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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Marqueteiro nato

Mentiras que Lampião ‘soltava’

Por Sálvio Siqueira

Lampa e Abrahão...Tome nota, seu Benja!
O fenômeno cangaço brotou regado de sangue, suor, lágrimas e foi adubado com os corpos daqueles que tombavam nas terras semiáridas do sertão nordestino. Diante da arrogância, prepotência e imponência dos poderosos dominantes de uma região pobre e ‘esquecida’ pelos governantes, alguns nordestinos desviaram-se de sua conduta honrosa para tentar sobreviver ante o devastador mundo do poder.

Os flagelos causados por fenômenos naturais, segundos estudos de sociólogos, pesquisadores/historiadores renomados, por diversas vezes ao longo do tempo foi uma das principais causas do surgimento de grupos de homens errantes que passaram a aterrorizar as quebradas do sertão nordestino. Para sobreviverem, alguns dos chefes de bandoleiros faziam alianças com latifundiários, ‘coronéis’, políticos e comerciantes numa espécie de ‘favores’ trocados.

As grandes secas que assolavam a região do semiárido nordestino, que sem elas já era uma batalha para sobreviver, passa a aumentar em números alarmantes as dificuldades, sofrimentos, fome e sede de uma comunidade carente de ações políticas regionais. O sertanejo então, desde o seu nascer, é induzido a crenças que o fazem, em parte, aceitar seu sofrimento, flagelo e morte sem notar que a maior parte daquilo tudo é simplesmente a falta de atenção das pessoas que estavam com as rédeas do poder nas mãos.

Ao longo do tempo, governantes e religiosos sempre se destacaram com pactos quanto ao destino das pessoas. Os governantes por não fazerem, cumprirem com a responsabilidade de práticas e ações sociais para com o povo e, os religiosos fazendo com que as pessoas não notassem essa falta de responsabilidades daqueles por elas escolhidas para lhes governar, lavando seus cérebros, deixa a culpa toda para um Ser Supremo. Achando que todo seu sofrimento é determinação divina, morriam pelos caminhos e veredas empoeiradas do sertão pedindo perdão pelos pecados que jamais comentaram. O misticismo, a religiosidade, o sebastianismo, em fim... as crenças trazidas da Europa por nossos colonizadores, travou o desenvolvimento intelectual da maioria da população brasileira. É fato.

O sertão nordestino sempre pariu homens e mulheres fortes e destemidos. Pessoas que foram forjadas pelo calor calcinante de um sol que parece estar mais próximo, pela brisa leve e seca que ao bater na pele parece gumes de pequenas navalhas e por um bioma que se despe entrando em uma espécie de hibernação para sua própria proteção e sobrevivência. Essa última mostrando vida e morte, verde e cinza, numa contraste constante de renovação periódica, obrigando as pessoas a se adaptarem ou padecerem em suas entranhas.

No sertão, as pessoas, ainda hoje, têm a ‘palavra dada’ como um valor inestimável. A garantia ou a promessa oral, verbal, vale muito mais do que suas assinaturas abaixo de rascunhos numa folha de papel. Muitas delas consideram que palavra dada era igual ouro, um metal que não enferruja. Porém, como em tudo nessa vida tem exceções, essa regra também as teve. Palavras foram quebradas, mentiras foram soltas ao vento causando dores, lágrimas e mortes de inocentes.

Sabedor das crenças dos conterrâneos, Lampião, em sua grande sabedoria, passa a usar de artimanhas, mentiras, para conquistar a adesão, amizade e respeito, da população sertaneja. Primeiro por ser um dos grandes motivos para sua sobrevivência, segundo para se mostrar benfeitor ou mesmo o justiceiro que nunca o fora. Pois bem, como exemplo, contaremos um caso que ocorreu no município de Flores, PE, em junho de 1925, quando Lampião praticou duas grandes atrocidades a um cidadão do Pajeú das Flores.

Para começo de conversa, Lampião sempre referiu que nunca havia invadido a cidade de Flores, PE, devido à mesma ter como ‘Padroeira’ a Santa Nossa Senhora da Conceição. Ora, o povoado de São Serafim, hoje cidade de Calumbi, PE, bem próxima a Flores, também tem por padroeira a mesma santa, e nem por isso o “Rei Vesgo” deixou de invadir e pintar o escarcéu naquele lugarejo. Roubou, extorquiu e estuprou, só não matando devido algumas pessoas alvo, terem fugido para dentro da Mata Branca, muito antes da sua entrada no povoado.

Entre Triunfo e Calumbí, ambas no sertão do Pajeú das Flores, microrregião do interior pernambucano, existe uma serra por nome de Caititu. Nela, Lampião fez moradia temporária devido sua posição, e sua geografia permitir muito pouco alguém escalar. Sabedor das dificuldades naturais da serra, Lampião usa-os como aliado e, foi não foi, estava nela acoitado, principalmente por haver uma gruta bastante ampla chamada de ‘casa de pedra’.

A Serra do Caititu, ficando próximo aos limites do município de Flores, PE, Lampião envia um emissário para dois cidadãos, um que morava no Sítio Melancia e outro próximo ao sítio Saco dos Bois, propriedade d’um grande coiteiro de Virgolino, o major Ernesto. O emissário leva dois dos famosos bilhetes de extorsão que tanto o chefe mor do cangaço usou com suas vítimas. Eram dois, porém, tinham o mesmo conteúdo, pediam uma determinada quantia.

Segundo o pesquisador Louro Teles, em seu “A Maior Batalha de Lampião – Serra Grande e a Invasão de Calumbi”, os dois eram donos de engenhos de rapadura e eram envolvidos na política regional, dois fatores que conquistaram a cobiça do cangaceiro.

Um desses cidadãos chamava-se Matias Moreira. Esse, ao receber o pedido de dinheiro responde malcriadamente, dizendo:

“- Diga a ele que se ele quiser dinheiro, vã trabalhar como eu trabalhei! Eu não tenho dinheiro para bandido, não!” (LT, 2017)
O morador do sítio Melancia chamava-se José Calú, ou Calu. Que também negou o envio de alguns mil réis. As férias, quantia em dinheiro, prevista pelo “Rei do Cangaço” não deu certo. O ‘apurado’ foi por ‘água abaixo’ e isso sempre deixava o cangaceiro bastante zangado. Além disso, os dois teriam que servirem de exemplo para o restante da população da região perdendo suas vidas ou sendo bastante torturados.

Deixemos o caso de Matias Moreira para outra oportunidade.

Em vários e vários livros sobre esse fato, o caso de José Calu, vem em suas entrelinhas que Lampião ficando sabendo que o mesmo mantinha relações sexuais com suas filhas, resolveu castiga-lo. “Conversa vai, conversa vem, José Josino contou-lhe que um sujeito chamado José Calu, que era viúvo, matinha relações sexuais com as próprias filhas – um escândalo sem limites, o povo comentava isso como sendo o fim do mundo. Lampião também ficou horrorizado e resolveu dar uma lição de moral no miserável (...) Zé Calu estava se aprontando para ir à feira, quando Lampião chegou à fazenda com seus cabras. O cangaceiro pediu dinheiro.

Zé Calu disse que não tinha. Lampião sabia que ele estava mentindo, pois Zé Calu era dono de engenho de rapadura, com certeza tinha dinheiro escondido em casa. Depois de determinar que pusessem piquetes na estrada para evitar que alguém fosse à cidade avisar as autoridades, lampião mandou que amarrassem Zé Calu pelos testículos e o pendurassem no gancho de um armador de rede. E isso foi só o começo. Zé Calu foi submetido a rigoroso interrogatório sobre as feias práticas que lhe eram imputadas. O homem negou tudo, jurou que era mentira do povo, mas ão teve jeito, os cangaceiros puxaram a corda fazendo-o subir e descer várias vezes, pendurado pelos tesyículos, urrando de dor, enquanto Lampião repetia:

- Isso é pra você aprendê a respeitá suas fia, seu disgraçado!” (BI, pg 180, 2014)

No dia 4 do mês de Santana de 1925, Lampião deixa o esconderijo da ‘casa de pedra’ na serra do Caititu, desceu a serra e foi procurar pelos donos de engenhos que lhe negaram o dinheiro. Matias, não estando em casa, se salva de uma morte certa pelo desaforo que mandou, e sua sentença foi adiada. Já o outro, José Calu, não tem a mesma sorte. Lampião distribuiu seus cabras pelos caminhos e veredas que levavam a cidade de Flores para, todo aquele que fosse para a feira, era um dia de sábado, ser pego e seu dinheiro tomado ficando os mesmos presos para não darem o alarma as autoridades. O restante dos homens, obedecendo às ordens do chefe, cerca a casa sede da fazenda Melancia e, estando seu dono aprontando-se para ir a Flores, é surpreendido por fortes pancadas na porta do terreiro da frente. Abrindo a porta, sua casa é invadida pela horda de cangaceiros que já vão mandando brasa nos móveis e no próprio José Calu.

Segundo o autor do livro seu “A Maior Batalha de Lampião – Serra Grande e a Invasão de Calumbi”, que mora na região onde ocorreu o fato e ainda hoje matem contatos com familiares de José Calu, a coisa não se deu como as outras obras literárias referiram. O castigo aplicado ao dono de engenho foi exclusivamente uma lição por não ter-lhe mando o dinheiro pedido. “Quando José Calu foi interrogado por que não tinha mandado o dinheiro ele disse que não tinha dinheiro, Lampião com raiva mandou os cangaceiros tirarem a roupa do coitado, amarraram os testículos do infeliz e pendurou José Calu, no brabo da casa o deixando pendurado e partiram sem rumo; como se não bastasse, Lampião ainda ameaçou matar quem o tirasse dali.” ( LT, pg 87, 2017)

Lampião era bastante esperto e sempre que possível, procurava fazer-se de vitima. Dentro da caatinga, dava inúmeras voltas em cima dos próprios rastros, subindo e descendo serras, indo e voltando para confundi seus perseguidores. Sempre mandava dizer que iria para uma localidade quando na verdade dirigia-se para outra em direção totalmente contrária. Para amenizar certas crueldades praticadas por ordem dele, ou mesmo pelo próprio, dizia que fora obrigado ou que fora enganado, ou ainda que estivesse fazendo justiça.

O próprio Lampião foi quem inventou a história do coito entre pai e filhas. Condenando o pai para o resto da vida por uma coisa que não cometeu.

 O pesquisador/historiador Louro Teles, na página 88 da O.C., nos relata: “(...) entrevistei dona Maria Vanusa Barbosa de Brito, neta de José Calu, entendi que era mais uma mentira de Lampião utilizada por ele apenas para justificar seus erros.”

Referindo sobre o que dissera dona Maria Vanusa, quando perguntada sobre José Calu manter relações com suas filhas, ele escreveu a seguinte resposta dela: “-Não! Ele queria apenas dinheiro. Quando Lampião invadiu a casa de Calu meu avô, minha tia Maria Barbosa conhecida por Maria calu, justamente a menina que diziam que o pai tinha abusado dela estava na sala e Lampião ao ver os brincos de ouro que estavam em suas orelhas tentou toma-los, mas como ela não quis entregar ele lhe rasgou as duas orelhas deixando nela esta marca por toda sua vida.”

Naquela ocasião, o avô por parte da mãe de dona Maria Vanusa, Manoel Barbosa, era cangaceiro participante do bando do “cego”. José Calu teve três filhos, dois homens e uma mulher. Em muitas obras literárias são citadas que seriam duas mulheres e um homem. Um dos filhos de Calu, Manoel Barbosa do Nascimento, era o pai de dona Maria Vanusa Barbosa de Brito.

A historiografia do cangaço é contida de contos e contos sobre fatos que distorcem em todo ou em alguma parte. Nesse caso que acabamos de lhes contar, notamos que que quase toda a narração em uma obra, bate de igual com a outra, inclusive suas datas, localidade e maneira de agir dos cangaceiros. O que diferencia é a causa que levou o “Rei do Cangaço” a praticar mais uma das suas grandes atrocidades... nas quebradas do Sertão do Pajeú das Flores.

Fonte Os. Cs.
Foto Revista “O Malho”

domingo, 30 de julho de 2017

'Tatu'

A paixão de Lampião no Pajeú das Flores

Por Sálvio Siqueira

Na saga cangaceira, referindo com exclusividade à época da lampiônica, já lá pelos anos de 1929, o “Rei do Cangaço”, Virgolino Ferreira, o cangaceiro Lampião, enamora-se da cabocla da Malhada da Caiçara, município, hoje de Paulo Afonso, BA, Maria Gomes de Oliveira, que, mais tarde, a imprensa carioca a chama de ‘Maria Bonita’, alcunha pela qual torna-se conhecida, mundialmente, até os dias atuais.

Nos primeiros anos da vida como chefe cangaceiro, o bando do ‘Rei Vesgo’ pratica inúmeros estupros e suas ações são com um toque a mais de maldades em suas vítimas. Porém, é fato de que, talvez pela maneira que eram tratadas em suas casas, pelos seus familiares, as moças tinham sonhos de estarem com seus corpos envolvidos pelos braços dos bandoleiros. As notícias, divulgadas pelo meio de comunicação da época, jornal escrito, e mesmo a propalada oralmente de boca em boca, de pessoa a pessoa, não as faziam temer estarem com eles. Claro que não podemos generalizar, dizer que eram todas, talvez as que assim sonhavam, pensava, fossem a exceção. Sendo uma ilusão de ‘libertarem-se’ da maneira, modo, como eram ‘tratadas’ no seio familiar.

A história, descrita por vários autores, nos traz Maria de Déa como sendo a pioneira em adentrar, fazer parte, de um bando de cangaceiros nos sertões nordestino. Outros ainda nos trazem a história de uma outra baiana, Anésia Cauaçú, Anésia Adelaide Cauaçu, que fora uma cangaceira que viveu na região de Jequié, interior da Bahia, no início do séc. XX. Só que essa era a líder dos bandoleiros, e não uma simples companheira como foram ‘Maria Bonita’, ’Dadá’, ‘Sila’, ‘Adília’, ‘Quitéria’, ‘Cristina’, ‘Lídia’, ‘Durvinha’... e tantas e tantas outras sertanejas.

Pois bem, voltando no tempo, muito antes dos anos em que se deu o encontro de Lampião com Maria Bonita em território baiano, deu-se um caso amoroso entre ‘ele’ e uma jovem cabocla alagoana no Vale do Pajeú das Flores. Admira-me que, embora vários autores saibam, porém, não citam uma linha se quer sobre o caso em suas obras. Já outros, nem de longe imaginam tal fato, aí é impossível dizerem algo. No entanto, esse episódio, o caso, é fruto de narração oral colhida pela pesquisa de campo de um pesquisador sério da cidade de Calumbí, PE, onde nos relata claramente, minuciosamente, no livro “A Maior Batalha de Lampião”, Lourinaldo Teles Pereira Lima, 1ª Edição, 2017, nosso amigo Louro Teles, o qual, também, estranha a falta de insistência, ou assistência ao caso, de outros pesquisadores do tema sobre tal citação.

Nas andanças constantes dos cangaceiros, eram nômades, eles raramente comiam bem, mas, sempre que possível, faziam uma refeição decente. Esse alimento não era, na maioria das vezes, preparado por eles. Sempre eram feitos por algum coiteiro e levado para onde o bando estava acampado. Outras vezes, os próprios cangaceiros chegavam às moradias dos sertanejos e pediam para que fosse feito comida. Lampião sempre pagava, e bem, por esses serviços prestados. Não que ele fosse bonzinho, mas, por que pagando, tinha um aliado a seu serviço, sempre, e fora mais uma tática usada por Virgolino que deu bons resultados.

Em 1924/25 a caterva do ‘cego’, chega a uma simples moradia situada na zona rural de Mata Grande, AL. Lampião se apresenta e pede para o dono da casa preparar comida para a cabroeira. Enquanto esperam aprontarem a refeição, os ‘cabras’ começam a prosearem entre si. Alguns começam a jogarem cartas embaixo de alguma árvore que tinha no aceiro do terreiro. Outros apenas proseiam, contando suas aventuras para os amigos e, outros ainda, apenas descansam.

O chefe proseia com o Patriarca da família. Escondida em algum lugar, escolhido por ela, estava a jovem Maria Ana da Conceição que não perdia um movimento se quer de Lampião. O pernambucano percebe o insistente olhar daquela jovem sobre ele. Chegando a jovem, aproveita oportunidade, para prosear com ela. Ela, naturalmente está com o seu jovem corpo todo a tremer, não com medo, mas por está loucamente apaixonada por o fora-da-Lei, e o mesmo estar ali, diante dela.

Virgolino gosta da moça e depois de uma longa prosa com ela, pergunta se ela que ir junto com ele, fugir de casa, ir embora. De supetão a moça concorda. Parecia estar esperando aquela ‘cantada’.

Lembremos aqui que os cangaceiros tinham suas companheiras, suas namoradas e até mesmo suas esposas, não compondo os bandos, como ocorreu a partir de 1929, onde elas passam a fazerem parte dos próprios, mas, em algum local escolhido e mantido, financeiramente, por eles.

Citaremos, como exemplo, o caso do cangaceiro alagoano da região, segundo Érico de Almeida em sua obra “Lampeão-Sua História” (págs. 63 a 68), de 1926, próxima a Olho D’água do Casado, AL, município que faz limites ao Sul com o de Piranhas, AL, e ao Norte com o, hoje, de Delmiro Gouveia, AL, que nascera por volta de 1902, Antonio Augusto Feitosa, de alcunha Meia Noite. Meia Noite ao topar de frente Lampião e seus dois irmãos, os cangaceiros ‘Esperança’ e ‘Vassoura’, respectivamente Antônio e Livino Ferreira, onde diz que o segundo tinha lhe roubado nove contos de réis, logo após o ataque a cidade paraibana de Sousa, em 27 de julho de 1924, recebe do próprio Lampião quantia equivalente e é mandado embora do grupo. Por ter sido um dos que mais fizerem arruaças em Sousa, PB, conta-se que andou montado de esporas no juiz daquela comarca, Meia Noite passa a ser muito perseguido pela Força Pública da Paraíba, pelos homens, jagunços, do coronel José Pereira, de Princesa Isabel, PB e pelos próprios cangaceiros de Lampião.

Virando um cangaceiro solitário, Meia Noite começa a ‘visitar’, sorrateiramente e a noite, várias fazendas na região de Patos do Irerê, pedindo guarida. Logicamente, pagando bem, por uma noitada num celeiro, engenho ou casa de farinha. O detalhe é que ele levava a ‘tira-colo’ sua amante, namorada, companheira, chamada Zulmira, que no fogo da fazenda Tataíra, passa a noite recarregando as armas, enquanto seu companheiro enfrentava, sozinho, mais de oitenta homens.

Em certo momento, quase ao romper da aurora, o cangaceiro pede garantias de vida para sua companheira Zulmira, pois achava que não escaparia daquela arapuca, no que é atendido. Essa é presa e em pouco tempo solta. Desse cerco ele escapa, apesar de ter sido ferido em uma das pernas e, ao pular uma cerca, ter quebrado um dos braços, porém em pouco tempo é descoberto e assassinado por dois homens a mando do coronel Zé Pereira. Contaremos essa passagem da história, da valentia do negro Meia Noite, em outra oportunidade.

“(...) Depois de conversarem um pouco, Lampião disse:
“- Tem coragem de ir embora comigo?”
Ela, imediatamente, respondeu:
“- Tenho”. (Ob. Ct.)

Fizeram os preparativos. Sabia o pernambucano que teria que ter os cuidados redobrados com a presença de uma mulher no bando. Partem pala madruga em direção ao Leão do Norte, mais especificamente para um aglomerado de casas, hoje um povoado, denominado Roças Velhas, próximo ao distrito de São Serafim, hoje, município de Calumbi, PE.

“(...) Eles partiram pela madrugada em direção ao estado de Pernambuco, caminharam alguns dias e vieram sair em Roças Velhas, hoje um povoado pertencente ao município de Calumbi, mas naqueles dias eram apenas algumas casas isoladas no centro da caatinga, um dos redutos da família Teles. Roças Velhas foi fundada por Vitor Teles(...).” (Ob. Ct.)

Chegando ao novo ambiente, é providenciado uma choupana, palhoça, ou algo parecido, para que o ‘casal’ se aconchegasse. Depois de vários dias, curtindo a vida, Lampião recebe a informação de que as volantes estão rondando nas proximidades. Chega para sua namorada e diz o que fará nos próximos dias, principalmente em relação a segurança dela.

“(...) Lampião percebendo o perigo falou para Maria:

- Olhe Maria, vou ter que me afastar por um tempo, mas quando as coisas acalmar eu volto!
Respondeu Maria:
- Mas como é que eu vou ficar aqui? O dono da terra vai butá eu pra fora, e para onde eu vou?
Lampião colocou a mão no bornal, tirou dele um frasco redondo com tinta, uma pena e um papel e escreveu dizendo:

- Eu já medi um pedaço de terra, fiz o documento! Tome, guarde e pode dormir sossegada que daqui ninguém lhe tira! (...).” (Ob. Ct.)

O local escolhido pelo “Rei do Cangaço” para sua namorada ficar, era estratégico. Em sua volta ficavam vários esconderijos, em várias propriedade e fazendas, usadas por ele, tais como: “A Serra Grande, a Pedra D’água nos Barreiros, a Fuxico, o Saco dos Campos e As Pedreiras”. Mesmo que ele não pudesse ir ao casebre onde ela estava, ele enviaria um recado por algum de seus ‘cabras’ ou coiteiro, e a mesma iria até onde ele se encontrava.

Essas terras em que fora alojada a moça que veio das Alagoas, nas Roças Velhas, ainda hoje pertencem aos descendentes da família de Maria Ana da Conceição. Como em quase todos existem alcunhas, aqui pelo sertão, Maria Ana ganha o apelido de ‘Tatu’, e assim torna-se conhecida em toda região. O inevitável aconteceu, Maria Ana engravidou e pariu um feto vivo do sexo masculino, o qual deu o nome de Elizeu. Essa criança nasce em agosto de 1926, porém, Lampião, para despistar futuras investigações, acresce a idade da mesma, ordenando que se coloque em seus documentos uma data anterior ao seu início na saga. Assim é feito. A documentação da criança é feita como se ela tivesse nascida em princípios de 1917.


 “(...) antes de ir embora preparou o documento de Elizeu como ele queria que ela fizesse e mandou registrá-lo com o nome de Elizeu Florentino dos Santos, filho de Laurentino de Campos e Maria Ana da Conceição nascido no dia 10 de janeiro de 1917. Fez assim para confundir a polícia. O menino nasceu em 1926. Tatu dizia que no tiroteio da Serra Grande Elizeu tinha três meses de idade. Esta versão foi contada a mim por Josefa Bernardo, esposa de José Florentino dos Santos, neto de Tatu(...).” (Ob. Ct.)

‘Tatu’ tinha uma amiga, Josefa Bernardo, a qual morou por muitos anos na mesma casa em que morava a namorada de Lampião. Ela referia sempre os comentários da amiga quando citava suas ‘aventuras’ com o “Rei dos Cangaceiros’, quando estavam no terreiro da casa, em Roças Velhas.Outros moradores do povoado Roças Velhas, no município de Calumbi, PE, como “dona Guilhermina Francisca da Conceição”, que tinha o apelido de ‘Guiler’, e o senhor José Francelino de Souza, foram algumas, das várias pessoas que relataram sobre esse namoro entre Lampião e a jovem alagoana 'Tatu, Maria Ana da Conceição.

Assim, levamos ao conhecimento dos senhores (as), mais um caso envolto pelos mistérios da saga do Fenômeno Social Cangaço. Na obra/fonte pesquisada, há referências de testemunhas, as quais relataram ao pesquisador todas essas informações e outras mais. Esse livro é de primordial importância ter-se em nosso acervo literário.

Fonte "A Maior Batalha de Lampião" - LIMA, Lourinaldo Teles Pereira. 1ª Edição. Paulo Afonso, BA, 2017.

Foto Ob. Ct.
tokdehistória.com