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quinta-feira, 5 de maio de 2022

Vítimas

Policias militares mortos ao terem enfrentado cangaceiros ou assassinados após capturados

Por Rubens Antonio

Em um tempo em que há quem, na Bahia, pense em colocar nomes de cangaceiros em praça, cabe lembrar estes nomes:

Cabeça do ten PM Geminiano José dos Santos, 
morto e decapitado pelo bando de Lampeão.

1924

11 de outubro de 1924

tenente Joaquim Alves de Souza

1927

14 de fevereiro de 1927

soldado Paulo Sant’Anna

dezembro de 1927

inspetor Norberto Xavier Gomes

cabo desconhecido

soldado desconhecido

1928

6 de abril de 1928

3° sargento Antônio Anacleto de Oliveira

21 de agosto - Passagem de Lampeão à Bahia

21 de dezembro de 1928

3° sargento José Joaquim de Miranda

soldado Francellino Gonçalves Filho

soldado Juvenal Olavo da Silva

1929

7 de janeiro de 1929

soldado José Rodrigues da Silva

soldado Manoel Nascimento Souza

2 de fevereiro de 1929

anspeçada Francisco Estevam do Carmo

soldado Enedino Alves Ribeiro

soldado Francisco Nascimento dos Santos

soldado Lourival Ricardo da Conceição

27 de fevereiro de 1929

anspeçada desconhecido

soldado desconhecido

14 de maio de 1929

soldado Pedro Alves da Fonseca

4 de julho de 1929

cabo Antonio Militão da Silva

soldado Cecílio Benedicto Silva

soldado Leocadio Francisco Silva

soldado Manoel Luiz França

soldado Pedro Sant’Anna

20 de setembro de 1929

soldado Antonio Geraldo de Oliveira

24 de setembro de 1929

cabo João Soares da Silva

21 de outubro de 1929

soldado Olegário Correia da Silva

18 de dezembro de 1929

soldado João Felix de Souza

soldado Vitorino Baldoino Lopes

22 de dezembro de 1929

anspeçada Justino Nonato da Silva

soldado Antonio José da Silva

soldado Arestides Gabriel de Souza

soldado Ignacio Oliveira

soldado José Antonio Nascimento

soldado Olympio Bispo de Oliveira

soldado Pedro Antonio da Silva


Cadáveres de alguns soldados que foram vítimas de Lampião no dia 22 de dezembro de 1929 em Queimadas-BA.

1930

29 de março de 1930

soldado Calixto Eleutério

1 de agosto de 1930

tenente Geminiano José dos Santos

2° sargento José de Miranda Mattos

soldado Argemiro Francisco dos Reis

soldado Arnaldo Claudio de Souza

1931

30 de janeiro de 1931

soldado desconhecido

3 de fevereiro de 1931

soldado desconhecido

soldado desconhecido

5 de fevereiro de 1931

soldado desconhecido

24 de abril de 1931

2° sargento Leomelino Rocha

soldado Carlos Elias dos Santos

soldado Francisco dos Santos

soldado José Carlos de Souza

soldado José Gonçalves do Amarante

soldado Pedro Celestino Soares

soldado Saul Ferreira da Silva

9 de maio de 1931

soldado desconhecido

soldado desconhecido

soldado desconhecido

junho de 1931

soldado Antonio José da Silva

28 de agosto de 1931

soldado Francisco Cyriaco Sant'Anna

1932

2 de fevereiro de 1932

soldado Bôaventura Manoel da Silva

1933

20 de julho de 1933

cabo Pedro Luiz de Farias

soldado Antonio Fernandes de Lima

7 de setembro de 1933

soldado José Fernandes

soldado Manoel Bellarmino de Macedo

2 de outubro de 1933

soldado Pedro Emygdio de Oliveira

 

Soldado Pedro Emygdio de Oliveira.

1934

22 de abril de 1934

soldado João Pereira de Souza

1939

23 de maio de 1939

soldado desconhecido

Postado originalmente no Cangaço na Bahia

Jornais

A Província, Recife, 20/12/1928
Arq. Joaquim P. da Silva.

 

Ex-cangaceiros presos na casa de detenção

 

domingo, 1 de dezembro de 2019

Arlindo Rocha

Uma entrevista com o matador do cangaceiro Sabino Gomes

Por:José Tavares de Araújo Neto

Retrato artístico de Arlindo Rocha
Acervo Denis Carvalho

Arlindo Rocha, (nascido em 23 de março de 1883 e falecido em 07 de outubro de 1956), na condição de delegado da cidade de Salgueiro, Pernambuco, tinha sob sua guarda o indivíduo conhecido por Antonio Padre, suspeito de ter cometido um crime na região. Inocentado, Antonio Padre roga um emprego ao delegado, que o leva para trabalhar em uma de suas fazendas de nome Barrocas, onde reside com sua família. Nessa relação próxima à família, nasce em Antonio Padre uma forte paixão por uma das filhas de patrão, que chega a propor que a jovem fuja com ele. Ao ter conhecimento da intenção do seu empregado, Arlindo o expulsa imediatamente de sua propriedade.

Injuriado pela humilhação a que foi submetido, Antonio Padre declara guerra ao seu ex-patrão, e vai em busca de proteção junto ao coiteiro Francisco Pereira de Lucena, o temível e poderoso Chico Chicote, proprietário da fazenda Guaribas, no município Brejo dos Santos (hoje Brejo Santo), localizado no cariri cearense, na divisa com Pernambuco e Paraíba.

Antonio Padre, vez por outra, enviava bilhetes extorsivos e recado ameaçadores dizendo que além de roubar a filha, iria “partir a MELANCIA, aterrar as BARROCAS e derrubar as CAEIRAS”, referências as três propriedades de Arlindo Rocha. Diante dessas ameaças, Arlindo Rocha forma um grupo armado, com pessoas de sua extrema confiança, constituído por parentes e agregados, pois sabia da alta periculosidade do seu antigo empregado, agora um afamado bandoleiro do bando do famigerado Lampião.

Em meados de 1924, Arlindo articula uma bem-sucedida emboscada contra o subgrupo de Antonio Padre, ocorrendo uma forte troca de tiros, no episódio que ficou conhecido como o “Fogo de Pilões”, que resultou nas mortes de Antonio Padre e Gavião. Em 26 de novembro de 1926, já promovido tenente, Arlindo Rocha participa da sangrenta Batalha de Serra Grande, considerada a mais importante vitória de Lampião sob as forças volantes.

Nesta batalha, que havia dito que os cangaceiros iriam comer bala, foi acertado por disparo na boca que quase lhe destruiu a mandíbula, que lhe trouxe problemas de mastigação e cicatriz pelo resto da vida, sendo então chamado pelos cangaceiros pelo apelido pejorativo de “Queixo de prata”. Em fevereiro de 1927, Arlindo comanda uma as das volantes no histórico cerco a Fazenda de Chico Chicote, evento que ficou conhecido como o “Fogo de Guaribas”, no qual é morto o temível fazendeiro e coiteiro cearense.

Em 13 de março de 1928, três forças volantes, comandadas pelos tenentes Arlindo e Eurico Rocha e o bravo sargento nazareno Manoel Neto, intensificam o cerco ao bando de Lampião no cariri cearense, precisamente no município de Macapá, atual Jati, na fazenda Jati, do fazendeiro Antonio Teixeira Leite, o celebre coiteiro Antonio da Piçarra. Já era tarde da noite, sob forte chuva, o céu entrecortado por raios e trovões, que um dos soldados da volante de Arlindo Rocha deflagrou um tiro certeiro no vulto de uma pessoa que atravessava um passadiço, pondo fim a vida do célebre Sabino Gomes, o mais importante cangaceiro do bando de Lampião, que, em entrevista em Juazeiro/CE, já o havia apontado como seu potencial sucessor.

 Capitão Arlindo Rocha e seu filho Edmar
Cortesia de Otavio Cardoso

Após a malfadada tentativa de Lampião de atacar a cidade de Mossoró, no oeste potiguar, ocorrida em 13 de junho de 1927, os governos do Estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará e Pernambuco, uniram esforços no intento de eliminar definitivamente o cangaço dos seus territórios. A bem-sucedida “Campanha de 1927”, comandada pelo oficial cearense major Moisés de Figueiredo, em solo cearense, mas que também contava com contingentes policiais militares advindos do Rio Grande do Norte e da Paraíba, promoveu baixas, forçou deserções e fugas de cangaceiros rumo ao Estado Pernambuco. Em 21 de agosto de 1928, Lampião e seu bando, reduzido a apenas seis componentes (Ele; Ezequiel, seu irmão; Virgínio, seu cunhado; Luiz Pedro; Mariano e Mergulhão), em fuga, atravessam o Rio São Francisco e vão se homiziar na Bahia.

Em 20 de outubro de 1929, o Jornal Pequeno, de Recife/PE, veiculou uma entrevista concedida pelo tenente Arlindo Rocha, que reveste-se de importante documento para se entender melhor o mundo do cangaço.

Segue abaixo a transcrição integral da entrevista:

O tenente Arlindo Rocha, anteontem chamado ao Recife, é atualmente o comandante da forças pernambucanas no sertão.

Vimo-lo ontem, à noite, na chefatura, conferenciando demoradamente com o dr. Eurico de Sousa Leão. As indicações que se prestava, no mapa todo assinalado da Repartição Central da Polícia, e o justo renome que usufrui aquele policial em todo o sertão nordestino, levaram-nos a procurá-lo no intuito de conseguirmos um testemunho seguro da situação do cangaceirismo, afora o prazer natural de ouvir um homem que, anos a fio, dia e noite, tem batido cerrados e caatingas numa luta de vida e morte contra os mais ferozes bandoleiros. O tenente Arlindo Rocha é um homem moreno, alto e magro, muito tímido e que não fala nunca; tem que ser provocado então. Na face esquerda ostenta uma cicatriz profunda: uma bala de rifle em pleno rosto, às duas e meia da tarde, no dia 26 de novembro de 1926, no combate de Serra Grande.

 

 Arlindo no centro, sentados Theophanes Torres e 
Eurico de Souza Leão.
S. José do Belmonte, 1928.

Onde foi esse combate? Perguntamos logo, com nossa curiosidade despertada!

_ Serra Grande fica perto de Custódia. Comandava as forças o bravo tenente Hygino José Belarmino. Foi o início da campanha do atual governo estando no poder o saudoso Júlio de Melo contra Lampião. Este tinha, ao tempo, sob seu comando 125 homens. Estavam todos entrincheirados no alto da serra. A brigada começou as 8 da manhã e terminou as 6 horas da tarde. Nós tínhamos duas metralhadoras que Antonio Ferreira, irmão de Lampião, procurou cercar três vezes e gritava: _ Hoje tomo uma costureira dessa.

E tomou?

_ Não. Parece que tomou foi uma bala, pois morreu três dias depois do tiroteio. Os bandidos fugiram e desde então começou a debandada. O grupo fragmentou-se em quadrilhas que operavam em zonas diferentes. Ferido, nesta luta, acrescentou o tenente Arlindo, só escapei devido a meu irmão que me amparou. Os cangaceiros me alvejaram a pouco passos de distância, no momento em que eu chamava por Manoel Neto, ocupado em botar uma retaguarda.

Mas foi esse, tenente, o seu primeiro encontro com Lampião?

O tenente Arlindo riu e respondeu, a voz pausada:
_ Não. Eu já tinha brigado há tempos. Desde em que era subdelegado em Salgueiro, quando fui atacado e procurei tomar desforra. Mas isso no tempo em que, no sertão, cada qual se defendia por si mesmo. Eu e meus parentes demos uma brigada em Pilões. Brigada boa, aquela. Morreram de Lampião dois cangaceiros dispostos: Gavião e Antonio Padre. De lá p´ra cá tem sido essa marcha. Mas, de verdade, só melhorou a coisa com os drs. Estácio de Coimbra e Eurico de Sousa Leão. Foram eles quem me ajudaram, fizeram minha carreira militar; e é pór isso também que venho combatendo satisfeito sempre.

_ O sr. pode alto e bom som, disse o tenente Arlindo Rocha, que o sertão do Pernambuco está livre de cangaceiros. Pode acrescentar mais: os crimes de sangue e os assaltos a fortuna alheia se acabaram de vez.

E Lampião, tenente?
_ Lampião é, agora apenas, uma lembrança dos outros tempos. Dos tempos em que fora o rei do cangaço, dominando de Vila Bela a Salgueiro, do Ceará às margens do São Francisco. Avalie que eu mesmo, de uma feita, ao sair de Vila Bela com 12 homens, fui atacado na estrada pelos cangaceiros. Eram 26. Foi uma emboscada que me deu trabalho. Agora, no atual governo, jamais se viu Lampião procurar as forças para lutar.

Sempre na emboscada?

_ Nunca. É a fuga pela caatinga. O trabalho dos contingentes é todo para alcançá-lo e dar-lhe combate. Agora devemos argumentar com deficiência de comunicações, de aviso, de transporte e de víveres, etc. Entra-se pela caatinga adentro cinco, dez dias, um mês inteiro sem descanso. A comida é fruta e garapa de açúcar. E a cama é de pedra – um pedaço de jurema ou angico como travesseiro.

Mas onde anda Lampião? Inventam tantas coisas, às vezes ...

_ Bem sei, dr. Mas há muita mentira. O sr. argumente pelo pelos fatos da capital. Dá-se um conflito ali na esquina e na outra rua os mortos e feridos já estão triplicados. Basta notar o seguinte: seis meses atrás, Lampião com seis homens, pretendeu atravessar Pernambuco com direção ao Ceará. Não o pode fazer. Perseguimos o reduzido grupo um mês em Alagoas com o concurso esforçado e leal das forças daquele Estado. Encurralado, o bandido fez uma coisa que sempre se arreceara:

Atravessou o São Francisco, rumo à Bahia. As nossas fronteiras, de acordo com o plano traçado pelo dr. Chefe de Polícia, se acham inteiramente resguardadas de um impossível retorno dos bandoleiros. O próprio Lampião, por onde passa, diz que em nosso Estado não poderia mais viver. Na Bahia mesmo, a perseguição lhe foi terrível. Nossas forças como as daquele Estado, lhe moveram uma guerra tenaz. Na última corrida que lhe demos fomos pelo alto sertão baiano botá-lo a uma distância de mais de 100 léguas além de Juazeiro.

_ Quando Estive em Juazeiro da Bahia, contou-nos o tenente Arlindo, o prefeito perguntou-me porque sendo eu um homem doente e Lampião já em completa fuga, não mandava eu os meus homens em perseguição do bandoleiro e me arriscava aos percalços da caatinga. Respondi-lhe: É um entusiasmo que tenho pelo meu governo; quero ajudá-lo, assim de perto, cumprindo o meu dever. Lampião só tem cinco cangaceiros, segundo corre pelos sertões baianos, o seu objetivo é alcançar Goiás. E diz que não se entregou às nossas forças porque não tinha certeza se o trataríamos bem.

 

 Arlindo Rocha (esq.) e sua volante

Sabe quais os cangaceiros que vão com ele?
_ Sei. Ezequiel Ferreira, seu irmão; Virgínio Fortunato, seu cunhado; Mariano; Menino Oliveira e Luiz Pedro do Retiro.

E o famigerado Sabino?
_ Afirmam que morreu em Piçarra, no Ceará, num combate com minhas forças. O choque foi a meia noite. Debaixo de muita chuva e muita trovoada. Era um velho inimigo meu, o terrível Sabino. Lembro-me que num tiroteio ele gritava pra mim: “Arlindo das Barrocas, já te arranquei um queixo, quero levar o resto”.

Mas não levou, tenente ...
_ Não. Nem se cumpriram as promessas de Lampião, que me mandava dizer nos seus tempos folgados:

_ ”Quando passar na tua casa só deixo o chão molhado.”

quarta-feira, 6 de março de 2019

O homi de Porteiras

"Otoin" da Piçarra em vídeo

Estamos em Brejo Santo - CE, início da década de 1990. O presente documentário traz o maior coiteiro do Rei do Cangaço em terras cearenses. Antônio Teixeira Leite, mais conhecido como Antônio da Piçarra.

Em seu sítio Piçarra, em Porteiras - CE, aconteceu o famoso episódio do cangaço denominado o "Fogo da Piçarra" em 27 de março de 1928 e a morte do cabra "Sabino das Abóboras", homem de confiança de Lampião, onde em março de 1926 teria recebido a patente de Segundo-tenente do Batalhão Patriótico de Juazeiro.

Esse registro pertence aos descendentes de Antonio da Piçarra, gentilmente nos cedido pelo pesquisador e escritor Luís Bento de Sousa, o Luís Carolino, de Jati - CE.

A primeira parte deste documentário foi dirigido por Rosemberg Caryri;
Apresentação: Tom Cavalcante
Música: Pingo de Fortaleza
Narração: Tom Barros




Pescado no canal A Munganga Promoção Cultural

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Capitulos

O ataque de Lampião ao coronel Petronilo Reis
por João de Sousa Lima

Quando em 1928 Lampião cruzou o Rio São Francisco saindo de Pernambuco pra Bahia, um dos primeiros contatos foi com o coronel Petronilo de Alcântara Reis, "Petro". Era o chefe político de Santo Antônio da Glória, cidade hoje submersa pelas barragens do Rio São Francisco.

Vários livros contam que a amizade de Lampião com o coronel foi desfeita por que o coronel traiu Lampião, teriam os dois uma sociedade em terras e animais.

Quando houve a batalha que morreu Ezequiel, irmão mais novo de Lampião, fato acontecido na Baixa do Boi, em Paulo Afonso, Lampião encontrou em um dos bolsos de um policial morto no combate, um bilhete do coronel endereçado ao comandante da volante e o bilhete falava dos esconderijos dos cangaceiros. Lampião arquitetou sua vingança incendiando em torno de 18 fazendas do coronel. Começando de Glória, cruzando o Raso da Catarina, Lampião tocava fogo e matava os animais.
 
 Neste mesmo local ficava um curral queimado pelos cangaceiros.

Dessas fazendas a única que permanece de pé é a fazenda Paus Pretos. Antes Paus pretos pertencia a cidade de Curaçá e hoje pertence a Chorrochó. Em Paus Pretos ainda resta os tornos de madeira com marcas escuras do fogo.



 Dois tornos com marcas do fogo

A fazenda é administrada por Paulo Reis, neto do coronel. Nas cheias forma-se um açude com sete quilômetros de extensão, no momento o açude encontra-se seco. Na casa sede da fazenda Lampião prendeu o vaqueiro Agostinho e o fez entrar dentro do curral e pegar na mão um cavalo e o vaqueiro conseguiu depois de muito trabalho.

Sede da fazenda Paus Pretos

João de Sousa e Paulo Reis, neto do coronel Petro.

 Nesse açude os cangaceiros mataram vários animais.

Os cangaceiros tiraram madeiras do curral e tocaram fogo na casa, quando o fogo começou a tomar os compartimentos da residência um papagaio começou a gritar: Olhe o fogo Maria. Maria, Maria, olhe o fogo. Lampião mandou um cangaceiro entrar na casa, atravessar o fogo e salvar o papagaio. O curral foi todo queimado e os animais mortos.

O local onde Lampião assistiu a primeira missa na Bahia.       

Em 1928 quando Lampião atravessou pro estado da Bahia a região que fica dentro do Raso da Catarina foi muito explorada pelos cangaceiros. a primeira missa que os cangaceiros assistiram no estado baiano foi ministrada pelo  Monsenhor Emílio de Moura Ferreira Santos. o padre era o pároco de Santo Antônio da Glória, a antiga Curral  dos Bois.

 Escombros da casa de Júlia de Subaco

O povoado São José, em Chorrochó foi uma das localidades que os cangaceiros também assistiram missa. Mais a primeira que foi celebrada pelo Monsenhor Emílio aconteceu entre a fazenda Paus Pretos, que pertencia ao coronel Petro e a roça Baixa do Boi. A missa foi na casa Júlia de 'Subaco', na fazenda poço Comprido.

 

sábado, 14 de abril de 2012

Memorial

Militares mortos... Baianos e na Bahia

Por Rubens Antonio


O levantamento do número de militares mortos em combate, seja baianos ou na Bahia, tem surgido apenas esparsamente, muito dado a erros e imprecisões.

Esta listagem é uma contribuição que aponta aqueles mortos que estão referenciados em diversas publicações, especialmente aquelas reconhecidas, no momento, pela própria Secretaria de Segurança da Bahia.

O seu acompanhamento é interessante ao demonstrar evidente o despreparo inicial da polícia baiana, no combate ao Cangaço. No seu passo, a correta dimensão do problema e a profissionalização crescente permitiu, primeiramente, a queda do número de militares mortos. Em segundo lugar, a inversão, com a progressão de cangaceiros eliminados.

Outro ponto que chama a atenção foi a desatenção descuidadosa do Estado, em relação aos seus mortos.
Inumados em sepulturas simples, seus restos, em sua maior parte, perderam-se.

1927
Quarta–feira 18 de fevereiro de 1927 - Picos, em Santo Antônio da Gloria

+ soldado Paulo Sant’Anna

1928
22 de dezembro - Fazenda Curralinho, no Cumbe (Atualmente Euclides da Cunha)

+ sargento José Joaquim de Miranda, (que aparece também citado como João Joaquim de Miranda, apelidado “Bigode de Ouro”).
+ soldado Juvenal Olavo da Silva, (Que aparece também citado como Juvenal A. da Silva).
+ soldado Francellino Gonçalves Filho, (Que aparece também citado como Francisco G. Filho).

1929
7 de janeiro de 1929 - Arraial de Abóbora, em Jaguarary (Atualmente é povoado de Juazeiro)
+ soldado José Rodrigues
+ soldado Manoel Nascimento de Souza

João Alves Guimarães, testemunha do combate de Abóbora, aponta a localização da entrada do antigo cemitério de Abóbora. Os soldados foram enterrados próximo à quina branca que se vê à esquerda. um novo cemitério foi instalado em outra localização, entretanto, os restos dos mortos não foram retirados. Daí, os restos dos soldados ainda repousam nos mesmos sítios, sob o pavimento da nova Abóbora.

26 de fevereiro de 1929 - Novo Amparo
+ soldado desconhecido
+ soldado desconhecido

4 de junho de 1929 - Brejão da Caatinga - Campo Formoso
+ cabo Antônio Militão da Silva
+ soldado Pedro Santana
+ soldado Cecílio Benedito da Silva, (Que aparece também citado como Cecílio Bernardino Alves).
+ soldado Manoel Luiz França, (Que aparece também citado como Manoel Luis de França).
+ soldado Leocádio Francisco da Silva, (Que aparece também citado como Leocádio Francisco dos Santos).



Os corpos dos soldados mortos em Brejão da Caatinga foram exumados e levados para a cidade de Campo Formoso, em cujo cemitério foram enterrados. Em uma reforma no cemitério, os restos de diversos mortos foram retirados e agregados em uma cova comum, em uma quina do cemitério. Entre eles estavam os restos dos militares. Na imagem, o coveiro atual, Eduardo Costa Sebastião, mostra onde repousam os mortos de Brejão da Caatinga, na quina, sob a árvore e os tocos de madeira.

20 de setembro de 1929 - Tanque Novo - Juazeiro
+ soldado desconhecido
+ cabo João Soares

21 de outubro de 1929 - Patamuté

+ soldado Olegário C. da Silva
Soldado Pantaleão da Silva foi dado por Felippe Castro (1975) como morto, mas foi apenas ferido, tendo sido promovido.


Soldado Pantaleão da Silva,
ferido, recuperando-se em Salvador.


18 de dezembro de 1929 - Uauá

+ soldado Vitorino Baldoino Lopes
+ soldado João Felix de Souza

19 de dezembro de 1929 - Santa Rosa - Jaguarary
+ soldado Vitorino Baldoino Lopes
+ soldado João Felix de Souza
+ soldado desconhecido
+ cabo João S. da Silva

22 de dezembro de 1929 - Queimadas

+ anspeçada Justino Nonato da Silva
+ soldado Olympio Bispo de Oliveira
+ soldado Aristides Gabriel de Souza
+ soldado José Antônio do Nascimento
+ soldado Ignacio Oliveira
+ soldado José Antônio da Silva, (Que aparece também citado como Antônio José da Silva).
+ soldado Pedro Antônio da Silva

1930
1 de agosto de 1930 - Fazenda Lagoa dos Negros - Tucano
+ tenente Geminiano José dos Santos
+ sargento José de Miranda Mattos, (Que aparece também e erradamente citado como José Miranda Marques).
+ soldado Argemiro F. dos Reis, (Que aparece também citado como Francisco Almiro dos Reis e Aquino Francisco dos Reis).
+ soldado Arnaldo Claudio de Souza, (Que aparece também citado como Arnaldo Cândido de Souza).
+ soldado André Avelino de Souza, (Que aparece também citado como André Avelino dos Santos).

1931
30 de janeiro de 1931 - Brejo do Burgo
+ soldado desconhecido

3 de fevereiro de 1931 - Vassouras
+ soldado desconhecido

24 de abril de 1931 - Fazenda Touro - Paulo Afonso
+ sargento Leomelino Rocha

1932
15 de abril de 1932
+ soldado Odilon G. da Silva

1933
2 de outubro de 1933 


+ soldado Pedro Emygdio de Oliveira (Ferido em tiroteio, trazido a Salvador, faleceu no Hospital da Força).

1934
21 de abril de 1934 - Paripiranga
+ soldado João Pereira de Souza

De uma maneira geral são estes os nomes e as datas. Caso haja outros dados referenciados, basta comunicar que serão inseridos.

Colhido no fértil Cangaço na Bahia

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Jornal "A Tarde" 13 de abril de 1928

O “truc” de um governador
Como o sr. Costa Rego desarmou o sertão de Alagoas

RIO, 12 (A TARDE) – Numa roda de amigos em que se achava conhecida figura, provinda de Maceió, ouvi a seguinte interessante narrativa:


Pedro Costa Rego
Empenhado em acabar com o banditismo no Estado de Alagoas, o governador Costa Rego architetou e poz em pratica uma medida original.
Allegando receios de reacção contra o seu governo, o sr. Costa Rego teria dirigido aos chefes politicos do interior, dos quaes alguns eram protectores conhecidos de cangaceiros, uma circular alludindo a essas suspeitas e pedindo o apoio a cada umd elles, apoio que consistiria em reunir o maior numero possivel de homens destemidos, embarcando–os para a capital, para onde deveriam vir logo armados e municiados, trazendo a maior quantidade de armas e munições que fosse possivel arrecadar.
Á vista dessa circular, e querendo dar arrhas de maior dedicalão ao governo, cada umd esses chefes entrou a empregar os maiores esforços, na demonstração da sua força.
Dahi resultou que legiões e legiões de cangaceiros vieram para a capital, promptos para combate. A cidade, pode dizer–se, ficou invadida por esses maus elementos.
Á proporção que iam chegando, o sr. Costa Rego ia arranchando esses cangaceiros nos quarteis e em casas que para esse fim destinou. E lá um bello dia, depois de pagar pelo governo as despezas da sua estada, deu passagens de volta a todos elles, fazendo–os portadores de cartas para os alludidos chefes politicos, nas quaes lhes agradecia o concurso prestado, que já não era, porém, preciso por haver passado a temerosa crise.
Quando, porém, esses chefes reclamaram as armas que tinham vindo, o sr. Costa Rego, então, lhes declarou, em nome do governo, que não havia necessidade de gente armada no interior do Estado.
Pesquei no Açude de Cumpadi Rubens 
Mas a foto foi em: Cassimiro Farias.zip.net

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Imprensa e cangaço

Noticias do Cangaço no Ceará, nas páginas da revista Fon-Fon

By Rostand Medeiros


 Fonte - http://wp.clicrbs.com.br

Quando se pensa em pesquisa sobre o tema cangaço, normalmente o campo de busca de um garimpeiro da história seria uma hemeroteca, ou a documentação governamental de algum arquivo público, ou os arquivos dos institutos históricos existentes nos estados onde ocorreu este fenômeno de banditismo rural. Sem esquecer das pesquisas de campo e o que ficou da tradição oral.

Existem vários caminhos, mas um dos mais interessantes e que eu acreditava serem menos propensos a existir algo relativo ao cangaço, seriam as páginas da revista Fon-Fon. E realmente existem interessantes referências sobre cangaceiros nesta revista de variedades.

Dando um chute bem largo na história, seria mais ou menos como se hoje fosse realizado um debate sobre a problemática dos assaltos a bancos nas grandes cidades brasileiras, utilizando para isso as páginas da revista “Caras”.

Um Marco na Imprensa Brasileira

Durante o século XIX, em praticamente todo o Mundo as revistas ricamente ilustradas tornaram-se moda. Os causos, curiosidades e outros assuntos relacionados a modernidade, como moda nos bailes, automóveis, aviação, eram matérias para estas revistas.

Seguindo a tendência é criada a revista Fon-Fon no Rio de Janeiro em 13 de abril de 1907. Em relação ao nome “Fon-Fon”, é uma simples onomatopeia do som produzido pelas buzinas dos carros da época.

http://wp.clicrbs.com.br

O foco da revista tinha um olhar irônico em relação ao dia a dia e aos fatos do Brasil considerado moderno. O enfoque dado às imagens era outra de suas principais características. Até mesmo gênios de nossa pintura, como Di Cavalcante, foi um de seus colaboradores. Em suas páginas foram celebrizados ilustradores como Nair de Tefé, J. Carlos, Raul Pederneiras e K. Lixto.

Eram mostradas as últimas novidades da moda em Paris, que na época já era o maior centro de elegância do mundo em matéria de modas femininas e infantis.

Além de moda a revista tratava de estilos e das rápidas mudanças que ocorriam na sociedade brasileira. Mas é inegável que o maior enfoque, era em relação à vida social carioca. Para a pesquisadora Fabiana Macena, a revista Fon-Fon se torna um importante documento para auxiliar o entendimento das táticas e relações comportamentais dos atores sociais da época.[1]

É neste interessante periódico que vamos encontra dois artigos sobre o cangaço.

Cangaço na Fon-Fon

No exemplar que circulou em 14 de abril de 1928, um sábado, na seção “Commentarios da Semana”, temos um texto que se inicia desta maneira;

Fon-Fon, 14 de abril de 1928

“O Ceará está na ordem do dia da imprensa carioca e quiçá da do Mundo. Infelizmente não pelo brilho da inteligência inegável de seus prosadores e poetas, nem pela excelência de sua administração e nem por outros motivos auspiciosos, mas pela miséria de sua politicalha e pela selvageria de seus crimes.”

O autor destas letras comenta que através de inúmeras notícias vindas daquele estado, este se encontrava “fora da ordem e da lei”. Um dos principais fatores apontados para a uma pretensa crise política e social era a questão do cangaço.

No texto encontramos uma forte crítica na maneira como as forças de segurança cearenses estavam levando adiante a luta contra os cangaceiros.

É comentada uma notícia publicada no jornal “O Povo”, de Fortaleza, edição de 15 de março, informando o saque realizado por policiais no povoado de Girau.

Esta povoação se desenvolveu a partir da fundação de uma estação ferroviária em 1907, localizada a alguns quilômetros da cidade de Senador Pompeu, fazendo parte da chamada Linha Sul e pertencente à Rede de Viação Cearense[2].

 Antiga estação de Girau
Fonte - http://www.estacoesferroviarias.com.br

No artigo não encontramos maiores detalhes deste episódio. Mas ele deixa claro para a população carioca, o principal público da Fon-Fon, que diante da brutalidade, do saque e dos roubos praticados por membros das forças de segurança, era natural que sertanejo cearense sentisse uma certa inclinação a favor dos bandidos e fazendo com que alguns fornecessem proteção aos cangaceiros.

Para o articulista, a forma de combater o cangaço era equivocada. Enquanto os soldados simplesmente aguardavam a chegada dos meliantes, estes eram rápidos em seus deslocamentos. Bem montados em alimárias, percorriam grandes distâncias em pouco tempo e realizavam suas ações de forma inesperada.

O autor informa que os militares envolvidos nas operações contra os cangaceiros ganhavam vencimentos tão miseravelmente baixos, que o saque oficial, a arrecadação dos chamados “tributos de campanha”, era uma consequência para se evitar a fome. Além do mais ficava difícil acreditar que estes soldados combatessem seriamente os cangaceiros recebendo apenas 3.000 réis por dia[3].

Na edição de 5 de maio de 1928 da Fon-Fon, encontramos o subtítulo “O Penhomeno do Banditismo”, igualmente publicado na seção “Commentarios da Semana”, onde o autor afirma que o cangaceiro do Nordeste seria um herói abortado. Para o articulista este cangaceiro do sertão, possuidor de enorme energia natural, sem direcionamento, se perde na pobreza e no atraso que vivia a região.

Apontava que para vencer o cangaço não seriam necessários os tiros e as baionetas dos militares. Mas teria que ser dado trabalho organizado pelo governo junto aos sertanejos, principalmente na construção de açudes, na abertura de estradas e sem esquecer-se de trazer educação para esta gente tão sofrida. Estas seriam armas muito mais poderosas para acabar com o cangaceirismo.

O autor não tinha nenhuma dúvida em apontar o grande culpado dos problemas relacionados ao cangaceirismo no interior do Ceará; o governo estadual.

A Luta Contra o Cangaço no Ceará, na Visão do Governo Estadual

Nesta época estava a frente do executivo cearense o desembargador José Moreira da Rocha, tendo realizado um dos governos mais polêmicos da história do Ceará. Ele dirigiu o estado entre 1924 a 1928, seguindo uma linha conservadora. Foi acusado entre outras coisas de ser autoritário, praticar o nepotismo e desviar verbas públicas.

Moreira da Rocha
Fonte - http://www.enciclopedianor-deste.com.br

Na área de repressão ao cangaço, a atuação das forças de segurança durante o governo Rocha tiveram seu grande ápice em 1927, durante a perseguição ao bando de Lampião, após este ter invadido o território potiguar e ter realizado o frustrado ataque contra a cidade de Mossoró.

Na sua mensagem a Assembleia Legislativa do Ceará, enviada em 19 de maio de 1928, Rocha enalteceu a dura perseguição ao bando, comentando de forma positiva os combates da Serra da Micaela, no município de Jaguaribe e na área do município de Aurora.

Serra da Micaela em foto atual
Fonte - http://www.flickr.com - Foto de Ranulfo Alexandre

Na Mensagem, os atos de bravura e os nomes dos militares mortos foram enaltecidos. O 2º sargento José Antônio do Nascimento e o 3º sargento Eurico Rocha foram promovidos a 2º tenente. Também por ato de bravura, Antônio Pereira do Nascimento foi confirmado no posto de 2º tenente. Este militar recebeu ferimentos no combate contra os cangaceiros ocorrido no lugar “Vaca Morta”.

Além das promoções a Mensagem informava que no mesmo combate na “Vaca Morta”, tombaram os cabos de esquadra Raymundo José Augusto e Manoel da Silva Britto, além dos soldados José Felix do Monte e Aprígio José da Silva.

Outro ponto muito enaltecido pela Mensagem do governador Rocha, diz respeito à fuga do grupo do cangaceiro Massilon para o Piauí e o desmantelamento do bando do cangaceiro João Marcelino.[4]

Jornal "Diário de Natal", 16 de janeiro de 1928

Este último chefe cangaceiro e parte dos seus homens, aliados de Lampião na invasão ao Rio Grande do Norte, foram na verdade friamente fuzilados pelo sargento José Antônio e seus soldados, no dia 5 de janeiro de 1928, próximo ao Sítio Alto do Leitão. Esta propriedade fica nas imediações da velha estrada que liga as cidades de Barbalha ao Crato. Consta que no local os cangaceiros foram obrigados a cavarem suas próprias sepulturas e depois fuzilados sem piedade.

Os Problemas na Ação Policial Contra os Cangaceiros

Apesar de todo o sacrifício dos militares e do clima ufanista transmitido pela Mensagem do governador Rocha, muito distante das críticas publicadas na Fon-Fon, outra fonte já apontava os problemas das forças de segurança cearenses nestes episódios.

E era o relato transmitido por um oficial da polícia potiguar.

"Diário de Natal" 24 de agosto de 1927

Nos dias 24 e 25 de agosto de 1927, foi reproduzida no jornal “Diário de Natal” uma entrevista concedida pelo tenente Joaquim Teixeira de Moura ao jornal mossoroense “Correio do Povo”. Este militar, junto com os tenentes Laurentino de Moraes e Sólon de Andrade, a frente de 100 homens da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, estiveram perseguindo Lampião e seus cangaceiros em território cearense.

Esta tropa ficou sob o comando do major Moysés Leite de Figueiredo, da polícia cearense. Além das forças potiguares e cearenses, estava sob o comando do major uma volante paraibana comandada pelo tenente Costa e pelo sargento Clementino Quelé. Moura afirmou que mais de 300 policiais estavam atuando contra os cangaceiros.

Na entrevista o oficial potiguar comenta o desenrolar das ações, narra a morte dos policiais cearenses e o ferimento do 2º tenente Pereira. A partir de certo ponto da entrevista, Moura não poupou o major Moysés de fortes críticas.

Ele inicia afirmando que Moysés não andava fardado, que depois de um determinado combate não deixou que os policiais potiguares realizassem buscas na região onde estavam os cangaceiros. Moura colocou o major Moysés no rol dos covardes, afirmando que o mesmo ficava a certa distância da linha de tiro e que em determinada hora transferiu o comando a um tenente chamado Firmo.

 Joaquim Teixeira de Moura 
Fonte - http://coronelangelodan-tas.blogspot.com/

Um fato grave entre as declarações de Moura foi que o major Moysés era cunhado do chefe político Isaias Arruda, da fazenda Ipueira, município de Aurora. Este é considerado um dos maiores, ou o maior, coiteiro de Lampião no Ceará.

Mas a pior acusação do tenente Moura contra o major Moysés foi que o oficial cearense teria articulado junto ao governador Rocha para encerrar a perseguição, justamente no momento que as forças policiais preparavam-se para atacar Lampião em uma propriedade de Arruda.

Esta situação causou uma tremenda revolta em grande parte dos oficiais militares presentes, segundo as declarações de Moura.

 Oficiais da PM potiguar 
Fonte - http://coronelangelodantas.blogspot.com/

Não sabemos se nas linhas do autor do artigo da Fon-Fon, quando comenta sobre a “miséria de sua politicalha” existente no Ceará, tinha alguma relação com as declarações de Moura.[5]

Mudanças

No dia 24 de outubro de 1927, enfermo, o governador Rocha pediu licença à Assembleia Legislativa para se afastar do executivo cearense. Esta permissão lhe foi concedida em 19 de maio de 1928. Rocha então seguiu para Recife, deixando que Eduardo Henrique Girão, então presidente da Assembleia Legislativa, assumisse o governo cearense[6].


Não sei se estas reportagens da Fon-Fon tiveram repercussões na Capital Federal, ou se tiveram maior eco no Ceará, ou se serviram de combustível para a Assembleia Legislativa do Ceará em conceder o afastamento de Rocha do seu cargo.

Mas o certo é que o novo governador do Ceará, José Carlos de Matos Peixoto, empossado em 12 de julho de 1928, já no seu primeiro ano na nova função, realizou uma grande mudança no aparato de segurança cearense. Criou a Secretaria de Polícia e Segurança Pública, desencadeou reformas na Polícia Militar e foram realizadas novas incursões contra o cangaceirismo no estado. Para o comando da Polícia Militar foram empossados os capitães do Exército Edgard Facó e Rodolpho Augusto Jourdan[7].

Um Grande Conhecedor do Cangaço

Lendo os inúmeros exemplares da revista Fon-Fon (colocados a disposição do público pela Biblioteca Nacional, já digitalizados, através do link http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_periodicos/fonfon/fonfon_anos.htm), vemos que fatos ligados a região Nordeste são pouco vistos em suas páginas. Enfim era uma área do Brasil distante da então Capital Federal, pobre e cheia de problemas. Então é de se estranhar que o tema cangaço seja inserido em páginas tão pouco destinadas a tratar deste assunto.

 Gustavo Barroso 
Fonte - http://construindohistoriahoje.blogspot.com

Apesar dos artigos aqui analisados não trazerem o nome do autor, não temos dúvida em apontar que estas referências ao cangaço foram publicadas na revista através da ação do advogado e jornalista cearense Gustavo Dodt Barroso.[8]

Este nasceu na capital alencarina em dezembro de 1888. Foi advogado, professor, político, contista, folclorista, cronista, ensaísta e romancista. Depois se mudou para o Rio de janeiro. Na literatura, usando o pseudônimo de João do Norte, lançou com apenas vinte e três anos o livro “Terra de sol”, um ensaio sobre a natureza e os costumes do sertão cearense.

Em 1916 ele entra para os quadros da revista Fon-Fon em 1928 vamos encontrá-lo na função de Redator-Chefe.

Nesta época Barroso já havia escrito o livro “Heróis e bandidos-Os cangaceiros do Nordeste” (Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1917). Em 1930 publicaria “Almas de lama e aço – Lampião e outros cangaceiros” (São Paulo: Ed. Melhoramentos, 1930), mostrando que ele conhecia e analisava o assunto com profundidade.

Para o folclorista pernambucano Mário Souto Maior, Gustavo Barroso soube estudar as causas do cangaço, a sua ambiência, a sua época, com uma penetração sociológica pouco comum àquele tempo.

Para Souto este escritor nordestino soube analisar o homem e o meio para, a seu modo, embora um tanto ou quanto controverso, apontar as principais causas que originaram e alimentaram, por mais de cinco décadas, o flagelo do cangaço no chamado polígono das secas[9].

Estes dois artigos na revista Fon-Fon não são os únicos que tratam do tema cangaço neste periódico. Existem outras referências, que acredito terem sido igualmente realizadas por Gustavo Barroso. Isso mostra de certa maneira, o quanto este assunto já possuía penetração na imprensa da Capital Federal, que só cresceu ao longo dos anos posteriores.

Aponta também sobre a existência de novas fontes documentais de informações sobre o cangaço e como a pesquisa do assunto pode ser mais ampla.

Para finalizar; Joaquim Teixeira de Moura foi extremamente duro em suas críticas ao major Moysés, mas se o assunto é covardia, pior foi o caso da morte do cangaceiro Chico Pereira, em Currais Novos, em outubro de 1928. Neste dia Chico Pereira foi friamente trucidado pelo tenente Moura e a escolta que deveria transportá-lo a Acari. Foi uma grande mácula em uma carreira onde não faltaram atos de extrema valentia e mostras de capacidade.
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[1] MACENA, Fabiana. “Madames, mademoiselles, melindrosas: representações femininas na revista Fon-Fon (1920-1930)”. Viçosa, UFV. Revista de História Contemporânea, nº2, mai. a out. 2008.
[2] Girau é o atual município de Piquet Carneiro, localizado a 332 quilômetros de distância de Fortaleza.
[3] Para efeito comparativo, 2.000 réis era o preço de uma entrada para uma poltrona no Cine-Theatro Carlos Gomes em Natal. Ver jornal “A Republica”, 4 de novembro de 1928, pág. 4.
[4] Ver “Mensagem enviada a Assembleia Legislativa do Ceará, pelo Desembargados José Moreira da Rocha, Presidente do Estado, 1928”, páginas 48 a 52.
[5] Para quem desejar conhecer esta reportagem na íntegra, a mesma se encontra na hemeroteca do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do norte, situado a Rua da Conceição, 662, Centro, Natal.
[6] Logo após Rocha renunciou ao seu mandato.
[7] Ver “Mensagem apresentada pelo Presidente do Estado do Ceará a Assembleia Legislativa e lida na abertura da 1ª seção ordinária da decima legislatura”, 1929, Ed. Tipografia Gadelha, Ceará, págs. 12 a 15.
[8] A obra e a verdadeira prestação de serviços de Barroso a cultura brasileira são enormes. Barroso escreveu em vários jornais e revistas de Fortaleza e do Rio de Janeiro inúmeros artigos, crônicas e contos, além de desenhos e caricaturas. Publicou mais de cento e vinte e oito livros, com trabalhos que abrangem desde história, folclore, ficção, biografias, memórias, política, arqueologia, museologia, economia, crítica e ensaio, além de dicionário e poesia. Além de João do Norte, utilizou os pseudônimos Nautilus, Jotanne e Cláudio França. Foi deputado federal pelo seu estado natal e exerceu inúmeros cargos públicos, tendo atuado como diretor do Museu Histórico Nacional. Torna-se membro da Academia Brasileira de Letras com apenas 35 anos de idade. Nesta instituição exerceu vários cargos, culminando com o de presidente, com mandatos em 1932, 1933, 1949 e 1950. Em 1941 foi designado, juntamente com Afrânio Peixoto e Manuel Bandeira, para coordenar os estudos e pesquisas relativos ao folclore brasileiro. Além da A.B.L. foi membro de várias outras academias e sociedades científicas. Entre estas a Academia Portuguesa da História; a das Ciências de Lisboa; a Royal Society of Literature de Londres; a Academia de Belas Artes de Portugal; a Sociedade dos Arqueólogos de Lisboa; o Instituto de Coimbra; a Sociedade Numismática da Bélgica, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e de vários estados brasileiros; e das Sociedades de Geografia de Lisboa, do Rio de Janeiro e de Lima. Gustavo Barroso faleceu no Rio de Janeiro em 3 de dezembro de 1959. (Ver – http://www.alfredo-braga.pro.br/discussoes/gustavobarroso.html).
[9] Ver http://bvmsm.fgf.org.br/obra/livros/020501-00042-introducao.pdf

domingo, 25 de julho de 2010

Bravos Florestanos

Coronel Bráulio Ferraz 

Por: Leonardo Ferraz Gominho (*)


Os revoltosos

Manoel Quincas de Souza Ferraz residia na Mata dos Angicos, fazenda que construíra na ribeira do Mandantes e onde moraria até o ano de 1940, quando se mudaria para o Poço das Baraúnas. Esta última fazenda já era, então, embrionária. Ali, num certo dia de fevereiro de 1926, estava o proprietário, acompanhado do filho Bráulio, quando obteve notícias de que elementos da Coluna Prestes tinham invadido a fazenda de Totoinho Ferraz, no Poço Novo, a três quilômetros dali.

Os revoltosos, tudo indicava, marchavam na direção da Mata dos Angicos. Manoel necessitava permanecer no Poço das Baraúnas por algum tempo. Instruiu o filho: deveria ir à Mata dos Angicos avisar Mariinha.
                                                                                                 
  Manoel Quincas e sua esposa Maria Gomes Ferraz.

E recomendou: deveria ocultar o cavalo atrás da roça e, a pé, aproximar-se cautelosamente da casa. Se os revoltosos não se encontrassem ali, avisaria sua mãe para não abandonar a casa. Explicou que os componentes da Coluna não eram celerados; tratava-se de gente civilizada, conduzida por idealistas. Deveria, entretanto, soltar e espantar todos os animais da fazenda. Mandou que escondesse os arreios de montaria pois a Coluna necessitava de cavalos e material de sela para continuar sua marcha. Mandou o filho seguir rápido. Logo iria estar com eles.

Bráulio foi encontrar a fazenda sem qualquer anormalidade. Sua mãe terminava de banhar o pequeno Humberto (filho de Benício Ferraz) quando recebeu o recado. Ainda que a notícia tenha sido dada sem alvoroço, Mariinha, incontinente, envolveu o neto numa toalha de banho e bradou aflita:
 - Vamos embora, depressa! Os revoltosos vem aí!
De nada valeram as recomendações do chefe da família. Mariinha, ao lado das filhas, partiu imediatamente para o Poço das Baraúnas; Preta - que adotara assim que casou - ajudava no que podia. Bráulio e o primo Elpídio Ferraz - outro que passou a morar com Manoel Quincas ainda adolescente, com cerca de 14 anos de idade - trataram de retirar da casa o que tinha de mais vulnerável: selas e arreios, malas com roupas, tudo foi escondido às pressas.
Com receio de que as mulheres, naquele alvoroço, viessem a se atirar nas águas do Mandantes, represadas pelo açude, Elpídio pediu para que Bráulio alcançasse a mãe e prevenisse quanto à imprudência. Ele, sozinho, completaria o trabalho iniciado.

Depois de espantados os animais, Elpídio presenciou a chegada dos elementos da Coluna. Entraram na casa e reviraram tudo. Levaram uma sela e uma corda de laçar, que ali haviam ficado. Espalharam pelo chão a correspondência de Manoel Quincas, quase toda relacionada com os negócios de compra e venda de bois.

Também jogaram no chão alguns exemplares de jornais. Entre eles, e dentro de um velho calçado que estava sob a cama do casal, havia algum dinheiro, colocado previamente pelo dono da casa. Ainda que tenham tocado nos jornais, nada encontraram; e do calçado velho, não fizeram o mínimo caso.

Assim que pôde, Manoel Quincas dirigiu-se para a Mata dos Angicos. Aproximou-se cautelosamente. Em dado momento, divisou um vulto agachado, tomando posição, procurando se ocultar. Logo concluiu que deveria ser um revolucionário que ainda estava no local e, ao avistá-lo, pretenderia prendê-lo. Apressou-se a gritar:
- Quem está aí?
 O susto foi ainda maior para o interpelado. Era Elpídio. Os revoltosos já tinham partido.

  Cel Bráulio Ferraz

Aqueles dias eram de apreensão. Os revoltosos ameaçavam inclusive entrar em Floresta. O IPAC/PE, no seu Inventário do Patrimônio Cultural de Pernambuco, edição de 1987, abordando o Sertão do São Francisco, diz, à folha 113, que em “1926, um grupo da Coluna Prestes invadiu a igreja” do Rosário “para se abrigar por alguns dias”. Como outras coisas que diz, nada mais falso. Aqueles militares jamais entraram na cidade de Floresta, onde uma força civil organizada por Ildefonso Ferraz e sob a coordenação do Prefeito Manoel Serafim de Souza Ferraz (Duel) estava sempre a postos e pronta para a defesa. Se os revoltosos tivessem tentado entrar na cidade, poderiam arrazá-la. Felizmente não tentaram.

Cangaço - tempos difíceis

Naqueles anos, a falta de segurança era total. Além dos revoltosos, Lampião, atacando e roubando os fazendeiros, fazia com que os criadores e agricultores vivessem em constante sobressalto. Manoel Quincas chegou a receber bilhetes de Lampião, pedindo dinheiro.

As ações do cangaceiro não deixavam dúvidas sobre suas intenções e periculosidade. Ameaçava constantemente a família Ferraz. Os que tinham condições procuraram levar seus familiares para a cidade, onde a segurança e a possibilidade de defesa eram sempre maiores. Tomando conhecimento de que Virgulino estava nas redondezas, Manoel Quincas — sempre viajando, no seu comércio de gado — não fez diferente: retirou a família. Deixou ali apenas o sobrinho Elpídio e o filho Bráulio para darem água aos animais e realizarem tarefas indispensáveis. Em virtude do risco a que se expunham, os dois permaneceram ali armados e bem municiados. Duas mulheres já idosas, “sia” Firmina e “sia” Joana, faziam a comida dos jovens. A primeira era a mãe e a segunda a avó de Manoel Batinga, morador de Manoel Quincas no Poço das Baraúnas.

Num certo dia de agosto de 1928, Bráulio encontrava-se no chiqueiro, ordenhando as cabras, quando viu Miguel Yoyô (da fazenda Mandacaru, na margem esquerda do Mandantes) chegar montado num cavalo que estava coberto de suor. Viera avisar que Lampião fora visto nas Areias e se dirigia à região circunvizinha.

Pouco podia fazer. Elpídio tinha ido a Floresta. O gado, naquela seca, caindo de fraqueza, teria de ser controlado na descida para a fonte, percorrendo estreito corredor em rampa, cerca de 20 metros de extensão, que ia dar no bebedouro, a 40 palmos de profundidade. Armado de rifle e bem municiado, Bráulio permaneceu naquele corredor, emparedado pelas ribanceiras, mas exposto a todos os riscos.

Na tarde daquele dia, sentou-se na varanda da casa e passou a ler uma revista. De repente, erguendo os olhos, avistou um grupo armado que caminhava em sua direção. Levantou-se rápido, com o rifle na mão e o bornal de balas a tiracolo. Tomou posição na porta de entrada, abrigando-se tanto quanto possível das balas que, esperava, logo seriam deflagradas contra ele. O grupo era numeroso. Já se preparava para tentar uma fuga pelos fundos da casa quando, aliviado, reconheceu Manuel Neto à frente. Era a volante da Polícia, cujo uniforme se confundia com o dos cangaceiros.

Bráulio guardou o rifle e o bornal, saindo para receber a polícia. Manuel Neto, com o semblante trancado de sempre, cumprimentou o jovem e perguntou como se chamava a fazenda e quem era o proprietário. Informado, perguntou por notícias de Lampião.

Depois de satisfeito, disse que queria barrar a passagem do bandido, que pretendia passar para a Bahia. Adiantou que Lampião, perseguido insistentemente pelas volantes sob o comando geral do major Theóphanes perdera muitos dos seus elementos e o grupo se encontrava reduzido a cerca de 10 cangaceiros.

A seguir, pediu que lhe fosse indicado o caminho para a fazenda Poço Verde. Bráulio ofereceu-se para levá-lo até lá. O militar disse não ser necessário, mas o jovem insistiu e foi tomando o caminho, desarmado. Manuel Neto, então, determinou-lhe para ir buscar o rifle e o bornal, adiantando que notara, à chegada, que ele estava armado e municiado.

Nessa ocasião, Manuel Neto não conseguiu impedir a passagem de Lampião para a Bahia. A travessia se deu a 21 de agosto e o grupo se compunha de seis cangaceiros.

Capítulo de seu livro "Floresta uma Terra - um Povo", 1996, editora: Fiam. 

Imagens: Genealogia Pernambucana

domingo, 27 de junho de 2010

Lampião e seus cangaceiros ...

No sertão de Araci/BA 
Por: Fernando Tito

Germinia Pinho da Silva Góes, foto abaixo, Nascida em 23 de Junho de 1928. Mora em Araci-Bahia. Foi visitada na infância pelo bando de Lampião. Relato feito em Dezembro de 2007 à Fernando Tito.

Sabendo dos rumores que Lampião estava nas redondezas, meu pai José Tibúrcio da Silva, ao viajar para Queimadas mandou que minha mãe, Marcionília Pinho da Silva, fosse dormir na casa do cunhado (Martinho Pereira da Silva) que ficava perto, eu Germinia Pinho da Silva tinha apenas seis meses de idade.

José Tiburcio da Silva como proprietário da Fazenda Paraíba, transportava daqui peles de ovinos, bovinos e caprinos que levava para Queimadas pois lá havia um curtume que era do Coronel Vicente Ferreira da Silva, que era primo de José Tiburcio da Silva. Ao chegar lá ele deixava as peles para serem curtidas e as que já estavam curtidas ele pegava para trazer, completando a carga com sacas de café que vinham de Jacobina para Queimadas.

Meu pai era dono de uma tropa de oito burros, sendo seu tropeiro o Senhor Higino morador da Fazenda Roda, ao chegar aqui na Vila do Raso, como era conhecido na época, meu pai tinha que ir prestar contas ao Coronel Vicente Ferreira da Silva, pois era ele que dava os fretes para meu pai conduzir. Foi no período desta viagem que Lampião chegou em João Vieira arraial de Araci, no mês de Dezembro de 1928, procurou saber quem era fazendeiro e quem tinha tropas de burros, alguém que se dizia ser amigo de meu pai informou a Lampião sobre meu pai e Lampião mandou o cangaceiro Corisco ir até a Fazenda Paraíba guiado por esta pessoa, pois não sabiam onde era a Fazenda, ao chegar não encontrando ninguém colocaram fogo na casa.

Quando foram cinco horas da manhã, pois eu acordava muito cedo para comer, minha mãe chamou as meninas para ir tirar leite das cabras, pois eu só tomava leite de cabra, ela me levava nos braços, ao chegar na malhada ela avistou o fogo em cima da casa e logo viram os cangaceiros com os fuzis, os burros amarrados e etc.

Ela respeitando os cangaceiros não seguiu, pediu que uma das meninas que ela criava que voltasse na casa do meu tio Martinho para chama-lo para poder encorajá-la, pois ele ia enfrentar eles, ao chegar trazendo consigo nos braços o garoto José Brígido da Silva (Zeles) que tinha apenas dois anos e dois meses de idade, ele se reuniu com minha mãe que estava comigo nos braços, ao se aproximar da fazenda ela avista a fumaça em cima do telhado, pois eles já tinham arrombado a porta e entrado, pegado dinheiro, peças de tecido de seda, saquearam a casa e depois pegaram querosene, que na época meu pai comprava querosene em lata, destelharam a cumeeira da casa ensoparam com o querosene e puseram fogo.
Então minha mãe disse:
- Bom dia meus senhores! Com que autoridade vocês fizeram isso?
Eles responderam:
-A ordem que nós temos é quando chegarmos a uma fazenda e encontrar fechada colocar fogo na casa.
Ela respondendo disse:
- Fez muito errado.
Eles perguntaram:
- Cadê seu marido? Por que ele correu?
Ela disse:
- Ele não correu, está viajando, está em Queimadas.
Eles disseram:
- Nós soubemos em João Vieira que ele tem uma tropa de burros.
Ela respondeu:
- Ele está viajando com essa tropa de burros, pois ele é cargueiro.
Eles retrucaram dizendo:
- Por que a senhora correu?
Respondeu ela:
- Eu não corri apenas fui dormir na casa do meu cunhado, se eu estivesse corrido não estava aqui com um curral apartado com as cabras e o outro com o gado. Estou vindo agora porque a minha filha que carrego nos braços chorou para comer, então vir tirar leite das cabras para fazer mingau para dar a ela.
O cangaceiro disse:
- Pois, então rodei e apague o fogo, que lá nos potes tem água.
Ela falou:
- Tem mesmo, porque quem botou não foram vocês, fomos nós que botamos água nos potes.
Minha mãe entrou e apagaram o fogo.
Corisco disse:
-Viemos porque o meu chefe mandou e se encontrasse seu marido era para arrancar o caco da cabeça dele e levarmos como prova que ele estivesse morto.
Ela disse:
- Pois não vai arrancar porque ele não correu e nem está aqui, está viajando.
Então eles se despediram e voltaram para o arraial João Vieira.


A casa que o Bando de Lampião colocou fogo na Fazenda Paraíba

 Foto em família: José Tiburcio, Marcionília Pinho, Germinia Pinho e José Brígido (Zeles) .

Marcíonília e José Tiburcio




Açude: Extinto Site da cidade de Araci/ BA

Adendo Lampião Aceso em 1º de Agosto de 2018: De acordo com o Portal Vila do Raso, Dona Germinia faleceu no dia 14 de janeiro de 2018, aos 89 anos. 

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Em solo baiano

Lampião em Ribeira do Pombal

Por: Fernando Amorim*

Já se tinha notícias da presença do maior cangaceiro do século XX, Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, considerado o rei do cangaço - 1927/1940 - à Bahia no ano de 1928. A possibilidade de ter levado Lampião a cruzar o Rio São Francisco rumo aos Sertões da Bahia, seria, a que tudo indica, a falta de opção. Em todo o Nordeste só restavam Bahia, Sergipe e *Piauí, onde poderia hospedar-se com o resto dos seus cabras.

O ataque a grandes centros urbanos, acirrou os ânimos das policias de alguns estados nordestinos, visto que houve repercussão nacional dos episódios. Daí por diante, Lampião não teria trégua; o jeito era dispensar muitos de seus cabras. Para facilitar a fuga da furiosa perseguição policial, quanto menos gente, melhor.

Nessa altura, coligaram-se as policias de Pernambuco, Ceará, Paraíba, Alagoas e Rio Grande do Norte e durante vários meses investiram numa perseguição implacável a todo o bando. Não existia outra alternativa senão um dos três estados restantes do nordeste.

Para Piauí, Lampião jamais iria, primeiro porque lhe era terra desconhecida e segundo porque era o estado mais pobre, entre os pobres do nordeste. O bandoleiro sabia por experiência que na Bahia iria encontrar condições favoráveis.

Se o Capitão Virgulino não tivesse tentado ocupar Mossoró pela força, então o maior município do interior do Rio Grande do Norte, ou tivesse conseguido, provavelmente a Bahia jamais o tivesse hospedado em seu território.

Quando desembarcou aqui na Bahia, em 21 de agosto de1928, Lampião se quisesse, poderia ter tentado reconquistar a sua condição outrora de homem livre, trabalhador, honesto, produtivo. Não o fez. A índole de bandido calava mais forte.

Ao pisar em terras baianas, Virgulino Ferreira da Silva, já tinha 31 anos de idade, ostentava a patente de capitão, título de que muito se orgulhava e fazia alarde. Além de Mossoró (1927), assaltara, em lance de grande atrevimento, Água Branca (1922) em Alagoas, quando saqueou a baronesa Joana Viana de Siqueira Torres, despojando-a de jóias e moedas de ouro do Império, com as quais passou a enfeitar-se. Esse episódio, somado ao frustrado assalto a Mossoró, à patente de Oficial do Exército e às inúmeras batalhas em que se envolvera (Baixa Grande, junho de 1924; Serrote Preto, fevereiro de 1925; Serra Grande, novembro de 1926), bem como ao saldo de mortes que lhe vinha no rastro, davam-lhe prestigioso renome em todo o Brasil e até no exterior.

Um dos primeiros contatos de Lampião em terras baianas foi em Santo Antônio da Glória. Lampião partira da Serra Negra (em Floresta, Pernambuco, seu estado Natal), ladeou Riacho dos Mandantes de onde passou para as margens do Rio São Francisco. Em seguida avançou pelas propriedades Sabiuçá e Roque, cruzou o Velho Chico e ganhou as terras baianas. Aqui seu itinerário foi o seguinte: Serra Tona, Fazenda Salgado e o povoado Várzea da Ema, município de Glória.

Após várias andanças e as notícias ocultas, somente em dezembro é que Lampião ressurge no cenário baiano, exatamente no dia 15 de dezembro de 1928, na vila do Cumbe (atual cidade de Euclides da Cunha). De lá partiram rumo a Tucano, onde concede uma entrevista a um jornalista da terra e recebe a notícia que mandaram buscar reforço policial na cidade de Serrinha, o que apressou a saída do bando do município. Partiram de lá às onze horas da noite, aproximadamente, em destino a Pombal.

Desde aqueles sábado, 15 de setembro de 1928, que já se sabia que Lampião encontrava-se no município de Tucano, pois todos os viajantes, que lá procediam, noticiavam aos habitantes de Pombal da visita do então cangaceiro.

Lampião e mais sete cabras do seu bando chegaram à vila de Pombal por volta das seis horas da manhã, um domingo do dia 16 de dezembro de 1928.

O Sr. Paulo Cardoso de Oliveira Brito, mais conhecido como "Seu Cardoso", narrou, detalhadamente, como foi a visita de Lampião na Vila de Pombal:

"Eu era intendente, na época. Desde o sábado à noite se corria o boato na rua que Lampião estava na cidade de Tucano, mas de paz.
Eles chegaram de manhã, bem cedinho, eu estava deitado e o empregado estava varrendo o terreiro da casa
(o velho sobrado dos Britto), abordaram o empregado e mandaram me chamar. Com certeza eles já haviam se informado quem era o administrador da vila. O empregado subiu e me avisou, mas não soube dizer quem era; fui até a porta às presas e perguntei a ele o que queria. Ele se identificou por Coronel Virgulino.
Tomei um susto ao perceber que estava diante do mais temido bandido do sertão. Eram oito homens, sete ficaram encostados no carro e só o capitão tinha se aproximado. 


Disse que queria tomar café. Mandei logo providenciar. Perguntou quantos soldados havia na vila; respondi que apenas três; mandou avisá-los para não reagir, pois estaria ali apenas de passagem ".
O próprio empregado foi até o quartel levar a tranquilizadora notícia, transmitindo-a ao cabo Esmeraldo, comandante e chefe do destacamento.

Lampião e seus cabras de deliciaram com o café com cuscuz que lhe ofereceu o anfitrião. Mas tarde, o bando chegou até o quartel, desarmaram os militares, intimando-os a acompanhá-los até a cidade mais próxima para onde iam. Lampião disse em tom sarcástico: “... assim vou mais garantido porque estou com a força".

Antes de saírem, Lampião e seus cangaceiros foram conhecer a Vila Alegre com a boa hospitalidade a eles oferecida. Para deixar uma ótima impressão de sua visita à Vila de Pombal, perguntou se havia um fotógrafo; mandaram chamar Alcides Franco, alfaiate e maestro da Filarmônica XV de outubro, que possuía uma máquina fotográfica. Pediu que batesse uma chapa do bando para ali ficar de recordação (essa foto é uma das mais nobres no acervo sobre o cangaceiro, presente em quase todos os livros, sobre o bandoleiro).
Por volta de oito horas da manhã o bando saiu da vila, partindo espalhafatosamente com destino a Bom Conselho (atual cidade de Cícero Dantas).

A partir daí Lampião continua suas andanças por terras baianas. Em 22 de dezembro de 1929, vindo de Capela, interior do Estado de Sergipe, passando por Cansanção, interior da Bahia, o Capitão Virgulino chega a Queimadas, cidade próxima a Monte Santo. No cumprimento de mais uma de suas façanhas, Lampião, nessa cidade, realizou um dos maiores saques cometidos na Bahia, acompanhado de gravíssimos crimes e orgias de sangue.

Após sair de Queimadas, tem-se notícias do bando dos cangaceiros no arraial de Triunfo (atual cidade de Quijingue), onde festejaram e saquearam o pequeno comércio local.
Ao amanhecer do dia 25 de dezembro de 1929, portanto três dias após o acontecido na cidade de Queimadas, mais uma vez Lampião e seus cabras chegam às redondezas de Pombal.
Nesta mesma manhã, o Sr. Cardoso recebeu um bilhete, mandado por Lampião, pedindo uma quantia exorbitante de dinheiro. A quantia era tão grande que se reunisse todo dinheiro da Vila, não pagava.

O Sr. Cardoso temendo uma represália por parte do cangaceiro, se não enviasse pelo menos uma boa parte de dinheiro e uma desculpa bem, convincente, conseguiu o equivalente à metade do pedido, mandando pelo mesmo portador que trouxe o bilhete.

Não se registrou nenhuma agressão ou tentativa de saque na Vila de Pombal, certamente o Capitão Virgulino aceitou as desculpas do administrador local ou imaginou outra hipótese, como por exemplo, a essa altura, talvez já se encontrasse ali reforço policial e o bilhete que enviara dava testemunho de sua presença nas imediações. Dava tempo muito bem da força preparar uma emboscada caso ele tentasse invadir a vila. O certo é que Lampião dotado de muita astúcia e arquiteto das mais engenhosas proezas, sem dúvida tivesse pensado inúmeras desvantagens em tomar a Vila de Pombal para assalto.

Na mesma manhã do Natal de 1929, o bandoleiro chega ao distrito de Mirandela. Foi previamente informado que o destacamento era constituído de apenas cinco praças e um comandante; envia então uma intimação ao sargento, com os seguintes termos:

"Sargento arretire daí levando sua pessoa que preciso intra neste arraiá agora se você não sai ajusta conta com eu Capitão Virgulino vurgo Lampião".

Certamente o comandante do destacamento ignorava o recente acontecimento de Queimadas, onde Lampião enfrentou muito mais soldados do que os ali existentes. O sargento Francisco Guedes de Assis demonstrou disposição e evitou acatar ao utimato, contrariando ao desejo do cangaceiro, mandou-lhe resposta num outro escrito, com os seguintes dizeres:

"Bandido Lampião, estou aqui com a edificante missão de defender a população do Arraial contra a sua incursão e do seu bando. Se você entrar lhe receberemos a bala".

Pouca gente sabe desse episódio que aconteceu em Mirandela, porém, não só foi contado por moradores que vivenciaram o caso, como também foi encontrado um registro escrito por um dos cangaceiros, por nome de Ângelo Roque, confirmando o fato. O registro manualmente escrito dizia:

"Seguimo para Mirandela. 
Mandemo dizer ao sargento, qui tava distacado lá, que nóis, ia passa ali, sem arteração. 
Ele arrespondeu pelo portado qui nóis pudia passa pru fora da rua que ele num botam persiga atraiz. 
Mais si nóis intrasse dento da rua levava tiro. 
Isso foi num dia vinte i cinco di dezembro. 
Nóis arrezorveu ataca.
Um pade tava na igreja dizeno missa. 
Era um sargento Guedes. 
Disparemo as arma pra dento da rua qui istrondô i avanecemo pra frente".

O destacamento de seis militares, recebeu espontaneamente, a adesão de dois civis: Manoel Amaral do Nascimento e Jeremias de Souza Dantas.

Guedes divide sua pequena tropa em três grupos, colocando-os em três pontos diferentes e estratégicos. Eram dezessete bandidos contra seis militares e dois civis. Os bandidos invadem o arraial, atirando em todas as direções; Mirandela é heroicamente defendida.
A luta dura duas horas e meia, aproximadamente, apesar da desvantagem dos defensores. Em determinado momento, o fogo dos sitiados começa a decrescer. Os bandoleiros sentiram que estavam ganhando a batalha e acirraram o ataque.

Manoel Amaral do Nascimento foi ferido e, enquanto era conduzido pelo sargento para o interior de uma casa, é morto à queima-roupa por um bandido que se presume ter sido Alvoredo. Guedes ainda atira no cangaceiro, que pede socorro aos companheiros. Ao notar que os cangaceiros atendem ao apelo de socorro, Assis corre e se refugia no mato. Jeremias de Souza Dantas, popular Neco, o outro civil, também é assassinado.

Depois do acontecido, um cangaceiro por nome de Labareda, documenta o fato em uma folha de papel, reproduzindo o que se passou no local:

"Lampião entro pulo cento da rua, junto com Zé Baiano, Luiz Pedo e outros. Zé Baiano tinha sumido de nóis dois dia só i tomo partido das disgracera de Queimada. Us macaco de mirandela inda brigam muito mais porem terminaro debandano. I si escondero pru perto cum pirigo pra nóis di tiro imboscados. Morreu nessa brigada um camarada pru nomi Manoé de Mara. Matemo uns dento di casa i um macaco materno pruquê pidiu paiz cum lenço branco na boca du fuzi i ninguém intendeu ou num quis intendê. Tamem cangacero num tinha esse negoço di faze as paiz nu meio das brigada. Ele teve di morre pois teve brigano. Tumemo us dinhero pussive nu começo i nas casa”.


O saldo da guerra: morreram os dois civis, um dos militares, sendo que os outros, inclusive o sargento Guedes, fugiram, embrenhando-se no mato; também foi ferido um cangaceiro por nome de Luiz Pedro.

O bando sai de Mirandela, carregando o cangaceiro ferido, e vitoriosos, ganham o mato, como sempre, sem destino. Tem-se notícias do bando, mais tarde, de que estariam num esconderijo, perto de Pinhões, povoado de Euclides da Cunha, em um sítio é denominado Olho D'água.

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*Fernando Amorim é autor do livro "Memória histórica de Pombal". Capítulo concebido em entrevista ao então intendente da época, o Sr. Cardoso.


Açude: Ribeira do Pombal - Sua História


Nota: Os estudiosos poderão apontar alguns equívocos e comentar, eu me restringi em apenas acrescentar a falta do Estado do Maranhão dentre os inexplorados.  

Att. Kiko Monteiro

Bônus: O cenário da foto ontem e hoje



Na primeira fotografia se observarem bem ao fundo vemos a velha matriz de Santa Tereza, e ainda a Praça Getúlio Vargas sem o obelisco e as antigas construções que ali existiam.
 
Hoje a praça está muito modificada comparem. Eu fotografei a nova Praça Getúlio Vargas sem saber da existência dessa foto e confesso que fiquei impressionado, pois a posição e distancia das fotografias são as mesmas, observem... E lembrem-se que a diferença de tempo de uma foto para outra é de 80 anos. 

Texto e imagem atual de Ivanildo Régis postados em seu blog: Pombalenses

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Nota: Sobre a primeira imagem Ivanildo Silveira, faz a seguinte observação: Embora a identificação dos cangaceiros da foto acima, seja um tanto polêmica, consultando especialistas é quase unânime que a legenda que mais se aproxima da realidade, é a seguinte : Da esq. p/ direita: Lampião, Ezequiel, Virgínio, Luis Pedro, Mariano, Corisco, Mergulhão e Arvoredo .