Estácio de Lima - Volta Seca e o estranho Mundo dos Cangaceiros
Estácio de Lima, o antigo catedrático de Medicina Legal da Universidade da Bahia escreveu, na metade do século passado, uma obra fundamental para compreensão do cangaço.
Aqui aparecem duas breves narrativas do autor que, por si mesmas, comprovam que estamos diante de um cientista e ao mesmo tempo de um escritor com notável domínio da sua arte de contar uma boa história. Uma mulher e um menino são os personagens principais dos dois textos escolhidos. Personagens não muito comuns entre os integrantes dos bandos guerreiros. Org., introdução e notas de Cid Seixas.
Coleção E-Poket.
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Um presente que ganhamos do Cumpadi Joel Reis (Via Cognitiva) e dividimos com vocês
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sexta-feira, 27 de março de 2020
domingo, 19 de maio de 2019
GAROTO-PROPAGANDA
Lampião e as Pílulas do Dr. Ross
Diversos anúncios desde o surgimento da fama do maior cangaceiro que pisou as terras nordestinas, surgiram em jornais, revistas, rádios e televisão.
Quem não lembra aquele anúncio do tecido Tergal? E muitas outras encontramos. O que você diria desse comercial feito pela atriz Tânia Alves (Maria Bonita da minissérie global) relatando as benesses do remédio Ovariuteran como regulador dos “tempos difíceis” da mulher?
E que dizer de comerciais vendendo comida de restaurantes, inclusive um mexicano? Pois então… Lampião vende de tudo, óculos, colchões, animações para o Natal e até mesmo remédios, como aquele comercial para prisão de ventre, como aquele das 'Pílulas de Vida do Dr. Ross'.
Chamarei a atenção para um anúncio bastante interessante, da referida pílula, para combater prisão de ventre e que usa o rei do cangaço como garoto-propaganda. Saiu na revista Boa-Nova de dezembro de 1933 e que dizia tal como está escrito:
“LAMPEÃO, pelo terror dos seus crimes, é o pavor dos sertanejos. O bandido que invade os lares, levando a toda parte a soffrimento e a morte, não ataca de frente, jogando a sua vida na luta leal. Esconde-se nas trevas, acoita-se nos barrancos, embuça-se nas grotas para de lá espalhar a destruirão e a morte. Também a prisão de ventre, aninhando-se sorrateiramente no corpo humano, provoca a explosão de males infinitos, pelo relaxamento do intestino. Para o combate ao banditismo de Lampeão a paiz arma os seus soldados adestrados. Para combater o prisão de ventre, OS PÍLULAS DE VIDA DO DR. ROSS, no dose de uma ou duas por noite, são as armas seguras, de effeitos infalliveis.”
Pesquei em Zé Cangaço
Diversos anúncios desde o surgimento da fama do maior cangaceiro que pisou as terras nordestinas, surgiram em jornais, revistas, rádios e televisão.
Quem não lembra aquele anúncio do tecido Tergal? E muitas outras encontramos. O que você diria desse comercial feito pela atriz Tânia Alves (Maria Bonita da minissérie global) relatando as benesses do remédio Ovariuteran como regulador dos “tempos difíceis” da mulher?
E que dizer de comerciais vendendo comida de restaurantes, inclusive um mexicano? Pois então… Lampião vende de tudo, óculos, colchões, animações para o Natal e até mesmo remédios, como aquele comercial para prisão de ventre, como aquele das 'Pílulas de Vida do Dr. Ross'.
Chamarei a atenção para um anúncio bastante interessante, da referida pílula, para combater prisão de ventre e que usa o rei do cangaço como garoto-propaganda. Saiu na revista Boa-Nova de dezembro de 1933 e que dizia tal como está escrito:
“LAMPEÃO, pelo terror dos seus crimes, é o pavor dos sertanejos. O bandido que invade os lares, levando a toda parte a soffrimento e a morte, não ataca de frente, jogando a sua vida na luta leal. Esconde-se nas trevas, acoita-se nos barrancos, embuça-se nas grotas para de lá espalhar a destruirão e a morte. Também a prisão de ventre, aninhando-se sorrateiramente no corpo humano, provoca a explosão de males infinitos, pelo relaxamento do intestino. Para o combate ao banditismo de Lampeão a paiz arma os seus soldados adestrados. Para combater o prisão de ventre, OS PÍLULAS DE VIDA DO DR. ROSS, no dose de uma ou duas por noite, são as armas seguras, de effeitos infalliveis.”
Pesquei em Zé Cangaço
segunda-feira, 6 de maio de 2019
Curiosidades
Laudo médico sobre a visão de Lampião
Transcrição de Ivanildo Silveira
O documento foi emitido após sua morte: examinada pelo Dr. Joaquim NEVES PINTO.
P.S: FAC-SIMILE - Respeitando a ortografia do documento.
Por: Dr. Neves Pinto
Considerações do oftalmologista Dr. Neves Pinto sobre os OLHOS de LAMPIÃO.
O Dr. Neves Pinto nos enviou-nos hontem a seguinte carta:
Ilmº Sr. Director do Jornal de Alagoas. Saúde..!
Tendo saído truncado as informações que prestei em meu consultório a um dos repórteres desse conceituado jornal, sobre a DOENÇA NO OLHOS DE LAMPIÃO, julguei necessárias as linhas que se seguem, para que fiquem bem focalizado do ponto de vista científico, o meu diagnóstico.
Confesso que ao ver a CABEÇA do celebre bandido, como oculista e, pelo facto de ser do domínio público que VIRGULINO FERREIRA era cego de um dos olhos devido a uma “belida", tive a curiosidade de examinar de modo mais detido o aparelho visual.
Ora, entre nós o leigo chama de “belida“ a toda mancha de olho, até mesmo a “catarata“, denominando-o “pterígio" a outras neoformações oculares de "belida de carne“.
Encontrei, effectivamente no OLHO DIREITO do famoso bandido, UMA MANCHA BRANCA tomando quase toda a superfície da córnea na qual pude facilmente reconhecer o que em linguagem ophtalmológica se denomina de LEUCOMA ADHERENTE CENTRAL que é na maioria das vezes a consequência das úlcera perfurantes de córnea...
Em vista da extensão das lesões córneo-irianas poderia assegurar que o caso era INCURÁVEL.
No olho esquerdo encontrei, também, uma MANCHA BRANCA, que na realidade não deveria existir anteriormente, pois se tratava de cristalino luxado na camada anterior. Essa luxação cristaliniano deve ter sido provocada pelo choque das balas que atingiram a cabeça ou violentos traumatismos posteriores.
Quanto ao motivo de LAMPEÃO usar ÓCULOS ESCUROS, o que também me perguntou o aludido repórter, poderia ser por vaidade para esconder o defeito de seu olho direito ou mais provavelmente para se defender da “Photophobia" (medo da luz ) que é um dos sintomas mais frequente das moléstias oculares, agudas ou chronicas.
Sem outro assunpto, agradeço-lhe de antemão a publicação dessas linhas e, me subscrevo com estima.
Do patrício e admirador.
Dr. Neves Pinto.
Maceió, 04 de agosto de 1938.
Fonte: Jornal de Alagoas, 05 de ago. 1938.
Transcrição e grifo: Ivanildo Silveira
Pescado no sítio de cumpadi Joel Reis Via Cognitiva
Transcrição de Ivanildo Silveira
O documento foi emitido após sua morte: examinada pelo Dr. Joaquim NEVES PINTO.
P.S: FAC-SIMILE - Respeitando a ortografia do documento.
Por: Dr. Neves Pinto
Considerações do oftalmologista Dr. Neves Pinto sobre os OLHOS de LAMPIÃO.
O Dr. Neves Pinto nos enviou-nos hontem a seguinte carta:
Ilmº Sr. Director do Jornal de Alagoas. Saúde..!
Tendo saído truncado as informações que prestei em meu consultório a um dos repórteres desse conceituado jornal, sobre a DOENÇA NO OLHOS DE LAMPIÃO, julguei necessárias as linhas que se seguem, para que fiquem bem focalizado do ponto de vista científico, o meu diagnóstico.
Confesso que ao ver a CABEÇA do celebre bandido, como oculista e, pelo facto de ser do domínio público que VIRGULINO FERREIRA era cego de um dos olhos devido a uma “belida", tive a curiosidade de examinar de modo mais detido o aparelho visual.
Ora, entre nós o leigo chama de “belida“ a toda mancha de olho, até mesmo a “catarata“, denominando-o “pterígio" a outras neoformações oculares de "belida de carne“.
Encontrei, effectivamente no OLHO DIREITO do famoso bandido, UMA MANCHA BRANCA tomando quase toda a superfície da córnea na qual pude facilmente reconhecer o que em linguagem ophtalmológica se denomina de LEUCOMA ADHERENTE CENTRAL que é na maioria das vezes a consequência das úlcera perfurantes de córnea...
Em vista da extensão das lesões córneo-irianas poderia assegurar que o caso era INCURÁVEL.
No olho esquerdo encontrei, também, uma MANCHA BRANCA, que na realidade não deveria existir anteriormente, pois se tratava de cristalino luxado na camada anterior. Essa luxação cristaliniano deve ter sido provocada pelo choque das balas que atingiram a cabeça ou violentos traumatismos posteriores.
Quanto ao motivo de LAMPEÃO usar ÓCULOS ESCUROS, o que também me perguntou o aludido repórter, poderia ser por vaidade para esconder o defeito de seu olho direito ou mais provavelmente para se defender da “Photophobia" (medo da luz ) que é um dos sintomas mais frequente das moléstias oculares, agudas ou chronicas.
Sem outro assunpto, agradeço-lhe de antemão a publicação dessas linhas e, me subscrevo com estima.
Do patrício e admirador.
Dr. Neves Pinto.
Maceió, 04 de agosto de 1938.
Fonte: Jornal de Alagoas, 05 de ago. 1938.
Transcrição e grifo: Ivanildo Silveira
Pescado no sítio de cumpadi Joel Reis Via Cognitiva
segunda-feira, 3 de junho de 2013
XV Fórum do Cangaço
Tema: Modos de cura: a medicina nos tempos do cangaço
10 a 13 de junho de 2013
Local Museu Histórico Lauro da Escóssia
Mossoró-RN
Coordenação Geral: Lemuel Rodrigues da Silva
Comissão Organizadora:
Benedito Vasconcelos Mendes; Emanuel Pereira Braz; Geraldo Maia do Nascimento; Lemuel Rodrigues da Silva; Paulo Medeiros Gastão.
Realização: Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço – SBEC
Organização: Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço – SBEC
Museu Histórico Lauro da Escóssia
Departamento de História/UERN
Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais – FAFIC/UERN
Inscrições: 05 a 10 de junho de 2013
Locais:
Museu Histórico Lauro da Escóssia
Departamento de História/DHI/UERN
Preço: R$ 20,00 (Vinte Reais)
Credenciamento: dia 10 de junho a partir das 18:00 no Museu Lauro da Escóssia.
Cronograma de atividades
Dia 10/06/13 – Segunda-Feira
19h15min
Local: Salão nobre do Museu Histórico Lauro da Escóssia
Solenidade de abertura
20:00h
Conferência de abertura
Tema: Modos de cura: a medicina nos tempos do cangaço
Conferencista: Dr. Leandro Cardoso Fernandes
21:00h
Programação cultural
Poema – Poetas e prosadores de Mossoró
Dia 11/06/13 – Terça-feira
08:00h
Palestra:
Tema: A ilusão do cangaço
Palestrante: Aderbal Nogueira Simões
Representante do 3º presidente da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, o Sr. Ângelo Osmiro Barreto
08h45min
Debate
Debatedor
Manoel Severo Barbosa
Moderador(a)
Geraldo Maia do Nascimento
Dia 12/06/13 – Quarta-feira
08:00h
Palestra:
Tema: O cangaço e a literatura popular:
Palestrante: Antônio Kydelmir Dantas de Oliveira
2º presidente da Sociedade Brasileira de Estudos do cangaço
08h45min
Debate
Debatedor
Josué Damasceno Pereira
Moderador(a)
Elizabeth Oliveira Amorim
Dia 13/06/13 – Quinta-feira
08:00h
Palestra:
Tema: 20 anos da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço - SBEC
Palestrante: Paulo Medeiros Gastão
1ªº Presidente da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço
08h:45m:
Debate:
Debatedores:
Antônio Vilela de Souza
Emanuel Pereira Braz
15:00h
Lançamento do livro: Religião e cangaço na cidade de Mossoró
Autor: Cláudio José Alves Viana
Fonte Editorial
10 a 13 de junho de 2013
Local Museu Histórico Lauro da Escóssia
Mossoró-RN
Coordenação Geral: Lemuel Rodrigues da Silva
Comissão Organizadora:
Benedito Vasconcelos Mendes; Emanuel Pereira Braz; Geraldo Maia do Nascimento; Lemuel Rodrigues da Silva; Paulo Medeiros Gastão.
Realização: Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço – SBEC
Organização: Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço – SBEC
Museu Histórico Lauro da Escóssia
Departamento de História/UERN
Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais – FAFIC/UERN
Inscrições: 05 a 10 de junho de 2013
Locais:
Museu Histórico Lauro da Escóssia
Departamento de História/DHI/UERN
Preço: R$ 20,00 (Vinte Reais)
Credenciamento: dia 10 de junho a partir das 18:00 no Museu Lauro da Escóssia.
Cronograma de atividades
Dia 10/06/13 – Segunda-Feira
19h15min
Local: Salão nobre do Museu Histórico Lauro da Escóssia
Solenidade de abertura
20:00h
Conferência de abertura
Tema: Modos de cura: a medicina nos tempos do cangaço
Conferencista: Dr. Leandro Cardoso Fernandes
21:00h
Programação cultural
Poema – Poetas e prosadores de Mossoró
Dia 11/06/13 – Terça-feira
08:00h
Palestra:
Tema: A ilusão do cangaço
Palestrante: Aderbal Nogueira Simões
Representante do 3º presidente da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, o Sr. Ângelo Osmiro Barreto
08h45min
Debate
Debatedor
Manoel Severo Barbosa
Moderador(a)
Geraldo Maia do Nascimento
Dia 12/06/13 – Quarta-feira
08:00h
Palestra:
Tema: O cangaço e a literatura popular:
Palestrante: Antônio Kydelmir Dantas de Oliveira
2º presidente da Sociedade Brasileira de Estudos do cangaço
08h45min
Debate
Debatedor
Josué Damasceno Pereira
Moderador(a)
Elizabeth Oliveira Amorim
Dia 13/06/13 – Quinta-feira
08:00h
Palestra:
Tema: 20 anos da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço - SBEC
Palestrante: Paulo Medeiros Gastão
1ªº Presidente da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço
08h:45m:
Debate:
Debatedores:
Antônio Vilela de Souza
Emanuel Pereira Braz
15:00h
Lançamento do livro: Religião e cangaço na cidade de Mossoró
Autor: Cláudio José Alves Viana
Fonte Editorial
sexta-feira, 9 de março de 2012
Frenologia
Cabeças Cortadas
Por Rubens Antonio
O século XIX elaborou e legou ao século XX uma referência denominada Frenologia.
Esta surgiu como uma área da Ciência, pendendo entre Medicina Forense, Medicina Legal e Antropologia Física. Propunha-se a localizar e provar que as características de uma pessoa estavam impressas e expressas no formato do crânio. Desta maneira, o dito "caráter" de uma pessoa já viria marcado desde o seu nascimento. Haveria uma "natureza" de cada indivíduo materializada fisicamente.
No Brasil, o expoente desse conceito foi o Raimundo Nina Rodrigues, nascido em Vargem Grande, Piauí, em 1862, com curso de Medicina em Salvador e Rio de Janeiro.
Estabelecido em Salvador, deu aulas na Faculdade de Medicina. Seu trabalho girou em torno de uma "Antropologia Patológica". Seus trabalho detém um cunho marcantemente racista, com destaque para ataques às miscigenações. Em sua visão, os miscigenados seriam aqueles que mais mostrariam características tendendo à criminalidade.
Daí ter se empenhado em conseguir e manter as cabeças de Lucas de Feira e Antônio Conselheiro. Nina Rodrigues faleceu em Paris, em 1906, sendo inumado, finalmente, em Salvador, Bahia. Em contraposição a essa linha, elevaram-se vozes, cujo resplandecer mais claro apareceu nas linhas de Euclydes da Cunha. Este, vindo acompanhar o massacre da Rebelião Conselheirista de Canudos, objetivava flagrar confirmações da posição de Nina Rodrigues. Entretanto, o que testemunhou colocou-o na senda contrária.
Daí, quando aconteceu o evento do Cangaço, tornou-se lugar comum o estudo das cabeças dos Cangaceiros abatidos. O primeiro deles foi a do cangaceiro "Gavião", que chegou a Salvador no início de 1930. Quando aprisionado, o cangaceiro Volta-Secca, tiveram os discípulos da proposta de Nina Rodrigues a oportunidade de realizar o estudo do seu crânio em vida. Procuraram sempre indícios da marginalidade e decadência.
Estudaram-se os crânios dos cangaceiros abatidos na Lagoa do Lino, no caso, "Azulão", "Canjica", "Maria" e "Zabelê". Finalmente, estudaram-se os crânios dos cangaceiros abatidos em Angicos, em 1938.
Um estudioso que começou a se destacar, apontando o caminho da derrocada da Frenologia, foi Estácio de Lima. Nascido em Marechal Deodoro, em Alagoas, em 1897, cursando Medicina, acabou se tornando docente das Faculdades de Medicina e Direito da Universidade Federal da Bahia, antigo catedrático de Medicina Legal da Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública da Universidade Católica de Salvador e da Faculdade Federal de Odontologia. Nesse caminho tratou de integrar a luta para desfazer a antiga linha de Nina Rodrigues.
Em sua visão, o meio, a Vida e a História são os elementos que influenciam diretamente na tecitura dos caráteres humanos. Como fruto do momento em que ainda se acreditava na Frenologia, os crânios de Lampeão e Maria Bonita foram estudados.
Abaixo o estudo dos seus crânios, conforme apareceu reproduzido na publicação: BEZERRA, João. “Como dei cabo de Lampeão.” Recife (Pernambuco): Fundação Joaquim Nabuco - Editora Massangana, 1983. O "estudo antropométrico" foi assinado pelo dr. Lages Filho, então diretor do Serviço Médico Legal de Alagoas.
O resultado do estudo antropométrico da cabeça de Lampeão
Pescado no arrojado Cangaço na Bahia
Por Rubens Antonio
O século XIX elaborou e legou ao século XX uma referência denominada Frenologia.
Esta surgiu como uma área da Ciência, pendendo entre Medicina Forense, Medicina Legal e Antropologia Física. Propunha-se a localizar e provar que as características de uma pessoa estavam impressas e expressas no formato do crânio. Desta maneira, o dito "caráter" de uma pessoa já viria marcado desde o seu nascimento. Haveria uma "natureza" de cada indivíduo materializada fisicamente.
No Brasil, o expoente desse conceito foi o Raimundo Nina Rodrigues, nascido em Vargem Grande, Piauí, em 1862, com curso de Medicina em Salvador e Rio de Janeiro.
Estabelecido em Salvador, deu aulas na Faculdade de Medicina. Seu trabalho girou em torno de uma "Antropologia Patológica". Seus trabalho detém um cunho marcantemente racista, com destaque para ataques às miscigenações. Em sua visão, os miscigenados seriam aqueles que mais mostrariam características tendendo à criminalidade.
Nina Rodrigues
Daí ter se empenhado em conseguir e manter as cabeças de Lucas de Feira e Antônio Conselheiro. Nina Rodrigues faleceu em Paris, em 1906, sendo inumado, finalmente, em Salvador, Bahia. Em contraposição a essa linha, elevaram-se vozes, cujo resplandecer mais claro apareceu nas linhas de Euclydes da Cunha. Este, vindo acompanhar o massacre da Rebelião Conselheirista de Canudos, objetivava flagrar confirmações da posição de Nina Rodrigues. Entretanto, o que testemunhou colocou-o na senda contrária.
Daí, em vez de estropiados fracos, viu-se obrigado a reconhecer: "- O Sertanejo é, antes de tudo, um forte!"Entretanto, adentrado o século XX, a linha de Nina Rodrigues seguiu firme, através de vários discípulos. Estabeleceu uma forte escola assentada nas suas propostas.
Daí, quando aconteceu o evento do Cangaço, tornou-se lugar comum o estudo das cabeças dos Cangaceiros abatidos. O primeiro deles foi a do cangaceiro "Gavião", que chegou a Salvador no início de 1930. Quando aprisionado, o cangaceiro Volta-Secca, tiveram os discípulos da proposta de Nina Rodrigues a oportunidade de realizar o estudo do seu crânio em vida. Procuraram sempre indícios da marginalidade e decadência.
Estudaram-se os crânios dos cangaceiros abatidos na Lagoa do Lino, no caso, "Azulão", "Canjica", "Maria" e "Zabelê". Finalmente, estudaram-se os crânios dos cangaceiros abatidos em Angicos, em 1938.
Um estudioso que começou a se destacar, apontando o caminho da derrocada da Frenologia, foi Estácio de Lima. Nascido em Marechal Deodoro, em Alagoas, em 1897, cursando Medicina, acabou se tornando docente das Faculdades de Medicina e Direito da Universidade Federal da Bahia, antigo catedrático de Medicina Legal da Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública da Universidade Católica de Salvador e da Faculdade Federal de Odontologia. Nesse caminho tratou de integrar a luta para desfazer a antiga linha de Nina Rodrigues.
O legista Charles Pittex e as cabeças mumificadas de Lampião e Maria.
Em sua visão, o meio, a Vida e a História são os elementos que influenciam diretamente na tecitura dos caráteres humanos. Como fruto do momento em que ainda se acreditava na Frenologia, os crânios de Lampeão e Maria Bonita foram estudados.
Abaixo o estudo dos seus crânios, conforme apareceu reproduzido na publicação: BEZERRA, João. “Como dei cabo de Lampeão.” Recife (Pernambuco): Fundação Joaquim Nabuco - Editora Massangana, 1983. O "estudo antropométrico" foi assinado pelo dr. Lages Filho, então diretor do Serviço Médico Legal de Alagoas.
O resultado do estudo antropométrico da cabeça de Lampeão
Infelizmente o estado em que a cabeça chegou à morgue não permite um estudo acurado e minucioso à luz da antropometria criminal e da anatomia, pois atingida por um projétil de arma de fogo que atravessou o crânio saindo na região occiptal, fraturando o mandibular, o frontal, o parietal direito, o temporal direito e os ossos da base que ficaram reduzidos a múltiplos fragmentos. Todavia, podemos traçar-lhe o perfil antropológico: Pele pardo-amarelada, podendo-se classificá-lo como pertencente ao grupo dos “brasilianos xantodermos”, da classificação de Roquette Pinto: testa fugidia, cabelos negros, longos e arrumados em trança pendente; barba e bigode por fazer, de pelos lisos negros e falhos. Dolicocéflo, contrastando com os outros indivíduos do seu grupo étnico, em geral braquicéfalos. O perímetro cefálico é igual a 57 centímetros. diâmetro transversal máximo atinge 150 milímetros, índice encefálico 75. Sua face é de tamanho relativamente reduzido, impressionando à primeira observação as dimensões do mandibular pequeno e com os ramos horizontais a formar um ângulo reto no encontro dos ramos ascendentes, correspondentes. Assim, é o comprimento total do rosto de 170 milímetros, o comprimento total da face de 130 milímetros, o comprimento simples da face de 85 milímetros, o diâmetro gigomático ou transverso máximo da face, de 160 milímetros, índice facial da boca 53,12. Nariz reto, de ápice grosso e rombo, guardando ao dorso a impressão dos óculos, com altura máxima de 50 milímetros e largura máxima de 37 milímetros. O índice nasal transverso 64 milímetros, uma mesorrínia franca, lábios finos. Largura da boca 57 milímetros. Abóbada palatina ogival, dentes pequenos podendo-se enquadrá-los no grupo dos microdontias; orelhas assimétricas, havendo desigualdade manifesta no desenvolvimento das partes similares (orelha Blainville). O comprimento da orelha direita alcança sessenta e cinco milímetros. A largura da orelha direita é de 40 milímetros. comprimento da orelha esquerda 55 milímetros.
A largura da orelha esquerda é de 40 milímetros. Índice auricular de Topinar, tendo-se em conta as dimensões da orelha direita de 65 milímetros. Na face há visível, na região masseterina direita, uma pigmentação escura arredondada, medindo três milímetros de diâmetro, em nervus congênito. O olho direito apresenta um leucoma, atingindo toda a córnea. em resumo; embora presentes alguns estigmas físicos na cabeça de Lampeão, não surpreendi um paralelismo rigoroso entre os caracteres somáticos da degenerescência, revelados pela mesma e a figura moral do bandido. assim, apenas verifiquei como índices físicos de degenerescência as anomalias das orelhas, denunciadas por uma assimetria chocante, a abóbada palatina ogival e a microdontia. Faltam as deformações cranianas, o prognatismo das maxilas e outros sinais aos quais Lombroso tanta importância emprestava para a caracterização do criminoso nato. Todavia, nem por isso os dados anatômicos e antropométricos assinalados perdem a sua valia pelas sugestões que oferecem na apreciação da natureza delinqüencial de Lampeão.Resultado do exame da cabeça de Maria Bonita
A cabeça de Maria Bonita deu entrada às 10 horas da noite de 31 de julho de 1938 no Serviço Médico-Legal do estado de Alagoas em mau estado de conservação, razão por que não foi retirado o encéfalo, já reduzido a uma pasta esbranquiçada e amorfa que se escoava pelo orifício occiptal. as partes moles infiltradas não permitiram fossem melhor apreciados os traços fisionômicos da companheira de Lampeão, os quais, aliás, não pareciam desmentir o apelido que lhe deram. Aparentava ser uma mulher de trinta a trinta e cinco anos de idade. À primeira impressão, o que mais prende a atenção é vêem vê-la é a sua testa alta e de todo vertical. cabelos negros, longos, finos e lisos, arrumados em tranças pendentes. Tez morena clara. Pode ser incluída no grupo dos brasileiros xantodermos da classificação de Roquette Pinto, o perímetro encefálico é de 57 milímetros. O diâmetro ântero-posterior máximo é de 195 centímetros. O diâmetro transversal máximo mede 150 milímetros. O índice cefálico, 33. Portanto, braquicéfala. O comprimento total do rosto alcança 190 milímetros. O comprimento total da face é de 120 milímetros. O comprimento simples da face, 153 milímetros. Índice facial da boca, 47,0. Lábios grossos, sendo a largura da cavidade bucal de 45 centímetros. Dentes pequenos, bem plantados e em excelente estado de conservação. Olhos castanhos escuros.
São estes os principais elementos colhidos, traçando-se o perfil antropológico de Maria Bonita. Não denunciam eles a existência de quaisquer estigmas de degenerescência ou sinais atávicos. Na busca de sua constituição delinquencial muito mais importância teria o estudo psicológico que permitiria pôr em relevo os caracteres fundamentais de sua personalidade.
Em verdade, uma conclusão definitiva e segura só poderia ser tirada da apreciação físico-psíquica e biográfica da vítima, único meio capaz de revelar suas tendências criminosas, mesmo se despertadas pela paixão e pelo amor.
Pescado no arrojado Cangaço na Bahia
domingo, 4 de dezembro de 2011
Afinal: Lampião tinha um sósia perfeito?
“Um debate sobre Antropometria, à sombra dos Buritis”
Por: Sérgio Dantas*
A História tem seus caprichos. Como se trata de um ramo no compartimento das ‘Ciências Humanas’, não se pode querer dela a precisão de um cálculo matemático. Em História, pode-se nunca atingir a verdade desejada em torno de um evento, mas, tão somente, a verossimilhança dos fatos vários que o geraram. Por tal, a presença de um mínimo de metodologia é necessária para narrar os fatos humanos da forma mais próxima ao real. Este seria o objetivo principal a perseguir.
No caso da reconstituição dos episódios ligados ao cangaço, claro, aplicam-se as mesmas regras utilizadas em História, já que aquele é um compartimento desta.
Mas, voltando aos caprichos desta Ciência, vamos recuar um pouco no tempo. Na manha de 28 de julho de 1938, quando as cabeças de Lampião, ‘Maria Bonita’ e mais nove cangaceiros chegaram a Piranhas, em Alagoas, foi um alvoroço. Após esteticamente arrumadas na escadaria da Prefeitura daquela cidade, e expostas à curiosidade pública, todos queriam ver de perto aqueles estranhos ‘troféus’ – principalmente, a cabeça de Lampião. O homem que parecia invencível, que possuía – na crença e no imaginário popular – o ‘corpo fechado’ para balas, que tinha poderes divinatórios e que reinava absoluto no sertão havia quase vinte anos, teve decepada a sua cabeça. Era difícil acreditar que tal um dia acontecesse.
Assim, naquela manhã de julho, os incrédulos – e não eram poucos – tiveram a oportunidade de ver perto a cabeça do cangaceiro famoso. Alguns até foram mais ousados, e levantaram a pálpebra do olho direito daquele resto humano, para constatar a existência do leucoma, a ‘pinta branca do olho’, que era um dos sinais marcantes do rei-do-cangaço: -“a prova está aí!” – muitos teriam dito.
A maioria reconheceu, naquele momento, a cabeça de Lampião. Houve, claro, um ou outro recalcitrante.
Afinal, discordar é próprio da natureza humana. Assim foi na cidade de Piranhas, na atual Delmiro Gouveia, em Santana do Ipanema, e em todos os outros lugares por onde passou a procissão macabra.
Naquele dia, porém, ninguém teve acesso a película cinematográfica feita pelo sírio-libanês Jamil Ibrahim Botto (o Benjamim Abraão). Ninguém, pois, pode fazer uma comparação direta entre alguns ‘takes’ do filme feito em 1936, com a cabeça que ali estava à mostra. A película, de efeito, havia sido confiscada pela polícia política de Getúlio Vargas e não fora divulgada como pretendia o aventureiro.
Todavia, décadas mais tarde, quando da edição do Cariri Cangaço 2011, eis que são apresentados novos fragmentos inéditos – e devidamente restaurados - da importante película histórica. Em certo momento, pois, vemos Lampião se dirigir contra a lente da câmera e, lentamente, tirar o seu chapéu de couro. Ali, naquele instante, tem-se uma visão plena do rosto do cangaceiro em 1936. Eis o fotograma:
Desta forma, como deixei claro no início deste modesto artigo, fica aberto o debate em torno da certeza – ou não – se a cabeça exposta na escadaria da Prefeitura de Piranhas seria realmente a de Lampião. Sabendo de histórias que recrudescem aqui e ali, dando conta de uma sobrevida do rei-do-cangaço – após 1938 - em Goiás, em Mato Grosso, em Minas e até na Paraíba, cabe, então, a pergunta:
Saudações!
Sérgio Augusto de Souza Dantas
Natal, RN
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
*Bacharel em Direito, pesquisador independente e autor dos livros “Lampião e o Rio Grande do Norte” (2005), “Antônio Silvino: O Cangaceiro, O Homem, O Mito” (2006) e “Lampião: Entre a Espada e a Lei” (2008). Clique aqui e confira uma entrevista com SD
Por: Sérgio Dantas*
A História tem seus caprichos. Como se trata de um ramo no compartimento das ‘Ciências Humanas’, não se pode querer dela a precisão de um cálculo matemático. Em História, pode-se nunca atingir a verdade desejada em torno de um evento, mas, tão somente, a verossimilhança dos fatos vários que o geraram. Por tal, a presença de um mínimo de metodologia é necessária para narrar os fatos humanos da forma mais próxima ao real. Este seria o objetivo principal a perseguir.No caso da reconstituição dos episódios ligados ao cangaço, claro, aplicam-se as mesmas regras utilizadas em História, já que aquele é um compartimento desta.
Mas, voltando aos caprichos desta Ciência, vamos recuar um pouco no tempo. Na manha de 28 de julho de 1938, quando as cabeças de Lampião, ‘Maria Bonita’ e mais nove cangaceiros chegaram a Piranhas, em Alagoas, foi um alvoroço. Após esteticamente arrumadas na escadaria da Prefeitura daquela cidade, e expostas à curiosidade pública, todos queriam ver de perto aqueles estranhos ‘troféus’ – principalmente, a cabeça de Lampião. O homem que parecia invencível, que possuía – na crença e no imaginário popular – o ‘corpo fechado’ para balas, que tinha poderes divinatórios e que reinava absoluto no sertão havia quase vinte anos, teve decepada a sua cabeça. Era difícil acreditar que tal um dia acontecesse.
Assim, naquela manhã de julho, os incrédulos – e não eram poucos – tiveram a oportunidade de ver perto a cabeça do cangaceiro famoso. Alguns até foram mais ousados, e levantaram a pálpebra do olho direito daquele resto humano, para constatar a existência do leucoma, a ‘pinta branca do olho’, que era um dos sinais marcantes do rei-do-cangaço: -“a prova está aí!” – muitos teriam dito.
A maioria reconheceu, naquele momento, a cabeça de Lampião. Houve, claro, um ou outro recalcitrante.
Afinal, discordar é próprio da natureza humana. Assim foi na cidade de Piranhas, na atual Delmiro Gouveia, em Santana do Ipanema, e em todos os outros lugares por onde passou a procissão macabra.
Naquele dia, porém, ninguém teve acesso a película cinematográfica feita pelo sírio-libanês Jamil Ibrahim Botto (o Benjamim Abraão). Ninguém, pois, pode fazer uma comparação direta entre alguns ‘takes’ do filme feito em 1936, com a cabeça que ali estava à mostra. A película, de efeito, havia sido confiscada pela polícia política de Getúlio Vargas e não fora divulgada como pretendia o aventureiro.
Todavia, décadas mais tarde, quando da edição do Cariri Cangaço 2011, eis que são apresentados novos fragmentos inéditos – e devidamente restaurados - da importante película histórica. Em certo momento, pois, vemos Lampião se dirigir contra a lente da câmera e, lentamente, tirar o seu chapéu de couro. Ali, naquele instante, tem-se uma visão plena do rosto do cangaceiro em 1936. Eis o fotograma:
Este quadro, em particular, nos chama a atenção para alguns detalhes. Em primeiro lugar, a calvície já acentuada do cangaceiro, bem marcada por falha na margem centro-direita da testa (do ponto de vista do observador). Apesar da má qualidade da imagem, observa-se também, por trás da lente dos óculos, o leucoma do olho direito. Vê-se o direcionamento dos cabelos, além da formação craniana, esta nitidamente dolicocéfala (largura frontal medindo mais ou menos 4/5 da altura do rosto).
A fim de instigarmos o debate, resolvemos lançar mão de ferramentas digitais de imagem para chegarmos a algumas comparações. Na imagem abaixo, através da aplicação da ferramenta de ‘contraste’, do programa ‘Corel Photo Paint’, conseguimos deixar mais evidente o leucoma, além de suprimir a parte inferior dos óculos, deixando o rosto mais livre para análise:
Em um passo além, elidimos praticamente toda a estrutura dos óculos, e demos realce à sobrancelha direita do cangaceiro. Com o número 01, marcamos o avivamento da referida sobrancelha:
Seguindo, marcamos no fotograma o número 03, para indicar a ausência de rugas de expressão neste ponto. Não há compressão da pele neste pedaço do rosto. Não a mínima evidência de sobrecenho carregado. E esta marcação servirá como comparativo em uma imagem mais abaixo. Vejamos:
A partir deste ponto, comecemos a fazer as comparações. Além do fotograma já aludido, vamos utilizar um detalhe da famosa foto das cabeças dispostas na escadaria da Prefeitura de Piranhas. O objetivo é comparar características contidas na cabeça do rosto do cangaceiro quando vivo, com outras existentes na cabeça exposta naquela manhã de julho de 1938.
As duas imagens estão postas lado a lado. De início, observem-se as numerações (a) e (b). Em comum entre as duas imagens, temos uma marca de calvície acentuada no terço médio esquerdo da cabeça, com marca incisiva em direção à parte posterior do crânio. Neste ponto, há um compasso simétrico entre as duas imagens, ao que nos parece.
Com o sinal “\/”, marcamos a saliência do osso esfenóide direito, característica que também nos parece igual em ambas as imagens. A largura do rosto também não foi desconsiderada, de modo que a marcamos em uma escala 01_______02, a qual é rigorosamente igual nas duas fotos, como se vê na ‘régua’ colocada abaixo de ambas. Também se nota a INEXISTÊNCIA das rugas de expressão – ou enrugamento da pele -entre as sobrancelhas. O fato se verifica em ambas as imagens.
Agora, em mais uma etapa, ‘importamos’ a imagem do rosto sem vida, e o aplicamos no fotograma de 1936, usando o sentido de A para B, como indicado pela seta. O encaixe da imagem, sem sombra de dúvida, parece perfeito. Não há sobras ou excessos pela inserção .
O único ponto que não mostrou simetria, seria a parte inferior do rosto; o ‘queixo’. Veja-se que as marcações 03 e 03A mostram esse descompasso. No entanto, neste particular havemos de nos valer da história. De efeito, ainda na Grota do Angico, um soldado (possivelmente José Panta Godoy) disparou um tiro de fuzil na cabeça do cangaceiro, quando este já se encontrava morto. A prova de tal fato está na imagem de número 05, lado direito, onde se percebe - ao lado esquerdo de quem olha -, grande quantidade de massa encefálica no orifício de saída do projétil.
Com o tiro disparado contra a cabeça, indubitavelmente, foram lesionados os ossos ‘temporal’, ‘esfenóide’ e ‘zigomático’, cedendo os ‘malares’, no sentido ‘de baixo para cima’, horas mais tarde, quando a cabeça foi colocada no batente da escadaria, em Piranhas. O rosto cedeu, sendo comprimido em função da quebra da estrutura óssea. Assim, o queixo um tanto proeminente outrora, deixa de existir e, em seu lugar, encontramos uma espécie de ‘dobra epitelial’, logo abaixo da boca.
E em relação a esta (a boca), note-se que, em ambas as imagens, apesar de apresentar sentidos diferentes (côncavo em uma; convexo em outra), a medida da boca é rigorosamente a mesma. Na imagem abaixo, destacamos em um retângulo a boca na imagem do cangaceiro vivo (c), e, em seguida, a recortamos e a aplicamos embaixo da fotografia da cabeça já decapitada (d). A simetria é rigorosa; as medidas são literalmente iguais.
Repetindo a imagem - agora sem a marcação na imagem da esquerda - para que a comparação possa ser feita de forma livre.
Desta forma, como deixei claro no início deste modesto artigo, fica aberto o debate em torno da certeza – ou não – se a cabeça exposta na escadaria da Prefeitura de Piranhas seria realmente a de Lampião. Sabendo de histórias que recrudescem aqui e ali, dando conta de uma sobrevida do rei-do-cangaço – após 1938 - em Goiás, em Mato Grosso, em Minas e até na Paraíba, cabe, então, a pergunta:
“Teria Lampião sido substituído por um sósia rigorosamente igual? Um sósia perfeito? Fica lançada a questão!!
Saudações!
Sérgio Augusto de Souza Dantas
Natal, RN
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*Bacharel em Direito, pesquisador independente e autor dos livros “Lampião e o Rio Grande do Norte” (2005), “Antônio Silvino: O Cangaceiro, O Homem, O Mito” (2006) e “Lampião: Entre a Espada e a Lei” (2008). Clique aqui e confira uma entrevista com SD
terça-feira, 19 de abril de 2011
Quando as balas lhe alcançaram
Ferimentos sofridos por Lampião + bônus de foto inédita
Obs.: as "legendas existentes na foto ", foram por nós acrescentadas, para ilustrar, os " ferimentos a bala ", sofridos pelo rei do cangaço, em mais de 200 combates ocorridos com a polícia.
A descrição dos " ferimentos " de Lampião , encontra-se inserida no livro " Quem foi Lampião " pg. 151, do renomado pesquisador/escritor, Frederico Pernambucano de Mello .
Fonte: Depoimentos de ex-cangaceiros e amigos, conforme indicação bibliográfica, mais dados colhidos da caderneta de apontamentos de Benjamin Abrahão, item g.1. (obra citada ) .
Um abraço a todos.
Ivanildo Alves Silveira
Colecionador do cangaço
Membro da SBEC
Natal/RN
Cópia de foto original encontrada no bornal de Lampião, após sua morte. A
aludida foto, está arquivada no instituto histórico e geográfico de
Maceió, e, certamente, foi feita pelo árabe Benjamin Abrahão nos idos de
1936/1937.
Obs.: as "legendas existentes na foto ", foram por nós acrescentadas, para ilustrar, os " ferimentos a bala ", sofridos pelo rei do cangaço, em mais de 200 combates ocorridos com a polícia.
A descrição dos " ferimentos " de Lampião , encontra-se inserida no livro " Quem foi Lampião " pg. 151, do renomado pesquisador/escritor, Frederico Pernambucano de Mello .
1921 - Ferimento a bala no ombro e na virilha , ambos transfixante, com tratamento conduzido por médico ( doutor Mota), tendo a ocorrência se dado no município de Conceição do Piancó/Paraíba.
1924 - Ferimento a bala no dorso do pé direito , transfixante, com tratamento conduzido por dois médicos ( doutores José Cordeiro e Severiano Diniz ), a ocorrência se deu na Serra do Catolé, município de Belmonte, PE.
1926 - Ferimento a bala na omoplata , leve, com tratamento caseiro, tendo a ocorrência se dado em Itacuruba, no município de Floresta, PE.
1930 - Ferimento a bala, no quadril , leve, com tratamento caseiro, tendo a ocorrência se dado em Pinhão, na época distrito de Itabaiana, SE.
Fonte: Depoimentos de ex-cangaceiros e amigos, conforme indicação bibliográfica, mais dados colhidos da caderneta de apontamentos de Benjamin Abrahão, item g.1. (obra citada ) .
Um abraço a todos.
Ivanildo Alves Silveira
Colecionador do cangaço
Membro da SBEC
Natal/RN
segunda-feira, 28 de março de 2011
Paciente misterioso
O médico e o cangaceiro?
*Por Archimedes Marques
O autor solicita através do blog a atenção e ação dos vários confrades que tenham lido sobre atuações de cabras em fuga pelo "recôncavo baiano" que comentem apresentando as possibilidades sejam remotas ou com fundamento para quem sabe chegarmos a provável identidade destes.
Eis o texto...
A minha avó Helena Motta Marques, quando ainda com vida e lúcida, contava uma história ocorrida em Nazaré das Farinhas, cidade do sertão da Bahia, na madrugada do dia 27 de maio de 1929, época em que ela e o meu avô Archimedes Ferrão Marques, então médico, naquele município residiram por alguns anos.
O meu avô que era médico daqueles que de tudo fazia para ajudar as pessoas, além de ter um cargo estadual como sanitarista possuía também uma farmácia tipo drogaria onde atendia aos doentes e ali mesmo quase sempre manipulava e vendia os remédios que ele próprio receitava.
A farmácia que servia de aprendizado e de complemento de renda familiar lhe dava outros bens de consumo, além da satisfação de curar doentes e salvar vidas, vez que, quando os seus pacientes não podiam pagar com dinheiro, presenteavam-no com galinhas, patos, cabritos, porcos e outros animais. Assim eles viveram uma vida dura e simples em Nazaré das Farinhas naquele tempo de muito trabalho, mas também de boas realizações e excelentes lições de vida.
O meu avô Archimedes era muito caridoso e atendia qualquer um a qualquer hora, independente da pessoa ter ou não como pagar pela consulta ou pelo medicamento utilizado. Bastava bater na porta da sua casa que ficava anexa a sua farmácia, que ele medicava, fazia curativos, pequenas intervenções cirúrgicas, engessamento em traumatismo de pernas e braços e até partos realizava com o maior prazer possível. Era médico por vocação, amava a sua profissão e tentava seguir fielmente o Juramento de Hipócrates.
Naquele dia, mais de perto na calada da madrugada, em meados das primeiras horas, chegaram a sua casa dois homens montados a cavalo, um deles com um dente bastante inflamado e “urrando” de dor, querendo a qualquer custo que ele o arrancasse e lhe livrasse daquele atroz sofrimento. Não bastaram as desculpas do meu avô em dizer que somente poderia aliviar a sua dor, pois não era dentista e sim um médico e, além disso, nunca tinha arrancado um dente na sua vida, além de não possuir os instrumentos pertinentes necessários para uma perigosa extração como aquela demonstrava ser.
O homem desesperado puxou de um punhal dizendo que se ele não arrancasse o seu dente seria sangrado ali mesmo sem dó ou piedade. Diante do novo “argumento” não restou outra alternativa senão cumprir a vontade do bandido. Aflita e trêmula de medo a minha avó logo foi buscar um alicate comum na caixa de ferramentas e o colocou para esterilizar em água fervente, enquanto o meu avô aplicava injeção de morfina na boca inchada do intransigente paciente e depois de muito suor, desespero, gemidos e luta do alicate com a boca, o dente do cidadão finalmente foi extraído. Em seguida o meu avô fez uma boa limpeza em toda a boca infeccionada do paciente, aplicando-lhe uma injeção antibiótica e, recomendando por fim, além da higiene necessária, repouso absoluto nos dois dias seguintes.
O homem agradecido e aliviado, em demonstração de possuir algum sentimento, tirou um anel de ouro de um dos seus dedos e o deu como paga ou presente para o meu avô que então mais à vontade, criou coragem para perguntar pelos nomes deles, obtendo a resposta do outro cidadão acompanhante, que os seus nomes não lhe interessava e se ele tivesse juízo que ficasse calado sobre o ocorrido para não ter um dia a sua garganta cortada. Em seguida montaram nos seus cavalos e desapareceram no escuro da noite para sempre.
Por via das dúvidas, diante do iminente perigo da ameaça e com receio dos homens voltarem em vingança caso fossem denunciados e presos, os meus avós preferiram guardar segredo dos fatos durante o tempo em que naquela cidade permaneceram, não prestando queixa à Polícia nem tampouco comentando com vizinhos e amigos sobre o desespero e terror pelos quais passaram naquela noite.
Diz o velho ditado que não há um mal que não traga um bem. Assim, a lição e o exemplo vividos pelo casal que inclusive já tinha filhos menores, serviram para que o meu avô adquirisse os instrumentos dentários essenciais e passasse também a extrair dentes, sendo então, mais uma fonte de satisfação e caridade aos mais necessitados que passavam pela angustia dessa insuportável dor, além do somatório próprio da renda familiar, vez que no município não existia um dentista sequer. Contava a minha avó que por vezes a fila para extrair dentes era bem maior do que as consultas médicas tradicionais realizadas pelo meu avô Archimedes.
Quanto aos dois desconhecidos que a minha avó dizia ser de compleição física sertaneja e rude, de cor morena queimada pelo sol e que usavam roupas grosseiras com bornais de couro e outros apetrechos, nunca souberam de quem se tratavam.
Teriam sido cangaceiros desgarrados de algum grupo de Lampião ou teriam sido criminosos outros procurados pela Polícia?... Como não há nenhum registro de ataque ou presença de cangaceiros no município de Nazaré das Farinhas é mais provável a segunda opção.
A titulo de ilustração, transcrevo o breve currículo do meu avô, colhido no site http://linux.alfamaweb.com.br/asm/dicionariomedico/dicionario.php?id=31900:
(*Delegado de Policia no Estado de Sergipe. Pós-graduado em Gestão Estratégica de Segurança Publica pela Universidade Federal de Sergipe) archimedes-marques@bol.com.br
*Por Archimedes Marques
O autor solicita através do blog a atenção e ação dos vários confrades que tenham lido sobre atuações de cabras em fuga pelo "recôncavo baiano" que comentem apresentando as possibilidades sejam remotas ou com fundamento para quem sabe chegarmos a provável identidade destes.
Eis o texto...
O meu avô que era médico daqueles que de tudo fazia para ajudar as pessoas, além de ter um cargo estadual como sanitarista possuía também uma farmácia tipo drogaria onde atendia aos doentes e ali mesmo quase sempre manipulava e vendia os remédios que ele próprio receitava.
A farmácia que servia de aprendizado e de complemento de renda familiar lhe dava outros bens de consumo, além da satisfação de curar doentes e salvar vidas, vez que, quando os seus pacientes não podiam pagar com dinheiro, presenteavam-no com galinhas, patos, cabritos, porcos e outros animais. Assim eles viveram uma vida dura e simples em Nazaré das Farinhas naquele tempo de muito trabalho, mas também de boas realizações e excelentes lições de vida.
O meu avô Archimedes era muito caridoso e atendia qualquer um a qualquer hora, independente da pessoa ter ou não como pagar pela consulta ou pelo medicamento utilizado. Bastava bater na porta da sua casa que ficava anexa a sua farmácia, que ele medicava, fazia curativos, pequenas intervenções cirúrgicas, engessamento em traumatismo de pernas e braços e até partos realizava com o maior prazer possível. Era médico por vocação, amava a sua profissão e tentava seguir fielmente o Juramento de Hipócrates.
Naquele dia, mais de perto na calada da madrugada, em meados das primeiras horas, chegaram a sua casa dois homens montados a cavalo, um deles com um dente bastante inflamado e “urrando” de dor, querendo a qualquer custo que ele o arrancasse e lhe livrasse daquele atroz sofrimento. Não bastaram as desculpas do meu avô em dizer que somente poderia aliviar a sua dor, pois não era dentista e sim um médico e, além disso, nunca tinha arrancado um dente na sua vida, além de não possuir os instrumentos pertinentes necessários para uma perigosa extração como aquela demonstrava ser.
O homem desesperado puxou de um punhal dizendo que se ele não arrancasse o seu dente seria sangrado ali mesmo sem dó ou piedade. Diante do novo “argumento” não restou outra alternativa senão cumprir a vontade do bandido. Aflita e trêmula de medo a minha avó logo foi buscar um alicate comum na caixa de ferramentas e o colocou para esterilizar em água fervente, enquanto o meu avô aplicava injeção de morfina na boca inchada do intransigente paciente e depois de muito suor, desespero, gemidos e luta do alicate com a boca, o dente do cidadão finalmente foi extraído. Em seguida o meu avô fez uma boa limpeza em toda a boca infeccionada do paciente, aplicando-lhe uma injeção antibiótica e, recomendando por fim, além da higiene necessária, repouso absoluto nos dois dias seguintes.
O homem agradecido e aliviado, em demonstração de possuir algum sentimento, tirou um anel de ouro de um dos seus dedos e o deu como paga ou presente para o meu avô que então mais à vontade, criou coragem para perguntar pelos nomes deles, obtendo a resposta do outro cidadão acompanhante, que os seus nomes não lhe interessava e se ele tivesse juízo que ficasse calado sobre o ocorrido para não ter um dia a sua garganta cortada. Em seguida montaram nos seus cavalos e desapareceram no escuro da noite para sempre.
Por via das dúvidas, diante do iminente perigo da ameaça e com receio dos homens voltarem em vingança caso fossem denunciados e presos, os meus avós preferiram guardar segredo dos fatos durante o tempo em que naquela cidade permaneceram, não prestando queixa à Polícia nem tampouco comentando com vizinhos e amigos sobre o desespero e terror pelos quais passaram naquela noite.
Diz o velho ditado que não há um mal que não traga um bem. Assim, a lição e o exemplo vividos pelo casal que inclusive já tinha filhos menores, serviram para que o meu avô adquirisse os instrumentos dentários essenciais e passasse também a extrair dentes, sendo então, mais uma fonte de satisfação e caridade aos mais necessitados que passavam pela angustia dessa insuportável dor, além do somatório próprio da renda familiar, vez que no município não existia um dentista sequer. Contava a minha avó que por vezes a fila para extrair dentes era bem maior do que as consultas médicas tradicionais realizadas pelo meu avô Archimedes.
Quanto aos dois desconhecidos que a minha avó dizia ser de compleição física sertaneja e rude, de cor morena queimada pelo sol e que usavam roupas grosseiras com bornais de couro e outros apetrechos, nunca souberam de quem se tratavam.
Teriam sido cangaceiros desgarrados de algum grupo de Lampião ou teriam sido criminosos outros procurados pela Polícia?... Como não há nenhum registro de ataque ou presença de cangaceiros no município de Nazaré das Farinhas é mais provável a segunda opção.
A titulo de ilustração, transcrevo o breve currículo do meu avô, colhido no site http://linux.alfamaweb.com.br/asm/dicionariomedico/dicionario.php?id=31900:
Nasceu em 2 de julho de 1892, em Salvador/BA, filho de Ernesto dos Santos Marques e Ana Ferrão Moniz Marques. Formou-se pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1917, defendendo a tese “Raspagem Uterina”. Iniciou suas atividades médicas em 1918, combatendo a epidemia de varíola que grassava em todo o interior da Bahia, sendo em razão disso nomeado Inspetor Sanitário do 10º Distrito da Bahia e membro da Comissão Sanitária Federal de Combate à Febre Amarela. Em seguida, ainda em Salvador, foi transferido para o serviço de Saneamento Rural, onde fez carreira como médico, subinspetor, inspetor e chefe de distrito e zona até dezembro de 1930. Nomeado Sanitarista do Ministério da Saúde, atuou na Delegacia Federal de Saúde da 5ª Região da Bahia. Transferiu-se para Recife, onde atuou na Delegacia Federal de Saúde e Inspetoria de Saúde dos Portos, durante a 2ª Guerra Mundial. Em 1945 é designado para a Delegacia de Saúde da 6ª Região, em Aracaju. Cumulativamente exerceu o cargo de médico da Caixa de Aposentadorias e Pensões da Leste Brasileira. Atuou como clínico e obstetra. Faleceu em 17 de março de 1968, em Salvador/BA, com 76 anos.
(*Delegado de Policia no Estado de Sergipe. Pós-graduado em Gestão Estratégica de Segurança Publica pela Universidade Federal de Sergipe) archimedes-marques@bol.com.br
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Prazer em conhecer
Lampião Aceso entrevistou o pesquisador e escritor Leandro Cardoso Fernandes
Sua “entrada” no cangaço deu-se quando tinha 12 anos. Seria a "síndrome de Volta Seca"?
Na época recebeu de presente do avô o livro “Lampião, Cangaço e Nordeste”, da Aglae Lima de Oliveira. O livro, que é ricamente ilustrado e o impressionou sobremaneira. A partir daí vestiu a camisa e entrou em campo. Começou a comprar livros e lê-los com voracidade.
Em 1991, foi estudar Medicina em Recife. Aproveitou o tempo em Pernambuco para investigar o que havia à disposição sobre o cangaço. Visitou museus, inclusive o Museu da Polícia Militar, que mostrava roupas das volantes e armas usadas na guerra contra o cangaço. Este local infelizmente encontra desativado e as peças têm paradeiro ignorado como relatou o escritor Geraldo Ferraz em sua entrevista.
Teve seus primeiros contatos com ex-cangaceiros, ex-volantes e com gente que conheceu protagonistas. Conheceu Drª. Laís Vieira, médica e, na época, tenente da Polícia Militar, que conviveu com o lendário Manoel Neto (inclusive foi para o seu enterro). Ela lhe deu informações interessantes sobre como vivia o ex-caçador de cangaceiros, como por exemplo, que o coronel Mané Neto só andava armado e desconfiava de todo mundo.
Ainda em Recife, precisamente em 1996, teve a oportunidade de conhecer na Fundação Joaquim Nabuco o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello, já havia ficado impressionado com as suas obras “Guerreiros do Sol” e “Quem Foi Lampião”.
Em 1998 foi parar na Selva de Pedra. Em São Paulo, de cara, seu volume de livros aumentou, pois não saía dos sebos do bairro da Liberdade e o da Maristela Kalil, próximo à Praça da República, sempre em busca de cangaço.
Dos livros de Amaury, ele destaca particularmente “Lampião: As Mulheres e o Cangaço”, que segundo sua opinião ainda é a melhor obra já publicada sobre o universo feminino no cangaço; e o “Assim Morreu Lampião”, uma reportagem emocionante sobre o dia fatídico do Angico,
Leandro lembra que “Assim Morreu Lampião” inclusive foi o embrião para o primeiro Globo Repórter (O Último Dia de Lampião, de Maurice Capovilla). Estes dois livros do Amaury lhe causaram grande impacto e começou a nutrir a vontade de conhecer o autor pessoalmente, uma vez que já o admirava a partir da honestidade com que escrevia.
Um belo dia recebe o telefonema de Dr. Napoleão, seu sogro, lhe avisando que dois "cangaceirólogos" iriam procurá-lo: Adivinhe Quem? Dr. Antonio Amaury e Dr. Melquíades Pinto Paiva.
Amaury telefonou; marcaram um encontro em sua casa, e pronto: todos os finais de semana (e muitas vezes as suas tardes de folga) eram na casa dele, falando de... Cangaço.
William White, Dr. Amaury, eu e Dr. Benedito Denardi na casa da Baronesa de Água Branca.
Com Dr. Amaury no local do combate da Maranduba. As cruzes mostram onde os soldados foram enterrados.
Então apresente suas crias!
- Junto com o Dr. Antonio Amaury, “Lampião a medicina e o cangaço, aspectos médicos do cangaceirismo”. Publicamos o livro em 2005 e viemos lançá-lo no Salão do Livro do Piauí.
O livro foi feito com intenção de preencher algumas lacunas da historiografia do cangaço, como por exemplo, a questão do olho direito do Rei do Cangaço. Até então não havia estudo sobre a mais provável causa da cegueira direita de Lampião: ficava-se a especulação sobre glaucoma congênito, catarata congênita, espinho, sem que o assunto fosse submetido realmente a uma análise mais criteriosa.
Nesta ocasião também lancei o cordel “Sinhô Pereira, o Homem que Chefiou Lampião”, prefaciado por Dr. Antonio Amaury. Muito pouco se escreve sobre Sinhô Pereira, seja em prosa ou em verso.
Escrevi um capítulo no livro “Caatinga”, de Almeida Cortez e colaboradores, intitulado “Caatinga, Cangaço e o Raso da Catarina”, e recentemente colaborei com o cineasta Wolney Oliveira, com relação ao apoio histórico, no filme “Os Últimos Cangaceiros”, que aborda a vida de Moreno e Durvinha, a ser lançado brevemente.
Livro Preferido?
- Colocarei dois: “Assim Morreu Lampião”, do Antonio Amaury, e “Lampião e o Estado Maior do Cangaço”, do Magérbio de Lucena e Hilário Lucetti. Ao terminar de ler estas duas obras, a minha sensação era de que acabara de fazer um curso, tal era quantidade de novas informações adquirida.
Qual é o primeiro título recomendado para um calouro?
- "Lampião, entre a Espada e a Lei", de Sérgio Augusto de Souza Dantas. Uma biografia impecável de Lampião, inclusive com análise jurídica dos crimes.
Com quantos personagens desta história você teve contato?
- Através de Dr. Amaury, travei contato com diversos ex-cangaceiros, ex-coiteiros e seus descendentes: Vou enumerar aleatoriamente os que me venham na lembrança: Leônidas Fernandes... quase um xará... Filho de dona Delfina, a única mulher a ter sido presa por ser coiteira de Lampião, era proprietária da fazenda pedra D’água em Canindé/SE. Leônidas foi quem cuidou dos braços varados de bala do cangaceiro Novo Tempo, após o combate da Lagoa de Domingos João em 1937, e foi o pivô da morte do cangaceiro Juriti, pelo Sargento Deluz.
Através de Leônidas conheci também Zé Cícero, (cujo pai trabalhava com couro no sertão alagoano e baiano e certa vez foi ameaçado pelo Tenente Douradinho que intimou-lhe a fazer um chapéu para um de seus comandados. Ele o fez, mas o soldado não foi buscar e Zé Cícero me presenteou com o mesmo). Joãozinho de Donana ex-coiteiro de Corisco e Zé Baiano, que inclusive criou uma das filhas de Corisco e Dadá, e foi testemunha ocular do combate entre Lampião e o Tenente “Meneis” (Manoel Campos de Menezes) nas ruas de Pinhão (SE) em 1929.
Sila de Zé Sereno, (que ainda acompanhei como médico no Hospital São Paulo, onde ela ia submeter-se a uma cirurgia). Dona Mocinha irmã de Lampião ainda viva e seu filho Expedito (que conheceu, também, pessoalmente Lampião), e me disse que ao chegar ao coito, por sinal muito próximo à rua de Pedra de Delmiro (onde estava morando com os pais), observou muito bem Lampião e me disse que o chapéu que ele estava usando não era de couro, mas sim de feltro.
Moreno e Durvinha; mestre Pedro Batista, que foi o último remanescente dos batalhões patrióticos de Juazeiro (faleceu há uns dois anos em Barbalha-CE), inclusive andou com o tenente Chagas que foi levar o convite a Lampião para que este se apresentasse em Juazeiro. Esse encontro aconteceu na fazenda em São José do Belmonte/PE, divisa com o Ceará (fazenda Malhada Grande). Ele por ser um soldado raso naturalmente não sabia o teor da conversa, mas lembra de ter conhecido Manuel Pereira Lins o famoso “Né da Carnaúba”. Mestre Pedro trabalhava com manutenção de engenhos de rapadura de cana.
Também estive com Dulce companheira do cangaceiro Criança, em São Paulo, mas não foi uma entrevista formal... (Necessário ressaltar que ainda está ainda viva,). Por intermédio de Dr. Amaury, ainda conversei com Antonio Jacó “o Mané Veio” que matou o cangaceiro Luis Pedro entre outros, mas ele estava com a audição muito ruim, o que muito prejudicou as perguntas e respostas. Ex cangaceiro Candeeiro, ainda vivo, que reside em Buique, onde o conheci, quando eu ainda estava na faculdade em Recife, em 1996; nesta mesma ocasião conheci o ex-volante de Nazaré tenente João Gomes de Lira, na pequenina Carqueja (PE). Apertei a mão de David Gomes Jurubeba, levado por um colega de turma que era da família Pereira, mas infelizmente não pude entrevistá-lo, pois na ocasião estava doente. Durval Rodrigues Rosa, como já citei acima que conheci por volta de 1998, quando da minha primeira ida a Poço Redondo; a cangaceira Maria de Juriti eu apenas vi, pois os familiares não permitiram nossa aproximação para entrevistá-la. E saindo das hostes de Lampião conheci um descendente de um dos moradores da Fazenda Pedreira, no sertão paraibano, palco de combate de Antonio Silvino em 1901, o meu amigo Jota Nóbrega, que me relatou pormenores desse fatídico dia, que ouvira de seu avô, então adolescente naquela ocasião. Ele arrumou para transporte os soldados mortos e encontrou como despojos do combate, um punhal e uma Winchester que provavelmente pertencia aos cangaceiros de Silvino.
Qual destes foi o mais difícil?
- Não diria difícil, mas incompleto foi justamente a visita a Maria de Juriti que se resumiu em um cumprimento, de longe, pois a família era avessa ao assunto cangaço.
Com quem gostaria de ter conversado?
- Gostaria de ter conversado com Manoel Neto, com o cangaceiro Luis Pedro e com Juriti. Esses três, como personagens de proa da saga do cangaço, teriam informações muito interessantes sobre os diversos aspectos, principalmente a rotina do grupo.
Qual o contato que não foi possível e lhe deixou de certo modo frustrado?
- Antonia de Gato e Manoel Tubiba. Meu amigo, assim que eu soube que Antonia de Gato havia sido descoberta pelo João de Sousa Lima eu fiquei assanhado para conhecê-la lá na região de Paulo Afonso, mas infelizmente tive que adiar e quando pensei que poderia concretizar soube que ela já havia falecido. E o Manoel Tubiba, cangaceiro velho, que andou com Lampião nos primórdios e que estava nas barbas dos pesquisadores, sem que ninguém soubesse. É uma pena que não se tenha colhido seu depoimento, pois quando descoberto ele já havia falecido. A sua descoberta também cabe ao nosso maior caçador de cangaceiros nos dias atuais: João de Sousa Lima.
Qual é o seu capitulo preferido?
- Um episódio de acho interessante é o da morte de João de Clemente no sertão baiano, ocorrido aí no início dos anos 30, perto de Riacho Seco, imediações de Glória, por ali. Porque, neste episódio, pode-se vislumbrar, em meio à moral distorcida de Lampião, algum lampejo de “humanidade”. O Rei do Cangaço demonstrou muito remorso em ter assassinado o João de Clemente, dizendo textualmente a várias testemunhas (entre elas Dadá), que o rapaz nada tinha lhe feito e que se arrependia de tê-lo matado.
Eu visitei o local em que ele foi enterrado e tirei algumas fotos em companhia de Dr. Amaury.
Eis um resumo do episódio: Os cangaceiros entraram na fazenda do Seu Clemente justamente no momento em que o João (de Clemente) estava encourado (com os apetrechos de vaqueiro) para ir buscar o gado na malhada. E, na hora que avista a cabroeira, se assusta, monta no cavalo e sai apressadamente. Lampião à frente do grupo grita para o João parar e apear, exigindo que ele retorne. Diante da recusa o que acontece... Lampião atira de ponto e mata o jovem João. Os cabras vão se aproximando do terreiro da casa da fazenda, ao tempo que Seu Clemente, pai de João, vem saindo para acercar-se do que fora aquele disparo. Ao perceber o filho morto, seu João, desesperado, puxa o facão da cintura e parte para cima do Rei do Cangaço, e os cangaceiros (incluindo aí Ângelo Roque) apontam os fuzis para o velho, para matá-lo. Lampião imediatamente intervém: - Pára! Pára!Ninguém atira! Tira o facão do velho, que ele está no direito de pai. Ou seja: ele matou alguém nada lhe tinha feito, e poupou a vida do velho que veio para matá-lo de facão em punho. São as contradições do cangaço, na cabeça de referenciais éticos distorcidos de Lampião. O arrependimento pela morte de João de Clemente, ele confessou para vários de seus companheiros como Dadá e também Zé Sereno, dizendo que aquela foi uma morte que ele se arrependia de ter feito.
Um cangaceiro (a)?
- Luis Pedro.
Um volante?
- Manoel Neto e Arlindo Rocha.
Um coadjuvante?
- Eronides de Carvalho. Foi um grande colaborador e fez algo inusitado para a época, que muita gente desconhece. Uma vez que Lampião era dado a algumas sofisticações, na visita a fazenda Jaramataia um dos cabras estava sofrendo de dor de dente, e o Dr. Eronides, como médico, oferece uma aspirina para ele. O cabra, desconfiado, aguarda a aprovação do capitão... Que de pronto autoriza, então o cangaceiro toma o medicamento, e melhora da dor de dente. Destaco Eronides também pelas belíssimas fotos que ele que ele fez de Lampião e seu bando. Excelentes registros de Mariano, Zé Baiano, Calais, Arvoredo e outros. Este homem, que abrigou Lampião em sua fazenda e o presenteou, inclusive com perneiras do Exército. Filho de Antonio “Caixeiro” de Carvalho, grande protetor de Lampião em terras sergipanas em 1937, é nomeado Interventor de Sergipe, no Estado Novo de Vargas. A partir daí ele aparece na imprensa condenando o cangaço e os seus colaboradores, e até cobrando um fim para esse flagelo. Me lembrou muito os nossos políticos de hoje, que, mesmo flagrados na ilegalidade, na primeira oportunidade pregam a moral e os bons costumes.
Uma personagem secundária? Queria ter bom papel, mas não passou de figurante
- Durval Rosa. Durval era um rapazinho e sua importância no episódio da morte de Lampião é hipertrofiada. A sua real importância na história do cangaço deve ao fato de ter estado com Lampião naqueles dias, e ter reconhecido o mesmo após sua morte, sendo mais uma testemunha ocular em Angico, ou seja: vacina contra novas teorias mirabolantes. Acredito que naquelas horas que antecederam o combate de Angico, Pedro de Cândido tinha ido buscá-lo até por que sozinho não conseguiria guiar as três volantes envolvidas e também por que provavelmente queria ganhar tempo, até que Lampião percebesse a aproximação dos soldados, ou então que os soldados deixassem o cerco para a manhã seguinte quando – isso ele sabia muito bem - Lampião já teria deixado o Angico.
Geralmente todo pesquisador é colecionador qual é o foco de sua coleção?
- Alem de livros, punhais que consegui por doação, sendo que alguns são originais, e outros são réplicas. Um dos punhais que mais gosto é um que foi feito por Paulo Pereira, filho de José Pereira, o homem que fazia punhais para Lampião no Crato, sob encomenda de Júlio Pereira, genro do Coronel Santana. Tenho algumas peças feitas pelo cangaceiro Balão (um chapéu, bornais, alpercatas, cartucheiras para bala de revólver e fuzil), o chapéu que foi encomendado a um volante, que nunca foi usado, e um anel presente de Durvinha, que, apesar de ser posterior ao cangaço, foi um presente muito especial.
Entre as peças tem alguma relíquia?
- Consegui, no Cariri cearense, algumas preciosidades, como uma das armas trazidas aos batalhões patrióticos e que foi presenteada por Antonio da Piçarra a um coronel da região (não revelarei o nome); e que me foi presenteada por seus descendentes. Também consegui uma arma de um dos cangaceiros de Lampião, que, após ter recebido um mosquetão em Juazeiro, para combate à Coluna Prestes, presenteou sua antiga arma para uma pessoa que residia em Barbalha, a qual seu neto me presenteou.
Nós que gostaríamos de ver um filme que retratasse um cangaço autêntico, fiel aos fatos, sem licença poética, erro primário enfim sem exagero da ficção lamentamos a eterna necessidade de se ter finalmente uma produção digna da saga, de preferência um épico ou uma trilogia, enquanto isto não foi possível qual a película mais lhe agradou?
- Como representação histórica eu cito “Corisco, o diabo loiro”. Apesar da caracterização do ator de Corisco (Maurício do Valle) não ser das melhores, mas as indumentárias e a historia como um todo ficou bem representada neste filme. Também pudera: o roteiro tinha a colaboração do Amaury e a indumentária foi toda feita por Dadá. Já como filme emblemático eu elejo “O Cangaceiro” de Lima Barreto. Eu conheci em São Paulo, em companhia do Dr. Antonio Amaury e do Wolney Oliveira, o Galileu Garcia que, além de assistente de direção do Lima Barreto, também atuou no papel de assistente do chefe da volante. Segundo Galileu nos contou este o filme rendeu proporcionalmente mais que o americano Titanic. Mas a Vera Cruz não viu a cor do dinheiro e faliu anos depois.
Eleja a pérola mais absurda que já leu sobre Lampião?
- Tem várias. Mas vou ficar com a estória da indumentária, que alguns autores e jornalistas escreveram no passado, afirmando que era feita para camuflar o cangaceiro na caatinga. Ora, meus amigos, o traje do cangaceiro mais parece uma fantasia de carnaval: estrelas no chapéu, lenço colorido, perfumes exagerados misturados com suor, moedas na testeira do chapéu e na bandoleira do rifle... ou seja: quando o sol batia em cima do bandido, de longe se via o brilho e o reflexo. Na minha opinião, o traje era uma maneira de o cangaceiro se impor perante seus interlocutores. Era um traje adptado ao seu meio de vida. Nada ali é superfluo, mas dizer que era pra camuflar o cangaceiro, é demais!
Diante de tantas polêmicas surgidas posteriormente a tragédia em Angico alguma chegou a fazer sentido, levando-o a dar atenção especial ex.: “Ezequiel não morreu e reaparece anos mais tarde”, “João Peitudo, filho de Lampião”, “O Lampião de Buritis” e “a paternidade de Ananias”?
- Em São Paulo, também tive a oportunidade de conhecer e até conviver com o Ananias (Pretão) e o Arlindo, ambos pretensos irmãos de Maria Bonita. Visitei o Arlindo em Osasco (SP) e o Ananias na zona leste da capital. Quando digo pretensos irmãos de Maria Bonita é por que não vi o resultado do exame de DNA realizado. Na minha opinião, qualquer um deles pode, circunstancialmente, ser filho de Lampião e Maria.
Eu, apesar de não entender muito de genética, mas como profissional tenho alguns rudimentos, e conheço algumas condições que são necessárias para se obter um resultado confiável. Como já disse, não vi o resultado do que foi feito.
Quando se mexe com ciência, tenta-se mostrar onde provavelmente está a verdade. E pra isso existe um grau de certeza. Se o resultado é positivo ou negativo temos ver o grau de certeza disso, ou seja, o intervalo de confiança onde está provavelmente a verdade (é verdadeiro positivo? Falso positivo? Verdadeiro negativo? Ou falso negativo?). O que dificulta o resultado deste exame especificamente é que nós não temos descendentes de Lampião que sejam do sexo masculino, pra comparar o cromossomo Y. Não há mais irmãos homens, nem filhos homens de Lampião. Então, fica a cargo dos geneticistas fazerem com que o exame tenha um padrão seguro de certeza para se poder afiançar a verdade.
Quanto ao Ezequiel eu, particularmente, acho que ele morreu de bala, na Lagoa do Mel.
Dr. Leandro já nos responde esta pergunta em seu sublime texto “As verdades de Angico”, mas vamos carimbar a resposta novamente: Lampião morreu baleado ou envenenado?
- Lampião morreu baleado. Tiros no tórax e no baixo ventre. E, depois de caído (talvez até morto), deram-lhe um tiro na cabeça. Esta história de veneno é ficção científica.
Não precisa detalhar, mas em que assunto ou personagem está trabalhando ou qual gostaria de estudar para a publicação desta pesquisa. Enfim qual a próxima novidade que teremos em nossas estantes?
- Depois de passar uma chuva em São Paulo (nove anos e meio) e agora, como costumo dizer, “venci a lei da gravidade”, voltei pra minha terra, Teresina, no Piauí. E tenho a intenção de resgatar alguns fatos ligados ao cangaço no território piauiense. Apesar de Lampião não ter agido no Piauí, há muita coisa interessante a ser pesquisada. Um exemplo é a epopeia de Sinhô Pereira em 1919, quando ele foi rechaçado pela volante do tenente Zeca Rubens, na região de Caracol (PI). Nesta ocasião morreu o célebre cangaceiro Cacheado.
Existem relatos sobre um cangaceiro chamado Vicente Bezerra da Costa que tinha um pequeno bando e agia nos limite da Serra da Ibiapaba, hostilizando principalmente fazendeiros portugueses na época da independência do Brasil, inclusive com vários casos de sequestros e assassinatos.
Tem um episódio muito interessante que culminou com verdadeira guerra entre os coronéis Ângelo Gomes Lima o “Ângelo da Jia”, de Tacaratu (PE), famoso coiteiro de Lampião, e o Coronel Aureliano Augusto Dias, de Caracol (PI). Brigaram por conta da exploração de maniçobais no interior do Piauí. Foi guerra sangrenta com grande aporte de jagunços e cangaceiros da Bahia e Pernambuco, principalmente capitaneados pelo famoso Coronel baiano Franklin Albuquerque. Os subsídios para este futuro trabalho em parte já foram colhidos na época do lançamento de meu livro em parceria com Antonio Amaury “Lampião: A medicina e o cangaço”. Naquela ocasião nós conversamos com o Dr. William Palha Dias, neto do Coronel Aureliano. Inclusive tem um detalhe interessante: o avô dele recebeu Sinhô Pereira quando de sua passagem para Goiás em 1922. Desta visita ele nos relatou alguns pormenores, como, por exemplo, a companhia feminina do ex-chefe de Virgulino, que se chamava Alina e que rumou com ele para Goiás...
...Vamos ver o que vai dar.
*A foto de Eronides foi pescada no Blog Fontes da História de Sergipe
Sua “entrada” no cangaço deu-se quando tinha 12 anos. Seria a "síndrome de Volta Seca"?
Na época recebeu de presente do avô o livro “Lampião, Cangaço e Nordeste”, da Aglae Lima de Oliveira. O livro, que é ricamente ilustrado e o impressionou sobremaneira. A partir daí vestiu a camisa e entrou em campo. Começou a comprar livros e lê-los com voracidade.
Em 1991, foi estudar Medicina em Recife. Aproveitou o tempo em Pernambuco para investigar o que havia à disposição sobre o cangaço. Visitou museus, inclusive o Museu da Polícia Militar, que mostrava roupas das volantes e armas usadas na guerra contra o cangaço. Este local infelizmente encontra desativado e as peças têm paradeiro ignorado como relatou o escritor Geraldo Ferraz em sua entrevista.
Teve seus primeiros contatos com ex-cangaceiros, ex-volantes e com gente que conheceu protagonistas. Conheceu Drª. Laís Vieira, médica e, na época, tenente da Polícia Militar, que conviveu com o lendário Manoel Neto (inclusive foi para o seu enterro). Ela lhe deu informações interessantes sobre como vivia o ex-caçador de cangaceiros, como por exemplo, que o coronel Mané Neto só andava armado e desconfiava de todo mundo.
Ainda em Recife, precisamente em 1996, teve a oportunidade de conhecer na Fundação Joaquim Nabuco o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello, já havia ficado impressionado com as suas obras “Guerreiros do Sol” e “Quem Foi Lampião”.
Em 1998 foi parar na Selva de Pedra. Em São Paulo, de cara, seu volume de livros aumentou, pois não saía dos sebos do bairro da Liberdade e o da Maristela Kalil, próximo à Praça da República, sempre em busca de cangaço.
Dos livros de Amaury, ele destaca particularmente “Lampião: As Mulheres e o Cangaço”, que segundo sua opinião ainda é a melhor obra já publicada sobre o universo feminino no cangaço; e o “Assim Morreu Lampião”, uma reportagem emocionante sobre o dia fatídico do Angico,
Leandro lembra que “Assim Morreu Lampião” inclusive foi o embrião para o primeiro Globo Repórter (O Último Dia de Lampião, de Maurice Capovilla). Estes dois livros do Amaury lhe causaram grande impacto e começou a nutrir a vontade de conhecer o autor pessoalmente, uma vez que já o admirava a partir da honestidade com que escrevia.
Um belo dia recebe o telefonema de Dr. Napoleão, seu sogro, lhe avisando que dois "cangaceirólogos" iriam procurá-lo: Adivinhe Quem? Dr. Antonio Amaury e Dr. Melquíades Pinto Paiva.
Amaury telefonou; marcaram um encontro em sua casa, e pronto: todos os finais de semana (e muitas vezes as suas tardes de folga) eram na casa dele, falando de... Cangaço.
Dr. Leandro nos faz lembrar tal sensação de um músico que é fã de determinado artista e que de repente alem de conhecê-lo cria uma amizade cumplicidade que proporciona uma parceria em um novo trabalho, o que veremos em outro parágrafo.Os cavalheiros conviveram semanalmente por nove anos. Quando Dr. Melquíades - que reside no Rio - estava em São Paulo, os três almoçavam juntos falando de... Cangaço. Dr. Melquíades, diga-se de passagem, é detentor da maior biblioteca sobre cangaço do mundo!
Em 2002, Leandro Cardoso, Carlos Eduardo Gomes (confrade carioca), Dr. Benedito Denardi, Dr. William White, Dr. Mozart Pinho e Dr. Antonio Amaury empreenderam uma grande jornada pelos cenários “lampiônicos”: Piranhas, Poço Redondo (ocasião em que conheceu Durval e Alcino Costa), a localidade Mucambo, local onde o cadáver de Nenê de Luis Pedro ficou exposto aos curiosos; a fazenda Jacoca, onde Corisco foi apelidado de Diabo Loiro; visitaram Água branca (AL); Canindé do São Francisco (SE); Pinhão (SE) palco da batalha entre soldados e os sobreviventes de Angicos e também do combate de Lampião com o tenente Menezes em 1929.
Visitaram a Fazenda Patos e seu famoso curral de pedra, onde Corisco degolou os membros da família Ventura, em 1938. Tiveram também a oportunidade de conversar com o único irmão vivo da cangaceira Lídia, nos escombros da casa onde ela nasceu. E ainda deram uma esticada até o cenário do combate da Maranduba, um dos mais intensos da história do cangaço.
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| Em Angico |
Dr. Benedito, Jairo Luiz, Dr. Amaury, William White, eu e Carlos Eduardo Gomes, no famoso curral de pedra onde Corisco degolou os membros da família Ventura, na fazenda Patos.
Jairo, eu, Dr. Amaury, o irmão de Lídia e o Dr. Benedito Denardi, na casa velha da fazenda Pedra D'água à poucos metros de onde teve o combate da Lagoa de Domingos João.
Em Aracaju, Leandro foi recebido por Expedita Ferreira e Vera Ferreira (filha e neta do rei do cangaço). Na ocasião, Vera estava de posse das cabeças de Lampião e Maria Bonita, que haviam sido recolhidas de Salvador (por problemas no cemitério que sofreu danos pelo inverno abundante). Como estava escrevendo um livro especifico sobre medicina e cangaço, aproveitou para examinar estas peças, que estavam bastante avariadas.
Relatando esta oportunidade que poucos tiveram, lembra nosso entrevistado de que um dos contatos mais prazerosos que teve durante estes anos foi com o médico baiano Lamartine Lima, que foi assistente do Prof. Estácio de Lima.
Prof. Lamartine relatou-lhe aspectos médico-legais das cabeças, trechos de entrevistas que colheu, como por exemplo, o soldado que matou o cangaceiro Azulão, que, após acertá-lo na coluna deixando-o tetraplégico, degolou-o vivo (vide foto no livro do Estácio), dentre muitas outras passagens curiosas.
Então apresente suas crias!
- Junto com o Dr. Antonio Amaury, “Lampião a medicina e o cangaço, aspectos médicos do cangaceirismo”. Publicamos o livro em 2005 e viemos lançá-lo no Salão do Livro do Piauí.
O livro foi feito com intenção de preencher algumas lacunas da historiografia do cangaço, como por exemplo, a questão do olho direito do Rei do Cangaço. Até então não havia estudo sobre a mais provável causa da cegueira direita de Lampião: ficava-se a especulação sobre glaucoma congênito, catarata congênita, espinho, sem que o assunto fosse submetido realmente a uma análise mais criteriosa.
Nesta ocasião também lancei o cordel “Sinhô Pereira, o Homem que Chefiou Lampião”, prefaciado por Dr. Antonio Amaury. Muito pouco se escreve sobre Sinhô Pereira, seja em prosa ou em verso.
Escrevi um capítulo no livro “Caatinga”, de Almeida Cortez e colaboradores, intitulado “Caatinga, Cangaço e o Raso da Catarina”, e recentemente colaborei com o cineasta Wolney Oliveira, com relação ao apoio histórico, no filme “Os Últimos Cangaceiros”, que aborda a vida de Moreno e Durvinha, a ser lançado brevemente.
Livro Preferido?
- Colocarei dois: “Assim Morreu Lampião”, do Antonio Amaury, e “Lampião e o Estado Maior do Cangaço”, do Magérbio de Lucena e Hilário Lucetti. Ao terminar de ler estas duas obras, a minha sensação era de que acabara de fazer um curso, tal era quantidade de novas informações adquirida.
Qual é o primeiro título recomendado para um calouro?
- "Lampião, entre a Espada e a Lei", de Sérgio Augusto de Souza Dantas. Uma biografia impecável de Lampião, inclusive com análise jurídica dos crimes.
Com quantos personagens desta história você teve contato?
- Através de Dr. Amaury, travei contato com diversos ex-cangaceiros, ex-coiteiros e seus descendentes: Vou enumerar aleatoriamente os que me venham na lembrança: Leônidas Fernandes... quase um xará... Filho de dona Delfina, a única mulher a ter sido presa por ser coiteira de Lampião, era proprietária da fazenda pedra D’água em Canindé/SE. Leônidas foi quem cuidou dos braços varados de bala do cangaceiro Novo Tempo, após o combate da Lagoa de Domingos João em 1937, e foi o pivô da morte do cangaceiro Juriti, pelo Sargento Deluz.
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| Dona Delfina |
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| Leônidas |
Através de Leônidas conheci também Zé Cícero, (cujo pai trabalhava com couro no sertão alagoano e baiano e certa vez foi ameaçado pelo Tenente Douradinho que intimou-lhe a fazer um chapéu para um de seus comandados. Ele o fez, mas o soldado não foi buscar e Zé Cícero me presenteou com o mesmo). Joãozinho de Donana ex-coiteiro de Corisco e Zé Baiano, que inclusive criou uma das filhas de Corisco e Dadá, e foi testemunha ocular do combate entre Lampião e o Tenente “Meneis” (Manoel Campos de Menezes) nas ruas de Pinhão (SE) em 1929.
Eu, Joãozinho de Donana, Dr. Mozart Pinho e, atrás, Dr. Benedito Denardi.
Sila de Zé Sereno, (que ainda acompanhei como médico no Hospital São Paulo, onde ela ia submeter-se a uma cirurgia). Dona Mocinha irmã de Lampião ainda viva e seu filho Expedito (que conheceu, também, pessoalmente Lampião), e me disse que ao chegar ao coito, por sinal muito próximo à rua de Pedra de Delmiro (onde estava morando com os pais), observou muito bem Lampião e me disse que o chapéu que ele estava usando não era de couro, mas sim de feltro.
Com dona Maria Ferreira Queiroz, a Mocinha, última irmã viva de Lampião
Moreno e Durvinha; mestre Pedro Batista, que foi o último remanescente dos batalhões patrióticos de Juazeiro (faleceu há uns dois anos em Barbalha-CE), inclusive andou com o tenente Chagas que foi levar o convite a Lampião para que este se apresentasse em Juazeiro. Esse encontro aconteceu na fazenda em São José do Belmonte/PE, divisa com o Ceará (fazenda Malhada Grande). Ele por ser um soldado raso naturalmente não sabia o teor da conversa, mas lembra de ter conhecido Manuel Pereira Lins o famoso “Né da Carnaúba”. Mestre Pedro trabalhava com manutenção de engenhos de rapadura de cana.
Moreno
Durvinha...
Saliente hein doutor? Nem notou quem os espreitava
| O mestre Pedro |
Qual destes foi o mais difícil?
- Não diria difícil, mas incompleto foi justamente a visita a Maria de Juriti que se resumiu em um cumprimento, de longe, pois a família era avessa ao assunto cangaço.
Pois é, não foi somente meu primo que perdeu a viagem!
Essa mesma informação é passada por João de Sousa em sua entrevista que realizamos anteriormente. Povinho egoísta nã! Brincadeiras a parte vamos pensar quantas famílias não tiveram a mesma atitude e outros ex cangaceiros foram esquecidos para sempre. Quem sabe a história precisou destes depoimentos que foram enterrados com seus antigos Vulgos.
Com quem gostaria de ter conversado?
- Gostaria de ter conversado com Manoel Neto, com o cangaceiro Luis Pedro e com Juriti. Esses três, como personagens de proa da saga do cangaço, teriam informações muito interessantes sobre os diversos aspectos, principalmente a rotina do grupo.
Qual o contato que não foi possível e lhe deixou de certo modo frustrado?
- Antonia de Gato e Manoel Tubiba. Meu amigo, assim que eu soube que Antonia de Gato havia sido descoberta pelo João de Sousa Lima eu fiquei assanhado para conhecê-la lá na região de Paulo Afonso, mas infelizmente tive que adiar e quando pensei que poderia concretizar soube que ela já havia falecido. E o Manoel Tubiba, cangaceiro velho, que andou com Lampião nos primórdios e que estava nas barbas dos pesquisadores, sem que ninguém soubesse. É uma pena que não se tenha colhido seu depoimento, pois quando descoberto ele já havia falecido. A sua descoberta também cabe ao nosso maior caçador de cangaceiros nos dias atuais: João de Sousa Lima.
Qual é o seu capitulo preferido?
- Um episódio de acho interessante é o da morte de João de Clemente no sertão baiano, ocorrido aí no início dos anos 30, perto de Riacho Seco, imediações de Glória, por ali. Porque, neste episódio, pode-se vislumbrar, em meio à moral distorcida de Lampião, algum lampejo de “humanidade”. O Rei do Cangaço demonstrou muito remorso em ter assassinado o João de Clemente, dizendo textualmente a várias testemunhas (entre elas Dadá), que o rapaz nada tinha lhe feito e que se arrependia de tê-lo matado.
Eu visitei o local em que ele foi enterrado e tirei algumas fotos em companhia de Dr. Amaury.
Eis um resumo do episódio: Os cangaceiros entraram na fazenda do Seu Clemente justamente no momento em que o João (de Clemente) estava encourado (com os apetrechos de vaqueiro) para ir buscar o gado na malhada. E, na hora que avista a cabroeira, se assusta, monta no cavalo e sai apressadamente. Lampião à frente do grupo grita para o João parar e apear, exigindo que ele retorne. Diante da recusa o que acontece... Lampião atira de ponto e mata o jovem João. Os cabras vão se aproximando do terreiro da casa da fazenda, ao tempo que Seu Clemente, pai de João, vem saindo para acercar-se do que fora aquele disparo. Ao perceber o filho morto, seu João, desesperado, puxa o facão da cintura e parte para cima do Rei do Cangaço, e os cangaceiros (incluindo aí Ângelo Roque) apontam os fuzis para o velho, para matá-lo. Lampião imediatamente intervém: - Pára! Pára!Ninguém atira! Tira o facão do velho, que ele está no direito de pai. Ou seja: ele matou alguém nada lhe tinha feito, e poupou a vida do velho que veio para matá-lo de facão em punho. São as contradições do cangaço, na cabeça de referenciais éticos distorcidos de Lampião. O arrependimento pela morte de João de Clemente, ele confessou para vários de seus companheiros como Dadá e também Zé Sereno, dizendo que aquela foi uma morte que ele se arrependia de ter feito.
Um cangaceiro (a)?
- Luis Pedro.
Um volante?
- Manoel Neto e Arlindo Rocha.
Um coadjuvante?
- Eronides de Carvalho. Foi um grande colaborador e fez algo inusitado para a época, que muita gente desconhece. Uma vez que Lampião era dado a algumas sofisticações, na visita a fazenda Jaramataia um dos cabras estava sofrendo de dor de dente, e o Dr. Eronides, como médico, oferece uma aspirina para ele. O cabra, desconfiado, aguarda a aprovação do capitão... Que de pronto autoriza, então o cangaceiro toma o medicamento, e melhora da dor de dente. Destaco Eronides também pelas belíssimas fotos que ele que ele fez de Lampião e seu bando. Excelentes registros de Mariano, Zé Baiano, Calais, Arvoredo e outros. Este homem, que abrigou Lampião em sua fazenda e o presenteou, inclusive com perneiras do Exército. Filho de Antonio “Caixeiro” de Carvalho, grande protetor de Lampião em terras sergipanas em 1937, é nomeado Interventor de Sergipe, no Estado Novo de Vargas. A partir daí ele aparece na imprensa condenando o cangaço e os seus colaboradores, e até cobrando um fim para esse flagelo. Me lembrou muito os nossos políticos de hoje, que, mesmo flagrados na ilegalidade, na primeira oportunidade pregam a moral e os bons costumes.
Uma personagem secundária? Queria ter bom papel, mas não passou de figurante
- Durval Rosa. Durval era um rapazinho e sua importância no episódio da morte de Lampião é hipertrofiada. A sua real importância na história do cangaço deve ao fato de ter estado com Lampião naqueles dias, e ter reconhecido o mesmo após sua morte, sendo mais uma testemunha ocular em Angico, ou seja: vacina contra novas teorias mirabolantes. Acredito que naquelas horas que antecederam o combate de Angico, Pedro de Cândido tinha ido buscá-lo até por que sozinho não conseguiria guiar as três volantes envolvidas e também por que provavelmente queria ganhar tempo, até que Lampião percebesse a aproximação dos soldados, ou então que os soldados deixassem o cerco para a manhã seguinte quando – isso ele sabia muito bem - Lampião já teria deixado o Angico.
Geralmente todo pesquisador é colecionador qual é o foco de sua coleção?
- Alem de livros, punhais que consegui por doação, sendo que alguns são originais, e outros são réplicas. Um dos punhais que mais gosto é um que foi feito por Paulo Pereira, filho de José Pereira, o homem que fazia punhais para Lampião no Crato, sob encomenda de Júlio Pereira, genro do Coronel Santana. Tenho algumas peças feitas pelo cangaceiro Balão (um chapéu, bornais, alpercatas, cartucheiras para bala de revólver e fuzil), o chapéu que foi encomendado a um volante, que nunca foi usado, e um anel presente de Durvinha, que, apesar de ser posterior ao cangaço, foi um presente muito especial.
Entre as peças tem alguma relíquia?
- Consegui, no Cariri cearense, algumas preciosidades, como uma das armas trazidas aos batalhões patrióticos e que foi presenteada por Antonio da Piçarra a um coronel da região (não revelarei o nome); e que me foi presenteada por seus descendentes. Também consegui uma arma de um dos cangaceiros de Lampião, que, após ter recebido um mosquetão em Juazeiro, para combate à Coluna Prestes, presenteou sua antiga arma para uma pessoa que residia em Barbalha, a qual seu neto me presenteou.
Nós que gostaríamos de ver um filme que retratasse um cangaço autêntico, fiel aos fatos, sem licença poética, erro primário enfim sem exagero da ficção lamentamos a eterna necessidade de se ter finalmente uma produção digna da saga, de preferência um épico ou uma trilogia, enquanto isto não foi possível qual a película mais lhe agradou?
- Como representação histórica eu cito “Corisco, o diabo loiro”. Apesar da caracterização do ator de Corisco (Maurício do Valle) não ser das melhores, mas as indumentárias e a historia como um todo ficou bem representada neste filme. Também pudera: o roteiro tinha a colaboração do Amaury e a indumentária foi toda feita por Dadá. Já como filme emblemático eu elejo “O Cangaceiro” de Lima Barreto. Eu conheci em São Paulo, em companhia do Dr. Antonio Amaury e do Wolney Oliveira, o Galileu Garcia que, além de assistente de direção do Lima Barreto, também atuou no papel de assistente do chefe da volante. Segundo Galileu nos contou este o filme rendeu proporcionalmente mais que o americano Titanic. Mas a Vera Cruz não viu a cor do dinheiro e faliu anos depois.
Eleja a pérola mais absurda que já leu sobre Lampião?
- Tem várias. Mas vou ficar com a estória da indumentária, que alguns autores e jornalistas escreveram no passado, afirmando que era feita para camuflar o cangaceiro na caatinga. Ora, meus amigos, o traje do cangaceiro mais parece uma fantasia de carnaval: estrelas no chapéu, lenço colorido, perfumes exagerados misturados com suor, moedas na testeira do chapéu e na bandoleira do rifle... ou seja: quando o sol batia em cima do bandido, de longe se via o brilho e o reflexo. Na minha opinião, o traje era uma maneira de o cangaceiro se impor perante seus interlocutores. Era um traje adptado ao seu meio de vida. Nada ali é superfluo, mas dizer que era pra camuflar o cangaceiro, é demais!
Diante de tantas polêmicas surgidas posteriormente a tragédia em Angico alguma chegou a fazer sentido, levando-o a dar atenção especial ex.: “Ezequiel não morreu e reaparece anos mais tarde”, “João Peitudo, filho de Lampião”, “O Lampião de Buritis” e “a paternidade de Ananias”?
- Em São Paulo, também tive a oportunidade de conhecer e até conviver com o Ananias (Pretão) e o Arlindo, ambos pretensos irmãos de Maria Bonita. Visitei o Arlindo em Osasco (SP) e o Ananias na zona leste da capital. Quando digo pretensos irmãos de Maria Bonita é por que não vi o resultado do exame de DNA realizado. Na minha opinião, qualquer um deles pode, circunstancialmente, ser filho de Lampião e Maria.
Eu, apesar de não entender muito de genética, mas como profissional tenho alguns rudimentos, e conheço algumas condições que são necessárias para se obter um resultado confiável. Como já disse, não vi o resultado do que foi feito.
Quando se mexe com ciência, tenta-se mostrar onde provavelmente está a verdade. E pra isso existe um grau de certeza. Se o resultado é positivo ou negativo temos ver o grau de certeza disso, ou seja, o intervalo de confiança onde está provavelmente a verdade (é verdadeiro positivo? Falso positivo? Verdadeiro negativo? Ou falso negativo?). O que dificulta o resultado deste exame especificamente é que nós não temos descendentes de Lampião que sejam do sexo masculino, pra comparar o cromossomo Y. Não há mais irmãos homens, nem filhos homens de Lampião. Então, fica a cargo dos geneticistas fazerem com que o exame tenha um padrão seguro de certeza para se poder afiançar a verdade.
Quanto ao Ezequiel eu, particularmente, acho que ele morreu de bala, na Lagoa do Mel.
Dr. Leandro já nos responde esta pergunta em seu sublime texto “As verdades de Angico”, mas vamos carimbar a resposta novamente: Lampião morreu baleado ou envenenado?
- Lampião morreu baleado. Tiros no tórax e no baixo ventre. E, depois de caído (talvez até morto), deram-lhe um tiro na cabeça. Esta história de veneno é ficção científica.
Não precisa detalhar, mas em que assunto ou personagem está trabalhando ou qual gostaria de estudar para a publicação desta pesquisa. Enfim qual a próxima novidade que teremos em nossas estantes?
- Depois de passar uma chuva em São Paulo (nove anos e meio) e agora, como costumo dizer, “venci a lei da gravidade”, voltei pra minha terra, Teresina, no Piauí. E tenho a intenção de resgatar alguns fatos ligados ao cangaço no território piauiense. Apesar de Lampião não ter agido no Piauí, há muita coisa interessante a ser pesquisada. Um exemplo é a epopeia de Sinhô Pereira em 1919, quando ele foi rechaçado pela volante do tenente Zeca Rubens, na região de Caracol (PI). Nesta ocasião morreu o célebre cangaceiro Cacheado.
Existem relatos sobre um cangaceiro chamado Vicente Bezerra da Costa que tinha um pequeno bando e agia nos limite da Serra da Ibiapaba, hostilizando principalmente fazendeiros portugueses na época da independência do Brasil, inclusive com vários casos de sequestros e assassinatos.
Tem um episódio muito interessante que culminou com verdadeira guerra entre os coronéis Ângelo Gomes Lima o “Ângelo da Jia”, de Tacaratu (PE), famoso coiteiro de Lampião, e o Coronel Aureliano Augusto Dias, de Caracol (PI). Brigaram por conta da exploração de maniçobais no interior do Piauí. Foi guerra sangrenta com grande aporte de jagunços e cangaceiros da Bahia e Pernambuco, principalmente capitaneados pelo famoso Coronel baiano Franklin Albuquerque. Os subsídios para este futuro trabalho em parte já foram colhidos na época do lançamento de meu livro em parceria com Antonio Amaury “Lampião: A medicina e o cangaço”. Naquela ocasião nós conversamos com o Dr. William Palha Dias, neto do Coronel Aureliano. Inclusive tem um detalhe interessante: o avô dele recebeu Sinhô Pereira quando de sua passagem para Goiás em 1922. Desta visita ele nos relatou alguns pormenores, como, por exemplo, a companhia feminina do ex-chefe de Virgulino, que se chamava Alina e que rumou com ele para Goiás...
...Vamos ver o que vai dar.
*A foto de Eronides foi pescada no Blog Fontes da História de Sergipe
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Quem sabe faz ao vivo
As Verdades de Angico
(*) Por: Leandro Cardoso Fernandes
Pra começar bem a semana, mais um grande artigo do confrade Leandro Fernandes. (Foto)
Respectivo texto de uma palestra proferida com garra e maestria por ele no 'Cariri Cangaço 2009' e agora gentilmente enviada como "Gás" para o Lampião Aceso e compartilhada com vocês.
Siiiiiim! Na próxima semana vamos conhecer a vida, andanças, obras, opinião e as atuais pesquisas de Leandro Fernandes em uma super entrevista, Aguardem!
Escrever sobre o combate do Angico traz uma sensação ambígua: um certo receio por estar pisando em solo instável, recheado de controvérsias e versões discrepantes; e, por outro lado, um destemor confiante por estar devidamente fundamentado para questionar e apontar respostas para alguns dos pontos obscuros.
O que vai exposto a seguir é um exercício de reflexão sobre o dia mais intrigante da historiografia do cangaço, sem pretensões a resolver todos os mistérios do Angico. O epílogo de Lampião sempre foi um palco de vardades mentirosas e mentiras verdadeiras, parafraseando o expert Alcino Alves Costa, que colocou boa parte do seu trabalho em apontar os fatos inquietantes daquele amanhecer. Os parágrafos enfeixados a seguir são uma tentativa de contemplar o que há de mais claro e seguro para responder a dois questionamentos apenas, dentre os muitos que se nos apresentam em relação a este episódio.
Vamos lá, então.Precisamos, inicialmente, situar o ambiente onde se desenrolou o fatídico combate.
Lampião, já beirando os quarenta anos, desde meados de 1937 que não brigava. Seu último combate digno de nota foi uma “botada” que Zé de Rufina, lhe fez na Lagoa do Domingos João, arredores de Canindé do São Francisco (SE). Então, o Lampião que encontramos no Angico é um Virgulino cansado, fugidio e sem interesses em confrontos com tropas volantes. Pouco tempo antes, Maria Bonita estivera em Propriá, incógnita, para investigar possíveis “escarros com sangue”. Ela própria, na véspera do combate, confidenciara à Cila que gostaria de abandonar aquela vida, chegando, inclusive, a conversarem sobre o que aconteceria caso fossem apanhadas por volantes. O grupo, cada vez mais, parecia menos aguerrido.
Candeeiro, em entrevista concedida ao documentário “Candeeiro” de Aderbal Nogueira, revela que Lampião, antes de atravessar o São Francisco, disse a seus comandados que estava com vontade de fazer uma ‘longa viagem’ para Minas Gerais e que, quem quisesse ir junto, seria bem vindo:
Então, surgem afirmações desse tipo: - o grande estrategista que era Lampião nunca se deixaria apanhar num cerco como o que foi feito em Angico! Entretanto, quem faz esse tipo de afirmação não coloca o risco real da vida; esquece que grandes bandidos, como Jesse James, Billy the Kid e outros foram mortos de maneira semelhante, às vezes sem qualquer esboço de reação. É a vida real, livre dos subterfúgios de nossa vontade romanceada.
Recentemente veio à lume o livro de José Geraldo Aguiar, “Lampião, o invencível – Duas Vidas e Duas Mortes”, afirmando que Lampião teria escapado do cerco de Angico e morrido em Minas Gerais na década de noventa, com identidade trocada (na verdade, várias trocas de nomes).
Ao analisarmos o que está posto no livro supracitado, verifica-se de imediato a falta de embasamento, seja documental, seja por depoimentos de pessoas que conheceram Lampião, para que se possa dar crédito a tal teoria. As entrevistas enfeixadas no livro são de pessoas que tiveram contato com o pretenso Lampião lá em Minas Gerais. Não há qualquer depoimento de quem o conheceu na época do cangaço. O Sr. João Teixeira Lima (o dito Lampião mineiro) poderia muito bem, de maneira muito cômoda, chamar para si a identidade de Lampião, quem sabe buscando intimidar as pessoas em sua volta, mantendo uma atmosfera permanente de mistério em torno de si próprio.
A comprovação de veracidade do conteúdo exposto por José Geraldo Aguiar baseia-se basicamente no próprio depoimento do candidato a Lampião, e em exame comparativo de fotos, que sequer levou em conta a ausência do leucoma característico do olho direito do Rei do Cangaço, no Sr. João Teixeira Lima. Chama a atenção também a gritante diferença entre a personalidade do “Lampião de Buritis” e a do verdadeiro Virgulino Ferreira. O primeiro, um sociopata, de difícil convívio, sem amizades, que quando se via em dificuldades, para conseguir o que desejava, vociferava que era Lampião ou então bradava “você sabe com quem está falando?”.
O verdadeiro Lampião tinha personalidade diametralmente oposta: era cordial, calculista, profícuo em fazer amizades (inclusive com deputados, interventores e autoridades), não demonstrando qualquer problema de relacionamento. Tanto isso é verdade que construiu enorme e sólida rede de coiteiros e amigos em vários estados nordestinos, além de atrair para as fileiras do cangaço centenas de homens e mulheres.
José Geraldo Aguiar, no seu livro, diz que o cangaceiro Zé do Sapo morreu como substituto do Rei do Cangaço, no Angico. Afirma também que os soldados teriam jurado e cumprido, sob pena de morte, não ‘abrir o bico’ sobre a “farsa” encenada na madrugada de 28 de julho de 1938. Ora, basta uma análise superficial dos fatos para perceber que estas ilações estão edificadas sobre pés de barro.
Vale ressaltar que nos depoimentos de Zé Sereno, Cila e Candeeiro, Lampião acordara cedo e rezara com o bando (aqueles que quiseram) o Ofício de Nossa Senhora. Depois tomou café feito pelo cangaceiro Vila Nova (o único que estava devidamente equipado), segundo depoimento de Zé Sereno. Após o desjejum com Vila Nova, Lampião ordenou que Amoroso fosse buscar água para o café dos outros, que ainda curtiam o friozinho daquela manhã (sob as cobertas), conforme depoimento de Cila e Candeeiro. O tiroteio irrompeu sobre Amoroso, que, por milagre, pelo medo e embriaguês dos soldados, escapou ileso. Neste momento, Lampião conversava com Zé Sereno e Luís Pedro. Sereno teria dito: “não falei que a gente brigava hoje?”.
Com relação ao reconhecimento do cadáver do Rei do Cangaço, cito aqui, rapidamente, Joaquim Góis, que reconheceu a lesão cicatricial de seu tornozelo direito; Pedro de Cândido, que além de reconhecer a cabeça do Rei e da Rainha do Cangaço, identificou os corpos decapitados para curiosos e jornalistas; e Durval Rodrigues Rosa, que afirmou textualmente “ainda hoje é ‘serviço’ fazer o povo acreditar que foi mesmo
Passemos ao segundo questionamento.
Mais munição para esta controvérsia foi a débil reação do bando no combate em Angico, que também suscitou especulações. Outro reforço à tese está na propalada mortandade de urubus, que, ainda hoje, não foi confirmada. Essa última apareceu em uma declaração de Wandenkolk Wanderley, à imprensa, afirmando que vira vários urubus mortos, contradizendo o depoimento que dera mais de 30 anos antes e que, curiosamente, não apresentava a mortandande dessas aves. Já o escritor Joaquim Góis disse que, ao chegar em Angico, logo após o combate, avistou “muito urubu alegre naquele dia”.
Uma coisa é certa: se realmente houve a tão propalada mortandade de urubus, a quantidade de veneno ingerida pelos cangaceiros teria sido incrivelmente grande. Outro detalhe importante desta história é que, por causa da fedentina dos corpos, despejaram sobre os mesmos cal e creolina, o que poderia ter causado a morte de algum urubu, por lesão aguda da mucosas digestivas destas aves.
Vamos em frente.
Os Cães
Outro reforço para a tese da farsa e do veneno é que os cachorros não deram o alarme, não denunciando os soldados, que seriam “estranhos”. Mas, mesmo após uma simples análise, encontramos vários motivos para que os cachorros não tivessem se manifestado.
Vejamos.
Em primeiro lugar, nos reportaremos ao perfil dos cães. Candeeiro, em entrevista no vídeo de Aderbal Nogueira, ao responder os questionamentos de Paulo Gastão, o entrevistador, é taxativo em dizer que Guarani, o cachorro de Lampião, era quieto e não latia, apenas “saía atrás da gente” – SIC. Isso nos força a refletir sobre a maneira de ser, a “personalidade” do cão, provavelmente sinalizando que os cães eram de companhia e não feras nervosas que latiam à aproximação de quem quer que fosse. Se esse fosse o caso, os cangaceiros ficariam expostos, pois cachorro latindo no meio da caatinga é o pior que poderia acontecer ao grupo, uma vez que denunciaria sua localização.
Além do mais, como a madrugada fora de chuvisco e frio, muito provavelmente os cães estavam abrigados, ou sob os arbustos ou junto dos donos, sob as tordas. A própria disposição dos grupos naquele leito seco de pedras, dificultaria enormemente o discernimentos dos cães quanto a invasores, pois é sabido que naqueles dias juntaram-se ao bando de Lampião os subgrupos de Zé Sereno, Luís Pedro, o sobrinho de Lampião, José, e os coiteiros Manoel Félix, Pedro de Cândido e Durval. Ou seja: TODOS ESTRANHOS aos cachorros! E ainda faço outro questionamento: como os cães conseguiriam distinguir um soldado de um cangaceiro, uma vez que se vestiam de maneira semelhante, utilizando, inclusive perfumes variados, que confundem o faro canino?
Vamos mais adiante. Ainda desfiando o possível envenenamento de Lampião, eu me questiono: a que horas o Rei do Cangaço teria ingerido o veneno?
Balão, em famosa entrevista, afirma que foram dormir por volta das 22h. Supondo que Lampião tenha jantado antes de dormir - no caso de envenenamento –, deveria ter ingerido algo tóxico nessa ocasião e, portanto, morrido durante a madrugada. No entanto, deparamo-nos com o Capitão Virgulino rezando o Ofício de Nossa Senhora logo cedo (depoimentos de Cila, Candeeiro, Zé Sereno e Balão). Cila, com preguiça, não havia se levantado para fazer a oração. Já Balão, após a reza, voltou a deitar-se, pois ainda era muito cedo e fazia frio. Lampião tomou o café feito pelo cangaceiro Vila Nova e, conversando com Luís Pedro e Sereno, ordena que Amoroso vá buscar água para o café dos outros, ocasião em que o tiroteio é deflagrado.
Aí, então, eu volto a perguntar: a que horas Lampião foi envenenado? Após o “jantar” da noite anterior, a “próxima” provável refeição do Rei do Cangaço, onde poderia ter ingerido algum veneno, seria o café feito e tomado com Vila Nova. No entanto, este cangaceiro não morreu, nem de veneno, nem de tiro, pois o reencontramos por ocasião das entregas, bem de saúde, alguns meses depois.
Ao analisarmos os principais venenos que poderiam ter sido utilizados contra os cangaceiros, e o quadro clínico decorrente de sua ação no organismo, é que realmente temos a certeza de que os cangaceiros no Angico não foram envenenados.
Estricnina: é um alcalóide extremamente tóxico, e uma das substâncias mais amargas que existem; seu gosto é percebido em concentrações da ordem de uma parte por milhão (1ppm). O quadro clínico da intoxicação pela estricnina é bastante exuberante, incluindo pródromos de câimbras e dor; rigidez dorsal e cervical; rigidez de extremidades; agitação e ansiedade; hipertonia; convulsões (com o paciente acordado e lúcido); opistótono (espécie de contratura involuntária da musculatura paravetebral, deixando o corpo em forma de arco); “riso sardônico”; paralisia respiratória e parada cardiorrespiratória. Ao analisarmos as fotos das cabeças cortadas e dos corpos insepultos, não há qualquer evidência de posições de hipertonia ou espasmos da musculatura facial, sugerindo o “riso sardônico”, muito menos relatos do sobreviventes ou da polícia testemunhando crises convulsivas ou contrações involuntárias generalizadas, afastando a possibilidade do seu uso no episódio do Angico.
Arsênico: também conhecido como “veneno de sucessão”, em razão do seu largo uso na crônica histórica, principalmente no assassinato de reis por seus sucessores. A sua grande “vantagem” de uso seria o fato de não ter odor e parecer açúcar, facilitando a administração. Entretanto, no seu quadro de intoxicação, encontramos: arritmias cardíacas graves, neurite, nistagmo, choque circulatório, convulsões, tremores, sudorese, vômitos incoercíveis, tosse, diminuição do nível de consciência, lacrimejamento, etc.... Nada disso foi visto nos cangaceiros, nem pelos que escaparam, nem pelos volantes.
Cianureto: têm um típico sabor amargo, lembrando amêndoas. A sintomatologia da overdose inclui taquicardia, alternando com bradicardia; hipotensão arterial/choque circulatório; prurido, agitação psicomotora; dor de cabeça; cianose; acidose; nistagmo; coma, hipotermia; náuseas e vômitos incoercíveis; edema agudo pulmonar. Da mesma forma, nenhum dos sinais e sintomas expostos aqui foi visto ou relatado por cangaceiros ou policiais, desmoronando, definitivamente, a tese do envenenamento.
Como se não fosse o bastante, vale ainda lembrar que, entre os que morreram, Enedina foi alvejada na cabeça enquanto estava correndo (depoimento de Cila e Candeeiro); Mergulhão, antes de morrer, conversou com Candeeiro (depoimento de Candeeiro); Luís Pedro foi visto por cangaceiros e policiais conversando com Maria Bonita ferida; Lampião conversava com Zé Sereno e Luís Pedro quando o combate iniciou. Ou seja: dos onze que morreram, cinco possuem evidências sólidas testemunhais de que não estavam envenenados ou com sinais (ou sintomas) de envenenamento.
Vejamos as palavras de Candeeiro, em resposta ao questionamento de Paulo Gastão, no vídeo de Aderbal Nogueira:
O cangaço e sua repressão eram movidos a álcool. E os efeitos sistêmicos do etanol, na concentração de até 3g/litro de sangue, podem explicar muitos dos supostos desencontros do Angico, principalmente entre os depoimentos. Alterações como perda da eficiência (os tiros perdidos sobre Amoroso), déficit de atenção e prejuízo de julgamento e controle (a quebra de hierarquia, as agressões de Ferreira de Melo a Durval), déficit de atenção, memória e amnésia alcoólica (as discrepâncias com relação à chuva, horários e companheiros presentes).
As limitações impostas pelo excesso de álcool somadas à dificuldade natural de registro das situações que acontecem perifericamente, numa situação de intenso estresse físico e emocional, podem, sem sombra de dúvida, resultar em pequenas imprecisões e distorções, principalmente no que diz respeito à sucessão dos acontecimentos.
Com relação às divergências no calor do combate, o depoimento dos cangaceiros tende a ser mais fiel, uma vez que os soldados provavelmente beberam durante a madrugada, e os cangaceiros ficaram acordados no máximo até às 23h do dia anterior. E, além do mais, a surpresa do combate, invariavelmente impõe uma sobriedade forçada aos cangaceiros, que estavam em desvantagem e tinham que sobreviver ao ataque surpresa.
Bala
O tiroteio ou combate do Angico pode ser rememorado em cores vivas pelos depoimentos de qualquer dos cangaceiros ou volantes sobreviventes. E a maior prova que ele foi intenso e real é o número de mortos e feridos: 12 mortos (incluindo o soldado Adrião) e os feridos: Balão, Candeeiro e João Bezerra.
O revide de Lampião aconteceu, apesar de bem abaixo do esperado para o grande estrategista do Cangaço. No vídeo já citado de Aderbal Nogueira, o entrevistador (Paulo Gastão) faz o seguinte questionamento:
Candeeiro resume assim o início do combate: estava deitado quando ouviu um tiro seco. Sentou, achando que fosse alguém “treinando”. Ouviu outro tiro, e então já se levantou, e aí o “mundo desabou”. O tiroteio cerrou para os lados de Lampião, que, provavelmente, não teve oportunidade nem tempo para organizar o revide. Estava dado, portanto, o tiro de misericórdia no cangaço, que ainda estrebucharia até maio de 1940, o fim de Corisco.
Conclusão do segundo questionamento:
Não poderia deixar de homenagear os comandantes João Bezerra da Silva e Francisco Ferreira de Melo, os verdadeiros heróis do Angico. Os dois agiram em tão perfeita sintonia que, mesmo diante dos vários empecilhos encontrados (a recusa inicial de Pedro, o início do tiroteio sem que o cerco estivesse fechado...) tiveram sucesso e deram cabo de Lampião, Maria e mais nove cangaceiros. As luzes de Bezerra e Ferreira de Melo ofuscaram largamente a genialidade militar de Lampião, às custas da surpresa (arma que sempre estivera a favor do cangaceiro) e da inteligência militar bem aplicada.
Antes de encerrar, gostaria de enfatizar que esta discussão sobre Angico somente é possível devido à coragem e determinação de dois grandes desbravadores: Antônio Amaury Corrêa de Araújo, que foi quem primeiro vislumbrou como pesquisador os acontecimentos daquela madrugada, e os colocou em ordem, presenteando-nos com uma obra fundamental sobre o assunto; e Alcino Alves Costa, que, inquieto e questionador, vem nos exortando a reflexões como estas, sobre o que parece ser a verdade.
Eles não comungam da célebre máxima exposta no filme “O Homem que Matou o Facínora”, de John Ford, onde o jornalista, ao saber que a verdade dos fatos é bem menos ‘heróica’ do que a lenda, diz:
Referências:
1) Aguiar, J. G. “Lampião, o invencível – Duas Mortes e Duas Vidas”. Thesaurus editora. 2009.
2) Nogueira, Aderbal. Vídeo “Candeeiro”. 2006.
3) Leikin, B et all. “Poisoning & Toxicology Compendium”. 1998.
4) Dantas, S. A. S. “Lampião – Entre a Espada e a Lei”. Editora Cartgraf. 2008.
5) Araújo, A. A. C. “Entrevistas com Balão, Zé Sereno e Cila”. 1971-73.
6) Fernandes, L. C. “Entrevista com Cila”. São Paulo, 2003.
FOTOS E FATOS:
*Leandro Cardoso Fernandes: É médico (Universidade de Pernambuco – 1997), especialista em Cardiologia e Ecocardiografia pela Escola Paulista de Medicina (2005), autor do livro “Lampião: A Medicina e o Cangaço” (em parceria com Antônio Amaury Corrêa de Araújo); autor do cordel: “Sinhô Pereira: O Homem que Chefiou Lampião”. Contato: leandrocfernandes@globo.com
(*) Por: Leandro Cardoso Fernandes
Pra começar bem a semana, mais um grande artigo do confrade Leandro Fernandes. (Foto)
Respectivo texto de uma palestra proferida com garra e maestria por ele no 'Cariri Cangaço 2009' e agora gentilmente enviada como "Gás" para o Lampião Aceso e compartilhada com vocês.
Siiiiiim! Na próxima semana vamos conhecer a vida, andanças, obras, opinião e as atuais pesquisas de Leandro Fernandes em uma super entrevista, Aguardem!
Escrever sobre o combate do Angico traz uma sensação ambígua: um certo receio por estar pisando em solo instável, recheado de controvérsias e versões discrepantes; e, por outro lado, um destemor confiante por estar devidamente fundamentado para questionar e apontar respostas para alguns dos pontos obscuros.
O que vai exposto a seguir é um exercício de reflexão sobre o dia mais intrigante da historiografia do cangaço, sem pretensões a resolver todos os mistérios do Angico. O epílogo de Lampião sempre foi um palco de vardades mentirosas e mentiras verdadeiras, parafraseando o expert Alcino Alves Costa, que colocou boa parte do seu trabalho em apontar os fatos inquietantes daquele amanhecer. Os parágrafos enfeixados a seguir são uma tentativa de contemplar o que há de mais claro e seguro para responder a dois questionamentos apenas, dentre os muitos que se nos apresentam em relação a este episódio.
Vamos lá, então.Precisamos, inicialmente, situar o ambiente onde se desenrolou o fatídico combate.
Lampião, já beirando os quarenta anos, desde meados de 1937 que não brigava. Seu último combate digno de nota foi uma “botada” que Zé de Rufina, lhe fez na Lagoa do Domingos João, arredores de Canindé do São Francisco (SE). Então, o Lampião que encontramos no Angico é um Virgulino cansado, fugidio e sem interesses em confrontos com tropas volantes. Pouco tempo antes, Maria Bonita estivera em Propriá, incógnita, para investigar possíveis “escarros com sangue”. Ela própria, na véspera do combate, confidenciara à Cila que gostaria de abandonar aquela vida, chegando, inclusive, a conversarem sobre o que aconteceria caso fossem apanhadas por volantes. O grupo, cada vez mais, parecia menos aguerrido.
Candeeiro, em entrevista concedida ao documentário “Candeeiro” de Aderbal Nogueira, revela que Lampião, antes de atravessar o São Francisco, disse a seus comandados que estava com vontade de fazer uma ‘longa viagem’ para Minas Gerais e que, quem quisesse ir junto, seria bem vindo:
“Tô com vontade de ir pra Minas. Por que se vai pra Sergipe leva bala; pra Bahia, leva bala; pra Pernambuco, bala. Aqui não dá mais pra viver.”Tudo sinalizava para uma guinada na vida do Rei do Cangaço: ou abandonaria aquela vida para viver em outras plagas, com identidade falsa; ou apenas repetiria o que havia feito em 1928, quando, atravessando para a Bahia, renovou o palco do cangaço. Aqui chegamos ao primeiro questionamento:
Lampião realmente morreu no Angico?
Teria ele abandonado o palco de lutas no sertão, colocado um substituto no seu lugar e rumado para Minas?Antes de analisarmos os fatos, devemos recordar que há uma certa dificuldade geral em se aceitar “pacificamente” a morte de um herói ou de um mito. Desde os tempos de Dom Sebastião, rei de Portugal, passando por Elvis Presley e agora, mais recentemente, Michael Jackson, que as pessoas tentam se convencer de um possível “milagre” para evitar o fim trágico, a morte de seus ídolos. Com Lampião não foi diferente. O grande chefe de cangaço sempre despertou sentimentos contraditórios, mesmo em seus perseguidores, que colocavam nele a pecha de bandido, mas o admiravam como inimigo valente, destemido e inteligente.
Então, surgem afirmações desse tipo: - o grande estrategista que era Lampião nunca se deixaria apanhar num cerco como o que foi feito em Angico! Entretanto, quem faz esse tipo de afirmação não coloca o risco real da vida; esquece que grandes bandidos, como Jesse James, Billy the Kid e outros foram mortos de maneira semelhante, às vezes sem qualquer esboço de reação. É a vida real, livre dos subterfúgios de nossa vontade romanceada.
Recentemente veio à lume o livro de José Geraldo Aguiar, “Lampião, o invencível – Duas Vidas e Duas Mortes”, afirmando que Lampião teria escapado do cerco de Angico e morrido em Minas Gerais na década de noventa, com identidade trocada (na verdade, várias trocas de nomes).
Ao analisarmos o que está posto no livro supracitado, verifica-se de imediato a falta de embasamento, seja documental, seja por depoimentos de pessoas que conheceram Lampião, para que se possa dar crédito a tal teoria. As entrevistas enfeixadas no livro são de pessoas que tiveram contato com o pretenso Lampião lá em Minas Gerais. Não há qualquer depoimento de quem o conheceu na época do cangaço. O Sr. João Teixeira Lima (o dito Lampião mineiro) poderia muito bem, de maneira muito cômoda, chamar para si a identidade de Lampião, quem sabe buscando intimidar as pessoas em sua volta, mantendo uma atmosfera permanente de mistério em torno de si próprio.
A comprovação de veracidade do conteúdo exposto por José Geraldo Aguiar baseia-se basicamente no próprio depoimento do candidato a Lampião, e em exame comparativo de fotos, que sequer levou em conta a ausência do leucoma característico do olho direito do Rei do Cangaço, no Sr. João Teixeira Lima. Chama a atenção também a gritante diferença entre a personalidade do “Lampião de Buritis” e a do verdadeiro Virgulino Ferreira. O primeiro, um sociopata, de difícil convívio, sem amizades, que quando se via em dificuldades, para conseguir o que desejava, vociferava que era Lampião ou então bradava “você sabe com quem está falando?”.
O verdadeiro Lampião tinha personalidade diametralmente oposta: era cordial, calculista, profícuo em fazer amizades (inclusive com deputados, interventores e autoridades), não demonstrando qualquer problema de relacionamento. Tanto isso é verdade que construiu enorme e sólida rede de coiteiros e amigos em vários estados nordestinos, além de atrair para as fileiras do cangaço centenas de homens e mulheres.
José Geraldo Aguiar, no seu livro, diz que o cangaceiro Zé do Sapo morreu como substituto do Rei do Cangaço, no Angico. Afirma também que os soldados teriam jurado e cumprido, sob pena de morte, não ‘abrir o bico’ sobre a “farsa” encenada na madrugada de 28 de julho de 1938. Ora, basta uma análise superficial dos fatos para perceber que estas ilações estão edificadas sobre pés de barro.
Quem foi o tal de Zé do Sapo?
Alguém o conheceu?
A que subgrupo pertenceu?
Qual o seu nome verdadeiro?Impossível obter resposta para estas questões, uma vez que são frutos da invenção de um personagem imaginário – à semelhança do Paturi do pesquisador Frederico Bezerra Maciel – para preencher lacunas de uma tese insustentável. Quanto ao cumprimento do ‘juramento’ dos soldados, sob pena de morte, eu pergunto: como conseguir esse intento, apartir de soldados brutos de 3 volantes (Bezerra, Ferreira de Melo e Aniceto), que não conseguiam sequer obedecer à hierarquia? Lembrem-se que Antonio Jacó desobedeceu, à vista de todos, as ordens de João Bezerra quanto a devolver o produto do saque que fizera ao cadáver do cangaceiro Luís Pedro.
Vale ressaltar que nos depoimentos de Zé Sereno, Cila e Candeeiro, Lampião acordara cedo e rezara com o bando (aqueles que quiseram) o Ofício de Nossa Senhora. Depois tomou café feito pelo cangaceiro Vila Nova (o único que estava devidamente equipado), segundo depoimento de Zé Sereno. Após o desjejum com Vila Nova, Lampião ordenou que Amoroso fosse buscar água para o café dos outros, que ainda curtiam o friozinho daquela manhã (sob as cobertas), conforme depoimento de Cila e Candeeiro. O tiroteio irrompeu sobre Amoroso, que, por milagre, pelo medo e embriaguês dos soldados, escapou ileso. Neste momento, Lampião conversava com Zé Sereno e Luís Pedro. Sereno teria dito: “não falei que a gente brigava hoje?”.
Com relação ao reconhecimento do cadáver do Rei do Cangaço, cito aqui, rapidamente, Joaquim Góis, que reconheceu a lesão cicatricial de seu tornozelo direito; Pedro de Cândido, que além de reconhecer a cabeça do Rei e da Rainha do Cangaço, identificou os corpos decapitados para curiosos e jornalistas; e Durval Rodrigues Rosa, que afirmou textualmente “ainda hoje é ‘serviço’ fazer o povo acreditar que foi mesmo
Lampião que morreu naquele dia. (...) Eu tinha visto ele nos dias anteriores e poderia reconhecer aquele rosto em qualquer foto, quanto mais assim de perto, como eu vi.”Após esta análise concluímos que: Lampião morreu realmente na madrugada de 28 de julho de 1938, na margem sergipana do rio de São Francisco, em Angico.
Passemos ao segundo questionamento.
Qual foi a causa da morte? Veneno? Bala? Outra causa?Antes de analisarmos os fatos, vale a pena explicar que esta controvésia sobre um possível envenenamento dos cangaceiros ganhou terreno a partir de declarações de Manoel Neto a um jornal pernambucano, sugerindo que os cangaceiros teriam sido envenenados por um coiteiro (cujo nome não cita). Esta e outras declarações veiculadas na imprensa pernambucana foram rebatidas por João Bezerra e por Francisco Ferreira de Melo, creditando-as ao despeito e à tentativa de ofuscar o brilho do feito.
Mais munição para esta controvérsia foi a débil reação do bando no combate em Angico, que também suscitou especulações. Outro reforço à tese está na propalada mortandade de urubus, que, ainda hoje, não foi confirmada. Essa última apareceu em uma declaração de Wandenkolk Wanderley, à imprensa, afirmando que vira vários urubus mortos, contradizendo o depoimento que dera mais de 30 anos antes e que, curiosamente, não apresentava a mortandande dessas aves. Já o escritor Joaquim Góis disse que, ao chegar em Angico, logo após o combate, avistou “muito urubu alegre naquele dia”.
Wandenkolk participou de comitiva, que esteve em Angico, após o massacre, Em plena efervescência, para o sepultamento das cabeças dos cangaceiros, do Nina Rodrigues, em 1959, ele apareceu no Diário de Pernambuco de 26 de abril, daquele ano, defendendo sua tese, o que suscitou na defesa de João Bezerra, no mesmo periódico.
Acervo Geziel Moura
Uma coisa é certa: se realmente houve a tão propalada mortandade de urubus, a quantidade de veneno ingerida pelos cangaceiros teria sido incrivelmente grande. Outro detalhe importante desta história é que, por causa da fedentina dos corpos, despejaram sobre os mesmos cal e creolina, o que poderia ter causado a morte de algum urubu, por lesão aguda da mucosas digestivas destas aves.
Vamos em frente.
Os Cães
Outro reforço para a tese da farsa e do veneno é que os cachorros não deram o alarme, não denunciando os soldados, que seriam “estranhos”. Mas, mesmo após uma simples análise, encontramos vários motivos para que os cachorros não tivessem se manifestado.
Vejamos.
Em primeiro lugar, nos reportaremos ao perfil dos cães. Candeeiro, em entrevista no vídeo de Aderbal Nogueira, ao responder os questionamentos de Paulo Gastão, o entrevistador, é taxativo em dizer que Guarani, o cachorro de Lampião, era quieto e não latia, apenas “saía atrás da gente” – SIC. Isso nos força a refletir sobre a maneira de ser, a “personalidade” do cão, provavelmente sinalizando que os cães eram de companhia e não feras nervosas que latiam à aproximação de quem quer que fosse. Se esse fosse o caso, os cangaceiros ficariam expostos, pois cachorro latindo no meio da caatinga é o pior que poderia acontecer ao grupo, uma vez que denunciaria sua localização.
Além do mais, como a madrugada fora de chuvisco e frio, muito provavelmente os cães estavam abrigados, ou sob os arbustos ou junto dos donos, sob as tordas. A própria disposição dos grupos naquele leito seco de pedras, dificultaria enormemente o discernimentos dos cães quanto a invasores, pois é sabido que naqueles dias juntaram-se ao bando de Lampião os subgrupos de Zé Sereno, Luís Pedro, o sobrinho de Lampião, José, e os coiteiros Manoel Félix, Pedro de Cândido e Durval. Ou seja: TODOS ESTRANHOS aos cachorros! E ainda faço outro questionamento: como os cães conseguiriam distinguir um soldado de um cangaceiro, uma vez que se vestiam de maneira semelhante, utilizando, inclusive perfumes variados, que confundem o faro canino?
Vamos mais adiante. Ainda desfiando o possível envenenamento de Lampião, eu me questiono: a que horas o Rei do Cangaço teria ingerido o veneno?
Balão, em famosa entrevista, afirma que foram dormir por volta das 22h. Supondo que Lampião tenha jantado antes de dormir - no caso de envenenamento –, deveria ter ingerido algo tóxico nessa ocasião e, portanto, morrido durante a madrugada. No entanto, deparamo-nos com o Capitão Virgulino rezando o Ofício de Nossa Senhora logo cedo (depoimentos de Cila, Candeeiro, Zé Sereno e Balão). Cila, com preguiça, não havia se levantado para fazer a oração. Já Balão, após a reza, voltou a deitar-se, pois ainda era muito cedo e fazia frio. Lampião tomou o café feito pelo cangaceiro Vila Nova e, conversando com Luís Pedro e Sereno, ordena que Amoroso vá buscar água para o café dos outros, ocasião em que o tiroteio é deflagrado.
Aí, então, eu volto a perguntar: a que horas Lampião foi envenenado? Após o “jantar” da noite anterior, a “próxima” provável refeição do Rei do Cangaço, onde poderia ter ingerido algum veneno, seria o café feito e tomado com Vila Nova. No entanto, este cangaceiro não morreu, nem de veneno, nem de tiro, pois o reencontramos por ocasião das entregas, bem de saúde, alguns meses depois.
Ao analisarmos os principais venenos que poderiam ter sido utilizados contra os cangaceiros, e o quadro clínico decorrente de sua ação no organismo, é que realmente temos a certeza de que os cangaceiros no Angico não foram envenenados.
Estricnina: é um alcalóide extremamente tóxico, e uma das substâncias mais amargas que existem; seu gosto é percebido em concentrações da ordem de uma parte por milhão (1ppm). O quadro clínico da intoxicação pela estricnina é bastante exuberante, incluindo pródromos de câimbras e dor; rigidez dorsal e cervical; rigidez de extremidades; agitação e ansiedade; hipertonia; convulsões (com o paciente acordado e lúcido); opistótono (espécie de contratura involuntária da musculatura paravetebral, deixando o corpo em forma de arco); “riso sardônico”; paralisia respiratória e parada cardiorrespiratória. Ao analisarmos as fotos das cabeças cortadas e dos corpos insepultos, não há qualquer evidência de posições de hipertonia ou espasmos da musculatura facial, sugerindo o “riso sardônico”, muito menos relatos do sobreviventes ou da polícia testemunhando crises convulsivas ou contrações involuntárias generalizadas, afastando a possibilidade do seu uso no episódio do Angico.
Arsênico: também conhecido como “veneno de sucessão”, em razão do seu largo uso na crônica histórica, principalmente no assassinato de reis por seus sucessores. A sua grande “vantagem” de uso seria o fato de não ter odor e parecer açúcar, facilitando a administração. Entretanto, no seu quadro de intoxicação, encontramos: arritmias cardíacas graves, neurite, nistagmo, choque circulatório, convulsões, tremores, sudorese, vômitos incoercíveis, tosse, diminuição do nível de consciência, lacrimejamento, etc.... Nada disso foi visto nos cangaceiros, nem pelos que escaparam, nem pelos volantes.
Cianureto: têm um típico sabor amargo, lembrando amêndoas. A sintomatologia da overdose inclui taquicardia, alternando com bradicardia; hipotensão arterial/choque circulatório; prurido, agitação psicomotora; dor de cabeça; cianose; acidose; nistagmo; coma, hipotermia; náuseas e vômitos incoercíveis; edema agudo pulmonar. Da mesma forma, nenhum dos sinais e sintomas expostos aqui foi visto ou relatado por cangaceiros ou policiais, desmoronando, definitivamente, a tese do envenenamento.
Como se não fosse o bastante, vale ainda lembrar que, entre os que morreram, Enedina foi alvejada na cabeça enquanto estava correndo (depoimento de Cila e Candeeiro); Mergulhão, antes de morrer, conversou com Candeeiro (depoimento de Candeeiro); Luís Pedro foi visto por cangaceiros e policiais conversando com Maria Bonita ferida; Lampião conversava com Zé Sereno e Luís Pedro quando o combate iniciou. Ou seja: dos onze que morreram, cinco possuem evidências sólidas testemunhais de que não estavam envenenados ou com sinais (ou sintomas) de envenenamento.
Vejamos as palavras de Candeeiro, em resposta ao questionamento de Paulo Gastão, no vídeo de Aderbal Nogueira:
- “...E que Lampião morreu envenenado, o que é que você acha dessa história?” – Paulo Gastão.
- “De jeito nenhum. Lá não tinha veneno, não, rapaz. Lhe juro como essa luz que nóis tamo vendo” – Candeeiro.O Álcool
O cangaço e sua repressão eram movidos a álcool. E os efeitos sistêmicos do etanol, na concentração de até 3g/litro de sangue, podem explicar muitos dos supostos desencontros do Angico, principalmente entre os depoimentos. Alterações como perda da eficiência (os tiros perdidos sobre Amoroso), déficit de atenção e prejuízo de julgamento e controle (a quebra de hierarquia, as agressões de Ferreira de Melo a Durval), déficit de atenção, memória e amnésia alcoólica (as discrepâncias com relação à chuva, horários e companheiros presentes).
As limitações impostas pelo excesso de álcool somadas à dificuldade natural de registro das situações que acontecem perifericamente, numa situação de intenso estresse físico e emocional, podem, sem sombra de dúvida, resultar em pequenas imprecisões e distorções, principalmente no que diz respeito à sucessão dos acontecimentos.
Com relação às divergências no calor do combate, o depoimento dos cangaceiros tende a ser mais fiel, uma vez que os soldados provavelmente beberam durante a madrugada, e os cangaceiros ficaram acordados no máximo até às 23h do dia anterior. E, além do mais, a surpresa do combate, invariavelmente impõe uma sobriedade forçada aos cangaceiros, que estavam em desvantagem e tinham que sobreviver ao ataque surpresa.
Bala
O tiroteio ou combate do Angico pode ser rememorado em cores vivas pelos depoimentos de qualquer dos cangaceiros ou volantes sobreviventes. E a maior prova que ele foi intenso e real é o número de mortos e feridos: 12 mortos (incluindo o soldado Adrião) e os feridos: Balão, Candeeiro e João Bezerra.
O revide de Lampião aconteceu, apesar de bem abaixo do esperado para o grande estrategista do Cangaço. No vídeo já citado de Aderbal Nogueira, o entrevistador (Paulo Gastão) faz o seguinte questionamento:
- “Como é que um homem com a experiência de Lampião, com esses tiros todos, não deu um tiro nesse tiroteio?” - Paulo Gastão.
- “Deu não! Lampião tava do lado de cima. Amoroso deixou o fuzil, não pode pegar. Aí cerrou o tiroteio pro lado de Lampião” - Candeeiro.Candeeiro, nesta excelente entrevista, afirma que ainda viu Lampião dando ordens aos cabras, quando do início do tiroteio, mas que não pôde reagir por ter tido seu fuzil danificado.
Candeeiro resume assim o início do combate: estava deitado quando ouviu um tiro seco. Sentou, achando que fosse alguém “treinando”. Ouviu outro tiro, e então já se levantou, e aí o “mundo desabou”. O tiroteio cerrou para os lados de Lampião, que, provavelmente, não teve oportunidade nem tempo para organizar o revide. Estava dado, portanto, o tiro de misericórdia no cangaço, que ainda estrebucharia até maio de 1940, o fim de Corisco.
Conclusão do segundo questionamento:
Lampião morreu vitimado por lesões provocadas por projéteis de arma de fogo, juntamente com mais dez companheiros, no calor do combate do Angico.Estas são as verdades de Angico, analisadas à luz dos fatos, a partir de depoimentos de sobreviventes e sob a ótica da ciência. A verdade absoluta e imutável nunca será encontrada, pois um mesmo fato, quando observado por diferentes pessoas, resulta em diferentes interpretações. Aí está a principal fonte dos “mistérios” do Angico. O desafio é conseguir o melhor “pente fino” para filtrar toda essa enxurrada de informações, e ter como resultante a evidência mais próxima da verdade, como menor margem de erro, e sairmos desse lodaçal de especulações sensacionalistas que, quando não submetidas à inteligência, além de não levar a nenhum lugar, só nos impõe tropeços e escorregões, como, por exemplo, a inconsistente teoria do Lampião de Buritis.
Não poderia deixar de homenagear os comandantes João Bezerra da Silva e Francisco Ferreira de Melo, os verdadeiros heróis do Angico. Os dois agiram em tão perfeita sintonia que, mesmo diante dos vários empecilhos encontrados (a recusa inicial de Pedro, o início do tiroteio sem que o cerco estivesse fechado...) tiveram sucesso e deram cabo de Lampião, Maria e mais nove cangaceiros. As luzes de Bezerra e Ferreira de Melo ofuscaram largamente a genialidade militar de Lampião, às custas da surpresa (arma que sempre estivera a favor do cangaceiro) e da inteligência militar bem aplicada.
Antes de encerrar, gostaria de enfatizar que esta discussão sobre Angico somente é possível devido à coragem e determinação de dois grandes desbravadores: Antônio Amaury Corrêa de Araújo, que foi quem primeiro vislumbrou como pesquisador os acontecimentos daquela madrugada, e os colocou em ordem, presenteando-nos com uma obra fundamental sobre o assunto; e Alcino Alves Costa, que, inquieto e questionador, vem nos exortando a reflexões como estas, sobre o que parece ser a verdade.
Eles não comungam da célebre máxima exposta no filme “O Homem que Matou o Facínora”, de John Ford, onde o jornalista, ao saber que a verdade dos fatos é bem menos ‘heróica’ do que a lenda, diz:
“Quando a lenda se tornar fato, imprima-se a lenda”.Alcino e Amaury sempre preferiram os fatos. Parabéns a eles.Para encerrar, deixo um pensamento de Epictetus, que, na sua essência, nos exorta a não apenar ver o episódio do Angico, mas enxergá-lo com bom senso e honestidade.
“As aparências para a mente são de quatro tipos: as coisas ou são o que parecem ser; ou não são, nem parecem ser; ou são e não parecem ser; ou não são, mas parecem ser. Posicionar-se corretamente frente a todos esses casos é a tarefa do homem sábio”.
Referências:
1) Aguiar, J. G. “Lampião, o invencível – Duas Mortes e Duas Vidas”. Thesaurus editora. 2009.
2) Nogueira, Aderbal. Vídeo “Candeeiro”. 2006.
3) Leikin, B et all. “Poisoning & Toxicology Compendium”. 1998.
4) Dantas, S. A. S. “Lampião – Entre a Espada e a Lei”. Editora Cartgraf. 2008.
5) Araújo, A. A. C. “Entrevistas com Balão, Zé Sereno e Cila”. 1971-73.
6) Fernandes, L. C. “Entrevista com Cila”. São Paulo, 2003.
FOTOS E FATOS:
1) A Cabeça do Rei do cangaço, com leucoma e provavelmente pedações da massa encefálica nos cabelos. É Lampião, incontestavelmente.
2) O verdadeiro Lampião, à esquerda. O pretenso Lampião de Buritis, à direita. Notar o formato diferente do queixo. Foto do livro Lampião – Entre a Espada e a Lei” do Pesquisador e escritor potiguar Sérgio Augusto de Souza Dantas.
*Leandro Cardoso Fernandes: É médico (Universidade de Pernambuco – 1997), especialista em Cardiologia e Ecocardiografia pela Escola Paulista de Medicina (2005), autor do livro “Lampião: A Medicina e o Cangaço” (em parceria com Antônio Amaury Corrêa de Araújo); autor do cordel: “Sinhô Pereira: O Homem que Chefiou Lampião”. Contato: leandrocfernandes@globo.com
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