segunda-feira, 30 de maio de 2011

O Cangaço em "Fogo Morto"

Por Cristiane Laudemar Rodrigues Assis e Thalita Doretto Brito

Monografia para Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo - FESPSP Faculdade de Biblioteconomia e Ciência da Informação. São Paulo Junho de 2010.


1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem por objetivo analisar como o tema “cangaço” aparece na obra “Fogo Morto”, do autor paraibano José Lins do Rego.

Lins do Rego nasceu em 03 de julho de 1901, no município de Pilar, na Paraíba. Filho de João do Rego Cavalcanti e Amélia Lins Cavalcanti, foi criado pelo avô materno, José Lins Cavalcanti Albuquerque, em decorrência da morte prematura de sua mãe. Tal circunstância colocou-o, ainda menino, em contato com o ambiente que seria presença marcante em sua obra literária: a zona rural nordestina e o engenho de açúcar. Mais do que registrar tal contexto, Lins do Rego foi cronista coevo do processo de modernização pelo qual passou a produção açucareira nordestina, e da decadência que assolou boa parte dos donos dos antigos engenhos, que se viram preteridos pelas modernas usinas açucareiras, que alteraram significativamente o modo de produzir e as relações de trabalho no nordeste, entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.

Conviveu de perto também com o fenômeno social conhecido como cangaço, que só existiu no nordeste brasileiro, entre 1900 e 1940. Portanto, estas serão duas marcas registradas dos romances de José Lins do Rego: o cangaço e a decadência da antiga aristocracia açucareira nordestina, da qual seu avô fazia parte. Sua obra insere-se na escola literária do modernismo, com características regionalistas, onde destaca o Nordeste brasileiro. Nesse contexto, mostrava os problemas e desigualdades sociais de nosso país. Apresentava linguagem simples e coloquial, somente ocasionalmente desrespeitando a norma culta da língua portuguesa. Produziu duas séries de livros temáticos, uma dedicada à cana-de-açúcar e outra ao cangaço.

No ciclo da cana de açúcar publicou Menino de Engenho (1932), Doidinho (1933), Banguê (1934), Moleque Ricardo (1935) e Usina (1936). Esses romances apresentam o processo de decadência dos engenhos da Paraíba, substituídos pelas usinas mais modernas. Apesar do autor não considerar Fogo Morto (1943) um elemento desse ciclo, o declínio da aristocracia açucareira aparece retratado na obra. O segundo ciclo temático das obras de José Lins trata do fenômeno social denominado cangaço. Os títulos publicados foram Pedra Bonita (1938) e Cangaceiros (1953).


1ª edição

1ª edição

Como testemunha ocular do desenvolvimento desse movimento no sertão nordestino, o autor descreve a vida desses bandidos e suas crueldades e peripécias. Podemos afirmar que Fogo Morto também apresenta o assunto, mostrando as lutas entre o cangaceiro Antônio Silvino e o chefe da volante Tenente Maurício. Publicou outros romances sem temas interligados como Meus Verdes Anos, livro de memórias, Histórias da Velha Tetônia, literatura infantil, Pureza, Riacho Doce, Água Mãe e Eurídice.

2. O CANGAÇO 

2.1 Origens O termo cangaço vem de canga, que segundo DÓRIA (1982, p. 24) era “o nome dado ao armamento do indivíduo que andava de bacamarte passado sobre os ombros, tal qual boi no jugo, sobrecarregado ainda de uma quantidade de outras armas”.

O cangaço pode ser classificado como um movimento de banditismo social. Esse termo é utilizado para designar o indivíduo, membro de uma sociedade rural que, pelas injustiças sofridas ao longo da vida, torna-se um fora da lei perante o Estado e a elite latifundiária. Ele se torna um bandido e pratica crimes comuns, como assassinatos, estupros e outros tipos de violência. Seu diferencial é agir contra a as autoridades locais, encarnando uma espécie de justiceiro para as classes sociais menos favorecidas. Geralmente esse tipo de fenômeno acontece em sociedades rurais que passam por um momento de ruptura, que pode ser da mudança entre uma organização tribal ou de clã para uma forma mais moderna de associação como a sociedade capitalista.

Portanto, esses movimentos significariam uma resistência às mudanças sociais, econômicas e políticas de uma região. Geograficamente, o cangaço aconteceu em uma única região brasileira: o sertão nordestino. Originou-se entre as últimas décadas do século XIX e os primeiros anos de século XX. Em meados do século XIX, muitos destes homens eram moradores e/ou agregados de grandes latifundiários e proprietários de gado.

Como seus dependentes, esses jagunços contribuíam com a proteção desse território, cumprindo sempre os pedidos do seu senhor. Juridicamente eram civis, que em momentos específicos pegavam em armas para defender seu coronel ou vingar algum tipo de afronta. “Os bandos de homens armados não eram constantes e sim temporários, agrupando-se e desfazendo-se ao sabor das disputas e dos conflitos”. (QUEIROZ, 1997, p. 24).

Com o tempo, os bandos se tornaram independentes dos grandes latifundiários, especialmente em momentos de grandes calamidades, como períodos muito longos de seca. Nesse contexto, costumava ocorrer a migração do dono da terra e sua família para regiões não atingidas pela seca, abandonando temporariamente a fazenda e regressando posteriormente. Tal fenômeno fora registrado por vários autores, como Graciliano Ramos, em “Vidas Secas”. As alterações climáticas desorganizavam a economia sertaneja, forçando também a migração de parte da população residente. Neste contexto, roubar passava a ser uma opção perfeitamente plausível, e ser cangaceiro se tornava um meio de vida e sobrevivência.

2.2 Fatores 
As causas principais para a ocorrência do cangaço como fenômeno social podem ser divididas em estruturais e conjunturais1. Dentro dos fatores estruturais podemos apresentar três motivos: o tipo de sociedade formada na região, o oferecimento de poucos postos de trabalho e a resistência à instalação dos aparatos do Estado. Nas relações sociais no sertão nordestino, as comunidades eram formadas por grupos de parentela numerosa, unidas por laços de sangue ou de compadrio. No interior destes arranjos, brigas entre grupos familiares diferentes eram constantes, muitas vezes motivadas por honra e vingança. Tais circunstâncias criavam, para os latifundiários, a necessidade de recrutamento de um verdadeiro exército de jagunços, sempre a postos para os mais variados serviços. Segundo nomenclatura proposta por Queiroz (1997).

Contudo, a regra na caatinga era a escassez de postos de trabalho. E, com a seca, as pessoas se deslocavam para regiões mais prósperas, como a Zona da Mata. Quando essas regiões também se encontravam em dificuldades, os assaltos eram constantes. Após o advento da República no Brasil 2, inicia-se a instalação de todo um aparato político-administrativo estatal na região. Havia a necessidade de criar Câmara de vereadores, juizado e órgãos de cobrança de impostos, que nunca estiveram presentes na vida das pessoas que viviam nessa sociedade. Neste contexto, o cangaço é um movimento de resistência a tal “modernidade”. Existem muitos exemplos, citados por Queiroz (1997), sobre cangaceiros que cortavam as linhas de telégrafo, invadiam vilas para desmoralizar as autoridades ou impediam a construção de ferrovias.

É preciso compreender tais ações sob duas perspectivas. Por um lado, o comportamento dos cangaceiros correspondia à defesa natural de seus interesses, uma vez que quanto mais distante as forças repressoras estatais estivessem, mais livres estariam para agir como melhor lhes ocorresse. Por outro, é a reação a um governo longínquo, quase uma abstração, que só era reconhecido pela população em seus agentes repressores, os chamados volantes. Contudo, tais as características não servem, sozinhas, para explicar a ocorrência do cangaço, uma vez que muitas ainda persistem no Nordeste. Para descobrir, portanto, as causas mais prementes para o surgimento desse movimento, é necessário analisar as causas conjunturais, ou seja, os fatores mais imediatos e datados que justificam a origem do fenômeno.

Esses motivos seriam: crises constantes na produção açucareira, a modernização das usinas de açúcar, a falta de compradores para os produtos excedentes do sertão, redução sazonal da oferta de trabalho. A produção açucareira no Nordeste brasileiro foi implantada no século XVI, e foi decaindo a partir da concorrência com açúcar holandês, cultivado nas Antilhas Holandesas3, a partir da segunda metade do século XVII. Apesar disso, o produto nunca deixou de constar na pauta da produção nordestina. A partir de 15 de novembro de 1889.

3 América Central. 
Porém, a partir de 1850 a produção brasileira passou a sofrer muito mais com a concorrência internacional. Além de perder espaço no mercado dos Estados Unidos para a produção de Cuba e de áreas coloniais norte-americanas como Porto Rico, o açúcar brasileiro sofreu também forte concorrência do açúcar de beterraba produzido na Europa. O acirramento da competição no plano internacional foi consequência de vários fatores. Ao açúcar brasileiro era praticamente impossível concorrer em condições de igualdade com zonas produtoras tecnicamente mais avançadas, como as colônias européias na América Central e o sul dos Estados Unidos.

Além disso, tarifas alfandegárias protecionistas nos Estados Unidos e na Europa dificultavam o acesso a estes mercados. Tal situação, aliada ao surgimento de outras áreas produtoras com técnicas novas, como nas Ilhas do Caribe e Egito, elevou a qualidade e aumentou a quantidade do açúcar produzido. Com isso, os preços do produto caíram e o mercado mundial tornou-se instável para os brasileiros – dificultando qualquer tentativa isolada de investimento em maquinário moderno e alterações significativas na forma de se fazer açúcar. Sem conseguir acompanhar a rápida modernização mundial, o Brasil perdeu espaço no comércio internacional, voltando sua produção açucareira para o mercado interno. No caso nordestino, isso se traduziu em produzir, além do açúcar, a rapadura e a cachaça.

Porém, tal mercado era limitado e não impediu a decadência da produção açucareira nordestina. O período do cangaço (1900-19040) coincidiu com esta crise, e com a tentativa de modernizar a produção através da implantação de grandes usinas, que serviram de catalizador da ruína dos engenhos tradições sem, contudo, proporcionar melhorias nas técnicas de plantio da variedade e tampouco nas relações de trabalho que vigoravam no campo. Assim, rareavam os trabalhos possíveis no sertão e, em períodos de seca, havia o desespero dos que precisavam de alguma ocupação para se sustentar.

Queiroz (1997, p. 61 e 62) resume assim as principais causas para o ingresso das pessoas no cangaço: “Menor produção, menor ganho, rebaixamento do nível econômico, maior tempo livre para aventuras e conflitos, era o resultado para o sertão, de crise da cana e do algodão, que se estendeu por todo o começo do século XX”.

2.3 Mito do bom cangaceiro
Os bandos de cangaceiros proliferaram pelos sertões nordestinos. Três personagens principais entraram para a história: Antônio Silvino, Lampião e Corisco. Esses homens se tornaram mitos, e foram transformados pela literatura, cinema e outros instrumentos da arte em justiceiros, lutadores e preocupados com os pobres e oprimidos. Mas será que esses bandidos foram realmente defensores dos necessitados de toda ordem? Os pesquisadores na área afirmam que não.

Essa visão de que o cangaceiro é bom justificou-se porque ele seria um fruto de uma injustiça social e portanto, sensível a elas ao longo de seu percurso como bandido. Segundo Queiroz (1997), os cangaceiros eram somente defensores de seus próprios interesses, sem levar em consideração as necessidades do outro. Para tanto, a autora arrola uma série de características colhidas desses homens por cronistas coevos, que nos dão uma boa idéia de quem eram, na realidade, esses homens. Desta forma, os cangaceiros eram cruéis e sanguinários com todas as classes sociais, não se importando com a miséria do sertanejo mais pobre ou com a fortuna do grande latifundiário. O dinheiro que era roubado não era distribuído aos pobres.

Essa repartição do roubo era feita entre os membros do bando e entre os coiteiros fiéis a eles. Todos os “rivais” eram mortos, sem distinção. Mesmo na literatura de cordel, onde o mito do cangaceiro bom é muito forte, percebemos vozes dissonantes que demonstram que a realidade não é como a arte a recriou. Curran (2003 p. 61 e 62), afirmou o seguinte sobre esse mito: Mais do que em qualquer outro tema do cordel, vê-se aqui o processo folclórico de idealizar a realidade, convertendo-a em mito ou lenda. (...) Virgulino Ferreira, que aterrorizou o Nordeste durante vinte anos, converteu-se totalmente em mito: suas ações sangrentas foram quase esquecidas, e o matador feroz transformou-se em vítima de uma sociedade injusta.

Essa visão romântica do cangaceiro teve sua origem, segundo Queiroz (1997), na década de 50, como figura que demonstrava a nacionalidade do povo brasileiro. Esse é um fenômeno que surge entre intelectuais brasileiros nesse momento histórico. Desta forma, esses pensadores contrapuseram o Nordeste legitimamente nacional e pobre e o Sul do país que era estrangeiro e rico. O cangaceiro torna-se o herói humano e justiceiro, em oposição aos entreguismos ao capital estrangeiro vigente na época. Esse discurso do cangaço retirou a sua realidade, idealizando-o de forma exagerada.

Curran (2003, p. 75 e 76) observa a representação desse fenômeno na literatura de cordel: Os cinquenta anos seguintes [após o fim do cangaço] trarão ainda muitas histórias novas – algumas baseadas em velhos folhetos, outras totalmente ficcionais, ampliando o mito do cangaço. Esse fenômeno tornou-se a epopéia moderna do Nordeste e o cangaceiro, arma política utilizada pela esquerda para disseminar sua visão da política. Chandler (1986, p. 15) demonstra como a realidade do cangaceiro é transformada em mito: Nas sociedades rurais subdesenvolvidas, o banditismo sempre captou o interesse e a fantasia do povo. Na verdade, o fascínio que estes bandidos exercem e a criação de lendas sobre eles (...) parecem ter sido universalmente difundidos.

O homem, ou ocasionalmente, a mulher, que vive fora da lei como um celerado errante, aparentemente livre de qualquer restrição da sociedade, desperta uma fibra de nossa imaginação, principalmente quanto mais remotas forem sua colocação no tempo e no espaço (...) As vidas destes homens serviam de assunto a trovadores e a outros contadores de histórias populares, cuja tendência era a de mitificá- los, exagerando alguma boa ação que por acaso tivessem feito, mas omitindo a realidade histórica.

3. O CANGAÇO EM FOGO MORTO

Em Fogo Morto, o cangaço aparece através da figura do bando do cangaceiro Antônio Silvino, perseguido na região da Paraíba pelo chefe das tropas “volantes”, Tenente Maurício. Apesar da narrativa sobre o tema ser secundária, ela demonstra a visão de José Lins do Rego sobre o assunto. Como filho e neto de senhor de engenho, ele demonstra, ao desenrolar da história, a mesma visão apontada pelos estudiosos sobre o assunto, o cangaceiro cruel e sanguinário, que amedronta boa parte da população, encanta alguns membros das classes sociais mais baixas e manipula a ação dos poderosos da região. Os personagens apresentam comportamentos diferenciados sobre o tema. Mostramos abaixo as principais reações a esse fenômeno.

3.1 José Amaro
O seleiro, que vivia de favor na fazenda de Seu Lula, era um homem amargo e vítima de muitas injustiças. Seu drama pessoal no decorrer do romance é o de ter uma família que não o aceita. Sua esposa, d. Sinhá e sua filha, Marta, parecem seres estranhos para esse homem, que se sente solitário e injustiçado. Amaro é admirador do cangaceiro Antônio Silvino, mesmo sem nunca tê-lo visto. Desta forma, ele demonstra uma idealização do personagem, demonstrada nas seguintes passagens: Em diálogo com o coiteiro Alípio, José Amaro demonstra sua adoração pelo cangaceiro: E foi assim que se viu com um tipo bem perto dele parado. Quis correr para que não o visse, mas não o fez, chegou-se mais para perto.
-Boa noite. É mestre Zé Amaro? 
-Ás suas ordens.  
-Não é nada não, mestre, mas estou aqui a mando do capitão Silvino. O bando está acoitado na Fazendinha, e o capitão me mandou por aqui para saber da tropada Tenente Maurício. Falaram que os macacos passaram o dia de ontem no Santa Rosa.

O mestre estremeceu com a palavra do homem. O nome de Antônio Silvino exercia sobre ele um poder mágico. Era seu vingador, sua força indomável, acima de todos, fazendo medo aos grandes. Quando o aguardenteiro Alípio.  
-È você Alípio?
-Sou eu mesmo, mestre Zé. Eu gosto do capitão. Não vou para o bando dele por causa da minha mãe que ainda tem filha para casar. (Lins do Rego, 1980 , p.57)

Em outra passagem do romance, Zé Amaro demonstra sua admiração por Antônio Silvino: (...) O seleiro não escutava o negro. O capitão Antônio Silvino voltava a tomar conta de seus pensamentos. Admirava a vida errante daquele homem, dando tiroteios, protegendo os pobres, tomando dos ricos. Este era o homem que vivia na sua cabeça. Este era seu herói . (Lins do Rego, 1980, p. 66)

Desta forma, no decorrer da obra, o seleiro se transforma em coiteiro, fazendo alpargatas para o bando ou comprando alimentação para o cangaceiro. Também faz o papel de informante, observando as movimentações do Tenente Maurício.

O homem se foi ,e na casa do mestre José Amaro ficou o terror na sua mulher, e uma sinistra alegria no coração do seleiro. Ele matava galinha e dava para o Capitão Antônio Silvino que mandava em toda cambada de senhores de engenho .Cazuza Trombone,de Maçangana, mudara-se com medo para cidade com medo dele. O velho José Paulino dera um banquete ao Capitão Antônio Silvino. Disseram até que a filha do grande servirá a mesa ,como se fosse ama dos cangaceiros. Sinhá torrara duas frangas para o homem que ele mais admirava neste mundo. (Lins do Rego, 1980, p. 72).

Apesar de toda a admiração que Zé Amaro demonstra por Antônio Silvino, ele acaba por desiludir-se no final do romance, posto que acaba preso e torturado pela volante do Tenente Maurício e o cangaceiro não aparece para salvá-lo e vingá-lo. Nesse trecho, exprime sua angústia, sobre não saber o paradeiro de seu herói. : “Não tinha quem o protegesse. Só esperava alguma coisa do Capitão Antônio Silvino ,que só ele era homem para ajudar um pobre em sua situação. Onde estava ele aquela hora?”(Lins do Rego. 1980 p.268).

Depois de deixar a cadeia, triste e amargurado, o seleiro volta para casa, mas já não existe motivo para sua existência. A mulher a qual ele acusava de seus infortúnios na vida, foi embora, cuidar da filha doente. Aquele no qual depositava todas suas esperanças o havia abandonado quando ele mais precisava. O mestre desiste da vida e com a faca de cortar sola (seu instrumento de trabalho) se mata, desistindo assim de esperar o “salvador da pátria”.

3.2. Coronel Lula de Holanda 
Personagem decadente do sertão nordestino, o coronel Lula não simpatiza com o cangaço e não aceita as ameaças de Antônio Silvino. Mesmo depois do cangaceiro mandar- lhe recado para que não expulsasse José Amaro de sua propriedade, Lula de Holanda não lhes dá ouvidos. Quando o cangaceiro Antônio Silvino invade sua propriedade, em busca do ouro deixado por herança por seu sogro, o latifundiário não cede e acaba tendo uma grave crise de epilepsia, doença que o acompanha ao longo do romance. É sua esposa, D. Amélia, que acaba por interagir com os cangaceiros, afirmando que a propriedade é pobre. E voltando-se para o velho:  

- Coronel, eu sei que o senhor tem muito dinheiro. 
- Como? 
- Não é preciso esconder leite, coronel. O dinheiro é seu. Mas para que esconder?
- Capitão, aqui nesta casa não há riqueza.
- Minha senhora, eu sei que tem. Soube até que muita moeda de ouro. Eu vim buscar um pedaço para mim.

(Lins do Rego, 1980, p. 224) 3.3 Capitão Vitorino Carneiro da Cunha Vitorino Carneiro da Cunha era pobre, mas aparentado com senhores de engenho rico (Coronel José Paulino) e metido com política coloca-se completamente contrário ao cangaço. Afirma em seus longos discursos, que a culpa do fenômeno é do governo, como expressa nesse trecho: “Quem é? ora quem é...O governo, tenente. Se eu fosse governo não havia cangaço.”(Lins do Rego. 1980 p.263).

Quando o Santa Fé é invadido pelo capitão Antônio Silvino, ele mais uma vez lembra a seu primo José Paulino que a culpa de tudo aquilo é dele: “De tudo isto o culpado é você mesmo. Deram gás a este bandido.”(Lins do Rego. 1980 p.260).

Em outro momento, enfrenta o cangaceiro dizendo: “O que eu lhe digo, Capitão Antônio Silvino é o que digo a todo mundo .Eu Vitorino Carneiro Cunha ,não me assusto com ninguém.” (Lins do Rego. 1980 p.256).

Por essa ousadia é espancado, chamado de louco, pois poucas pessoas se atreviam a expressar sua opinião a um cangaceiro como Antônio Silvino sem ser morto. Sua fama em toda região de maluco, sonhador, alienado é um dos motivos que impede sua morte; tanto tropa quanto os cangaceiros o viam como uma pessoa inofensiva.

3.4 – Outros Personagens
Alguns personagens demonstram medo quando o assunto é abordado. É o caso das mulheres, como sinhá Adriana, esposa de Vitorino ou D. Sinhá, mulher de Zé Amaro. “(...) A sua mulher temia com o pavor das notícias do Capitão Antônio Silvino. Marta já de pé, perguntou-lhe o que queria dizer tudo aquilo”. (Lins do Rego. 1980, p. 71).

Outro trecho que demonstra o medo desses personagens pode ser expresso nesse trecho: “O homem se foi, e na casa do mestre José Amaro ficou o terror na sua mulher, e uma sinistra alegria no coração do seleiro”. (Lins do Rego. 180, p. 72).

O Coronel José Paulino, que aparece pouco no romance, mas que acaba mostrando sua influência ao longo do texto, pagava para que o cangaceiro não perturbasse a sua fazenda rica e próspera. Portanto, fazia com que o cangaceiro fosse um aliado, para que suas terras não fossem invadidas. Era inevitável sua aliança com os cangaceiros, pois se houvesse algum atrito entre eles toda sua safra poderia ser saqueada ou mesmo seu engenho.

Os grandes latifundiários como José Paulino, alimentaram muitos anos os cangaceiros ,oferecendo-lhes dinheiro em troca de proteção. “Quer dinheiro capitão? A figura do coronel José Paulino encheu a sala de respeito” (Lins do Rego. 1980, p.258).

Oferecer dinheiro a alguém , é uma forma de mantê-lo sob controle .Enquanto o cangaço fosse útil ao mesmo ,valeria a pena o investimento.


Poster do Filme

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O cangaço é tema presente e recorrente na história do Nordeste e também do Brasil. Surgido entre o século XIX e o século XX, foi um fenômeno que causou um impacto muito grande entre pobres e ricos do Sertão, modificando as relações sociais. Com as constantes secas e catástrofes naturais, o cenário do semi-árido nordestino presenciou o agrupamento de grupos de bandidos, injustiçados pelas mazelas sociais e que incorporavam os valores daquele povo, onde a violência e a honra são temas muito importantes. Contudo, os cangaceiros se tornaram um mito, reiterado constantemente pela arte popular (literatura de cordel) e pela arte burguesa (filmes e livros). Representante da nacionalidade brasileira, o bandido violento e cruel, que não respeitava classe social e que não dividia seus roubos com os mais pobres, se torna um justiceiro, herói do povo que representa. Com essa transformação, percebemos mudança da figura histórica e da figura mítica dos cangaceiros.

Em Fogo Morto, José Lins do Rego mostra tanto o lado mítico, idealizado pela figura de José Amaro, quanto mostra seu lado violento, ao descrever os ataques ao Pilar e à fazenda do Coronel Lula. Esse conhecimento da realidade do cangaço se deve à convivência, em sua infância, com esse fenômeno. Por isso, Lins do Rego acaba desmistificando o cangaço perante o olhar do leitor, mostrando, no final do seu romance, o abandono de José Amaro, que morre sem a salvação de cangaceiro algum.

Referências bibliográficas 

CURRAN, Mark J. História do Brasil em Cordel São Paulo: EDUSP, 2003.
DÓRIA, Carlos Alberto. O cangaço São Paulo: Editora Brasiliense, 1982. (Coleção Tudo é História). FACÓ, Rui. Cangaceiros e Fanáticos: Gênese e Lutas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972. FAUSTO, Boris História do Brasil São Paulo: EDUSP, 2004 (Coleção Didática).
LINS DO REGO, José. Fogo Morto São Paulo, Editora Klick, 1980.
QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de História do Cangaço São Paulo: Global, 1997 (Coleção História Popular).
RODRIGUES, Alfredo O cangaço na obra de José Lins do Rego Tese de Livre Docência. UNESP Araraquara, 1984.

Pescado em : Slideshare
Capas dos livros em: www.tertuliabibliofila.blogspot.com

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Rubens Antonio

Mais um garimpeiro da marca azeda

Confira algumas das imagens e respectivas manchetes de jornais ripadas pelo confrade Rubens Antonio em suas "rastejadas" pela Bahia.

As fotos são escaneadas de jornais deste estado. Infelizmente ainda não conseguimos a nitidez desejada. A intenção é para que nossos leitores constatem que semelhantes a estas há outras imagens que permanecem perecíveis na fragilidade dos jornais e ainda não estão devidamente recuperadas e reproduzidas nos livros.

Quem é este elegante cidadão? 
Esta foto foi "batida" em 1940 na cidade de Salvador quando o ex cangaceiro "Jurity" já em liberdade após um ano e meio de ter se entregado foi visitar os velhos companheiros, cangaceiros do bando de "Labareda", que estavam detidos após as ultimas entregas. Compare com  a sua figura na época do cangaço em foto de 1936.


Os visitados

 Saracura, Jandaia, Labareda, Patativa,  e suas mulheres, com e Deus-te-guie, no centro ao fundo. As meninas eram Zephinha, de Jandaia; Maria Eunice, de Patativa; Flauzina, de Saracura e Ozana, de Labareda.


05 de junho de 1932, no “A Tarde”: (Grafia da época)

"É presa a companheira de um bandido de Lampeão

Dentre os bandidos do grupo de Lampeão, que infelicita os sertões nordestinos, figura o de alcunha “Ferrugem”, que é um cabra destemido e bem disposto.

A policia tem estado por varias vezes na eminencia de captura-lo, não o logrando por causa da sagacidade e dextreza do caibra. Mesmo assim não houve esmorecimento por parte dos perseguidores.

Há dias, foi capturada ali, a rapariga Maria da Conceição, que tinha nos braços uma criança. Interrogada, confessou ser amante do perigoso “Ferrugem”.

Hontem, Maria da Conceição chegava a esta cidade pelo trem do horario, sendo recolhida ao xadrez da delegacia auxiliar, de onde, pela tarde de hoje vae ser mandada para a detenção.

Maria que é cabocla forte e sadia, ao ser inquerida pela reportagem de “A Tarde” nada quiz responder. Não sabia contar os combates.

Só “Ferrugem” que é homem do cangaço – disse rindo-se bastante, deixando á mostra os seus dentes alvos e certos."

Para quem não consegue enxergar o Cangaço em muitas das suas dimensões... aqui uma delas... Uma foto de um soldado morto em Outubro de 1933.


Pedro Emygdio de Oliveira pernambucano, com 36 anos de idade, morto devido a ferimento em confronto com cangaceiros, sendo enterrado no cemitério da Quinta dos Lázaros, em Salvador, Bahia.
Causa-mortis no laudo cadavérico: "sceptcemia grangrenosa, em consequencia de fractura do femur por projectil de arma de fogo."

Já do ladro negro da força: Os despojos de Alagadiço,SE.


 O que restou dos cangaceiros Zé Baiano, Demundado, Chico Peste e Ascelino. 
Foram assassinados por civis em 1936 no Povoado Alagadiço, município de Frei Paulo, SE. Para facilitar a escavação os corpos foram enterrados em um "formigueiro". Após a exumação Zé Baiano teve a cabeça cortada, mas não foi levada. Foram novamente enterrados, alguns ossos estão expostos no Memorial que fica no mesmo local deste massacre.

Corpo de Zé Baiano e a sua cabeça sob o mesmo.

Detalhe da face da "pantera negra dos Sertões".  
Choca? Agora imaginem esta foto em cores!

Postadas originalmente nas comunidades do Orkut : Cangaço, Discussão Técnica
e Lampião, Grande Rei do Cangaço

Ultimos dias? Avía macho!

Centenário de Maria Bonita é comemorado em Vila Velha, ES

Por Patrick Monteiro (redacao@eshoje.com.br)




Em 2011 é comemorado o centenário de uma das figuras mais marcantes do Brasil, Maria Bonita, esposa de Lampião. A nordestina lutou ao lado do marido durante o período conhecido como cangaço no sertão nordestino. Maria Bonita que nasceu em oito de Março, dia posteriormente conhecido como "Dia Internacional da Mulher", é um ícone feminino no país. Para a comemoração, uma exposição foi montada no Shopping Praia da Costa, em Vila Velha.

A 1º Vila Velha Arte Cult, está montada na praça de eventos do shopping de Vila Velha, e conta contará a história da cangaceira, ao lado de seu marido, através de uma galeria de fotos que irão demonstrar os costumes e vestuário dos anos 20. Também haverão peças artesanais da região, condimentos e culinária típica nordestina: bijous, rapadura, tapioca, gamelas de madeira.

Para recepcionar, uma Maria Bonita em tamanho natural feita de cera. Também faz parte do calendário capixaba de comemoração, a presença do historiador, João de Sousa Lima, que especializado em estudos do cangaço. O especialista receberá os participantes para um bate-papo sobre a época e autografará seus livros sobre o assunto.

Serviço:
1º Vila Velha Arte Cult
Período da exposição: até 02 de Junho.
Local: Praça de Eventos, no piso L1 do Shopping Praia da Costa.
Informações: (27) 3320-6000


Açude: EShoje

27 de Maio de 2011

71 anos da morte de Corisco e "fim" do Cangaço "Lampiônico"

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Vai ter Vera, Leandro e Geraldo

“O cangaço e a literatura” é tema do “Seminário Brasil, brasis” que acontece Hoje na ABL.



A Academia Brasileira de Letras promove o segundo “Seminário Brasil, brasis” deste ano, apresentando o tema “O cangaço e a literatura”.

Sob coordenação geral do Acadêmico e presidente da ABL Marcos Vilaça, e coordenação do Acadêmico e poeta Carlos Nejar, o seminário contará com as presenças de Antonio Campos, Felipe Fortuna, Geraldo Ferraz e Leandro Cardoso Fernandes, como expositores.

"A ABL está sempre disposta a debater todo e qualquer tema que diga respeito ao interesse cultural da sociedade. Queremos sempre trazer para esta Casa os saberes vários e todas as manifestações históricas e artísticas. O papel da Academia é o de preservar e valorizar a memória nacional: a língua como instrumento do conhecimento e da convivência; as letras como reveladoras e formadoras da identidade nacional, sem deixar de fora nada que é humano. E o Seminário “Brasil, brasis”, sobre “O cangaço e a Literatura”, nos revela também este lado humano”, afirmou o Presidente Marcos Vinicios Vilaça.

Vera Ferreira, neta de Lampião – o famoso Virgolino Ferreira, um dos cangaceiros mais enaltecidos pela literatura e o cinema, também conhecido como o “Rei do cangaço” – e Maria Bonita, e filha de Expedita, dedica-se exclusivamente à concretização de um de seus sonhos: escrever um livro baseando-se nas histórias que levantou ao longo de seus 27 anos de pesquisa. Convidada pela ABL, Vera confirmou presença no seminário.

Vera disse que, desde criança, cresceu ouvindo contar histórias sobre seus avós e seu cotidiano. Fato que foi enriquecido pela companhia de pessoas que viveram as histórias deles e de outros cangaceiros:


Vera Ferreira
"Tenho lembranças de fatos de ex-cangaceiros, ex-volantes, ex-coiteiros e pessoas que conviveram com eles. O que mais me marcou foi a confirmação de que meu avô era um homem de palavra e que minha avó, que faria em 2011 cem anos, era uma pessoa alegre. O convite da Academia me deixou muito contente, até porque estará debatendo um tema que me é apaixonante, o cangaço. Acho importante essa troca de informações num espaço onde temos pessoas que lêem, escrevem e ouvem", afirmou.

O pátio da Academia vai receber repentistas, violeiros, declamadores e poetas de cordel, que ilustrarão o seminário antes das palestras.

O evento, patrocinado pelo Bradesco, tem início às 17h30min, no Teatro R. Magalhães Jr., com entrada franca e transmissão ao vivo pelo Portal da ABL. 

Saiba mais

Antonio Campos
Poeta, advogado, editor e empresário, Antonio Campos, filho do escritor Maximiano Campos, nasceu no Recife, capital pernambucana. Está à frente da Campos Advogados, escritório de advocacia associada à Noronha Advogados e com atuação em diversos países, do Instituto Maximiano Campos, ONG voltada para a promoção da arte literária, e também da Editora Carpe Diem.

Currículo de Antonio Campos

Felipe Fortuna
Mestre em Literatura Brasileira pela PUC/RJ, é poeta, ensaísta e diplomata. Publicou diversos livros de poemas, a partir de 1986. Lançou, em 2005, Em Seu Lugar (Editora Francisco Alves), com a reunião dos livros de poesia já publicados e um conjunto novo de poemas.

Currículo de Felipe Fortuna

Geraldo Ferraz
O administrador, artista plástico e escritor Geraldo Ferraz é também Membro da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço - SBEC (2005), Mossoró – RG, Membro da União Nacional de Estudos Históricos e Sociais – UNEHS de São Paulo, Acadêmico da Academia de Letras e Artes de Gravatá e da Academia de Artes e Letras do Nordeste.

Currículo de Geraldo Ferraz

Leandro Cardoso Fernandes
Médico cardiologista e ecocardiografista pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP) e membro titular da Sociedade Brasileira de Cardiologia, cujo departamento de Hipertensão representa no Piauí.

Currículo de Leandro Cardoso


Cangaceiros cariocas liderados pelo capitão "Carlos Eduardo" "num me vão perder exta"

Açude:  ABL.org.br

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Epitácio Andrade no rastro do "Cangaceiro Romântico"

Coroné Severo, curador do Cariri Cangaço e Dr. Epitácio Andrade
na ocasião da ultima reunião extraordinária da SBEC em Fortaleza.
Imagem ripada no Blog da Folha Patuense.

Se o cangaço Lampiônico tem essa notória infinidade de amantes faço saber aos amigos que está se revitalizando e conquistando novos adeptos o Movimento dos "Jesuinistas" através do empenho do Dr Epitácio Andrade.

Vamos conferir uma de suas entrevistas concedida a Gilberto Cardoso dos Santos. O pesquisador relata os detalhes dos seus projetos e sobre a produção literária, musical, teatral, e audiovisual a respeito do cangaceiro Potiguar.

Dr. Epitácio! Fale-nos sobre sua pessoa, profissão e trabalhos que tem desenvolvido.
- Sou médico psiquiatra por formação. Pertenço ao quadro de saúde da Polícia Militar e do Hospital Psiquiátrico Dr. João Machado, em Natal, onde resido. Trabalho em várias cidades do estado. Nasci em Catolé do Rocha/PB, “a praça de guerra”, como chama o conterrâneo Chico César, e fui criado no Patu, no médio-oeste potiguar, terra natal de Jesuíno Brilhante.

Desde quando surgiu seu interesse pelo fenômeno do cangaço e o que o motivou a estudar o tema com tanto empenho?
- Herdei o meu nome do meu pai Epitácio Andrade, ex-prefeito de Patu, que foi aluno do Professor Raimundo Nonato, no Colégio Diocesano de Mossoró. Doutor Raimundo Nonato é o autor de “Jesuíno Brilhante, o cangaceiro romântico”, sendo, portanto, o principal biógrafo de Jesuíno. Na minha infância, os meus pais recebiam e acolhiam o Professor Nonato em nossa residência em Patu, quando ele vinha pesquisar no acervo da casa paroquial. Talvez por meu nome significar “ofício de estado”, sentia-me na obrigação de acompanhá-lo em suas investigações. Posteriormente, passei a entender o resgate da nordestinidade como um ofício de estado.

 Capa da 3ª edição produzido pela Fundação Vingt-Un Rosado

Fale-nos, em linhas gerais, sobre a figura do cangaceiro Jesuíno Brilhante e sobre o que mais chama sua atenção na pessoa dele. 
- Jesuíno Alves de Melo Calado, “Jesuíno Brilhante”, apelido para homenagear um tio, nasceu no Sítio Tuiuiú, na zona rural de Patu, no Oeste do Rio Grande do Norte, em 2 de janeiro de 1844, e morreu na Comunidade rural Santo Antônio, em São José de Brejo do Cruz, na fronteira paraibana, em dezembro de 1879. A sua capacidade de transformar a tragédia cotidiana sertaneja em questão política, acredito ser sua característica mais louvável.

Há alguma associação entre seus estudos na área da psiquiatria e o tema do cangaço? Do ponto de vista psiquiátrico, poder-se-ia dizer que Jesuíno Brilhante, mesmo tendo vivido uma vida tão fora do comum, fosse uma pessoa normal?
- A violência é o principal fator estressogênico na sociedade contemporânea. Estudar os seus determinantes sociais ajuda a compreender o sofrimento psíquico das pessoas. No “Banquete dos Signos”, o poeta de Brejo do Cruz diz assim: “Discutir o cangaço com liberdade é saber da viola, da violência...”, fazendo-nos acreditar que compreendendo conflitos familiares e outros determinantes do cangaço, poderemos elaborar mecanismos de superação da violência humana, com arte, com poesia, com música. Jesuíno era um sertanejo comum até ser vítima da violência, quando partiu para o cangaço. Neste caso é preciso parafrasear outro poeta: “De perto, ninguém é normal”.

Seus estudos são direcionados exclusivamente à saga de Jesuíno brilhante ou outros personagens e fatos relativos ao cangaço entram em pauta?
- Entrei para a Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço a convite de Kydelmir Dantas, em 2005, quando apresentei a tese: “A Importância Histórico-social do Cangaço de Jesuíno Brilhante”, defendida numa sessão de estudiosos do cangaço, no museu Lauro da Escóssia, em Mossoró. Realizei pesquisa etnográfica sobre o cangaceiro Liberato Cavalcanti de Carvalho Nóbrega, contemporâneo de Jesuíno Brilhante, inspirando o Poeta Gil Hollanda a compor o cordel “O delegado que virou cangaceiro”. Produzi, em parceria com o Coronel PM/RN Ângelo Mário de Azevedo Dantas, o artigo: “O Fogo da Caiçara – Início da Resistência ao Bando de Lampião no Rio Grande do Norte”. No momento, estou empenhado na viabilização de lugares de memória do cangaço, uma consequência direta da aprovação da dissertação de mestrado da Professora Lúcia Souza, de quem fui coorientador.

Ripado em Pola Pinto

Do ponto de vista psiquiátrico, como analisa o desejo de justiça e vingança inerente ao ser humano que busca fazer justiça com as próprias mãos?
- A prática da vingança é a realização da justiça com as próprias mãos, que consiste na persistência de impulsos heterocidas primitivos do animal humano. Do ponto de vista social, é a manutenção da lei do Talião: “Dente por dente, olho por olho”. É a contramão dos caminhos civilizatórios.

Trace um quadro comparativo entre Jesuíno Brilhante e Lampião.
- Estou formulando um projeto de pesquisa que procura contextualizar a história das principais lideranças do cangaço (Jesuíno Brilhante, Antônio Silvino, Lampião e Corisco) com a evolução do diagnóstico da personalidade psicopática. Estou com 45 anos e acredito que levarei até o resto da vida pra concluí-lo, se chegar a concluir. Este projeto permitiria desenvolver, como técnica de investigação científica, uma espécie de “necrópsia psiquiátrica”. Como tenho consciência que esta não é uma tarefa para uma pessoa só, estou recebendo o suporte teórico de autoridades do campo psiquiátrico e contatando Psicólogos para ingressarem no projeto; e vou solicitar a colega Psiquiatra Suzana Brilhante, da descendência de Jesuíno, uma colaboração para esta formulação científica. Utilizo este comentário para justificar a dimensão da complexidade da resposta a sua pergunta. Se fosse realmente traçar um paralelo entre Jesuíno e Lampião, apresentaria inferências históricas, não conseguiria, no estado atual do conhecimento científico, descrever, fidedignamente, suas personalidades.

O que, de seu conhecimento, já se produziu em termos de literatura culta ou popular e arte cinematográfica sobre a pessoa de Jesuíno Brilhante? Que trabalhos destacaria?
- Podemos dividir a produção literária sobre o cangaço de Jesuíno Brilhante em autores memorialistas, como Raimundo Nonato, José Gregório, Alicio Barreto, Frederico Pernambucano de Mello e Luiz da Câmara Cascudo, que fica na transição com os ficcionistas, como Rodolfo Teófilo e Gustavo Barroso. O menestrel Ariano Suassuna dedicou seu romance “A Pedra do Reino” a Jesuíno Brilhante. A literatura de cordel é extremamente significativa para a memória do cangaço, sendo cordelistas importantes: Rodrigues de Carvalho, autor do “ABC de Jesuíno”, Gil Holanda, Luiz Antônio de Malta e Zé de Alzerina. O comunicador Miguel Câmara Rocha editou dois números da Revista “Roteiros de Patu”, que narra o conflito dos brilhantes com os limões, com base no livro “Solos de Avena” de Alício Barreto, editado em 1905. O filme “Jesuíno, o cangaceiro”, do Cineasta ipanguaçuense William Cobbet, produzido em 1972, reveste-se de importância cultural para o Rio Grande do Norte por ter sido o primeiro, integralmente, rodado no estado e o trânsito dos atores, durante as filmagens em Natal, ter originado o nome da “Praia dos Artistas”. Destacaria duas produções culturais sobre o cangaço de Jesuíno: O espetáculo teatral “O Auto de Jesuíno”, do Dramaturgo Ricardo Veriano, editado no período de 2001 a 2008, durante a feira da cultura de Patu, e “Jesuíno Brilhante em História de Quadrinhos”, de Emanoel Amaral e Alcides Sales.


Flogão de Arievaldo Viana
Acha que se tem dado a devida importância à preservação da memória de Jesuíno ou o Rio Grande do Norte peca nesse aspecto?
- Não conheço iniciativas de governo voltadas para o desenvolvimento da memória do cangaço de Jesuíno Brilhante. Só conheço ações independentes, construídas com muitas dificuldades e, praticamente, sem apoio.

Qual a importância de se batalhar para manter viva a memória de uma pessoa com o perfil de Jesuíno Brilhante; seria apenas um hobby ou muito mais que isso?
- O desenvolvimento da memória do cangaço de Jesuíno permite o alargamento da compreensão de nossa história, da história do Sertão, do Brasil e dos fenômenos sociais, ampliando nossos horizontes culturais, favorecendo a criação de alternativas de desenvolvimento sustentável para uma das regiões mais pobres do mundo. Como também, possibilita a superação de ideias e comportamentos preconceituosos, melhorando a consciência política do povo, ajudando a formar massa crítica.

Que projetos tem em mente relativos à preservação da memória de Jesuíno Brilhante?
- Estou empenhado na viabilização de lugares de memória do cangaço, em dois epicentros principais: o município de Patu, lugar de nascimento de Jesuíno Brilhante, onde defendemos a criação de uma reserva ambiental que englobe o conjunto de serras do município, possibilitando a preservação das cavernas que o cangaceiro utilizava como esconderijo e desenvolvimento do turismo ecológico, adsorvendo-se ao turismo centrado no Santuário do Lima; e o outro epicentro é o município de São José de Brejo do Cruz, na Paraíba, lugar da morte do cangaceiro, onde defendemos a implantação de um parque temático do cangaço. Fora destas articulações políticas, estou ultimando a feitura do livro “A Saga dos Limões – Negritude no Enfrentamento ao Cangaceiro Jesuíno Brilhante”

O que se conseguiu resgatar dos objetos pessoais de Jesuíno e onde esse material pode ser visto?
- Recentemente, eu e Ricardo Veriano descobrimos uma relíquia que pode ter pertencido ao cangaceiro brilhante. No próximo dia 29 de abril de 2011, em Currais, numa pousada rural, estaremos apresentando o punhal de Jesuíno e estimulando um debate com estudiosos do cangaço para testar a autenticidade da descoberta. Na casa da cultura de Campo Grande/RN, encontram-se a moringa e a garrucha. No museu Lauro da Escóssia, em Mossoró/RN, está o bacamarte “Bargado”. E em Martins/RN, encontra-se o bacamarte de cano curto, pertencente ao acervo do autodidata Júnior Marcelino.

Fale-nos sobre o documentário que produziu sobre o local da morte do cangaceiro.
- Em 2005, produzi o Documentário: “O lugar da Morte de Jesuíno Brilhante”, que apesar das limitações técnicas subsidiou o projeto, que resultou na dissertação de mestrado da Professora Lúcia Souza. O roteiro da produção é centrado no depoimento do cidadão centenário Mário Valdemar Saraiva Leão, fundador da cidade de São José de Brejo do Cruz, que apontou em visita a localidade, chamada “Serrote da Tropa”, na comunidade rural Santo Antônio, como o lugar mais provável da morte de Jesuíno, ratificando as informações dos memorialistas. O documentário tem a participação do cancioneiro octogenário Chico Mota e do repentista Zé de Alzerina, conterrâneo do Sítio Tuiuiú. Uma dupla de descendentes de Jesuíno Brilhante entoa a música de domínio popular “Corujinha”, que era cantada por Jesuíno e seu bando. Ao som de grupos culturais do município, a benzedeira Francisca de Mica encenou um fechamento coletivo de corpos, tradição ritualística dos tempos do cangaço de Jesuíno Brilhante.

Ripada do Blog da Folha Patuense
 Conte-nos fatos relativos à vida de Jesuíno que fazem parte do imaginário popular mas não têm qualquer base histórica.
- O Professor Raimundo Nonato procurava, insistentemente, alguma certidão de casamento que constasse o nome de Jesuíno Brilhante como padrinho. Nunca conseguiu encontrar. Porém, na história oral do cangaceiro romântico constam inúmeras referências que ele reparava a honra de moças pobres seviciadas pelos filhos dos ricos fazendeiros da região, no seu processo de iniciação sexual, forçando-lhes o casamento. Os apologistas de Jesuíno afirmam que isso ocorria por uma questão puramente ética, que estava relacionada a moral inabalável de Jesuíno. Nossos dados apontam para a determinação econômica da ação do cangaceiro, ou seja, forçando o casamento não-programado, Jesuíno introduzia novos atores sociais na divisão da terra.

Para o senhor Jesuíno deve figurar como herói ou bandido? Por quê?
- Tem-se que contextualizar, historicamente, as ações cangaceiras de Jesuíno. Não devemos fixá-lo num ponto dessa polaridade herói-bandido. A palavra, que julgo mais adequada para a resposta é do antropólogo Roberto da Mata, relativizar.

Como diferencia o fenômeno do cangaço das gangues que controlam certas regiões pobres do Brasil?
- O cangaço é um fenômeno geo-histórico, que ocorreu da segunda metade do século XIX ao início da década de 40 do século XX, principalmente nas áreas rurícolas do Sertão do Nordeste Brasileiro. A alta delinquência é um fenômeno da contemporaneidade, que se espalhar nas grandes cidades, sobretudo, no espaço suburbano. No cangaço não havia intenções de tomada do poder político, simplesmente porque o líder cangaceiro era a incorporação do poder absoluto. Na marginalidade organizada, não há intenções de tomada de poder pela total ausência de um referencial ideológico. Poderíamos pensar várias outras diferenças.

Qual o papel e importância da leitura em sua vida, como se deu sua entrada no mundo dos livros e que autores o influenciaram?
- Comecei a ler influenciado por minha mãe Lourdinha Holanda e pela Professora Raimunda Cleonice Dantas, Dona Nice. Na infância, recebi a influência de Monteiro Lobato. Na adolescência, do médico Ernesto Che Guevara. Para desenvolver os estudos sobre Jesuíno Brilhante, a principal influência, foi, sem dúvidas, do Professor Raimundo Nonato. Já na fase adulta, percebo a influência de Euclides da Cunha, Josué de Castro e do Escritor peruano Mário Vargas Llosa. Quanto ao papel e a importância da leitura, não consigo identificar outro caminho que possa mais contribuir com a busca pela plenitude humana, que não seja o caminho das letras. Por outro lado, Seu João de Artur, que comanda um grupo folclórico e afirma que “a diversão é necessária”, diz que o homem deve ser “ou bem lido, ou bem corrido”.

Cite algum pensamento, trecho de livro ou poesia que aprecia muito.

Foto: polapinto.blogspot.com
Gilberto Cardoso dos Santos – Professor, Cronista e Poeta – Um dos fundadores da Associação Potiguar de Escritores de Cordel.

Pescado em polapinto.blogspot.com

terça-feira, 24 de maio de 2011

Não morda a língua

Não desperdice material, não confunda...


Amigos, sei que falta muita, mas muita coisa.

Avaliei os principais tropeços, reunindo nosso humilde conhecimento e nos valendo de textos e respectivos autores de seriedade, e selecionamos as informações que vocês verão a seguir.

Preciso dizer que o conteúdo do artigo parte do princípio básico.

É direcionado a quem precisa colher, corrigir ou está aplicando tais informações em determinado trabalho e ainda pode refazê-las.

A sofistica é persistente, são muitos os "erros primários" cometidos principalmente pela imprensa, revistas de variedades, música, cinema... e por nós blogueiros inclusive etc.

Vamos aos deslizes menos técnicos.

Engana-se, ou insiste no erro, quem pensa que Virgolino só se tornou cangaceiro com a morte do pai.

De fato, desde a briga com Zé Saturnino, que Virgulino e os seus irmãos Antônio e Levino já estavam vivendo uma vida nômade. Quando foram para Alagoas, juntaram-se ao bando dos Irmãos Porcino. Se os Porcinos já eram cangaceiros famosos no nordeste precisamente no sertão de Alagoas, e Virgulino se junta a eles, certamente já estava sendo cangaceiro.

Ou será que ele estava lá “catequizando” os bons irmãos?

Irmãos Ferreira e irmãos Porcino fizeram um assalto grandioso à Vila de Pariconha/AL, o que gerou a perseguição comandada pelo então Tenente José Lucena, e que veio a culminar com o assassinato do patriarca José Ferreira. Dona Maria Lopes a matriarca da família Ferreira não foi assassinada junto com seu marido. Morreu de infarto fulminante aos 47 anos de idade dia 22 de maio de 1921 na localidade de Engenho Velho próximo ao vilarejo de Santa Cruz do deserto/AL.

José Ferreira aos 48 anos no dia oito de Junho de 1921 é assassinado pela volante comandada por José Lucena Albuquerque Maranhão acompanhado do delegado Amarilio Batista e do sargento Manoel Pereira .

Zé Saturnino, sempre esteve ao alcance de Lampião, e esse, não desejou mais matá-lo, como também, ao grande inimigo Ten. José Lucena. O fato de Lampião deixar seus inimigos ( nº 01 e 02 ), com vida, é para justificar perante a população nordestina, ou seja, pretexto para continuar no cangaço, matando, estuprando, sequestrando, extorquindo, além de outros crimes. Ele passou a gostar da vida errante, e do dinheiro que essa lhe rendia. O escritor Frederico Pernambucano de Mello, denomina isso de " ESCUDO ÉTICO ", em sua belíssima e recomendada obra: Guerreiros do Sol. Também, para justificar sua vida no cangaço, o rei vesgo invoca a morte do seu genitor, no sentido de vingança.

Zé Saturnino faleceu em sua fazenda, a 05 de Agosto de 1980, com a idade de 86 anos e já sem lucidez.

Quanto a Zé Lucena faleceu em maio de 1955, vitimado por uma doença.

Lampião passa a ver no cangaço, " UM MEIO DE VIDA ", uma profissão, visando lucro, vejamos uma interessante passagem colhida por Frederico.

O facínora Pedro Barbosa da Cruz, vulgo 'Pedro Miúdo', encontra-se com o bando de Lampião na Faz Riacho Fundo, perto de Antas, município de Águas Belas. O rei do cangaço, o convida para acompanhá-lo, ao que "Miúdo" lhe responde, que fora soldado de uma volante comandada pelo Ten. José Lucena, e o mataria por "cinco contos de réis". Surpreso, Lampião agradeceu a oferta com um raro gesto de prodigalidade: dá-lhe de presente, uma faca de cabo trabalhado. Em seguida, dirigindo-se ao cabra, devolve a surpresa com a seguinte confidência:

" Deixe isso. Essas questões já estão velhas". (Fonte: Livro - Guerreiros do Sol, pg.123).

 José Lucena e Zé Saturnino.
Questões superadas.

...Que Lampião era cego em virtude de um Glaucoma. Errado.
Virgulino sofria com um Leucoma

De fato, Glaucoma é endurecimento e aumento do volume do globo ocular, causado por um aumento de pressão sanguínea naquela região. Leucoma, ainda segundo o Dicionário Aurélio, é o “embranquecimento ou turvamento da córnea que é transparente”. Até onde se sabe, Lampião já trazia o Leucoma desde a juventude, e se agravou em um combate com um grupo de nazarenos. Reza a história que David Jurubeba, após disparar um tiro, este atingiu uma moita de quipá (palmatória), e um espinho veio a atingir o olho de Lampião, provocando um agravamento de uma situação já preexistente.

... Que o  fato das volantes se trajarem igual aos bandoleiros era tática ou ordem oficial.
Governo nenhum deu determinação para que soldados se vestissem de Cangaceiros. Foi um uso que se formou com o tempo, tanto que em 1926, o Governador de Pernambuco Sérgio Loreto, fez baixar ‘Portaria’ exigindo o uso do traje militar para as tropas volantes.


Aqui é uma das forças volantes de "Nazaré" sob o comando de Euclides Flor.
Por conta das suas vestes as imagens dos Nazarenos em sua totalidade são quase sempre assimiladas aos cangaceiros. 

Encontrei diversos artigos ilustrados que fizeram os grandes chefes se revirarem no túmulo. 

... Que o cangaceiro José Leite de Santana, O Jararaca, "abriu a própria sepultura". 

 Homero Couto, que foi o motorista do carro que levou Jararaca, desmente . Disse que o “buraco já estava aberto e que a ação não durou mais que dez minutos”. Ou dá pra se abrir uma cova nesse espaço de tempo?


 LEGENDAS E TERMOS

Não é gruta  
É GROOOOOOOOTA

Angico não é e nunca foi território Alagoano. 
A fazenda pertencia à antiga região de Campo-Santo do Morgado do Porto da Folha. Porto da Folha, também em Sergipe, é uma  cidade "vizinha" e permanece com este mesmo nome.


  Ambas cidades circuladas no canto superior

Não é Eronildes
É Eronides.

Não é Pedro de "Cândida". 
É Pedro de Cândido, seu nome completo era Pedro Rodrigues Rosa. A mãe de Pedro se chamava Guilhermina, e o pai, Cândido.


 Esta moça não é Maria Bonita é a cangaceira Inacinha
uma das companheiras do cangaceiro Gato. 


Esta também não é Maria. É "Nenêm"
companheira de Luís Pedro.


 À esquerda. novamente "Nenêm", ao centro "Luís Pedro"
seu esposo e a direita "Maria Bonita".


Este é o ator Chico Dias e não o cangaceiro Corisco". Ele interpretou o "diabo loiro" num longa de 1997. Foram detectados trabalhos incluindo esta foto de divulgação entre fotos originais de cangaceiros.


 Vários livros apontaram essa bela cabrocha, Maria Jovina, companheira do cangaceiro 'Pancada' como sendo Lídia, a cangaceira que fora assassinada pelo seu companheiro Zé Baiano, que não possui fotografia.



Pesquisa a partir de textos de: Sérgio Augusto de Souza Dantas, Ivanildo Silveira e Kydelmir Dantas. Os amigos podem colaborar sugerindo outras correções via comentário ou email para uma próxima edição.

Abraçando
Kiko Monteiro 

  

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Volantes

Tenente Pompeu e a morte do cangaceiro Virgínio 

Por: Aderbal Nogueira

Segue um trecho importante que gravei com meu amigo Ten. Pompeu Aristides de Moura, em 1996.

Vejam que coisa: Estava eu batendo, literalmente, de porta em porta em um bairro meio antigo de Arcoverde - Pernambuco, tentando encontrar alguém da época do cangaço, quando vi um senhor de aproximadamente 90 anos em um portão e, ao interpelá-lo ele me disse que não era dali, era de São Paulo. Nessa mesma hora uma criança passava correndo na calçada e ouviu a conversa, voltou correndo e disse - " Meu avô brigou com Lampião e ele mora bem ali". Pois bem, era o Ten. Pompeu, uma pessoa maravilhosa, de quem fiquei amigo e admirador.

Nessa época eu não pertencia à SBEC e nem conhecia o monossilábico amigo Paulo Gastão, a quem tempos depois levei para conhecer o Ten.Pompeu. Nesse primeiro contato gravei aproximadamente oito horas com ele e um dos fatos é esse que envio a vocês
- "A morte de Virgínio e uma perseguição ao bando em Serrinha do Catimbau".

Quase uma década depois, ciceroneado pelo amigo Vilela; que apesar do tênis VERMELHO e do bornal coloridíssimo; é um cabra arretado de quem eu tenho orgulho de ser amigo, desses que a gente guarda do lado esquerdo do peito, nos guiou por Serrinha do Catimbau onde pude gravar os outros dois depoimentos das senhoras Josefa e Maria do Carmo, que foram testemunhas oculares do ataque de Lampião àquela localidade e na qual o Ten.Pompeu veio em perseguição ao bando.

Espero que gostem do vídeo.

Aderbal Nogueira
Documentarista
Fortaleza,CE

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Adendo Lampião Aceso: 
Ten. Pompeu Aristides de Moura faleceu em 21 de Setembro de 2001.

Adendo Ivanildo Silveira:
1º) Não se sabe exatamente, qual o soldado que matou " Virgínio " , cunhado de Lampião, pois eles atiraram simultaneamente no grupo de cangaceiros, conforme relata o Ten. Pompeu.

2º) O Ten. Pompeu informa que em um combate no Estado de Alagoas, as "BALAS " usadas pelo grupo de Lampião, eram do ano de 1932, enquanto que as usadas pela polícia datavam de 1912/13 .

Se nós vermos o depoimento do Ten. Zé Rufino , no documentário de Paulo Gil, " Memória do Cangaço ", o mesmo informa, exatamente, o que o Ten. Pompeu narrou, logo acima, ou seja, as " balas " usadas em combate pelo grupo dos cangaceiros de Lampião, eram sempre " Balas Novas", enquanto a polícia, usava uma munição mais antiga .

3º) O Árabe Benjamin Abrahão, o qual fotografou e filmou Lampião e seu grupo , foi encontrado várias vezes na caatinga á procura do chefe cangaceiro, sem que a polícia o repreendesse, ou tomasse qualquer atitude contra o mesmo.

4º) No combate de Serrinha do Catimbau/PE, Lampião teve sua amada (Maria Bonita) ferida, com uma certa gravidade , além de ter perdido um cachorro, que foi fuzilado pelo grupo de civis, que defenderam aquele arraial do ataque cangaceiro.

5º) Comungo com o pensamento daqueles que entendem, que ainda, falta muita coisa a ser estudada/explorada no ciclo cangaceirístico.

6º) O amigo Aderbal possui as grandes qualidades de preservar a memória do cangaço, além de partilhar com os amigos, as informações e o fatos que detém, em seu acervo, O que não acontece, infelizmente, como muitos estudiosos do cangaço.

É por ai....
Faleceu o escritor Geraldo Aguiar


Soubemos através de Coroné Severo informado pelo chanceler Paulo Gastão.

Foi na ultima quinta-feira 19 de maio, por um infarto fulminante, por volta das 21 horas, faleceu José Geraldo Aguiar, em Brasília de Minas, MG. Tendo seu corpo sido sepultado no dia seguinte na sua cidade natal São Francisco. Tinha 61 anos de idade, deixa a viúva, Edny Prestes Aguiar e três filhos.

 A tese defendida por Geraldo

Geraldo Aguiar exerceu a profissão de fotógrafo em São Francisco, por mais de 36 anos, com muitos contatos, tomou conhecimento dos rumores na região de que "Lampião" estaria vivendo naquele Município.

Passou a pesquisar e encontrou um homem sisudo, estranho, com um defeito no olho direito, usava óculos escuros e que não era de ter amigos. Procurou se aproximar daquela pessoa, travando conversas, puxando assunto, até que ficou sabendo de se tratar de João Teixeira Lima.

Os contatos foram aumentando. João Teixeira Lima passou a ter confiança em Geraldo Aguiar. Muitas informações foram transmitidas ao fotógrafo, até que num determinado dia, João Teixeira confessou que era, na realidade, Virgulino Ferreira da Silva, narrando toda a história de sua vida e como ele renunciou ao cangaço e fugiu para Minas.

Em 1992, Geraldo Aguiar disse para João Teixeira Lima que queria escrever a sua história, para corrigir o equívoco daquele episódio de Angico. Ele disse:  

" Meu passado foi muito problemático, não posso aparecer. Faça o que for possível, mas, não anuncie nada antes da minha morte. Vou morrer no ano que vem. Deixo minha mulher autorizada a colaborar com você em tudo que for possível.”

Realmente, João Teixeira Lima veio a falecer no ano seguinte, o óbito foi registrado em nome de Antônio Maria da Conceição, esputado em Buritis-MG e a sua então mulher, Severina Alves de Morais, conhecida por Firmina, outorgou procuração para José Geraldo Aguiar, prestou todas as informações necessárias e entregou documentos importantes.

Geraldo Aguiar pesquisou o assunto durante os 17 anos seguintes, entrevistou dezenas de pessoas ligadas ao cangaço e terminou de escrever o livro, sendo lançado em setembro de 2009 no Cariri Cangaço, com o título “LAMPIÃO, o Invencível: duas vidas e duas mortes” pela Thesaurus Editora, de Brasília.

Ele já estava com as pesquisas bem avançadas para lançar a 2ª edição do livro com mais detalhes e outras "provas" de que João Teixeira Lima ou Antônio Maria da Conceição era o próprio Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.




 Fonte: Minas News

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Vem aí a 3ª edição de “O canto do acauã"

Convite para relançamento de um dos livros mais recomendados da literatura cangaceira

No dia 26 de Maio, além do Seminário na Academia Brasileira de Letras, a literatura cangaceira tem um outro grande motivo para comemorar.

As 18h30min no Memorial da Medicina de Pernambuco - (Recife) - a escritora Marilourdes Ferraz, filha do famoso cel. Manoel Flor, "Nazareno" grande perseguidor de Lampião, estará autografando a terceira edição da sua monumental obra, "O canto do acauã ", livro que enfoca as memórias de seu famoso pai, sobre a luta das forças volantes contra o cangaceirismo.

Capa da nova edição
O livro virá com aproximadamente, 660 páginas, com novas informações e fotos inéditas. Sairá, ao preço médio de R$ 70,00 a unidade.

Convém informar, que as edições anteriores dessa obra, já estão esgotadas no mercado, há muitos anos. O professor Pereira é um dos que dispõem da primeira edição para a venda.



Assista a entrevista concedida pela autora ao programa "Pernambuco documenta" apresentação de Raymundo Campos. Créditos para Artur Carvalho participante da comunidade do Orkurt: Lampião, Grande Rei do cangaço.



Obs.: Agradeço ao amigo, Dr. Paulo Brito pelas informações que me foram fornecidas, sobre esse evento.

Toque de Ivanildo Alves Silveira

ADENDO LAMPIÃO ACESO
Não deixem passar essa oportunidade de adquirir uma das obras de melhor conceito no estudo do cangaço.
Tem cangaço nos "retalhos" da UFPB.

Acaba de sair, pela Editora Universitária da UFPB, o livro: Retalhos de História: culturas políticas e educação no Nordeste Brasileiro. O mesmo é uma obra coletiva dos professores mestres e doutores, de parte da turma 2009, do Programa de Pós Graduação em História da Universidade Federal da Paraíba. O livro versa sobre artigos relacionados as pesquisas desses historiadores, almejando contemplar inúmeros temas referentes a constituição histórica do Nordeste.

A obra conta com sete capítulos:

1- O Remédio das Almas dos Gentios: A catequese jesuítica em Sergipe na epístola de toloza.
Profª. Ms. Ane Luíse Mecenas Santos;


2- Vozes da Paraíba contra o Arbítrio Centralista: a representação da Constituinte de 1823.
Profª. Drª. Serioja Rodrigues Cordeiro Mariano;


3- A Tragédia nas Ruas da Amargura: silêncios e lamúrias na festa de passos em São Cristóvão, Sergipe.
Prof. Doutorando Magno Francisco de Jesus Santos;


4 - A Aterradora Molestia: a influenza espanhola na cidade da Parahyba (1918).
Prof. Doutorando Azemar dos Santos Soares Júnior;


5 - O Rei Lampião e a Questão do Banditismo Social.
Prof. Doutorando Wescley Rodrigues Dutra;


6 - A Guerra Grande no Ensino de História.
Prof. Ms. André Mendes Salles;


7 - Ó Pátria Amada, Idolatrada, Salve! Salve! Um estudo das festas cívicas em João Pessoa, PB (1937-1945).
Prof. Ms. Vânia Cristina da Silva.


* Matéria Enviada por nosso confrade Wescley Dutra 
interessados na aquisição favor entrar em contato: wescley.dutra@bol.com.br

Andanças de "rifle de ouro"

Antônio Silvino visitou Pedra Lavrada, PB. 

Por Clodoaldo Melo


PRIMEIRA VISITA EM 1912 

Pedra Lavrada pode não ter tido o delegado mais valente do mundo, mas já teve o mais “hospitaleiro”, João Jerônimo da Costa. Tratava o cangaceiro Antônio Silvino com a maior deferência do mundo. Era o cicerone de “Fuzil de Ouro” nas duas vezes que ele visitou a cidade, levando-o de casa em casa e apresentando-o às pessoas mais importantes e prestando continência ao bandoleiro. Aí é o que se pode chamar de desvio de função! Aquela autoridade local era para proteger a cidade dos cangaceiros, mas convivia pacificamente com os facínoras.

Em 1912, o casal D. Ernestina Carrilho de Oliveira, D. Doninha, e Manoel Júlio Rodrigues de Lima, ambos de Catolé do Rocha, moravam em Pedra Lavrada. Eles tinham um pequeno hotelzinho na cidade. D. Doninha era, e ainda hoje é lembrada pelos netos, como a pessoa mais ignorante, estúpida e inconsequente deste mundo de meu Deus. Nunca levou desaforo para casa. Fazer pergunta descabida ou dar palpites fora de tom ou da hora, era pedir para ouvir o diabo de D. Doninha. Era valente mesmo e não abria para um trem não. Manoel Júlio, um neto, diz sobre ela: “Minha vó, Mãe Doninha, era danada. Não se sabe como se vem ao mundo daquele jeito não – e rindo termina – ou velha ruim danada!” Agora que era direita e honesta, era. Essas duas virtudes chegaram nela e pararam.

Nessa primeira visita de Antônio Silvino à cidade, D. Doninha enviuvara e tocava o hotelzinho, sozinha. Antônio Silvino chegou acompanhado do delegado João Jerônimo no estabelecimento de D. Doninha por volta da nove horas da manhã. O delegado fez a apresentação:

- D. Doninha este é o capitão Antônio Silvino. Capitão, esta é D. Doninha, a mulher que faz o melhor arroz doce do mundo que lhe falei. 

Silvino olhou o arroz doce e disse: - Vou comer do seu arroz, coloque dois pratos. D. Doninha colocou dois pratos cheios de arroz na mesa.

O Cangaceiro olhou-a e ordenou: - D. Doninha pode começar comer o seu!

D. Doninha perguntou: -O que? Comer o quê homem?

Respondeu o bandoleiro: -Não ouviu bem, D. Doninha? Mandei comer do arroz. Eu só como quando quem prepara minha comida come primeiro.

D. Doninha lhe respondeu alto e bom som:  
- Pois não vai comer não ou coma se quiser. Eu já comi hoje de manhã e só como na hora certa e quando quero. A essa hora não como nada e não tem quem me faça comer à força!

O impasse estava criado.

Foi quando o delegado engolindo em seco balbuciou pisando macio que só cabra procurando penico cheio com o pé em noite escura: “Caaapiitão, o seeenhor esesestá diante e uma das mulheres mais direeeita da reeegião. Se ela diz que não vai comer, não comerá mesmo. - Eu confiiiiiio nessssta mulheeeeer. Diga qual é o meu prato dos dois, Capitão, que comerei por ela. Esssta coomiidaa não tem veneno não!

O Capitão Silvino trocou os pratos, deu um ao delegado e os dois homens começaram a comer.

Comeu, gostou e elogiou o arroz doce depois disse: - D. Doninha a senhora tem muito dinheiro!

D. Doninha responde-lhe: -Tenho. Posso não ter o valor que lhe disseram, mas tenho dinheiro.

Silvino continuou: - D. Doninha a senhora tem 200 mil réis para me dar?

E a senhora disse: -Tenho sim. Enfiou a mão num bolso de um avental e puxou uma nota esverdeada e grande, uma nota de 200 mil réis.  

Tome! estendeu-lhe a mão com o dinheiro D. Doninha.

Foi quando o cangaceiro, disse balançando a cabeça: - Não, não Dona eu não recebo dinheiro de criança, nem de mulher e muito menos de viúva...

Aí foi quando D. Doninha rodou a baiana, e disse: - Capitão Antônio Silvino, se experimenta fumo, mulher de verdade não!

O Capitão Antônio Silvino saiu rindo e dizendo ao delegado: - Tudo como você me falou. O arroz doce é o melhor do mundo e D. Doninha é a mulher mais malcriada ou valente que já conheci.

A SEGUNDA VISITA EM 1913

Na segunda visita do bandoleiro a Pedra Lavrada ele foi recebido pelo delegado João Jerônimo. O coronel Eugênio Vasconcelos, irmão de Chico Ferreira, tinha uma loja e vendia chapéus. Antônio Silvino parou na loja viu um chapéu marca Ramezzoni 3X (o melhor que existia, hoje, seu preço varia entre R$ 174,00 a R$ 240,00), e perguntou o preço. - Dez mil réis – respondeu o coronel Eugênio.


Cédula de $10 mil réis da década de 10

O cangaceiro não regateou e deu uma nota de vinte mil réis para o Coronel. Este conheceu a nota falsa e disse acompanhado de gestos de toda gentileza: - Ora, Capitão Antônio Silvino, o senhor acha que eu vou cobrar um chapéu a você. Ora, ora... O bandoleiro agradeceu o presente (era educado) e, além de levar o chapéu passando a nota falsa, ainda queria mais dez mil réis de quebra. Mas, com o Coronel Eugênio não conseguiu tal proeza.

À noite o delegado João Jerônimo fez um baile para os facínoras dançarem. A cidade transformou-se numa festa. A sanfona roncava, o xaxado comia no centro e os bandidos bebiam e dançavam. Às quatro horas da manhã Antônio Silvino chamou o delegado e disse: - João, eu vou indo e estou sentindo cheiro de macacos (soldados) por perto, mas me dê um recado a eles. Diga ao Comandante da Volante que não vão atrás de mim não que eu estou cansado, pois dancei à noite toda e um homem cansado não corre, briga! Disse isso e saiu logo. Depressa como os cangaceiros chegaram depressa se foram. Na hora de partir não faziam rodas para não atraírem disparos em cima deles e nem se despediam. Eram como ciganos num instante arribavam, era como serpentes escorregavam e sumiam. De repente nenhum cangaceiro no meio do povo.

Mais ou menos às sete horas da mesma manhã a volante comandada pelo tenente Joaquim Henrique e auxiliado pelo cabo Piaba chegaram a Pedra Lavrada. O tenente Joaquim Henrique ainda sentiu nas ventas o cheiro de perfume dos cangaceiros (eles andavam muito perfumados) e mandou localizar depressa o delegado. O delegado João Jerônimo às pressas ainda ajeitando o cinturão e o chapéu, disse que o bando de Antônio Silvino esteve ali sim e tinha deixado um recado. E deu o recado sem tirar nem por, sem engordar, sem emagrecer, nem esticar e nem encolher, ele deixou dito para eu dizer a vocês: - João, eu vou indo... etc.

O delegado João Jerônimo era bom de recado, pois só acrescentou o seguinte: - Eles saíram para o lado de Parelhas.

AS SERPENTES E A SUSSUARANA 

O tenente Joaquim Henrique bradou: “Atenção, os bandidos estão por perto, estão de cavar com a unha. Vamos pegar esses filhos das putas e de mão... - Sigam-me! E saíram em marcha acelerada pelo caminho que levava qualquer um que fosse muito disposto à Parelhas no rio Grande do Norte. O caminho era estreito, tortuoso, acidentado, cheios de pedra, com pedras gigantes que surgiam para fechar o caminho ou deixá-lo quase despencando nas escarpas dos riachos que só tinham águas no inverno.

A cerca de seis quilômetros do então povoado de Pedra Lavrada fica a Fazenda Maxinaré, do Coronel Graciliano Fontini Lordão. Casa grande edificada no sentido Sul-Norte com duas portas nas laterais da frente e uma janela no meio e alpendrada; a casa ficava de fronte para o povoado, mas não o avistando por conta das serras entre ela e a cidade. O terreno é muito acidentado.

O cansaço dos cangaceiros era tanto que só agüentaram chegar até em Maxinaré. O Coronel providenciou logo a matança de um carneiro, galinhas, capões e peru. Mas Antônio Silvino e seus cabras, não ficaram na sede da fazenda. Preferiram ficar mais adiante onde depois de se atravessar um riacho, segue-se pela trilha aberta com o lado esquerdo da vereda sendo uma escarpa de até trinta metros de despenhadeiro e, o direito, uma elevação de mais de 10 metros de altura sem nenhuma pedra capaz de esconder um homem.

Ao começar descer a vereda em busca do riacho que dobra à direita, têm-se uns blocos de pedras mais ou menos da altura de um homem dispostos na forma de dominós postos de lado e distantes dos outros em distâncias variadas. Homens, as pedras assim dispostas são trincheiras naturais, colocadas ali pela natureza! Os cabras do Capitão Antônio Silvino dormiam atrás delas como se fossem serpentes prontas para o bote e injetar o veneno mortífero da mais terrível delas. Vir na vereda em buscas daquelas trincheiras rochosas era como ir entrando num funil: de um lado o despenhadeiro, do outro, a subida íngreme; em frente, o encontro com a morte!

A polícia ia de marcha batida. O rastejador na frente comia a distância entre eles e os cangaceiros. Assim passaram no terreiro da casa grande da Fazenda Maxinaré (foto). A ânsia de pegar os cangaceiros era tanta que nem sentiram o cheiro das carnes nas panelas. Nunca tinha pegado tanta moleza - talvez pensasse consigo o rastejador - pois os rastros eram fresquinhos, os galhos quebrados ainda soltavam o aroma característico de sua planta, as pedrinhas deslocadas pelo solado de couro dos bandidos, o horário era bom porque ainda era de manhã e, como estavam tão perto deles, a noite não os cobririam antes que eles pusessem as armas em cima daquele bando de malfeitores. O Capitão Joaquim Henrique experiente já tinha pegado o coice da tropa. Seus homens estavam com ânimos e o combate estava próximo.

Silvino

Quem sabe, se ao começar descer o riacho depois daquelas pedras postas como se fossem dominós, não descem com a vista no bando de criminosos que fugia entre pedras, feitos cabritos saltadores, pulando sobre e entre elas, com medo da onça suçuarana. Ele, Capitão Joaquim Henrique, era a verdadeira onça suçuarana!

O COMBATE DA FAZENDA MAXINARÉ 

O vigia que tinha ficado entre a casa grande da Fazenda e as trincheiras de pedras onde repousavam os bandidos, ao ver a volante, saiu em disparada e avisou a Antônio Silvino. O Capitão que ficava fora do grupo mandou o portador da má notícia avisar a todos: - Eu mandei avisar ao macaco-chefe que não viesse atrás da gente. Se veio, o diabo vai se soltar. Não quero ninguém nem pensando em fugir. O sangue vai dar no meio da canela. Querem briga e vão ter! O Cabra escorregou do esconderijo do Chefe e deu a notícia aos demais cabras. Eram cerca de 20 homens que há dias não brigavam. Estavam com a brigada toda dentro e muitos ressacados da cachaça da noite anterior. Todos se prepararam.

Os cangaceiros começaram a ouvir as tropeladas da tropa. Pássaros emudeceram, o vento parou. As primeiras cabeças da volante surgiram na ladeira que antecede ao funil descrito antes, que era a chegada nas pedras em forma de pedaços de muralhas. Vinham quase num trote, arma em punho, vontade de brigar. A vereda estreita deixava os soldados em fila indiana e caminhavam perto demais um do outro. Era quase um tirando o pé e o outro botando no mesmo lugar.

Os primeiros homens chegaram a quase 10 metros dos primeiros paredões de pedras (foto) quando ouviram o grito do Capitão Antônio Silvino: - Fogo na macacada! O final de seu comando foi abafado pelo som dos disparos em cima dos soldados. Nem bem terminou os primeiros tiros já vários soldados rolando pelo chão: uns feridos outros tentando escapar da carga mortífera cuspidas pelas armas dos cabras de Silvino.

Nesse tiroteio os impropérios gritados eram só dos cangaceiros.

Os soldados não tiveram tempo de esculhambar as mães e irmãs de cangaceiros como era comum nos combates. Mas, ouviram as risadas, os gritos de deboche e de provocações dos cabras: - Tomem macacada filha de jumenta roxa! Vamos matar todos e se amancebar com as quengas mães de vocês! Ainda hoje dormirei com sua irmã mais nova, macaco filho de uma égua! A tropa só tinha tenência para tentar correr, se livrar das balas inimigas, da carga mortal.

Os tiros dos cangaceiros se repetiam e quase à queima roupa. Em minutos eram soldados feridos, caídos, fora de combate; tinha também soldados feridos sem ser de tiros, mas da tentativa de fuga e acabaram caindo no barranco com pernas e braços quebrados. Era dia, quase meio dia, e foi por isso, talvez, que o local não escureceu de tanta fumaça de tiros. Cascas de paus voavam nos resvalar das balas. Além dos gemidos dos soldados ouvia-se o grito longe do Comandante da Volante, Joaquim Henrique: - Recuar, recuar, recuar......recuar!

A SAÍDA DE ANTÔNIO SILVINO E O SALDO DA VOLANTE 

Pelo estrago da soldadesca e a condição de vencedor do cangaceiro Antônio Silvino, vê-se que ele não era um facínora sanguinolento. Qualquer cangaceiro, exceto Jesuíno Brilhante, teria caído de assalto sobre a tropa destroçada e ferida e sangrado muito militar. Antônio Silvino preferiu sair escorregando entre as pedras e sumindo em busca de Parelhas. Os cangaceiros não tiveram uma baixa e nem pequenos ferimentos. O prejuízo maior foi não terem se saciado no almoço da Fazenda Maxinaré.

Já a volante perdeu um homem no local e um gravemente ferido que morreu a caminho de Soledade carregado pelos companheiros em uma rede. O cortejo triste que saiu de Pedra Lavrada em busca de Soledade era desalentador. Os mais feridos em redes; os menos, à cavalo e, os que podiam andar, à pé.
E o pior de tudo, eram os gemidos dos doentes abaixando ainda mais o moral da tropa destroçada.

Silvino saiu danado. Passou na Fazenda Retiro, de Zé Gato. Aproximou-se sorrateiramente. O dono da Fazenda estava dentro de casa e escorado numa das janelas, de costas e escorado nos cotovelos e virado para dentro de casa com quem conversava com alguns familiares. Antônio Silvino ao chegar perto da janela, bateu com rifle com força nas pedras do alpendre. O rifle disparou. Seu Zé Gato deu um pulo com o tiro e já caiu de frente para o cangaceiro.

Silvino impaciente e a ainda movido pela adrenalina do combate, perguntou:  

- Teve medo, Zé Gato?  

- Não – respondeu Zé Gato  

- Eu tive um susto! 

Silvino o encarou, e disse: - Zé Gato, hoje estou com o diabo no couro. Matei um bocado de macacos agora, agorinha mesmo. Quero tomar um café amargo. Mande preparar comida e devagar que aquela macacada não vem atrás de mim não. O estrago que fiz na tropa foi grande!

Completou Zé Gato: - Eu escutei os tiros, Capitão. Num se avexe que vai ter café quente e comida pra todo mundo. Depois, Silvino alimentado, subiu o Seridó.



DEPOIMENTOS

Manoel Júlio foi quem me falou sobre as visitas de Antônio Silvino e o local do combate. “Na década de sessenta cheguei a visitar o local e cheguei a ver várias árvores, como juremas, pereiro e craubeiras com ferimentos das balas do combate. Manoel Gomes Calisto de Macedo, Manoel Belo, proprietário da Fazenda Maxinaré, nos disse que as árvores feridas no tiroteio entre bandidos e policiais morreram todas. Ficou uma craubeira gigante já na beira do rio, perto do Poço da Menina que a cheia de 1981, que arrombou doze açudes no mesmo rio, carregou-a.

O professor Graciliano, neto do professor e coronel Graciliano Fontini Lordão, disse-nos:  - De vez em quando achamos cascas de balas quando estamos arrancando macambira para dar ao gado. E acrescentou mais:  - Ano passado, encontramos a última e um visitante de Natal, numa hora em que só estava mãe em casa, pediu e ela a deu ao visitante como souvenir.”


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