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sexta-feira, 15 de março de 2013

Documentário

Cangaço, Sangue e Glória - Conflitos e Contradições

Documentário que resgata a história do fenômeno cangaço e do mito Lampião. Depoimentos de pesquisadores e pessoas que participaram desse período tão importante para história do Nordeste e do Brasil.

Autores: Hermes Pena, Amilton Leandro e Diana Vasconcelos.



Pescado na página do YouTube de k060879h

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Prazer em conhecer:

Lampião Aceso entrevistou Paulo Gastão

Quem é Paulo Medeiros Gastão? Eu vos digo que é um ilustre pernambucano de Triunfo da Baixa Verde. Nasceu naquele histórico 1938, quatro meses depois do desaparecimento daquele seu vizinho de cidade, cuja existência viria a ser uma de suas obsessões. 


Hoje um cidadão Mossoroense. Fundador da SBEC - Sociedade brasileira de estudos do cangaço; enviado especial da Laser Vídeo a diversos cenários da saga lampiônica. Membro fundador da Fundação Vingt- un Rosado, da Academia Mossoroense de Letras. Sócio do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP), ex- professor da Universidade Regional do Rio Grande do Norte e da Escola de Agricultura de Mossoró (RN). 


Desfila pelo Brasil profundo mesmo agora com o charme dos seus 72 anos (Há quem diga que seja um tiquinho a mais, talvez emparelhado com o próprio Lampa) mas conservando um corpinho de 50.


Daqui pra frente ele mesmo se encarrega. Eu não considero o termo entrevista... Apresentamos o "Método Paulo Gastão do cangaceirólogo moderno" 

Como se dá sua entrada no cangaço?
- Comecei a conhecer a ambientação em companhia do meu pai, que vendia seus produtos em caminhão próprio. Suas atividades estavam resumidas aos sertões de Pernambuco, Paraíba e sul do Ceará. Assim fui sendo apresentado a inúmeras pessoas que na década de 50 (século XX), que participaram direta e/ou indiretamente do movimento cangaceiro. Conheci muitas vilas que hoje são cidades com seus respectivos nomes de outrora. Ex.: Rio Branco = Arcoverde; Alagoa de Baixo = Sertânia: Vila Bela = Serra Talhada; Queixada = Mirandiba; Patos de Princesa = Irerê; Patos de Espinhara = Patos; Pajeú de Flores = Flores; Placas = Cruzeiro do Nordeste e muitas outras localidades. E assim começaram meus estudos da geografia nordestina e cangaceira.

Do ponto de vista da leitura, consegui numa livraria da Rua da Aurora com Rua da Imperatriz na cidade do Recife ‘O mundo estranho dos cangaceiros’ de Estácio de Lima. Isto foi lá pelos idos de 1970. Em período anterior sob orientação dos meus professores, todos de origem européia, minhas leituras eram dirigidas para escritores do velho mundo, e na qualidade de religiosos, procuravam afastar os autores da União Soviética, não sabendo eles da força, vigor dos contistas e romancistas russos. Hoje, concluo que cheguei atrasado para pegar a Maria Fumaça que me levaria aos sertões, mas, ainda cheguei a tempo. Todo e qualquer tempo para se degustar uma boa leitura, é tempo ideal, independente inclusive da faixa etária. O crescimento em busca de novos relatos ocorreu em progressão geométrica, me tornando verdadeira ‘traça’ de livros. Mas, tive como ponto de partida a Zona da Mata ou litoral onde tomei conhecimento da obra de José Lins do Rego com Menino de Engenho, Moleque Ricardo, Banguê e Usina que compõem o ciclo da cana de açúcar. Depois vieram outras obras deste e de outros autores.

Então apresente suas crias.
- As lançadas são: Contribuição a uma Bibliografia do Cangaço – 1845-1996. 1996; Carta a Almeida Barreto (notas e comentários), 1999; Quem é Quem no Cangaço – Dicionário dos escritores do cangaço, 2002; Na Rota dos Coronéis, Cangaceiros e Beatos, 2005; Viagem ao São Francisco – do Litoral ao Sertão, 2006; Seriema – Ave em extinção, 2010.



Qual o Filho predileto?
- O que me levou a trabalhar com bibliografia sobre o cangaço foi o fato de os pesquisadores não tinham onde buscar as referências necessárias ao bom andamento das suas pesquisas. Surgiu então o título – Contribuição a uma bibliografia do cangaço – 1845 – 1996. Espero que a cooperação tenha sido de real utilidade.

Livro de outro autor. Por que?
- Pergunta muito delicada e que merece uma análise, mesmo que sucinta. Temos que levar em consideração a época em que viveu o escritor; das nuances descritas, se de caráter geral ou trabalho referente à sua região de origem; no que diz respeito ao conteúdo, se retrata a parte civil ou militar; se simples entrevista ou analítico propriamente dito; se específico ou complementar de outro assunto correlato; se por experiência vivida ou por ocasião de pesquisa de campo; tese de mestrado ou doutorado; etc. Afinal minha escolha recai para Aglae Lima de Oliveira e seu memorável ‘Lampião, Cangaço e Nordeste’.

Seu trabalho é feito numa época onde cangaço não tinha nenhum valor cultural, educacional e poucos livros tinham sido escritos. Ela levantou uma bandeira e segurou, indo mostrar o nosso valor nas telas da TV no Rio de Janeiro. Um grande feito para a época. Éramos nós nordestinos muito provincianos em matéria de leitura, exceto nas grandes cidades e com poucos adeptos. Sertaneja conhecia as veredas do sertão e assim soube fazer um relato reconhecido até os dias atuais. Como mulher buscou se colocar ao lado de Raquel de Queiroz, desde que raras mulheres se apresentavam como escritoras, principalmente, em se tratando de assuntos vivenciados por este mundo nordestino que muitos ainda tratavam como os do ‘norte’.

Porém, não posso perder a feliz oportunidade de percorrer nas largas estradas construídas pelo Lampião aceso, sob o magistral comando de Kiko Monteiro e não mencionar um épico do cangaço, principalmente por ter conhecido e convivido com pessoas ligadas ‘Vingança – Não, obra sobre Chico Pereira.


Qual é o primeiro título recomendado para um calouro?
- Vários autores se dedicaram a um determinado personagem; a uma região (estado); a pequenos relatos, etc. Para se ter uma visão mais ampla do mundo cangaceiro, recomendo a obra do padre Frederico Bezerra Maciel, intitulada – Lampião, seu tempo e seu reinado, em 6 (seis) volumes (1985-1988); além de Carnaíba a Pérola do Pajeú - 1992. O autor se esmerou em situar o leitor ao meio ambiente da matéria descrita, quando elabora mapas elucidativos, sendo o único escritor que assim se portou. Leitura objetiva sem a condição acadêmica.

Com quantos e quais personagens desta história você teve contato?
- Não tenho número fixo que venha a determinar quantos personagens mantive contato. Tudo começou na minha infância/juventude pelo fato da ambientação em que nasci. Convivi com comerciantes, professores, médicos, militares, gente do povo que conheceram inúmeros cangaceiros, volantes, coiteiros e outros personagens significativos para com a história do cangaço. Aos nove anos de idade já conhecia a terra de Virgolino, de Antônio Silvino, de Félix da Mata Redonda onde eu ia caçar passarinho de baladeira, de Luiz Pedro do Retiro aonde ia aos engenhos daquela localidade tomar garapa ou adquirir a melhor porção de farinha fabricada no Nordeste.

Em segundo plano, já possuidor de conhecimentos históricos, fui registrando no meu caderno de anotações Senhor da Beleza, dona Especiosa (costureira de Lampião), Sila, Candeeiro, Maria de Juriti, Adília, Tenente João Gomes de Lira, Auricéia, Artur Ferreira (primo de Lampeão), Neco de Pautila, dona Mocinha (irmã de Lampeão), o coiteiro Pedro de Tercila e o sargento Elias que residiam em Olho d’Água do Casado, Estado de Alagoas, Vinte e Cinco, o comerciante Chiquinho Rodrigues, familiares de Jararaca – os irmãos Félix, Quitéria e outros; Silvio Bulhões, (filho de Corisco e Dadá) Dona Ermelinda, Tenente Pompeu, aos familiares de Luiz do Triangulo, Jardilina Pereira Nóbrega – Jarda (esposa de Chico Pereira e seus dois filhos Raimundo (engenheiro) e Pereira da Nóbrega (religioso), que escreveu o livro – Vingança, Não), e muitos outros personagens ligados direta ou indiretamente ao cangaço.





É uma lista rica em nomes e muito, muito extensa, trabalho de mais de 30 anos na estrada. E haja memória. Todos espalhados, inicialmente, pelas vilas de outrora, e na atualidade por uma geografia modificada pelo atrevimento dos políticos.



Sinto-me feliz em ter palmilhado os sertões de todos os estados nordestinos, onde o cangaço se fez presente, uns mais, outros menos, mas a todos visitei em busca de conhecer a história e em seguida informar o que havia tomado conhecimento. Conheci Paulo Afonso em 1955, tendo pousada oferecida pela CHESF aos seus visitantes, na famosa Casa de Hospedes. Até então era um conglomerado de casas para hoje se tornar uma cidade extremamente aconchegante e progressista.

A Paulo Afonso dos anos 50/60


Qual destes contatos foi, ou foram, os mais difíceis?
- Não existem contatos fáceis ou difíceis. O que na realidade existe é o pesquisador saber dar inicio a uma amizade e conservá-la indefinidamente. Por onde andei a conversa era sempre a mesma, em que o candidato a escritor ou jornalista prometia céus e terra e depois sucumbia e ninguém sabia do seu paradeiro.

É necessário saber chegar a essas pessoas e mais, saber que um dia se terá o caminho da volta. Na maioria das vezes as portas estão fechadas. Porém, tentei durante várias vezes, que representam vários anos, conhecer, que é diferente de entrevistar ou manter contato e que agora recordo da situação vivida frente ao amigo Vinte e Cinco. Foram muitos os caminhos para se chegar a esta figura séria, objetiva e sabedora do que deseja na vida. Duro, esclarecedor e exigente. Sincero e receptivo. Uma grande figura humana. Valeu a pena conhecê-lo. Poderia citar outros nomes, mas, este já me chega.

José Alves de Matos, o "Vinte e cinco".

Qual o contato que não foi possível e lhe deixou de certo modo frustrado?
- No querer descobrir novos nomes que participaram do cangaço sempre estava atento. A escassez aumentava a cada um que ia surgindo. Qualquer sinal de um novo personagem acionava meus amigos na busca do desejado. Mestre Alcino Costa é o responsável por descobrir, já no fim da vida, Maria de Juriti. Residia a mesma com a família em boa casa, numa rua afastada do centro da cidade ribeirinha de Canindé do São Francisco no estado de Sergipe. Tentei durante uma manhã arrancar uma palavra dessa senhora e tudo foi em vão. Ela me olhava de olho duro, me ouvindo pedir uma oportunidade de uma pequena conversa, desde que eu apresentava uma série de argumentos para convencê-la e terminei rodando meus 1.000 quilômetros para chegar em casa sem ter conseguido uma só palavra. Poderia ter conseguido um grande depoimento, mas, infelizmente a chance foi se dissipando a cada minuto. Morreu Maria de Juriti e as minhas esperanças.

Com qual remanescente gostaria de ter conversado?
- O melhor personagem para o momento teria sido aquele que não deu nenhuma entrevista ou a menor informação sobre o assunto. Este personagem elucidaria e muito os momentos mais críticos que hoje vivemos e não temos uma solução plausível. Não necessita ser homem ou mulher, soldado ou coronel, deputado ou cabeceiro, professor ou boiadeiro. A conversação que eu desejaria estaria atrelada aos subsídios que até hoje tem passado despercebidos. Foi criada uma sistemática de registro e a grande maioria simplesmente fez como rebanho de carneiro – onde um passa ou pula os outros vão atrás, com raríssimas exceções. As mudanças têm que ser criadas e adotadas para que a história tenha continuidade. Estilo papel carbono não dou valor!

Qual é o seu capítulo preferido?
- A vida nas caatingas tem que ser tratada com carinho e objetividade. Ler sobre os acontecimentos ocorridos naquelas plagas é simples, mas, para quem já viveu nos chamados ‘matos’ a diferença é brutal, inacreditável. Tive muitas oportunidades de viver nos sertões, principalmente, de Princesa Isabel e Patos de Irerê na Paraíba e Flores estado de Pernambuco. O banho de cuia, a latrina no mato, a rede em substituição a cama, a ausência de alimentos comuns das cidades, tais como: pão aguado, (na cidade denominado de francês), pão doce, bolachas de vários tipos e sabores, refrigerantes, macarrão e outros.

O café era tomado na roça tomando-se os frutos próprios da região, tais como: melancia, melão caetano - que cheira mais que qualquer perfume francês-, pinha, laranja, banana, goiaba e muitos outros. No almoço feijão de corda e carne assada; no jantar, a noite, cuscuz com leite de gado puro, angu preparado do milho com caça obtida durante o dia quando se cuidava dos animais, queijo de coalho assado preferencialmente ou queijo de manteiga. A manteiga era a tradicional manteiga de gado, nas cidades chamada manteiga de garrafa. Na época do “imbu” (Umbu) a noite se fazia uso da imbuzada e como sobremesa do almoço a saborosa geléia de imbu, maravilhosa.

Não podia faltar os banhos nos rios, riachos, açudes e lagoas. Cuidar da vacaria, enchiqueirar as miuças e encaminhar os bichos de pena para os seus respectivos poleiros. O feijão verde era debulhado em conversas sobre vaquejadas, cangaço, caçadas, cantorias e outros assuntos que são próprios dos diálogos dos sertanejos.

A ausência de luz elétrica nos levava as redes até as 8:00 horas para acordarmos com o galo cantando lá por volta das 5:00 horas da manhã. Os mais velhos contavam histórias fantásticas sobre os cangaceiros. Tornavam seus relatos cheios de momentos apavorantes tanto quanto dos monstros que viviam nos oceanos. Ninguém cochilava ou adormecia vivendo com intensidade o próprio retrato dos habitantes das caatingas.

A leitura do folheto de cordel era uma constante, pois sempre era adquirido quando se chegava a cidade em dias de feira.

 Nada de TV nem de cinema. 
As primeiras viagens de Paulo eram a bordo das setilhas, sextilhas, decassílabos... etc.


Não faltavam as história do rei Ricardo Coração de Leão e os Doze Pares de França e ainda era lido o Lunário Perpetuo, obra editada em Portugal, onde se buscava leitura aprazível para se conseguir condutas lá vividas e aqui adaptadas. Épocas de preparar a terra, plantar e colher eram muito bem apresentadas. Mostrava-se com muita pujança o poder dos astros e isto se coadunava com a filosofia de vida do sertanejo e seu misticismo próprio e não lapidado. Todas as noites após a janta nos dirigíamos a uma dependência da casa, chamada de camarinha, onde se encontrava vários santos, de madeira, protegidos em oratório e ali contritos rezávamos juntos homens e mulheres o terço, todos compenetrados e não se falhava uma noite sequer. A religiosidade do sertanejo é tão forte quanto o mesmo.

Viver diretamente com as comunidades sertanejas é um grande aprendizado e uma feliz oportunidade. Nenhum autor se debruçou na janela da caatinga para observar e descrever em profundidade a vida do povo sofredor nas garras dos cangaceiros e volantes. Ai reside um capítulo virgem de pesquisa objetiva e descritiva que só enobreceria a comunidade nordestina. O maior erro tem sido em se enaltecer a figura de Lampião, deixando-se ao largo o capítulo principal de toda a historiografia do cangaço – o POVO sertanejo. O povo está seguindo sua caminhada e Lampião dentro em breve será esquecido ou as descrições a seu respeito não deverão ter nenhum valor. O lado comercial reveste o personagem e o mesmo já se encontra engessado.

O conceito não é a história e sim o vil metal. Necessário se faz registrar que o cangaço ainda vive com seus últimos representantes que continuam contando fatos ocorridos ou não. O que irá ocorrer daqui a 50 anos?

Um cangaceiro (a)?

Vou preferir Sila para poder ter a oportunidade de fazer um pequeno, porém, importante relato. Sempre desconfiei que seu nome não era Hilda Ribeiro de Souza. Cheguei a dizer diretamente a ela – criatura, Hilda não é nome mulher que nasce nos brejos, nos sertões. Este nome é para as nascidas nas cidades. Combinando com o mestre Alcino Costa fomos desvendar o nome da cangaceira nascida no Poço Redondo. Após várias tentativas chegamos ao seu verdadeiro nome: Hermecilia Brás São Mateus. A terminação “cilia” nos leva a crer que ficou fácil ser a mesma identificada como Cila, que ela deixou em livro seu, escrito de próprio punho, como Sila. Grande figura humana e que terminou sendo a repórter responsável pelos fatos ocorridos no seu pouco tempo de cangaço. Mulher vitoriosa que conseguiu sobrepujar todas as adversidades. Figura impar no mundo cangaceiro.


Um volante?
- Vários foram os volantes que conheci durante minhas viagens de pesquisa. Minha escolha recai na pessoa de João Gomes de Lira. Amizade que já nasceu em Carnaíba de Flores, quando distrito de Flores, uma das cidades mais antigas no Nordeste. Na companhia de Manoel Gastão Cardoso, meu pai, tive a felicidade de conhecer a figura simples e humana de João Gomes de Lira. Meu pai de nós se despediu e ficamos amigos até os dias atuais. A continuidade tem o elo de ligação construído pelos dois amigos de outrora. Na última visita que fiz em 22 de março de 2011 o mesmo estava gozando de boa saúde e com a mesma disposição em nos contar os momentos vividos no cangaço à caça de Lampião. Como bom Nazareno se manteve integro na sua posição de homem de bem, de boa índole e cumpridor dos seus deveres. Foram 60 anos de boa convivência e que cessou com sua morte. Nesta amizade fui recordista sem concorrente. Já tomava conhecimento das ocorrências cangaceiras nos idos de 1950.

Amigo é coisa pra se guardar...  
Foto Kiko Monteiro 

Um coadjuvante?
Santo?
- Com o passar do tempo torna-se nome referencial José Leite de Santana – Jararaca. Cangaceiro que pouco tempo atuou nas veredas nordestinas, porém, deixou seu nome escrito a sangue a fogo em terras potiguares. De cangaceiro virou santo milagroso ou milagreiro. Tem sido estudado sob diversas ópticas, tais como: monografias, mestrados e doutorados. Mencionado em filmes e vídeos; peças de teatro; folhetos de cordel; na pintura e no artesanato. É um coadjuvante que classifico como o personagem mais importante que esteve em Mossoró no dia 13 de junho de 1927 e ainda hoje tem lugar de destaque, acima de tudo e de todos. Estou a estudar o personagem desde seu nascimento até os dias atuais.


 

Uma personagem secundária?
- Conheci um cidadão que fazia um relato e após anos até nas vírgulas, não mudava seu relato original. Viveu sua meninice com Virgolino e seus irmãos, caçando rolinhas, preás, mocós e habitando o mesmo chão de Vila Bela. Chamava-se Luiz de Cazuza. A ele só faltou uma coisa – ter enveredado pelo cangaço, pois, seus relatos sempre foram fiéis aos acontecimentos. Com o amigo Aderbal Nogueira fizemos várias visitas a sua casa na Fazenda São Miguel e numa das vezes fomos ofertados com uma entrevista, gravada em vídeo, com duração de 2 horas e 30 minutos.

Somente em duas outras oportunidades conseguimos depoimentos tão longos e importantes: uma vez com o Sr. Chiquinho Rodrigues em Piranhas, estado de Alagoas e a outra com o Sr. Durval Rosas (irmão de Pedro de Cândido) na cidade de Poço Redondo, estado de Sergipe. Luiz de Cazuza legou informe a todos que o procuram durante seus 100 anos de existência. Uma personagem de alto valor histórico. É de bom alvitre se pensar na sua biografia, pois, o capítulo relativo ao cangaço trará fatalmente novos conceitos sobre cangaceiros e volantes.


...No lado esquerdo do peito... mora o Saudoso Luiz
Foto Kiko Monteiro 


Geralmente, todo pesquisador é colecionador. Qual é o foco de sua coleção? 
- Fixando-me distante do foco onde circulava tudo que dizia respeito ao cangaço fiquei na saudade. Mas, não me perdi na estrada da viagem. Hoje meu acervo fotográfico é de boa qualidade e com elementos nunca publicados. Muita coisa ainda está para ser registrado pelas câmeras modernas, inclusive como o uso do zoom. A história do cangaço continuará sendo uma criança, somente a partir do próximo século, o XXII, haverá o novo norteamento. A iconografia fará parte desse novo mundo. Tenho sob forma encadernada jornais do Brasil desde o ano de 1934, em sua forma original. Representativo é o número de folhetos de cordel, principalmente, sobre a figura de fundamental importância para o cangaço em todos os tempos, Antônio Silvino.

Quanto aos livros se inicia a coleção com Carlos Fernandes e Gustavo Barroso, legítimos representante de uma época onde o sangue corria pelos carrascais. E estou em busca dos últimos lançamentos. A literatura complementar complementa de forma precisa e substancial o estudo desejado. Moedas do século XXIX e cédulas do tempo do réis que circulavam no país. Assim o caro leitor verifica que o foco solicitado é tamanho família ou tipo gigante. Tudo simples e em movimentação constante. Tenho para funcionar e não para dizer que tenho ou para encher prateleiras.

Entre as peças tem uma relíquia?
- Tenho apenas um pequeno punhal medindo 28 centímetros de comprimento e com bainha original. Peça que me foi presenteada por uma irmã já falecida e quando estive em visita a sua residência em São Luis do Maranhão, ela me dizia: vou lhe dar este punhal. Lembrança de nosso pai quando almocreve e que foi preso por um bando de cangaceiros. Sua soltura deva-se a um amigo dele, o coronel Manoel José, figura de alto conceito na vila de Carnaíba de Flores, estado de Pernambuco. Cidade hoje que reverência seu ilustre filho, médico, compositor, parceiro de Luiz Gonzaga, o sempre lembrado Zé Dantas.

Nós que gostaríamos de ver um filme que retratasse um cangaço, fiel aos fatos, sem política primário enfiar com exagero da ficção lamentamos a eterna necessidade em se ter finalmente uma produção digna da saga, de preferência um épico ou uma trilogia, enquanto isto não for possível qual a película que mais lhe agradou? Por que?
- Para mim a história do cangaço tem nas artes uma dolorosa via Crúcis. O teatro quando em ambiente fechado com suas apresentações fica muito a desejar. Pouco se estuda o tema e se for numa região diferente do Nordeste é de gritar êpa!!! Se ao ar livre é um simples musical com invencionices dos diretores, fugindo da realidade histórica e ainda dizem que o teatro tudo pode. Lindo, não!É o espetáculo caça votos. A televisão tem se mostrado equivocada com suas pretensões.


Lembram-se da novela Mandacaru? No segundo bloco Lampião é morto no estado da Bahia. Pode? E no lançamento do trabalho do Valter Avancini lá estavam pessoas que se dizem familiares do cangaceiro e concordaram, pois, nada mudou no deserto de Saara. A voz dos atores tentando imitar o linguajar dos nordestinos é de dar pena e torna-se não um terremoto, mas sim, um tsunami falastrão? Existe isso?


E teimam em usar um personagem que em vida foi homem na pele de uma mulher. É o caso de "Açuçena", cangaceiro valente e que terminam lhe dando uma saia rendada e ninguém diz absolutamente nada. Se falar, contraria.


Tenho pena dos personagens da história vibrante do cangaço. Gente, tenham dó!!!!! A trilha sonora hoje não serve ao enredo e sim ao faturamento simultâneo. Tudo funciona em função do faturamento. O resto é o resto, Claro e evidente.


Finalmente o cinema. Este se mostrou capaz nos idos de 50 do século passado. Os senhores diretores não souberam ganhar muito dinheiro como fizeram os americanos e seus cowboys. Preferiram o futebol, a malandragem e um trio amoroso. Engendravam uma história qualquer e a pobre da Vera Cruz sucumbiu. Também pudera!!! Com o volume imenso de filmes e bons com assinatura dos mais gabaritados dramaturgos não poderia ser diferente. Filmes baseados nos melhores romances, dos melhores escritores do mundo e o cinema nacional cada vez mais desacreditado.


Quem tinha oportunidade de ver todos os anos um festival de cinema, onde assinavam os melhores da Alemanha, Rússia, México, França, Japão e outros países? Além do dia a dia com atores e atrizes com formação teatral, diferente de hoje, onde ninguém é de ninguém, ou seja, fez um determinado trabalhou e desaparece na primeira esquina. Os atores de hoje ficam muito a desejar.


Assim fui ficando com os importados e deixando o nacional ao largo. O cinema me induziu a música sempre instrumental e nunca uns sambas ou batucadas sem expressão. Melhor ficar com o documentário de José Humberto, companheiro de Salvador-BA, que na qualidade amigo de dada fez um trabalho maravilhoso, denominado a Musa do Cangaço. Pequeno ou curto, porém verdadeiro e expressivo.


E mais, gosto não se discute, por favor! Respeite para ser respeitado, esse é o lema!!!!

Eleja a pérola mais absurda que já leu sobre Lampião.
- Para ser breve existe um mundo de pérolas acima e abaixo do horizonte. Mas, devo ficar com uma que não vou perder para ninguém, "E assim falava Lampião". Sem comentários.

Diante de tantas polêmicas surgidas posteriormente a tragédia em Angico alguma chegou a fazer sentido, levando-o a dar atenção especial ex.: “Ezequiel não morreu e reaparece anos mais tarde”, “João Peitudo, filho de Lampião”, “O Lampião de Buritis” e “a paternidade de Ananias”?
- A que mais tem sido motivo de análises e discussões é a "Grota do Angico". Pode ser o episódio considerado uma nova torre de Babel e todos falam e ninguém se entende ou simplesmente o famoso calcanhar de Aquiles. Fala-se em mortes; logística do lado militar; carnificina; chacina e grande universo de adjetivos. Angico bem estudado mudará a história cangaceira no Nordeste. Tomara que aconteça!!!!!!


Não precisa detalhar, mas em que assunto ou personagem está trabalhando ou qual gostaria de estudar para a publicação desta pesquisa. Enfim qual a próxima novidade que teremos em nossas estantes?
- No prelo estão: Lampeão de A a Z; Lampeão por ele mesmo e segundas edições da Bibliografia do cangaço e do Quem é Quem no Cangaço. Outros trabalhos estão em andamento.

Vamos terminar onde tudo começou... Ruínas da Fazenda Ingazeira - Povoado São Domingos - Serra Talhada, PE.


Contatos com o entrevistado: (84) 3316 -3940 / 9411 - 5100 Email: paulomgastao@hotmail.com

segunda-feira, 28 de março de 2011

Luto

Morre Luiz de Cazuza, um remanescente da época de Lampião. 

Parecia tristeza, mas era a memória em pura ebulição
Luiz Alves de Barros o Luiz de Cazuza, sobrinho do lendário Zé Saturnino e amigo de infância de Virgulino morreu hoje, dia 28 de março de 2011, as 19:30 hs. Será sepultado amanhã na fazenda São Miguel. Luiz tinha 100 anos de idade.

Em 2007 e 2008 visitando seu Luiz em sua residência na companhia do grande amigo Netinho nós pudemos conhecer e compartilhar da hospitalidade, alegria e testemunhos ímpares de um grande colaborador desta história.

Só nos resta oferecer nossa solidariedade e votos de pesar a toda sua família. Vá com Deus cabra bom forrozeiro!!!

Reveja o resumo biográfico eleborado pelo amigo Ângelo Osmiro

No ano de 2010, Luiz Alves de Barros, o Luiz de Cazuza completou um século de vida, nascido no dia 06 de setembro de 1910 na Fazenda Pedreira no município de Serra Talhada, no sertão de Pernambuco, filho de José Gomes de Barros e Maria Alves de Barros. Em 1935 aos vinte e cinco anos casou-se com dona Teresa Alves de Barros, sua prima, em 1935 com quem teve onze filhos. Na juventude era conhecido nas ribeiras do Pajeu como exímio tocador de harmônica.

Sobrinho de Zé Saturnino da Pedreira, primeiro inimigo de Lampião, presenciou quando adolescente as escaramuças entre seu tio e padrinho Zé Saturnino e o cangaceiro Lampião; Saturnino era irmão da mãe de Luiz Cazuza.

Morando naquelas ribeiras não poderia ficar a parte das brigas entre seu tio e o famoso cangaceiro. Conversamos inúmeras vezes com seu Luiz Cazuza, sempre nos encantando com suas histórias sobre o cangaço, sobre o sertão, sobre seu amor aquela terra que o viu nascer, crescer e envelhecer.

No final da tarde do longínquo ano de 1927, quando seu Luiz Cazuza já se preparava para o jantar – que no sertão daquele tempo era feito muito cedo – apontou repentinamente Genésio Vaqueiro, um sertanejo das redondezas, meio assustado e um tanto apressado. Trazia um recado de ninguém quem menos que Lampião, o terror do sertão. O chefe bandoleiro mandava dizer que precisava falar urgente com Luiz Cazuza.

O jovem Luiz ficou assustado, afinal seu tio era inimigo de Lampião, apesar dele pessoalmente, assim como seu pai, não haver se envolvido diretamente na briga, o recado era para meter medo. Não comparecer ao chamado era uma imprudência sem limite. Apesar do medo, o jovem sertanejo atendeu de pronto ao chamado. Lampião o aguardava em lugar conhecido por Cacimba do Gado. Dirigiu-se rapidamente para o local demarcado, encontrou uma cena que jamais esqueceria, Lampião acompanhado de mais quatro ou cinco homens, todos maltrapilhos e aparentando cansaço e fome.

Aquele pequeno grupo era o remanescente do numeroso contingente que havia atacado a cidade de Mossoró e apavorado o Rio Grande do Norte, os cangaceiros estavam em estado lastimável. Lampião já conhecia Luiz e toda sua família, sabia do seu parentesco com Saturnino, afinal de contas haviam sido vizinhos, a propriedade de seu pai fora vizinha a fazenda dos Nogueira. A primeira pergunta que Lampião fez, foi saber como andava Zé Chocalho, apelido depreciativo pelo qual tratava José Saturnino, por conta das brigas existentes entre eles. Luiz respondeu que fazia tempo que não encontrava o tio, tentando assim não prolongar o assunto.

Lampião expõe seu problema, disse estarem vindo de longe, estavam com fome, precisavam de mantimentos, perguntou ao jovem sertanejo o que teria para comer. O sertanejo das ribeiras do Pajeu, disse não saber se por sorte de Lampião ou sua, acabara de comprar uma carga de rapaduras para revender, e traria logo, logo, era só o tempo de ir buscar. Junto às rapaduras Luiz trouxe também queijos à vontade, o que agradou muito ao rei do cangaço. Recebido os mantimentos, Lampião tirou do bolso um maço polpudo de dinheiro, contou, recontou e voltou a colocar no bolso, pedindo a Luiz Pedro para pagar, alegando não ter dinheiro trocado para efetuar o pagamento.

Nessa hora seu Luiz disse que o medo aumentou, pois a reação de Luiz Pedro, o cangaceiro do Retiro, foi surpreendente, reclamou do chefe pela sovinice e ainda perguntou para que Lampião queria tanto dinheiro, pois não gastava com nada. Estaria juntando dinheiro para levar para o inferno?

Perguntou Luiz Pedro ao Chefe. Mesmo assim Luiz Pedro retirou um maço de notas do bolso e repassou para Luiz de Cazuza sem contar. Seu Luiz guardou o dinheiro, também sem contar, queria mesmo era deixar aquele lugar, sair do meio daquelas feras, qualquer minuto a mais era correr perigo. Lampião dispensou a presença de Luiz e agradeceu o serviço prestado pelo sertanejo.

Chegando a sua casa, já aliviado por sair do meio daquele covil de feras, Luiz Cazuza foi contar a quantia recebida e se surpreendeu, o dinheiro recebido dava para comprar pelo menos dez cargas de rapaduras, mas seu Luiz ainda hoje conta, o medo que teve naquela tarde, passada na companhia dos cangaceiros de Lampião, dinheiro nenhum pagaria aquela aflição. Essa foi uma das muitas histórias contadas por seu Luiz de Cazuza que escutei sentado em um velho banco de madeira estrategicamente colocado em frente a sua casa na Fazenda São Miguel.

Inúmeras vezes tivemos o privilegio de desfrutar da companhia desse bravo e forte sertanejo das ribeiras do Pajeú, homem simples, excelente anfitrião, quem o conhece fica encantado com sua simpatia. Nas comemorações dos cem anos do meu grande amigo, não poderia deixar de prestar essa singela homenagem a quem merece muito mais do que essas humildes palavras.

Luiz de Cazuza uma verdadeira baraúna do sertão.
Ângelo Osmiro Barreto
Sócio da SBEC


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Prazer em conhecer

Lampião Aceso entrevistou o pesquisador e documentarista Aderbal Nogueira
 

Este cearense é atualmente o maior videomaker do cangaço. Frutos da sua produtora a Laser Vídeo seus inúmeros documentários se espalharam pelo mundo afora e são itens indispensáveis na coleções de nós cangaceirólogos.

E parece ainda há muita coisa por vir visse? É o que ele promete na entrevista que nos concedeu na ocasião do ultimo dia do Cariri Cangaço e que veremos a seguir.

A sua introdução no cangaço é semelhante à de muitos. Desde os tempos de menino. O avô era da RVC - rede de viação cearense; sempre lhe contava histórias sobre Lampião. Ele inclusive foi testemunha ocular do episódio ocorrido com o Cel. Isaías Arruda, em Aurora no Ceará.



Na infância adorava filmes de bang-bang e não imaginava aquelas histórias de tiroteios acontecendo ali na sua terra... Quando soube de Lampião... "O Faroeste Brazuca" Já viu né? Nunca mais deixou o tema.

Lia tudo que encontrava. Começou a viajar e gravar entrevistas apartir de 1984 e em 1997 conheceu aquele que viria à ser o seu grande parceiro de viagens... o estimado Paulo Gastão.


Messier Paulo e Aderbal, durante o Cariri Cangaço 2010.

 Á esquerda Dezinho Magalhães, Aderbal (com um punhal que foi do cangaceiro Sabino) e o chanceler Paulo na residência do colecionador em Serra Talhada, PE.

Estes dois cavalheiros juntos já fizeram incontáveis viagens em busca dos mais diversos depoimentos. Só para se ter uma ideia, a primeira vez que realizaram rumo à Angico foi em 1996 e, de lá pra cá, só para àquela região somam umas quarenta incursões, no mínimo. E de tudo que é jeito visse? Sozinho, com o grupo da SBEC, com jipeiros, com colegas que fazem trilha a pé, com grupo de ciclistas de Fortaleza, de caiaque, desceram desde a Cachoeira de Paulo Afonso até a forquilha do começo da trilha de Angico, na beira do Rio São Francisco remando com oito companheiros de Fortaleza. Levaram dois dias para ir de Paulo Afonso até a Grota.

Duvidam? Mai rapaz o "homi" é atleta!  E é evidente que ele prova todas essas façanhas em vídeo.


Equipe da Laser Vídeo em Angico, 1996.

Sila e Candeeiro na Missa do Cangaço em Angico
 
Gravando com Sila em Angico.

No Raso da Catarina, em 1997, entrevistou entre os índios Pankararés pessoas que eram amigas de cangaceiros; inclusive, encontrou entre estes um parente do cangaceiro Gato, oriundo desta tribo.
"Foi interessante porque no começo da entrevista um senhor que estava sentado e era cego, ouvindo a história, começou a chorar. Foi quando sua esposa disse: - Ele é primo de Gato. Essas entrevistas ainda hoje não foram usadas".
Vislumbrando o Raso da Catarina.


Na tribo com os curumins Pankararés


Então, apresente suas crias! 
- Nós temos em torno de sete documentários acerca do cangaço.
1 - FATOS; 2 - S I L A – Esse vídeo também apresenta uma entrevista com a ex cangaceira ADÍLIA companheira de Canário; 3 - A VIOLÊNCIA OFICIALIZADA NO TEMPO DO CANGAÇO; 4- CANDEEIRO depoimento do ex-cangaceiro Manuel Dantas Loiola; 5- MENTIRAS E MISTÉRIOS DE ANGICO e a série de dvd´s do 6 - CARIRI CANGAÇO 2009. E mais um trabalho ainda inédito “VINTE E CINCO, UM CANGACEIRO DE LAMPIÃO”. Nos comprometemos com o mesmo a apresentá-lo somente após sua partida, espero que tão cedo eu não realize este lançamento.

Filho preferido? 
- O documentário Fatos é o meu trabalho preferido. Por conter depoimentos de pessoas que conviveram com Virgulino antes de se tornar o Lampião e outros que estiveram com ele na ocasião de sua morte.

 Com Durval Rosa em sua residência. Piranhas/AL.

De outro autor? 
- “O Ultimo dia de Lampião” do Maurice Capovilla.

E o livro? 
- Guerreiros do sol, de Frederico Pernambucano de Mello “E assim morreu Lampião” de Antonio Amaury.

Qual é o primeiro título recomendado para um calouro? 
- Indico Billy Jaynes Chandler. Não pende a balança para nenhum dos lados da história.

Qual destes contatos foi, ou foram, os mais difíceis? 
- Foi com Aureliano Alves, o “Lero”. Filho de Zé Saturnino. Ele mantém uma resistência, até com razão, porque a maioria dos trabalhos tende a incriminar mais o pai dele que o próprio Lampião. Após muita relutância nosso encontro só foi possível graças a um intermédio do Seu Luiz de Cazuza que é como se fosse um tio e de seu filho Zé Alves. Ele aceita, mas sempre acusando a imprensa - embora eu sempre o lembrando que eu não era repórter – E que iria usar a entrevista exatamente como ele me relatasse.

Isso foi gravado há vários anos, mas ainda não a utilizei em nenhum trabalho. Em um futuro próximo espero, assim como inúmeras entrevistas que temos e nunca sequer assisti, pois o material é muito vasto e só produzimos esses vídeos quando nos sobra um tempinho na produtora para edição etc; e para quem trabalha em produção de documentários empresariais sabe que tempo é coisa rara.

Já teve que pagar para obter alguma entrevista?
- Nunca, pelo contrario, eu que sai recompensado com uma amizade sincera de todos esses personagens, por exemplo, o Candeeiro, reservado caseiro, não se ausenta de casa passou uma semana hospedado em nossa casa em Fortaleza. A Eliza filha dele ficou admirada com o pedido do velho que gostaria que eu fosse pegá-lo em Buíque/PE e eu fui prontamente.

Qual o contato que não foi possível e lhe deixou de certo modo frustrado? 
- Foi com o velho Antônio da Piçarra. Pra se ter uma ideia da ironia do destino eu viajaria num sábado com este intuito e ele vem há falecer dois dias antes.

Com quem gostaria de ter conversado? 
- Como documentarista você queria ter estado com inúmeros. Gravei muitos depoimentos importantes, alguns destes que até hoje eu nem assisti. Mas eu gostaria muito de ter conversado com o grande líder.

E filmado?
- Se eu pudesse estar presente, gostaria de ter registrado a invasão de Mossoró. Evidente que a resistência de Mossoró não é única, mas pense bem no pandemônio que foi em uma cidade daquele porte em total alvoroço com a chegada dos cangaceiros? Tiveram outras, como a pequenina Nazaré do Pico em Floresta, PE. Mesmo assim, eu imagino os fatos de Mossoró lendo o diário do Antônio Gurgel. Suas linhas nos relatam aquele final de tarde, chuva fina, o sino a repicar, a correria das pessoas, muitas embarcando no trem para se refugiar no litoral e a cidade fica praticamente deserta... Enfim, o restante da história quem pesquisa já sabe. Por isso eu, evidentemente, gostaria de estar presente.
Zé Cordeiro participou das trincheiras em Mossoró (1997)


Qual é o seu capitulo preferido? 
- Dentre tantos relatos emocionantes o meu capítulo é mais particular.
Eu viajava em companhia de Sila (ex-cangaceira, companheira de Zé Sereno) pelo interior da Bahia, cinco e meia da tarde, o sol se pondo, a seca predominava na paisagem, não pude deixar de perceber que ela estava chorando... (Pausa na entrevista - Aderbal viaja em pensamento e as lágrimas correm no seu rosto)
... Então eu pergunto - Sila você se sente mal? Ela não responde, continua chorando. Eu me prontifico a parar o carro e ela explica a razão: 
- Aderbal, essa é a hora mais triste da minha vida... Porque no mato eu começava a pensar: Meu Deus, onde eu ia dormir? Pensava se estaria viva ao amanhecer, se voltaria a ver meu pai, minha mãe e meus irmãos novamente. E nem ao menos se eu voltaria a comer arroz e feijão algum dia na minha vida. 
Então, Kiko, eu choro como chorei naquele dia ao presenciar as memórias de uma mulher de quase 90 anos, personagem desta história que a gente tanto persegue. Imagino o drama... É pra ficar imune ao sentimento? Como não ceder à emoção? 
Fico triste quando vejo algumas pessoas falarem tão mal de Sila. Pessoas que privaram de sua amizade e souberam utilizá-la. Mas que depois agiram de uma forma injusta. Não entendo... Tudo bem, se ela falou o que era mais conveniente para ela, – coisa que muitos outros ex cangaceiros fizeram, pra não dizer quase todos (tenha certeza disso) – Porém nós, como pesquisadores, é que temos que filtrar e colocar só o mais plausível. 
Eu, particularmente, só tenho a agradecer a todos com quem estive, pois todos me receberam muito bem e me ajudaram na hora em que precisei, então seria uma grande desfeita de minha parte hoje desdenhar de algum destes.

As meninas Sila e Adília depõem para o documentário
Um cangaceiro (a)? 
- Conhecendo alguns cangaceiros como eu tive a oportunidade eu elejo o Candeeiro! Principalmente pela irreverência.

Gravando com Candeeiro
 A direita o ex-cangaceiro "25"


Um volante? 
- Tenho um carinho muito especial pelo tenente João Gomes de Lira. Sempre me recebeu muito bem, tenho depoimentos seus gravados que não ainda tive oportunidade de utilizar.

 Equipe da Laser Vídeo com o tenente João Gomes.

Um coadjuvante?  
- Sr Saraiva o irmão do juiz de Limoeiro do Norte (CE) que estava presente na ocasião da visita do bando logo após o fracasso em Mossoró.

Uma personagem secundária?  
- O Cabo Panta, que diz ter sido ele o carrasco de Maria Bonita. Nunca provou e os seus contemporâneos, ou seja, colegas de farda sempre negaram este feito. (eu não estava lá, não posso julgá-lo... quem sabe foi ele mesmo? E outros dizem que não por quererem ficar com a glória; é muito fácil se dizer ‘conversei com fulano e ele disse que é mentira, quem matou foi ele e não o Panta’. Como saber se essa pessoa fala a verdade? Portanto, não podemos acusar alguém de mentiroso sem ter absoluta certeza.

Eu cito inclusive outro o soldado Bertoldo que também se declarou o samurai de Angico.
- Eis aí mais um mistério!

Geralmente todo pesquisador é colecionador qual é o foco de sua coleção? 
- Sou contra as coleções de relíquias tipo: tijolo, telha pedaço de madeira da casa de Lampião ou de qualquer outra personagem. Nêgo visita e resolve levar um souvenir diferente ai outros agem da mesma forma e amanhã? Minha neta e a de vocês não vai ver nada disso porque da história não vai restar nem os cacos. Enquanto outros estão guardando tudo em suas casas para o seu bel prazer, sem um mínimo de utilidade, é o que vai acontecer, quando estes se forem? A família que não vê qualquer importância vai jogar aqueles "cacarecos" no mato, e aí?... Não me levem a mal, é apenas o meu insignificante pensamento.

Portanto só coleciono imagens e vozes dos remanescentes e testemunhas desta história.
  
 A repórter Vânia entrevista os sargentos Elias Marques e Josias Valão às margens do velho Chico.

No local do Massacre da família Gilo.

Na residência do tenente nazareno Neco de Pautília em Floresta, PE,
junto com Luiz de Cazuza.


Nós que gostaríamos de ver um filme que retratasse um cangaço autêntico, fiel aos fatos, sem licença poética, erro primário enfim sem exagero da ficção lamentamos a eterna necessidade de se ter finalmente uma produção digna da saga, de preferência um épico ou uma trilogia, enquanto isto não foi possível qual a película mais lhe agradou? 
- Baile Perfumado. Embora não seja um filme exatamente sobre Lampião, mas sobre o mascate Benjamim Abraão. Ele conseguiu produzir o documentário que eu gostaria de ter feito (RISOS). Em minha opinião não há ficção alguma que supere a realidade.

Eleja a pérola mais absurda que já leu sobre Lampião? 
- Houve um relato de que Lampião andava em Recife. Onde se podia conceber a figura já pública do rei do cangaço perambulando num grande centro sem ser reconhecido?

Diante de tantas polêmicas surgidas posteriormente a tragédia em Angico alguma chegou a fazer sentido, levando-o a dar atenção especial ex.: “Ezequiel não morreu e reaparece anos mais tarde”, “João Peitudo, filho de Lampião”, “O Lampião de Buritis” e “a paternidade de Ananias”? 
- Não gosto de polemizar, no entanto acredito que ainda há muita coisa pra ser investigada acerca dos mistérios do cangaço. Esse caso Ezequiel: Nós inclusive temos um documentário sobre o assunto. Neste vídeo vocês vão ver seu Luiz de Cazuza que conheceu Virgulino e todos os irmãos Ferreira narrar o encontro com o suposto Ezequiel e o momento em que ele tem a certeza de estar diante do irmão de Lampião que todos acreditavam ter sido morto no combate na Lagoa do Mel em Paulo Afonso. O amigo João de Sousa conheceu o homem que disse ter enterrado Ezequiel. 

É impressionante, vejam bem: De súbito ele não reconhece traços semelhantes aos do velho amigo, a última vez que o viu ele estava equipado de cangaceiro. Naquele momento estava ali um homem trajando vestes comuns, como tirar esta dúvida? Seria preciso uma pergunta e ele se lembra de uma passagem entre eles no passado que só o próprio Ezequiel poderia recordar vou lhes contar a conversa:  
Pois bem, Estávamos eu (Luiz de Cazuza), Lampião, você e mais um cangaceiro (cujo nome seu Luiz não recorda) Tu lembras? 
- Lembro sim! 
- Quando vocês retornavam de Mossoró não foi? 
- isso mesmo! 
- Você há de lembrar que Lampião pede que eu vá buscar umas alpercatas que ele tinha encomendado... Pois bem, qual foi a reação daquele cangaceiro ao receber as alpercatas? 
E na lata o suposto Ezequiel responde: 
- Ele calçou e saiu pulando por cima de umas rochas gritando olha os macacos! Olha os macacos! 
- Aderbal foi daquele jeito mesmo. 
Só quem estava presente poderia saber se ele narrasse qualquer outro capitulo ele poderia estar simplesmente blefando, mas neste caso eu não posso duvidar da identidade do cabra. No evento do julgamento simulado de Lampião em Serra Talhada eu convidei dois importantes pesquisadores a ouvir este mesmo relato de seu Luiz e estes simplesmente se recusaram acreditar, por quê? Vai ver que não queriam comprometer seus trabalhos escritos e também porque não queriam correr o risco de se contradizerem mais tarde diante de um novo fato que fazia muito sentido! A obrigação do pesquisador é ouvir os fatos, não? 

Seu Luiz narra o aludido fato.

E Lampião: morreu baleado ou envenenado? 
- Do jeito que e história conta eu não aceito. Lampião morreu? Morreu. Mas como? É intrigante, pode até ter sido do jeito que se diz, mas é estranho.

Não posso concordar com a calmaria de Angico! Eu explico: Conheço muitos dos cenários visitados por Lampião, já cruzei a pé o Raso da Catarina. Sabe, eu gosto de sentir a atmosfera dos locais, então imagine a situação... Madrugada em Angico a aproximação de uma tropa de 40 e tantos soldados em sua maioria embriagados na escuridão para ninguém quebrar um galho, ninguém pisar numa pedra em falso... enfim ninguém produzir qualquer barulho que denotasse suas presenças? Acho improvável!

Em que assunto ou personagem está trabalhando ou qual gostaria de estudar para a publicação desta pesquisa. Enfim qual a próxima novidade que teremos em nossas estantes? 
- Meu próximo trabalho não é um vídeo, mas um livro. Um trabalho que tem como foco as minúcias do cangaço. Relatos que nunca foram escritos. Posso até antecipar um trecho: Gravando um depoimento do Sr. Chiquinho Rodrigues sobre o dia do ataque do cangaceiro Gato a Piranhas, na tentativa de libertar Inacinha, aquele tiroteio terrível, em certo momento ele diz: “– Olhe, foi a primeira vez que vi um homem sem chapéu!” Se não me engano, ele se refere ao Juiz da cidade que passa correndo por ele sem o chapéu. Avalie a importância que o chapéu tinha para o sertanejo? Ouvi relato também do Ten. Pompeu Aristides de Moura justamente sobre o uso do chapéu.
E além destes, são mais três relatos falando sobre este detalhe próprio da nossa gente. São assuntos deste tipo que vou colocar em folha.


O tenente Pompeu foi um dos responsáveis pela morte
do cangaceiro Virgínio, cunhado de Lampião. 

Uma coisa interessante é que não terá fontes bibliográficas, pois tudo será fruto de depoimentos colhidos por nós. Pra encerrar deixo aqui também registrada uma pequena mágoa. Já vi alguns relatos em livros que foram tirados de nossos vídeos, pois até então ainda não haviam sido registrados em nenhum outro trabalho, e nenhum destes autores citou a fonte.


Para não cometer injustiça, apenas o escritor canadense Gregg Narber atribuiu à nossa pesquisa os devidos créditos em seu excelente livro “Entre a cruz e a espada: Violência e misticismo no Brasil Rural”, da Editora Terceiro Nome.

 *As duas primeiras fotos foram concebidas por Coroné Severo.