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segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Opinião

Gesta Nordestina
 Por Wilson Martins

"Lampião é também um mito mental, a julgar por haver dominado a imaginação brasileira mesmo fora do seu território nativo, mas também por haver inspirado obras de literatura e de grande literatura como muitas das que se encontram neste volume e que dão ao personagem as dimensões míticas dos heróis.”"


"Assim como Roland é o herói paradigmático das canções de gesta medievais, Lampião é a sua figura simétrica e correspondente na gesta nordestina do cangaço. Se o paralelo parecer incongruente ou arbitrário, lembremos o que diz Santa Rita Durão nos versos do Caramuru, isto é, que o "valente Ro­­mano" e o "sábio Argivo" em na­­­­da foram melhores que o "rude Americano" das florestas: "Nós que zombamos desse Povo insano / Se bem cavarmos no solar nativo / Dos antigos Heróis dentro ás imagens, / não acharemos mais, que outros Selvagens".

No caso, a passagem do tempo idealizou as figuras, acrescentando-lhes as lendas e fantasias indispensáveis para torná-las super-humanas: entre Lampião e Napoleão há apenas uma diferença de escala. Acrescente-se a intromissão das ideologias: co­­mo cangaceiro, Lampião era um re­­volucionário de esquerda, mi­­litando contra uma sociedade de direita, até que as coisas se tornaram tão claras que até a esquerda institucionalizada percebesse o partido que podia tirar da situação, ajudada pelas circunstâncias: "A palavra ‘cangaço’ só aparece uma única vez ao longo de todo o romance O Cabeleira, de Franklin Távora [...] significando, ‘como o próprio autor afirma na nota ao fim do livro, "complexo de armas que costumam trazer os malfeitores", conceito que, ao tempo de Lampião, já de­­signava o bando e as atividades dos bandidos.

Vieram em seguida as interpretações que Carlos Newton Júnior qualifica de "mais à esquerda": "A visão de Carlos Dias Fernandez e, principalmente, a de Rubem Braga [...] antecipam, portanto, uma interpretação do cangaço mais à esquerda, que começam a proliferar na segunda metade da década de 1940 para se tornar voz corrente a partir da década de 1960, com os estudos ligados ao novo marxismo; estes, por sua vez, funcionaram como contrapeso necessário para o surgimento, nos anos de 1980, de estudos mais abrangentes e mais imparciais, não dogmáticos, mais ricos e cheios de sugestões, mais abertos às múltiplas interpretações da realidade social – estudos dentre os quais se destaca, de modo inegável, a obra do historiador e ensaísta pernambucano Frederico Pernambucano de Mello.

Lampião é também um mito mental, a julgar por haver dominado a imaginação brasileira mesmo fora do seu território nativo, mas também por haver inspirado obras de literatura e de grande literatura como muitas das que se encontram neste volume e que dão ao personagem as dimensões míticas dos heróis. O leitor encontra aqui, diz o autor, "desde poemas escritos por contemporâneos de Virgulino Ferreira da Silva até poemas de uma geração para quem Lampião é um personagem tão histórico quanto Napoleão ou Alexandre, o Grande.

No caso de poetas rigorosamente contemporâneos de Lampião, homens da mesma geração do cangaceiro, podemos imaginar que não era tão simples fechar os olhos para aquilo que se mostrava com tanta evidência, ou seja, a imensa crueldade do facínora, os atos de barbárie perpretados por ele próprio ou seus comandados, tudo aquilo que fez com que Lampião, mesmo na poesia popular, quase sempre figurasse como um cangaceiro mais temido do que propriamente admirado, de modo distinto do que vai ocorrer com outros cangaceiros famosos, a exemplo de um Jesuíno Brilhante ou um Antônio Silvino.

Justificam-se assim poemas como "O rei do cangaço", do pernambucano Jayme Griz, e principalmente "Nordeste de Lampião", do cearense Jáder de Carvalho, poema que narra um ataque de cangaceiros a uma casa de pessoas simples, durante uma festa de casamento, sob o comando de um dos tenentes de Lampião".

Numa introdução por todos os títulos admirável, Carlos Newton Júnior acrescenta o capítulo que faltava na história de literatura brasileira e da nossa crítica. Lampião não morreu, mas vive agora como testemunho de um ciclo civilizatório.

(O Cangaço na Poesia Brasileira. Uma antologia. Sel. e pref. de Carlos Newton Júnior. São Paulo: Escrituras, 2009)."

Pescado em Gazeta do Povo

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Novo livro na praça

Assim viveu e morreu Lampião Rei do Cangaço

O poeta cearense Geraldo Amancio, nos oferece, através  deste livro, uma obra poética de primeira. Com 181 estrofes de sete linhas.


Ao prefaciar este trabalho, o advogado Paulo Quezado, afirma: “Assim viveu e morreu Lampião Rei do Cangaço, é, portanto,  muito maios do que um simples texto cordelista produzido com autenticidade e bom gosto. É, sim, uma verdadeira imersão cultural nos preceitos e valores poéticos, geográficos e sociológicos do povo nordestino. Remetendo o leitor, através  da história de Lampião, aos primórdios da identidade do ‘caboclo do sertão’: sua arte, seu meio e seus ícones”

O renomado cordelista cearense, Rouxinol do Rinaré, na apresentação deste trabalho, assim se expressou:

“Que texto genial. Li de uma ponta à outra, sentindo o encanto das rimas perfeitas e a beleza da composição das estrofes...”

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Interessa? O livro tem 70 páginas. Preço R$ 25,00 (Vinte e cinco reais) com frete incluso, para todo o Brasil. Onde comprar? Com o revendedor oficial Professor Pereira através do E-mail franpelima@bol.com.br ou pelos tels. (83) 9911 8286 (TIM) - (83) 8706 2819 (OI).

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Cangaço é...

Poesia

Por Gustavo Sandres

74 anos se passaram, desde o fatídico dia que findou o cangaço. Chega a ser irônico que um personagem de má índole seja o que mais povoa o limbo da poesia. Nada Tiradentes, D. Pedro, Zumbi, muito menos Cabral ou Antônio Conselheiro, Lampião, esse é o nome inspirador, que teve na poesia sua mais forte agência de publicidade, teve sua história contada pelo fantasioso mundo do sertanejo, muitas vezes tendo seus feitos exageradamente narrados, assim como sua valentia ou sua perversidade.


Desenho de José Rosa Filho

“Eu me chamo Lampião
mas é só de brincadeira,
acabe com essa besteira,
deixe de vadiação.
quem alumia é o tiro
que eu dou na escuridão,
mato andorinha voando,
quanto mais um gavião,
mato sargento e tenente,
coronel e capitão,
cabra frouxo de sua marca
mato até de bofetão.”

(Nertan Macêdo, Cancioneiro de Lampião, 1959).

Agora focando no tema do blog, que é a poesia, vamos enquadrar a ligação Cangaço com Poesia. Virgolino era um bom repentista, sabia fazer versos de improviso, nos momentos de descanso, em meio as festas nas cidadezinhas do nordeste ou no Raso da Catarina, que era um de seus esconderijos preferidos, entre uma dose de uísque Cavalo Branco e um pouco de xaxado, Lampião utilizava-se da poesia como ferramenta para narrar seus feitos, ironizar as volantes(força policial) e exaltar os que lutavam com ele. Aprendeu cedo a recitar, hábito comum naquela época no interior do estado, era fácil encontrar principalmente nas feiras homens recitando de improviso.  Quando alcançou a fama e seu nome alastrou-se pelos quatro cantos do Brasil, chegando a ser manchete no The New York Times, os cordelistas encontraram ali um personagem perfeito, um novo Heitor, para compor a Ilíada nordestina, mais sangrenta que a grega e com a fantasiosa visão de que se tratava de uma revolução entre oprimidos pobres x opressores ricos.

Detalhes nos cordéis da época eram curiosos, na capa de xilogravura, muitas vezes fazia-se referência a “imortalidade” do feroz cangaceiro, os poemas narravam as vitórias de Lampião sobre muitos Coronéis, dizendo que era graças à fé do nosso descomprometido Hobbin Hood, que ele vencia inúmeros batalhões, o dinheiro dos coronéis e a agressividade do próprio sertão.

“Corpo fechado” falava-se de Virgolino,  os mais fantasiosos contavam que ele se misturava com a caatinga, seus cabelos eram tão espinhosos quanto o facheiro,  seu corpo tão duro quanto o solo rochoso do sertão, um herói nascido da injustiça, tendo dentre suas fotos mais conhecidas uma que posa de joelhos com o bando, num momento de oração. Seu respeito pelo Padre Cícero é contado com ênfase, a fé aproximando o cangaceiro meticuloso, das pessoas comuns, dos simples agricultores, que também sofriam injustiças, só que nada podiam fazer.

Rodrigues Lessa : Lampião e Maria Bonita

“Sou  devoto e penitente
do padre Ciço Romão.
Creio na fé dos antigos
Que promete a redenção.
Os meu pés são mais velozes
Que as aves de arribação.”

(Francisco Carvalho, Um capitão chamado Virgolino, 1980)



Havia quem não simpatizasse nenhum pouco com o Capitão Virgolino, mas enquanto ele estava vivo nada era dito, sob o risco de uma retaliação fatal,  até que na noite de 27 ou 28 de julho de 1838, não tenho certeza agora, no meio da madrugada o acampamento é alvejado, Lampião morre, sua cabeça é decepada.  Ai nasce o mito do cangaceiro. Enfrenta o diabo no inferno, arromba as porteiras do paraíso, dá tapas na besta-fera, em São Pedro, no Cão Coxo e em qualquer um que cruze seu caminho, tudo isso graças a poesia, seus inimigos em terra finalmente criam coragem para fazer poemas a seu respeito insultando-o, ironizando e desmoralizando, mas não adianta mais, já surgiu o Heitor  sertanejo, com direito a um amor Helênico e tudo mais.

Na opinião do blogueiro sem juízo, Lampião foi menos que um herói e mais que um bandido,  Virgolino é um ser poético, e tudo que entra na poesia fica pra sempre encravado na cultura do povo. Ascenso Ferreira, Carlos Pena Filho, Murilo Mendes, são alguns dos poetas mais “refinados’ que citaram o cangaceiro em sua obra, outras centenas de desconhecidos também o fizeram. A globalização atingiu o sertão, mas não há nada que minimize o valor da figura do cangaceiro.


By Rogério Fernandes

“É Lamp, É Lamp, É Lamp,
É Virgolino Lampião!

Batizou-se esse cabra,
No interior do sertão,
O rifle foi o padre,
O punhal o sacristão.

É Lamp, É Lamp, É Lamp,
É Virgolino Lampião!”

(Jayme Griz, Rio Una, 1951)




Pescado no: Blog do Gustavo Sandres

sábado, 28 de julho de 2012

O Tenente Bezerra invadiu o Angico...

E Lampião, foi-se à 74 anos




A Sugestão da poesia foi do confrade Jorge Remígio, sócio Fundador do GPEC - Grupo Paraibano de Estudos do cangaço.

Para descontar o impacto da foto, fazer jus ao título do artigo e homenagear o amigo Jorge "cangaceirólogo" e musicólogo desde que usava fraldas" Espie aqui ,que tal uma bela cantiga?

Apreciem a interpretação do "Cacai Nunes Quinteto" para um clássico da música nordestina "Tenente Bezerra" do saudoso "Gordurinha". Pescado na página do Grupo no YouTube.



terça-feira, 27 de março de 2012

Forte concorrente

“Estradeiro” Representa o RN no II Festival de Músicas do Cangaço

Por Epitácio Andrade

Poema de Hélio Crisanto, musicado por Zeca Brasil, com interpretação da cantora Lysia Condé, “Estradeiro” está classificada para a final do II Festival de Músicas do Cangaço, que ocorrerá no próximo dia 28 de abril, na Estação do Forró, na cidade pernambucana de Serra Talhada, terra natal de Virgulino Ferreira da Silva, “Lampião”, o Rei do Cangaço.


Capa de Retrato Sertanejo de Hélio Crisanto 
Reprodução:


“Estradeiro” está no livro Retrato Sertanejo, do poeta Hélio Crisanto, editado pela Supercopia Gráfica Express, de Santa Cruz, na região do Agreste Potiguar, no ano de 2008.


Hélio Crisanto com Gilberto Cardoso no palco 
Foto: Cedida  

“Na vereda do destino/ Já pisei muitos espinhos/ No lodo do meu caminho/ Tropecei entre o cascalho/ Sou terra seca no malho/ Semente que não germina/ Sou a luz da lamparina/Clareando a vastidão/ Sou a lua do sertão/ No decote da colina”.
A primeira estrofe da obra resume como o poeta define sua criação: “Estradeiro é um pouco da estrada da vida”.

Zeca Brasil, Dudé Viana e Epitácio Andrade 
Foto: Tiara Andrade

Musicada pelo laureado cantor Zeca Brasil, que na foto aparece com pesquisadores do cangaço, a segunda estrofe da poesia ilustra a sua harmonia com a música:
“Trago na mala/ A viola e o repente/ E o grito desse gente/ Que tem sede e quer o pão/ Numa nação/ Que despreza os desvalidos/ E a dor dos oprimidos/ Faz doer o coração”.

Epitácio Andrade, Gilberto Cardoso e Hélio Crisanto 
Foto: Lilian Holanda 

Não é a primeira vez que Hélio Crisanto incursiona pelo universo do cangaço. No período de 08 a 10 de julho do ano passado, em nossa companhia, juntamente com Gilberto Cardoso e outros cangaceirólogos, participou ativamente das atividades socioculturais do cortejo “Cangaço e Negritude”, por várias cidades do interior do Rio Grande do Norte e da Paraíba, como registra a foto da passagem pelo Instituto Cultural “Casa do Beradero”, do ativista cultural Chico César, em Catolé do Rocha.

A estrofe seguinte, com humor e arte, alude ao cangaço:
“Sou estradeiro / Sou o fogo do corisco / Sou faca que fez o risco/ No bucho de Lampião / Sou cantador, sou fulô que não se cheira / Sou raiz da catingueira / Ressequida pelo chão”.
“Não sou herói/Bandoleiro ou vagabundo/Carrego as dores do mundo/Nos meus ombros de menino/Fujo a galope nas asas da ventania/Meia noite, meio dia/Vou correndo em desatino”,

Cantora Lysia Condé.  Reprodução

Conclui-se o poema “Estradeiro”, de Hélio Crisanto, cuja música de Zeca Brasil, parece ter sido criada para a graciosidade e suavidade da intérprete Lysia Condé.

Que tal uma audição?

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Culminando com a Missa de 7º dia

João Gomes, Lira que inspira e eleva

Por Aroldo Ferreira*

O cangaço, com suas expansões e reinvenções, possui seus mitos, contribui para um entendimento maior do Sertão, influi na dinâmica de nossas sensações e repercussões dos carrascais, dilui o tempo em nós mesmos, traz atemporalidades, constatações, dúvidas, conceitos, indeterminações.

No chão adusto e aduno aunado de macambiras e marmeleiros, cangaceiros percorriam distâncias variadas, corriam das Volantes, dos próprios fantasmas. Combatê-los, detê-los, vencê-los era tarefa indigesta, gesta de percepções inusitadas, atadas a senões e agouros, estouros de parabéluns e fuzis, vindouros momentos carregados de tensões e temeridades, distorções e desentendimentos.

Os lutos, abruptos, eram comuns. Os vultos, em insultos variados, varriam veios e vaus, vociferavam, vinham de vinditas e vazios, vertiam escuridões e temores.Comungava-se de receios e aperreios, constatava-se a precariedade da justiça, o apego à terra do catingueiro, a falta de estradas, o ensino ainda por se tornar revelador, questionador.

O Sertão era os grandes espaços, os traços de seus rios temporários, a mistura da lonjura com a dura realidade de uma época de textura obscura, insegura, saracura cantando e anunciando agruras, sepulturas. Viviam-se preocupações, ocupações determinadas pela ausência de perspectivas naquele mundo ressequido, colhido por solavancos e surpresas desiguais.

Os cangaceiros atormentavam, fomentavam instabilidades, debilidades constantes. Errantes, penetrantes, farfalhantes, apareciam e teciam dores, clamores, suores enviesados. Conduziam-se ferindo corpos, percepções. Habitavam as descontinuidades, as perplexidades.

João Gomes de Lira, morto há poucos dias, possuía a memória de quem, sendo perseguidor de cangaceiros, compreendeu suas cruas insinuações, seus breus e alucinações. Nazareno, sereno, conversava compactuando de cadências e coerências, conservava concepções claras, conhecia a força dos umbuzeiros e facheiros, das umburanas e umburuçus, das quixabeiras e catingueiras no universo sertanejo. Penetrou, ainda jovem, na participação de lutas incansáveis, testemunhou a morte de parentes, combatentes valentes, vivenciou as circunstâncias alucinatórias e vexatórias do cangaço. Foi um guerreiro na busca de uma afirmação de seus propósitos e sonhos, conheceu o peso das fatalidades, o intrincado movimento dos cangaceiros no solo sagrado do Sertão.

João Gomes some da face da terra, mas não de nossas almas, continua a espalhar sua canção de cordialidade e humildade, nos mostra que a vida, com sua fragilidade e efemeridade, constrói destinos nobres, abertos aos grandes vôos, aos entôos das peiticas e das seriemas, às percepções gentis, unidas a singularidades e vastidões.

O tenente João e o autor desta homenagem

Saber respeitá-lo, admirá-lo é, antes de tudo, uma forma de compactuar de sua sabedoria e comunhão com o cosmos, homem simples, filho do Sertão, de uma Nazaré que o viu nascer e percorrer caminhos que o tornaram tenaz, capaz de percorrer os carrascais atrás de bandoleiros e fluir na comunhão intrincada dos espinhos dos coroas-de-frade e xique-xiques. Tomba o grande lutador, a vida segue, os instantes consolidam os enigmas do Sertão, cantam os pássaros-carão e os joões-corta-pau, as baraúnas e aroeiras recriam lumes e larguezas, o cangaço trama suas histórias e infinitos, espaços e concepções.

Petrolina, 07 de Agosto de 2011
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*Aroldo Ferreira Leão é pesquisador de temas vinculados ao Sertão. Possui 130 livros publicados, tem participação em 22 antologias. É professor da UNIVASF (Universidade Federal do Vale do São Francisco). Ainda este ano estará publicando o livro Lampião: Um Estudo de Buscas e Essências. Mais informações sobre o autor estão na home page: www.aroldoferreiraleao.com.br .

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Conversas

Escritor de Paulo Afonso lança livro na Biblioteca Pública de Salvador


Conversas do Sertão traz causos matutos e muitas histórias divertidas

O escritor pauloafonsino Rubervânio Lima lança o seu livro Conversas do Sertão, na Biblioteca Pública do Estado, Barris, no próximo sábado (11), às 11h30, durante o Encontro de Escritores Baianos Independentes. O livro é uma reunião divertida de várias histórias, cujo cenário é o sertão. São vários relatos imaginários que trazem, além do falar característico dos sertanejos e da magia desse povo, muita fantasia, "causos" matutos, histórias de cangaceiros, além de figuras folclóricas.

Com o apoio da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), e apresentação do então diretor da Universidade Estadual da Bahia (Campus VIII), Juracy Marques, Rubinho Lima reuniu alguns dos seus inúmeros contos neste livro. Influenciado por ter sido Paulo Afonso a cidade da cangaceira mais famosa de que se tem notícia, Maria Bonita, Rubinho tem se dedicado a pesquisar e divulgar o cangaço, cordel e a xilogravura através de palestras, exposições e de contos.

Em 2010, Rubinho participou da construção de mais um livro, o Maria Bonita: diferentes contextos que envolvem a vida da Rainha do Cangaço, organizado pelos escritores Juracy Marques e João de Sousa Lima. No capítulo "A representação de Maria bonita no cordel e na xilogravura", Rubinho faz uma intervenção a respeito das expressões culturais, tais como a literatura de cordel e a xilogravura, relacionadas á "Rainha do Cangaço", apontando essas ligações com a temática do cangaço.

Para divulgar seus textos e também comercializar seus livros, Rubinho criou o blog http://www.conversasdosertao.blogspot.com/, onde disponibiliza novos contos envolvendo o mundo do cangaço e da cultura popular.

Rubervânio Lima - Nasceu e reside em Paulo Afonso, tem 31 anos, é graduado em Letras (FASETE), pós-graduado em Estudos Literários pela UEFS, e cursa Pós-Graduação em Gestão Cultural no SENAC. Escreve contos, romances, poemas, músicas, tendo recebido vários prêmios literários.

Serviço
O que: Lançamento do livro Conversas do Sertão
Onde: Quadrilátero da Biblioteca Pública do Estado (Rua General Labatut, 27 - Barris)
Quando: 11 de setembro, às 11h30
Entrada: Gratuita

Vanessa Costa
Assessora de Imprensa

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

No tempo dos Nazarenos

Boneco da 8ª festa Popular da Malhação do Judas 
- Crato-CE
O testamento de Judas "Gomes de Sá" 

Como senti uma saudade daquilo que eu nem conheci....

Fugindo um pouco da nossa rota trazemos para deleite dos nossos rastejadores um texto com aquela irreverência própria do cordel, apimentado e sem qualquer necessidade de censura. 
Humor pueril que apresenta a criatividade do povo nordestino. Acredito que os mais velhos relembrem e conservem esta tradição da Semana Santa em suas respectivas regiões. 
Esta era a versão made in Floresta. Não sei se ainda é mantida neste molde? De fato era uma simples e gostosa confraternização entre familiares, parentes, amigos, personalidades e inesquecíveis personagens da sociedade da época. 


O texto contém algumas palavras e termos que os mais novos e principalmente quem não é daqui vai estranhar. Nem mesmo o autor conseguiu reproduzir na íntegra, perceberão algumas pausas como (ilegíveis). Algumas destas devem até estar extintas. 


Não entendi algumas, simplesmente acho graça, da mesma forma que eu ri de Chaplin ao vê-lo cantar aquela música no filme "Tempos modernos" a língua fora inventada por ele. 
Porque imagino como seria o "defeito" de fulano ou aquele "objeto indesejado" de cicrano etc.

Por Leonardo Ferraz Gominho
Capitulo do seu livro Floresta - uma Terra - um Povo, Recife 1996, editora Fiam

Augusto Barros, na década de 1930, vivia em Floresta e, observador como era, costumava, nas semanas santas, fazer “testamentos de Judas”, verdadeiras chacotas com a sociedade florestana. Esses “testamentos” eram afixados nos bonecos representativos de Judas que apareciam enforcados no tamarindo que ficava na esquina das ruas Dr. Tito Rosas e Antônio Ferraz. Eram lidos e comentados por todos. Conseguimos colher o que se segue:

 Sua biografia
 
Debaixo de raios, corisco e trovão que fez medo até ao cão, nasceu Judas Macabeu dentro da bodega de Argemiro (Goyanna) debaixo de um caixão de sabão, junto a uma lata de manteiga rançosa. 
Formou-se na Academia de Itacuruba e na seca de 15, sob a direção do professor Horácio Guimarães, fez parte na revolução dos litros na feira junto com Pedro Barbosa (fiscal da Prefeitura, interviu em questões de métodos de medição, na feira de Floresta. Era sobrinho de João Barbosa - v. capítulo) saindo ferido gravemente no inseboxe (sic). Depois de restabelecido foi estudar astronomia com Joaquim Doroteu onde descobriu um serrote no espinhaço de Arlindo (Gomes de Sá). Argemiro, orgulhoso por ter um filho tão sábio, mandou para o Egito estudar um processo para acabar com o cão; o que é fato é que, em 1927 desapareceu o cão, abriu-se um inquérito e ficou provado quem o matou. Em 33 traiu Cristo e morreu. Argemiro chorou muito.
 
Testamento:
 
Eu, Judas riacheiro Dr. em ciências (ilegível) aí filho do jumento de Atanásio com Argemiro e Quinca Lopes (genro do coronel Cazé), com 67 anos de idade afora os que andou de tamanco atrás da mãe, como herança deixo:
 
- Ao meu filho Pedro Barbosa,
Por ser fiscal que não descamba, 
Como herança lhe deixo
As pelancas de Maria Panaraça.

- Ao meu filho Afonso Barros
Por ser escrivão de casamento,
Deixo-lhe o umbigo de José Augusto
E a cabeça do meu jumento.
 
- Ao amigo Balduíno (Curchatuz), 
Partidário das goiabas,
Deixo-lhe por herança
Um vidro de catuaba.

- Ao amigo Manoel Boiadeiro,
Para suas viagens ao Rio de Janeiro,
Deixo como herança
O comprismo do Ribeiro (Lins).  

- Ao amigo João Teotônio,
Tem um roçado de criação,
Deixo-lhe como herança
A bodega de Merquião.

- Ao meu filho Olinto Gominho,
Toupeiro feliz e (ilegível)
Deixo-lhe como herança
A (ilegível) espada do barão.

- Ao meu filho (ilegível)
Que tem sonho de rapazinho,
Deixo para seu noivado
A jovem Maria Dedinho.

- Deixo para Fausto (ilegível), meu velho sócio,
A pazinha de Cícero Rosa,
O andar de José Aprígio
E as barbas de seu Façanha.

- Deixo para Gedeão a paulificança
Do velho Gilu, a tabela lyra de
Balduíno e a ossada de Gazaió (sic).

- Deixo para Siato a careca de Gercino,
A língua de José Grande e os beiços
De Manoel Cornélio.

- Deixo para Ancilon Ferraz
As mentiras de João de Deus,
A venta do Padre (Antônio Duarte)
E o espinhaço de Arlindo.

- Deixo a Olímpio Nunes
O bucho de seu Candinho,
O buchinho de Maria Teresa,
A ligeireza de Quinzinho
E a ferida de João Rodrigues.

- Deixo para o padre Antônio
A corcunda de Dei
E a perna de Floro (Menezes).

- Deixo para Argemiro
As economias de José Fortuna,
A cachaça de José Reis
E a doença de João Cassiano.

- Deixo para o sargento Pópulo (Goyanna),
Por ser da gema dos riacheiros,
A perna de Antônio Ivo
E o remelexo de Apolinária.

- Deixo para Cícero Padeiro
O grude de Manoel Sacão
Para fazer pão
E um saco de gago intalado (sic).

- Deixo para João Jota 
O mancebo de Celeste
A ferida de Joana Tamba
E a doença de Joaquim Pezão.

- Deixo a José Aprígio 
O olho de Batula
As feridas de Manoel Avelino
O prato de Manoel Sacão 
E o bracinho de Antônia Trajano.
   
- Deixo para o amigo Joaquim Cícero (de Barros),
Secretário da Prefeitura,
Meu caixão cheio de livro
Que deixei no monturo.
 
- Ao amigo velho Gilu,
Que tem vontade de casamento,
Deixo como herança
Uma juda (sic) de pimenta.
 
- Ao amigo Fulgêncio Novaes
Que tem inteligência de jumento,
Deixo como herança
Minha boca sem dente.

- Deixo ao amigo Goyanninha
As cadeiras de Maria Valéria
E a farmácia do velho Cirilo.
 
- Ao amigo Dr. André (Sampaio),
Como homem de inteligência, 
Deixo como herança
Uma faculdade sem ciência.
 
- Deixo ao meu filho Afonsinho Ferraz Filho,
Por ser um poeta de água doce,
Deixo-lhe como herança o olho fotó de Zé Belo
E uma bufa de José Cristino.

- Ao meu pai Quinca Lopes (genro de Cazé)
Dono do sítio Boqueirão,
Pai de Sálvio Torres, militar valentão,
Deixo como herança
A ceroula de Manoel Bocão.

- Ao futuro genro de Argemiro,
Que dizem ser José Leal,
Deixo como herança
As queixadas de Juvenal (barbeiro).

- Ao amigo Ernesto Nino, buchudão,
Deixo como herança
As queixadas de Manoel Merquião.

- Deixo ao amigo João Barbosa,
Comerciante de mangaio,
Um freio de amansar gato
E um fundo de balaio.

- Ao amigo João Josa (sogro de José Velhinho),
Que tem um olho fotó,
Deixo como herança
O cabo da minha enxó.

- Ao amigo Quinzinho (pai de Iracema Menezes Leal),
Comedor de Jacaré,
Deixo como herança
Os beiços do meu caburé.

- Ao meu filho Manoel Quinzinho,
Por ser um rapaz aluado,
Deixo de presente minha ceroula em mal estado.
 
E como nada mais disse nem lhe foi perguntado, deixo como encerrado este meu testamento. 
Vou-me embora para onde está Maria Delfina e vou me esconder nas barbas de seu Façanha. 
35 e 38 de fevereiro do ano de 1300.”