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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Coronel Manuel Arruda de Assis

Notas sobre um homem valente e corajoso

(*) José Romero Araújo Cardoso

 Coronel Manuel Arruda de Assis

Impossível disfarçar minha admiração pelo saudoso Coronel Manuel Arruda de Assis, pois ouvi por anos e anos suas conversas interessantes, suas histórias fantásticas envolvendo revoltosos, cangaceiros e combates da guerra de Princesa, além do cotidiano militar e político- parlamentar, tendo em vista que o respeitado oficial paraibano foi prefeito em duas cidades - Pombal (PB) e São José de Piranhas (PB) - além de deputado estadual.

Sobre a passagem da coluna Prestes por Piancó (PB) no dia nove de fevereiro de 1926, Arruda dedicou muitas e muitas horas de prosa comigo, constituindo-se em uma das razões do infinito respeito que nutro pela memória do velho guerreiro das caatingas.

Arruda me contava que mais ou menos às seis e meia da manhã do dia nove de fevereiro de 1926 chegou a Piancó o Tenente Manuel Marinho em um caminhão, proveniente do segundo Batalhão da Polícia Militar, instalado pelo governo João Suassuna em Patos das Espinharas, devido ao ataque cangaceiro do dia 27 de julho de 1924 à cidade de Sousa. Em razão do deslocamento da Coluna Miguel Costa-Prestes, o Tenente trazia armas e munição, vindo acompanhado de cinco praças.

O então Sargento Manuel Arruda de Assis começou a distribuição das armas e da munição com os defensores dos piquetes de Piancó, os quais somavam quatro. Arruda transformou a casa do juiz de Piancó, Dr. Abdon Assis, em piquete, sendo que a referida residência estava localizada de frente ao Conselho Municipal, justamente na rua em que a Coluna Miguel Costa-Prestes penetrou. Os outros piquetes eram comandados pelos Tenentes Marinho e Benício, pelo Alfaiate Isidoro e por Francisco Lima, do lado sul, e o do Padre Aristides. Este último foi o que deu mais trabalho aos revoltosos, sendo o mais penalizado.

Proveniente do Boqueirão de Coremas, a Coluna Miguel Costa-Prestes foi intimidada por Arruda a barrar sua trajetória, pois gritando alto para pararem, provavelmente o jovem sargento despertou a arrogância dos oficiais que comandavam a vanguarda do grupo insurgente, confiantes, quem sabe, no expressivo número de componentes que, indubitavelmente, punha medo e respeito por onde passavam. Os revoltosos desafiavam tudo e a todos, razão pela qual a composição rebelde ficou conhecida como a "Coluna Invicta", tendo se internado na Bolívia com essa fama.

Depois que os oficiais que comandavam a vanguarda da Coluna Miguel Costa-Prestes foram alvejados, mais ou menos às oito horas da manhã, se passaram uns vinte minutos para que o regimento militar insubordinado ao governo central desse o ar da graça. Quando apareceram, vieram com força total.

Arruda me contava que os comandantes dos revoltosos envolveram Piancó em forma de "U", pelo poente e pelo nascente, deixando apenas o rio descoberto. O recado da Coluna para que os defensores tivessem pensado antes de abater os oficiais da vanguarda foi dado através de chuva de balas cuspida de várias metralhadoras pesadas postadas estrategicamente em direção a Piancó.

Manuel Arruda de Assis, bravamente e com estoicismo inegável, lutou incansavelmente do piquete que comandava. Durante mais ou menos quatro horas, carregou e disparou as armas em seu poder talvez centenas de vezes. A intensidade do tiroteio vindo do piquete de Arruda impressionou os revoltosos da Coluna Miguel Costa-Prestes, pois a tradição dos lugares de onde provinham sabe valorizar bravos e corajosos, respeitando-os pela eternidade.


Coluna Miguel Costa–Prestes: Costa é o quarto sentado (esq. para dir.) 
e Prestes, o terceiro.

Vendo que a coisa ficava difícil a cada segundo, Arruda aproveitou que o lado do rio estava liberado para fugir o mais depressa possível, do mesmo jeito que fizeram seus tarimbados colegas da caserna. Arruda culpava a falta de experiência dos homens do Padre pela tragédia do barreiro sinistro, pois se houvesse alguém para instruir a furar a parede da casa e tomarem o mesmo rumo que ele e os outros militares tomaram, talvez a desgraça da hecatombe de Piancó não tivesse acontecido.

Arruda mergulhou no rio Piancó, que por sorte estava com água na ocasião, saindo distante do local em que mergulhou. Assim conseguiu escapar à fúria ensandecida dos "revolucionários" que transformavam Piancó em um desmantelo ao cubo.

Talvez pura ilusão de Arruda, pois o ódio devotado pela Coluna Miguel Costa-Prestes aos defensores do piquete do Padre Aristides seja a resposta para o sucesso da fuga dos integrantes dos outros pontos de defesa.

Padre Aristides e sua gente resistiram por mais meia hora após a fuga de Arruda e dos demais que conseguiram escapar da ira dos militares ensandecidos pela perda do valente oficial rebelde a quem foi confiado o comando da vanguarda da Coluna insurrecta.

Arruda dizia que conseguiram escapar do "girau" em que se transformou o piquete comandado pelo Padre Aristides Ferreira da Cruz apenas uma criada, duas crianças e um defensor chamado João Monteiro.

Quando da primeira campanha de Leonel Brizola para a presidência do Brasil, no primeiro turno, Luiz Carlos Prestes esteve em campanha por João Pessoa, pois apoiava o político gaúcho. O advogado e escritor Severino Coelho Viana dedicou a Prestes exemplar do livro "A vida do Coronel Arruda, Cangaceirisimo e Coluna Prestes". Ao lado de Severino Coelho, fiquei impressionado quando o "Cavaleiro da Esperança" exclamou com entusiasmo:

"Arruda????!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!Esse foi um dos mais valentes e corajosos combatentes que enfrentamos na marcha da Coluna!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!". 


(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo (UFPB). Professor-adjunto do Departamento de Geografia do Campus Central da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Especialista em Geografia e Gestão Territorial (UFPB) e em Organização de Arquivos (UFPB). Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA - UERN).

sexta-feira, 30 de julho de 2010

"Rio Preto"

A revolta extrema de um negro humilhado 

Por: José Romero Araújo Cardoso (*)

Luiz era seu nome de batismo, mas foi imortalizado tragicamente nas crônicas da violência do século dezenove pelo apelido cangaceiro de Rio Preto. Não tinha bando próprio, agia sozinho, pois preferiu destilar seu ódio solitário pelas quebradas do sertão.

Luiz nasceu em Pombal (PB), foi criado, melhor dizer acolhido na humilhação extrema, pelo sacerdote católico Amâncio Leite, que não poupou em nenhum momento o pobre Luiz das mais vexatórias e ignominiosas manifestações de escárnio visando massagear ego doentio condicionado pelo histórico racismo que marca o imaginário de pessoas sem formação e detentor de falsa devoção a Deus, que não difere negros, brancos, amarelos ou vermelhos.

Não seria de estranhar que nêgo Luiz despertasse revolta incontida contra a sociedade de sua época. Ganhou as caatingas sertanejas feito fera bravia sem limites para a violência que disseminou.

Sequestrava mocinhas brancas, seviciava-as e depois de torturá-las ao extremo, reservava-lhes morte cruel e desumana. O covil no qual se homiziava era cheio de ossos dessas infelizes que tiveram a desdita de cair em suas garras tenebrosas.

Imitava com invulgar perfeição o rincho de um jumento, razão pela qual o terror era instalado no coração das pessoas quando ouviam o som estridente do animal que conduziu Jesus quando da fuga para o Egito, fugindo das perseguições romanas impostas por Herodes.

Rio Preto foi um cangaceiro semelhante a Lucas da Feira, cuja perversidade marcou época na Bahia. O modus operandi de ambos foi marcado pela ferocidade como agiam, pela forma como extravasou o ódio contra as estruturas da sociedade de suas épocas.

Diziam que Rio Preto tinha feito pacto com o demônio, pois se propalou que o cangaceiro era imune a facas e balas, nada o atingia, pois além de tudo era dotado de "encantamentos", transformando-se em tocos ou pedras quando alguma força volante estava em diligência a fim de capturá-lo.

Rio Preto tinha inúmeras mortes nas costas, era o terror de Pombal (PB) e áreas fronteiriças das Províncias Parahybana e norte-riograndense. A ira implacável de nêgo Luiz fez muitos sertanejos tremerem de medo durante décadas.

Afirmo categoricamente que o responsável pela gênese do malvado cangaceiro paraibano foi o Padre Amâncio Leite. Esse foi o principal responsável pelo terror instalado no sertão devido a forma extremamente perversa como tratou a criança desde a mais tenra idade, infringindo-lhe castigos terríveis que forjaram a personalidade doentia e criminosa de Rio Preto.

Mas nêgo Luiz não tinha o corpo fechado como se dizia. Responsável pela morte de um fazendeiro em Pombal (PB), Rio Preto foi alvo de uma tocaia montada pelos filhos do sertanejo assassinado. Chovia aos tântaros quando os adolescentes escalaram os clavinotes em direção ao cangaceiro. Haviam colocado algodão nas agulhas das armas, para facilitar os disparos na enxurrada.

A fama de mau de Rio Preto era tão conhecida que os dois rapazes não esperaram para constatar se havia consumado a vingança. Mas Rio Preto resistiu com estoicismo aos disparos, sendo encontrado por forças policiais estertorando. Conduzido à cadeia de Pombal (Foto abaixo), considerada a mais segura do sertão setentrional, Rio Preto faleceu em uma das celas, morrendo sem se arrepender dos crimes abomináveis que cometeu em suas estrepolias violentas pelas veredas da terra do sol.


(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor-adjunto do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Especialista em geografia e Gestão Territorial e em Organização de Arquivos. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Membro do Instituto do Oeste Potiguar (ICOP). Contato: romero.cardoso@gmail.com.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

"Não façam isso comigo, sou um sacerdote católico!"

Notas sobre o sangramento do Padre Aristides Ferreira da Cruz


Por: José Romero Araújo Cardoso

 Padre Aristides Ferreira da Cruz

Convivi e conversei muito com o brioso oficial da Polícia Militar Coronel Manuel de Assis, pois assim como eu, o valente guerreiro das caatingas nasceu na velha terra de Maringá. Arruda era um homem espetacular, ser humano formidável, possuía prosa animada, muito atencioso e dotado de memória prodigiosa.

Apesar das qualidades ímpares, Arruda era afoito demais, pois querer enfrentar a Coluna Miguel Costa - Prestes quando da passagem por Piancó (PB), em fevereiro do ano de 1926, foi um ato temeroso e intempestivo, mas que lhe rendeu honraria do governo do Presidente João Suassuna por bravura - a espada do herói! Arruda negava peremptoriamente os fatos, mas sem sombras de dúvidas foi ele quem abriu fogo contra a vanguarda dos militares insurrectos, abrindo os portais dos infernos para a cidade de Piancó e seus defensores.

Nas inúmeras conversas sobre a passagem da Coluna pelo desditado município paraibano, havia incontida emoção quando o velho combatente falava sobre o Padre Aristides Ferreira da Cruz, vigário e chefe político da cidade sertaneja literalmente arrasada em fevereiro do ano de 1926.

O Coronel Manuel Arruda de Assis informava que o Padre Aristides nasceu no então distrito pombalense de Lagoa. Quando de minha fixação no Estado do Rio Grande do Norte, efetivamente a partir do ano de 1998, fiquei sabendo por intermédio de informações fornecidas por dileto amigo de nome Raimundo Soares de Brito, verdadeiro arquivo vivo da cultura potiguar, que o Padre Aristides havia exercido o cargo de vigário em Caraúbas (RN).

Arruda narrava que o Padre Aristides era inimigo de muita gente em Piancó, mas que todos o respeitavam. O vigário andava com inseparável F. N. Brown na cintura, acompanhado de grupos de capangas, era metido em tudo que não prestava no sertão daquela época, viveu maritalmente com jovem da localidade, tiveram filhos, enfim, como dizemos no sertão, era mais desmantelado do que vôo de anum molhado ou galope de vaca amojada.

Quando os informes enviados de Pombal (PB), notificando sobre a passagem da Coluna Prestes por Malta (PB), chegaram em Piancó (PB), o Padre Aristides se animou em enfrentar, telegrafando para Júlio Lyra, o chefe de polícia de Suassuna, comprometendo-se a conseguir dois mil homens em armas em quarenta e oito horas, prontamente aceito pelo governo do Estado. Não obstante os esforços, Padre Aristides não conseguiu reunir o número de homens prometido para a defesa.

Mas o que ninguém sabia em Piancó era que esta consistia em uma tática de Prestes, a guerra de movimento, depois usada por Mao-Tsé-Tung, quando da grande marcha pela China, a fim de ludibriar o inimigo. Prestes dividia a coluna em inúmeros subgrupos que se reuniam em local previamente determinado em cartas e mapas.

Quando a Coluna entrava em Piancó, descargas certeiras alvejaram cavalos e cavaleiros. Daí por diante fechou-se o tempo, quando intenso tiroteio transformou Piancó em praça de Guerra. Vinha de ambas as partes, mas com maior intensidade, devido ao número de componentes, disparado pelos integrantes do movimento tenentista originado no sul do País.

 Coluna Miguel Costa–Prestes 
Costa é o quarto sentado (esq. para dir.) e Prestes, o terceiro.
In Ijuí Memória Virtual 


O ódio que a Coluna Miguel Costa - Prestes passou a devotar ao piquete do Padre Aristides teve seu recrudescimento quando ato considerado de alta traição inflamou os ânimos acirradíssimos dos combatentes.

Arruda contava, parece até que o estou ouvindo neste momento, que havia um preso de justiça em seu piquete. Esse detento, por bom comportamento, tinha tratamento diferenciado. Apelidaram-no de "preá", pois bastava dar-lhe uma rapadura que ele conseguia trazer do meio da caatinga qualquer cabra ou bode espavorido que por ventura se desgarasse do rebanho.

Conforme Arruda, havia visualizado sinal do Tenente Antônio Benício, delegado de Piancó, para que levasse quatro fuzis e um cunhete de balas para o piquete dele, ao que "preá" retrucou com toda razão ser impossível furar as mil modalidades de ataque dos revoltosos e chegar ao piquete do Tenente do outro lado da rua. Arruda teve a idéia de instruir "preá" para pendurar a camisa branca que vestia em um dos fuzis. Quando o defensor de Piancó saiu à rua com o fuzil hasteando a bandeira branca, imediatamente o código ético-militar da Coluna Miguel Costa - Prestes foi acionado, com os combatentes ensarilhando armas e respeitando a decisão contida no símbolo internacional.

Talvez por não saber o que acontecia na área defendida pelo então Sargento Manuel Arruda de Assis, o piquete do Padre Aristides aproveitou o momento de distração da Coluna Miguel Costa - Prestes para intensificar o tiroteio em direção ao grupo revoltoso. O resultado foi catastrófico, pois a Coluna teve muitos integrantes mortos e feridos.

Daí em diante era ponto capital para os comandados pelo General Miguel Costa e pelo Capitão Luiz Carlos Prestes chegarem ao piquete do Padre Aristides Ferreira da Cruz. A Coluna, então, lutou com gosto, botando para quebrar. Foi em direção aos defensores sediados na residência do vigário de Piancó com vontade de esbagaçar.

Arruda me contava que o Padre Aristides quando viu a coisa ficar preta mandou seu guarda-costa, de nome Rufino, subir no muro para ver o que acontecia. Rufino informou desesperado que a situação era periclitante, pois se fugissem morriam, se ficassem morriam do mesmo jeito. Nesse momento, a Coluna lançou duas bombas de efeito narcótico dentro da casa do Padre. O pessoal que lutava bravamente começou a demonstrar sonolência, ao que o Padre Aristides instruiu comerem açúcar. A luta era nos corredores, nas salas, em todo canto, quando uma ordem do comandante da investida, que calassem as baionetas de uma vez só, cessou a luta, enquanto o Padre Aristides pedia incessantemente garantias de vida para todos.

Covardemente o comando da Coluna Miguel Costa - Prestes assegurou as garantias. Todos que estavam na casa, incluindo o Padre Aristides e o prefeito de Piancó, o Sr. João Lacerda, bem como o filho deste, foram conduzidos a um barreiro e lá sangrados, um a um, e não fuzilados. A Coluna Miguel Costa - Prestes era formada majoritariamente por gaúchos, notabilizados pela selvageria das degolas, dos sangramentos, das lutas fraticidas que encharcaram os pampas em épocas passadas.

Padre Aristides, sentindo-se mortalmente ferido, implorou para que não fizessem aquilo com ele, pois era um sacerdote católico. As humilhações foram intensificadas, pois o martírio do Padre Aristides Ferreira da Cruz e sua gente foi um episódio macabro patrocinado pela ignominiosa covardia, pela efetiva traição de membros de um movimento que se autointitulava revolucionário, reformista, ou seja lá o que tenha sido ou digam ter sido, mas que não teve hombridade Enem humanismo para respeitar as vidas daqueles que já se achavam dominados e impossibilitados da mínima defesa.

Trabalho louvável, de suma importância para a compreensão de nossa história regional, intitulado "A Vida do Coronel Arruda, Cangaceirismo e Coluna Prestes", de autoria do ilustre Promotor de Justiça paraibano, Dr. Severino Coelho Viana, um dos mais cultos e inteligentes pombalenses, orgulho da terra de Maringá, constitui-se em brilhante contribuição para a literatura sobre o assunto que tanta polêmica suscitou, sobretudo quando dos embates do Padre Manoel Otaviano com o Coronel Manuel Arruda de Assis na época que ocupavam cadeiras na Assembléia Legislativa do Estado da Paraíba.


(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor do Departamento de Geografia do Campus Central da UERN. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.

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Imagem pescada no site da prefeitura municipal de Piancó. Confira um outro excelente texto sobre a passagem dos revoltosos por esta cidade: Clique aqui

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Jesuíno Brilhante

Para se tratar em sala de aula 
Por: José Romero Araújo Cardoso (Foto).

Chamava-se na verdade Jesuíno Alves de Melo Calado, nascido no ano de 1844. Era natural da zona do Patu, Estado do Rio Grande do Norte. O sítio Tiuiú foi seu reduto, firmando seu valhacouto inexpugnável na casa de pedra da serra do cajueiro, próximo ao local onde nasceu.

Fez-se chefe de cangaço devido intrigas com a família Limão, protegida por influentes potentados rurais das províncias do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Mello (1985, p. 92) afirma que "seus principais biógrafos são unânimes em reconhecer-lhe o caráter reto e justiceiro".

Jesuíno Brilhante agiu no semi-árido da Paraíba e do Rio Grande do Norte, quando a instituição do escravismo ainda vicejava de forma proeminente, cuja estrutura refletia as exigências da classe dominante em fazer valer seus interesses, em detrimento de valores humanos.

Esse cangaceiro transformou-se em Robin Hood, intervindo em prol dos humildes em diversas oportunidades, com ênfase quando da grande seca de 1877-1879, atacando comboios de víveres enviados pelo governo imperial, distribuindo-os com famintos e desvalidos dos sertões ermos e esquecidos.

Mello (id.; ibid.) afirma ainda que "como principais asseclas podem ser mencionados seus irmãos Lúcio e João, seu cunhado Joaquim Monteiro e mais os cabras Manuel Lucas de Melo, o Pintadinho; Antônio Félix, o Canabrava; Raimundo Ângelo, o Latada; Manuel de Tal, o Cachimbinho; José Rodrigues; Antônio do Ó; Benício; Apolônio; João Severiano, o Delegado; José Pereira, o Gato; e José Antônio, o Padre."

Entre as mais fantásticas de suas ações encontram-se o ataque à cadeia de Pombal, na Paraíba, no ano de 1874, e a resistência à prisão no Martins, Rio Grande do Norte, em 1876.
Embora tenha feito várias alianças com chefes políticos, a exemplo da firmada com o Comandante João Dantas de Oliveira, a fim de que houvesse condições de atacar a cadeia de Pombal, intuindo libertar o irmão e o pai que ali se encontravam prisioneiros, Jesuíno se indispôs com o mandonismo local devido sua ética cangaceira.

A negativa em assassinar eminente professor de nome Juvêncio Vulpis Alba, em Pombal, rendeu-lhe a inimizade com o todo poderoso Comandante João Dantas, o que resultou em conluio deste com o preto Limão para que o vingador sertanejo fosse assassinado.
Jesuíno morreu de emboscada na localidade de Riacho dos Porcos, em Belém do Brejo do Cruz, na Paraíba, no final da seca de 1879-1879, atingido por carga de bacamarte disparada pelo Pretro Limão, seu visceral inimigo.

Bibliografia consultada:

MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do Sol - O banditismo no nordeste brasileiro. Recife: FUNDAJ: Ed. Massangana, 1985: XVIII+310 p::20 fotos. - (Estudos e pesquisas, 36)
NONATO, Raimundo. Jesuíno Brilhante: O cangaceiro romântico. 2 ed. Mossoró/RN: Fundação Vingt-un Rosado, 2000.


(*) Trabalho organizado pelo professor Ms. José Romero Araújo Cardoso.


Auxilares de pesquisa:
Professora Tânia Maria de Sousa Cardoso- Pedagoga. Especialista em Literatura Brasileira.
Professora Angelina Maria - Poetisa e psicoepeadgoga
Coordenado por Eliana Cobbett.


Sugestões de temas abordados dentro do filme Jesuíno Brilhante - O cangaceiro, que podem ser trabalhados em sala de aula com os alunos

1. A grande seca - 1877-1879.

1.1 - O que representou a grande seca de 1877-1879 no sertão nordestino?
1.2 - Como acontece o fenômeno das grandes secas no sertão nordestino?
1.3 - Quais os problemas gerados.
1.4 - O que os sertanejos fizeram para sobreviver?
1.5 - O que o governo imperial fazia para ajudar a população na época da grande seca de 1877-1879.
 

2. Coronelismo como donos do poder, das terras, dos meios de produção e a abolição dos escravos em 1888.

2.1 - O que era ser escravo negro no Brasil?
2.2 - O que é Coronelismo?
2.3 - Por quê existiam escravos?
2.4 - Para que serviam os escravos?
2.5 - Como era feito o pagamento do trabalho escravo?
2.6 - De que países da África provinham os negros que aqui chegavam?
2.7 - Qual a relação existente entre patrão e empregado no período que vai de 1888 e os nossos dias?
 

3. Cangaceiros e bandidos.

3.1 - Qual a origem do nome cangaceiro?
3.2 - Quais os primeiros cangaceiros do sertão nordestino?
3.3 - Qual o mais conhecido cangaceiro do sertão?
3.4 - Qual a diferença entre Jesuíno Brilhante e Lampião?
3.5 - Por quê?
3.6 - O que é ser Robin Hood?
3.7 - Qual a diferença existente entre cangaceiro e bandido Robin Hood?
3.8 - Por quê Jesuíno Brilhante foi considerado herói " Robin Hood" do sertão mesmo sendo um fugitivo da lei?


Respostas aos temas propostos:
 

1. A grande seca - 1877-1879
1.1 - Representou um dos mais dolorosos flagelos à população do semi-árido nordestino, sobretudo as mais pobres. Houve intensa migração para a Amazônia e o Sudeste, além de incontáveis perdas humanas traduzidas em mortes. Animais domésticos e selvagens também morreram em profusão. A grande seca de 1877-1879 desestruturou os meios de produção e as forças produtivas do semi-árido.
1.2 - Pesquisas científicas comprovam que o fenômeno natural de aquecimento das águas do pacífico sul-americano, o El Niño, interfere na circulação da massa de ar nordeste, impedindo que massas de ar proveniente do sul, frias, se encontrem com massas de ar quente, oriundas do equador. Aliada a isso tem-se a barreira oro gráfica representada pelo planalto da borborema, que também impede a passagem de massas de ar que poderiam trazer chuvas.
1.3 - A agropecuária foi desestruturada, a miséria atingiu patamares estratosféricos. A morte se espraiou pelos campos nordestinos.
1.4 - Os sertanejos migraram em massa, sobretudo para a Amazônia e Sudeste. Os que ficaram na região comeram couro de cadeiras, móveis e sementes nativas, como a mucunã. Das cactáceas retiravam água.
1.5 - Enviava mantimentos para s coronéis fiéis ao império distribuir com a população,ao invés de democratizar o acesso,os potentados distribuíam com os correligionários.
2. Coronelismo como donos do poder, das terras, dos meios de produção e a abolição dos escravos em 1888.

2.1 - Ser escravo negro no Brasil, na maioria dos casos, era estar submetido aos mais desumanos suplícios, ser tratado, conforme João Antonil, membro da Igreja Católica que apoiou o escravismo, autor do livro Cultura e opulência no Brasil em suas drogas e minas, defendia que os negros tinham que ser tratados com três pês: Pano, pau e pano.
2.2 - Era uma política de compromissos envolvendo poderes imperial, provincial e municipais, surgida no Brasil Império com a guarda nacional, quando a obediência se fazia necessária. O Coronelismo assegurava plenos poderes aos potentados locais.
2.3 - Para fazer os trabalhos pesados nas lavouras e minas, bem como os domésticos, em razão de que acumulação da classe dominante exigia tal relação.
2.4 - Pela rebeldia dos índios em realizar trabalhos braçais, os escravos negros foram trazidos da África e brutalmente inseridos na exigência metropolitanas de gerar riquezas a todos custo.
2.5 - Era feita apenas como o fornecimento de parcos alimentos, toscas vestimentas e muita violência.
2.6 - Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, das colônias portuguesas.
2.7 - Das regiões de Angola e Guiné Bissau, ou seja, principalmente da África Ocidental, locais onde os Holandeses, fornecedores de escravos a Portugal, concetraram suas investidas desumanas.
2.8 - Como o país era eminentemente voltado para atividades agrárias, à exceção das áreas contempladas com a imigração estrangeira, havia predominância de relações sociais de produção pré-capitalistas, como a parceria, o arrendamento, a meia, etc. Depois, com os sucessivos processos de substituição de importações e o advento da industrialização, houve ênfase ao assalariamento.
3. Cangaceiros e bandidos.
3.1 - Há diversas hipóteses. Câmara Cascudo enfatiza que Cangaço era o conjunto de objetos miúdos dos pobres, equipamento que conduziam os valentões de outrora. Outra vertente diz que cangaço vem de canga, instrumento que subjuga os animais no trabalho do eito. A vida nômade no cangaço era estressante, razão por que os bandoleiros se apoiavam nas armas longas, parecendo que estavam na canga.
3.2 - Cabeleira, no século XVIII. Lucas da Feira, no século XIX. Rio Preto, no século XIX e Jesuíno Brilhante, no século XIX.
3.3 - Lampião e seu bando.
3.4 - Origens e ações. A origem de Jesuíno era vinculada ao mandonismo local, enquanto Lampião vinha de sitiantes humildes. Jesuíno se portava de forma honrada, enquanto Lampião se portava de forma ensandecida e tresloucada.
3.5 - Há estudos diversos sendo enfatizados, considerando desvios de comportamento.
3.6 - Com base no imaginário inglês, a tradição nos transmite que Robin Hood e seu alegre bando roubavam dos ricos para dar aos pobres. Robin Hood seria um bandido social que implementava justiça.
3.7 - O cangaceiro bandido é aquele que não tem ética e nem compaixão, enquanto o Robin Hood é o inverso.
3.8 - Devido a forma nobre e honrada como se portou, roubando os comboios de víveres quando da grande seca de 1877-1879 para distribuir aos pobre famintos, além de promover justiça às famílias desonradas.


José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor Adjunto do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Especialista em Geografia e Gestão Territorial e em Organização de Arquivos. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Simbologia

A Estrela Oculta do Sertão 

Por José Romero Araújo Cardoso (*)

Importante e valioso documentário, por título "A Estrela Oculta do Sertão", foi produzido na região nordeste, cujo destaque encontra-se no enfoque às tradições judaicas presentes nas práticas culturais do povo nordestino.

Protagonizado por médico paraibano de nome Luciano Oliveira, que por acaso perguntou a uma parenta sobre seus antepassados, obtendo como resposta às indagações provas suficientes, do vínculo com a antiga sefarade, que mudaram sua vida, "A Estrela Oculta do Sertão" afirma a veracidade de muitas histórias familiares espalhadas pelas quebradas do sertão nordestino.

Luciano Oliveira e sua equipe palmilharam diversos estados da região, intuindo comprovar a tese de que a genealogia de muitas famílias nordestinas está indissociavelmente atrelada ao sangue judeu.

Buscando subsídios em Pernambuco, na Paraíba e no Rio Grande do Norte, o protagonista desvenda antiquíssimas práticas culturais presentes no cotidiano do povo nordestino, como o costume de não varrer a casa passando lixo pela porta da frente, pois em um passado distante esta, na porta dos antepassados, continha um dos mais sagrados símbolos do judaísmo - A Mezuzá - pequena tabuleta de madeira impecavelmente trabalhada, contendo na parte de fora a letra SHADAI, primeira do Nome do Eterno Todo Poderoso, em hebraico, sendo que dentro contém os salmos, também na língua principal falada pelos judeus. Com a aculturação e a cristianização, quando da ênfase à efetivação dos cristãos-novos, a Mezuzá foi substituída pela cruz, indispensável em portas espalhadas por toda região.

Costumes presentes no dia-a-dia dos nordestinos, como o hábito de colocar pedras em cruzeiros no meio das estradas, também são esmiuçados no documentário, pois esta é uma das mais importantes manifestações de condolência judaica.

Nathan Wachtel, eminente professor do Collège de France, publicou importante livro, ainda em francês, sobre as tradições nordestinas, provando que as mesmas são eminentemente judaicas. O livro do professor Wachtell intitula-se La Foi Du Souvenir (A fé da lembrança)

Municípios localizados nos ermos distantes do sertão, como o pequeno Venha-Ver (corruptela de "Vir Chaver", em hebraico, ou seja, "Venha Amigo", a inquisição não lhe pega por aqui), localizado no alto oeste potiguar, foram visitados por Luciano Oliveira e equipe, cujo destaque encontra-se justamente na comprovação de que os moradores do lugarejo norte-riograndense descendem dos fugitivos da perseguição inquisitorial que se instalou em Pernambuco, na Paraíba e no Rio Grande do Norte após a expulsão dos holandeses.

No estado da Paraíba, há ênfase à visita de Luciano Oliveira e equipe à cidade de Pedra Lavrada. O protagonista é da família Cordeiro desse município, cujas ramificações se espraiam pelo estado do Rio Grande do Norte, chegando ainda a influenciar na denominação toponímica de localidade chamada São José dos Cordeiros.

Sobrenomes comuns às famílias nordestinas são de origem judia, pois quando da grande conversão forçada, no final do século XV, houve pacto entre os judeus para adotarem nomes de plantas, árvores, animais, lugar de origem,etc., objetivando se reconhecerem no futuro.

Oliveira, Cardoso, Fernandes Pimenta, Gurgel, Carneiro, Alencar, Mangueira, Nogueira, Carvalho, Pereira, etc., são exemplos de sobrenomes com vínculos judaicos, presentes, na região nordeste e outras regiões, bem como países, em listas telefônicas, nomes de ruas, chamadas de salas de aulas e muitos outros

O documentário "A Estrela Oculta do Sertão" peca em não falar sobre a fase áurea desfrutada pelos judeus quando da dominação holandesa (1630-1654), pois a resposta para a presença dos descendentes desse povo na região nordeste encontra-se justamente na tolerância que os mandatários da Companhia das Índias Ocidentais manifestaram quando da conquista do nordeste brasileiro, pois necessitavam de capital para levar avante a experiência concentrada na exponencial relação com o açúcar nordestino,na época impossibilitado de ser comercializado na Europa pelos holandeses devido rixa com os espanhóis.

A expulsão holandesa do nordeste brasileiro fez com que verdadeira "caça às bruxas" fosse instalada, com a requisição lusitana da presença da Santa Inquisição. A importância da presença judia no nordeste era tão proeminente que a primeira Sinagoga das Américas foi construída no Recife.

Com a celeuma causada devido à saída batava, o rabino da sinagoga pernambucana, de nome Isaac Aboab da Fonseca, conseguiu comprar, através de quotas com os membros da comunidade, um navio no qual rumaram para o norte, tendo chegado à costa nordeste dos atuais EUA, onde ajudam a fundar um núcleo populacional que levaria o nome de Nova Amsterdão, hoje cidade de Nova York. O rabino da sinagoga Novayorkina chama-se Abraão Cardoso, descendente dos judeus pernambucanos que migraram, fugindo das perseguições inquisitoriais.

Grandes personalidades que fazem parte do seleto rol dos estudos judaicos no Brasil e no mundo foram entrevistadas quando da produção de "A Estrela Oculta do Sertão", a exemplo de Nathan Wachtell, Anita Novinsky, Paulo Valadares, João Medeiros Filho e família, Marcos Filgueira, Odmar Pinheiro Braga, etc.

A Estrela a qual se refere o título do documentário, obviamente, é o hexagrama dos judeus, a Estrela de David, com seis pontas, símbolo contido na bandeira do Estado de Israel, o mesmo que se encontra disfarçada em uma rosa no frontispício do velho casarão construído no amo de 1870, em Pombal (PB), na atual rua Coronel João Leite, propriedade, em um passado não muito distante, dos criptojudeus pombalenses Aarão Ignácio Cardoso D´Arão e sua sobrinha e esposa Facunda Cardoso de Alencar.

O documentário chama a atenção para uma questão delicada que é a situação dos "anussins", os "marranos", convertidos que buscam o regresso, ou seja, os descendentes desses fugitivos que escaparam da região litorânea e buscaram abrigo nos mais longínquos recônditos espalhados nas quebradas do sertão nordestino.


Para quem se interessa pelas questões pertinentes ao nordeste brasileiro, "A Estrela Oculta do Sertão" surgiu como um dos mais importantes documentários sobre a região nordeste, devido elucidar e responder antigas indagações sobre as origens e as práticas culturais da população que aqui habita.

(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo (UFPB). Professor-adjunto do Departamento de Geografia da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Contato: romero.cardoso@gmail.com.


Nota Lampião Aceso: Este documentário está disponível no Youtube, dividido em 10 partes. Não conseguimos postar todas aqui no blog pois algumas destas tiveram seus códigos de incorporação bloqueados.
  

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Raimundo Soares de Brito

O brilho da cultura potiguar em toda intensidade

Por José Romero Araújo Cardoso

Raimundo: uma vida dedicada à cultura (Ricardo Lopes)


Raimundo Soares de Brito sintetiza e personifica um dos mais luminosos pontos da cultura potiguar, pois com esforço e obstinação vem contribuindo formidavelmente para o enriquecimento das letras e da preservação da memória em território potiguar.

A hemeroteca que estruturou é um dos mais importantes repositórios de informações sobre o Estado do rio grande do Norte, pois ávido colecionador de velhos jornais, velhos alfarrábios e tudo que tem letras e números, Rai Brito impressiona pelo amor ao saber e pelo desprendimento, pelo desinteresse em servir a quantos que o procura para pesquisas, consultas ou informações referentes a tudo que envolve o Rio Grande do Norte, mas sobretudo Mossoró e região oeste.

Escritor de raros dotes, Raimundo Soares de Brito escreveu importantes trabalhos enfocando da indústria e do comércio na região a tratado memorialístico fantástico que preserva figuras populares fascinantes com as quais conviveu. O livro por título "Eu, ego e os outros", publicado pela Editora Queima-Bucha, consiste no reconhecimento do grande intelectual potiguar à importância da maioria dos personagens simples e humildes da nossa terra. Se não fosse Raimundo Soares de Brito, pessoas como Mané Cachimbinho, Pata Choca, etc., tinham caído no esquecimento completo.

A geografia e a história mossoroenses foram enriquecidas com a publicação dos volumes do Dicionário de ruas e patronos, frutos da obstinação e da perspicácia de Raimundo Soares de Brito.


Talvez um dos mais marcantes trabalhos de Raimundo Soares de Brito seja "Nas garras de Lampião", publicado pela Coleção Mossoroense da Fundação Vingt-un Rosado. Esmiuçando o diário do "Coronel" Antônio Gurgel, prisioneiro do bando de Lampião em 1927, Rai Brito legou-nos interessantes notas históricas sobre espaço e tempo das agruras vividas pelo bravo sertanejo que viveu indesejado drama antes e após o frustrado ataque bandoleiro a Mossoró.

 Raimundo Soares de Brito, Aldivan Honorato e Vingt-un Rosado - 1980

Amigo pessoal de Raimundo Soares de Brito, sempre contestei a "mania exagerada de perfeição" que acompanha imemorialmente o grande mestre. Exemplo disso encontra-se na relutância em publicar fabuloso trabalho memorialístico sobre o "Coronel" Quinca Saldanha, chefe político de Caraúbas (RN) que em um passado remoto, inexplicavelmente, atendeu aos apelos da Aliança Liberal e cerrou fileiras com o governo de João Pessoa no Estado da Paraíba, enviando, inclusive, jagunços para lutar ao lado das tropas legalistas em Tavares (PB), quando da guerra civil de Princesa em 1930.

Raimundo Soares de Brito é referência quando o assunto envolve o âmbito cultural no Estado do Rio Grande do Norte, pois com dedicação ímpar tornou-se uma das maiores autoridades das letras na região, razão pela qual a universidade do Estado do Rio Grande do Norte não titubeou em conceder-lhe título de Doutor Honoris Causa.


Imagens: www.azougue.com

(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor-adjunto da UERN. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Dramas dolorosos do Nordeste

Notas sobre a grande seca de 1932 

Por José Romero Araújo Cardoso (*)

A grande seca de 1932 iniciou-se de fato em 1926, com um breve intervalo em 1929, tendo se configurado em verdadeiro cataclisma sócio-econômico na região nordeste nos anos seguintes, atingindo o ponto culminante no ano que a imortalizou, cuja calamidade fez com que o flagelo, tantas vezes repetido, assumisse proporções devastadoras, principalmente para a população carente.

Retirantes da Seca de 1932
Fonte:professorfranciscomello



Sob os auspícios do Ministério de Viação e Obras Públicas do Governo Provisório de Vargas, dirigido com decisão férrea pelo paraibano José Américo de Almeida, reiniciaram-se os trabalhos de açudagem no sertão. Obras paralisadas desde a década de 20 foram então progressivamente retomadas, tendo em vista que a confiança de Epitácio Pessoa nas oligarquias, enquanto condutora das obras públicas, fazendo valer as prerrogativas da descentralização político-administrativa da República Velha, não havia surtido nenhum efeito prático, pois na verdade houve avassaladora onda de corrupção.


Ressurgiam velhos projetos, paralisados desde a gestão de Arthur Bernardes (1922-1926), dos açudes como o Itans, o Gargalheira e Lucrécia, no Estado do Rio Grande do Norte, Boqueirão de Piranhas, São Gonçalo e Condado, no Estado da Paraíba, sendo que este último não constava na idealização original, inserido, com certeza, graças à intervenção de Ruy Carneiro, oficial de gabinete do Ministro de Viação e Obras Públicas, e Lima Campos, no Estado do Ceará, entre outros.

Flagelados da grande seca foram aproveitados nas obras que o Ministério de Viação e Obras Públicas implementava nos Estados Nordestinos. Multidões se formaram nos canteiros de obras, a grande maioria sem a mínima noção de higiene, sendo responsáveis pelo acúmulo de lixo e dejetos humanos em escala gigantesca.

O regime alimentar, composto basicamente por farinha e carne seca, agravou o quadro de desnutrição crônica da população flagelada, aumentando ainda mais a possibilidade de acontecer um surto epidêmico.

No final de dezembro de 1932, quando as chuvas finalmente começaram a cair no Nordeste, o inevitável aconteceu através de um impressionante combinado de infecções que Orris Barbosa, em célebre e clássico livro intitulado "Secca de 32 - Impressões sobre a crise nordestina", distinguiu como sendo do grupo coli-tífico-desintérico. Em janeiro, fevereiro e março de 1933 as cifras da mortandade entre os "cassacos" alcançavam números impressionantes.

Proliferação de moscas em verdadeiros enxames contribuiu acentuadamente para disseminar os germes causadores de doenças gastro-intestinais. Em pouco tempo os campos de trabalho estavam atulhados de cadáveres da desdita da seca do século XX.

Crianças, portadoras de um quadro lastimável de desnutrição, foram as mais penalizadas, registrando a maioria dos óbitos da grande epidemia que assolou o nordeste brasileiro na década de 30.

Em um trabalho de profundo humanismo e comprometimento, foi organizada pelo Ministro José Américo verdadeira cruzada assistencial às pessoas castigadas pelo surto epidêmico, formando a "Comissão Médica de Colaboração à Assistência e Profilaxia aos Flagelados", dirigida pelo Dr. José Bonifácio P. da Costa. O Departamento Nacional de Saúde Pública também formou comissão objetivando "inspecionar as zonas infestadas e determinar as medidas imprescindíveis à profilaxia da região" (BARBOSA, 1935, p. 67-74).

A infestação, assumindo proporções desesperadoras, era um desafio à profilaxia, o que fez com que o Departamento Nacional de Saúde Pública invocasse a participação imediata dos departamentos de higiene dos Estados acometidos pelo surto devastador, iniciando-se um intenso policiamento de focos de moscas e mosquitos.

Gradativamente a peste foi sucumbindo à ação inexorável da competência das ações do Ministério de Viação e Obras Públicas do Governo Provisório de Vargas em prol da debelação de um dos maiores flagelos que já assolou o nordeste, cuja união nefasta com a seca fê-la marca indelével no imaginário popular que ainda guarda na lembrança o grande desafio que foi vencer a maior epidemia que o nordeste foi submetido, de forma inclemente, na década de 30 do século passado.

Bibliografia Consultada:

BARBOSA, Orris. Secca de 32 - Impressões sobre a Crise Nordestina. Rio de Janeiro/RJ: Andersen Editores, 1935

Imagem: Flagelado assistido no Campo de Concentração da Terra de Iracema.

(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo (UFPB). Professor-adjunto do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Especialista em Geografia e Gestão Territorial (UFPB) e em Organização de Arquivos (UFPB). Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente - PRODEMA - UERN. Contato: romero.cardoso@gmail.com.

domingo, 2 de maio de 2010

Notas sobre entrada de Sabino das Abóboras no cangaço

Entrevistas com Hermosa Góes Sitônio e Zacarias Sitônio (João Pessoa - PB)

Por: José Romero Araújo Cardoso
 


A fazenda Abóboras está situada entre os municípios pernambucanos de Serra Talhada e Triunfo. Além da sede, destacam-se as pequenas propriedades ao redor, pertencentes ao espólio central, como a Pereiro, Xique-xique, etc.. Pertenceu ao "Coronel" Marçal Florentino Diniz, sendo permutada pelo sítio Baixio, em Princesa (PB), com o casal José Pereira Lima - Alexandrina Pereira Lima, sua filha e sobrinha do esposo. Zé Pereira transformou-a em importante empresa rural, grande produtora de algodão e de outros produtos sertanejos, exportados pela poderosa família Pessoa de Queiroz.

As Abóboras e o seu entorno se transformaram em valhacouto de Lampião. O cangaceiro a frequentava regularmente, talvez como forma de dar vazão ao seu imaginário e concepção de homem de projeção social, como sempre desejou.

Sabino Gório nasceu e foi criado nesta fazenda mantendo contatos ininterruptos com famanazes do banditismo rural sertanejo. Era homem da confiança de Marcolino Pereira Diniz.

Ao contrário do que Leonardo Motta e Rodrigues de Cavalho enfatizaram, Sabino das Abóboras, conforme revelaram Zacarias Sitônio e Hermosa Góes Sitônio, não entrou para o cangaço devido morte de um irmão de nome Gregório. Asseguraram que a inserção do temido pernambucano nas hostes do banditismo rural sertanejo, cuja participação na tentativa de ataque a Mossoró, em junho de 1927, foi enfática, se deu em razão do assassinato de um primo legítimo de nome Josino Paulo, surdo-mudo martirizado por Clementino Quelé, o célebre "tamanduá vermelho" das pilhérias dos cangaceiros.

A razão para o trucidamento do inocente Josino Paulo deveu-se à morte de um irmão do valente Quelé, vitimado por balas disparadas por irmão da vítima, de nome José Paulo.

No combate que definiu a entrada de Sabino das Abóboras no perigoso mundo do cangaço, Quelé se encontrava acamado, vitimado por bexiga. Conforme os entrevistados, o famoso guerreiro de Santa cruz da Baixa Verde (PE) se deslocou, como um raio, até uma das fazendolas que circundam as Abóboras, com o propósito deliberado de levar avante vingança, não se importando a quem atingia.

Poucos cangaceiros foram tão cultivados, fora o chefe Lampião, do que Sabino Gório, cuja presença no cangaço a cultura popular se encarregou de perpetuar, a exemplo da trova divulgada pelas quebradas do sertão, a qual dizia:  
"Lá vem Sabino mais Lampião, chapéu quebrado, fuzil na mão".

Entrevistas Pessoais:
SITÔNIO, Hermosa Góes. João Pessoa (PB), 10 de agosto de 1991.
SITÔNIO, Zacarias. João Pessoa (PB), 10 de agosto de 1991.

(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor da UERN.

terça-feira, 27 de abril de 2010

"Lampeão, sua história"

Objetivos da primeira biografia erudita do "rei do cangaço"

Por: José Romero Araújo Cardoso

Publicada no ano de 1926, pela Imprensa Oficial do Estado da Parahyba, o livro "Lampeão, sua história", de autoria do jornalista Érico de Almeida, é a primeira biografia erudita do "rei do cangaço".

Almeida militou anos a fio no Jornal paraibano "O Norte". Quando da ênfase às inovadoras políticas públicas encabeçadas pelo governo Epitácio Pessoa na presidência da República (1919-1921), engajou-se como funcionário do Ministério da Agricultura, lotado no Escritório deste órgão em Princesa (PB), cujo objetivo principal consistia em combater a lagarta rosada, a qual era sério problema para a cultura algodoeira, principal produto da pauta de exportações do Estado da Paraíba na época.

Quando do término do triênio Epitacista, houve total desestímulo dos esforços, empreendidos por parte do sucessor, o mineiro Arthur Bernardes, que escandalizado com a onda de corrupção que marcou o período anterior desestruturou as obras de açudagem e outros projetos importantes, incluindo a campanha contra as pragas que atingiam os algodoais.

Com o fechamento dos Escritórios do Ministério da Agricultura espalhados pelo Estado da Paraíba, inclusive o posto estabelecido em Princesa, Érico de Almeida ficou desempregado, como muitos outros, tendo gerado a sensibilidade do "Coronel" José Pereira Lima, que resolveu unir o útil ao agradável, talvez levando em conta o consórcio do jornalista com mulher da localidade, da família Duarte, de nome Rosa.

Devido ao ataque cangaceiro a Sousa (PB), pois antes Lampião desfrutava de proteção integral na região, graças ao acordo firmado com o "Coronel" Marçal Florentino Diniz e seu filho Marcolino, Zé Pereira se viu na contingência de desviar a atenção dos fatos através da ênfase à literatura voltada para a negação do óbvio.

O ofício de jornalista auxiliou bastante Érico de Almeida quando foi contratado para escrever o que seria a primeira biografia erudita de Lampião, pois o costume de anotar tudo quando do exercício de suas funções como funcionário do Ministério da Agricultura foi de fundamental importância para a elaboração de sua obra.

Os objetivos do livro são claros, pois negar a melindrosa relação de coiterismo que existia há tempos imemoriais na região de Princesa não era tarefa fácil. Lampião, sentindo-se traído, passou a berrar aos quatro cantos as facilidades e as serventias de sua "profissão" aos que estavam lhe perseguindo tenazmente devido à forma como se efetivou o ataque cangaceiro à cidade de Sousa.

No livro "Lampeão, sua história" há a defesa que as perseguições aos cangaceiros datavam de antes do "rei do cangaço" decidir enviar seus homens para levar avante a vingança pretendida por humilde bodegueiro da localidade de Nazarezinho (PB), então distrito de Sousa, contra importante oligarca local de nome Otávio Mariz.

Episódios conhecidos da história do cangaço, como a morte de Meia-Noite nos grotões ermos do saco dos Caçulas, foram deturpados propositalmente a fim de eximir de culpas importantes personagens que fizeram a história do movimento, como Manuel Lopes Diniz, conhecido por Ronco grosso, homem da inteira confiança dos "Coronéis" José Pereira Lima, Marçal Florentino Diniz e de Marcolino.

O livro de Érico de Almeida não cita que Lampião passou meses sendo cuidado nos Patos de Irerê por dois médicos, depois que foi ferido gravemente no tornozelo pelos disparos feitos pelos volantes comandados pelo Major Teófanes Ferraz Torres, da força pública pernambucana.

João Suassuna, presidente paraibano na época, é elevado à categoria de verdadeiro santo protetor, exponencializando consideravelmente a campanha deflagrada pelo gestor paraibano contra os cangaceiros. A forma como Érico de Almeida trata Suassuna em seu livro levou literatos de peso a afirmarem categoricamente que se tratava de um pseudônimo utilizado pelo presidente paraibano para se autopromover.

Elpídio de Almeida afirmou que era Suassuna o real autor do livro, enquanto Mário de Andrade, sutilmente, em "O Baile das Quatro Artes", enfatizou que havia comentários de que realmente era Suassuna o autor da primeira biografia erudita de Lampião.

Em contato com pessoas que conheceram o jornalista, quando de sua estadia em Princesa, a exemplo dos senhores Zacarias Sitônio, sua esposa Hermosa Goes Sitônio e Belarmino Medeiros, todos residentes em João Pessoa (PB) na época do resgate do livro de Érico de Almeida, encontramos provas suficientes sobre a real existência do autor, como a certidão de casamento e fotografia em que aparece discretamente o jornalista.

Entrevistado em Limoeiro do Norte (CE), quando da fuga alucinada depois da tentativa de ataque a Mossoró (RN), no ano seguinte à publicação do livro de Érico de Almeida, Lampião destilou ódio contra o "Coronel "José Pereira Lima, chamando-o de falso e mentiroso, pois havia se beneficiado com todos os favores de sua "profissão" e depois o havia traído.

Após a revolução de trinta, o livro de Érico de Almeida foi sendo gradativamente esquecido, colocado entre os malditos, fruto de uma estrutura carcomida que precisava ser apagada em prol da edificação de uma nova ordem econômica, política e social.

Com o apoio indispensável do senhor Zacarias Sitônio,que apresentou-nos o livro raro escrito pelo jornalista Érico de Almeida, conseguimos resgatá-lo, no ano de 1996, após matéria publicada no jornal paraibano "Correio da Paraíba", datado do dia 12 de agosto de 1995, sendo reeditado, setenta anos depois, pela editora universitária da UFPB, que se responsabilizou pela terceira edição em 1998.

Não obstante os profundos vínculos com as estruturas de poder dominantes na República Velha, era imprescindível que o livro "Lampeão, sua história" saísse do ostracismo ao que foi relegado pelos novos mandatários que assumiram o poder com a vitória dos revolucionários em outubro de 1930, pois cessando os exageros existem informações preciosas sobre o ciclo épico do cangaço e sua época que não podem ficar ocultas dos historiadores e dos que apreciam as velhas coisas sobre o semiárido do nordeste brasileiro.

(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo (UFPB). Professor-adjunto do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, Campus Central, Mossoró/RN. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA/UERN)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Métodos de sangramento utilizados por volantes e cangaceiros

Entrevistas com o Coronel Manuel Arruda de Assis (Pombal - PB)

 

Por: José Romero Araújo Cardoso


O sangramento era um dos crimes mais hediondos cometido no sertão nordestino no tempo do cangaço, praticado tanto por tropas volantes, as quais dispunham de "sangradores oficiais", como por cangaceiros.

Símbolo de uma cultura forjada pela colonização erigida sob a ênfase da força e da violência, responsável pelo extermínio dos índios que habitavam a hinterlândia, a "técnica" de sangramento foi aperfeiçoada ao máximo. A razão econômica da penetração interiorana exigia que o gado criado de forma ultra-extensiva fosse, necessariamente, abatido para o consumo de uma minoria privilegiada da população, principalmente a do litoral canavieiro. No sertão, se tornou um "trabalho de mestre" matar sangrando a jugular ou a carótida.
  

As carótidas são duas artérias, a comum direita e a comum esquerda, sendo que a comum direita é originária do tronco braquiocefálico e a comum esquerda é originária do arco aórtico. A ruptura dessas artérias significa morte certa. A hemorragia violenta na via arterial do fluxo de sangue da aorta se encarrega de tudo.
  
Quando o soldado João da "mancha", considerado inclusive por seus antigos colegas de farda, como um psicótico, extravagante sangrador das forças volantes paraibanas, rompeu, com um bisturi pertencente ao medico Luiz de Góes, a carótida do advogado João Dantas, assassino do presidente João Pessoa, quando de sua detenção na penitenciária do Recife (PE). 

João Dantas estava preso na companhia do cunhado, o engenheiro Augusto Caldas, também assassinado com a mesma "técnica". O "serviço" fora feito por um profissional macabro que conhecia muito bem o seu "ofício". O militar sabia milimetricamente onde iria romper a artéria, visto que a luta corporal travada entre o intrépido advogado João Dantas e os seus algozes impediu o seccionamento no ponto exato, como pretendia Dr. Luiz de Góes. Conforme Arruda, só alguém que estava profundamente em contato com a "arte" de sangrar poderia ter feito um "trabalho" com tamanha perfeição.
  
As veias jugulares, outras que também eram preferidas pelos "sangradores" das lutas do cangaço nordestino, são de extrema importância para o organismo. A veia jugular interna é a principal. Ao rompê-la é quase impossível de haver qualquer possibilidade de salvação, a não ser que haja modernas técnicas de reversão, como presença de médicos e hospital, praticamente inexistentes nos ermos esquecidos dos sertões de outrora, embora ainda hoje encontremos tal situação em diversos lugares espalhados pelo nordeste e pelo Brasil afora.
  
Com o comprometimento da veia braquiocefálica, poucas chances de vida havia às vítimas desse suplício macabro promovido por solados e bandidos no sertão do cangaço, principalmente quando do apogeu de Lampião. Essa veia se anastomisa com a veia braquiocefálica direita, formando a veia cava superior, de fundamental importância à manutenção da vida.
  
Lampião era expert nesta técnica, dispondo para isso de imenso punhal de setenta centímetros de lâmina. Tarimbado na lida do campo, sobretudo no que diz respeito à pecuária, fornecendo peles e couros ao "Coronel" Delmiro Gouveia, com quem a família Ferreira negociava, o "rei do cangaço" inovou e utilizou-a profusamente quando de sua chefia no cangaço (1922 - 1938).
  
A veia jugular externa, quando rompida, representa morte certa. Essa veia é constituída da junção da veia retromandibular com a veia auricular posterior, e, após vários estágios de grande importância, desembocará, mais frequentemente, na veia subclávia.
  
Segundo o Coronel Manuel Arruda de Assis, (Foto abaixo) sobre quem há registros históricos indeléveis, tendo marcado de forma extraordinária a história das lutas do povo do semiárido nas primeiras décadas do passado século, outro método bastante utilizado por ambas as partes envolvidas nas lutas, consistia em perfurar a clavícula, introduzindo-se, com violência, o instrumento perfuro-contudente diretamente na aorta, junto ao coração.
  
Depois da hecatombe de Piancó (PB), ocorrida no mês de fevereiro do ano de 1926, cuja participação do velho guerreiro das hostes volantes, natural do município de Pombal (PB), fora decisiva e marcante, houve aprisionamentos de militares da coluna Prestes, bem como da cozinheira da milícia que pregava novos rumos. Era uma baiana conhecida entre os revoltosos por tia Maria. Apenas um escapou da triste sina, devido aos apelos de muitos no sertão, inclusive do Padre Cícero.
  
Conforme ainda o entrevistado, um prisioneiro quando do sangramento pelos militares comandados pelo Coronel Elísio Sobreira, revelou ter feito muito isso quando da marcha da coluna, entre os diversos combates que travou.
  
Coronel Elísio Sobreira

Ainda em Piancó (PB), Arruda relembrou a chacina do barreiro, a qual vitimou o Padre Aristides Ferreira e diversos camaradas que lutaram bravamente para tentar conter o avanço da coluna. Todos foram sangrados por membros da coluna, consternados com as mortes dos cavalarianos que formavam a vanguarda da Coluna Miguel Costa - Prestes, os quais chegavam na cidade de Piancó (PB), e terminaram alvejados pela pontaria certeira do então sargento Manuel Arruda de Assis.

  
Entrevista Pessoal: ASSIS, Manuel Arruda de Assis. Pombal (PB), 27 de abril de 1989.
Adendo: Coronel Arruda nasceu em 1898, na cidade de Pombal, e morreu em 1991, sem nunca ter casado.
 

João da "mancha": 
O soldado sangrador "oficial" da tropa volante do Tenente Ascendino Feitosa - 
Entrevista com o Coronel Manuel Arruda de Assis (Pombal - PB)
 
Embora fosse soldado contratado da Polícia Militar do Estado da Paraíba, João da "Mancha" serviu, particularmente, às intrigas pessoais do Tenente Ascendino Feitosa contra membros da família Dantas, naturais de Mamanguape (PB), mas radicados na serra do Teixeira (PB).
 
Conforme o Coronel Manuel Arruda de Assis, o temperamental oficial que servia à causa do presidente João Pessoa, ferrenho inimigo de um sertanejo de nome Silveira Dantas, para quem levou grande desvantagem numa briga em certa ocasião, nutria atenção especial pelo humilde e perverso soldado. De acordo com o entrevistado, esse militar de baixa patente era o braço executor dos sangramentos perpetrados, sobretudo, pela volante do Tenente Ascendino. Ele tinha uma mancha escura no rosto, razão pela qual foi-lhe dado esse apelido.
 
Outro militar paraibano a quem João Pereira de Sousa, o sangrador João da "mancha", serviu, foi ao Tenente João Maurício da Costa. Arruda revelou que foram inúmeros combates contra cangaceiros, de cuja participação desse soldado fôra registrada, algumas marcantes. Manuel Arruda de Assis revelou que em certa ocasião esse soldado foi condecorado, ganhando divisa de cabo, mas devolveu-a e preferiu voltar a ser soldado raso.
 
A notoriedade desse militar foi granjeada no ensejo da tomada da penitenciária em que se encontravam presos o Dr. João Duarte Dantas e seu cunhado Augusto Caldas, o primeiro, assassino do presidente João Pessoa e, o segundo, uma inocente vítima das intrigas políticas.
 
 Após assassinar o carismático chefe do executivo paraibano, em Recife (PE), o filho do "Coronel" Franklin Dantas, executor confesso do crime, cujo ato cheio de fúria fôra presenciado por diversas pessoas, era ameaçado constantemente pelos revoltados paraibanos. Ameaçaram sangrá-lo assim que a revolução triunfasse e a Aliança Liberal chegasse ao poder.
 
Quando as tropas comandadas por Juarez Távora, ativo integrante da Coluna Prestes, chegaram ao Recife, o primeiro local visado pelos militares paraibanos foi a casa de detenção onde se encontravam presos João Dantas e Augusto Caldas , os quais se tornaram alvos preferenciais dos comandados por Ascendino Feitosa, estando entre estes João da "mancha" e o médico Luiz de Góes. Conforme o entrevistado, esse médico era capaz de tudo, regido por verdadeiro espírito sanguinário.
 
Dominados os prisioneiros, Luiz de Góes apontou a Ascendino a carótida. João Dantas entrou em luta corporal com seus algozes, sendo atingido na sobrancelha. Com precisão invulgar, João da "mancha" recolheu o bisturi e aplicou certeiro golpe no local indicado, pondo fim à vida de João Dantas. O entrevistado revelou que o corpo do advogado foi profanado de diversas maneiras, mesmo quando estertorava. Em seguida, o engenheiro Augusto Caldas teve o mesmo fim, morrendo implorando para que o deixassem cuidar da família.
 
Segundo Manuel Arruda de Assis, era comum solicitar a presença de João da "mancha" quando cangaceiros eram aprisionados. No combate de 1923, quando o sucessor de Sinhô Pereira foi ferido no tornozelo, no qual pereceram Lavandeira e Cícero Costa, dois cangaceiros de importância fenomenal no bando de Lampião, ambos foram sangrados pelo frio soldado volante que se aperfeiçoou em matar usando o extremo da covardia e da perversidade.


Entrevista Pessoal: ASSIS, Manuel Arruda de. Pombal (PB), 25 de abril de 1989.
  

(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor da UERN.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Coronel Manoel Benício

Notas sobre um comandante paraibano de forças volantes

Por: José Romero Araújo Cardoso
 

cel. Manoel Benício, está sentado da esquerda para direita
Em uma época marcada pela violência e ousadia, Manoel Benício encarnou de forma extraordinária a valentia, a astúcia e a sagacidade a fim de enfrentar provas de fogo inauditas pelos ermos distantes das quebradas do sertão.
As táticas cangaceiras eram tão complexas que somente alguém com o mesmo sangue frio dos bandoleiros poderia alcançar sucessos quando das diligências para fazer valer a lei e a ordem em uma terra marcada pela absoluta ausência de amor ao próximo.

Manoel Benício sintetizou tudo isso, pois com coragem extrema alcançou seus objetivos militares em diversos momentos históricos que marcaram o sertão paraibano. Em 1912, quando da campanha política que envolveu Rêgo Barros e Castro Pinto, através da mazorca promovida pelos chefes políticos de Alagoa do Monteiro, representado pelo Dr. Augusto Santa Cruz, e de Teixeira, com o Dr. Franklin Dantas, pai do bacharel João Duarte Dantas, assassino do Presidente João Pessoa em julho de 1930, Manoel Benício conseguiu ludibriar um piquete formado por jagunços dos caudilhos, matando sete inimigos, de uma forma que apenas quem tinha profunda insensibilidade poderia conseguir, pois uma das características do Coronel Manuel Benício era justamente total apatia à vida e à morte.

O comandante paraibano de forças volantes guardou até a morte um rosário de orelhas dos cangaceiros mortos em combate. Cada membro tinha precisa identificação, pois dotado de memória prodigiosa Manoel Benício sabia a quem pertencia e em qual combate conseguiu matar determinado bandoleiro, cuja “lembrança” era mantida como troféu de guerra.

Exemplo de como Manoel Benício era frio e calculista encontramos na história de uma perseguição a cangaceiro no vale do Piancó. Altas horas da madrugada, Manoel Benício teve um encontro inesperado com o bandido que perseguia. Era questão de milésimo de segundos para decidir a sorte. Gritando bem alto que não atirassem pelas costas no homem à sua frente, sem ninguém na retaguarda, o valente militar conseguiu a distração necessária do inimigo para abatê-lo com certeiro tiro.

Em boa parte da história da Polícia Militar do Estado da Paraíba no século XX encontra-se a constante presença de Manuel Benício. Não obstante a amizade com Francisco Pereira Dantas, foi Manoel Benício quem comandou a tentativa de captura do cangaceiro paraibano no sítio Pau ferrado, na época pertencente ao município de Pombal (PB). No tiroteio do sítio Tataíra, entre Princesa (PB) e Triunfo (PE), quando o cangaceiro Meia-Noite foi cercado, tendo se imortalizou nas crônicas cangaceiras, também foi Manoel Benício quem comandou a diligências, auxiliado pela tropa de “cachimbos” contratada pelo “Coronel” José Pereira Lima.

Em Princesa (PB), quando da deflagração da guerra civil em 1930, contra o governo de João Pessoa, Manoel Benício se destacou como bravo combatente, tendo participado de combates importantes, a exemplo de Tavares (PB), quando a tropa comandada pelo Capitão João Costa ficou literalmente sitiada durante os seis meses de luta, comendo “pipoca e pipoco”.

Atendendo os requisitos necessários exigidos por sua época, ou seja, matar o maior número possível de adversários, Manoel Benício chegou ao coronelato na Polícia Militar Paraibana, destacando-se entre bravos que enfrentaram verdadeiras feras, bandoleiros e insurrectos que, ao lado dos volantes, protagonizaram façanhas impressionantes que marcaram uma época atribulada no sertão nordestino.

(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor da UERN.

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OBS: A FOTO do Manuel Benício, postada acima, foi acrescentada por nós no sentido de enriquecê-la.