sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Encerrando as atividades de 2011

Para compreender Lampião...

Por: José Lima Dias Júnior*


O caso da Grota do Angico em 1938, não pode ser desvalorizado ou ignorado. Nesse caso, as respostas para essa questão dependem de “pressupostos tácitos”. Embora seu conteúdo esteja sendo sempre aperfeiçoado. A História ou outras formas de conhecimento (Sociologia, Antropologia, Geografia, etc.) está claramente muito mais perto de novas descobertas do que as afirmações tendenciosas, exageradamente dogmáticas, que causam danos à ciência.

Quanto aos eventos históricos e o cuidado que o historiador (bem como, outros pesquisadores) deve ter, vejamos o que escreveu o filosofo romano Cícero (106 a.C. – 43 a.C.): A primeira lei é que o historiador jamais deve se atrever a registrar o que é falso; a segunda, que jamais deve se atrever a ocultar a verdade; a terceira, que não deve haver suspeitas de favoritismo ou preconceito na sua obra.

Mas, pelo que me é dado observar, permitir o suborno e a corrupção como meio de vida, já era na época do cangaço, um hábito comum. Lampião estava muito à frente do seu tempo. Opôs-se corajosamente à máquina estatal, quando fora perseguido pelas forças policiais de sete estados nordestinos. Porém, aliou-se aos “coronéis”, aos líderes políticos como forma de sobrevivência, daí seu lado estrategista. Como não era um revolucionário, tampouco foi motivado pelo desejo de perpetuar os interesses da classe social em que nasceu, bem como não fizera oposição à tirania.


Por Rogério Dias

No curso natural da história, vemos um conjunto de informações (artigos, teses, livros etc.) serem abatidas “pelas armas dos novos fatos”. Colocar a figura de Virgulino Ferreira da Silva associada ao “banditismo social” é algo grotescamente mal empregada, uma vez que não podemos explicar suas práticas criminosas invocando tal fenômeno, muito menos justificar seu lado sanguinário. Assim como, não deixa bem claro que possuía características muito menos cruéis.

Certamente podemos exercer algum arbítrio quanto aos diferentes tipos de práticas condenáveis e modus operandi do “rei do cangaço”, contudo não deve ser decisões tomadas de qualquer modo, isto é, presa as conjecturas e a subjetividade. Quanto a mim, não quero dizer às pessoas que elas devem pensar, nem impor meu pensamento. O que tento observar, é que não podemos nos submeter a uma visão limitada, ou seja, a um pensamento imaginário e fantasioso. Precisamos, sim, de uma explicação baseada no conhecimento, mas que na vontade. Mesmo, sabendo que não existe uma verdade absoluta.

Para quem conhece um pouco da história do cangaço (neste caso sou um principiante), não podemos começar a apoiar teorias e opiniões que são obviamente absurdas, quanto as que procuram explicar o cangaço, enquanto fenômeno social.


Por Rosina Becker Do Valle

Como nordestino Lampião se pautou na superstição, nas crendices, no misticismo. As hierarquias sociais, a ausência do Estado, a questão da honra entre outras parecem adequadas para explicar o ingresso de Lampião à vida errante. Ainda sim, parece muito justo quando encontramos alguns pesquisadores apontarem que Lampião era um indivíduo sem compaixão, impiedoso, “cangaceiro infame, matador do mal, lei do sertão”, etc. Foram as circunstâncias que levaram Virgulino a enveredar pelo caminho do crime. Dessa forma, Lampião se favoreceu de alguns aspectos (corrupção, relação amistosa entre coiteiros e policiais, etc.) a adaptação na luta pela existência.

De herói a vilão, Lampião está presente no imaginário popular. A hipótese do envenenamento, no fatídico 28 de julho de 1938, não aceita por alguns estudiosos do cangaço, não mostra que a evidência seja escassa e até nula.

Com raízes no século XIX, o estudo do cangaço não deve ser visto ou atacado como“meras opiniões subjetivas” ou algo que não pode ser questionadas. O perigo da subjetividade e do preconceito tem sido perceptível desde o começo da história, observa Carl Sagan (O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 292). Não quero, aqui, abraçar o solipsismo, que a única realidade é os meus próprios pensamentos.


Por Eduardo Lima

O fenômeno do cangaço não deve ser visto como algo demasiadamente simples, ingênuo, mas, algo que parece ser bastante complexo. As engrenagens deste fenômeno se entrecruzam, onde as partes componentes se complementam. Contudo, talvez seja necessário algum fato histórico não descoberto para compreender o universo lampiônico.

Não que todas as tentativas para explicar o evento da Grota do Angico têm falhado. Entretanto, é tão complexo e estranho que ainda não podemos compreendê-los.


O Fantasma de Lampião - Por Alexandre Fiuza

Se conhecermos a maior aproximação possível da verdade e não conservarmos os interesses de grupos, teremos condições de não repetir os erros cometidos no passado. O evento que culminou com a morte do maior ícone do cangaço são, assim como outras questões sujeitas à refutação, que precisam de uma ampla revisão.

É essencial para muitas outras ciências, a veracidade dos fatos. Não se pode fazer ou produzir conhecimento pautado no “achismo”. A História é um campo de possibilidades. Entretanto, a pseudociência não nos ajuda em nada. Diante do exposto, vejamos a observação de Carl Sagan (2006, p.305) acerca da ciência:


Por Ana Miranda

A ciência é diferente de muitos outros empreendimentos humanos — evidentemente não pelo fato de seus profissionais sofrerem influência da cultura em que se criaram, nem pelo fato de ora estarem certos, ora errados ( o que é comum a toda atividade humana), mas pela sua paixão de formular hipóteses testáveis, pela sua busca de experimentos definitivos que confirmem ou neguem as ideias, pelo vigor de seu debate substantivo e pela sua disposição a abandonar as ideias que foram consideradas deficientes. Porém, se não tivéssemos consciência de nossas limitações, se não procurássemos outros dados, se nos recusássemos a executar experimentos controlados, se não respeitássemos a evidência, teríamos muito pouca força em nossa busca da verdade. Por oportunismo e timidez, poderíamos ser então fustigados por qualquer brisa ideológica, sem nenhum elemento de valor duradouro a que nos agarrar.


Por Totonho Laprovitera

Prezado Kiko,
Tomei a liberdade de enviar esse texto como forma de reconhecimento do belíssimo trabalho executado pelo "Lampião acesso", o que torna possível acreditar na pesquisa e na ciência como forma de compreender o que está na nossa volta.
 Atenciosamente,
 José Lima Dias Júnior
 Mossoró, 28 de dezembro de 2011.

*Graduado em História pela UERN. Leciona na Rede municipal de ensino na "Cidade de Quatro Torres".

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Flagrantes

As ultimas novidades do ano são de Antonio Amaury

Com certo atraso registramos o evento ocorrido no ultimo dia 13 de Dezembro na Assembleia Legislativa da Bahia. 

Foram lançados: "Maria Bonita" - Coleção Gente da Bahia - e uma nova e ampliada edição de "Gente de Lampião: Dadá e Corisco". Os livros por se tratarem de edições especiais produzidos pela gráfica da Assembleia foram distribuídos "gratuitamente" ente os presentes. É óbvio que se esgotaram em fração de minutos.

As fotos são do pesquisador e escritor Luiz Ruben.

O autor autografa seus novos rebentos.


No centro Cap. Marins e a direita Eduardo Dorea

"Tres filhos de Amaury". O maior é o Carlos Elydio

"Vaqueiro" e cineasta Miguel Teles

À direita o jornalista e cordelista Franklin Machado

Délio Pinheiro (Assessor de cultura da Assembleia)

Angela Maria

Luiz Ruben

Professor Manoel Neto

Dr. José Lomba - atual Cônsul de Portugal em Salvador.

Aldo Carvalho (Secretário do Meio Ambiente)

Evento foi destaque em vários jornais
 

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Imprensa e Cangaço

Entrevista com confradre Geraldo
  
Caríssimos,
Saudações fraternais!


Divido com vocês este presente que ganhei, no final do corrente ano, que vem a ser a entrevista realizada pelo escritor Antônio Filho Neto, bravo sertanejo de Serra Talhada, terra do meu inesquecível pai, sobre tema tão importante para a Cultural Nordestina. Para o Jornal Correio do Pajeú.

Recebam meu abraço e o meu carinho.

Atenciosamente,
Geraldo Ferraz

O Major Theophanes Ferraz Torres foi um bravo militar que prestou grande serviço a Pernambuco. Esteve à frente de importantes missões no sentido de impor a ordem pública em nosso Estado. Você pode citar de forma sucinta algumas dessas missões e quais delas pontuaram de forma significativa a trajetória militar do Major Theophanes Ferraz? 

Para início de conversa, peço vênia para destacar que o bravo sertanejo, Theophanes Ferraz Torres, natural da cidade de Floresta-PE, alistou-se na Brigada Militar de Pernambuco, em janeiro de 1912, com 17 anos. No primeiro ano de incorporado, graças a sua vocação e denodo pessoal, foi notado e prestigiado pelos seus superiores, passando de soldado para anspeçada (antigo posto militar que corresponde ao atual 2º tenente), galgando, com isto, sete postos militares.
No tocante as missões mais espinhosas que foram atribuídas para Theophanes, gostaria de destacar, em resumo, as mais importantes ações:

Ano de 1913 - Em agosto, com 18 anos, foi nomeado delegado de Villa Bella, atual Serra Talhada. Seguiu para aquela cidade com o objetivo primordial de impor a ordem pública e dar combate aos grupos de cangaceiros que agiam naquela região, tendo como foco principal da missão a ação contra o grupo liderado por Né Pereira. Theophanes, naquela oportunidade, teve seu batismo de fogo contra os bandoleiros que infestavam os nossos sertões.
 Ano de 1914 - Em julho, por conta das ações dos bandoleiros, foi nomeado, mais uma vez, delegado de Villa Bella. No mês de setembro, em cumprimento ao Acordo de Fronteiras contra o banditismo, firmado entre os Estados de Pernambuco e da Paraíba, no dia 25 de novembro de 1911, foi nomeado delegado de Taquaritinga. No dia 28 de novembro, prende, após tiroteio verificado na Lagoa da Laje – Vertentes, o cangaceiro Antônio Silvino, pondo fim a um reinado de mais de 15 anos de terror.
 Ano de 1917 – Com o assassinato do Deputado Estadual Júlio Brasileiro, no Recife, em 14 de janeiro, Theophanes foi enviado para assumir a delegacia de Garanhuns. Durante a tragédia que se abateu naquela cidade, fato este que passou para a história como a Hecatombe de Garanhuns, conseguiu impor a ordem pública e pelo seu ato, foi promovido ao posto de capitão, contando, apenas, com 22 anos. Em 12 de junho, pelo recrudescimento dos ataques dos cangaceiros liderados por Sinhô Pereira e Luiz Padre, foi nomeado delegado de Villa Bella e comandante das 2ª e 3ª Regiões Policiais do Estado. 
 Ano de 1918 – Em 25 de agosto, seguiu para o Sertão, comandando força volante e ficou encarregado de fiscalizar as 7ª, 8ª, 9ª e 10ª Regiões Policiais do Estado. Em setembro, combateu cangaceiros que ocupavam a Fazenda 28, no município de Villa Bella.
 Ano de 1919 – A população sertaneja estava atravessando uma seca inclemente, seca esta que muito contribuiria para o aumento do banditismo nos sertões. Grupos de cangaceiros liderados por Sinhô Pereira, Luiz Padre, Praxedes, entre outros, atacavam, sem dó, as propriedades do município de Villa Bella. Em 16 de abril, Theophanes seguiu para aquela cidade, comandando uma força de 60 soldados com a finalidade de combater os cangaceiros e impor a ordem pública. Theophanes ficaria no Sertão até dezembro daquele ano. Ao recolher-se, sem tempo para qualquer descanso, foi destacado para a cidade de Palmares a fim de evitar uma possível nova hecatombe em nosso Estado.
 Ano de 1920 – Em 02 de novembro, seguiu para o interior do Estado, com ponto de apoio em Floresta, com a missão de desbaratar grupo de bandoleiros que agia na Serra do Umã, Vila Conceição e no município de Salgueiro. No combate da Serra do Umã, primeira vez que uma força militar adentrava naquela elevação, Theophanes foi ferido e só não foi morto graças à bravura dos seus leais soldados.
Ano de 1922 – Em 17 de março seguiu em diligência para Villa Bella e Floresta, com o objetivo de combater o banditismo então reinante. Em 18 de agosto, com 27 anos, é promovido ao posto de major.
Ano de 1923 – Em 16 de abril é nomeado delegado de Correntes. Com a morte do Prefeito, Cel. Joaquim Leão, temia-se que sucedesse uma nova hecatombe em Pernambuco. Theophanes daria voz de prisão ao assassino do inditoso coronel. Como consequência ao novo acordo de fronteiras, assinado em 15 de novembro de 1922, pelos Estados de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande Norte, Theophanes foi nomeado delegado de Jatobá de Tacaratú e comandante do destacamento local. 
 Ano de 1924 – Em 01 de janeiro, Theophanes seguiu em diligência para Boa Vista, fronteira com a Bahia, para defender a região contra ações do cangaceiro Dom Villa Bella (Dativo), esta ação durou até o início de março de 1924. Com a intensificação das ações de Lampião, Theophanes é nomeado, em 07 de março, Comandante Geral das Forças Volantes nas Zonas Sertanejas. Os bandos mais atuantes, que agiam no Sertão de PE, naquela época, eram os de Virgulino Ferreira da Silva, vulgo “Lampião”, Meia-Noite, Antônio Rosa, Cícero Costa, Sabino Gomes, Beneditos, Cypaubas e Gabriel Alicrim. Em 23 de março, formando uma super Volante, Theophanes promove duro combate contra Lampião, na Lagoa Vieira, município de Vila Bela. Lampião foi ferido e sua vida esteve por um fio. Em 02 de abril, Theophanes combate Lampião, mais uma vez, na Serra da Panela. Depois de cerrado tiroteio foram mortos os cangaceiros Lavadeira e Cícero Costa e ferido Antônio Ferreira. O resto do bando correu em completa debandada. No mês de junho, Theophanes foi nomeado para promover sindicância na cidade de Salgueiro e efetuar diligências pessoais no município de São José do Belmonte, com o objetivo de combater as ações do grupo dos Cypaubas. Em 31 de julho, Theopanes combateu Sabino Gomes na Fazenda Aboboras, município de Villa Bella, proximidades com a Paraíba. Em 22 de novembro, o governo de Pernambuco, necessitando de oficial tarimbado para esquadrinhar as ações e os avanços da Coluna Prestes, que já se encontrava em território próximo aos limites com nosso Estado, nomeou Theophanes como delegado de Petrolina. 
 Ano de 1926 – Em 14 de janeiro, sob o comando de João Nunes, Theophanes, incorporado as forças de Pernambuco, atacaram e repeliram os rebeldes da Coluna Prestes, na cidade de Valença, Piauí. Em 20 de setembro, Theophanes é indicado comandante das tropas contra o banditismo reinante no alto Sertão de Pernambuco, tendo a cidade de Salgueiro como sede provisória do comando. Na medida em que ia promovendo uma limpeza geral contra os fora-da-lei, seguiu para a cidade de Floresta, que, agora, se torna sede provisória do comando, em 01 de outubro. Em 09 de novembro, Theophanes é convocado para comparecer no Recife, a fim de acertar medidas enérgicas contra as ações dos bandoleiros. Em 11 de novembro, Theophanes assume, pela segunda vez, o comando das forças volantes contra o banditismo.
 Ano de 1928 – No mês de janeiro, Theophanes e Eurico de Souza Leão, Chefe de Polícia de Pernambuco, realizaram um raid vitorioso por terras sertanejas, para demonstrar o sucesso do seu vitorioso trabalho. No mês de abril, circulavam boatos no Recife que iriam acontecer graves problemas, fato este que colocou as Forças do Exército e da Polícia de Pernambuco em prontidão máxima. Tal acontecimento, apressou o recolhimento de Theophanes à capital. Em 30 de maio, Theophanes, com 33 anos, é promovido ao posto Tenente-Coronel e comandante do 1º Batalhão da Força Pública.
 Ano de 1930 – Em 02 de julho, Theophanes e o major Nelson Leobaldo, apuraram denúncia de infiltração comunista na Força Pública e prenderam vários sargentos. Em 03 de outubro, rebenta a Revolução em vários pontos do País. Theophanes, com sua peculiar bravura, enfrenta os revoltosos. O Cel. Wolmer, não querendo passar o comando para Theophanes, entrega o Quartel do Derby aos Revoltosos. Inconformado, Theophanes forma coluna independente e ruma para o Sertão do Estado. Em 13 de outubro, sob falsas garantias da facção vencedora, Theophanes regressa à Capital, sendo preso e submetido a humilhações.
 Ano de 1933 – Falece, na cidade de Villa Bella, em 11 de setembro, o bravo militar que, com seu árduo trabalho, possibilitou a paz social nos sertões de nosso Estado.

Theophanes Ferraz Torres

O que é ser neto do Major Theophanes – um cidadão de reputação ilibada, um militar corajoso cumpridor de seu dever – um exemplo de homem público? 
Em primeiro lugar gostaria de destacar, com muito orgulho, que é uma imensa honra ser neto desta figura exemplar e lendária da luta titânica contra o cangaço, nas três primeiras décadas do século passado. Em seguida, gostaria de acrescentar, que, para mim e para alguns estudiosos da temática do Ciclo do Cangaço, tendo em vista que a coragem demonstrada por Theophanes é um atributo nato dos heróis, eis ai, portanto, um verdadeiro herói para se cultuar.


Os seus livros “Theophanes Ferraz Torres um Herói Militar na Cavalaria Pernambucana” e “Pernambuco no Tempo do Cangaço” foram elaborados dentro dos critérios técnicos da pesquisa científica – tudo fundamentado em fatos concretos registrados em arquivos públicos da época o que torna sua obra muito mais valiosa. Quantos anos foram necessários na realização dessa pesquisa e que o motivou a encarar esse desafio? Você tem algum projeto em andamento para outra obra do gênero? 
Levei cerca de quinze anos de intensa pesquisa para concluir “Pernambuco no Tempo do Cangaço”. Um Herói na Cavalaria, por sua vez, me tomou cerca de dois anos. Os trabalhos citados versaram sobre o resgate da memória de nossa história contemporânea, a qual trata dos fatos notáveis ocorridos no Brasil e, em particular, no Estado de Pernambuco, durante a época do banditismo que campeava no início do século XX, com ênfase toda especial ao trabalho desenvolvido pelas nossas instituições de defesa social – Militar e Civil -, em prol de uma sociedade melhor e mais justa. Os trabalhos, em questão, tratam, também, da biografia de Theophanes Ferraz Torres, um grande homem, notável militar e um exemplo para a sua época, bem como, para as gerações presentes e futuras. Atendendo sugestão do mestre Frederico Pernambucano, que assim se expressou: “Convém que Geraldo, cumprido o dever que se assinou no tocante à vida do avô, ponha seu instrumental investigativo a serviço do levantamento do triênio de ouro da ação policial em Pernambuco,...”, estou tentando, junto aos familiares do então Chefe de Polícia, Eurico de Souza Leão e do militar João Leite Serrano de Andrade, dar prosseguimento as minhas pesquisas, já iniciadas, concretizando, assim, mais duas importantes biografias de época. 


O Major Theophanes foi comandante geral das “Volantes” no combate aos cangaceiros no Sertão de Pernambuco. Você pode informar quantas volantes ficavam sobre o seu comando e se todos os membros das volantes eram militares ou voluntários? Em números, qual o efetivo militar, da época, que cobria todo Sertão de Pernambuco? 
O efetivo médio de uma força volante era formado por cerca de vinte praças, que, na maioria das vezes, agregava: paisanos armados, chamados por “cachimbos”; guia; rastejador e pessoas que indicavam os coiteiros, essas, conhecidas por “ponteiros”. Não consegui, infelizmente, localizar registros detalhados sobre tais estatísticas. Posso destacar, contudo, que quando Theophanes foi nomeado Comandante Geral das Forças Volantes, no ano de 1924, estiveram agindo em nossos sertões: uma super-volante, comandada pelo próprio Theophanes, e, sob suas orientações, as lideradas pelos tenentes: Amadeu, Malta, Alencar e Ibrahim; Sargentos Alípio Pereira de Souza, Hygino José Belarmino e a de Clementino Quelé. Nos anos de 1926/1928, quando de sua ação como Chefe Militar Geral, pela segunda vez, teve os seguintes comandantes de volantes: capitão João Luiz de Carvalho; os 1º e 2º tenentes: Euclides de Souza Ferraz (Euclides Flor), Sidrack de Oliveira Correia, Damião João Leite Serrano de Andrade, Euclydes de Araujo Lemos, Francisco Flavio Ibrahim de Lyra, Eduardo José de Siqueira, Alfredo Cavalcante de Miranda, Amadeu de Araujo Guimarães, Arthur Guedes Alcoforado, Optato Gueiros, Augusto de Lyra Guedes, Aurelio de Araujo, Hygino José Bellarmino, Antonio Francisco dos Santos, Solon de Oliveira Jardim e Alipio Pereira de Sousa; sargentos Arlindo Rocha, Carlos Affonso de Mello, Petronillo, João Alves e Maurício Vieira de Barros; cabos Manoel de Souza Neto (Mané Fumaça) e Francisco Liberato; e os anspeçadas Manoel Gomes de Sá, Hercílio Nogueira e Aureliano de Souza Nogueira, vulgo Lero.


Lampião passou 20 anos de sua vida pintando, bordando, casando e batizando como se não existisse lei no sertão nordestino. A que você atribui todo esse poder de Lampião por tanto tempo? Quem era beneficiado pelas ações do Rei do Cangaço? 
Nem no Império e nem, tão pouco, no início da Nova República, houve, por parte dos governantes, preocupação de se estabelecer uma política séria, para com os nossos sofridos sertões, principalmente no que toca ao capítulo da segurança pública e da sobrevivência daquela gente honesta e laboriosa. Tudo era dificultado (estradas, ensino, alimentação, saúde, entre outros). Realmente, a ausência dos braços da Lei era sentida nos nossos Sertões. Os maiores beneficiados, sem a menor sombra de dúvida, foram alguns chefes políticos que se locupletaram com as ações de Lampião. Só com a intensificação do emprego das denominadas "Forças Volantes", que, na sua grande maioria, prestaram relevantes serviços à sociedade, sem possibilitar qualquer trégua ao banditismo, é que o comandante Theophanes, através de um saneamento moral, conseguiu promover a tão sonhada paz social no Sertão pernambucano. 


Sendo um historiador que trabalha sempre com dados verdadeiros, onde mata a cobra e mostra o pau, responda-me quem fornecia armas para os cangaceiros do Sertão, especialmente, para o grupo de Lampião? Por que essas armas chegavam, facilmente, nas mãos dos cangaceiros?
Somos sabedores que Lampião era abastecido, principalmente, por poderosos chefes políticos do Cariri Cearense. Em Pernambuco, em minhas pesquisas, não foi possível estabelecer quais os verdadeiros fornecedores de armas e munições, muito embora, destaco que Theophanes promoveu sérias denúncias sobre tal fato, porém, os nomes não foram declinados nos telegramas e correspondências entre aquela autoridade, o Chefe de Polícia e o Comandante da Força Pública. Acredito que, por se tratar de assunto de extremo sigilo, este não poderia, infelizmente, ser devidamente registrado na papelada oficial.


A que você credita o fracasso das volantes nas ações contra o grupo de Lampião? As volantes eram despreparadas ou Lampião era muito esperto? Quase sempre Lampião lograva êxito – como ele dizia “Armo a arapuca, boto bananas e chamo os macacos pra comerem e eles vêem ligeirinho”. 
Nem todas as volantes eram devidamente preparadas, principalmente aquelas formadas por incorporados (cachimbos), que, na maioria das vezes, não tinha a disciplina da caserna. A prepotência de alguns comandantes e a pressa de outros, também, foram fatores negativos quando do combate. Lampião era um grande estrategista, para mim um autêntico gênio militar. Desconfiasse, a propósito, que algum desertor do Exército ou mesmo da Força Pública o orientava, fato este que não correspondia à verdade. Lampião deixou, muitas vezes, muitos soldados “se estragando uns contra os outros”, como gostava de dizer.


O Major Theophanes – um sertanejo que honrou o sertão, por isso entende que merece ser homenageado. Você sabe dizer se existe alguma cidade do sertão de Pernambuco que o tenha homenageado? 
Com exceção da sua cidade natal, Floresta, que lhe deu nome à uma rua e a uma praça, além da cidade de Petrolina, que o destacou no museu da cidade, desconheço a existência de outro local que tenha se preocupado com tal fato. Por incrível que pareça, Theophanes, que deu seu sangue, seu suor e o melhor da sua vida profissional na luta contra o banditismo urbano, principalmente na cidade do Recife, para nossa surpresa, não existe, sequer, um prédio, uma rua, nada que o homenageie. A Polícia Militar de Pernambuco, também, encontra-se em débito para com esta figura lendária. Até hoje, não se tem um Quartel, um Batalhão, ou qualquer outro local, até mesmo na Arma de Cavalaria (lembremo-nos que foi ele quem modernizou a Cavalaria de Pernambuco, no tempo do governador Manoel Borba), que lhe preste tal tributo. Para finalizar, lembro, aos desavisados, que Theophanes é o precursor do que, hoje, é a Companhia Independente de Operações e Sobrevivência em Área de Caatinga (Ciosac), basta verificar sua história no ano de 1924. 

Emblema da CIOSAC. Fonte: GTU Assú

Para tal questão, caro entrevistador, faço das minhas palavras as do pesquisador Alfredo Bonessi; “Penso que o Cel. Theophanes merece algo mais que lembranças. Ele merece nome de bairros, nomes de quartéis militares, estátuas em praças, dia em calendário, museu, uma linda capela, um lugar em que possamos nos ajoelhar perante a sua estátua, chorarmos um pouco, olharmos para ele, agradecermos pelo seu trabalho, pelo seu exemplo, pela sua honestidade e ficarmos felizes em saber que ele está presente em espírito ao nosso lado e que mais hoje, mais amanhã, estaremos todos juntos em outras histórias, nos preparando para escrevermos mais histórias”.


Você acredita na versão de que Lampião foi morto em Angico em 1938? Justifique a sua resposta de modo que comprove ou não essa versão?
Embora minhas pesquisas se estendam até a expulsão de Lampião e seu reduzido grupo para o Estado da Bahia, em agosto de 1928, posso afirmar, pelo que já li e pude apurar sobre a matéria, inclusive através de conversas com nazarenos, como foi o caso de Luiz Flor e Herculano Nogueira, além de outros sertanejos, que, mesmo com o desgosto dos nazarenos de não puderem ter dado cabo do seu tão odiado inimigo, em luta travada em campo raso, eu acredito, piamente, na morte daquele bandoleiro na grota do Angico.


Entre os historiadores do Cangaço há divergências do local e data onde os pais de Lampião morrem e em que circunstâncias. O que sabe você a respeito desse assunto?
Através das minhas pesquisas pude verificar que no dia 22 de maio de 1921, José Ferreira, para evitar mais confusões, decidiu retirar-se da cidade de Matinha para Mata Grande, também localizada no Estado de Alagoas. No caminho, na localidade conhecida como Engenho, pediram rancho ao Sr. Fragoso, no que foram atendidos. Naquele mesmo dia, a matriarca da família Ferreira, Dona Maria Lopes, falecia de um infarto fulminante. O Tenente José Lucena, da Força Pública de Alagoas, acompanhado pelo Delegado Amarílio, em diligência contra as ações dos cangaceiros, chegou ao local Engenho, no dia 09 de junho, logo no início daquela manhã, tendo se verificado, em seguida, um tiroteio que culminou com a morte do desafortunado pai dos Ferreiras, que, infelizmente, se encontrava em local e em hora errada. 


Na sua visão de historiador e estudioso do cangaço, Lampião foi bandido, herói ou justiceiro? 
Diferente de outros bandoleiros que se utilizaram do “Escudo Ético”, tão bem informado pelo pesquisador Frederico Pernambucano de Melo, como foi o caso de Antônio Silvino, muito embora, estes, assim que consumavam sua vingança, não abandonavam aquele fantástico modus operandi e faciendi, para mim, Lampião, à luz do Código Penal vigente à época e, no da atualidade, foi um legítimo quadrilheiro, com um diferencial que o destacava dos demais bandoleiros, era sua genialidade. Do mal, posso afirmar, mas o cidadão era um gênio. Quero reforçar, contudo, que classifico este líder carismático, que se utilizava do seu poder de atração e magnetismo pessoal, como um ícone do mau comportamento. Através de suas terríveis ações psicológicas, extorsões, assassinatos, sequestros, uso de violência gratuita, implantou o reino do terror, provocando o pavor das populações ameaçadas, bem como, daqueles que o combatiam, o que facilitava, é claro, sua atuação. 


Há quem diga que Lampião entrou no Cangaço para vingar a morte de seu pai. Você acredita nessa versão? Dê sua opinião.  
Claro que ele não entrou, pura e simplesmente, para vingar a morte do seu pai. Assim vejamos: Lampião, Antônio e Livino Ferreira, já se envolviam em lutas desde o ano de 1917. Em 1920, o trio junta-se ao seu tio Antônio Matilde (irmão de José Ferreira), para agirem nos arredores de Matinha, Mata Grande e Água Branca, no Estado de Alagoas. Destaco, para melhor compreensão, que a morte do Sr. José Ferreira, pai dos Ferreiras, só veio a ocorrer no ano de 1921, mais precisamente, no dia 09 de junho. Acredito que, a partir daquela data, o coração já enegrecido de Lampião tornou-se, definitivamente negro, tornando-o uma pessoa cheia de mágoa e extremo ódio. 


Zé Saturnino foi o 1º amigo também o 1º inimigo de Lampião. Alguns historiadores o apontam como responsável pela entrada de Lampião no Cangaço. Qual sua opinião nesse contexto?  
Neste caso, tenho a informar que as desavenças entre ambos ajudaram, muito, para que o Lampião tomasse rumo na vida do cangaço. Só não tenho elementos concretos para opinar que tal fato tenha sido o start, bizarro, daquele que se tornaria o famoso condottiere que foi.


Existem, atualmente, algumas entidades de estudos e pesquisas sobre o Cangaço. Quais as razões que justificam o interesse por esse assunto e quais os aspectos positivos desse trabalho? 
O fenômeno do Ciclo do Cangaço se configura, sem a menor sombra de dúvidas, como um dos mais intrigantes e intranqüilos da história do povo nordestino. O objetivo de resgatar a historiografia do cangaço na região nordeste, uma história tão nossa, é a temática exclusiva dos estudiosos do Cariri Cangaço (que se reúnem na região do Cariri Cearense), da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (com sede em Mossoró/RN), Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará – GECC, entre outras entidades que não me recordo, neste momento. 


O tema Lampião é uma fonte perene para pesquisadores e historiadores. Muitas obras já foram escritas nessa temática e todos os dias novas obras são publicadas. O que você atribui a esse fenômeno?
A riqueza da saga histórica do nosso povo. O Ciclo do Cangaço, como gosto de avocar, é uma poderosa mina de ouro, sempre aberta às pesquisas, daí estarmos, sempre, tomando conhecimento de fatos novos e relevantes da nossa rica história, em busca do cobiçado filão dourado. Veja o exemplo do fantástico projeto Cariri Cangaço, do qual tenho a honra de ser Conselheiro. A cada edição que participamos, descortinam-se fatos novos e somos surpreendidos por uma avalanche de informações. Precisamos, com a máxima brevidade, atravessarmos o além-mar e destacarmos ao mundo, também, nossa tão rica cultura histórica. 


Há mais de dez versões sobre a origem do nome “Lampião”. Qual delas você acredita ser a verdadeira?
Sem poder confirmar qual versão é a verdadeira, prefiro aquela que informa ter Virgulino Ferreira da Silva, quando no grupo de Sinhô Pereira, usado um lenço no rifle, que servia de correia, transformando-o numa arma de alta repetição, e, conseqüentemente, emitia um grande clarão, que segundo os companheiros, se parecia um "LAMPIÃO".

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Atenção cantadores e compositores

Vem aí...
  
II FESTIVAL DE MÚSICAS DO CANGAÇO -



Está previsto para o período de 10 de janeiro a 10 de fevereiro as inscrições para os interessados em participarem do 2º Festival de Músicas do Cangaço, indicado pra acontecer no dia 28 de abril de 2012, em Serra Talhada, a Terra de Lampião e Capital do Xaxado.

Em breve o as fichas de inscrições e regulamento vão estar disponíveis no blog - www.pontodeculturacabrasdelampiao.blogspot.com- e no Museu do Cangaço. Serão distribuídos 
R$15.000.00 (quinze mil reais) em prêmios.

O 2º Festival de Músicas do Cangaço é de um evento competitivo, que tem como objetivo incentivar a boa música, aprimorar e desenvolver a cultura musical, revelar talentos, valorizar artistas, compositores e intérpretes;

O evento será de âmbito nacional, onde o cenário é propiciado pela diversificação cultural, voltado para Música Popular Brasileira, de composições inéditas, com temática Cangaço, visando envolver todos os gêneros e estilos, objetivando fomentar o segmento musical em vários formatos, além de formar platéia e criar massa crítica. Prepare sua música e arrume o matulão pra vir participar conosco dessa festa.

Att. Anildomá Willans de Souza

MUSEU DO CANGAÇO
Ponto de Cultura Cabras de Lampião
Vila Ferroviária, S/Nº - Centro
CEP: 56.903-170
Serra Talhada - Pernambuco
Tel: (87) 3831 3860 / 9938 6035
E-mail: cabrasdelampiao@gmail.com
www.pontodeculturacabrasdelampiao.blogspot.com

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*A sugestão da matéria foi do sempre atencioso cumpadi Wilson Seraine. Que a propósito merecia um cargo de acessor de comunicação do Ponto de Cultura. Wilson apesar de ser Piauiense da capital é quem nos repassa as novidades de Serra Talhada.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

E Natal né isso mermo?

O aniversário de Jesus!

Essa é a história. Com a graça e originalidade do Cordel. Colorido pelo sotaque de Coroné Severo, Coroné Osmiro, Aderbal, Dr. Pedro Luiz, Juliana, e dos demais irmãos cearenses. Esta reflexão animada produzida pela Igreja Batista Central de Fortaleza é o nosso FELIZ NATAL! Dedicado pra vocês meus estimados colaboradores e irmãos cangaceirólogos. Enfim, para todos os nossos rastejadores e visitantes, sejam cristãos ou não.


Abraço Fraterno!
Kiko Monteiro 


Texto locução e edição: Euriano Sales
Xilo: Meg Banhos
Açude: Clipes Louvor, YouTube 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Limões X Jesuino

Achados do Cangaço da Família Limão

Por Epitácio de Andrade

“José Rodrigues de Barros ficou considerado como o patriarca dos Limões, porque se casou com Maria Rosalina da Conceição, irmã de Preto Limão”, assim afirmou José Alves Rodrigues, conhecido como “Zé Limão”, neto do “patriarca”, em entrevista a Epitácio de Andrade Filho, autor de “A Saga dos Limões – Negritude no Enfrentamento ao Cangaço de Jesuíno Brilhante”, no último dia 15 de dezembro, em sua residência no Bairro Paulo VI, na cidade de Caicó, na região do Seridó do Rio Grande do Norte.
  
No final do Século XIX, o Cearense José Rodrigues de Barros assumiu a liderança do Grupo étnico representado pela família Limão, principal algoz dos “Brilhantes”, ao se casar com uma irmã de Preto Limão, único sobrevivente masculino da família remanescente do conflito cangaceiro e comandante da emboscada fatal contra Jesuíno Brilhante, na Comunidade Santo Antônio, na zona rural de São José de Brejo do Cruz, na fronteira paraibana, em dezembro de 1879.


O Patriarca aos 100 anos 
Reprodução: Epitácio Andrade
 
A primeira imagem do “Patriarca dos Limões” foi resgatada pelos pesquisadores Emanoel Amaral e Alcides Bezerra de Sales, em 1981, quando levantavam dados para a elaboração da Revista “Jesuíno Brilhante em História de Quadrinhos”, na Comunidade Saco dos Limões, na zona rural do município de Patu/RN, terra natal do Cangaceiro Jesuíno Brilhante (1844). A fotografia é datada do início do século passado e foi apresentada pelo neto José Alves Rodrigues, 60 anos, o mesmo membro da família Limão, que trinta anos depois, apresentou a fotografia do avô aos 100 anos (1963), para ser reproduzida pelo Escritor Epitácio de Andrade Filho.


Festa dos 100 anos do “Patriarca dos Limões” 
Reprodução: Epitácio de Andrade
 
No ano de 1963, a família Limão comemorou festivamente o centenário do Patriarca José Rodrigues de Barros, que nunca participou de atividades cangaceiras, mas teve a tarefa de proteger a família das possíveis recidivas do conflito, depois da morte de Jesuíno Brilhante, organizando inclusive, um esconderijo inexpugnável e recôndito, o “Saco dos Limões”. Na festa do centenário, o grande líder já não contava com sua companheira Maria Rosalina da Conceição, a Limão genuína, que faleceu com cerca de 50 anos, provavelmente no final da década de 20 para início dos anos 30 do século passado, e se encontra sepultada no cemitério de Catolé do Rocha, no vizinho estado da Paraíba.




Do casamento de Seu José Rodrigues Barros com Rosalina Limão, que moravam no Sítio Coroatá, na zona rural entre Patu e Almino Afonso, saíram vários filhos, entre homens e mulheres. O mais velho Antônio Limão migrou para o norte do país e lá permaneceu até a morte. Em 1888, nasceu Zé Limão, que foi fotografado por Emanoel Amaral aos 93 anos, no ano de 1981.

 
Zé Limão aos 93 anos 
Foto: Emanoel Amaral - 1981
 
Em 1898, nasceu Luiz Limão ou Luiz Catonho que se casou com Anelita Alves Rodrigues, afilhada de Valdivino Lobo, o mais abastado dos fazendeiros inimigos de Jesuíno Brilhante e coiteiro dos Limões na região do Catolé do Rocha e Brejo do Cruz, na fronteira paraibana. Em 1981, o pesquisador Emanoel Cândido do Amaral também fotografou Luiz Limão.

 
Luiz Limão aos 83 anos 
Foto: Amanoel Amaral - 1981
 
José Alves Rodrigues, Zé Limão, é filho de Luiz Catonho com Anelita Alves Rodrigues, e em 1981, acolheu Emanoel Amaral e Alcides Sales para prestar informações sobre a família Limão e posar para uma fotografia nas adjacências do “Saco dos Limões”, com seus filhos Ângelo Márcio e Marcélio Alves, que na época tinham sete e três anos, respectivamente.


Zé Limão com filhos Marcélio e Ângelo 
Foto: Emanoel Amaral - 1981

 
Coincidentemente, no dia 15 de dezembro de 2011, data da visita a residência de José Alves Rodrigues, em Caicó, estava completando 28 anos da morte de Seu Luiz Limão, que faleceu em 1983, e se encontra sepultado, juntamente com seu pai, o “Patriarca dos Limões”, no cemitério velho do antigo povoado da Caiera, hoje Almino Afonso, no Rio Grande do Norte.
 

Luiz Limão aos 75 anos 
Reprodução: Epitácio de Andrade

 
Seu Zé Limão, aos 60 anos, está na terceira geração posterior ao cangaço da segunda metade do século XIX. O seu pai, Luiz Limão com os irmãos, compõem a segunda geração pós-cangaço jesuínico, e o casamento do “Patriarca” com Rosalina Limão é o representante da primeira geração, imediatamente posterior ao cangaço dos Brilhantes com os Limões. Esta seqüência geracional pode ser observada no álbum familiar, exposto na sala principal da casa de Seu José Limão, em Caicó/RN.

A família Limão tem uma consciência pela preservação da memória muito acurada. Mantem sob sua guarda um acervo de fotografias, apetrechos, moedas, cédulas e armas, que segundo José Limão “pertencia aos antigos”. Em 1981, quando foi fotografado por Emanoel Amaral mostrava uma espingarda de caça, que preserva até hoje. Mesmo informando que é um objeto de 40 a 50 anos, a preservação é, por ele, justificada como lembrança do momento da pesquisa e como símbolo de que “os Limões faziam suas próprias armas”.


Espingarda fotografada em 1981 no Saco dos Limões – Patu/RN 
Foto: Epitácio Andrade
 
Contemporânea do período do Cangaço dos Brilhantes com os Limões (1870-1880), Seu Zé Limão apresentou uma faca, cujo cabo de madeira se desgastou ao longo de mais de uma centena de anos, sendo substituído por uma haste de aço, porém a grande lâmina de ferro fundido foi preservada.


Lâmina de uma faca do cangaço dos Limões 
Foto: Epitácio Andrade
 
Seu Zé Limão preserva uma cédula antiga, “do tempo do cruzeiro”, com a imagem de Duque de Caxias, para preservar a memória de que “os Limões resistiram ao recrutamento forçado para a Guerra do Paraguai”.



 Cédula de Cruzeiro com imagem de Duque de Caxias 
Foto: Epitácio Andrade
 
O acervo de moedas cunhadas em 1870 preserva a memória da proteção dos comboios do comércio primitivo do sertão, que era promovida pelos membros da família Limão, depois da aliança com os Lobos e os Lobatos, controladores da economia loco - regional. Não seria desnecessário afirmar que os Limões foram agentes pró-ativos de importantes lutas sociais, e como afirma Alicio Barreto em “Solos de Avena”, “é possível que voltaram ricos do quebra-quilos”.


Moedas do período do Cangaço jesuínico 
Foto: Epitácio Andrade
 
Com muita cordialidade e presteza o Aposentado José Alves Rodrigues (Zé Limão) e sua esposa Maria Emília Cordeiro Alves, que é da descendência de Jesuíno Brilhante, prestaram as informações solicitadas pelo pesquisador Epitácio Andrade e serviram café num bule datado do início do século passado.


Bule do início do séc. XX 
Foto: Epitácio Andrade
 
Igualmente gentil foi o filho de Seu Zé Limão, Ângelo Márcio, que tem total lembrança da visita feita por Emanoel Amaral e Alcides Sales no início dos anos 80 do século passado, ao “Saco dos Limões”.


Ângelo Márcio, Zé Limão e o Autor de “A Saga dos Limões” 
Foto: Josivaldo Araújo
 
Os próximos passos serão uma visita ao “Saco dos Limões”, na zona rural do Patu, ao Sítio São Francisco, no Catolé do Rocha, e uma entrevista com Manoel Catonho, para consolidar informações para a segunda edição ampliada de “A Saga dos Limões”.


*Epitácio de Andrade Filho é autor do livro "A Saga dos Limões – Negritude no Enfrentamento ao Cangaço de Jesuíno Brilhante”, Médico Psiquiatra e Pesquisador Social.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Ângelo Osmiro...

...e as controvérsias de Sila

Durante a noite Cariri Cangaço - GECC, ocorrida em Fortaleza no dia 6 de dezembro tendo como personagem principal a ex-cangaceira Sila; o pesquisador e escritor Ângelo Osmiro, (Foto) um dos expoentes do debate; trouxe-nos um apanhado de registros que se encontram nos diversos livros que contaram com a colaboração da mesma; Na oportunidade do debate o trabalho apresentado por Ângelo acabaria sendo um dos pontos referenciais e que agora transcrevemos abaixo:
 
A primeira obra em questão é:  

Pág. 25: Sila diz que Zé Baiano a procurou, entretanto foi morto, e em seu lugar apareceu Zé Sereno. (motivo: Morte de Zé Baiano).

Pág. 26: Diz que não foi à festa (organizada pelos cangaceiros); Em outros livros diz que dançou a noite toda com Luiz Pedro. Em “Sila uma cangaceira de Lampião” diz que Zé Sereno foi seu “par inseparável” durante o baile.

Pág. 27: Conta episódio do encontro, onde caiu no riacho, ficou toda molhada. O encontro seria com Zé Sereno. Em “Sila no divã” conta o mesmo episódio sendo o personagem Zé Baiano (primeiro encontro).

Pág. 28: “[...] Respondi-lhe que só possuía vestidos na bagagem”; Sila em vários depoimentos, diz que foi (para o cangaço) somente com a roupa do corpo.

Pág. 29: “Sentia-me como em outro mundo. Triste, isolada de minha família, desiludida e amedrontada, por não conhecer toda aquela gente estranha...”

Pág. 30: “[...] Mulheres, apenas duas: Nenen e eu. Novo Tempo, Mergulhão, Marinheiro eram os três novos cangaceiros”. (Nenen morreu logo nos primeiros dias, seus irmãos só entrariam depois).

Pág. 38: Repete a informação acima (Desta vez em um encontro na casa de um coiteiro).

Pág.53: “[...] No meio dos cangaceiros passaram a me chamar Maria Bonita”. Palavras de Maria Bonita para Sila, segundo ela.

Pág. 54: Diz que o grupo estava constituído de cinco pessoas.

Pág. 60: Ainda contando a mesma história diz que o grupo era constituído de 10 pessoas.
   

Obra 

Pág. 50: Amaury narra encontro de Sila com os cangaceiros: “Ocorreu o encontro com Zé Baiano, ele ficou de voltar para pegá-la, nesse ínterim foi morto em Alagadiço e Sereno voltou e pegou Sila” continua Amaury: “Poucos meses depois em fins de 1936 ou em janeiro de 1937 os irmãos de Sila resolveram entrar no grupo de cangaceiros”.

Pág. 107: “A escuridão da noite envolvia as duas; [...] Somente se avistava pontos vermelhos de cigarro que as duas fumavam”. “Já seriam mais de 21h00min horas quando foram dormir”

Pág. 108: “[...] Sila corria junto com Candeeiro”. “[...] a mulher de Cajazeira, Enedina, juntou-se ao grupo que fugia”





Obra 

Pág. 13: A própria Sila, segundo Daniel, fala uma vez que nasceu em 1919 e outra em 1924.

Pág. 16: Surge uma terceira data dita por Sila, em entrevista: “em 1927, aos seis anos”. Então aí teria nascido em 1921?

Pág. 23: Diz ter apenas dez anos quando o pai morreu.

Pág. 35: “[...] aos treze anos, Sila conhece as primeiras emoções”; Diz Sila: “Era bastante desenvolvida para minha idade; mas o olho de meu pai estava presente em todos os lugares”. (O pai não teria morrido quando ela tinha dez anos?)

Pág. 36: “[...] Aos doze anos de idade ouvi falar do cangaço. meu pai temia os cangaceiros, uma vez informado que o bando estava próximo de Poço Redondo, escondeu todos os filhos, protegendo-nos contra qualquer perigo”.

Pág. 93: “Ninguém roubava, pedia. Ninguém entrava na casa dos outros para roubar”. “Eu pessoalmente ajudei muitos pobres”.

Pág. 97: “Candeeiro pedia-me para não deixá-lo ali. baleado na perna o cangaceiro implorava ajuda”.


4ª Obra  



Pág. 19: Sila diz que não aceitou as jóias que Zé Baiano a presenteou. (Em outros livros disse que recebeu).

Pág. 20: diz que Zé Sereno voltou no dia seguinte. (em outros livros diz cerca de um mês) revela o motivo de Zé Baiano não levá-la e sim Zé Sereno; foi um desentendimento entre os dois. (Em outros livros diz que nunca soube o motivo).

Pág. 24: Deixa evidente que os irmãos não a acompanharam de imediato.

Pág. 29: “Eu não tinha nenhuma notícia dos meus familiares” (em outros livros também diz que os irmãos estavam com ela?) “[...] Íamos para Poço Redondo e encontramos meus irmãos. Eles disseram a José que estavam sendo perseguidos pelos soldados desde que eu entrara no bando” José respondeu: “Se vocês quiserem entrar para o cangaço, entrem”.

Pág. 30: “Lampião dirigiu-se a eles e disse: Du fica sendo chamado de Novo Tempo, Gumercindo de Mergulhão e Antônio de Marinheiro”. “Fiquei muito satisfeita de agora em diante ter meus irmãos junto de mim”.

Pág. 33: “Zé Rufino da polícia sergipana”.

Pág. 50: "Sila diz que Zé Sereno acabara de conhecer Pedro de Candido e na mesma página diz que Zé Sereno “não gostava daquele coiteiro”.

Pág. 51: "Pedro de Candido voltou ao coito dia 16 de julho (deve ser erro de impressão)"

Pág. 52: Repete a história da luz

Pág. 57: “Foi lido um ofício do presidente Getulio Vargas declarando anistia a todos os cangaceiros que se entregassem (na cidade de Jeremoabo)”.

Pág. 59: Repete hist. Ofício de anistia.

Pág. 89: “Fomos lançar no Juazeiro do padre Cícero, lugar que Lampião tantas vezes andou”.


5ª Obra

Pág. 21: “Aos nove anos perdi meu pai” (também diz que perdeu aos10, aos 9 e aos 13 ainda estava vivo)

Pág. 27: “Zé Sereno meu par inseparável” (no baile de despedida). Em outras obras diz ser Luiz Pedro).

Pág. 28: Diz que seus irmãos a acompanharam desde o primeiro dia. (Em outras obras: dias depois ou meses depois)

Pág. 36: Tenente Zé Rufino da polícia de “Sergipe”.

Pag. 42: Em conversa com Maria Bonita ela teria dito se chamar Maria Déa; Quando entrou no grupo passou a ser chamada Maria Bonita. Reunião com chefes de grupo com a presença de Zé Sereno e Zé Baiano em novembro de 1936, Zé Baiano foi assassinado no dia 07 de julho de 1936.

Pág. 43: O coronel Nogueira queria se apossar das terras de Zé Ferreira, daí Virgolino entrou no cangaço.

Pág. 57: “Lampião invade Nazaré e queima as casas dos Nogueira”

Pág. 59: “[...] A polícia cercou a casa do pai (Zé Ferreira) juntamente com Zé Saturnino a mãe de Virgolino não suporta e morre do coração”.

Pág. 64: “Após a morte de Lampião os companheiros sobreviventes escolheram Zé Sereno para comandante”

Pág. 70: “[...] Botei o fuzil no ombro, cartucheira entupida de balas e toquei...” (arma grande)

Pág. 73: “[...] Descansei o fuzil no meu colo...”

Pág. 75: “[...] Dei um salto e arrebentei a coronha do mosquetão na cabeça do soldado”.

Pág. 76: “costumeiramente passavam alguns dias conosco, Luiz Pedro, Nenen e Zé Baiano”. (Neném não morreu nos primeiros dias?) Morto Lampião, Zé Sereno assume o comando de "200 homens", inclusive Corisco e Dadá, “apesar de estarem afastados de Lampião por divergências”.???

Pág. 77: Sila Identifica amiga Adília como Enedina.

Pág. 80: Confessa ter presenciado a execução

Pág. 96: “[...] O sol desbancava no horizonte quando Maria Bonita me chamou para trocarmos dois dedos de prosa...”

Pág. 98: “[...] Caminhei em direção a tolda, vi novamente a mesma luz...” “[...] Se eu lhe houvesse falado sobre aquela luzinha, tudo teria sido diferente”.
“Um primeiro tiro ecoou matando um companheiro”.
 “Segurei na mão de Enedina e arrastei para o meu lado”.
 “[...] Candeeiro baleado na perna, pedir-me que não o deixasse ali, o cangaceiro implorava ajuda”.

Pág. 102: Entregas: Dulce, Adília e eu permanecemos em Jeremoabo. (Adília dizia ter se entregado em Propriá-se).

Pág. 118: Em entrevista perguntou ao irmão João Paulo: “Você ficou triste quando Marinheiro, Novo Tempo e Mergulhão saíram para nossa companhia?


Ângelo Osmiro
Presidente do GECC, Sócio da SBEC
Conselheiro Cariri Cangaço


*Obrigado ao confrade Ivanildo Silveira pela cortesia das Capas solicitadas. 

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Felicitações para uma grande família

Saudações, amigos.

Venho aqui fazer uma justa homenagem a uma grande família que agora pertencemos, que é a família SBEC, GECC e CARIRI CANGAÇO.
 

Desejo a todos um ótimo final de ano e um futuro de muita paz, saúde e realizações.
 

Esse simples vídeo, traz a trilha de autoria do representante da paz John Lennon  na versão nacional de Simone, nada mais que um reconhecimento a pessoas que agora fazem parte de nossas vidas.
 

Por favor, sintam-se todos representados nesse clip.



Um Feliz Natal, qualquer dia a gente se vê!
Aderbal Nogueira
Laser Vídeo 

domingo, 18 de dezembro de 2011

Cabras de Silvino

A SAGA DO CANGACEIRO RIO PRETO

By Rostand Medeiros


Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Prazeres. 
Goianinha, Rio Grande do Norte

Em um dia do início do mês de fevereiro de 1906, chegou a cidade potiguar de Goianinha um desconhecido casal. A mulher era uma bonita moça, branca, aparentando ter a jovem uns 18 anos de idade, que se chamava Ana Maria da Conceição e vinha acompanhada de um homem negro.[1]

A comunidade não sabia, mas aquele homem era um conhecido e temível cangaceiro acunhado como Rio Preto.

Surpreendentemente o desconhecido procurou o delegado local, Manoel Ottoni de Araújo Lima, para conseguir trabalho como agricultor ou em alguma outra função. O delegado não lhe deu serviço, mas indicou-lhe o engenho “Bosque” cujo proprietário era o padre João Alípio da Cunha, este igualmente lhe negou trabalho, mas o despachou para o engenho “Jardim”, onde o administrador Manoel Lúcio Peixoto admitiu o aparente e inofensivo trabalhador[2].

A DESCONFIANÇA

Os primeiros dias de Rio Preto como trabalhador do campo seguiam tranquilos. Contudo, entre a comunidade, a desconfiança era geral. Chamava muita a atenção o fato daquele humilde trabalhador rural, acompanhado de uma mulher considerada bonita e além de tudo branca.

Estação telegráfica de Goianinha que avisou as autoridades nem Natal sobre a prisão de Rio Preto

Para a sociedade do Rio Grande do Norte, que até hoje ainda não se livrou de atitudes preconceituosas e racistas com relação aos negros, este casal inter-racial, chegando à provinciana vila de Goianinha de 1906, chamou muito a atenção do lugar.

Na noite de segunda-feira, 19 de fevereiro de 1906, um grupo armado chegou nesta propriedade, distante12 quilômetrosde Goianinha, anunciaram o assalto e em seguida passaram a arrombar a porta da sede da fazenda. O proprietário Carlos de Paiva Rocha consegue fugir com uma irmã para os matos. O grupo de bandidos, senhores da casa, praticam de extrema violência contra o vaqueiro Antonio Gomes, para este dar conta dos objetos de valor ali existentes. Os celerados levam jóias, outros objetos pessoais, roupas e três cavalos para a fuga, deixando um prejuízo superior a um conto de réis. Em meio às ameaças, um dos bandidos afirma ser o “célebre Antônio Silvino, o Rifle de Ouro”. Logo a notícia se espalha e a região fica em estado de alerta.

Aparentemente o trabalhador negro, que todos desconheciam ser Rio Preto não tinha ligação com o assalto ocorrido na propriedade “Martelos”. Mas não é difícil supor que naquele momento, todo forasteiro passasse a ser considerado suspeito[3].

Estas desconfianças fizeram o administrador da fazenda Jardim, buscar “jeitosamente”, como afirma o jornal “A Republica”, junto ao seu novo empregado, maiores informações sobre seu passado, prometendo-lhe proteção em troca da verdade. Rio Preto, sem desconfiar, abriu o jogo sobre suas andanças no cangaço e sua participação no bando de Antônio Silvino. O administrador Manoel Lúcio promete guardar segredo.

A PRISÃO E A CHEGADA EM RECIFE

Em pouco tempo Manoel Lúcio Peixoto, procurou discretamente o delegado e relatou tudo que o disfarçado cangaceiro tinha lhe falado[4].

Em 19 de fevereiro, sem esboçar resistência, o temível cangaceiro Rio Preto foi detido pelo delegado Ottoni. Rapidamente foi providenciado o transporte do cangaceiro para a capital do estado através do trem da Great Western.

Prisão vira notícia

Houve um princípio de alteração quando Rio Preto soube que viria para Natal sem sua companheira Ana Maria. Esta por sua vez foi levada para a delegacia de Goianinha, onde em seu depoimento, declarou ter sido raptada pelo cangaceiro, desvirginada por ele e passou a segui-lo espontaneamente[5].

No dia 20 de fevereiro, Rio Preto foi apresentado ao Chefe de Polícia do Rio Grande do Norte (cargo equivalente hoje ao de Secretário de Segurança), Heliodorio Fernandes de Barros, que telegrafou ao Chefe de Polícia de Pernambuco, Santos Moreira, que exultou com a notícia e organizou a transferência do detento[6].

No dia 23 o prisioneiro seguiu para Recife no vapor “Una”, da Companhia Pernambucana de Navegação, escoltado pelo cabo André Avelino Bezerra e os soldados Artur Florentino e José Fonseca. Não ocorreram alterações durante o trajeto.

Ao chegar a capital pernambucana, as seis da manhã do dia 25 de março, foi grande à quantidade de pessoas que foram ver o desembarque do cangaceiro no cais da “Linqueta”. Foi o auxiliar de polícia, major Augusto Jungmann, auxiliado por mais quatro policiais pernambucanos, juntamente com a escolta potiguar, que retiraram a fera do vapor. Em meio ao alvoroço, o grupo embarcou em uma lancha que os transportou pelo rio Capibaribe, passando pelas pontes Recife e Santa Isabel.

Cais da Lingueta, Porto de Recife, 1904 
http://www.fotolog.com.br/tc2/25688752

Durante o trajeto, Rio Preto seguia ereto, ostentando uma despreocupação insolente, encarando o populacho que enchia as pontes e as margens do velho rio. Ele vestia paletó e caças brancas, camisa de linho ordinária, chapéu de massa preto e botinas pretas de “bezerro”.

Os jornais pernambucanos assim descreveram o cativo cangaceiro: “É negro fulo de estatura mediana, magro, rosto comprido e ossudo, olhos pequenos e muito inquietos, lábios grossos, e ligeiro buço; sua fisionomia não é simpática, como algumas pessoas pretendiam em comentários feitos a passagem da lancha”.

Desembarcaram na Rua da Aurora, na rampa mais próxima da chefatura de polícia. Para desgosto da multidão, Rio Preto ficou incomunicável.

O INTERROGATÓRIO

Como a chegada do cangaceiro movimentou a cidade e qualquer pessoa que falasse que conhecia Rio Preto, chamaria a atenção do povo e das autoridades.

Foi o que aconteceu com o barbeiro Antônio Barbosa, proprietário de um estabelecimento na vila de Machados, nas proximidades da cidade pernambucana de Bom Jardim, onde afirmava ter muitas vezes feito a barba não apenas neste cangaceiro, mas em Cocada e no próprio Antônio Silvino.

Rapidamente a notícia chegou aos ouvidos do Chefe de Polícia, Dr. Santos Moreira e logo uma guarnição trouxe o barbeiro à chefatura, onde ele ficou frente a frente com o cangaceiro. Guardada as circunstâncias, foi como um encontro de dois velhos amigos, estando assim confirmada a identidade de Rio Preto.

Destaque nos jornais

O interrogatório do detido encerrou às seis da noite, mesmo assim havia uma multidão calculada em 400 pessoas na porta da chefatura. Para evitar distúrbios, o preso foi retirado pela porta dos fundos, na Rua União, sendo levado a pé para o posto policial da Boa Vista, lá foi fotografado por Luís Santiago.

O cangaceiro seria interrogado mais duas vezes, sempre interrogatórios longos. Uma coisa chamou a atenção dos jornalistas pernambucanos; um enorme patuá que era usado pelo cangaceiro[7].

Alguns dias depois foi trazido para uma acareação com Rio Preto, o cangaceiro conhecido pela alcunha de “Relâmpago”, que estava detido em Timbaúba.[8]

A ENTRADA NO BANDO E AS PRIMEIRAS LUTAS

Seu nome era Firmo José de Lima, nasceu em 1882, no lugar São Vicente, pertencente então ao município pernambucano de Timbaúba, a 98 quilômetrosda capital.[9]

São Vicente Ferrer, Pernambuco, na atualidade

Segundo Rio Preto, quando tinha 17 anos e trabalhava na propriedade “Junco”, de Manoel Francisco, em Umbuzeiro, Paraíba, provavelmente entre o segundo semestre de 1901 e o primeiro de 1902, chegou Antônio Silvino acompanhado de nove cangaceiros e assaltou a casa do seu patrão, que foi bastante surrado. Então para não morrer, o jovem Firmo teria, segundo sua versão, teria sido forçado a seguir com o bando e se transformou em Rio Preto, devido a sua cor.

Dois anos depois, em uma estrada nas proximidades do lugar “Mogeiro de Cima”, Rio Preto afirmou que Antônio Silvino lhe ordenara surrar três viajantes, sem razão para isto. Houve uma discussão e os dois só não foram às vias de fato devido à intervenção de Cocada, o mais respeitado componente do bando de Silvino, que mesmo assim ficou ao lado de Rio Preto na contenda.

Este entrevero deu lugar a uma cisão, na qual Cocada seguiu com os “cabras” Rio Preto, Relâmpago, Nevoeiro e Barra Nova. Junto a Antônio Silvino permaneceram Tempestade, Ventania, Baliza e Dois Arroz, sendo o grupo de Cocada ampliado com outros homens aos quais ele não declinou os nomes.[10]

Um fato interessante declarado por Rio Preto foi que, mesmo com a cisão, quando Antônio Silvino tinha um “trabalho” importante para fazer, que exigia gente experiente e decidida, mandava chamar Cocada e seu bando para participarem. Após a realização do trabalho, Antônio Silvino sempre marcava um novo encontro com Cocada em um mês ou dois meses.

Retrato pintado de Antônio Silvino 
Cortesia de Sergio Augusto de Souza Dantas para o Lampião Aceso.

Entre as particularidades de Antônio Silvino, Rio Preto comentou que ele dormia muitas vezes nos canaviais, nas matas, em local sabido pelos companheiros, mas fazia questão de dormir separado do grupo. Informou que suas armas eram um rifle com 16 tiros, uma pistola “mause” e um punhal, “medindo dois palmos de lâmina”.[11]

VIDA DE CANGACEIRO

Uma das façanhas narradas por Rio Preto foi o assalto a Manoel Belo, no lugar “Mácapá, onde os grupos de Cocada e Antonio Silvino se uniram. [12]

Cocada estava no lugar “Gitó”, quando foi chamado por Silvino para roubar e matar Manoel Belo, mas Cocada afirmou que iria para o roubo e não para matar o fazendeiro, tendo Antônio Silvino aceitado com muita relutância. Chegando ao pequeno arruado, Cocada, Rio Preto, Relâmpago, Baliza e Tempestade, invadiram a pequena casa que servia de delegacia, um deles desarmou o único militar presente, um cabo, e o obrigaram a servir de guia até a casa de Manoel. Na casa, Silvino anunciou que era o sargento de Timbaúba, Lopes de Macedo e que queriam café. O iludido fazendeiro abriu a porta e teve um rifle apontado diante do seu rosto. Os cangaceiros passaram ao saque e conduziram o produto do roubo em um cavalo. Saindo de “Macapá”, seguiram para o lugar “Pirauá” e lá dividiram o saque e os grupos partiram por caminhos distintos.

O bando de Cocada passou a sofrer forte perseguição, sendo necessário dissolvê-lo por um período. Cocada homiziou-se no engenho “Pagi”, em Nazareth, já Rio Preto seguiu para o engenho “Barrocas”, com recomendações do major Philomeno Nestor e José Rezende, tendo deixado com este último um fuzil Comblain, que lhe foi fornecido pelo major Philomeno. [13]

Fuzil Comblain 1873 
Imagem meramente ilustrativa
http://www.militaryrifles.com/chile/chilcomb.htm

Esta parte do interrogatório mostra a relação promiscua que havia entre os grupos de cangaceiros e alguns proprietários de engenhos da Zona da Mata de Pernambuco. Esta relação muitas vezes era uma forma de defesa dos proprietários de terra e tática de sobrevivência dos cangaceiros.

Em outro caso narrado pelo capturado cangaceiro, ele conta que dois anos antes, Antônio Silvino e Cocada foram à casa do Sr. João Guilherme, proprietário do engenho “Jundiaí”, em Bom Jardim, Pernambuco, onde Silvino entrou e Cocada ficou fora aguardando por duas horas a saída do grande cangaceiro. Foram dormir no canavial, saindo do local por volta das quatro da manhã, seguindo para o lugar Olho D’água. Não sabe Rio Preto o que Antônio Silvino tratou com este fazendeiro, mas nunca sua propriedade foi atacada.

Sobre a procedência de armamentos, Rio Preto comentou que não sabe quem forneceria este material a Antônio Silvino, mas narrou que um comerciante de Campina Grande, conhecido apenas como “Frederico”, havia entregue doze ou treze caixas de cartuchos de rifles. Os fornecedores de armas e munições para cangaceiros, tanto no período de atuação de Antônio Silvino, como na época de Lampião, continua sendo um mistério até hoje, mas mostra como era dúbio e tênue o papel das autoridades e homens de poder, junto a estes bandoleiros.[14]

Coronel José Belém de Figueiredo 
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Outro caso desta relação é exemplificado quando Rio Preto conta que soube ter Antônio Silvino conseguido colocar três dos seus cangaceiros, Dois Arroz, Pau Reverso e Manoel Ventura, nas fileiras da própria polícia do Ceará, através do intermédio do coronel Belém, da cidade do Crato[15].

COMBATES

Algum tempo depois, ainda homiziado no engenho “Barrocas”, Rio Preto soube que sua identidade era conhecida de muitos e seguiu para a Paraíba, no lugar “Aroeira”, onde reencontrou Cocada e Antônio Silvino.

Unidos os grupos, tomaram destino para “Fagundes”, ainda na Paraíba, para matar um empregado do fazendeiro José Alves, por ser atribuída a este morador a delação que levou a morte do cangaceiro “Papa-mel”, do grupo de Silvino. Após este ato, seguiram para o lugar “Surrão”, onde Antônio Silvino tomou do negociante Manoel de Mello um rifle e presenteou a Cocada.

Foi no “Surrão”, que anos antes Antônio Silvino e Cocada travaram um cerrado tiroteio com as forças do Alferes Paulino Pinto, da polícia da Paraíba e o capitão Angelin, da polícia de Pernambuco. Rio Preto conta que neste combate, os cangaceiros ali entrincheirados estavam em número de 50 e o mesmo não participou desta luta por estar doente[16].

As ações de Antônio Silvino eram sempre estampadas nos jornais nordestinos

Rio Preto contou que Antônio Silvino assassinou, na madrugada de 15 de fevereiro de 1903, o subdelegado Francisco Antônio Sobral, crime praticado na casa da vitima, pela razão deste militar ter travado um tiroteio com o quadrilheiro no lugar “Torres”, próximo a “Aroeira”. Pela mesma razão, Marcos dos Pinhões e Severino de tal, tiveram igual sorte. Após estes crimes, os cangaceiros foram almoçar na casa de Antônio Poggy, nas “Guaribas”[17]

Comentou Rio Preto que no lugar “Mogeiro”, do fazendeiro conhecido por major Nô, Antônio Silvino e seu bando assassinaram o ex-sargento da Força Pública da Paraíba Manoel Paes, que quando a serviço do governo, perseguia os cangaceiros[18].

Outro fato narrado foi o assalto a Pilar, na Paraíba, onde os dois grupos, tendo Antônio Silvino à frente, trajando um uniforme de capitão e todos os cangaceiros se dizendo policiais, atacaram a cadeia do lugar. Em seguida prenderam o carcereiro, tomaram as armas de dois soldados e soltaram os presos. Passaram a fazer uma arrecadação no lugar, tendo o comerciante Joaquim Pio Napoleão, chefe político local, fornecido a maior quantia[19].

AS MULHERES E O “RIFLE DE OURO”

Entre uma série de façanhas narradas pelo prisioneiro, cometidas pelo bando de Antônio Silvino e o subgrupo de Cocada, Rio Preto narra dois casos singulares, envolvendo a figura do grande chefe bandoleiro e as mulheres.

O primeiro caso é comentado em uma reportagem publicada no mesmo periódico “A Província”, no dia 4 de abril, onde o detido afirmou que a cerca de dois anos, o chefe havia, em duas ocasiões distintas, encontrado refúgio por mais de quinze dias no engenho pernambucano de “Palmas”, ou “Palmas de Orobó” nas proximidades do lugar Bizarra, as margens do rio Orobó e a poucos quilômetros da cidade homônima.

Sabia Rio Preto que a propriedade pertencia a uma mulher conhecida como “Dona Zezé”, mas não informava se Silvino utilizava o engenho como “refúgio”, ou havia alguma relação mais íntima com a proprietária. Finalizava o detido informando que ao deixar o grupo de Cocada, soubera que Silvino e a “Dona Zezé” estavam intrigados e tratavam-se como inimigos.

Já o outro caso envolvia um fato que adquiriu certa repercussão em Pernambuco. Alguns meses antes da prisão de Rio Preto, no dia 21 de fevereiro de 1906, o jornal pernambucano “A Província”, publica matéria onde traz a tona o suposto caso entre o chefe cangaceiro e a jovem Antônia Francisca de Paula. Esta bonita mulher, com 19 anos, juntamente com dois irmãos, foram detidos para serem interrogados na cidade de Cortês, Pernambuco. A polícia buscava esclarecer a existência de uma possível ligação entre Antônia e sua família, com Silvino. Ela afirmou conhecer Antônio Silvino há apenas dois meses, declarando não ter nenhum tipo de relação com chefe quadrilheiro e sabia apenas que o mesmo tinha uma amásia de nome “Sebastiana”.

 A cidade de Côrtes, Pernambuco, na atualidade. 
http://www.promata.pe.gov.br/

Já Rio Preto contou situação bem distinta. Afirmou o prisioneiro que conhecia Antônia, tendo tido oportunidade de encontrá-la, em agosto de 1905, na casa de um velho conhecido como “Cabeça Branca”. Neste lugar, a jovem Antônia teria participado de uma festa com os cangaceiros, tendo dançado e tocado um instrumento musical por toda à noite. Comentou Rio Preto que pela noite de alegria, Cocada lhe teria dado 10R$000 (dez mil réis). Já sobre Antônio Silvino, o opinião era que o chefe “não gosta de dançar, é inimigo de sambas”.

A reportagem finaliza comentando, sem maiores detalhes, que foi apresentado a Rio Preto uma foto de Antônia e que o mesmo reconheceu a mulher.

O COMPANHEIRO COCADA E A SAÍDA DO BANDO

Sobre Cocada, o seu companheiro de lutas, Rio Preto afirmou que seu nome verdadeiro era Manoel Marinho, sendo natural de Guarita, vila localizada a menos de dez quilômetros da cidade paraibana de Itabaiana e teria cerca de 40 anos em 1906.

 Foto meramente ilustrativa da ponte ferroviária no próximo a vila da Guarita, Itabaiana, Paraíba. Foi nesta vila que nasceu o cangaceiro Cocada. 
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Mário Souto Maior comenta, sem informa datas, que Cocada morreu em combate no lugar chamado Serrinha, na Paraíba. No seu local de morte, o povo ergueu um cruzeiro. O folclorista Evandro Rabelo, ao passar pelo local, viu depositado na base da cruz, alguns ex-votos de pessoas que obtiveram graças por intermédio deste cangaceiro.

Durante o interrogatório, transcrito pelos jornais, percebe-se uma tendência de Rio Preto em demonizar a figura de Antônio Silvino e ele pouco relata os crimes praticados por Cocada.

Um único caso é comentado sobre este cangaceiro e seu bando; Cocada, Rio Preto, Relâmpago e Nevoeiro atacaram a propriedade de Francisco Paes, morador do lugar “Massapê”, que teria respondido com uma ameaça ao pedido de dinheiro de Cocada. Em meio ao saque, Relâmpago, a mando de Cocada, assassinou friamente o filho do fazendeiro. Depois deste ato, Rio Preto deixa o bando em dezembro de 1905, buscando sua companheira e seguindo em direção norte.

Em Mamanguape esteve trabalhando para uma senhora conhecida como Dona Aninha, mas se retirou desta área quando soube que o delegado local estava a sua procura para esclarecer se sua mulher estava com ele por livre vontade ou fora raptada.

Com esta desconfiança, decidiu Rio Preto seguir mais para norte, para o Rio Grande do Norte, mais precisamente em Goianinha, onde foi preso.

Casa de Detenção do Recife, início do século XX 
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Rio Preto depois seria recambiado para a Casa de Detenção de Recife, onde em agosto de 1907 foi condenado a nove anos de prisão.

Segundo o pesquisador Sérgio Dantas, dois anos depois da prisão de Rio Preto, o mesmo morreu de uma ferida na penitenciária de Recife.

Este caso, apesar de se já ter sido comentado em livros sobre a vida de Antônio Silvino, possui outros detalhes que são pouco conhecidos dos que se debruçam sobre o tema cangaço [20].

NOTAS

[1] A descrição da mulher que acompanhava Rio Preto, se encontra respectivamente em Ver Dantas, S. A. de S., op. cit., 2006, p.p. 96. e nos jornais “A Republica”, Natal, de 30 de março de 1906, p. 2. e “A Provincia”, Recife, 4 de abril de 1906

[2] Segundo Jornal “A Provincia”, Recife, 27 de março de 1906, p. 1.

[3] Ver “A Republica”, edição de 6 de março de 1906, na seção “Secretaria de Polícia”, onde esta notícia vem publicada em um ofício desta repartição, datado de 23 de fevereiro de 1906, p. 1. Já a edição de “A Republica”, de 9 de fevereiro, informa que fora remetido para a cadeia de Goianinha, João Antonio de Oliveira, preso em Santo Antonio, onde confessou seu envolvimento neste assalto. Os jornais pesquisados que comentam a prisão de Rio Preto sejam do Rio Grande do Norte ou de Pernambuco, não apresentam nenhum comentário, ou transcrição de documentos oficiais que indiquem a participação deste cangaceiro neste assalto. Em outros documentos oficiais, igualmente não encontrei menção a este fato.

[4] A Republica, 30/06/1906, p. 2.

[5] “A Província”, de 27/03/1906, p. 1, indica que a prisão ocorreu na segunda-feira, 19 de fevereiro e aponta detalhes sobre o relacionamento do cangaceiro e Ana Maria.

[6] Em ofício da Secretaria de Polícia, de 20 de fevereiro e publicado na edição de “A Republica”, de 25/03/1906, constam maiores detalhes da prisão em Goianinha.

[7] “A Província”, de 27/03/1906, p. 1.

[8] “Relâmpago” se chamava José do Carmo Felipe dos Santos, já era um cangaceiro velho, com mais de 50 anos quando foi preso, junto com seu filho Francisco do Carmo Santos. Foi descrito como “pardo escuro, de olhos pequenos e turvos, baixo, velho, de 55 anos presumíveis (…) Não é inteiramente antipático. Mostra-se humilde e fala compassada e brandamente”. Quando da sua prisão, Relâmpago fez comprometedoras declarações sobre as relações entre Antônio Silvino com policiais, a sua rede de protetores e até seus hábitos pessoais. Ver Dantas, S. A. de S., op. cit., 2006, p.p. 91 e 92.

[9] Atual município pernambucano de São Vicente Férrer.

[10] Ver Dantas, S. A. de S., op. cit., 2006, p.p. 76 e 77. Já Fernandes, R. op. Cit. p. 57, informa que cisão no grupo ocorreu pelo fato de Cocada ter torturado e violentado uma mulher, caindo no desagrado do chefe Silvino.

[11] Em relação às armas de fogo mencionadas, o rifle de 16 tiros provavelmente deveria ser da marca Norte-americana Winchester, em calibre 44, modelo mais conhecido no Nordeste como “talo de mamão” devido às dimensões do cano. Já a pistola deveria ser de procedência belga, marca FN, em calibre7,65 m.m. Estas armas eram muito difundidas no Brasil nesta época, bem como os tipos de munições utilizadas.

[12] Atual município pernambucano de Macaparana.

[13] Atual município pernambucano de Nazaré da Mata.

[14] Provavelmente o Frederico indicado deveria ser o coronel Frederico Lundgren, de origem dinamarquesa, comerciante e industrial em Campina Grande, figura de grande destaque nesta importante cidade paraibana.

[15] Este coronel Belém não é outro senão o coronel José Belém de Figueiredo, que no começo de 1904, rompeu no Crato a aliança política entre ele e o coronel Antonio Luís Alves Pequeno, com declaração de uma guerra entre as duas facções. Deste conflito ocorrido no sul do Ceará, participou ativamente membros da família Carvalho de Serra Talhada, onde um grupo de “cabras” comandado por Antônio Clementino de Carvalho (conhecido como Antônio Quelé, ou Quelé do Pajeú), contribuiu decisivamente para a vitória do coronel Antônio Luís. Segundo Rio Preto, aparentemente Antônio Silvino teria contribuído com a facção do coronel Belém, cedendo seus “cabras”, conseguido vantagens para seu bando, mesmo não participando diretamente deste conflito. Sobre os contatos de Antônio Silvino e de membros do seu bando no Ceará, ver Fernandes, R. op. Cit. P. 55, e Dantas, S. A. de S., op. cit. 2006, p. 99.

[16] O combate do Surrão ocorreu no dia 23 de junho de 1900, em território paraibano, entre Itabaiana, a Vila de Ingá e a fronteira com Pernambuco. A força policial conjunta teria em torno de 110 homens. O grupo de Silvino abre fogo e o grupo de policiais paraibanos avança corajosamente, o Alferes Paulino recebe três disparos, mas continua a combater. Provavelmente incentivados pela demonstração de coragem do oficial paraibano, o restante dos policiais aumentam a força do ataque, matando e capturando vários bandoleiros. Só uma pequena do bando escapou. Para Silvino, o combate do Surrão lhe deixou um saldo negativo de 15 cangaceiros mortos. Destes seis morreram em combate e nove foram cruelmente executados, um de cada vez, a golpes de punhais, o conhecido “sangramento”. O Alferes Paulino, mesmo ferido, participou do ato bárbaro e covarde “até cansar o braço”. No outro dia, devido à gravidade dos seus ferimentos, o oficial faleceu. O número de 50 homens, ao qual Rio Preto comente ter o bando de Antônio Silvino, aparenta ser exagerado. Sobre este combate, ver Dantas, S. A. de S., op. cit., 2006, p.p.43 a 45 e José Joffily, in “Revolta e Revolução”, p.p. 60 e 61 (Ed. Paz e Terra, Rio de Janeiro / RJ, 1979, 454 pgs.).

[17] Em Dantas, S. A. de S., op. cit., 2006, p.p. 62 e 63, encontra-se a narrativa deste acontecimento, que foi assim romanceado pelo poeta João Martins de Athayde;
A quinze de fevereiro,
De novecentos e três.
No povoado Filgueiras.
Encontrei um mal freguês.
Francisco Antônio Cabral,
E matei-o dessa vez.” 

No livro “A literatura de cordel no Nordeste do Brasil – Da história escrita ao relato oral”, de autoria da professora da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), Julie Cavignac (Editora EDURFN, Natal / RN, 2006. 363 pgs.), na página 297, informa que o poeta paraibano João Martins de Atahyde (1878 a1959), foi um poeta popular que chegou a tornar-se proprietário de uma empresa de impressão gráfica em Recife. Conheceu pessoalmente Antônio Silvino, utilizou fartamente sua saga como tema para suas poesias, sempre defendendo as atuações deste cangaceiro.

[18] Mário Souto Maior, no livro “Antônio Silvino – Capitão de trabuco”, na página 37 (Edições Bagaço, Recife / PE, 2001, 125 pgs.), comenta sobre esta morte.

[19] Ver Maior, M. S., op. Cit., 2001, p.p. 37 e 38.

[20] Praticamente são apenas dois livros que trazem informações sobre este caso. O pioneiro “Antônio Silvino no RN”, do falecido médico Raul Fernandes (Editora Clima, Natal / RN,1990. 185 pgs.) e “Antônio Silvino: o cangaceiro, o homem, o mito”, do juiz de direito Sergio Augusto de Souza Dantas (Editora Cartgraf, Natal / RN, 2006. 313 pgs.) são as principais fontes.

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