Mostrando postagens com marcador 1924. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 1924. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Vítimas

Policias militares mortos ao terem enfrentado cangaceiros ou assassinados após capturados

Por Rubens Antonio

Em um tempo em que há quem, na Bahia, pense em colocar nomes de cangaceiros em praça, cabe lembrar estes nomes:

Cabeça do ten PM Geminiano José dos Santos, 
morto e decapitado pelo bando de Lampeão.

1924

11 de outubro de 1924

tenente Joaquim Alves de Souza

1927

14 de fevereiro de 1927

soldado Paulo Sant’Anna

dezembro de 1927

inspetor Norberto Xavier Gomes

cabo desconhecido

soldado desconhecido

1928

6 de abril de 1928

3° sargento Antônio Anacleto de Oliveira

21 de agosto - Passagem de Lampeão à Bahia

21 de dezembro de 1928

3° sargento José Joaquim de Miranda

soldado Francellino Gonçalves Filho

soldado Juvenal Olavo da Silva

1929

7 de janeiro de 1929

soldado José Rodrigues da Silva

soldado Manoel Nascimento Souza

2 de fevereiro de 1929

anspeçada Francisco Estevam do Carmo

soldado Enedino Alves Ribeiro

soldado Francisco Nascimento dos Santos

soldado Lourival Ricardo da Conceição

27 de fevereiro de 1929

anspeçada desconhecido

soldado desconhecido

14 de maio de 1929

soldado Pedro Alves da Fonseca

4 de julho de 1929

cabo Antonio Militão da Silva

soldado Cecílio Benedicto Silva

soldado Leocadio Francisco Silva

soldado Manoel Luiz França

soldado Pedro Sant’Anna

20 de setembro de 1929

soldado Antonio Geraldo de Oliveira

24 de setembro de 1929

cabo João Soares da Silva

21 de outubro de 1929

soldado Olegário Correia da Silva

18 de dezembro de 1929

soldado João Felix de Souza

soldado Vitorino Baldoino Lopes

22 de dezembro de 1929

anspeçada Justino Nonato da Silva

soldado Antonio José da Silva

soldado Arestides Gabriel de Souza

soldado Ignacio Oliveira

soldado José Antonio Nascimento

soldado Olympio Bispo de Oliveira

soldado Pedro Antonio da Silva


Cadáveres de alguns soldados que foram vítimas de Lampião no dia 22 de dezembro de 1929 em Queimadas-BA.

1930

29 de março de 1930

soldado Calixto Eleutério

1 de agosto de 1930

tenente Geminiano José dos Santos

2° sargento José de Miranda Mattos

soldado Argemiro Francisco dos Reis

soldado Arnaldo Claudio de Souza

1931

30 de janeiro de 1931

soldado desconhecido

3 de fevereiro de 1931

soldado desconhecido

soldado desconhecido

5 de fevereiro de 1931

soldado desconhecido

24 de abril de 1931

2° sargento Leomelino Rocha

soldado Carlos Elias dos Santos

soldado Francisco dos Santos

soldado José Carlos de Souza

soldado José Gonçalves do Amarante

soldado Pedro Celestino Soares

soldado Saul Ferreira da Silva

9 de maio de 1931

soldado desconhecido

soldado desconhecido

soldado desconhecido

junho de 1931

soldado Antonio José da Silva

28 de agosto de 1931

soldado Francisco Cyriaco Sant'Anna

1932

2 de fevereiro de 1932

soldado Bôaventura Manoel da Silva

1933

20 de julho de 1933

cabo Pedro Luiz de Farias

soldado Antonio Fernandes de Lima

7 de setembro de 1933

soldado José Fernandes

soldado Manoel Bellarmino de Macedo

2 de outubro de 1933

soldado Pedro Emygdio de Oliveira

 

Soldado Pedro Emygdio de Oliveira.

1934

22 de abril de 1934

soldado João Pereira de Souza

1939

23 de maio de 1939

soldado desconhecido

Postado originalmente no Cangaço na Bahia

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Um dos primeiros parceiros de Lampião

A efêmera vida de Meia-noite

Por Joel Reis


Antônio Augusto (Feitosa ou Correia)[1], conhecido como Bagaço, natural de Olho d’Água, município de Piranhas – AL (atual Olho d’Água do Casado – AL)[2], era filho de Zé Bagaço, no qual herdou o apelido.

Quando tinha de 11 para 12 anos de idade, sua mãe, já viúva, pediu-lhe que fosse buscar legumes na roça. No caminho de volta, um rapaz o perguntou:

- Donde tu vem fedelho?

O menino se zangou com tratamento e respondeu:

- O qui você qué sabê? É da sua conta?

O rapaz também se irritou e lhe deu umas tapas. Antônio Bagaço jurou vingança:

- Isso num vai ficá assim, você vai me pagá.

Ao chegar em casa se armou com uma espingarda lazarina e disse:

- Mãe, vô ali.

Saiu a procura do Rapaz, mas só o achou por volta das 19h em uma fazenda. Estava chovendo muito, aproximou-se sorrateiramente e atirou no rapaz. Certo que o tinha matado, fugiu e foi dormir em uma casa de farinha na Fazenda Olho d’Água, do coronel Zé Rodrigues. Pela manhã um vaqueiro o encontra deitado e todo molhado, o acorda e faz diversas perguntas, o menino acaba falando do ocorrido. O vaqueiro o leva até o Coronel e conta a história.

- Menino, vou te dar uma pisa.

Aperreado, o menino revidou:

- Coroné, pelo leite que o sinhô mamou, não dê n’eu. É mió me matá qui estou satisfeito.

Então, o coronel para saber se de fato ele tinha coragem, mandou o vaqueiro pegar uma enxada e uma pá, entregou os instrumentos para o menino:

- Toma, cave sua cova.

Quando o menino já havia cavado uns seis palmos de fundura:

- Está bom, agora se prepare prá morrer.
- Tô pronto prá morrê, coroné! Agora peço que diga a minha mãe que morri como um homi e não como covarde!
- Olha que infeliz, não vou te matar, não. Mas na próxima te mato.

Ao chegar em casa, avisou à sua mãe que ia embora para não ser preso. Sem demora, saiu pelo mundo... acabou chegando em Espírito Santo – PE (atual Inajá – PE)[3], onde foi acolhido pelo velho Terto Cordeiro (Tertulino Cordeiro - da família Marcos)[4]. Por volta de 1921, surgiram questões de intriga entre os Marcos e os Quirinos. Em vista disso, já com dezoito para dezenove anos de idade, os filhos de Antônio Quirino tentaram espancá-lo, na luta saiu ferido na cabeça. Depois disso, chegou em casa, disse ao velho Terto:


- Tio! (Não era, mas assim o chamava), vô m’imbora procurar os cangaceiros.


 Antônio Augusto vulgo 'Meia-Noite'

A princípio, Bagaço entrou no grupo de Antônio Porcino. Logo, conquistou notoriedade. Posteriormente, integrou-se ao grupo de Lampião, no qual foi denominado de Meia-Noite por ser de cor parda. O chefe cangaceiro nutria verdadeira admiração, em virtude que, Meia-Noite possuía extrema coragem, tendo triunfado ao seu lado em diversas ações[5].

Em agosto de 1924, Meia-Noite discutiu de maneira severa com os irmãos de Lampião; Vassoura (Livino) e Esperança (Antônio). Foram acusados de terem roubado seus Rs. 9:000$000 (9 contos de réis = 9.000 mil-réis)[6]. Lampião interveio na discussão, indenizando o valor que ele alegava ter sido subtraído por seus irmãos quando estava dormindo. Questão resolvida, o chefe cangaceiro o expulsa do bando e exige a entrega do armamento. Sem demora, Meia-Noite responde:

- Si no meio desta cabroêra tem homi, venha tomá.

Os cangaceiros presentes preferiram não tentar. Sem demora, Meia-Noite foi andando para trás com os olhos fixos nos velhos companheiros, em pouco tempo desaparece na caatinga.

No dia 18 de agosto de 1924[7], poucos dias do ocorrido, Meia-Noite foi visto atravessando o sítio Bandeira em direção ao sítio Tataíra[8], na companhia apenas de uma mulher[9]. Um olheiro avisou o coronel Zé Pereira (José Pereira Lima) que o famanaz cangaceiro se encontrava no sítio Tataíra. Com o comunicado, tratou imediatamente de organizar uma diligência, a fim de apanhar o bandoleiro.

Por volta das 21 horas, foi formado um grupo em Princesa – PB (atual Princesa Isabel – PB)[10], composto de quatro soldados da Força Pública e oito civis, marcharam 4 horas até o sítio Tataíra. Já era madrugada quando o cerco começa em duas casas, mas não o encontraram, batem na porta da terceira casa[11] (o bandoleiro estava em plena lua de mel):

- Quem é?
- É os meninos do coroné...
- Ah!... Eu não abro a minha porta prá descunhecidos... Zulmira não qué qui eu abra a porta. Ela tem medo...
- Venha dar um bocado d’água a gente...
- Num tem água, não.
- Que diabo de véia da fala fina...

Proferidas essas palavras, atento a conversa e com intuito de ganhar tempo para se equipar, o sicário enfurecido vocifera:

- Qui desaforo de seu Zé Pereira, mandá incomodá os homi essa hora, apôis vocês tão pegado cum Meia-Noite, nêgo nascido em meio de desgraça.

Sem demora, inicia o fogo contra a tropa... após uma hora de tiroteio e ofensas de ambas as partes, o cangaceiro brada:

- Canaias, o qui vocês quére, chega já. Cabra de barro num aguenta tempo.
- Vem aqui fóra, nêgo ladrão!
- Ladrão, é vocês, qui quére robá a roupa de minha muié, magote de peste!

Depois de algum tempo, o cangaceiro pede para o grupo cessar-fogo e que permitisse a saída de Zulmira, sua mulher, mas o pedido foi ignorado e o tiroteio se intensificou até amanhecer, apesar disso, o bandido volta a zombar:

- Rapaziada, vocês são de barro? Esse mangote de peste tá cum fome... Entre, venha tomá um cafezinho cum queijo de mantêga...
- O café qui nós qué é ti passá nas corda.

Em seguida, ouve-se uma voz cantada de dentro da casa sitiada:

"Si quizé sabê meu nome
Faça favô preguntá
Eu me chamo é Meia-Noite
Canário de bom lugá
Eu sou um carnêro fino
Do colo de minha Iaiá!
É Lampe, é Lampe, é Lampe
O Virgolino é Lampeão
É o dedo amolegando
Embolano pelo chão!”

No alvorecer, próximo ao local do tiroteio, as Forças comandadas pelo Tenente Manoel Benício, Tenente Francisco de Oliveira e o Sargento Clementino Furtado (Quelé) foram alertadas. Logo, reuniram o efetivo de 84 homens e rumaram para o campo de luta. Ao ouvir o clangor da corneta, berra furioso:

- Sustenta a ispingarda, canaias pôde, qui nêgo vai simbora.

Debaixo de uma saraivada de balas feriu alguns homens e também foi ferido[12], ainda assim, conseguiu escapar. A Força seguiu o rastro de sangue, porém o perdeu de vista.

Passaram-se seis dias, o Comissário de Polícia de Patos, Manoel Lopes Diniz e quatro companheiros encontraram Meia-Noite gravemente ferido. Mesmo assim, resistiu à prisão, disparando dois tiros de parabellum contra o grupo que, rapidamente revidou, e acabou matando o temido bandoleiro no auge dos seus 22 anos.


NOTAS:

[1] Nomes - Antônio Augusto Feitosa (ALMEIDA, 1926); Antônio Augusto Correia (MELLO, 2013); José Tiago (LIRA, 1990).
[2] Olho d’Água - povoado, subordinado ao município de Piranhas, posteriormente Distrito de Olho d’Água do Casado, pela Lei Estadual nº 1473, de 17 de setembro de 1949.
[3] Espírito Santo - atual Inajá – PE.
[4] Terto Cordeiro - Tertulino Cordeiro era da família Marcos.
[5] Diversas ações - As mais importantes foram: O assalto a residência de Joana Vieira de Siqueira Torres, a Baronesa de Água Branca (26.06.1922) e  o ataque à cidade de Sousa - PB (27.07.1924).
[6] Rs 9:000$000 (9 contos de réis ou 9.000 mil-réis) = 9.000.000 (9 milhões de réis) - Conversão para Real = R$ 250.000 (Duzentos e cinquenta mil reais).
[7] Érico Almeida (1926), afirma que foi no final do mês de setembro de 1924.
[8] Sítio Tataíra - nos limites do município de Princesa – PB com o de Triunfo – PE. (ALMEIDA, 1926).
[9] Mulher -  Alexandrina Vieira (Zumira). (DANTAS, 2018).
[10] Princesa – PB - atual Princesa Isabel - PB.
[11] Casa - Alguns autores/pesquisadores afirmam que era uma casa de farinha, outros que era uma casa velha.
[12] Ferido - em uma das pernas.


FONTES:

ALMEIDA, Érico de. Lampião: sua história. João Pessoa: Editora Universitária, 1996. [Fac-similar à edição de1926].

DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. Lampião na Paraíba: notas para a história. Natal – RN: Polyprint, 2018.

LIRA, João Gomes de. Lampião: memórias de um soldado de volante. Recife: FUNDARPE, 1990.

MACIEL, Frederico Bezerra. Lampião, seu tempo e seu reinado: II. A guerra de gerrilhas (fase de vinditas). Petrópolis - RJ: Vozes, 1985.

MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do Sol: violência e banditismo no nordeste do Brasil. 5. ed. São Paulo: A Girafa. 2011.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

"Hoje só se salva quem avôa"

As batalhas entre Clementino Quelé e Lampião em 1924 em Santa Cruz da Baixa Verde-PE

Por: Rostand Medeiros (*)

Em um dia de agosto de 2006, uma sexta feira, na cidade pernambucana de Santa Cruz da Baixa Verde, em Pernambuco, na companhia do escritor e pesquisador Sérgio Dantas, tivemos a oportunidade de conhecer um homem, nascido em 1912, que pela sua lucidez e saúde, foi como encontrar um verdadeiro tesouro da história oral do cangaço.

 Clementino José Furtado, o Clementino Quelé.

Seu nome era Antônio Ramos Moura, sua residência uma casa ampla no sitio Conceição e o assunto foi os dois ataques perpetrados por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e seus cangaceiros, contra a casa do seu antigo parceiro, Clementino José Furtado, o Clementino Quelé, que após estes embates se tornou um dos mais esforçados perseguidores do “Rei do cangaço”.
Antônio Ramos Moura, então com doze anos, foi testemunha destes episódios e detalhou vários aspectos de sua vida na época e rememorou inúmeros fatos.

 A Santa Cruz

O atual município de Santa Cruz da Baixa Verde está localizado na região do Sertão do Alto Pajeú, na fronteira com a Paraíba. Fica distante 455 quilômetros de Recife, possui um agradável clima serrano e a cidade se caracteriza por concentrar na atualidade a maior quantidade de engenhos de rapadura de Pernambuco. Já as origens do local são oriundas do antigo “sítio Brocotó” e a atual denominação tem origem na ação de um missionário nordestino que possui uma história extraordinária.

Nascido em 5 de agosto de 1806, na Vila de Sobral, Ceará, José Antônio Pereira Ibiapina teve uma origem confortável. Mas devido a participação do seu pai Francisco Miguel Pereira na insurgência conhecida como Confederação do Equador, este foi fuzilado em 1825, e o irmão Alexandre seguiu preso para a ilha de Fernando de Noronha, onde morreu pouco tempo depois. Ibiapina teve que assumir e manter financeiramente a família.

Algum tempo depois ingressou no Curso de Direito do Recife, concluindo em 1832. No ano seguinte exerce o cargo de professor substituto de Direito Natural na Faculdade de Olinda. Depois foi eleito Deputado Geral e nomeado, em dezembro, Juiz de Direito da Comarca de Campo Maior, no Ceará. Concluídos os trabalhos legislativos, em 1837, Ibiapina voltou para o Recife e resolve exercer a advocacia. No entanto, ele passa a trabalhar efetivamente na profissão no estado da Paraíba. Em 1840 volta ao Recife e continua sua luta junto aos tribunais.

A partir de 1850 Ibiapina resolve abandonar seus trabalhos forenses e inicia um período dedicado à meditação e exercícios de piedade. Após três anos de meditação e reflexão, Ibiapina decide-se pelo sacerdócio. Nesse sentido, em 12 de julho de 1853, aos 47 anos de idade, ele se torna o Padre Ibiapina. Logo após sua ordenação, o Bispo Dom João da Purificação o nomeia Vigário Geral e Provedor do Bispado, além de professor de Eloquência do Seminário de Olinda.

Mas contrariando seus superiores, opta pela vida missionária. Padre Ibiapina começou então seu trabalho missionário pelo interior do Nordeste. Em diversas vilas construiu casas de caridade, destinadas a moças pobres. Em cada lugar ele pregava, orientava, promovia reconciliações, construía açudes, igrejas, cemitérios, cacimbas e cruzeiros. Um destes cruzeiros foi erguido no sítio Brocotó e ficou conhecido como Santa Cruz, sendo esta a denominação na época do cangaço.

Com o passar do tempo, pelo fato da pequena urbe está no alto da Serra da Baixa Verde, o lugar passou a denominar-se Santa Cruz da Baixa Verde e pertencia administrativamente à bela cidade serrana de Triunfo.

Careta

O pai do nosso entrevistado chamava-se Miguel Moura, tinha uma pequena bodega, além de trabalhar como tropeiro, ou almocreve. Tinha uma tropa de animais e fazia a linha entre as cidades de Triunfo, Serra Talhada e Arcoverde, na época denominada Rio Branco, trazendo e levando cereais. Antônio Ramos comentou que seu pai viajava para vários locais, transportando rapaduras. Inclusive o Rio Grande do Norte foi um dos seus destinos, onde esteve em Mossoró para comprar sal e também em Caicó.


O autor e o memorioso Antônio Ramos Moura.
Para nosso entrevistado Clementino Quelé, era chefe de sua família, tinha como irmãos Pedro, Quintino, Antônio, José e Manuel (nezinho), todos considerados homens dispostos, valentes e que “gostavam da espingarda”. Antônio Ramos comenta que na sua infância tinha um enorme respeito por aquele homem. Pouco falou com ele, mas obteve muitas informações sobre Quelé através de seu sogro Joaquim de Fonte, sobrinho do chefe da família Furtado.

Clementino é descrito como um homem forte, de tez acentuadamente branca, que realmente ficava com a pele vermelha quando tinha raiva e esta teria sido a razão de Lampião apelidá-lo pejorativamente como “Tamanduá Vermelho”.

           
Janeiro de 2009, praça principal da atual Santa Cruz da Baixa Verde, com a estátua do Padre Ibiapina em destaque e a fachada da igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

Já para o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do Sol”, 2004, págs. 220 a 225), Quelé era natural da ribeira do Navio, onde seguiu jovem para Alagoas, afastando-se de Pernambuco por questões de disputa familiar. No retorno a sua família vem para Triunfo, no sítio Santa Luzia. O antigo membro de volante João Gomes de Lira (in “Lampião-Memórias de um soldado de volante”, 1990, págs. 123 e 124) comenta ser a Santa Luzia a morada do bravo pernambucano.

Já Rodrigues de Carvalho (in “Serrote Preto – Lampião e seus sequazes”, 1974, págsAntônio Ramos, na época das grandes “brigadas” de Quelé contra Lampião, ele morava no sítio Conceição.

Independente desta questão consta para nosso entrevistado que Quelé e seus irmãos eram analfabetos “-De tudo”. Do tipo que “-Não assinavam nem o A” e nem faziam “Garrancho” do nome. Dizia Quelé ao tio de Antônio Ramos que ele era “careta”, outra denominação para seu analfabetismo. Pois quando olhava para qualquer texto escrito, franzia a testa, mostrava o rosto carregado, com uma careta, por não saber ler.
Mas se Quelé e seus irmãos não sabiam ler, sabiam atirar e muito bem.

De Homem da Lei a Cangaceiro

Para Mello (op. cit.), o bravo Quelé alcançou o posto de subdelegado do seu lugar e impunha a ordem, mas igualmente angariava inimigos. O autor informa que em uma diligência Quelé matou dois ladrões de cavalo, respondeu processo e foi destituído do cargo. Em seu lugar assumiu seu irmão Pedro José Furtado, ou Pedro Quelé.

Em 1922, para livrar o valente chefe da família Furtado do processo, o líder político Aprígio Higino D’Assunção solicita deste e de seus irmãos votos na próxima campanha eleitoral em Triunfo. Diante da recusa de Quelé em apoiá-lo, Aprígio ordena que uma força policial com um oficial e quatorze praças saíssem à caça do valente.

Na tranquilidade do alpendre de sua casa, o sertanejo Antônio Ramos contou que um dia, certo morador do lugar chamado Tomé Guerra, antigo amigo de Quelé, arranjou uma encrenca com o mesmo e entendeu de matá-lo. Tomé chamou outro morador do lugar, também “chegado na espingarda”, de nome Cícero Fonseca. Estes, juntos com um grupo de policiais, colocaram uma tocaia contra Clementino ás cinco da manhã, “-Para pegá-lo com as mãos”.
 


O senhor de paletó claro nas duas fotos é o major Aprígio Higino D’Assunção, 
que por três ocasiões foi prefeito em Triunfo e dono de cartório. 
Para Frederico Pernambucano de Mello ele foi o pivô que levou Clementino Quelé 
a entrar no cangaço. 
Fotos reproduzidas a partir do livro “Triumpho, a corte do sertão”,
de Diana Rodrigues Lopes, págs. 234 e 373.

Quelé ao perceber o ardil, pulou desviando dos tiros e respondeu ao fogo, atingindo certeiramente a cabeça de Cícero Fonseca, tendo o mesmo caído mortalmente ferido em um barreiro. Os outros membros da emboscada “botaram” em Quelé, que conseguiu fugir para sua casa. Clementino teria escapado através de um local onde havia um curral que pertencia a um cidadão conhecido como Sebastião Pedreiro e por uma área onde existia certa quantidade de cactos do tipo palma, utilizados como comida para o gado.

Mello (op. cit.) aponta que um “certo Tomé de Souza Guerra”, do sítio Santana e outros homens engrossaram a força policial que perseguia Quelé. Mas Cícero Fonseca era um companheiro de Quelé, onde os dois bebiam na bodega de Sebastião Pedreiro, quando a polícia cercou o lugar e deu voz de prisão. Na versão do respeitado pesquisador, que conseguiu suas informações através do relato de Miguel Feitosa, o antigo cangaceiro Medalha, o pobre Cícero ao colocar o pé para fora da bodega foi crivado de balas.

Vendo que a força policial e os paisanos não vinham para prendê-lo, mas para exterminá-lo, Quelé solicita aos gritos o apoio de amigos das proximidades, estes atenderam ao chamado e a balaceira foi grande. Diante da resistência inesperada a força policial e os paisanos batem em retirada.

Independente de qual a versão correta, todos são unânimes em afirmar que a partir deste confronto os perseguidores passam a “apertar” Quelé, sendo esta a verdadeira razão para ele e seus irmãos entrarem no cangaço junto a Lampião.

A Briga de Quelé com o Cangaceiro Meia Noite

O comerciante e almocreve Miguel Moura nutria uma boa relação com Clementino, a quem chamava de “primo”. Este comentou com seu filho que a razão de sua saída do bando de Lampião foi uma briga com o valente cangaceiro “Meia Noite”.
Este era alagoano, do lugar Olho D’água, atual Olho D’água do Casado, próximo a cidade de Piranhas. Seu nome verdadeiro era Antônio Augusto Correia e pelo fato de possuir a pele negra, recebeu a famosa alcunha. Para o genitor de Antônio Ramos, o negro Meia Noite foi o mais valente de todos os homens que andaram com Lampião, do tipo de gente que “-Dava medo só de olhar”.

Segundo Mello (op. cit.), a razão da briga entre Quelé e Meia Noite foram dois irmãos cangaceiros chamados José e Terto Barbosa. Este último havia assassinado no Ceará o irmão de um chefe cangaceiro, tendo se refugiado com seu mano na serra do Catolé, a cerca de 30 quilômetros da cidade pernambucana de Belmonte, próximo às fronteiras do Ceará e da Paraíba.

 
A região montanhosa de Santa Cruz da Baixa Verde. 
À esquerda vemos a estrada que liga esta a cidade ao vizinho município de Manaíra, 
já na Paraíba. À direita a paisagem a partir da PE-365, que liga Triunfo a Serra Talhada.

Em uma ocasião que os cangaceiros de Lampião e Quelé se encontravam na fazenda Abóbora, pertencente ao tradicional coiteiro Marçal Diniz, chegou uma mensagem de José e Terto para seus tios Neco e Chico Barbosa, igualmente cangaceiros do bando de Lampião. O que os dois sobrinhos solicitavam aos tios era uma maneira de salvarem a pele.

Neco e Chico sabendo que o chefe cangaceiro cearense, conhecido como “Casa Velha”, cujo irmão foi morto por Terto, era amigo de Lampião, acharam por bem pedir a Clementino Quelé que recebesse os dois sobrinhos. O chefe dos Furtados se sobressaía cada vez mais no cangaço junto com seus irmãos e não pôs obstáculo à entrada dos dois rapazes no seu grupo.

Quando Meia Noite soube da história se colocou totalmente contrário, pois foi amigo do homem morto por Terto Barbosa e disse que se ele viesse para o bando iria atirar nele.

O resumo da ópera foi que após Quelé tomar conhecimento da alteração de Meia Noite se coloca ao lado de Terto. Corajosamente disfere uma saraivada de impropérios contra Lampião, Meia-Noite e os outros cangaceiros. Segundo Mello (op. cit), Clementino teria dito textualmente “-Que juntassem tudo que ele brigava do mesmo jeito”.

O chefe dos Furtados percebeu que após este fato, ficar ao lado de Lampião e seu bando seria o mesmo que praticar um suicídio, pois o mais famoso cangaceiro do Brasil era conhecido pelo seu rancor.
Já nosso informante Antônio Ramos transmitiu uma versão diferenciada. Na ocasião destes episódios o chefe dos Furtados estava junto com Lampião e seu bando em um esconderijo próximo a povoação de Patos, já na Paraíba, onde o problema ocorreu no momento em os tios de Terto trouxeram uma carta dos sobrinhos para Quelé e lhe contaram o problema. Quelé então teria solicitado que alguém lesse a dita mensagem em voz alta. Nisto o cangaceiro Meia Noite ouviu sobre o conteúdo da missiva e desconfiou que Quelé fosse colocar aqueles indivíduos como integrantes do bando.

Segundo o entrevistado, Meia Noite conhecia os “Barbosas”, contra quem já havia brigado, era inimigo dos mesmos, principalmente de Terto. O negro alagoano ficou cismado que Quelé, ao colocar aquela turma de valentes no bando, seria um meio para Terto, dos “Barbosas da Serra do Catolé”, dar fim a sua vida.

Quelé ao saber do fato negou. Disse a Meia Noite que “-Gostava de homem valente”, que os “Barbosas” eram pessoas que ele tinha “-Para onde botar”. Meia Noite comentou que sendo Terto seu inimigo, se por acaso ele trouxesse os “Barbosas” para perto do bando, “-Sabia que ia ser uma desgraça, que nóis briguemo e ficou para quando nóis se encontrar, a bala cortar”. Antônio Ramos narrou que Quelé ponderou, afirmando que “-Quando o homem é valente, que pede uma proteção, eu gosto de amparar”.

A discursão entre estes guerreiros foi gradativamente aumentando de tom, crescendo na ferocidade, até que os dois valentes partiram para a luta corporal. Lampião chamou seus homens rapidamente dizendo “-Acode, acode, se não estes homens se matam” e conseguiram apartar a briga.
Para o entrevistado Lampião disse a Quelé “-Que deixasse o negro Meia Noite com ele, pois parecia que ele tinha saído do inferno” e pediu a Clementino e seus irmãos para irem para o sítio Conceição.

Vista da serra do Catolé, em Belmonte, Pernambuco.
Antônio Ramos relata que depois da discursão, Quelé aparentemente não se satisfez com o posicionamento de Lampião e reclamou. No entendimento do chefe dos Furtados, Lampião “-Teria dado mais valor a um negro do que a ele”. Sentindo-se rebaixado no seu racismo tardio, Quelé abandonou a vida do cangaço e ficou marcado por Virgulino.

Outra informação ouvida por Antônio Ramos dá conta que no momento em que Clementino Quelé e seus parentes saíram da região dos Patos e do bando de Lampião, um dos seus parentes, filho de certa “Luzia Lalau” e um tal de Ricardo, pessoas de Santa Cruz, ficaram no bando de Lampião.

Os tiroteios de Lampião contra Quelé

Seja através de uma, ou de outra versão, o certo é que tempos depois desta desavença no seio do bando, o chefe Lampião, apoiado pelo fazendeiro Marcolino Diniz, filho do coronel Marçal, vem para Santa Cruz com o objetivo de matar Clementino e seus irmãos. Este encontro ocorreu no dia 5 de janeiro de 1924, um sábado.

Antônio Ramos informa que era um “-Meninote de doze anos”, que a sua casa antiga era próxima a sua atual morada e seu pai possuía uma bodega pequena, mas bem surtida.
Era ainda de madrugada, quase amanhecendo, quando o jovem Antônio Ramos acordou com o barulho de muitas vozes de homens no oitão da sua casa. Era um grupo numeroso de cangaceiros. O garoto notou que todos vinham alegres, animados, equipados, armados e com muita munição. Muitos deles estavam embalados por aguardente e segundo suas próprias palavras, os cangaceiros pareciam estar “-Com fogo saindo pelas orelhas”.

Eles pediram tudo que seu pai tivesse de comida no estabelecimento, além de mais cachaça. Este prontamente passou a servir o bando, especialmente Lampião. Os homens armados não fizeram nada com seu pai ou sua família nesta ocasião.

Antônio assistiu Lampião comendo uma rapadura com queijo e comentando alegremente com a rapaziada sobre a futura luta. Ele se apresentava animado, doido para brigar. Neste momento pronunciou uma frase que Antônio Ramos jamais esqueceu.
“-Da família de Quelé, hoje só se salva quem avoa”.
O Rei do cangaço ainda afirmou que “
- Hoje eu vou beber o sangue de todo mundo”.
Nesta ocasião, durante o nosso encontro, o nonagenário entrevistado alterou-se, ficando visivelmente emocionado. Ele recordou que se tremeu todo, no momento que escutou estas frases do famoso bandoleiro. Comentou veementemente que viu Lampião falar exatamente da forma anteriormente descrita e narrou este fato agarrando fortemente o braço do autor, tal a emoção.

 Segundo informações coletadas em Santa Cruz da Baixa Verde, esta casa reformada teria sido a fortaleza de Clementino Quelé. Entretanto este dado ficou inconclusiva devido a divergências em relações a outras informações que foram apuradas na região.

Ele descreveu Lampião como sendo moreno, alto, rosto comprido, cego de um olho, não usava óculos naquele dia e que mesmo assim enxergava bem. Pouco tempo depois o bando saiu da bodega.
A desproporção da luta que se avizinhava era enorme, pois Quelé tinha junto com ele apenas outros cinco companheiros para lhe ajudar. Para Antônio Ramos os cangaceiros seriam em torno de “-Uns cinquenta homens”. Já Carvalho (op. cit.) afirma que seriam quarenta e cinco.

O pesquisador Geraldo Ferraz de Sá Torres Filho (in “Pernambuco no tempo do Cangaço-Volume I”, 2002, págs. 328 a 330) reproduz o “Boletim Geral nº 05”, emitido pela polícia pernambucana no dia 7 de janeiro de 1924, onde consta que o número de cangaceiros era de sessenta homens.

Mas para os familiares de Antônio Ramos, naquele momento o que importava era buscar de alguma maneira se proteger dentro de casa diante do que iria acontecer e em pouco tempo “-A bala comeu”. Ele e seus familiares ficaram escutando o tiroteio, mas não lembra a duração, só comentou que “-Demorou muito”.
Falou que “-Quando deu fé”, chegou a sua casa um rapaz da família de Quelé com cerca de 16 anos, dizendo que estava dentro de um partido de mandioca quando os cabras chegaram e comentou que “-A bala tava cortando tudo”. Narrou que o rapazinho tinha escutado os gritos dos cangaceiros prometerem: “-Derrubar a casa” e o pessoal da casa avisando aos gritos para os atacantes que 
“- Se derrubar e entrar um, nóis mata na faca”.
A testemunha da batalha de 5 de janeiro de 1924 afirmou que este rapaz avisou que iria a Triunfo buscar uma volante. Nesta cidade o delegado era o tenente Malta e havia uma volante comandada pelo sargento Higino José Belarmino.

O jovem disse que seguiria através de um caminho alternativo, evitando a vereda que levava normalmente para esta cidade, pois com certeza os cangaceiros deviam ter “-Botado uma emboscada aculá na frente”. O jovem deixou a casa de Ramos, seguindo em direção a serra dos Nogueiras, saindo no lugar chamado Gameleira e de lá para Triunfo.


Edição do jornal recifense “A Notícia”, de 14 de janeiro de 1924, existente na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco, informando erroneamente sobre a ação da polícia, durante o segundo ataque de Lampião contra Quelé.

Entretanto, para nosso entrevistado, a polícia ficou “insonando”. No seu linguajar típico, onde Antônio Ramos utilizava expressões difíceis de serem ouvidas atualmente no sertão nordestino, ele quis dizer que os homens da lei ficaram enrolando e só foram chegar a Santa Cruz por volta das 11 horas da manhã.
Esta volante levou várias horas para percorrer os seis quilômetros entre as duas localidades. Provavelmente para os policiais, a ocorrência em Santa Cruz era um problema entre bandidos e quanto mais deles se matassem entre si, melhor. Mas diante da resistência feroz realizada por Clementino e seus companheiros, a polícia se deslocou para evitar a pecha de conivência e covardia.

Apesar da evidente falta de vontade dos policiais de irem a lutar, ficamos imaginando o conflito dentro da própria volante, entre aqueles que queria ir e dos que não queriam, pois certamente nem todos eram covardes e honravam a farda que vestiam.

Enquanto isso a família de Quelé, literalmente “comia chumbo” e o tiroteio não dava mostras de diminuir. A casa sofria diante da quantidade de tiros, em mais de seis horas de batalha ininterruptas. Antônio Ramos e seus familiares, até por razões bastante óbvias, não viram nada da refrega, apenas escutaram assustados a troca de disparos.

Nosso entrevistado comentou que nesta época morava na sua casa um primo chamado Augusto e foi este quem primeiro ouviu um tiro de fuzil. Esta arma possuía um som característico e bem diferente dos rifles Winchester, de calibre 44, ainda bastante utilizados pelos cangaceiros e pelo pessoal de Quelé. O som lhe chamou a atenção e mostrava que a polícia estava chegando, vindo pelo caminho que seguia para a pequena Santa Cruz, que nessa época era um simples arruado “-Com no máximo quatro casas”.

Aparentemente a Força Policial começou a atirar com seus fuzis muito antes de chegar ao local do confronto, esperando que assim os cangaceiros debandassem. Mas segundo o nosso informante, foi nesse momento que o tiroteio ficou ainda mais forte, “-Com a fumaça cobrindo tudo” e as balas “-Zunindo por riba de casa”, o que deixou os membros da sua família extremamente assustados. Podemos deduzir através de suas informações que, de alguma maneira, a sua casa ficou entre o fogo cruzado.


O aposentado coronel Higino José Belarmino, 
em foto de Josenildo Tenório, de 1973. 
Reprodução feita a partir da página 50 do livro “Lampião, o cangaceiro e o outro”,
de Fernando Portela e Claudio Bojunga, edição 1982.

Segundo Ferraz (op. cit.), no “Boletim Geral nº 05” encontramos a informação que o tiroteio morreu o irmão Pedro Quelé e Alexandre Cruz, ficando ferido Deposiano Alves Feitosa. Antônio Ramos narra que seu pai considerava Pedro Quelé como um homem valente. Na região ficou conhecido o fato que quando acabou a sua munição, este pediu garantias para sair, mas ao colocar a cabeça para fora da janela, foi impiedosamente morto.

Depois de toda uma batalha tenaz onde não tivera êxito, Virgulino Ferreira da Silva não refreou sua vontade de acabar com o atrevido Clementino Quelé.

Ferraz (op. cit.) mostra que no “Boletim Geral nº 07”, da polícia pernambucana, emitido no dia 9 de janeiro de 1924, reproduz um bilhete do tenente Malta informando “Acha-se grupo de Lampião proximidade de Santa Cruz”. O militar ainda comentou na missiva que contava com “89 praças” para defender Triunfo e região.

Mesmo com esta força nas proximidades, seis dias depois, no dia 11 de janeiro, uma sexta-feira, Lampião e seus homens voltaram para aplicar uma segunda dose de chumbo em Quelé e seus companheiros.
Antônio Ramos recordou muito bem que em relação a este combate, percebeu que o sol já vinha saindo quando o tiroteio teve início e novamente a história se repetiu. De um lado os cangaceiros sedentos de sangue e do outro um pequeno grupo de homens se defendendo como podiam.

Segundo Lira (op. cit.), Lampião despejava todo tipo de impropérios e palavrões conhecidos contra o destemido Quelé e seu pessoal. Mas os sitiados respondiam, cantavam e assim irritavam o chefe dos cangaceiros.

Mesmo com uma força policial numerosa em Triunfo, novamente os agentes de segurança do Estado levaram outras seis longas horas para chegarem a Santa Cruz, repetindo-se o que ocorreu no domingo anterior. De toda maneira Clementino só conseguiu se safar pela chegada do destacamento policial baseado em Triunfo.
Para Antônio Ramos, consta que Quelé tinha um parente de nome José, apelidado “José Caixa de Fósforo”, que parece ter estado nos dois tiroteios.

Apesar do antigo cangaceiro de Lampião sair vivo nestes combates, a família Furtado foi praticamente exterminada. Segundo Mello (op. cit.), tanto neste, como em combates futuros, morreram três irmãos, dois genros e um sobrinho. Além destes seis parentes, segundo o pesquisador, mais cinco amigos do valente Quelé pagaram com a vida e inúmeros outras pessoas ligadas a Clementino ficaram feridos.

 Casa antiga da região de Santa Cruz da Baixa Verde.

Em relação aos confrontos de janeiro de 1924, Antônio Ramos contou que uma das casas que foi palco dos dramas ainda existia e que na época era considerado um sítio afastado da então vila. Tentamos localizar o local. Chegamos a fotografar uma residência antiga, mas reformada. Entretanto houve divergências com outros informantes, que comentaram ter sido as casas da família de Quelé derrubadas há muito tempo.

Independente da residência correta onde aconteceram os tiroteios, fomos informados por pessoas da região, nascidas anos após os episódios, que seus parentes mais velhos narrarvam que quando estes seguiam para capinar nas proximidades das antigas vivendas, a coisa mais comum era encontrar cápsulas deflagrada de rifles e fuzis.

O Vingador do Sertão

Depois dos tiroteios, Quelé ficou meio perdido pela região, sendo protegido por Higino Berlarmino. Para Antônio Ramos, foi o coronel José Pereira, o chefe político da vizinha cidade paraibana de Princesa, que deu o apoio decisivo para Quelé se tornar um implacável caçador de Lampião.

Após o grande assalto ocorrido na cidade de Sousa, em 27 de julho de 1924, Pereira exigiu que seu parente Marcolino Diniz não desse mais apoio a Lampião e o expulsasse da região dos Patos. Por indicação de alguém que Antônio Ramos não recorda, foi sugerido ao “dono” de Princesa o nome de Quelé, para que este servisse no comando de uma volante em perseguição a Lampião. A solicitação foi feita ao então governador paraibano João Suassuna e Clementino Furtado passa a ser conhecido como o Sargento Quelé.

Sua volante, a famosa “Coluna Pente Fino”, ficou marcada na história do cangaço pela selvageria como combatia os cangaceiros e infligia o terror aos coiteiros. Muitos parentes fizeram parte do grupo. Se não faltam relatos de valentia do seu pessoal, infelizmente não faltam informações que inúmeros inocentes sofreram nas mãos dos homens de Quelé, além de inúmeros atos de pura rapinagem.

De toda maneira o “investimento” do governo da Paraíba em Quelé não foi em vão. Três anos e meio depois dos combates em Santa Cruz, no dia 14 de junho de 1927, ele e seus homens eram a primeira força policial a adentrar em Mossoró, após a fracassada tentativa de Lampião para conquistar a maior cidade do interior potiguar. Nesta ocasião consta que no currículo de combates de Quelé contra o Rei do cangaço, estavam listados vinte e um tiroteios.

Para Antônio Ramos, mesmo com toda coragem e capacidade para caçar cangaceiros, foi o analfabetismo de Quelé que deixou que ele permanecesse nas fileiras da polícia da Paraíba apenas com a graduação de sargento.

Uma antiga cruz, ou cruzeiro em Santa Cruz da baixa Verde, 
marca o local onde tombou uma vítima de “morte matada”.

Quelé morreu já idoso na Paraíba, no lugar chamado Prata, próximo a cidade de Monteiro. Segundo Antônio Ramos, ele sempre vinha visitar o sítio Conceição e a pequena Santa Cruz.
A história de Clementino Quelé e sua vingança contra Lampião se tornariam quase uma lenda no imaginário das futuras gerações dos sertanejos do Nordeste. Aparentemente um destes que se encantou com as lutas de Quelé foi Luiz Gonzaga, o “Rei do baião”. Em parceria com José Marcolino, o sanfoneiro de Exu compôs a música “No Piancó”, onde em um trecho diz;
“Lá viveu o Clementino / Que brigou com Lampião.”
Não posso garantir que o Clementino descrito na música do grande artista pernambucano, seja o mesmo homem que perseguiu implacavelmente Lampião.
Mas houve outro?

A morte do pai de Antônio Ramos

Um dia, em 1926, segundo o entrevistado, o terrível chefe bandoleiro Sabino, acompanhados dos cangaceiros Juriti, Ricardo e outros, vieram de um lugar próximo chamado Lagoa do Almeida, da família dos Marianos e seguiram para a casa do senhor Manuel da Cruz. Este era um fazendeiro, tendo sido comentado aos cangaceiros ser um homem que possuía muito dinheiro Como este não foi encontrado, os cangaceiros continuaram seguindo em direção a pequena povoação de Santa Cruz.

No caminho passaram adiante da casa de Miguel Moura. Como um dos cangaceiros era afilhado de batismo da mãe do entrevistado, por força do parentesco, pediu a Sabino, Juriti e Ricardo, que fossem na casa do sítio Conceição, ver se “arranjavam alguma coisa” com sua madrinha, que ele ficaria de fora.

Sabino fotografado montado em 1927, na cidade cearense de Limoeiro do Norte, 
logo após o fracassado ataque a Mossoró.

A chegarem ao pequeno comércio, Sabino e os outros entram e passam a torturar Miguel Moura a ponta do punhal, para o mesmo dar conta do dinheiro que conseguia com o transporte nos burros. Na casa do pai do entrevistado se encontrava uma empregada da vizinha Isabel Correia, conhecida como Zabê e esta senhora foi a vivenda do entrevistado para moer milho. Os cangaceiros quiseram lhe arrebatar uma aliança, mas ela conseguiu tirar a joia do dedo e colocou-a na boca. Os cangaceiros exigiram o objeto de valor e a mesma recusou-se a entregar. Os bandidos passam a ação, tentando forçar a mulher a entregar a aliança e começa uma luta. A empregada lutou tão bravamente que teria quebrado o nariz do seu atacante. O próprio Sabino mandou soltá-la, tendo dito que “-Esta é uma desgraça que nem o diabo pode”. A mulher foi embora correndo com a aliança.

Na casa da vizinha Zabê, que possuía certa quantidade de ouro, eles chegaram e arrastaram o que puderam, mandando inclusive a mulher tirar os brincos ou “-Cortariam com o pedaço da orelha”. O marido da mesma, Manuel Correia, foi chegando a casa e os cangaceiros o renderam com pistolas, que colocaram no pescoço do mesmo.

Para o pai do entrevistado a sorte não foi tão boa. Disseram que ele era rico, mas Miguel Moura comentou que gastava muito na propriedade. Daí Sabino ordenou que em oito dias ele conseguisse um conto de réis, sob pena de morrer.

O pai do entrevistado sofria do coração e diante de toda a tensão provocada pelas ameaças, veio a ter um ataque cardíaco. Sem assistência médica, que era muito difícil na época, morreu nove dias depois da “visita” dos cangaceiros.

Depois destes fatos, o nosso entrevistado e a família foram para Triunfo, onde perderam a roça e tiveram muitos prejuízos. Seguiram depois ao Juazeiro, para uma entrevista com o Padre Cícero, que os aconselhou a não voltar logo para casa.

Este fato foi testemunhado pela irmã de Antônio Ramos, criança a época, que se encontrava brincando defronte a casa no momento da passagem dos cangaceiros, tendo ela visto e escutado tudo.
Se para alguns, Sabino é apontado como “revolucionário”, para Antônio Ramos, ele é tão somente um arrogante bandido, cruel ladrão e frio assassino.

Início da extensa reportagem divulgada no jornal recifense “A Província”, 
edição do dia 10 de julho de 1926, dando conta do ataque de Sabino a Triunfo.

No dia 7 de julho de 1926, Sabino e seu grupo foram a Triunfo para assaltar a cidade. O bando fez muita bagunça, atacando a loja de tecidos de Antônio de Campos, o maior comerciante da cidade. Os cangaceiros levaram até um machado para furar o cofre, mas não conseguiram, passando a tocar fogo n estabelecimento.
Segundo Ramos, na ocasião se encontravam na cidade dois soldados, de nome José Sabiá e José Piauí, que foram atacados pelo bando. O inusitado foi que Sabiá morreu com apenas um tiro e o Piauí, mesmo levando sete tiros, escapou com vida.

Para Lira (op. cit. pág.401) Sabino e seus homens entraram na cidade serrana quando se encontravam apenas quatro militares para protegê-la e corrobora a afirmação de Antônio Ramos quando escreve que “o soldado que foi morto tinha o apelido de Sabiá”.

A última vez que Antônio Ramos viu Lampião e seu bando

Depois que o nosso informante e sua família voltaram à antiga casa do sítio Conceição, eles procuraram seguir a vida. Mesmo diante da situação, o jovem Antônio Ramos não deixou de estudar. Em um dia de 1927, estava ele por volta das onze da manhã em uma escola nas proximidades de Triunfo, junto com um professor nascido na cidade de Floresta, quando chegou um grupo de cavalarianos armados e equipados. A princípio o mestre pensou que fossem policiais, mas o entrevistado comentou com segurança que “-Aquele ali é Lampião, eu conheço”. Segundo ele eram em torno de “130 cangaceiros”, todos equipados, com chapéu de couro quebrado, cheio de medalhas, fuzis, cada um levando dois bornais e cartucheiras. Antônio Ramos ficou se perguntando como eles lutavam com tanto equipamento.

Entre os cangaceiros, nosso entrevistado conhecia um deles. Chamava-se Isaías Vieira, e era de um lugar conhecido como Xique-Xique. Havia sido ladrão de bodes, que após ser preso apanhou muito e havia entrado no cangaço por vingança.

Nesta ocasião todos os cangaceiros estavam a cavalo, pegando animais descansados e deixando os que estavam viajando. Comentou que apenas às seis da noite, uma volante da polícia de Alagoas passou na região seguindo o bando. Este grupo era comandado por um militar conhecido como “tenente Arlindo”. A ocasião desta visita foi próximo ao mesmo período em que ocorreu o ataque a Mossoró.
A bibliografia mostra o quanto aparentemente nosso informante estava certo, mesmo com algumas pequenas alterações.

O Pesquisador José Alves Sobrinho, da cidade de Serra Talhada, em Pernambuco (in “Lampião e Zé Saturnino-16 anos de luta”, 2006, pág. 112), comenta que na mesma época que Lampião seguia para Mossoró, passou na zona rural de Vila Bela, a antiga denominação do município de Serra Talhada, na fazenda Barreiras, de propriedade de Martins Venâncio Nogueira, conhecido como Martins da Barreira. Segundo o autor, o proprietário da fazenda Barreira conversou longamente com Lampião naquele dia e afirmou que junto ao chefe estavam “118 cangaceiros”.

Segundo Lira (op. cit pág. 379.) comenta que em fins do mês abril de 1927, este grande grupo de cangaceiros estava sendo realmente sendo seguido por uma força volante comandada pelo militar Arlindo Rocha, que salvo engano seria da polícia pernambucana e possuía a patente de sargento.
Antônio Ramos informou que nunca leu um livro sobre cangaço, que conta por que sabe e viu. Os fatos envolvendo Lampião e o cangaço era informação corrente na região. Tudo era narrado de boca em boca, nas feiras, nas ruas.

Detalhes sobre a intriga dos Ferreiras com os Saturninos de Vila Bela, a história do chocalho, as brigadas e tudo mais que levou Lampião a entrar no cangaço, era muito repetido.
Apenas em uma ocasião Antônio Ramos viu uma revista com a foto das cabeças cortadas em Piranhas, Alagoas, após o ataque que deu cabo de Lampião e acha que era ele mesmo.

Antônio Ramos Moura.

*Rostand Medeiros é Pesquisador - rostandmedeiros@gmail.com

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Coronel Manoel de Souza Neto

O destino de um bravo
Por: Leonardo Ferraz Gominho, 




Antônio Mendes de Sá morava na beira do rio São Francisco quando, em 1865, viu-se envolvido na intriga que se chamou de questão do Sabiucá (Gomes de Sá,). Acabou sangrado, depois que foi arrancado para fora da prisão, pelos inimigos. Dos seus filhos, Ana (Aninha “Braba”) casou-se com Cazuzinha “do Roque” (MOM, B 9) e lhe deu a neta Maria.

Maria casou-se com Gregório Nogueira do Nascimento, conhecido por Gregório Flor por ser filho de Florência Filismina de Sá (Flor) e de Manoel de Souza Ferraz (Manezinho). O casal deixou oito filhos: Auta, Amerina e Filomena; Alonso, Afonso, Ancilon, Arconso de Souza Ferraz e Manuel de Souza Neto.

Manuel de Souza Neto nasceu nas terras da antiga fazenda Algodões, município de Floresta, no dia 1º de novembro de 1901. Cresceu ao lado dos parentes, os “nazarezistas”. Ao lado deles, se engajaria numa luta ingrata, dura, heróica. Virgulino Ferreira da Silva - o futuro Lampião - ali chegara muito cedo, instalando-se com a família na fazenda Poço do Negro, nas imediações de Nazaré, e logo se indispôs com os filhos da terra, fazendo uma história já conhecida e que levou luto a muita gente da região.

Em 1921, o primeiro filho de Nazaré seguiu com destino ao Recife para ingressar na polícia: Arconso de Souza Ferraz deixou seu emprego em loja para se tornar militar. Outros seguiriam seus passos.

Diz Marilourdes Ferraz (O Canto do Acauã, p. 141) que, em 1922, “Manuel de Souza Neto partiu da casa do seu tio João Flor, ao lado do comerciante Adão Feitosa, para Rio Branco (atual Arcoverde), a fim de comercializar peles de bode. A viagem foi extenuante, feita a pé e parte a cavalo mas, ainda assim, por iniciativa própria, prolongou seu itinerário até a capital para efetuar alistamento, seguindo o exemplo do seu irmão Arconso.”

Estava destinado a ser um dos mais valorosos combatentes do cangaço. Com 21 anos de idade incompletos, engajava-se com coragem numa luta que duraria pelo menos 16 anos. E logo se destacaria por sua bravura.

Em janeiro de 1924, Manuel Neto foi um dos soldados que mais se fizeram notar, sob o comando do sargento Higino José Belarmino, nas lutas travadas contra o grupo de Lampião e em defesa de Clementino Quelé, que vira seu distrito de Santa Cruz, em Triunfo, ser atacado violentamente. No dia 5, o jovem soldado avançou correndo de Triunfo até aquele local, onde Virgulino procurava liquidar o antigo companheiro Quelé. Seis dias depois (dia 11), entrava novamente em choque com o grupo de bandidos, forçando-os a deixar o Estado de Pernambuco e fugir para a Paraíba.

Um ano depois (fevereiro), ao lado de uma força volante composta de civis, procurava descobrir o paradeiro de Lampião. Tomara conhecimento da presença do bando na região de Betânia. Encontrou a força sob o comando do sargento José Leal, seguindo todos na direção da Cachoeira dos Galdinos. Ali estavam os cangaceiros. A força se compunha de pouco mais de vinte homens; os bandidos, trinta e tantos. Avistados os cangaceiros, foram descobertos, iniciando-se o tiroteio. Batalha duríssima, com resistência tenaz. No auge da luta, o sargento José Leal e o soldado João Preto abandonaram o campo da luta. Manuel Neto assumiu, nessa ocasião, pela primeira vez - segundo João Gomes de Lira -, um comando na campanha contra o banditismo.

Ao seu lado, secundando-o, os primos Euclides e Manoel Flor. A luta durou cerca de três horas, terminando com a fuga dos bandidos que levaram um morto e três feridos. A força nada sofreu. Foi nesse ano de 1925 que Manuel Neto foi promovido a anspeçada. Junto com Manoel Teotônio, no lugar Malhada do Boi - entre Betânia e São Caetano (Navio) -, eliminara o cangaceiro Luiz Cazuza.

Em junho ou julho de 1925, o anspeçada, ao lado, entre outros, dos parentes David Gomes Jurubeba, Hercílio de Souza Nogueira, Antônio Capistrano de Souza e João Domingos Ferraz, sob o comando do tenente Higino, partiu em reforço à força paraibana que lutava, quase sem munição, contra o grupo de Lampião no lugar Tenório. Já se brigava havia várias horas. Com os tiros disparados pelos pernambucanos, os bandidos correram.

Diz Marilourdes Ferraz que aí tombou morto Levino Ferreira. Frederico Maciel (Lampião, seu tempo e seu reinado, v. II, p. 171), entretanto, diz que o irmão de Lampião morreu num tiroteio da véspera, na Baixa do Juá, atingido por um tiro do soldado José Inácio Morais.

O combate da Caraíba
 
Era o dia 4 de fevereiro de 1926. As forças sob o comando de Higino Belarmino seguiam a pista de Lampião que, da fazenda Volta, no Navio, município de Floresta, escrevera diversas cartas pedindo dinheiro a moradores da região. Daí seguiu e, na Caraíba, sabendo que a força vinha em sua perseguição, montou uma grande emboscada com seus 35 a 40 homens. Distribuiu estrategicamente os companheiros, conforme conta Manoel Flor (O Canto do Acauã, p. 213):

“Os cangaceiros estavam bem apoiados em lugares seguros e distribuídos vantajosamente, dispostos em três posições. O primeiro grupo de adversários estava à margem esquerda do riacho, num serrote; o segundo, à frente do primeiro, na margem oposta, apoiado na ribanceira do riacho; o terceiro, em barrancos e valetas naturais”. A posição permitia que a força fosse alvejada com três frentes de fogo e os bandidos, situados nos barrancos e ribanceiras, “apesar de estarem entre o fogo dos companheiros e da força, não eram atingidos pois sua posição os resguardava bem.”

A força de 34 ou 35 homens foi colhida de surpresa. Seguiu-se um dos mais ferozes combates travados em toda história do banditismo nordestino. Os mais traquejados, acostumados a liderar tropas, tomaram decisões individualmente. Manuel Neto seguiu pelo lado esquerdo, em busca dos cangaceiros entrincheirados no serrote. Aproximou-se de tal forma que teve o braço direito varado por uma bala dos bandidos. Escapou “quase milagrosamente com seus homens, apesar de servir como alvo para os bandidos do primeiro e do segundo grupos”. Foi retirado para Betânia pelos companheiros Pedro Tomás de Souza Nogueira, João Jurubeba de Sá Nogueira, soldado Jacobina e outros.

Vendo Manuel Neto ferido, os bandidos saltaram para fora das trincheiras dispostos a eliminar o inimigo. Foram várias vezes bravamente repelidos. Conta João Gomes de Lira (Lampião: Memórias de um soldado de volante, p. 249) que, em Betânia (então distrito de Floresta), “por não existir medicamento nem farmacêutico, foi Manuel Neto medicado pelo curandeiro Manoel Jerônimo. Contudo, Manuel Neto ainda criou bicho no ferimento. Ele mesmo puxava as filapas (sic) de osso do ferimento.”

Dias depois, foi transportado de Betânia para Flores, onde submeteu-se a rigoroso tratamento.
 O combate da Caraíba durou cerca de 7 horas e a tropa enfrentou desesperada os bandidos. Conta Lira que Higino, já baleado e vendo a falta de ânimo da força, procurou retirar-se da linha de fogo. David Gomes Jurubeba, vendo isso, teria gritado:
 - “Tenente Higino, não abandone a tropa. Seja homem que eu sou homem e só sou comandado por homem. Bota galão no ombro quem é homem. Não tente retirar-se da linha de frente. Se isto fizer, atiro-lhe pelas costas!”
 Higino - um dos mais bravos oficiais que se engajaram na luta contra o banditismo -, mesmo ferido, teria respondido:
 - “David, agora se morre até o último homem mas não se corre. Vamos agora morrer todos, como homens, no campo da luta!”
No cair da tarde, Lampião retirou-se. Perdera cinco homens; a força três: os soldados Aristides Panta da Silva, Benedito Bezerra de Vasconcelos e Antônio Benedito Mendes. Foram feridos, além do anspeçada Manuel Neto e tenente Higino, o rastejador Antônio Joaquim dos Santos (Batoque), com a perna fraturada, Altino Gomes de Sá (v. GS, Tn 196), João Pereira dos Santos, João Pinheiro Costa e João Cavalcanti (mais tarde morto no combate de Maranduba/SE).


 Coronel Higino em 1973.
Foto de Josenildo Tenório

A chacina da Tapera

Horácio Cavalcanti de Albuquerque, filho de Manoel Cavalcanti de Albuquerque (Dé - AFN, Ttn 84), nasceu em 23.08.1891. Foi, na vila de Floresta, aluno do velho professor Trindade, em 1901. Fortunato de Sá Gominho (Siato), seu colega de escola, recordou: “tivemos a oportunidade de nos submeter por mais de uma vez às boas sabatinas, com perguntas e respostas recíprocas e com palmatórias em nossas mãos, nos dias de sexta-feira. Enquanto eu, felizmente, sempre consegui sair das mesmas vitorioso, plenamente livre da palmatória indesejável, Horácio tinha grandes e boas mãos que bem suportavam a ação da festejada palmatória”.

Membro de uma das mais tradicionais, ilustres e honradas famílias de Floresta, Horácio foi, entretanto, uma ovelha desgarrada. Denunciado como implicado em furtos de animais, foi, segundo Billy Jaynes Chandler (Lampião, o rei dos cangaceiros, p. 92), “condenado ‘in absentia’, no meado de 1925”. Passou a integrar o grupo de Lampião. Diz Chandler: “Este acontecimento iria trazer terríveis conseqüências para a família Gilo, de Floresta, pois um de seus membros, Manoel, estava entre os que tinham acusado Horácio de roubo de cavalos.

Pouco antes do seu julgamento, Horácio e dois cangaceiros apareceram uma madrugada na fazenda Tapera, em Floresta, onde moravam os Gilo, e, depois de acordar todos que lá estavam, procuraram por Manoel por toda a casa, dizendo que iam matá-lo. Não o encontrando, ameaçaram matar seu pai, Donato, mas foram embora sem o fazer.”

Horácio tramou então uma das mais sangrentas chacinas verificadas naqueles tempos. É ainda Billy Chandler quem diz que chegou às mãos de Lampião uma carta, feita “como se fosse pelos Gilo, mas escrita pela mulher de Horácio”. Não só insultava como punha em dúvida a coragem do bandido. Aquilo era demais para Virgulino.

Sentindo-se ameaçado, Manoel de Gilo, temeroso, levou sua inquietação ao conhecimento do capitão Muniz de Farias, comandante de uma grande força volante estacionada em Floresta. Esclarece João Gomes de Lira (obra citada, p. 317) que o capitão aconselhou a Manoel de Gilo, “junto a toda a família, armarem-se na fazenda Tapera e aguardarem a vinda dos bandidos.” Assim, no momento de um ataque, “podia ficar Manoel de Gilo despreocupado, pois a Força daria retaguarda.” E Manoel voltou tranqüilo a sua fazenda.

Na madrugada de um sábado, dia 28 de agosto de 1926 (alguns autores, erradamente, indicam esse dia como sendo 26 de agosto), ainda turva a noite, “a barra ainda longe”, Lampião iniciou a execução do seu plano para massacrar os moradores da Tapera. Ao seu lado, Horácio Cavalcanti de Albuquerque. Batem à porta dos vizinhos de Gilo, prendendo todos. Amarradas as mãos atrás das costas, foram conduzidos a uma quixabeira que ficava perto da casa, sendo ali vigiados severamente.

Conta Malta Neto (Memórias de um cobrador de impostos, p. 93) que então “Lampião cercou a casa cuidadosamente, tomando os pontos aconselhados pela prudência e disparou alguns tiros para o ar, para despertar seus inimigos, pois sabia todos presos numa armadilha mortal, inteiramente a sua mercê”.

A resposta dos Gilo não se fez esperar. O tempo se fechou. Cerca de 40 cangaceiros disparavam sobre a casa de taipa; os demais tomavam a estrada que levava a Floresta, aprisionando os feirantes que para ali se dirigiam, ou se posicionavam à espera da força que esperavam vir da cidade em socorro aos atacados. Não queriam surpresas.

A notícia do ataque, entretanto, chegou a Floresta. Diz João Gomes de Lira que o capitão Muniz de Farias, “sem saber o que fazer, corria de um lado para o outro sem tomar nenhuma resolução”.
 “As famílias da cidade de Floresta, penalizadas e compadecidas com a situação, dirigiam-se ao capitão pedindo que fosse socorrer aquela gente”. “O capitão mandava tocar reunir e logo mandava tocar debandar.”
O jovem anspeçada Manuel Neto fazia parte da força do capitão Muniz. Com o braço na tipóia, ainda sentindo o ferimento recebido na Caraíba, insistia com o superior, pedindo-lhe uma tropa para socorrer os Gilo. O capitão discordava. Alegava que não poderia deixar a cidade desguarnecida.

Manuel Neto insistia: se 10 homens o acompanhassem, iria por conta própria lutar com o grupo de cangaceiros, que sabia dispor de mais de cem bandidos. Passaram para o seu lado dez policiais.
 Nesse momento ainda interferiu João Gominho Filho, amigo de Farias. Pediu-lhe que “o auxílio fosse melhorado suficientemente, de vez que tínhamos força bastante e não iria fazer falta à nossa cidade uma pequena tropa”, conta Siato (Memórias). Não foi atendido.

O anspeçada não mais esperou. Seguiu correndo, acompanhado dos companheiros, em direção à Tapera, distante cerca de duas léguas. Conta Malta Neto (obra citada) que Manuel Neto, a uns três quilômetros do campo da luta, “dispôs seus homens em três grupos, caminhando por dentro do mato, com cautela, para evitar as desagradáveis surpresas que Lampião sabia tão bem armar, e que ele, Manuel Neto, conhecia tão bem pelas longas batalhas que havia travado com o bandido.

Nem por isso deixou de ser surpreendido”. Foi atacado de repente, quando ainda não esperava. A luta que se seguiu foi furiosa e cruel. Os bandidos procuravam envolver a pequena força. Balas caíam “como pingos de chuva”, seguindo-se um combate de cerca de duas horas. João Ferreira de Paula, soldado, tombou varado por balas, quase aos pés de Manuel Neto.

Vendo a munição se acabar, o anspeçada, pesaroso e amargurado, teve de abandonar o infernal fogo. Devido aos movimentos bruscos, sangrava-lhe o ferimento do braço. Ficava, assim, toda a família Gilo à mercê de Horácio e de Lampião. Diz Malta Neto que a taipa da casa foi cedendo aos poucos, “ficando os varais nus, sem a proteção do barro, até o extremo de não restar mais nenhuma argamassa para proteger os lutadores presos na armadilha da morte.”

Billy Chandler (obra citada, p. 93) esclarece que, por volta das 10 horas (o fogo se iniciara às 4 horas), cessaram os tiros dentro da casa. O mais velho dos Gilo - o único homem ainda vivo, na casa - saiu ou foi arrastado. “Lampião puxou do bolso a carta que ele acreditava ser do homem à sua frente, e começou a lê-la.

Gilo protestou e negou a autoria, acrescentando que não sabia ler nem escrever. Lampião, conforme dizem, estava propenso a acreditar na sua inocência, quando Horácio, que estava perto, levantou a pistola, atirou e matou seu inimigo. Ao todo morreram 12 pessoas na fazenda Tapera naquele dia, e, conforme disseram as testemunhas, os corpos estavam espalhados por toda a casa. Das 12 pessoas presentes, só não morreu a mulher de Gilo”. Acrescenta também que morreu uma pessoa que tinha sido detida na estrada, além do soldado. Dos Gilo, morreram Manoel, dois de seus irmãos, seu pai e diversos outros parentes. A tragédia foi total.

Conta Siato que, depois de tudo consumado, “chegou ainda ali o capitão Muniz de Farias, com maior contingente de força, mas nada mais fez a não ser, após informado da situação, regressar para Floresta, deixando de seguir no encalço do grupo, como desejava e pedia o bravo e destemido anspeçada Manuel Neto.”

 Manoel Neto e Luiz Mariano
O tiroteio da Favela

Vinte dias depois, Lampião foi ferido gravemente na fazenda Tigre, em Floresta, retirando-se para o município de Tacaratu para ali se tratar, restabelecendo-se por fim em uma das fazendas de Ângelo da Jia. Com força total, voltou três meses depois a espalhar o medo. Apareceu na região do riacho São Domingos, seguindo para os povoados de São Francisco e Santa Maria. Entrou no município de Floresta e passou pelas fazendas Campos Bons, Cachoeira, Exu e Arapuá, dormindo no dia 10 de novembro (1926) na fazenda Favela, a cerca de 12 quilômetros da cidade. Cerca de 90 homens sob o comando do sargento José Saturnino e anspeçada Manuel Neto seguiam-lhe a pista.

Diz Marilourdes Ferraz (O Canto do Acauã, 1 ed., p. 245) que a força “encontrou Emiliano Novais, certamente indo ao encontro de Virgulino Ferreira. Interrogado, não forneceu quaisquer informações; apenas por considerar seus parentes, Manuel Neto o libertou”. “Emiliano foi imediatamente ao encontro de Lampião avisar que Manuel Neto tomava aquele rumo.”

E quando, na madrugada do dia 11 (alguns autores, erradamente, dão esse fato como acontecido em agosto), a força chegou à Favela, já encontrou uma grande emboscada. Sem desconfiar, Manuel Neto bateu à porta da fazenda. Perguntaram quem era.
- É Manuel Neto.
Pediram para aguardar. De repente, a parte superior da porta se abriu e uma tremenda descarga foi dada para o lado de fora da casa, tombando mortos dois soldados, sendo outros feridos.
João Gomes de Lira (obra citada, p. 339) diz que, assim que os bandidos recolheram as armas, Manuel Neto, que se encostara ao pé da parede, ao lado da porta, “sem perda de tempo, botou a boca do mosquetão para o lado de dentro, fazendo fogo.”

De outra casa partiam tiros, levando pânico aos soldados em campo raso. Da parede do açude diversos cangaceiros alvejavam os homens de José Saturnino que recuou com vários feridos e mortos em seu grupo. Cerca de duzentas armas vomitavam fogo e “o mundo” encobriu-se de fumaça. Os bandidos viam Manuel Neto lutar como poucos. Provavelmente nesse combate o nazareno ganhou dos companheiros o apelido de Manuel Fumaça. Lampião preferia chamá-lo de Cachorro Azedo, face a sua disposição em persegui-lo.

A frágil posição das forças, com as violentas retaguardas dos cangaceiros, entretanto, não permitiram uma maior resistência. Depois de 3 a 4 horas de fogo, os soldados começaram a se retirar, resistindo bravamente Manuel Neto até o último momento. Vendo ao seu lado um punhado de combatentes e com inúmeras perdas, resolveu o anspeçada recuar, levando os feridos para Floresta.

Na cidade, somente depois que deixou de ouvir o tiroteio é que o capitão Muniz de Farias se dispôs a socorrer os companheiros, para ali seguindo com 70 a 80 praças. Segundo João Gomes de Lira (obra citada, p. 341), Muniz encontrou o anspeçada no caminho. Vinha “dando esturros de todo tamanho. Vinha mesmo faiscando de todo jeito por ter Lampião ficado na cava”. Pediu ao capitão a sua força, disposto a, no mesmo momento, perseguir os bandidos. O capitão negou.

“Indignado” - conta Lira -, “disse coisas pesadas ao superior.” Muniz ainda foi até à Favela, nada encontrando. Ainda segundo Lira, o capitão, “por não gostar da família Novaes, incendiou as casas da grande fazenda. Foi bem elevado o prejuízo que o proprietário, Sr. Antônio Novaes, sofreu.” Marilourdes Ferraz esclarece que o capitão mandou “atear fogo aos cercados da Favela.”

A 15 de novembro de 1926, o Comandante das Forças Volantes, major Theóphanes Ferraz Torres, passou ao Comandante Geral da Força Pública o seguinte telegrama:

“Sindicando sobre tiroteio fazenda Favela, tenho satisfação de dizer que tal acontecimento foi um dos feitos de maior valor praticado no interior do Estado, pela nossa heróica Força Pública. Bandidos em número superior sabiam que José Saturnino e Manuel Neto marchavam em perseguição, de modo que, ao chegarem em lugar apropriado e absolutamente favorável a eles, esperaram força em campo raso, de surpresa receberam as primeiras descargas, travando-se luta verdadeiramente encarniçada, durante algumas horas.

Após o tiroteio grupo foi encontrado rumando direção serra Umã conduzindo cinco bandidos feridos. Foi também encontrado um bandido morto no local do tiroteio, afora os que de certo o grupo pôde ocultar. Saudações.”

Em reconhecimento ao esforço de Manuel Neto, o capitão Muniz, chegando a Floresta, “pediu por ato de bravura a promoção de cabo para o anspeçada”, sendo imediatamente atendido.




O combate da Serra Grande

As forças continuaram na pista de Lampião. Quinze dias depois, grande número de policiais seguiam de perto o bandido que, das proximidades de Vila Bela, retirou o grupo para a Serra Grande, perigosa garganta de quase duas léguas de extensão. Chegando à serra, o cabo Manuel Neto e o sargento Arlindo Rocha, ambos da região e familiarizados com a terra, os cangaceiros e seus truques, detiveram-se ali, à boca do desfiladeiro, à espera do tenente Higino que enviara mensageiro, ordenando que as forças ali se detivessem para entrar na serra somente com sua presença.

Marilourdes Ferraz (O Canto do Acauã, 1 ed., p. 253) diz que tornava-se “difícil traçar um plano com segurança relativa para os soldados. A serra, muito acidentada, era um local adequado para emboscadas”. Lampião dividira seu bando em três subgrupos, situando os homens em lugares privilegiados, “cuja posição antecipava a vitória da luta que duraria horas ininterruptas”. Antônio Ferreira ocupava a chapada da serra e Lampião comandava o primeiro subgrupo.

“Logo que chegou, Higino expôs seu bem arquitetado plano de ataque (se tivesse sido executado certamente não falharia, segundo declararam alguns soldados que participaram da luta): consistia, em linhas gerais, na retirada de uma parte da força para atacar os bandidos pela retaguarda, subindo pelo outro lado da serra.”

Esclarece Marilourdes que o sargento Arlindo Rocha “rejeitou a proposta categoricamente, alegando que a manobra exigia dispêndio de precioso tempo e acarretaria maiores dificuldades para se galgar a serra. Os demais comandantes de volantes preferiram não interferir na divergência de opinião.”
Belarmino desistiu do ataque coordenado, puxou o relógio do bolso e disse que, quem fosse homem, subisse a serra. Escapasse quem Deus quisesse. E acrescentou: 
- São sete e quarenta e cinco. Fico aqui escutando a hora que a espoleta quebra em cima da serra.
João Gomes de Lira (obra citada, p. 352) acrescenta a resposta de Manuel Neto:
 - “Venho de longe, com mais de trinta léguas, no encalço, para brigar, e quero é brigar. Já estou com o pé na embocadura da serra. Já vou subindo.
O anspeçada Euclides de Souza Ferraz também falou:
- “Com meu pelotão da morte, também vou subindo a grande serra.”
E o sargento Arlindo Rocha:
- “Ah! Tá bom! Eu hoje também quero é almoçar bala!”
Vendo Arlindo se adiantar, querendo tomar sua frente, Manuel Neto protestou:
- “Não, Arlindo. Você sabe que a vanguarda é minha e não cedo o lugar.”
Às 8 h e 45 minutos daquele 26 de novembro de 1926, ouviu-se o alto da serra pegar fogo. “Era o cabo Manuel Neto que estava de testa com o bandido Lampião”. A luta atingia grandes proporções e a força de mais de 260 homens viu-se incapaz de desalojar os bandidos. Antônio Ferreira, nesse ponto, comandava um grupo móvel que se alternava em ataques frontais e pela retaguarda. Na bocaina da serra, o tenente Higino impediu os bandidos de fecharem a entrada da garganta, evitando, assim, um verdadeiro massacre das forças que, certamente, ocorreria.

Conta João Gomes de Lira que a vanguarda seguia, tendo como rastejador o soldado Ângelo Inácio da Silva (Ângelo Caboclo). A certa altura da serra, “nas proximidades de uma aguada, quando passava encostado numa grande pedra, Ângelo foi puxado pelo braço, pelos bandidos”, sendo sangrado atrás da pedra.

Nesse local tombou Manuel Neto com as pernas varadas a bala. Lampião teria gritado:
- Perdeu a fama hoje, Cachorro Azedo!
Ali perto caiu gravemente ferido o soldado Vicente Ferreira de Lima (Vicente Grande). A pesada chuva de balas fez a força recuar, deixando no local mortos e feridos. Descendo a serra, Raimundo Barbosa Nogueira lembrou-se de que Manuel Neto ficara ferido, à mercê de Lampião. Voltou e encontrou o bravo cabo brigando e falando para Lampião e seu bando.

“Logo Raimundo viu o mosquetão de Manuel Neto silenciar. Verificou o motivo: tinha dado uma vertigem”. No momento, perdeu as esperanças de salvação do amigo. Contudo, como um verdadeiro herói, enfrentava a dura batalha. “Momentos depois Raimundo foi surpreendido com o mosquetão de Manuel Neto vomitando fogo e ele, Manuel Neto, animadamente falando para os inimigos.”

Raimundo pediu que o parente procurasse descer a serra. Ele daria cobertura. Não podendo andar, o cabo rolou de serra a baixo, encontrando-se, na descida, com os primos Antônio Capistrano e Euclides Flor que, bravamente, enfrentavam desesperadamente os bandidos. Raimundo ainda voltou ao alto da serra para ajudar Vicente Grande. Conseguiu fazer descer o soldado que, com o intestino nas mãos, conseguiu escapar.

O tiroteio continuou ensurdecedor. Os cangaceiros, em situação privilegiada, castigavam as forças, que viam seus homens tombarem. Arlindo Rocha, que queria almoçar bala, almoçou: foi gravemente atingido no rosto, tendo o maxilar quebrado.

Lampião “incentivava os companheiros, a fim de não amortecerem o fogo contra os atacantes. Os soldados, desesperados e cansados, temiam sucumbir.” As forças reconheceram o alto valor estratégico do bando.

Muitas armas ficaram no campo de luta. Cenas dramáticas se desenrolaram. O efeito psicológico do tiroteio foi tremendo. Às 17 h 45 minutos, depois de 10 horas de duro combate, o comandante, conformado com a derrota, ordenou cessar fogo e bater em retirada. Estava terminado o maior tiroteio travado contra Lampião, em Pernambuco. Onze mortos foram sepultados pelo sargento Domingos Gomes de Souza. Diversos soldados saíram gravemente feridos. Lampião, por sua vez, não perdeu nenhum homem.

De Floresta, entre muitos outros, também tomou parte nesse combate o soldado Manoel Polmata (pai de Celina, Barto e de outros e que faleceu em julho de 1983).

Marilourdes Ferraz diz que, nesse tiroteio, Antônio Ferreira teria sido atingido, vindo a falecer. Outros autores, entretanto, preferem a versão de sucesso: fora atingido por um tiro disparado por Luís Pedro, na fazenda Poço do Ferro (Floresta), quando brincava com o companheiro.

 Coronel
Lampião deixa Pernambuco

Foi no quadriênio 1922-1926 que se verificou a recrudescência assustadora do banditismo no Sertão pernambucano. O governador Sérgio Loreto, já em 1924, cancelou uma viagem que faria ao Sertão “por não poder garanti-lo a Força Pública”, diz Frederico Pernambucano de Mello (A Tragédia dos Blindados, p. 69). O grupo de Lampião se multiplicou notadamente nesse período de Loreto: subiu dos habituais 30 homens para cerca de 120, “em clara indicação de ter estado à vontade o banditismo no período”. E é nesse clima que Estácio Coimbra, eleito em 1926, assume no ano seguinte o governo do Estado. Convida o Dr. Eurico de Souza Leão para a chefia da Polícia e este assume “com carta branca, fidelidade apenas ao compromisso de resultados”.

No Comando Geral das Forças Volantes, o major Theóphanes Ferraz Torres. “No Sertão, o esforço por vezes arbitrário se volta sabiamente contra os protetores dos bandidos, contra os coiteiros do cangaço”, esclarece Pernambucano de Mello (obra citada, p. 75). A perseguição aos cangaceiros começava a se tornar mais efetiva.

Em 1927, um dos redutos de difícil acesso dos bandidos - a serra Umã - foi invadida por Manuel de Souza Neto, já no posto de sargento. Antes dele, somente Theóphanes, em 1917, ousara incursionar na região. A partir de então os bandidos reforçaram a vigilância, evitando novos ataques da polícia. Conhecedor da situação, Manuel Neto, à noite, deixou uma parte dos companheiros na base de elevação e, acompanhado de nove homens, penetrou nas casas suspeitas, aprisionando e amarrando alguns facínoras. Prendeu, nessa ocasião, Bispo dos Anjos, filho de Miguel dos Anjos, este célebre bandido e que era o seu principal alvo, mas que não foi encontrado.

Diz Marilourdes Ferraz que, mais tarde, “Manuel Neto, aproveitando a escuridão, efetuou outro ataque ao reduto, acompanhado por seu irmão Afonso e os soldados João Pedro, Benedito Severo e João Roque, conseguindo repelir a resistência e ocasionando várias mortes na facção dos bandidos”. Esclarece João Gomes de Lira (obra cit., p. 397) que aí foram eliminados os cangaceiros Barra Nova e João Marreca.

A perseguição a Lampião continuava. Vendo o bando se reduzir a cada dia, o cangaceiro viu-se obrigado a evitar qualquer confronto com as volantes. E no dia 21 de agosto de 1928 deixou Pernambuco, atravessando o rio São Francisco. Ao seu lado, apenas o irmão Ezequiel, o cunhado Virgínio (Moderno), Luís Pedro, Mariano e Mergulhão.

Billy Chandler (obra cit., p. 127) diz que “a polícia de Pernambuco não tencionava deixar Lampião descansar, e Manuel Neto e seus nazarenos descobriram sua pista logo depois que atravessou o São Francisco e o seguiram...”

Chegando à fazenda do “coronel” Petronilo Reis, Manuel Neto exigiu do vaqueiro que lhe mostrasse onde estava Lampião. O vaqueiro se recusou e foi surrado. “Depois da surra, entretanto, concordou em levá-los até Bonfim, onde chegaram no dia 26 de agosto”. Houve pequeno tiroteio e os cangaceiros fugiram.

Chegando à Bahia, Lampião mudou sua tática. Passou a distribuir dinheiro, era bondoso e pacato, procurando mostrar-se um indivíduo injustiçado. Dizia que fora à Bahia apenas para descansar e não tinha intenção de fazer mal a ninguém. Essa sua inatividade, aliada a incidentes como a surra dada no vaqueiro de Petronilo, levaram as autoridades baianas a pedirem ao governo pernambucano a retirada de suas volantes. E Manuel Neto teve de voltar a sua terra, continuando ali sua carreira militar.

Outubro de 1930: o testemunho de Gilberto Freyre

Vamos encontrar Manuel Neto, em 1930, como ajudante de ordens do Governador Estácio Coimbra e no posto de 2º tenente. Seu empenho e seu valor no combate ao banditismo, sua extrema coragem, sua lealdade ao governo o credenciaram àquela posição.

Nos conturbados dias de outubro daquele ano, portou-se como verdadeiro herói, resistindo até o último momento contra as forças que procuravam depor, em Pernambuco, o Governador Estácio Coimbra. Manuel Neto não pôde ficar indiferente ao governo que dera aos nazarenos o amparo necessário à defesa do seu povoado, que tanto fora ameaçado pelo facinoroso Virgulino Ferreira. Postou sua força da ponte Santa Isabel à ponte da Boa Vista, fazendo fogo para a rua da Aurora, onde se encontravam os revoltosos.

Gilberto Freyre, em depoimento de 1972, por ocasião do centenário de Estácio Coimbra (v. Frederico Pernambucano de Mello, obra cit., p. 32), diz que tentava-se, na Revolução de 1930, ridicularizar a resistência, que foi entretanto brava. “O Palácio do governo, onde permaneceram, desde as primeiras violências nas ruas do Recife, o Governador e vários dos seus auxiliares, tinha uma defesa constituída por um grupo de bravos, que respondiam aos tiros vindos das ruas da Aurora e Santo Amaro, da própria ponte de Santa Isabel, a peito descoberto. Vários pereceram aí e no ataque ao depósito de munições da Soledade...”

E acrescentou: - “Vi o que é ter gente simples a mística coragem de enfrentar a morte como um toureiro espanhol ao touro numa arena de Madri: sorrindo e até bailando. Lembro-me, sobretudo, do então tenente Manuel Neto. Não creio que um homem possa ser mais bravo do que foi, nesses momentos que se prolongaram da noite por todo um dia, até a noite seguinte, esse admirável Manuel Neto. Vi-o em ação. Manuel Neto saltava, dançava, bailava, gritava ao dar seus tiros.
Era o bravo do tipo dionísico.”

Enquanto a força lutava deitada, ao abrigo dos tiros, Manuel Neto causava admiração a quem o via de pé, “fazendo dos seus movimentos um “balet” de bravura. Dançava repelindo os tiros e atirando”, testemunhou Gilberto Freyre.

Estácio Coimbra, atendendo a um pedido do Comandante do Exército - que desejava se instalar no Palácio para, dali, repelir o ataque que vinha da Paraíba -, deixou o Palácio acompanhado de Gilberto Freyre e de outros auxiliares imediatos. Dirigiu-se ao edifício das Docas e, dali, seguiu para Tamandaré, “onde pretendia instalar o governo e esperar o prometido reforço federal, que deveria chegar do Sul.”

Sentindo alguma coisa no ar, Manuel Neto foi ao Palácio, sendo informado que Estácio Coimbra deixara o local e que se dirigira a Tamandaré. “Sem demora” - conta João Lira (obra citada, p. 450) -, “o tenente Manuel Neto pegou um carro e seguiu ao encontro do governador. Por ser o carro do Palácio muito conhecido, em todas as ruas que passava, era fortemente alvejado pelos inimigos do governo”. Alcançou o governador em Tamandaré.

O reforço esperado não chegou e Estácio Coimbra decidiu seguir para a Bahia, sendo acompanhado pelo ajudante de ordens que deixava, talvez sem o saber, o irmão, sargento Afonso de Sá Nogueira, morto em combate contra os revoltosos que desciam da Paraíba. Da Bahia o governador seguiu para o exílio. Neto decidiu ficar no Brasil. Pediu a Estácio algumas cartas, recomendando-o a amigos e parentes no Rio de Janeiro, para onde seguiu. Ali chegando, foi preso.
“Os estudantes davam viva à Revolução e pediam, exigiam das autoridades que lhes entregassem Manuel Neto para matá-lo em praça pública”, conta João Lira.

Ainda em outubro de 1930, grande contingente policial foi deslocado do Sertão para a capital. Aproveitando a oportunidade, Lampião resolveu visitar Pernambuco, depois de uma longa ausência. Atravessou o São Francisco e entrou no município de Floresta. Matou o ex-cabo Aureliano e, a 26 de novembro, capturou Macário Gomes de Sá (v. GS, Tn 224), libertando-o depois de receber a importância exigida e que fora cedida por Sérgio Gomes Correia (Yoyô), da fazenda Tigre. A permanência do cangaceiro no território pernambucano, entretanto, foi rápida. Logo voltou ao eixo Bahia-Sergipe.

Àquela altura, as forças do Nordeste levantaram-se contra a prisão de Manuel Neto. Saíram em defesa do homem de tantas e encarniçadas batalhas contra o banditismo no Sertão. Libertado, Manuel Neto voltou a Pernambuco, tomando conhecimento de sua exclusão da Polícia Militar. Também eram afastados diversos parentes, inclusive Euclides de Souza Ferraz, Hercílio de Souza Nogueira e Aureliano de Souza Nogueira. Resolveu voltar a Nazaré, onde a situação não era das melhores. Muniz de Farias, não se sabendo onde, achara alguma coragem e, tomando parte ativa na Revolução, tornara-se um dos seus festejados heróis; dono da situação, assumiu o Comando da Força Pública e resolveu insurgir-se contra os nazarenos, tramando-lhes o desarmamento.

“Higino, Arlindo Rocha e outros oficiais negaram-se a desarmar Nazaré, solidários com os nazarenos.”

Manuel Neto tomou nas mãos a reação do povoado e de sua gente. Buscou ajuda e esta lhe chegou sem demora. De “toda parte chegava solidariedade para os nazarenos”, conta, em detalhes, João Lira (obra citada, p. 472). Nazaré “era inimiga de Lampião e não podia ficar desarmada: preferiam brigar armados contra o governo, mas não ficariam desarmados contra Lampião”. Essa a posição de Manuel Neto e de seus parentes.

Na noite de 20 de março de 1931, Manuel Neto traçou os planos: não entregariam as armas e enfrentariam o governo até o último homem. Ficaria “com cem homens em Pernambuco” e Euclides, Odilon Flor, Hercílio, Lero, Arconso e Antônio Capistrano, “cada um assumiria o comando de cem homens. Rumariam para os Estados da Paraíba, Ceará, Alagoas, Bahia e Sergipe.” Com a intermediação do padre Urbano Carvalho, chegou-se, entretanto, a um acordo. Continuou o povoado armado, pronto a rebater qualquer ataque de Virgulino Ferreira.

O capitão José Émerson Benjamim, que representava o governo, resolveu inclusive pedir a reinclusão de Manuel Neto e de outros nazarenos na Polícia do Estado. A 27 de abril de 1931, Neto voltou às fileiras da Polícia Militar, no posto de 2º sargento. Relutara em aceitar, pois fora afastado como 2º tenente. O capitão, entretanto, garantira-lhe que, se assumisse, dentro de um mês conseguiria sua promoção ao antigo posto.

De frente com Corisco

A 13 de julho de 1931, o tenente Manuel Neto levou a Vila Bela, para inclusão ou alistamento, os seus amigos e parentes nazarenos, muitos deles quase crianças. E foi claro: “se fosse rejeitado um daqueles meninos, seriam todos”. Estava ali formada a volante dos nazarenos que, pouco depois, seguiria para a Bahia, onde o governo se via sem forças para combater Lampião, que voltara a cometer suas costumeiras selvajarias, e pedira a presença dos pernambucanos.

Para atender ao pedido do governo baiano, foi designado o tenente Manuel Neto, que escolheu sua própria força: auxiliares imediatos, sargentos David Gomes Jurubeba e Tibúrcio Soares da Rocha; cabo José Soares de Lima Filho; soldados Pedro Gomes de Lira, Antônio Capistrano de Souza, Vicente Ferreira de Lima (Vicente Grande), Cícero Freire da Silva, Antônio Valério de Olinda, José Leite de Sá, Alexandre Domingos de Souza (Dudu), Enoque de Sá Menezes, Arconso de Souza Ferraz, Vicentino Ferreira, José Vila Bela; recrutas Augusto Leite de Sá, Antônio Cipriano de Souza, Armando Cipriano de Souza, Afonso Virgulino de Sá, Francisco Marcionilo de Sá, Otacílio Gomes de Sá, Miguel de Sá Nogueira, Herculano de Souza Nogueira, Henrique Gregório de Souza, Manoel Capistrano de Souza, José Domingos Neto, Ancilon José da Silva, Manoel Cosme dos Santos, Olímpio Valões, Arlindo Pereira de Souza, Aflaudísio Nunes de Carvalho, José Antônio dos Santos, Pedro Antônio dos Santos, José Pedro de Souza, Augustinho Ferreira (Augustinho Preto), Augustinho Ferreira (Augustinho Doido), Elias Martins dos Santos, Pedro Barros (Vereda), Francisco Jerônimo (Gavião), Luís Rodrigues (Dudu), José Dartinha, Antônio Benedito da Silva, Nestor Domingos de Souza (paraibano), Manoel Florentino de Souza e João Gomes de Lira. Esses homens seguiram de Vila Bela no dia 28 de julho de 1931, entrando na Bahia no dia 3 de agosto. Iriam enfrentar em campo estranho o famigerado Lampião que, havia três anos, infernizava aquela região.

O serviço de informações do bandido funcionava com perfeição. Mal a força atravessou o rio, já Lampião tinha conhecimento e armava a primeira emboscada numa ponta da serra do Padre. Ali esperou de um dia para o outro a força que, passando por outro local, escapou.

Um mês depois, aos 6 de setembro, os policiais travaram na fazenda Aroeiras, município de Santo Antônio da Glória, um tiroteio com o grupo de cangaceiros. O ataque partira dos bandidos, havendo reação da tropa. Manuel Neto deu as ordens e, com um pelotão de 15 homens, avançou correndo ao encontro dos celerados que fugiram.

João Gomes de Lira, que viu de perto as ações de Manuel Neto, dizia que ele, “quando avançava, não olhava para os lados, misturava-se logo, fosse com quem fosse”. Assim ocorreu naquele dia. Num dado momento, Manuel Neto seguia acompanhado pelo soldado Vicente Grande. De repente, este gritou:
- “Olha os bandidos, tenente.”
- “Cadê?, Vicente”.
Vicente não respondeu e atirou. Os bandidos já estavam muito perto.

Logo Manuel Neto topou-se com Corisco, que vinha por dentro de um riacho. “As primeiras palavras do cangaceiro Corisco foi perguntar de onde era aquela força. Neto respondeu:”
 - É de Pernambuco.
 - Quem é o comandante?
 - É o tenente Manuel Neto -, disse o nazareno.
 -“Te prepara para correr, tenente fio da puta!”
O tenente que, mesmo sem provocação, não enjeitava parada, reagiu rápido. Saltou dentro do riacho e ficou frente-a-frente com o Diabo Louro. Atirou e pulou, avançando sobre Corisco. O cangaceiro recuou.
 - Veja, bandido, quem é o tenente Manuel Neto! Não corra. Espere para brigar. Aqui é a força de Pernambuco. É Manuel Neto com sua força de meninos.
Àquela altura, David Jurubeba atacava o bando pela retaguarda. Lampião sentiu o poder de fogo e a disposição da força e disparou o seu parabelum. “Os bandidos fugiram de forma que ninguém viu para onde.”

Volante sob o comando do "cachorro azedo"

O combate de Maranduba

A perseguição continuou, enfrentando a força de Manuel Neto as mais difíceis privações, passando muita fome e sede. Ao final do ano, na segunda quinzena de dezembro de 1931, a volante voltou a Jatobá (Petrolândia) para ali passar as festas de final de ano. “Para entrar na localidade, foi preciso” esperar o “anoitecer, isto porque a força vinha quase despida.”

Passadas as festas e refeitos, logo no início de janeiro Manuel Neto partiu à procura dos cangaceiros. Tomara conhecimento de que o grupo se encontrava na vila de Canindé (SE), “ferrando moças”. Requisitou o trem e seguiu para Piranhas. Atravessou o rio e entrou no território de Sergipe, indo dormir na sexta-feira, dia 8 de janeiro (1932), já perto dos cangaceiros.

No dia seguinte continuaram rastejando, aproximando-se cada vez mais dos bandidos. Na vanguarda, o destacamento de Manuel Neto e, mais atrás, os homens sob o comando do tenente do Exército Liberato de Carvalho, na ocasião com o comando geral das forças.

Seguiam na frente os sargentos João Cavalcanti e Hercílio de Souza Nogueira. O primeiro, por volta das 16 horas, avistou os cangaceiros. Pediu a Hercílio que não atirasse; esperasse a força encostar. Assim o ataque surtiria maior efeito. O bando estava bem posicionado, num local estratégico, nas proximidades da fazenda Maranduba.

Impetuoso, Hercílio respondeu que não esperaria por ninguém. Cada qual fizesse o que pudesse. Convidou o companheiro a ver quem avançava mais. Abriu fogo e partiu para cima dos bandidos que, de imediato, reagiram, disparando e avançando contra os dois sargentos e os companheiros que os seguiam. Já próximo do acampamento dos bandidos, Hercílio foi atingido e caiu.
 - Vala-me, Nossa Senhora. Logo na cabeça...” -, teriam sido suas últimas palavras.

Ao seu lado tombou João Cavalcanti, ou João de Anísia, como era conhecido (Cavalcanti era, por sinal, primo do célebre Horácio Cavalcanti de Albuquerque). Tomando conhecimento da morte de Hercílio, Adalgiso, de apenas 15 anos de idade, abandonou o comando do tenente Liberato e correu ao encontro do irmão. Foi atingido, tombando morto sobre o corpo de Hercílio.

Seguiu-se o mais terrível combate travado no eixo Bahia-Sergipe, envolvendo as forças conjuntas e o bando de Lampião. Esclarece Billy Chandler (obra citada, p. 183) que, “embora o número de soldados ultrapassasse o dos cangaceiros na proporção de três para um (aproximadamente 100 soldados para 32 cangaceiros), foram eles quem mais sofreram”. O bando tinha bastante munição e a polícia não conseguiu boa posição para o ataque. “Liberato, em vez de flanquear os cangaceiros, imprudentemente tentou atirar por cima das cabeças de seus colegas pernambucanos. Em duas horas de combate, as perdas da polícia, tanto infligidas pelos cangaceiros como por seus próprios colegas, foram inúmeras. Pelo menos cinco soldados morreram na cena do combate; entre os doze ou mais feridos, diversos morreram mais tarde, a maior parte por falta de cuidados médicos.”

De Nazaré, caiu morto também Antônio Benedito da Silva. E os cangaceiros, aparentemente, perderam quatro homens, dois dos quais no local da luta. “Contam que havia um outro tão ferido que Lampião, diante do seu sofrimento, matou-o a tiros.”

João Lira (obra citada, p. 512) diz que Manuel Neto, mais tarde, lhe confidenciaria que “nunca tinha visto tanta bala como viu ali”, num “fogo cerrado de ambas as partes, misturados, sem haver recuo”, lutando-se por duas ou três horas com bandidos alcoolizados.

Comandante e delegado

A perseguição a Lampião não cessou. Manuel Neto continuou enfrentando os cangaceiros, destacando-se nos tiroteios da Baixa da Moça, Serra da Canabrava, Serra do Bobodó e do Ninho, e em Caldeirão (22.04.1932), aqui ao lado do tenente Abdon Menezes. Isso no eixo Bahia-Sergipe.

Chandler (obra citada, p. 191) diz que, em 1932, os sertanejos baianos viviam aflitos com a presença dos bandidos e, muito mais, com a da polícia. E, de todas as volantes, os nazarenos, “sob o comando de Manuel Neto, eram os mais temidos. Perseguindo Lampião com um zelo fanático, empregavam qualquer método para obter informações”. E, à página 57: “Durante toda a sua carreira, Lampião encontrou poucas pessoas que se empenharam tanto a persegui-lo como esse grupo. Muitas vezes, outros o perseguiram de longe, temendo por suas vidas, enquanto outros podiam ser subornados. Mas os nazarenos, não. Caçaram-no em Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Ceará, e quando, anos mais tarde, ele mudou seu centro de operações para Bahia e Sergipe, foram atrás dele lá”.

Em 1933, Manuel Neto distribuiu armas e munições com alguns fazendeiros e colocou pequenos destacamentos nos locais mais sujeitos aos ataques dos cangaceiros que, vindos da Bahia, “realizavam sanguinárias incursões em Pernambuco”.

Ainda como tenente, foi Comandante das Forças em Operação no Interior do Estado (PE), sendo então obrigado, devido à alta posição de comandante, a afastar-se do confronto direto com os bandidos. Entretanto, ainda haveria de enfrentá-los, como o fez em Porteiras, no município de Floresta, em 1935. Com o levante comunista daquele ano, o tenente instruiu seus comandados, fazendo-os voltar à sede das volantes para dali, sob seu comando, seguirem para o Recife a fim de dar combate aos comunistas e sufocar o movimento armado que eclodira.

A sua ação, sempre incisiva, ensejara-lhe a promoção a capitão, o que se verificou aos 3 de janeiro de 1936. E, aos 27 de fevereiro, recolheu-se das Forças em Operação no Interior do Estado, passando a prestar serviços na capital. Virgulino e seu bando fixara-se no eixo Bahia-Sergipe e diminuíra suas incursões em Pernambuco. Mesmo assim, Manuel Neto ainda continuou a realizar missões no interior, trabalhando de uma forma intensa e desgastante. Enfim, em dezembro de 1936, entrou em gozo de férias, benefício que não obtivera nos anos de 1929, 1930, 1932, 1934 e 1935, o que, por si só, demonstra o empenho do nazareno no combate ao banditismo.

Na capital pernambucana, comandou a 3ª, 2ª e 1ª Companhia do 1º Batalhão, assumindo interinamente por diversas vezes as funções de subcomandante daquele Batalhão. Ficou à frente do Esquadrão de Cavalaria de dezembro de 1938 a junho de 1940. Nesse período, foi louvado “pelo esforço e dedicação demonstrados durante a extinção do grande incêndio verificado num dos tanques da Standard Oil Company of Brazil”, ocasião em que se postou sempre ao lado do comandante Geral, “auxiliando em tudo que era possível, transmitindo ordens e colaborando para a manutenção da ordem pública”.

Mais tarde, ao deixar o Comando da Força, o C.el Rogaciano agradeceu ao capitão Manuel Neto, louvando-lhe o “contingente de esforço dado a sua interinidade no Comando da Força.”
 
O último grupo de cangaceiros, o de Corisco, foi desbaratado naquele ano de 1940. Chegava ao fim uma luta em que os nazarenos se engajaram desde o princípio, e que levara à morte mais de quinze filhos do povoado e daquela região. Olhando para o primo Manuel Neto, Manoel Flor “achava espantoso que esse homem, ainda com balas no corpo e com tantas cicatrizes, tivesse sobrevivido”.

Manuel Neto, “espigado, de falar macio e andar cauteloso de gato do mato, cujo nome varava o Sertão como uma legenda de bravura” (Luís Cristóvão dos Santos, J. do Commércio - 02.12.82), participara de 35 combates e foi, sem dúvida, o maior perseguidor de Lampião. A sua atuação contra os bandidos deu-lhe oportunidade de mostrar qualidades nas missões mais difíceis, sempre a ele confiadas. “Sua peregrinação pelos sertões foi longa e vitoriosa”.

Lampião temia a sua volante: disciplinada, corajosa e guerreira. Quando avançava sobre os bandidos, não media sacrifícios, o que fazia Virgulino dizer que preferia brigar com ele, Manuel Neto, a brigar com Euclides Flor. E explicava: Euclides, além de valente, era cauteloso e hábil estrategista, procurava sempre deixar a salvo os seus companheiros e comandados. Manuel Neto “era doido”, costumava dizer Lampião. Partia para cima dos cangaceiros “feito cachorro azedo”, o que de certa forma facilitava a reação dos bandidos.

O bravo nazareno parecia desconhecer o significado da palavra medo. Parecia, apenas, pois poucos tinham, como ele, tanto medo... de alma! Tinha verdadeiro pavor pelas coisas do outro mundo.

Deixando, em 1940, o Comando do Esquadrão de Cavalaria, o capitão Manuel Neto voltou a comandar a 1ª Companhia, assumindo depois o cargo de Subcomandante Interino do 2º Batalhão, onde foi elogiado pelo comandante que realçou a “dedicação ao trabalho, o empenho em serviço, o amor à disciplina, traduzidos nas diversas modalidades e ainda mais no acatamento ao chefe; o dom da iniciativa e o espírito de corporação”.

A 19 de fevereiro de 1943, foi nomeado Delegado Regional da 11ª Zona Policial, com sede em Ouricuri. Ali permaneceu até o mês de setembro do mesmo ano. Voltou à capital e assumiu o Comando da 2ª Companhia e, no ano seguinte, novamente o Esquadrão de Cavalaria.

Aos 14 de dezembro de 1944, foi nomeado Delegado Regional da 8ª Região Policial, com sede em Sertânia, onde permaneceria até fevereiro de 1946. Nesse cargo, em março de 1945, recebeu elogio do C.el José Arnaldo: “Oficial de muito boa vontade. Rigoroso no cumprimento do dever”.

Em Sertânia, levaria um grande susto: no dia 5 ou 6 de junho de 1945, ao se dirigir a um preso, foi por ele alvejado no abdômen, tendo sido levado em estado grave para a cidade de Pesqueira, onde foi operado e passou a receber todos os cuidados médicos, restabelecendo-se, finalmente. Sete meses depois, foi promovido a major, por merecimento. Mas, em ato posterior, o Interventor Federal considerou sua promoção “por antigüidade.”

Em agosto de 1946, assumiu a Chefia da Assistência do Material e, mais uma vez, recebeu referências elogiosas: “Também é de justiça elogiar o major Manuel de Souza Neto, que vem de ser designado para a Chefia da Assistência do Material, pela dedicação em que se houve no exercício do comando do 3º B.C.. É o que faço com satisfação.”

E logo em setembro do mesmo ano, foi “louvado pelo esforço, dedicação e amor à Corporação, manifestado por ocasião dos treinamentos para a parada de 7 de setembro, concorrendo para o brilhantismo alcançado pela Força Policial de Pernambuco, pelo garbo, marcialidade e disciplina com que se apresentaram seus elementos em público.”

Ao final de 1947, entrou numa fase difícil de sua vida, afastando-se do trabalho por um ano, para tratamento de saúde. Em novembro de 1948, foi operado e desligado do serviço por mais um ano. Finalmente, aos 27 de outubro de 1949, foi transferido, a pedido, para o Quadro Suplementar.

Prefeito

Na década de 1950, com o apoio do líder político João Inocêncio, o coronel Manuel Neto foi eleito prefeito de Ibimirim, passando a fazer uma administração responsável. Deixando a prefeitura, passou a viver exclusivamente de sua aposentadoria. Nasceu pobre e morreu pobre, nada deixando para a família.

Calado, introspectivo, não deixava transparecer o homem valente que era. Dificilmente falava sobre suas lutas contra o banditismo. Achava que isso poderia influenciar ou estimular negativamente os jovens.

Com a avançada idade de 78 anos, faleceu às 7 horas e 45 minutos do dia 3 de novembro de 1979, no Hospital da Polícia Militar, no Derby (Recife). Seu corpo foi levado para sua terra natal, sendo sepultado no cemitério de Nazaré.

Mausoléu de Manoel NetoFoto: Kiko Monteiro

Morreu solteiro. “Quando se perguntava por que não casava, respondia que era um homem de intrigas e que vivia sujeito” a ser morto “a qualquer momento”. E assim fugia ao casamento. Mas deixou pelo menos dois filhos com Otacília Gomes de Sá:

1º - Margarida Siqueira Campos - Casada, deixa oito filhos.

2º - Manoel Gomes de Souza - Casou-se com Josefa Ester de Araújo. Deixa onze filhos: Maria Cícera Araújo Souza Marques (casada com Rinaldo Leite Marques de Sá, é a mãe de Raniere, de Krausia e de Rinaldo Júnior), João Gomes de Araújo, Sandra Araújo Souza Torres, Olga Maria Gomes Araújo Pires (mãe de Washington e de Letícia), Margarida Gomes Araújo, Filomena Gomes de Araújo, Carlos Vital Gomes de Souza, José Gomes Araújo, Francisca Araújo Gomes Nunes, Emílio Gomes de Souza e Maria das Dores Araújo Souza.

 Coronel Manoel Neto e o escritor Fernando Portela em 1973.
(Foto de Josenildo Tenório)

Capítulo de seu livro "Floresta uma Terra - um Povo", Recife, 1996, editora: Fiam.
* As imagens não fazem parte da citada obra, foram inseridas por nós para ilustrar o artigo.