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sexta-feira, 27 de março de 2020

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Estácio de Lima - Volta Seca e o estranho Mundo dos Cangaceiros

Estácio de Lima, o antigo catedrático de Medicina Legal da Universidade da Bahia escreveu, na metade do século passado, uma obra fundamental para compreensão do cangaço. 



Aqui aparecem duas breves narrativas do autor que, por si mesmas, comprovam que estamos diante de um cientista e ao mesmo tempo de um escritor com notável domínio da sua arte de contar uma boa história. Uma mulher e um menino são os personagens principais dos dois textos escolhidos. Personagens não muito comuns entre os integrantes dos bandos guerreiros. Org., introdução e notas de Cid Seixas. 

Coleção E-Poket.

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Um presente que ganhamos do Cumpadi Joel Reis (Via Cognitiva) e dividimos com vocês

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Disponível para download

Rui Facó. Cangaceiros e fanáticos: gênese e lutas


O livro divide-se em três capítulos, sendo o primeiro “O despertar dos pobres do campo”, o segundo “Canudos e conselheiros” e o último “Juazeiro e Padre Cícero”. Nesses capítulos, Rui Facó, a partir de uma leitura marxista, faz uma análise histórica dos fenômenos que ficaram conhecidos como “fanatismo” e “banditismo”, ocorridos do último cartel do século XIX e início do século XX no interior brasileiro. O autor analisa principalmente os acontecimentos de Canudos (1896-1897) e Juazeiro, duas rebeliões que, segundo ele, teriam um forte cunho religioso, mas não podem ser explicadas e entendidas somente por esse traço característico.

Para o autor, foi a luta de classes entre os homens pobres do campo e os fazendeiros a maior motivação desses movimentos; era, segundo ele, “uma luta aguerrida contra o latifúndio, contra a miséria e contra a exploração”. Ele caracteriza Contestado (1912-1916), Caldeirão (1936-1938), Pau de Colher, Pedra Bonita e o cangaceirismo — fenômeno que se prolongou até a década de 1930 — também como expressões de conflitos no interior do país. Para Facó, o latifúndio geraria lutas de classe desde sua origem. De início, com fazendeiros tentando salvaguardar suas propriedades de ataques de índios; depois contra as incursões de posseiros; mais tarde contra cangaceiros e fanáticos; e naquele momento contra o proletário rural sem terra.

Rui Facó, em Cangaceiros e fanáticos, faz uma análise da conjuntura que propiciou os acontecimentos de Canudos e Juazeiro. Para ele, esses movimentos aconteceram num período de crise de ordem econômica, ideológica e de autoridade. Era época em que findava o Império e a escravidão era abolida. Esses acontecimentos teriam abalado os critérios de mando da sociedade brasileira, principalmente no Nordeste. Contudo, nada disso permitiu que relações de produção de tipo superior, à base do trabalho livre, surgissem. As relações no campo, principalmente no Nordeste, continuavam a ser majoritariamente servis.

Além da crise do instituto escravista, o Brasil vivia também a crise do latifúndio pré-capitalista e o arruinamento dos antigos engenhos banguês do Nordeste. Os antigos engenhos de açúcar ruíam e eram substituídos pelas usinas de açúcar, sem que acontecesse, segundo Facó, uma revolução na Zona Canavieira. Uma nova estrutura mecânica foi implantada com as usinas de açúcar, mas os arcabouços do velho latifúndio permaneceram intactos. A usina intensificou, segundo ele, o processo de monopolização da terra. A renovação técnica preservou a situação de miséria das massas sem terra e agravou a concentração de terras no Nordeste.

Deste modo, Rui Facó considera que os “cangaceiros” e “fanáticos” eram o fruto da decadência de um sistema socioeconômico que tinha o latifúndio semifeudal como nexo fundamental. Essa situação de crise teria se agravado sobremaneira quando o centro da gravidade econômica se transferiu do Nordeste para o Sul, por conta do café. O latifúndio continuaria a entravar brutalmente o crescimento das forças produtivas, a mecanização da agricultura e o crescimento das indústrias. O monopólio da terra continuava a promover uma divisão de classes sumária: o senhor de grandes extensões de terras e o homem sem terra, o semisservo.

O Nordeste, do final do século XIX e início do século XX, é caracterizado pelo autor como uma sociedade em estágio econômico seminatural, na qual o capitalismo e as cidades tinham pouca influência e repercussão sobre o latifúndio semifeudal. As relações entre usineiro e homens pobres eram semisservis, pré-capitalistas.

Para Facó, o latifúndio reduzia as populações do interior ao mais brutal isolamento, ao analfabetismo quase generalizado, e deixava como única forma de consciência do mundo exterior a religião ou as seitas nascidas nas próprias comunidades rurais — vertentes do catolicismo. Os homens sem terra, ao formarem grupos de cangaceiros e seitas de “fanáticos”, como ficaram conhecidos Juazeiro e Canudos, organizaram-se e rebelaram-se por uma melhor condição de vida. Esses movimentos teriam sido rebeliões inconscientes contra a servidão da gleba, contra o latifúndio. Tiveram boa dosagem de misticismo religioso — o autor não nega —, mas eram mobilizados fundamentalmente pela dinâmica da luta de classes.

Com esse argumento, Rui Facó contrariava os historiadores que exageraram o misticismo religioso dos habitantes de Canudos e Juazeiro. Atribuindo-lhes a classificação de “fanáticos”, esses estudiosos retiravam o conteúdo progressista e reformador desses fenômenos, dando-lhes um sentido pejorativo.

O autor enumera ainda como uma das causas para o “banditismo” e do “fanatismo” o fato de o latifúndio criar em seu entorno um excedente de mão de obra capaz de assegurar a quase gratuidade da força de trabalho. Isso possibilitava a imposição de relações semisservis aos pobres do campo. Deste modo, criava-se no Nordeste dos fins do século XIX e início do XX um contingente de pessoas pobres, sem bens e sem terra, nômade, que fugia da seca e não era absorvida pelo latifúndio, mas tinha algo a reivindicar, ainda que não soubesse formular claramente essa reivindicação. Segundo Facó, a reação à miséria e à fome teria vindo com a formação de grupos de cangaceiros e de seitas místicas.

Facó aponta ainda que a ruptura da estagnação no campo se iniciou com o êxodo em massa de nordestinos para a Amazônia e para o Sul, por causa do surto da borracha e do cultivo do café, respectivamente. A fuga teria sido ocasionada também pelas constantes secas do Nordeste. Para ele, a emigração era o primeiro passo na busca de outras condições de vida e permitia que os homens pobres do campo se evadissem da imobilidade multissecular em que viviam. Graças ao contato com outras formas de vida social, estes migrantes, quando retornavam ao Nordeste, voltavam diferentes, menos conformados com a vida de miséria e de fome que levavam.

Não só o monopólio da terra explicaria o cangaço e o “fanatismo”. O atraso econômico, o isolamento do interior, o imobilismo social também seriam fatores geradores do cangaço e do “fanatismo”. Por essa razão, para o autor, a penetração do capitalismo no meio rural seria de suma importância, já que possibilitaria a existência de novas relações de produção e de troca, permitindo que o semisservo saísse da estagnação do meio rural e abrindo novos caminhos para os bandos de cangaceiros e para os místicos itinerários dos beatos e conselheiros.

Deste modo, com essa argumentação, Rui Facó contrariava as explicações, como as formuladas por Euclides da Cunha, que viam o cangaço com o resultado da má eugenia, de atavismos étnicos. Contrariava também aquelas que afirmavam que as condições biológicas geravam o fenômeno do cangaço. Assim, Rui Facó explicava o cangaceirismo e o fanatismo pelas circunstâncias sociais e econômicas, pela extrema desigualdade social provocada pela grande concentração de terras, acentuada pelo débil desenvolvimento do capitalismo no interior do país, local onde se constituiriam, de acordo com a sua leitura marxista, relações de produção pré-capitalistas, semifeudais, e que era marcado pelo pouco incremento das forças produtivas.

Longe de considerá-los como criminosos, como fez a historiografia do início do século XX, Rui Facó considerou os pobres do campo envolvidos nessas rebeliões como o resultado do atraso econômico. O “banditismo” e o “fanatismo” seriam movimentos subversivos, “elementos ativos geradores de mudança social” e “contestadores da pasmaceira imposta pelo latifúndio”. Esses homens eram consequência dos choques de classe e das lutas armadas. Seriam, assim, o prólogo de uma revolução social que estaria por vir. Segundo ele, “banditismo” e “fanatismo” eram “elementos regeneradores de uma sociedade estagnada”, preparadores de uma nova época, representando um “primeiro passo para a emancipação dos pobres do campo”.

A opinião que marca a singularidade da interpretação de Facó é a de que Canudos e Contestado foram movimentos de cunho religiosos que revelavam uma drástica separação entre religiosidade popular e a religião oficial da Igreja Católica. Na sua interpretação, o “fanatismo” constituía uma ideologia de cunho místico, condizente com a condição de vida das populações rurais do final do século XIX e início do século XX, que era contrária à ideologia das classes dominantes e das camadas médias urbanas.

Assim, ao longo do livro Cangaceiros e Fanáticos, Facó defende que a seita abraçada pelos homens pobres do campo, como toda ideologia, tinha um conjunto de conceitos morais, religiosos, artísticos que traduziam suas condições materiais de vida e eram antagônicos às ideologias das classes dominantes. Ele considera que em todos os casos analisados — principalmente em Juazeiro, Canudos e em Contestado — as massas espoliadas teriam criado uma religião própria, uma espécie de consciência primária, no sentido marxista do termo, que lhes serviu de instrumento na luta por sua libertação social contra o latifúndio e contra as relações semifeudais de produção.

O “fanatismo” teria sido o elemento de solidariedade grupal impulsionador de uma reação contra a ordem dominante. Deste modo, a tônica da interpretação marxista do autor é dada pela crença de que essas aglomerações seriam movimentos de tipo primário que traduziam, contudo, as aspirações da população rural empobrecida em luta pela libertação do jugo do latifúndio.


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Dora Vianna Vasconcellos é socióloga, mestre em Desenvolvimento, Sociedade e Agricultura (CPDA-UFRRJ)/ Rio de Janeiro.

Joel Reis nos deu a direção e pescamos lá no Via Cognitiva

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

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HQ Mandacaru Vermelho

Descrição Rápida


Mandacaru Vermelho conta a história de Antônio um ex-tenente do exército brasileiro, reformado pela perda de parte da visão do olho direito e problemas no coração, ele fez parte da Coluna Prestes e foi responsável por caçar os cangaceiros no Nordeste Brasileiro. Dispensado do serviço militar, Antônio vai morar em um sítio, na fronteira de uma pequena cidade do sertão nordestino, com sua mulher e sua filhinha. No entanto, seu destino foi cruel. O Coronel Vitoriano se apaixona por sua mulher e lhe dá um ultimato: uma noite com ela ou a vida de toda a sua família.


Antônio não aceita e sofre com a ira do Coronel. O ex-tenente é encontrado, quase morto, por um famoso cangaceiro que se recusa a dar um fim a sua vida e o encoraja a terminar seus últimos momentos com honra. O ex-militar vestirá seu velho uniforme e partirá em uma caçada ao coronel. Em meio a tiroteios e perseguição, o velho soldado buscará vingança contra o demônio em forma de homem que destruiu sua vida.

Formato: 36 páginas, 1215 x 1630 pixels
Roteiro: Rafael Dantas
Arte: Rafael Dantas
Cores: Patrick Gama
Capa: Raulzito Peixoto

Acesse o site oficial da publicação CLICANDO AQUI

Imagens pescadas no BLOG Impulsso HQ

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Cinema X Cangaço

Do clarão dos tiros ao escuro do cinema
Estudo preenche lacuna na bibliografia cinematográfica ao passar em revista filmes sobre o cangaço

Por: Manuel Alaves Filho
manuel@reitoria.unicamp.br




Cangaço, um tipo de banditismo social ocorrido na região Nordeste do Brasil entre 1870 e 1940, constituiu- se em um dos mais autênticos gêneros do cinema nacional. Ao longo do tempo, o movimento histórico foi retratado de diferentes formas em inúmeros filmes, sendo que alguns deles marcaram a produção brasileira na área e obtiveram repercussão internacional. Os dados constam da tese de doutoramento em Multimeios de Marcelo Dídimo Souza Vieira, apresentada ao Instituto de Artes (IA) da Unicamp.

O trabalho, orientado pelo professor Március Freire, surge para preencher uma lacuna da bibliografia cinematográfica brasileira, que até então reservara ao cangaço breves referências. Graduado na área de informática, Dídimo conta que sempre teve interesse em pesquisar aspectos ligados ao cinema nacional, particularmente o tema do cangaço.

No trabalho de mestrado, também desenvolvido no IA, ele investigou o gênero no contexto da chamada retomada do cinema brasileiro, ocorrida na década de 90. Dessa forma, o estudo concentrou-se em três produções: O Cangaceiro (1997), remake de uma obra rodada originalmente em 1953; Baile Perfumado (1997) e Corisco e Dadá (1996). Durante a elaboração da dissertação, o pesquisador constatou que praticamente inexistiam documentos bibliográficos sobre o movimento histórico no cinema.

Segundo ele, não havia um livro sequer que abordasse o assunto de forma aprofundada. “No máximo, o cangaço era tratado em um ou outro capítulo”, conta. Foi por causa dessa lacuna que Dídimo decidiu ampliar a pesquisa sobre o fenômeno histórico e cultural em sua tese de doutorado. No trabalho, foram catalogados perto de 50 filmes, entre documentários, curtas, médias e longas- metragens, cujas produções ocorreram entre as décadas de 20 e 90. O pesquisador esclarece que foram selecionadas apenas as obras que tiveram o cangaço como tema central ou que apresentaram personagens que participaram daquele contexto e influenciaram diretamente nas narrativas.

Dentre os filmes tomados para análise, explica Dídimo, alguns não existem mais, pois se perderam no tempo. Outros estão inacessíveis em acervos oficiais e cinematecas, em razão do seu precário estado de conservação. “Entretanto, consegui localizar 29 dessas obras, das quais fiz cópias e as analisei”, relata. De acordo com o pesquisador, o cangaço é retratado de diferentes formas nessas produções. No original de O cangaceiro, por exemplo, o integrante desse movimento rebelde tem a imagem associada à do caubói norte-americano. No longa-metragem, os cangaceiros aparecem montados em cavalos, animais que não faziam parte da realidade do sertão nordestino naquele período.

Em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969), ambos de Glauber Rocha, o tema merece uma abordagem ideológica e simbólica. Já na década de 70, quando predominaram as produções classificadas como pornochanchadas, o cangaço é retratado de forma debochada. A figura do cangaceiro passa a servir somente como mote para as comédias eróticas brasileiras. Dídimo destaca que dividiu sua tese em seis capítulos. No primeiro, ele aborda o que chama de “primórdios” dos filmes de cangaço, realizados no início do século 20, época em que o movimento ainda era praticado no sertão nordestino.

A primeira obra a fazer referência ao cangaço conforme o pesquisador, é Filho sem Mãe, produção pernambucana de 1925. Embora não possa ser considerado essencialmente um filme sobre o movimento histórico, ele mostra cangaceiros ao longo da sua narrativa. Desse período, assinala o autor da tese, somente as imagens de Lampião, o Rei do Cangaço, de Benjamin Abrahão, rodado por volta de 1936, sobreviveu ao tempo. É a única peça cinematográfica de que se tem notícia que traz cenas reais de Virgulino Ferreira da Silva. Abrahão, de acordo com Dídimo, era um mascate libanês que atuava como secretário do padre Cícero Romão Batista, o “Padim Ciço”.

Em razão de suas atividades, ele mantinha inúmeros contatos, tanto com coronéis quanto com cangaceiros. Por conta desses relacionamentos, Abrahão finalmente conseguiu registrar cenas de Lampião e seu bando no sertão. As tomadas, que duram cerca de 15 minutos [não se sabe se ele conseguiu filmar por mais tempo], mostram os cangaceiros em situações cotidianas: comendo, cantando, escrevendo etc. Em 1937, a fita produzida pelo mascate libanês foi apreendida pela polícia, a mando do governo Vargas, por ser considerada uma afronta aos princípios da nacionalidade. Um ano depois, Lampião e Abrahão morreram. “O filme, então, desaparece e só é localizado em 1957. O sonho de Abrahão era filmar um combate entre os cangaceiros e os soldados da volante. Como isso não foi possível, o mascate pediu a Lampião que simulasse um confronto, que está registrado na película”, relata Dídimo.

No segundo capítulo, o pesquisador analisa os filmes produzidos sob a influência do western norte-americano. É nesse período, no entender de Dídimo, que o cangaço se estabelece como gênero cinematográfico. O marco dessa fase, como já foi dito, é O cangaceiro. No capítulo seguinte, o autor da tese trata das obras que trabalharam o movimento histórico de forma cômica. Nelas, a figura do cangaceiro é satirizada por comediantes como Ankito, Ronald Golias, Grande Otelo, Mazzaroppi e Os Trapalhões. Nesse segmento também estão incluídas asjá mencionadas pornochanchadas. O quarto quarto capítulo é reservado para os documentários históricos. Entre eles está contemplado o filme de Benjamin Abrahão.Embora tenha feito somente dois filmes sobre o cangaço, Glauber Rocha merece todo o quinto capítulo da tese de Dídimo.

“Ele, como ninguém, soube trabalhar o cangaço de forma simbólica e alegórica, sendo considerado um dos realizadores mais entusiastas do Cinema Novo”, justifica o autor. O último capítulo aborda as produções dos anos 90, no contexto da chamada retomada do cinema brasileiro. “Nessa fase, a temática do cangaço volta às telas através de releituras sobre o assunto e de outros filmes que abordaram essa questão em épocas passadas”, afirma o pesquisador. De modo geral, reforça Dídimo, o cangaço não foi retratado de uma única forma nos filmes analisados. “Se num primeiro momento os integrantes desse movimento histórico eram mostrados como bandidos sanguinolentos, com o tempo passaram a criar certa humanidade.

Algumas obras, inclusive, destacaram o lado ‘nobre’ dos cangaceiros, associando-os, ainda que indiretamente, à figura de Robin Hood, o ladrão que roubava dos ricos para dar aos pobres. Em outras palavras, não há predominância de uma visão: o cangaço e os cangaceiros, segundo a cinematografia brasileira, não são nem completamente maus, nem completamente bons”.


Marcelo Dídimo Souza Vieira, autor da tese: catalogação de cerca de 50 filmes, entre documentários, curtas, médias e longas-metragens

Questões fundiárias originaram movimento


A expressão cangaço deriva de canga, peça de madeira que se coloca no pescoço do animal para puxar o carro-de-boi. O nome também foi atribuído ao conjunto de equipamentos que o bandido sertanejo carregava consigo, que era bastante volumoso. O cangaceiro, portanto, era o homem que andava “debaixo da canga” ou “vivia da canga”, tendo que estar sempre disponível ao seu senhor. Posteriormente, o cangaço passou a ser um modo de vida.

O cangaço teve como cenário o Nordeste do Brasil, no período compreendido entre 1870 e 1940. O movimento histórico tem suas origens em questões sociais e fundiárias da região, caracterizando-se por ações violentas de grupos que assaltavam fazendas, sequestravam coronéis e saqueavam comboios e armazéns. Os cangaceiros não tinham moradia fixa. Viviam perambulando pelo sertão, praticando crimes e fugindo da polícia.

O primeiro bando independente foi formado no início da década de 1870, e teve como líder Inocêncio Vermelho. Este havia cometido um crime na Paraíba e fugido para a região do Cariri, no Ceará, onde se juntou a outro criminoso, João Calangro. Em meados de 1876, Inocêncio foi morto pela polícia e seu companheiro assumiu o comando do grupo. Calangro se orgulhava de ter cometido 32 assassinatos, sem que qualquer processo fosse tentado contra ele. O cangaceiro mais famoso foi Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, também conhecido como “governador do sertão” e “rei do cangaço”. O codinome Lampião teria surgido após um combate do seu bando com os soldados da volante. Em razão dos tiros disparados durante o conflito, a espingarda de Virgulino teria emitido um clarão semelhante ao de um lampião.

Depois de duas décadas de atividades no sertão nordestino, o cangaceiro foi morto no dia 28 de julho de 1938, em Angicos, Sergipe, por conta de uma emboscada. Com ele tombaram a sua mulher, Maria Bonita, e mais nove companheiros. Todos os corpos foram decapitados, e as cabeças expostas para observação pública. Depois, foram levadas para Maceió e Salvador. Até a década de 1970, os órgãos foram mantidos como “objetos de pesquisa científica” no Instituto Médico Legal da capital baiana.

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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Para ouvir e baixar


 Cantigas de Lampião

O cangaceiro do bando de Lampeão, Antônio dos Santos, apelidado de Volta Sêca, canta nas oito faixas deste CD, originalmente editado num LP de dez polegadas da gravadora Todamérica, em 1957, com arranjos do maestro Guio de Moraes e narração do apresentador da Rádio Nacional Paulo Roberto.

Cada faixa é prefaciada por um texto curto (meio romanceado, como convinha na época), lido pelo locutor. Em seguida, Volta Sêca entoa as melodias quase à capela e a orquestração irrompe geralmente no compasso do baião, com acordeon e zabumba.

Os épicos da saga de Lampeão Mulher Rendeira (com os versos originais, utilizados no ataque do bando à cidade de Mossoró), Acorda Maria Bonita (a cantiga de despertar do grupo) e mais a lírica - Se Eu Soubesse ("que chorando/ empatava sua viagem/ meus olhos eram dois rios/ que não te davam passagem") entram no precioso registro, onde todas as composições são atribuídas exclusivamente a Volta Sêca.

Não falta o desafio Sabino e Lampeão, no qual o bando, que chegou a somar 240 integrantes, xiiiiiiiiiii cutuca o chefe com vara curta, e lamentos quase parnasianos como Escuta Donzela (encordoado por um violão na linha de Dorival Caymmi).

Cangaceiro a partir dos 11 anos, prisioneiro da polícia por outros 20, Volta Sêca mostra seu talento de voz trêmula nas queixas de Eu Não Pensei Tão Criança ("na flor da infância/ padecesse assim").

O baião Ia Pra Missa decifra o código dos embarcados para a guerra contra os "macacos" da força repressora.

E A Laranjeira transborda de requinte poético, ao comparar o amor não correspondido ao bacutinho, a flor que fenece e morre sem dar frutos. Uma pequena jóia histórica de curta duração.

(Tárik de Souza)

Ficha técnica:
Produtor fonografico: INTERCD Gravações e edições musicais ltda
Licença: TODAAMERICA Musica Ltda RJ PRÉ-MASTERING: Digital Midia Mastering SP PRODUÇÃO ARTÍSTICA: Paulo de Almeida Rodrigues
capa: FOTOS (ORIGINAIS GRÁFICOS) TODAMÉRICA Musica Ltda RJDESIGN : LeArt
NARRAÇAO: Paulo Roberto

PARA DOWNLOAD: Clique aqui

FAIXAS:1. Acorda Maria Bonita
2. A Laranjeira
3. Ia pra Missa
4. Mulher Rendeira
5. Se Eu Soubesse
6. Sabino e Lampeão
7. Escuta Donzela
8. Eu Não Pensei Tão Criança

Bom proveito!