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quinta-feira, 2 de abril de 2020

Das 3 maiores batalhas

No fogo do Serrote Preto

Por Valdir José Nogueira de Moura.

Corria o ano de 1925, em fins do mês de março daquele ano, a cidade de Vila Bela, no sertão de Pernambuco, presenciava um intenso movimento de forças volantes, sob o comando do coronel João Nunes, que havia chegado aquela cidade do Pajeú no dia 23, com numerosa força policial deste Estado, incluindo mais dois Estados, da Paraíba e Alagoas, num total de 200 homens, cujo objetivo era proceder combate ostensivo ao terror impetrado na zona sertaneja pelo banditismo.


 João Nunes

No dia seguinte da sua chegada, o coronel João Nunes distribuiu essa numerosa força em vários contingentes que seguiram no encalço de Lampião, sob o comando dos capitães José Caetano, José Lucena, tenentes, Muniz de Andrade, Pedro Malta, Hygino e Clementino.

O coronel João Nunes ficou com os tenentes João Gomes e o belmontense Sinhozinho Alencar, este como seu secretário e aquele por se achar doente.

Durante a sua estadia em Vila Bela, foi o coronel João Nunes muito visitado no Paço do Conselho Municipal, onde ficou hospedado. A notícia da sua chegada ao Pajeú deixou a princípio a população local muito esperançosa, e muito confiante nas medidas que haviam sido tomadas pelos governos dos três Estados nordestinos, ora coligados para o extermínio do bando de Lampião. Entretanto, a chegada da força policial à Vila Bela gerou comentários nas rodas de amigos, nas calçadas, nas budegas, na feira...diziam alguns sertanejos, com suas astutas experiências que não seria ainda daquela vez que Lampião, seria pilhado.

 Lampião com a visão além do alcance.

Cangaceiro dos mais terríveis que já deu o sertão de Pernambuco, o “dito-cujo” era de uma audácia sem nome. Prova-o a última façanha ocorrida em fevereiro de 1925 no “Serrote Preto”.

Sabendo da aproximação de uma força policial composta de 75 homens sob o comando de três bravos oficiais, 2 da Paraíba, e 1 de Pernambuco, tenentes Francisco Oliveira, Joaquim Adauto e João Gomes; em vez de fugirem, os cangaceiros os esperou, apesar da inferioridade numérica de seus 24 comparsas. E os esperou com uma sorte tal, que além de deixar o campo juncado de cadáveres inimigos, ainda conseguiu fazer o devido saque.

Assim é que, dias depois, de rota batida para o Pajeú passou o cangaceiro por Vila Bela conduzindo grande quantidade de armas e munições, apanhadas no conflito do “Serrote Preto”.





 Fotos de achados, fruto de uma pesquisa de campo  em Serrote Preto
do escritor Lourinaldo Telles

Como nas coisas mais sérias da vida, há sempre um lado cômico e engraçado até, dizem que Lampião prometeu não mais matar soldados, mas sim, somente oficiais, isto por ter encontrado no bolso do oficial morto 2 contos de réis, enquanto que, no bolso de um soldado, apenas 300 réis.

Lampião tinha no seu cangaço dois irmãos: Levino e Antônio Ferreira, e que nos encontros com a polícia formavam sempre três grupos, com retaguardas etc. No combate do “Serrote Preto”, foi a retaguarda de Levino que desbaratou a polícia, causando-lhe 12 mortes, inclusive dois oficiais e vários feridos.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

História dos Volantes

Coronel João Nunes
Por: Antonio Vilela

Coronel João de Araújo Nunes
João de Araújo Nunes, nasceu em 27 de janeiro de 1881 em Águas Belas (PE). João Nunes foi um homem de extrema coragem comandando a Força Pública de Pernambuco no combate ao cangacerismo,enfrentando Lampião e seu séquito com uma bravura fora do comum.

O Coronel João Nunes era um homem forte e destemido, não tinha medo de Lampião, ao contrario, o Capitão vesgo tinha um respeito muito grande por Nunes.

Lampião teve uma grande oportunidade de matar o Coronel João Nunes e não o fez graças a bravura do mesmo. O coronel não se dobrou ao "Capitão" bandido. Em 30 de novembro de 1930, o Coronel, então aposentado estava descansando em sua fazenda em Águas Belas.

Lampião foi lá e sequestrou o brioso militar. Primeiro o Rei do cangaço exigiu a importância de quinze contos de réis de resgate, mas João Nunes estava sem essa importância, o velho Coronel jurava que era um homem morto. Foi levado até o estado de Sergipe,entretanto, por sua coragem e bravura, sem jamais mostrar fraqueza, foi tratado com educação pelos cangaceiros e com muita admiração pelo próprio Lampião.

Ao chegar à Sergipe e sem receber os 15 contos de réis pedidos de resgates, Lampião resolveu liberar o velho e brioso Coronel João de Araújo Nunes.


O jovem João Nunes
Acervo: Ivanildo Silveira

Ao contrário, em vez de pagar o resgate ao Capitão Virgulino, João Nunes acabou recebendo 30 mil réis para as despesas com comida e transporte. O velho Coronel chega ao Recife cansado, mas vitorioso de ter escapado das garras do famigerado Lampião, o terror do sertão, afirmando que Lampião era um "bandido de sentimentos humanos". O que salvou o Coronel João Nunes foi a sua coragem de enfrentar o infortúnio de estar sequestrado pelo bando de Lampião, conseguindo assim a simpatia dos bandoleiros e do próprio Virgulino Ferreira da Silva.


Cel. João Nunes ao centro 
tendo a sua esquerda o Cel. Audálio Tenório

Na revolução de 1930,João Nunes foi preso juntamente com o governador de Pernambuco Estácio Coimbra, ele, João Nunes,foi levado para a Casa de Detenção do Recife, ficando na mesma sela com João Dantas, assassino de João Pessoa, interventor da Paraiba. João Dantas disse ser o Coronel João Nunes "um homem forte".

O Coronel teve uma trajetória de vida muito bonita, foi prefeito de Águas Belas,Canhotinho e Garanhuns.

Fonte: SOUZA. Antônio Vilela - O Incrível Mundo do Cangaço vol. 2 Edições Bagaço 2010. Pág 31.
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Adendo Lampião Aceso

O Cel João Nunes foi Comandante Geral da Polícia Militar do Estado de Pernambuco. Existe no bairro de Santo Amaro, no Recife, o 13º BPM. Batalhão Cel. João Nunes. Foi Diretor da Casa de Detenção do Recife por três vezes; Diretor do Presídio de Fernando de Noronha; Assessor do Governador Cid Sampaio e membro da maçonaria. No prédio do Comando Geral da PMEPE, sua foto inaugurou a Galeria dos Comandantes. Tem uma rua batizada com seu nome na cidade onde nasceu, Águas Belas, onde foi prefeito de 1928 a 1930. Faleceu em 1971.

Fonte: www.osnunesemtodosostempos.blogspot.com.br

domingo, 18 de julho de 2010

Cassimiro Honório da Silva

As três fases do cangaço 

Por Leonardo Ferraz Gominho (*)

Crimes e criminosos no Sertão nordestino são encontrados em todas as épocas, a partir do momento em que se iniciou a ocupação de suas terras. O cangaço, entretanto, foi iniciado na primeira metade do século passado, estendendo-se até o atual e constituindo-se numa ameaça constante, notadamente nas regiões assoladas pela seca. Aí foram identificadas três fases, cada uma com características próprias, embora por vezes superpondo-se umas às outras.

A primeira fase do cangaceirismo se caracterizou pela luta contra os índios, quando os brancos procuraram de toda forma manter o território conquistado àqueles, pelas armas. Os indivíduos eram arrolados por um fazendeiro ou criador para defender suas propriedades das ameaças ou dos assaltos perpetrados por nativos. Ou mesmo para expulsar ou exterminar os índios. Assim, já em 1834 se falava dos cangaceiros que se constituíam em grupos de homens armados que, protegidos, municiados e assalariados por seus patronos, davam caça aos Minaús e Chocós, havendo lado a lado lutas duradouras e sangrentas. Essa fase se estendeu até o ano de 1844, aproximadamente, e os cangaceiros apresentavam-se de chapéu de couro, clavinotes, cartucheiras de pele de onça pintada e longas facas enterçadas, batendo na coxa.

A segunda fase é caracterizada pelo indivíduo fazendo parte do bando de um fazendeiro - de quem é amigo, parente, afilhado ou compadre - empenhado em agredir ou se defender de outro fazendeiro, seu inimigo. São homens de responsabilidade e de famílias importantes; são fazendeiros, criadores e doutores que, por qualquer rixa com outras famílias ou vizinhos, organizam o cangaço nessa fase; são pessoas violentas, armadas com o fim de intimidar ou exterminar os contendores na primeira ocasião, sempre movidos por motivos quase sempre considerados justos, à luz da época.

Na terceira fase, por fim, surgem bandos independentes dos mandões locais e que acabam por se lhes impor como uma terceira força. Sua primeira grande estrela foi Antônio Silvino, que iniciou sua atuação em 1906, tendo sido preso em 1914 pelo alferes Theóphanes Ferraz Torres (v. capítulo), seguindo-se Lampião (de 1920 a 1938) e Corisco, morto em 1940. É a fase do banditismo desenfreado, ladravaz, dos assaltos e crimes que tanto revoltaram o Sertão.


Cassimiro Honório da Silva foi um verdadeiro representante do cangaceirismo da segunda fase. Nascido na região do Riacho do Navio, foi valentão afamado, não só na ribeira citada como também em todo o vale do Pajeú e Moxotó, durante a última década do século passado e nas duas primeiras do atual. Sustentou questões com inimigos de renome como José de Souza - outra figura lendária daquela região - e o próprio Antônio Silvino.

Como se disse, à luz da época os cangaceiros da segunda fase, como o foi Cassimiro Honório, quase sempre tinham motivos considerados justos nos conflitos em que se envolviam. “Honório, inclusive, era “chefe de polícia” e “juiz de Direito” em suas terras”. Não era, portanto, o cangaceiro por excelência, que na linguagem popular está associado ao da terceira fase. Seu nome, ao lado de um Basílio Quidute de Souza Ferraz, José de Souza, Joaquim Manuel Frazão, Adolfo Meia Noite, Cipriano de Queiroz ou Simplício Pereira da Silva, se inscreve na crônica da melhor tradição dos valentões românticos que, segundo Henry Koster, enganchavam a granadeira e, viajando léguas e léguas, iam desafrontar um amigo, parente ou mesmo estranho que tivesse algum constrangimento ou humilhação.

Esses cangaceiros eram homens de todos os níveis, cujo serviço consistia em procurar oportunidade para lutar. Freqüentavam as festas e feiras e seus desejos eram tornar-se tão célebres pela coragem que bastasse saber de sua presença para amedrontar as pessoas que intentassem promover brigas. Consideravam-se com o privilégio de vingar as injúrias próprias e dos amigos, não permitindo que houvesse barulho em que eles não fossem interessados.

Assim era Cassimiro Honório. Fazendeiro, dono das fazendas Riacho do Meio e Santo Amaro, situadas a cerca de 80 quilômetros de Floresta, criava gado bovino, caprino, lanígero e cavalar. Apesar de ter se constituído no principal chefe de cangaceiros da região do Riacho do Navio e de ser conhecido por suas atitudes fortes e mesmo temíveis, era um homem trabalhador e honesto, respeitado e admirado pela sua valentia. Diversas pessoas o tomaram como vaqueiro, sendo uma delas o padre Antônio Manoel de Castilho Brandão (mais tarde bispo de Maceió), quando foi vigário de Floresta, lá pelos idos de 1879, quando Honório ainda não se iniciara no convívio com as armas.

De aparência física comum e insignificante, era branco, de mediana estatura, ventre proeminente, vestido de modo desajeitado, “não dava a impressão de ser uma pessoa envolvida em pelejas mortais”.

O assassinato do tenente Frederico

Em 1900, quando a fama de Cassimiro já se estendia por toda aquela região, aconteceu um fato que ficaria por muito tempo na memória dos florestanos e do povo das redondezas. Depois de acabar com os criminosos de Alagoa de Baixo (Sertânia), o tenente Joaquim Frederico Soares foi despachado pelo Governo para o município de Floresta, onde uma limpeza se fazia necessária, especialmente na ribeira do Navio e Serra Negra, locais infestados de criminosos.

Ângelo José de Souza (JSF, Tn 191), ou simplesmente Ângelo Umbuzeiro (nome que parece ter adotado, transmitindo aos seus descendentes), foi um homem de força extraordinária, verdadeiro campeão na queda-de-braço. Já octogenário, patriarca na ribeira famosa, fora célebre nos seus melhores tempos. Tinha uma sobrinha (dona Biluca) casada com Cassimiro Honório.

À frente de uma volante e desejando prender Cassimiro Honório, o tenente Frederico prendeu e conduziu por alguns dias o velho Ângelo. Ameaçou-o e em seguida mandou espancá-lo barbaramente, mais de uma vez, totalizando a humilhação em 100 pancadas dos velhos facões, como era o costume na época, batendo-se nas costas e no peito, conforme contou mais tarde o paciente e forte sertanejo.

O velho Ângelo, entretanto, dizia apenas que o tenente fosse com sua força até a fazenda Santo Amaro, de propriedade do procurado, e lá, ou em suas imediações, poderia encontrá-lo. Entregá-lo, porém, não o faria. E assim o tenente resolveu soltá-lo, voltando para Floresta.

Decorridos alguns dias, Frederico retornou ao alto Navio, onde a família do velho Ângelo já premeditara a vingança. Tendo à frente um genro do velho - Francisco Lourenço de Menezes (MOM, B 45), conhecido por Francisquinho Gomes -, morador na fazenda Caiçara , um grupo de dez homens passou a seguir a volante pela caatinga. Era o dia 17 de fevereiro de 1900. Quando o tenente passava com sua força, a cavalo, nos serrotes do São Brás, um irmão de Francisquinho, hábil atirador, de nome Ernesto Gomes de Menezes (MOM, B 46), alvejou-o na cabeça, prostrando-o por terra.

Constava que Frederico (que foi enterrado no cemitério da fazenda São Brás) usava um colete de aço e, por isso, Ernesto procurou atingir um ponto vulnerável. Mas, depois, dizia ter errado o tiro, pelo que ia quebrar a “riúna”, pois havia feito alvo o orifício auricular e a bala cravara-se um pouco acima, no pavilhão da orelha...
 Essas dez pessoas foram julgadas em Floresta, sendo todas absolvidas.

Mais tarde, em 1947, com a mesma arma, um neto de Francisquinho abateu Cláudio Ferraz, naquela mesma zona do Riacho do Navio, numa questão que por algum tempo se envolveram membros das famílias Ferraz e Menezes (v. Antônio Ferraz de Souza).

Fugindo do capitão João Nunes

Quando procurado pela polícia, Cassimiro embrenhava-se nas caatingas secas e desabitadas, situadas entre o Riacho do Navio e o Moxotó. Era um local que poucos se dispunham a enfrentar, face à escassez de água e à presença de áspera vegetação. Honório, entretanto, acostumara-se àquela vida. Sabia onde encontrar água: utilizava as raízes tuberosas de umbuzeiros, que retinham líquido; acendia fogueiras sobre rochas que, “sob a ação do calor, fissuravam em alguns pontos; com um pedaço de ferro escavava e alargava as partes enfraquecidas; as chuvas preenchiam os espaços, formando-se um poço impermeável”.

Assim faziam os habitantes do Sertão, quando não dispunham, como hoje, dos caminhões pipa. É daquela época um poço existente no sopé da Serra do Periquito, em Floresta, o qual abastece os agricultores durante os cruciantes meses de verão e é conhecido como “o açude de Cassimiro Honório”.

Cassimiro era de uma inteligência e sagacidade impressionantes. E também de sorte. Marilourdes Ferraz nos dá um bom exemplo. Diz ela que o coronel João Nunes, que foi Comandante da Força Pública de Pernambuco, “costumava recordar com um sorriso de como tinha sido ludibriado por ele em seus primeiros anos de oficialato, quando não estava habituado às táticas usadas pelos chefes de bando. Tentando prender o famoso cangaceiro, percorria a ribeira do Navio, quando obteve a informação: Cassimiro Honório se encontrava numa casa das redondezas. Ao se aproximar do local indicado, encontrou um senhor de aspecto físico decadente, em trajes de vaqueiro e montado a cavalo. Abordou-o e indagou do paradeiro de Cassimiro. A resposta veio tranqüila:
 - Ficou naquela casa.
Agradecendo a esse senhor, que logo desapareceu de vista, o oficial se dirigiu à casa; só encontrou ali uma senhora, a quem formulou nova pergunta sobre o paradeiro do procurado. Recebeu atônito a resposta:
 - Foi aquele homem com quem o senhor falou agora mesmo lá fora!
Era assim o famoso Cassimiro Honório: simples, astuto, de sangue frio e presença de espírito. O rifle, levava-o sempre na gualdrapa, sob a sela do cavalo.

O semanário diocesano e florestano “Alto Sertão”, em sua edição de 18 de novembro de 1916, traz outra notícia envolvendo João Nunes e Cassimiro: “O célebre criminoso do Navio, riacho deste município, Cassimiro Honório por um triz não foi preso esta semana passada pela força do capitão João Nunes. Ao passar o capitão João Nunes pela fazenda Rancho dos Homens, mandou alguns soldados em pesquisa na casa; ora, justamente ali estava Cassimiro que avisado da aproximação dos soldados fugiu com mais dois companheiros a toda brida; chegados a casa com algumas ameaças os soldados conseguiram saber que era Cassimiro Honório que corria e no qual eles haviam dado alguns tiros sem pontaria”.
  
 Capitão João Nunes

Cassimiro Honório x José de Souza

Entre os anos de 1912 e 1914, José de Souza (descendente de Manoel de Souza Ferraz - JSF, N 2) mantinha seu grupo de cangaceiros na ribeira do riacho São Domingos, onde tinha sua propriedade do mesmo nome, no município de Floresta.

Cassimiro Honório tinha uma filha, de nome Melania. José de Souza, impulsivo e destemido, e ressentido pela proibição imposta por Cassimiro ao namoro que pretendia desenvolver com a moça, sob a alegação de que era jogador inveterado, prontamente raptou a jovem, levando-a para a fazenda de um membro da família Carvalho, seu protetor.

Para reavê-la, Cassimiro travou combates violentos com José de Souza, iniciando-se a rivalidade e o ódio mortal entre os dois. As lutas em que se engalfinharam despertaram pavor e admiração nos habitantes do Pajeú e do Navio. Após retomá-la, Cassimiro foi atacado em sua fazenda, cercado por José de Souza que, acompanhado de muitos homens em armas, pretendia levar Melania pela força. Honório conseguiu fazê-lo recuar.

Certa vez, durante a madrugada, ao pressentir que o inimigo havia cercado sua casa e esperava as primeiras luzes para atacar, Cassimiro não deu mostras de estar abalado. Chamando sua mulher, pediu que lhe trouxesse o café e em seguida saísse calmamente, em companhia de outra senhora, ambas com potes na cabeça, fingindo dirigir-se ao poço para pegar água. Dali deveriam seguir o mais rápido possível para a fazenda Juá, onde pediriam reforços ao compadre Marcula, membro do grupo de Cassimiro.

“José de Souza caiu facilmente no engodo”, conta Marilourdes Ferraz (“O Canto do Acauã”). “As mulheres já haviam alcançado a fazenda Juá quando o tiroteio se iniciou; o fiel Marcula se demorou apenas o tempo estritamente necessário para reunir uma tropa de socorro”.

Os atacantes puseram fogo na latada da casa de Cassimiro. Sentindo-se em vantagem, José de Souza gritou para um de seus cabras:
 - Vamos lá dentro, Calango!
 A frase atrevida fez Cassimiro responder com outra ainda mais petulante e original:
 - Tu és besta, moleque! Aqui não entra teiú, quanto mais calango!
E José de Souza, o “Moleque”, como o chamava o “Jegue Velho” Cassimiro, teve de se retirar, como tantas outras vezes, ao ver os reforços chegarem.

O velho navieiro, entretanto, sabia dar valor a quem o tinha, mesmo que adversário rancoroso. Ao fim de sua luta com José de Souza, chegou a dizer que se soubesse que o “Moleque” era um homem tão valente como havia demonstrado em combate, teria permitido seu casamento com Melania “para ver os filhos que sairiam”.

O relacionamento com a família Ferraz

Naqueles tempos, Cassimiro mantinha com Antônio Ferraz de Souza (v. capítulo) um relacionamento de respeito e confiança. Homem de muitos inimigos, precisava ser prevenido. Quando o líder político queria conversar com ele, pedia para Ferraz seguir por uma determinada estrada. Num ponto qualquer, do conhecimento apenas do fazendeiro-cangaceiro, aparecer-lhe-ia. E, de fato, num trecho qualquer, ouvia-se a voz:
- Estou aqui, seu Tonho Ferraz.
Cassimiro dizia jamais ter armas para atirar num Ferraz. Antônio Serafim de Souza Ferraz (Antônio Boiadeiro), entretanto, entrou em desavenças com um seu irmão, José Honório, devido a questões em que se envolveram as mulheres de Antônio Boiadeiro e de José. Elas tinham até laços de parentesco. Tonho Boiadeiro chegou mesmo a juntar parentes e cabras em sua fazenda Mari, quando matou uma série de bois para alimentação do pessoal. Sem qualquer resultado e sem o maior empenho, esse grupo, por diversas vezes, foi mandado em busca de José Honório que, por fim, resolveu retirar-se para uma propriedade perto de Ibimirim, encerrando-se a questão (v. Antônio Serafim de Souza Ferraz). Em todos esses momentos, Cassimiro procurou defender o irmão, ao tempo em que procurava uma forma de acabar a questão. Aliviou-se quando o mano se retirou da região.

Cassimiro Honório x Lampião

 Em 1920, Virgulino Ferreira, em companhia de Antônio Matilde, retornou de Alagoas e dirigiu-se à Serra Vermelha com o propósito de hostilizar seu velho inimigo José Saturnino e membros da família Nogueira. “Carente de recursos para enfrentar o grupo, que lhe vinha acarretando mais danos que todos os anos de seca por si enfrentados, Saturnino finalmente recorreu a um experiente lutador: seu parente Cassimiro Honório” (segundo depoimento de Sinhô Pereira a Nertan Macedo - “Sinhô Pereira, o Comandante de Lampião” -, Cassimiro era tio de José Saturnino). “O idoso cangaceiro já estava com a fama em declínio depois de uma longa carreira, mas atendeu ao apelo e logo reuniu um grupo de homens aguerridos e fiéis”.


 O sobrinho José Saturnino

Antônio Matilde era seu compadre e Cassimiro sentiu combater o velho companheiro de lutas. Juntos haviam enfrentado o grupo de José de Souza. Mas, inteirado dos últimos acontecimentos e convidado para almoçar, respondeu:
- “Não, hoje eu quero é almoçar bala com compadre Antônio Matilde!”
Os “cabras” de Lampião e de Antônio Matilde haviam tomado os bebedouros do Tabuleiro e da Lagoa da Laje, situados entre o Pajeú e a ribeira do São Domingos, provocando a morte de considerável parcela de gado de José Saturnino e de sua família.

“Chegando à aguada do açude do Tabuleiro, não encontraram bandidos e resolveram ficar à espera, instalando piquetes. Mas as horas se passavam e os grupos não apareciam. O experimentado Honório indagou de José Saturnino:
 - José, só há essa aguada?
 - Não, tem outra que é na Lagoa da Laje. 
 - Pois então vamos ocupá-la, se é que os inimigos já não o fizeram!”
Ali chegando, encontraram nas proximidades dois cangaceiros abatendo uma cabeça de gado para provisão do bando. Surgindo um terceiro, foi capturado por Cassimiro, a quem revelou os planos do chefe, acampado na Mata do Pato, a seis quilômetros da vila de São Francisco.

“Os dois homens que haviam abatido o animal foram emboscados: um deles, Higino, foi mortalmente ferido, e o outro conseguiu fugir ileso (Honório e Saturnino haviam disparado contra o mesmo alvo).

Cassimiro Honório sabia que em pouco tempo Lampião e Matilde apareceriam. Distribuiu seus homens em pontos estrategicamente vantajosos para emboscada e rumou com parte do seu grupo para um serrote, posição à retaguarda que seus inimigos fatalmente tentariam ocupar. Suas previsões foram confirmadas. Os cangaceiros vieram diretamente para a elevação e foram apanhados em perigosa armadilha; alguns foram gravemente feridos, inclusive Antônio Matilde, mas a maioria procurou se abrigar para responder ao ataque.

Nesse combate, o velho Cassimiro deu uma demonstração da inteligência tática que tanto influenciou aos cangaceiros novos da região. Pequena parte de sua tropa ficara isolada em local perigoso e, para livrá-la dessa situação, ateou fogo ao capim, levantando cortina de fumaça que permitiu a seus homens evacuação segura do sítio desvantajoso”.

Ainda lutaram por muito tempo, até que Virgulino se retirou.

“Esse foi o último combate de que participou o veterano Cassimiro Honório. Nele havia demonstrado uma parcela da notável capacidade que lhe proporcionou a sobrevivência por muitos anos de lutas sem nunca necessitar se retirar da região do Navio”.

Ali continuou até morrer, em 1921, em cima de uma cama, como talvez jamais esperasse face à vida que levou. Correndo no campo, uma ponta de pau perfurou-lhe a barriga, causando-lhe a morte em pouco tempo. Permanecera naquela vida das armas por longos 25 anos, pois nela se iniciara em 1896.

Nas suas lutas, foram “seus principais companheiros: Marculino do Juá, o Marcula; Ângelo Carquejo, o Anjo Novo; José e João Davi, os Rajados; João Branco; Vicente Moreira; Cirilo Antão; Joaquim Cariri, seu genro; Pedro Fernandes; Elpídio Freire; Clementino Cordeiro de Morais; Antônio Matilde e Antônio Pereira dos Santos”.

Melania, sua filha, casou-se com Joaquim Cariri de Lima e deixou dez filhos: Joaquim Gomes Lima, Cassimiro Honório Lima (residia na mesma casa em que viveu o avô), Eulina, Lídia, Nazília, Constança, Inácia, Venâncio Gomes Lima (v. Antônio Ferraz de Souza), Manoel Gomes Lima (Nozinho) e José Gomes de Lima (o sargento Zuza).

Zuza, assassinado em Tacaratu - como o foram outros netos de Cassimiro -, era casado com Teonila Lopes Ferraz e foi o pai de Sebastião Gomes Lima (Sé, casado em Floresta com Nina) e de Elso Gomes Lima, além de José, Maria (casada com o primo Osmar), Melania e de Mirian Gomes Lima.

*Extraído do seu livro livro "Floresta, uma Terra - um Povo". 11ª parte.