não saberem disso e apoiarem um evento desses, estão pra frente essa galera! E pensar que estamos no alto sertão nordestino, terra de cabra macho! (acho que depois desse evento esse estigma vai cair).

Foi confirmado a cobertura do evento pelo programa "Pânico na TV" da Rede Tv. O cangaço será ridicularizado por um programa humorístico em rede nacional.

Lampião ta fazendo falta!

Será que eles podem expor a imagem do rei do cangaço a um evento desses? Eu particularmente vou tentar fazer o possível para que eles não relacionem a imagem do cangaço a essa parada! O problema não é a parada da diversidade ou gay (como queiram chamar), mas sim a forma como tem sido feita.
Respeito não se impõe, se conquista... (quem quer liberdade e validação da democracia, deveria sempre se lembrar disso)!

A forma "de choque" não traz respeito a esse grupo, mas sim, um incômodo criado pelos mesmos! O problema é que, para se respeitar as pessoas (os animais, as coisas, etc.) tem-se que ter um certo grau de educação (doméstica e escolar)/cultura. Ou seja, é correto, sim, afirmar: "MAL EDUCADO(A) NÃO RESPEITA NINGUÉM!"

Temos todos que reconhecermos, apoiarmos e venerarmos as pessoas que possuem bom caráter. Devemos discriminar é pelo caráter. Aí sim, teremos como exemplos; como ícones pessoas que nos farão evoluir, independentemente de suas aparências, jeitos e direcionamentos sexuais.

Para mim esse "evento" não serve de nada para divulgar a causa da igualdade!
Uma coisa é se expressar. Outra coisa é depravar! Uma coisa é ser tradicionalista. Outra coisa é ser leviano! Uma coisa é enxergar limites. Outra coisa é invadir o sentimento que identifica um povo!
Não banalizando nossa identidade cultural!

Uma coisa é sabermos que Lampião não foi digno de ser exaltado como herói. Outra coisa é dissociar sua imagem de sua bravura, tão característica do povo nordestino, ainda mais de um povo tão sofrido como os sertanejos da ribeira do Pajeú.

Discutir Lampião e o cangaço ou, até mesmo, classificá-los dentre suas virtudes e malefícios com base em fatos reais é extremamente importante e um belo exercício intelectual e cultural sobre personas e fatos históricos nossos, a fim de nos aproximarmos mais e mais das verdades que nos cercam.

Neste sentido, podemos discutir ou classificarmos Lampião como bandido, arruaceiro, interesseiro, assassino, louco, revoltado, "Robin Hood do Sertão", sem caráter, etc. Agora, homossexual, jamais!

É uma interpretação totalmente sem nexo para com um sujeito que era indiscutivelmente heterossexual. E ele não era heterossexual porque tinha atitudes brutais, porém, porque não se tem qualquer indício de que o mesmo apreciava prazeres físicos dos corpos de outros homens, até mesmo porque amou uma mulher e não negou.

Não há registro histórico qualquer do qual se possa extrair um gesto homossexual de Lampião. Logo, por pior que possa ter sido, não merece essa polemica homenagem.

É impossível lembrar um cangaceiro, Lampião e chapéu de couro com aba pra cima e não se lembrar de sertão nordestino, de seca, de bravura, de violência, de justiça feita com as próprias mãos, de morte, de religiosidade (apesar de tudo), de briga por terras, etc.

Fico imaginando se fosse em Juazeiro do Norte/CE se iriam usar a imagem do “Padim Ciço” ou em Exu/PE a do rei do baião “Luiz Gonzaga” relacionada a um evento desse tipo?

Abraços a todos.

Roberto de Carvalho Petrolina/PE