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quinta-feira, 7 de maio de 2026

Cangaceiros

Quem foste tu?

Por: Helton Araújo (Canal Cangaço eterno)




Na imagem, vemos Manoel Aureliano Lopes, conhecido como Cobra Verde, nascido em 1º de dezembro de 1917, natural de Piranhas (AL).

Ingressou no cangaço em 1935, tendo passado pelo bando de Moreno. Esteve presente na região da Grota do Angico em 28 de julho de 1938 — data marcada pela morte de Lampião, Maria Bonita e outros nove cangaceiros. No entanto, no momento do ataque, não se encontrava no local, pois havia saído para buscar leite em uma fazenda nas proximidades.

Em entrevistas concedidas a periódicos da época, afirmou que havia 49 cangaceiros em Angico, sendo 42 homens e 7 mulheres. Segundo sua própria lista, ele integrava o grupo liderado por Luiz Pedro.

Relatou ainda que, antes de ingressar no cangaço, trabalhava na fábrica de pedras de Delmiro Gouveia, onde recebia um salário muito baixo — motivo que o levou a entrar no cangaço em busca de "ganhar uns cobres", segundo suas palavras.

Posteriormente, entregou-se à polícia em Poço Redondo (SE), juntamente com outros cangaceiros, sendo conduzido pela polícia alagoana até Maceió (AL), onde permaneceu detido.

No período pós-cangaço, trabalhou como pedreiro. Em 1943, alistou-se como militar, adotando o nome de Aureliano Lopes da Silva.


Fontes: Jornal Gazeta de Alagoas; Jornal A Noite; livro Cangaceiros de Lampião de A a Z, de Bismarck Martins de Oliveira.


sexta-feira, 20 de março de 2026

27 de setembro de 1936

Gato invade Piranhas 

Texto e pesquisa de João Lucas/Cangaço Brasileiro.

𝐀 𝐢𝐧𝐯𝐞𝐬𝐭𝐢𝐝𝐚 𝐧𝐚 𝐟𝐚𝐳𝐞𝐧𝐝𝐚 𝐏𝐢𝐜𝐨𝐬. 𝐎 𝐜𝐨𝐦𝐛𝐚𝐭𝐞 𝐞𝐧𝐭𝐫𝐞 𝐁𝐞𝐳𝐞𝐫𝐫𝐚 𝐞 𝐒𝐚𝐧𝐭𝐢𝐥𝐢𝐨.


Subgrupo de Gato - Por Benjamin Abrahão

Domingo, de 27 de setembro de 1936, Piranhas, Alagoas. Mais ou menos na derrocada da tarde, chegando na beira da noite, o sargento João Bezerra, baseado em suas ligações com coiteiros “controlados”, é avisado de que havia um pequeno grupo cangaceiro arranchado há 20 quilômetros da cidade, na fazenda Picos. Na ânsia de ser o mais temido dos bandoleiros, aquele que por tempos perseguia, Bezerra pergunta ao seu informante se era Lampeão, recebendo, em seguida, a resposta: “não, seu sargento, mas é Gato. Está certo que ele tá “segurado” por lá, já que a mulher tá com bucho”.

É claro que Gato não era o mesmo que Virgolino, digo em sua fama como Rei do Cangaço, mas o fato é que este já fazia muitos estragos nas regiões alagoanas, sergipanas, pernambucanas e baianas. Sua fama como rei era pouca, mas a sua de causar terror nos moradores e na volante, com seus métodos de tortura e morte, passava até mesmo do seu próprio “Capetão”. Era mais do que necessário dar um fim a isso.

João, com o auxílio do também sargento Aniceto Rodrigues, reúne a tropa de dezenove soldados já bem treinados e castigados naquela campanha, dando as primeiras instruções do ataque, porém rasas (para que essas não fossem “capturadas, levadas e entregues” aos sequazes); e às 23h00, antes de zarpar para a missão, alarma o prefeito João Correia Britto sobre a situação. Certamente que o trajeto iria ser feito de automóvel e, chegando perto da região combinada, terminariam a pé. No amanhecer do 28 de setembro, às 05h30 da manhã, a volante alagoana chega ao local. Não se via muita coisa pois ainda estava escuro; um ou outro vulto aparecia, bem como vozes dos temidos encourados.

No local do coito, além de Gato e Inacinha, via-se também os bandoleiros Pancada; Mangueira; Peitica (irmão de Mangueira); Maria Jovina, companheira de Pancada; e mais dois cachorros. Como a mulher de Gato estava grávida de 8 meses, todo cuidado era pouco, por isso a necessidade de uma segunda figura feminina na hora. Bezerra e Aniceto davam os direcionamentos. À disposição da força, se encontravam duas metralhadoras.

Quando estavam para fechar o cerco, preparando a tocaia, os cães escutam o chacoalhar dos soldados no mato, começando a latir para a tropa. Já vendo que não dava mais para fazer o elemento surpresa, o comandante manda abrir fogo contra o grupo, e este reage da mesma forma. Uma intensa fuzilaria tomou de conta do som, e a fumaça dos tiros tomou de conta da região. Os cangaceiros iam correndo, parando, atirando e resistindo; já a polícia ia seguindo, parando, atirando e rechaçando a trupe. Em certo momento uma cangaceira se encontrava caída no chão, baleada, enquanto outro bandoleiro a levantava, segurando-a nos braços, levando embora do combate. A troca de tiros era tanta, e a força gasta para levar a mulher no colo, que fez o homem deixá-la no chão, enquanto urrava de dor e ódio por ter feito aquilo. Ela, mesmo ferida, ainda conseguiu andar 1km até cair novamente. A bandida era Inacinha, e o bandido, Gato.

No fim do combate, além de terem apreendido a jovem moça, a força alagoana adquire os espólios de guerra, que seria apetrechos de roupa, farta munição, uma máquina de costura, um fuzil que tinha dezesseis moedas de prata costuradas na bandoleira e os dois cachorros. Pensando no bem-estar de Inacinha, pelo seu estado de gravidez e pelo ferimento de bala no quadril (que não ofendeu o osso e tampouco a criança), João Bezerra parte com o seu comando para a cidade de Olho D’Água do Casado/AL, que dista 18 quilômetros, para primeiros tratamentos. Chegando por lá, às 08h30, manda um telegrama para Piranhas dizendo: “ataquei cangaceiros. Estou com mulher baleada. Cangaceira Inacinha. Tenha cuidado, todo cuidado.”.

Não precisava de uma bola de cristal para saber que tal atitude poderia culminar numa retaliação maior dos mal feitores. Bezerra acaba entregando e percebendo isso, com o final “tenham cuidado, todo cuidado”. Continuemos, agora, com a drástica visão dos bandoleiros.

𝐑𝐞𝐯𝐢𝐝𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐝𝐨 𝐦𝐞𝐬𝐦𝐨 𝐩𝐞𝐬𝐨: 𝐚 𝐚𝐣𝐮𝐝𝐚 𝐝𝐞 𝐌𝐨𝐝𝐞𝐫𝐧𝐨, 𝐂𝐨𝐫𝐢𝐬𝐜𝐨 𝐞 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐮𝐞̂𝐬.

Margeando o horário de 06h00 para 06h30, após os cinco integrantes terem sobrevivido ao combate, procuram de imediato os outros cangaceiros que por perto estavam. Eram os chefes Corisco, Moderno e Português. Os três, ao todo, comandavam cerca de dezessete cangaceiros (11 homens e 6 mulheres). Todos relataram o ocorrido, enquanto Santilio (o Gato) urrava, gritava, xingava e chorava. Queria a todo custo pegar sua companheira, rogando apoio dos camaradas. Em certo momento, Moderno afirma que não podiam fazer nada, pois possivelmente Inácia já estava a caminho de Maceió/AL, caso não tivessem parado antes em Piranhas. “Vamo intão invadi ela, cumpadi! Inacinha devi tá por lá. Se não, peguemo intão a mulher de Bezerra, qui também tá gravida!” falou Gato. Para satisfazer o desejo do colega, Moderno compra a ideia do baiano, da mesma forma fez Corisco e Português.

Ao todo, 25 cangaceiros e cangaceiras irão percorrer o caminho de sangue até a bendita e flagelada cidade. Naquela orda, eram: Gato, Corisco, Moderno, Português, Moreno, Jacaré, Mangueira, Peitica, Gitirana, Cobra Verde, Pontaria, Cruzeiro, Cocada, Tempestade, Pancada, Velocidade, Atividade, Canário, Dadá (companheira de Corisco), Durvinha (companheira de Moderno), Cristina (companheira de Português), Moça (companheira de Jacaré), Marina (companheira de Tempestade), Maria Jovina (companheira de Pancada) e Adília (companheira de Canário).

𝐎 𝐜𝐚𝐦𝐢𝐧𝐡𝐨 𝐝𝐞 𝐬𝐚𝐧𝐠𝐮𝐞 𝐟𝐞𝐢𝐭𝐨 𝐩𝐨𝐫 𝐆𝐚𝐭𝐨.

Santilio, ensandecido, parte na frente com o seu grupo, abandonando o restante. Era necessário correr para acompanhá-lo. Na estrada de terra que direcionava para a cidade ligada ao São Francisco, Gato encontra dois sertanejos próximos ao rio Pau de Arara, de região do mesmo nome. Eram Antônio Tirana e Lelinho (Lerinho ou Antônio de Lero), que estavam por ali cortando lenha com um machado. Pobres homens que faziam um tão bom trabalho, mas num horário tão ruim. Sem misericórdia ou tempo de conversarem, Gato pega a ferramenta de trabalho de um destes, mata-os com a mesma e, para finalizar, esquarteja-os com machadadas. As partes destes se encontravam espalhadas nos arredores. Estes foram as primeiras vítimas, as primeiras respostas de Gato por terem roubado o que era seu, descontando seu ódio em seres inocentes.

Emílio Ângelo, morador da fazenda Boa Vista, tinha ouvido os tiros que proviam de Picos. Premeditando que a coisa seria feia, monta em seu cavalo e sai desesperado para avisar aos vizinhos. Três quilômetros mais à frente, Gato iria fazer outra parada: a fazenda Cachoeirinha, onde morava João Celino Monteiro, coiteiro do mesmo. Por achar que este tinha o traído, culminando no tiroteio, o temido cangaceiro iria aplicar-lhe um corretivo. Próximo da morada, o mesmo avista Ângelo montado perto da cancela. O sertanejo, equipado com seus trajes de vaqueiro, galopa em desabalada carreira para fugir, quando escuta um tiro em sua direção. Era Gato que tinha disparado. Emílio abriu os braços e a bala pega em seu gibão, não o atingindo. Por sorte, correu e sobreviveu. Ali já marcava umas 07h00.

Na casa, se encontravam doze pessoas, todas parentes, mas nada de João Celino. Para descontar a raiva que sentia, Gato começa a fazer sua matança: tiros de fuzil ou revólver, facãozadas e episódios de homens e mulheres sangrados. O total foi de sete vítimas: Maria Ferreira, Manoel Ferreira, Delfina Ferreira, Ana Ferreira, Elísia Monteiro, Júlia Monteiro e Emiliano Monteiro. Uma das vítimas mulheres carregava um bebê na barriga. Vendo as aberrações que Gato praticava, Moderno chamou Corisco para que segurassem a matança, que ia de adulto para criança, uma grotesca carnificina. Ao impedir Santilio de matar um bebê que estava na rede, Corisco o repreende por tal atitude, dizendo que não era necessário tal barbaridade. “Elis pegaro minha muié com meu fio. Nem sei se estão vivos ou mortos. Se eu perco, pru quê os outros não pode perder?” respondeu fervorosamente o intrépido facínora.

Uma jovem mulher, que tinha também um menino em seus braços, vendo aquela cena toda fica perplexa, travada pelo medo. Por um resquício de compaixão, um dos cangaceiros que estavam acompanhando aquela caminhada mortal empurra a moça para fugirem, que se salvassem senão morriam lá. Foi necessário gritos e puxões para ela acordar, fazendo aquilo que o homem pediu.

Outra chamada de Emorgência, tinha levado um corte profundo da boca até a garganta e outros nos braços pelo dito bichano que virou onça. Dadá achou que ela morreria rapidamente, mas esta sobreviveu, conseguindo escapar com uma cicatriz que fazia-a lembrar amargamente do episódio. E mais um garoto, de 12 anos apenas, que recebendo uma bala na bochecha, se jogou bruscamente no chão para fingir-se de morto. Engatinhando lentamente, conseguiu escapar no meio da caatinga.

Após finalizar o caos que se propagou na fazenda, o grupo desce para Piranhas a cavalo, percorrendo cerca de 7 quilômetros.

𝐀𝐬 𝐩𝐫𝐢𝐦𝐞𝐢𝐫𝐚𝐬 𝐧𝐨𝐭𝐢𝐜𝐢𝐚𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐏𝐢𝐫𝐚𝐧𝐡𝐚𝐬 𝐫𝐞𝐜𝐞𝐛𝐞. 𝐎𝐬 𝐬𝐢𝐭𝐢𝐚𝐝𝐨𝐬 𝐬𝐞 𝐚𝐥𝐚𝐫𝐦𝐚𝐦. 𝐀 𝐜𝐡𝐞𝐠𝐚𝐝𝐚 𝐝𝐨𝐬 𝐛𝐚𝐧𝐝𝐨𝐥𝐞𝐢𝐫𝐨𝐬 𝐧𝐨 𝐥𝐨𝐜𝐚𝐥.

Na então vila, nada sabiam do que estava acontecendo nas cercanias. O senhor Francisco Rodrigues, apelidado carinhosamente de Chiquinho Rodrigues, se direcionava para a sua venda no mercado principal da localidade. Percebe que tudo estava calmo, meio vazio, sem nenhuma figura soldadesca nos arredores. Achou estranho. Ao passar o coronel Antônio de Britto, conhecido como Pai Nosso, nas portas do armazém de Chiquinho, é logo perguntado se sabia de algo para não ter policiamento na cidade. “Bezerra saiu meia noite para dar combate aos bandidos” afirmou o coronel. O mercador se espanta, mas logo se acalma; momentos como esse eram comuns por lá. Ficou Antônio, sentado na venda.

Às 08h30, o telegrafista de Piranhas recebe a mensagem do sargento sobre o ataque aos bandidos, que leva ao conhecimento de Antônio de Britto e Chiquinho. “É, pelo visto eles estão vindo pra cá. Ele que disse que é para ter cuidado!” explanou o coronel enquanto se levantava da cadeira. Não demorou muito e chega Emílio Ângelo cansado, com o cavalo escorrendo suor, já dando a parte de todo o acontecimento que ocorreu com Antônio Tirana e Lerinho, ainda falando que “Gato ficou ali matando uma família em Cachoeirinha”. A esposa de Chiquinho, Dona Nira, também estava de resguardo. O comerciante pega em sua venda duas caixas de munição e diz que irá para casa, pois a empregada o intimou para ver a sua filha e a sua mulher.

Chegando nela, sua mãe pergunta o que está acontecendo para ele chegar todo municiado. Explica que os bandidos chefiados por Gato e Corisco iriam invadir as moradas. Dentre tantos rogos, ela implora “meu filho, não se entregue!”, “não irei, mãe!”, e logo pede para que ela, sua esposa, sua filha e a empregada se protegessem no quarto, rezando; enquanto iam, o destemido rapaz subia para o segundo andar da residência.

Já com aquelas informações vindas do militar e do vaqueiro, a cidade se alarmou em pavor, com correrias e fechações de portas e janelas. Um jovem rapaz, chamado Abílio Bezerra, estava indo para a antiga casa de arreios que ficava próximo ao velho cemitério da cidade. Iria pegar um cavalo para fazer seus afazeres. Foi também avisado sobre a chegada desenfreada dos bandidos, que poderia morrer. Abílio levou o caso com humor, soberba, e continuou o seu trajeto. Ao chegar em seu destino, pega um cabresto e caminha pela estrada da Lagoa da Mulata, se deparando com o bando sinistro. De imediato é exigido que subisse no poste e cortasse os fios do telégrafo, para que não fossem mais recebidas ou enviadas mensagens de regiões vizinhas. Perguntam se tinha polícia por lá, recebendo a resposta que não. “Intão irá descer conosco como garantia. Se houver, vai ser o primeiro a morrer!” disse um dos chefes enquanto desciam pela estrada. Era quase 09h00.

𝐆𝐫𝐮𝐩𝐨 𝐝𝐢𝐯𝐢𝐝𝐢𝐝𝐨. 𝐀𝐬 𝐩𝐫𝐢𝐦𝐞𝐢𝐫𝐚𝐬 𝐭𝐫𝐨𝐜𝐚𝐬 𝐝𝐞 𝐭𝐢𝐫𝐨𝐬. 𝐎 𝐝𝐞𝐥𝐞𝐠𝐚𝐝𝐨 𝐞 𝐬𝐮𝐚 "𝐜𝐨𝐫𝐚𝐠𝐞𝐦".

Na entrada da cidade, o bando é dividido em dois: Pancada e o grupo de Português ficariam pelos morros do local, junto com as mulheres, dando cobertura aos demais; Moderno e seus seguidores desceriam junto com Corisco e Gato, percorrendo a rua principal (a atual Antônio Rodrigues). Acompanhariam na invasão as cangaceiras Maria de Pancada e Dadá, ambas com a corruptela de Gato e Corisco. 

Algazarra total nas calçadas. Bandoleiros gritando, rindo, atirando e proferindo ofensas. Tudo isso com o cangaceiro Gitirana soltando versos improvisados. Havia um grupo formado por moradores, na liderança de Joãozinho Carão, que tinha se entrincheirado nas lápides do campo santo,  onde conseguia observar as pedras e as ruas do local. Talvez dando de cara com Português nos lajedos, começaram a abrir fogo contra eles, iniciando aí os primeiros ensaios da dança. 

Nesse momento, Chiquinho já se encontrava protegido em seu sobrado, com as janelas abertas e de rifle na mão. Quando organizava as munições, avista o delegado Cipriano Pereira com mais oito soldados descendo a rua, correndo em direção ao rio; ou seja, fugindo. O Sr. Rodrigues convida-os para se alojarem com ele e resistir aos atacantes. O convite foi recusado imediatamente, afirmando que tinham pouca munição para combaterem. “Você que faz isso é um safado e covarde! Delegado de vergonha não corre!” retruca Chiquinho.  Seguem o mesmo destino dos fardados os paisanos Cícero Martins e Arthur Palmeira, metido a valente, que, próximos aos grotões íngremes, dão alguns tiros. Somente o jovem João Marcelino que se juntou com Francisco para confrontar os bandidos.

𝐀 𝐟𝐢𝐠𝐮𝐫𝐚 𝐡𝐞𝐫𝐨𝐢𝐜𝐚 𝐝𝐞 𝐂𝐲𝐫𝐚 𝐁𝐫𝐢𝐭𝐭𝐨 𝐞 𝐨 𝐭𝐢𝐫𝐨 𝐪𝐮𝐞 "𝐦𝐚𝐧𝐬𝐨𝐮" 𝐨 𝐛𝐢𝐜𝐡𝐚𝐧𝐨.

Chegando à rua Delmiro Gouveia (a provável rua Antônio Rodrigues), se encontrava a casa de João Bezerra, onde Cyra Britto via-se sozinha e em seu primeiro período de gravidez. Cyra, presenciando aquela situação, corre para fechar as portas e janelas que estavam abertas, quando aparece um cangaceiro solo, perto de um pé de planta, ameaçando-a de morte. Encostada na parede e com calma, a valente Britto pega um rifle e atira contra o bandido, ocorrendo mais uma troca de tiros na localidade. Era 10h30.

O restante ia percorrendo ainda mais a rua principal, parando na casa que pertencia a Totonha Seixas Britto (ou Totonia), irmã do prefeito. Invadem-na, encontrando somente a mulher, suas filhas e um filho, João Seixas Britto, de 16 anos. Corisco pergunta se tinha homem (de briga) na casa, onde é avisado que não. Pergunta novamente se tinha polícia, e recebe a negativa como resposta. “Intão esse menino vai ser nossa valia! Se houver, morre!” e levam o jovem Britto como mais um refém, deixando a mãe aos prantos. O caminho, agora, seria a delegacia da cidade, possível local em que a amásia estava. Ainda trocando tiros com os poucos que se arriscavam, os cangaceiros vão chegando no edifício, não encontrando a mulher. “Vamo imbora daqui, Gato. Não tem nada pra nois pur cá!”, grita Cristino, o Corisco, enquanto protegia as costas dos bandidos. “Antis, quero tocar fogo no mercado, cumpade!” fala Santilio.

No momento em que este vai caminhando pela ladeira direcionada aos armazéns, é atingido na espinha por uma bala vinda de uma casa. O cangaceiro cai no mesmo momento, gritando “matou-me, fi da peste!”, largando de banda seu fuzil. Quem tinha o acertado foi Chiquinho em seu sobrado, como uma cobra esperando sua presa chegar para dar o bote.

𝐎 𝐟𝐮𝐦𝐚𝐜𝐞𝐢𝐫𝐨 𝐧𝐚𝐬 𝐣𝐚𝐧𝐞𝐥𝐚𝐬 𝐝𝐞 𝐂𝐡𝐢𝐪𝐮𝐢𝐧𝐡𝐨. 𝐀 𝐦𝐨𝐫𝐭𝐞 𝐝𝐞 𝐉𝐨𝐚̃𝐨 𝐞 𝐀𝐛𝐢́𝐥𝐢𝐨. 𝐀 𝐛𝐫𝐮𝐭𝐚 𝐫𝐞𝐭𝐢𝐫𝐚𝐝𝐚 𝐝𝐨 𝐛𝐚𝐧𝐝𝐨.

Nesse interim, a trupe correu para acudir o ferido; uns pegando nos braços e pernas enquanto outros atiravam em direção a morada do Rodrigues. E ainda, vão descendo alguns cangaceiros pelas escadas existentes para chegarem à morada resistente. Jacaré, um dos que atiravam contra o destemido alagoano, acaba recebendo um tiro de raspão no pescoço. O fumaceiro dos fuzis de Chiquinho e Marcelino cobrem a visão das janelas. No momento do combate, Francisco acaba cortando os lábios e a mão devido ao coice da arma. Os bandoleiros já perto da entrada do sobrado ameaçam de invadir, e Chiquinho grita que se vierem levarão bala. Ao disparar inúmeras vezes pela porta e janela, os arruaceiros desistem de fazer tal proeza.

Ao ver o estado de Santilio, ferido e agonizando de dor, Corisco ordena que sangrasse João Seixas e que desse um tiro na cabeça de Abílio, ali naquele momento, de frente a delegacia, por terem sido “os responsáveis” por aquele episódio. Dadá e Maria Jovina estavam dentro de uma casa quando esse fato ocorreu, pedindo um copo d’água. Vendo o companheiro ferido, de urgência trazem uma cadeira para colocarem-no. Os cangaceiros já estavam se preparando para se retirarem com Corisco dando retaguarda pela esquina da prefeitura. Um tiro ecoa na rua, acertando os embornais de Cristino, fazendo-o rodopiar logo em seguida e descobrindo quem tinha feito aquilo. Era Cyra que tinha deixado de combater o outro bandido para brigar, agora, com o “loirão”. Outra chuva de balas cai na Lapinha do Sertão.

No alvoroço de saírem o mais rápido possível, subindo os íngremes caminhos da cidade, o tiroteio aumentava. Os bandoleiros se juntavam, revezando para levar o companheiro ferido. Virgínio, o Moderno, começa a passar mal pelo cansaço, tropicando nas pedras, sendo necessário algumas mãos para o sustentar. A salvação destes foi terem encontrado no meio do caminho um jumento carregado de lenha. Derrubam a carga e colocam Gato nele, com um cabra segurando em cada lado. Mais ao final da cidade, passando próximo ao cemitério, encontram outras montarias de jumentos, jogando agora o citado cangaceiro que “amarelou-se de febre”.

O relógio batia entre 12h40 e 13h00 quando os asseclas foram rechaçados. Tinham pegado novamente a direção da Lagoa da Mulata, passando próximo a casa de Emílio Ângelo (onde atiram em sua porta como represália), e se acoitam na fazenda Mogiana, nos rincões de Canindé de São Francisco/AL. Ali, Gato morreria oito dias depois.

Após o fim da investida cangaceira, a cidade se encontrava menos perturbada, porém, dava para ouvir os choros de alguns moradores. Chiquinho e João Marcelino, ainda eufóricos e começando a perceber que o perigo já tinha passado, contam as balas gastas. Totalizam 140. Com as armas, saem da residência para verem o estrago feito. Na rua da delegacia, viram a poça de sangue que Gato tinha deixado; ao lado, os dois rapazes assassinados pelos carniceiros. Identificando o seu compadre João como uma das vítimas, posicionado de cócoras, Rodrigues o puxa para cima e recebe um jato de sangue em suas roupas. Aos poucos vão saindo os habitantes de suas casas, todos se concentrando no palco maior do embate. Muitos eram parentes. Olhavam, choravam, cochichavam e rezavam. Se prontificaram, agora, de cuidarem do velório dos 11 mortos. Chegava todo assustado e melancólio o garoto Enéas na vila. Noticia como achou o corpo de seu pai, Antônio Tirana, e do colega Lerinho. Retalhados, em estado brutal, dignos de um filme de horror.

Sem as ações de Chico, Marcelino, Cyra, Joãozinho Carão e os demais corajosos, com toda certeza o desejo dos bandoleiros de destruírem a cidade seria perfeitamente concretizado. Heróis eu digo.

𝐂𝐡𝐞𝐠𝐚𝐝𝐚 𝐝𝐚 𝐭𝐫𝐨𝐩𝐚 𝐜𝐨𝐦 𝐚 𝐛𝐚𝐧𝐝𝐢𝐝𝐚 𝐜𝐚𝐩𝐭𝐮𝐫𝐚𝐝𝐚.

Às 20h00 da noite, chega a tropa de Bezerra em Piranhas com a baleada, levando-a primeiro para a prefeitura. Francisco entra e vai em direção a prisioneira. Com ela conversou um pouco, fornecendo também algumas mudas de roupa e um perfume para Inacinha. Depois, puxa o comandante para entender o motivo de não terem ficado na cidade, deixando-a descuidada e sem policiamento. Repetia que estava com a mulher baleada. “Que matasse essa peste, ou então deixasse ela num ponto!” disse Chiquinho. E assim ficou.

No dia seguinte, dia 29, a volante e a bandoleira são fotografadas na parte baixa da cidade, ao lado do mercado. Depois, é direcionada para a cadeia, permanecendo lá por algumas semanas, sendo tratada por um médico. Quanto ao seu bebê, dá a luz nas grades da prisão, mas sem vida, infelizmente. No dia 22 de outubro, é recambiada para Maceió/AL, chegando na capital no dia 24. Depois de entrevistada, fotografada e identificada, a companheira do finado cangaceiro é levada para a sela, permanecendo até meados de 1937.

Naquele dia, a fama do temido Gato fora apagada. A caça virou o caçador. Todavia, mesmo que o brado heróico da boca dos fuzis dos sitiados tenham falado mais alto, o carrasco do sertão conseguiu cessar a voz de singelos sertanejos, que nada tinham culpa, pelo seu gosto diabólico da vingança.


















𝐹𝑂𝑁𝑇𝐸𝑆: 𝐺𝑒𝑛𝑡𝑒 𝑑𝑒 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜: 𝐷𝑎𝑑𝑎́ 𝑒 𝐶𝑜𝑟𝑖𝑠𝑐𝑜 – 𝐴𝑛𝑡𝑜𝑛𝑖𝑜 𝐴𝑚𝑎𝑢𝑟𝑦; 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜: 𝑎𝑠 𝑀𝑢𝑙𝒉𝑒𝑟𝑒𝑠 𝑒 𝑜 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 - 𝐴𝑛𝑡𝑜𝑛𝑖𝑜 𝐴𝑚𝑎𝑢𝑟𝑦; 𝑃𝑖𝑟𝑎𝑛𝒉𝑎𝑠 𝑛𝑜 𝑇𝑒𝑚𝑝𝑜 𝑑𝑜 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 - 𝐺𝑖𝑙𝑚𝑎𝑟 𝑇𝑒𝑖𝑥𝑒𝑖𝑟𝑎; 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜 𝑒𝑚 𝑃𝑎𝑢𝑙𝑜 𝐴𝑓𝑜𝑛𝑠𝑜 - 𝐽𝑜𝑎̃𝑜 𝑑𝑒 𝑆𝑜𝑢𝑧𝑎 𝐿𝑖𝑚𝑎; 𝐶𝑜𝑟𝑜𝑛𝑒𝑙 𝐽𝑜𝑎̃𝑜 𝐵𝑒𝑧𝑒𝑟𝑟𝑎: 𝑜 𝐶𝑜𝑚𝑎𝑛𝑑𝑎𝑛𝑡𝑒 𝑑𝑎 𝑉𝑜𝑙𝑎𝑛𝑡𝑒 𝑞𝑢𝑒 𝑀𝑎𝑡𝑜𝑢 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜 - 𝑃𝑎𝑢𝑙𝑜 𝐵𝑟𝑖𝑡𝑡𝑜 𝑒 𝐵𝑒𝑛𝑛𝑒𝑟 𝐵𝑟𝑖𝑡𝑡𝑜; 𝑃𝑖𝑟𝑎𝑛𝒉𝑎𝑠 𝐴𝑙𝑎𝑔𝑜𝑎𝑠, 𝑃𝑜𝑟𝑡𝑜 𝑑𝑒 𝐻𝑖𝑠𝑡𝑜́𝑟𝑖𝑎𝑠 - 𝐽𝑎𝑖𝑟𝑜 𝐿𝑢𝑖𝑧; 𝐹𝑜𝑟𝑐̧𝑎𝑠 𝑉𝑜𝑙𝑎𝑛𝑡𝑒𝑠 𝑑𝑒 𝐴 𝑎 𝑍 – 𝐵𝑖𝑠𝑚𝑎𝑟𝑐𝑘 𝑀𝑎𝑟𝑡𝑖𝑛𝑠; 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐𝑒𝑖𝑟𝑜𝑠 𝑑𝑒 𝐴 𝑎 𝑍 – 𝐵𝑖𝑠𝑚𝑎𝑟𝑐𝑘 𝑀𝑎𝑟𝑡𝑖𝑛𝑠; 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜 𝑒 𝑜 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 𝑛𝑎 𝐻𝑖𝑠𝑡𝑜𝑟𝑖𝑜𝑔𝑟𝑎𝑓𝑖𝑎 𝑑𝑒 𝑆𝑒𝑟𝑔𝑖𝑝𝑒, 𝑉𝑜𝑙. 𝟏 – 𝐴𝑟𝑐𝒉𝑖𝑚𝑒𝑑𝑒𝑠 𝑀𝑎𝑟𝑞𝑢𝑒𝑠; 𝑀𝑜𝑟𝑒𝑛𝑜 𝑒 𝐷𝑢𝑟𝑣𝑖𝑛𝒉𝑎: 𝑆𝑎𝑛𝑔𝑢𝑒, 𝐴𝑚𝑜𝑟 𝑒 𝐹𝑢𝑔𝑎 𝑑𝑜 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 - 𝐽𝑜𝑎̃𝑜 𝑑𝑒 𝑆𝑜𝑢𝑧𝑎 𝐿𝑖𝑚𝑎; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐷𝑖𝑎́𝑟𝑖𝑜 𝑑𝑒 𝑃𝑒𝑟𝑛𝑎𝑚𝑏𝑢𝑐𝑜 – 𝟏𝟗𝟑𝟔; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐴 𝑁𝑜𝑖𝑡𝑒/𝑅𝐽 - 𝟏𝟗𝟑𝟔; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐷𝑖𝑎́𝑟𝑖𝑜 𝑑𝑎 𝑁𝑜𝑖𝑡𝑒/𝑅𝐽 - 𝟏𝟗𝟑𝟔; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐺𝑎𝑧𝑒𝑡𝑎 𝑑𝑒 𝐴𝑙𝑎𝑔𝑜𝑎𝑠 – 𝟏𝟗𝟑𝟔; 𝐶𝑎𝑛𝑎𝑙 𝐴𝑑𝑒𝑟𝑏𝑎𝑙 𝑁𝑜𝑔𝑢𝑒𝑖𝑟𝑎, 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 - 𝑌𝑜𝑢𝑡𝑢𝑏𝑒; 𝐶𝑎𝑛𝑎𝑙 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜𝑙𝑜𝑔𝑖𝑎 - 𝑌𝑜𝑢𝑡𝑢𝑏𝑒; 𝐶𝑎𝑛𝑎𝑙 𝑂 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 𝑛𝑎 𝐿𝑖𝑡𝑒𝑟𝑎𝑡𝑢𝑟𝑎 – 𝑌𝑜𝑢𝑡𝑢𝑏𝑒; 𝐶𝑎𝑛𝑎𝑙 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 𝐸𝑡𝑒𝑟𝑛𝑜 – 𝑌𝑜𝑢𝑡𝑢𝑏𝑒; 𝐵𝑙𝑜𝑔 𝑑𝑜 𝑀𝑒𝑛𝑑𝑒𝑠; 𝐵𝑙𝑜𝑔 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜 𝐴𝑐𝑒𝑠𝑜; 𝑆𝑒𝑚𝑖𝑛𝑎́𝑟𝑖𝑜 𝐶𝑎𝑟𝑖𝑟𝑖 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜: 𝑃𝑖𝑟𝑎𝑛𝒉𝑎𝑠; 𝑃𝑒𝑠𝑞𝑢𝑖𝑠𝑎𝑑𝑜𝑟𝑒𝑠 𝑒 𝐴𝑚𝑖𝑔𝑜𝑠: 𝐽𝑢𝑛𝑖𝑜𝑟 𝐴𝑙𝑚𝑒𝑖𝑑𝑎, 𝐶𝑒𝑙𝑠𝑖𝑛𝒉𝑜 𝑅𝑜𝑑𝑟𝑖𝑔𝑢𝑒𝑠, 𝐹𝑎́𝑏𝑖𝑜 𝑀𝑜𝑢𝑟𝑎 𝑒 𝑀𝑎𝑛𝑜𝑒𝑙 𝑆𝑒𝑣𝑒𝑟𝑜, 𝑆𝑒́𝑟𝑔𝑖𝑜 𝐷𝑎𝑛𝑡𝑎𝑠, 𝐷𝑗𝑎𝑙𝑚𝑎 𝑒 𝑀𝑜𝑎𝑏𝑒 𝑂𝑙𝑖𝑣𝑒𝑖𝑟𝑎.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Fotos e Fatos

 Havia caminhões no Sertão, sim

Da Sedição de Juazeiro à queda de Lampião, documentos e relatos desmontam a falsa ideia de que o Nordeste do cangaço vivia isolado sobre os próprios pés.

Por Jaozin Jaaozinn

Infelizmente, ainda é possível encontrar muitas informações em sites ou livros despreparados sobre o tema que a polícia, no momento em que iriam fazer suas diligências em regiões afetadas pelo cangaceirismo, executavam seus trajetos somente a pé, não tendo nenhum auxílio de transportes ou então de montarias. Ou pior, ler comentários que afirmam, fervorosamente, a não existência de caminhões ou qualquer outro tipo de transporte no Nordeste.

Aos que ainda alimentam essa ideia, sinto muito, pois está completamente equivocada. Veja bem, desde o período da Sedição de Juazeiro, que ocorreu entre 1912 e 1914, era visível o uso de caminhões ou automóveis pequenos; em registros do padre Cícero ao lado de devotos, políticos e até mesmo de Benjamin, é visto um carro ou qualquer outra "máquina de quatro rodas"; na revolta tenentista, culminando na criação da Coluna Prestes;  na Revolução de 1930 nas capitais nordestinas; e até na Revolta de Princesa, no mesmo ano, foram utilizados esses automóveis para a mobilização de tropas, mantimentos e pessoas civis.

Mas como o assunto é cangaço, trago aos amigos recortes de volantes ao lado de caminhões ou carros, na década de 1930. Lembrando também que, da passagem de Lampião na Bahia e depois em Sergipe, o mesmo utilizou essa mesma ferramenta para cruzar certas cidades; como em Tucano/BA e Capela/SE, porém, essas "passeatas" ocorriam raramente. 

Em boa parte dos registros da defesa preparada na cidade de Mossoró, em 13 de junho de 1927, é nítida a exibição de carros pequenos ou caminhões que eram utilizados pela população local; até mesmo o depoimento do coronel Antônio Gurgel, e do Sr. Francisco Agripino (conhecido como Gatinho, que tinha como função a de chofer) que confirmam a ativa função desses transportes no "Norte do Brasil" — visto que Gurgel só foi feito prisioneiro dos cangaceiros pois os bandoleiros mandaram parar o AUTOMÓVEL que o levava. 

No combate da Baixa do Juá, ocorrido entre 4 e 5 de julho de 1925, em que tombara o cangaceiro Vassoura (Livino Ferreira, irmão de Virgolino) pela volante paraibana do tenente José Guedes, a força militar teve auxílio das tropas pernambucanas, comandadas pelo sargento Higino Belarmino, que tinham saído de povoado próximo, em caminhões, para sustentar o fogo.

Um relato irônico e inusitado do cangaceiro Vinte e Cinco para Aderbal Nogueira, conta que nas caminhadas que o bando fazia nas matas, beirando a uma estrada, escutaram o barulho de um automóvel se aproximando. O alarme foi para todos: manobraram os fuzis e se preparam para um possível combate. Na chegada do carro, recheado de militares, o mesmo para e desce um volante. Lá, em pouca distância dos cangaceiros, o soldado faz suas necessidades. José Alves, o bandoleiro, assegura que se seguraram para não rirem naquele momento.

Não só nesse caso, como também na passagem do "Troféu Macabro" da grota do Angico, em que a força volante veio a pousar as cabeças nas cidades vizinhas e capitais com o auxílio de caminhões.


Destaque para a cabeça de Lampião no canto inferior esquerdo

Se não havia caminhões no Nordeste naquele período, então não houve os casos de assassinatos contra os trabalhadores nas estradas de rodagem, tampouco as guardas, montadas de militares ou então de jagunços, que faziam a segurança destes.

Confiram outras fotos e respectivos fatos em que foram empregado o uso destes veículos.
















quinta-feira, 31 de julho de 2025

Mané Véio

Matador de Lampião ameaça su1c1d@r-se!

Pesquisa: Guilherme Velame Wenzinger.




Transcrição do texto:

SÃO PAULO (CS) — O ex-caçador de cangaceiros, Euclides Marques da Silva, vulgo “Manoel Velho”, que integrava a volante que liquidou Lampião e seu bando, em carta enviada ao seu advogado, ameaça suicidar-se caso seja adiado, mais uma vez, seu julgamento, marcado para a próxima segunda-feira, perante o 1.º Tribunal do Júri. Na ocasião, será julgado também seu irmão, Josafá Marques da Silva. Ambos são acusados de coautoria de duplo homicídio qualificado, o que os sujeita à pena máxima de até 60 anos de reclusão cada um.

O CRIME

Por ordem de Euclides, que pagou 30 cruzeiros novos pela empreitada, Josafá, de encomenda, por volta das 13 horas do dia 13 de junho de 1966, na rua Piratiningui, assassinou a tiros de revólver a esposa e a filha do mandante, Maria Bosco da Silva e Jovina Marques da Silva. Euclides estava se separando da esposa e mandou matar as duas mulheres por entender que elas estavam onerando o seu orçamento. Há vinte e dois anos, em Jeremoá, na Bahia, eliminara a primeira esposa a tiro de fuzil por suspeitar de sua fidelidade. Permaneceu foragido até a prescrição do delito.

QUATRO ADIAMENTOS

O julgamento dos dois irmãos já foi adiado 4 vezes, principalmente por falta de número regulamentar de jurados. Tudo indica, porém, que tal fato não voltará a se repetir agora. Na carta que enviou ao advogado Flavio Markman (que deverá requerer cisão do julgamento, a fim de que seu constituinte seja julgado separadamente), Euclides, referindo-se aos sucessivos julgamentos diz que “aos poucos já me mataram quatro vezes”.

Afirmou que “isso não é modo de tratar um homem que ajudou o povo a se ver livre dos cangaceiros. Se não for julgado desta vez, eu dou cabo da vida. Eles vão ter que arrastar meu cadáver para o tribunal”.

Adendo Lampião Aceso

Aspecto da casa em que Mané Véio morou em Piranhas,AL (2023).

Foto: Kiko Monteiro


sexta-feira, 25 de julho de 2025

 Vingança, não: a fatalidade histórica derrotada

cangaco cangaceiro paraiba chico pereira jarda vinganca perdao
Editado em 1960, pela Livraria Freitas Bastos do Rio de Janeiro, "Vingança, não" foi um livro marcante. Recuperava um episódio da história do cangaceirismo por uma ótica duplamente original: pela mensagem de perdão e pelo envolvimento emocional do autor, na sequência dos fatos.

Com a beleza de sua palavra, com a coragem de expor as entranhas de um drama que poucos ousariam passar a limpo, com a severa imparcialidade que se impôs, padre Chico Pereira Nóbrega conquistou o público. Principalmente a juventude estudantil, tanto secundarista quanto universitária, de quem ele se tornou um líder.

cangaco cangaceiro paraiba chico pereira jarda vinganca perdao
Éramos todos seus leitores e corríamos para ouvi-lo em conferências inesquecíveis. Trazia uma pregação inovadora, questionamentos que vinham ao encontro de nossas inquietações. Não falava de céu, nem de inferno, nem de castigos ameaçadores. Falava da construção do ser, da vida e do amor, tema de sua predileção. E nos ensinava a pensar, a duvidar das verdades sacramentadas, das verdades ditas inquestionáveis.

O sucesso do livro trouxe logo a segunda edição, no ano seguinte ao lançamento. E, depois, as reedições permaneceram suspensas por quase três décadas. Era a consequência de revelações que alteravam substancialmente a história contada pelos vencedores. Por fim, a terceira edição veio em 1989 e a quarta, em 2002, patrocinada pela FUNESC.

O autor segue a clássica distinção aristotélica de que a história narra o que realmente aconteceu em determinado tempo e lugar. A arte, o que poderia ter acontecido, o possível de acontecer em qualquer tempo e lugar. Define seu livro como depoimento e não, romance. Sendo categórico na Introdução: "Poderia escrever em forma de romance, mas não quis. O real constrói mais que o imaginário". É uma declaração de princípio que se completa com outras duas afirmações: "Tomo, agora, a imparcialidade de quem não tem partido. Não é o filho, é o historiador quem fala".


Francisco Pereira Dantas (1900—1928)
Fonte ▪ Lampião Aceso
Ler com atenção o preâmbulo é pré-requisito para a compreensão do livro, na perspectiva do autor: como "trabalho de precisão histórica". Essa precisão ele construiu, recolhendo a pluralidade dos pontos-de-vista através dos quais lhe foi contada a história, ao longo de muitos anos. Retirando da tradição oral a parte lendária. Buscando a confirmação dos fatos, através da pesquisa em processos criminais de seis comarcas, pertencentes a três Estados, e confrontando as versões com os jornais da época.

Também lhe serviu de subsídio um folheto autobiográfico, deixado pelo pai. Além da carta do Tenente Coronel da Reserva da Polícia Militar do Rio Grande do Norte, Genésio Cabral de Lima, relatando a execução de Chico Pereira, da qual ele participou, com outros policiais daquele Estado, em 28 de outubro de 1928, perto de Currais Novos. Espancaram, até a morte, o prisioneiro algemado. Desfiguraram-lhe o rosto. E simularam um acidente de automóvel para esconder O crime.

Esta carta constitui o documento de maior impacto, pela crueldade dos detalhes rememorados e pelo convencimento do Tenente, afirmando-se, ainda, um benfeitor da coletividade. Nele, o filho encontra a resposta para o mistério que envolveu, por mais de trinta anos, o desaparecimento do pai. Pode, enfim, ler o atestado de óbito e visitar a cova. Simbolicamente, consegue sepultar o pai.


Esposa de Chico Pereira e mãe do padre Chico Pereira Nóbrega
Fonte ▪ Mulheres do Cangaço
É o objetivo do depoimento: reconstituir os fatos, preencher lacunas, restaurar a memória que as paixões deformaram. Sem fazer de Chico Pereira um herói.

A heroína é Jarda, a mãe que soube compreender, amar, resistir, perdoar e educar para o perdão. A mulher sábia e forte que se opôs ao que parecia fatalidade histórica, encaminhando os filhos para um outro destino.

Localizado no espaço e no tempo, o relato inclui as pessoas com os nomes próprios. Presidentes, coronéis, juiz, delegados, comerciantes, famílias, cangaceiros, etc., cada um com seu papel no tempo sociológico que o autor metaforiza pela semelhança com a geologia: "A era em que tudo era fogo, larvas devoradoras, explosões contínuas, desagregações. Era dos vulcões vomitando maldições". E logo se impõe a correlação: nas entranhas da sociedade, o sectarismo da política partidária, gerando o arbítrio, promovendo a impunidade e a injustiça, com a mesma força destruidora das explosões, do fogo e das larvas.

Começa a história com o assassinato do Coronel João Pereira, avô do autor, provocado dentro de seu estabelecimento comercial. Era o tempo das obras contra as secas, na Presidência de Epitácio Pessoa. O sertão encontrava, no atendimento aos operários das construções, um mercado consumidor significativo. E foi a disputa de poder político e financeiro, entre os proprietários de dois barracões, que originou o conflito.


Pai de Chico Pereira e avô de Chico Pereira Nóbrega, autor do livro "Vingança, Não"
Fonte ▪ Blog do Mendes
Afirma o autor que "não é imaginação nem exagero". Depois da luta, o sangue "descia o batente, fazendo burburinho de água corrente". O Coronel João Pereira morreu, pedindo aos filhos Chico, Aproniano, Abdias e Abdon que entregassem à Justiça. Vingança, não.

Mas a Polícia, a serviço da política partidária, não prendeu o criminoso, sempre com desculpas evasivas que revelavam a cumplicidade. Então Chico Pereira, num gesto inusitado, pede permissão ao Delegado para trazer Zé Dias. E entrega o assassino do pai à Polícia.

Dentro de uma semana, recebe a notícia de que Zé Dias está em liberdade. Era a deformação do Estado de Direito na provocação insuportável. Chico Pereira passa a não enxergar outra saída, além da vingança. E, meses depois, Zé Dias é achado morto no meio da estrada.

Perseguido pela mesma Polícia que favoreceu o assassino de seu pai, Chico Pereira se fez cangaceiro.

"Vingança, não" reconstitui a trajetória dessa vida que, como tantas outras, as circunstâncias históricas e a injustiça precipitaram no desespero, na loucura da violência extrema.


Fonte ▪ Cariri Cangaço
O filho, padre e escritor, recupera os fatos. Com o poder da linguagem, atualiza episódios, diálogos, gestos que agora se perpetuam para o julgamento da história.

O domínio da linguagem permitiu ao historiador que utilizasse em seu depoimento todos os recursos da narrativa de ficção. Fazer viver os personagens, imprimindo-lhes identidade. Dar força e movimento às ações. Reconstituir a intensidade dramática dos fatos. Recuperar o tempo.

Rachel de Queiroz identificou essa qualidade do livro. E, no prefácio, registra, como ninguém mais poderia, o mérito do autor que escreve história, literariamente. Afirma a grande escritora:


cangaco cangaceiro paraiba chico pereira jarda vinganca perdao
Rachel de Queiroz
"É um depoimento que impressiona pela honestidade. — e se às vezes, como obra de arte que é, se alça às puras alturas da beleza, nunca perde a severa imparcialidade que representa sua marca principal".

Pelos recursos da expressão, se fazem inesquecíveis para o leitor: os tocantes diálogos e monólogos interiores dos personagens; o desassombro dos homens, na violência das lutas; a insólita entrega de Zé Dias à polícia; a invasão de Sousa pelo bando de Lampião; a falta de saída, o isolamento, a desgraça e a resistência do cangaceiro; a deformação do aparato policial do Estado; a reação silenciosa e heróica de Jarda.

E que dizer do cavaleiro misterioso, em seu cavalo branco, aconselhando o perdão e desaparecendo para sempre no pingo do meio-dia? E do grito desesperado da mãe de Chico Pereira, ecoando à noite nos descampados e nas serras,
 
Esposa do coronel João Pereira, mãe de Chico Pereira e avó do padre Chico Pereira Nóbrega
Fonte ▪ Blog do Mendes
chamando pelo filho que ela não sabia já executado e enterrado no Rio Grande do Norte?

Há muito se coloca a impossibilidade do limite entre a realidade e a ficção, sob a forma do questionamento repetido: se é a vida que imita a arte ou a arte que imita a vida. Constatando-se muitas vezes que a realidade vivida se apresenta bem mais fantástica e surpreendente do que a imaginação.

O depoimento do professor Francisco Pereira Nóbrega reitera esta conclusão.

E não é sem motivo que tantos leram essa narrativa, como se fosse um romance, apesar de todas as explicações do historiador e do ponto de vista adotado.

A evidência é que, entre a história e a ficção, os núcleos temáticos se correlacionam. De tal modo que, lendo Vingança, não somos naturalmente impelidos a lembrar Pedra Bonita e Cangaceiros de Zelins. E a constatação é de que a história vivida ratifica, em muitos aspectos, a verdade romanesca.

Comparando Aparício, o cangaceiro criado por Zelins, com Chico Pereira, grandes semelhanças podem ser apontadas entre os dois, desde a entrada no cangaço por imposição das circunstâncias.


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Casarão da Fazenda Jacu, em Nazarezinho ▪ Paraíba, onde Chico Pereira nasceu e cresceu / Imagem de 1930 / Local atualmente tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba
Fonte ▪ Tok de História
A partir daí, a vida nômade, o isolamento, a solidão, o desespero sem saída. Não existe caminho de volta para o cangaceiro porque o poder de polícia se exerce como vingança e a justiça está morta.

Outro aspecto relevante nos dois enfoques é a humanização do personagem de ficção e do personagem histórico. Uma visível contestação à ideologia que reduz o cangaceiro a um ser monstruoso, a um bandido sanguinário.


Esse livro é único. Em parte reconstitui a tragédia de um cangaceiro, mas não se encontra aí o seu tema. Na verdade, é um livro sobre o perdão. E mais que isso. Sobre a felicidade de perdoar.
A profunda relação com a família é o argumento incontestável. O cangaceiro amoroso, solidário, preocupado com os seus. O que mais é realçado na ascendência da mãe sobre o filho.

O confronto com a polícia reforça essa perspectiva pela descrição da perversidade como são tratados os cangaceiros, deixando sempre para o leitor a indagação: quem é o bandido?

O desassossego que recai sobre a família dos cangaceiros é outro ponto de convergência entre a ficção e a realidade. Ser irmão, filho, parente de cangaceiro é não ter lugar no mundo. É ser proscrito.

Na ficção de Zelins, é pela ótica da mãe de Aparício que esse problema se caracteriza como maldição. Personagem trágica,
 
cangaco cangaceiro paraiba chico pereira jarda vinganca perdao
sinhá Josefina vai do desespero à loucura, matando-se, enforcada, por não poder mudar a sina da família.

Se os dois escritores se assemelham na colocação dos núcleos temáticos, são diametralmente opostos na visão-de-mundo que conduz o tratamento das questões. Zelins, filiando-se à tradição da tragédia grega, submete seus personagens à fatalidade. Ninguém se salva, todos são vítimas do destino impiedoso e absoluto.

O livro do padre Chico Pereira Nóbrega pertence a outra família do espírito. É uma contestação à fatalidade histórica. A comprovação de quanto pode a consciência humana.

É preciso dizer que o subtítulo não corresponde à dimensão do livro. E me perdoe a ilustre prefaciadora que tanto admiro. É uma injustiça classificá-lo de "mais uma história do Nordeste".

Esse livro é único. Em parte reconstitui a tragédia de um cangaceiro, mas não se encontra aí o seu tema. Na verdade, é um livro sobre o perdão. E mais que isso. Sobre a felicidade de perdoar.


Fonte ▪ Cariri Cangaço
Evitando que os filhos se tornem produto do meio violento, Jarda se torna o símbolo de um poder para o qual o mundo ainda não despertou. O poder da mãe na educação dos filhos. O poder da "professora rural de esmolada mensalidade" capaz de evitar a desgraça e mudar o Destino.

No Brasil conflagrado de hoje, quando as grandes cidades se transformaram em "sertões""Vingança, não" ganha atualidade e faz pensar. É, ao mesmo tempo, a palavra que convence e o exemplo que arrasta.

Deveria chegar a todas as escolas e a todos os presídios, patrocinado pelo Estado e pela Igreja.

Postado originalmente no carlosromero.com.br