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quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Caso Ezequiel

Irmão de Lampião, viveu no Piauí?

Em 1999 estivemos na cidade piauiense de Valença do Piauí, onde iríamos colher subsídios para nosso livro “Antiguidades Valencianas”, sobre vestígios pré-históricos, arte rupestres, lendas, folclore, causos, ufologia, belezas rurais, etc. Ali nos chamou atenção uma curiosa notícia, de que um dos irmãos do famigerado Lampião teria vivido naquela Cidade em tempos idos. O texto abaixo é uma condensação do que escrevemos naquele livro, publicado em 2000, atualizado com notícias de outras fontes.
 

No Piauí mesmo o temível cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva (1898-1938), vulgo Lampião, nunca pisou. Isso em que pese uma falsa notícia de que travara um combate em forças policiais no sul do Estado.


As sangrentas e polêmicas passagens do cangaceiro pelos sertões nordestinos nunca o trouxeram ao nosso Piauí.
 

Mas, curiosamente, há um interessante, mas não provado relato de que um dos seus irmãos, o caçula, teria vivido algum tempo em Picos e depois em Valença do Piauí, centro do Estado
Para nos inteirar desta veracidade ou não desta história, nos dirigimos a uma modesta casa no Bairro valenciano de Cacimbas, onde fomos encontrar Dona Luzia Alves Ferreira, nascida em 22 de maio de 1914 (hoje provavelmente falecida).
 

 

 

Ali fomos recebidos pela alquebrada, mas lúcida anciã, sempre muito desconfiada e relutante, nos liberando aos poucos a história do irmão do Rei do cangaço em Valença do Piauí. Porém, vaidosa, não nos permitiu por nada que fosse fotografada, alegando não estar adequadamente trajada para a ocasião. Assim sua imagem conseguimos através de uma fotógrafa da cidade, que nos cedeu gentilmente a preciosa foto que apresentamos neste artigo.

 

O cangaceiro Ezequiel fotografado em 1929...


...E o suposto "Ezequiel valenciano"

 
Segundo Dona Luzia, Ezequiel Ferreira, também conhecido como José Gomes (?), seria o irmão caçula de Lampião, muito novo na época do cangaço para empunhar armas.


Este pernambucano, da atual cidade de Serra Talhada, não teria dívida alguma com a justiça e vivia com outro irmão de Virgulino Ferreira, João Ferreira, onde tinham um pequeno comércio. Ezequiel, por sua vez, teria vindo de Picos (Piauí) para Valença por volta de 1980, vendendo, como ambulante, chapéu, fumo e alho.
 

Sem filhos, o irmão do cangaceiro passou a viver maritalmente com Dona Luzia até sua morte, no início dos anos 1990, sendo enterrado ali mesmo, em Valença do Piauí. Antes teria sido casado mas sobre sua primeira mulher, não sabemos nada. Em Valença teria vivido num sítio de propriedade de Dona Luzia.
 

“Como a senhora conheceu o irmão de Lampião?” – Indaguei.
 

“Conheci ele na feira de Valença” – respondeu ponderadamente a Sra.
 

“Ele não era valente como o famoso irmão? – Perguntamos
 

“Não senhor. Ele não gostava de armas de fogo. Ele só acompanhou o bando carregando armas e ajudando noutras coisas, pois era muito pequeno. Era um homem de faca...”
 

“E como a senhora soube que ele era mesmo irmão de Lampião? – Quisemos saber.
 

“Ele mesmo contou pra todo mundo ouvir.”
 

“E as pessoas acreditavam nele?” – Interrogamos.
 

“E ele era muito respeitado pelos vizinhos, pois era um homem calmo, e  se dava bem com todo mundo. 

Mas as pessoas diziam pra mim tomar cuidado com ele. As pessoas não acreditavam que ele era irmão de Lampião porque ele era moreno e não tinha olhos azuis como o cangaceiro.”
 

Obs: Lampião não possuía olhos azuis mas um deles (o direito) apresentava leucoma, com a característica cor clara.
 

“Durante todo tempo em que ele viveu em Valença do Piauí ele foi visitado por algum parente?” – 

Quisemos saber.
 

“Um tempo veio um casal de filhos de João Peitudo, filho de Lampião que mora em Juazeiro do Norte (Ceará). Nessa época o Ezequiel estava muito doente. Depois, ele foi com João Peitudo conhecer a família em Serra Talhada. Lá inclusive conheceu antigos inimigos da família. Um deles o convidou para uma visita uma sua casa. Desconfiado, o Ezequiel não aceitou o convite.”


“E o que ele dizia sobre o famoso irmão?” – Perguntamos.
 

“Dizia que Lampião não fazia mal a qualquer um. Só perseguia os inimigos. Também não perdoava os “macacos” da volante (polícia) e os entregadores (dedos duros).”


“Mas o Ezequiel confirmou a morte do irmão em Angico (Sergipe) em 1938?


“Não! Lampião nunca morreu naquela emboscada. Nem ele nem Maria Bonita. Lampião mesmo morreu foi no Rio do Sonho (Sono?), em Goiás, há uns 20 anos. “Nessa época o Ezequiel já estava em Valença.”


Obs: Quem fugiu e morou em Goiás foi Sinhô Pereira [1896-1979], antigo chefe do bando que tinha como membro Lampião. Pereira chegou a convidar Virgulino para se acoitar com ele em Goiás, coisa recusada pelo cangaceiro.


“E os dois mantinham algum tipo de correspondência? – Indagamos.
 

“Não se comunicavam, não. Mas um dia o Lampião mandou uma carta perguntando se Ezequiel queria ir morar com ele lá em Goiás. Ezequiel respondeu que não, pois gostava da vida tranquila aqui em Valença.”


Esta é uma história que se mistura folclore, com tradições e elementos intrusos suspeitos e incoerentes, senão vejamos.


O irmão de Lampião, Ezequiel Ferreira da Silva, vulgo “Ponto Fino” era realmente mais novo do que Lampião, pois nascera em 1908. Porém integrou o bando como membro armado, como pode se ver numa das imagens desta matéria.


Lampião teve quatro irmãos homens além de quatro mulheres.  Dos quatro irmãos homens, três acompanharam Virgulino no Cangaço: Antônio Ferreira, o mais velho [1895-1926] que morreu em 1926 num acidente bobo no qual numa brincadeira com Luiz Pedro seu fuzil caiu no chão e disparou acidentalmente. Livino Ferreira (1896-1925) que morreu em 1925 num combate noturno com uma força volante.


O caçula Ezequiel (1908-1931) foi abatido no dia 23 de abril de 1931 no tiroteio da Fazenda Touro, povoado Baixa do Boi, no Estado da Bahia, ponto conhecido como Lagoa do Mel. João Ferreira (1902-?) foi o único que não abraçou o Cangaço.


Assim, Ezequiel não pode ter vivido com dona Luzia nos anos 1980, já que morrera em 1931.
Também não procede a afirmação de Dona Luzia de que estando vivo Ezequiel em Valença, moraria com outro irmão de Lampião, João Ferreira, o único que nunca entrou no Cangaço. João, ao que se sabe, foi morar em Osasco SP ou em Propriá, Sergipe.


Outro engano de Dona Luzia é que o tal João Ferreira da Silva, o João Peitudo (1942 - 2000), seria filho de Lampião, em que pese supostas provas apresentadas de sua filiação a Lampião e Maria Bonita (inclusive um DNA inconclusivo). Conhecido como João Peitudo por ter sido lutador de boxe, morreu de ataque cardíaco em Juazeiro do Norte-CE. Se nasceu em 1942 não poderia ser filho de Lampião e Maria Bonita, chacinados em 1938.


Longe de taxar dona Luzia como mentirosa, é possível que ela tenha ouvido narrativas de alguém que veio das bandas do cangaço, e talvez até de um parente de Lampião (mas nunca um irmão) esta história e nela tenha acreditado piamente, dentro de suas limitações intelectuais. Assim conviveu maritalmente e acreditou ter como companheiro um irmão do cangaceiro morto há décadas.
 

Em nenhum momento a velha senhora tentou me impressionar ou ser taxativa de maneira irredutível. Somente discorreu sobre o tema que lhe indaguei.


Quando o suposto Ezequiel esteve em Serra Talhada em 1984 para rever a família e tirar documentos para aposentadoria (?) conseguiu convencer alguns parentes e outros moradores de que era realmente o irmão do Lampião. Mas cometeu alguns escorregões quando, por exemplo, deixou de visitar sua única irmão viva na época, Dona Mocinha. No mais, nenhum pesquisador aceita esta versão de sobrevivência de Ezequiel Ferreira
 

Em 16 de janeiro de 1985, o Ezequiel de Valença deu uma entrevista ao jornalista Antônio de Pádua, do “Jornal da Manhã”, de Teresina, deixando-se fotografar ao lado do vereador valenciano Luís Rosa. Suponho que o alegado irmão de Lampião temia alguma repercussão jurídica negativa de sua entrevista, pois estava presente na mesma o afamado advogado piauiense Dr. Alfredo Cadena Neto, segundo a reportagem.  

 


Garantindo que era o irmão de Virgulino. disse que havia fixado residência em Valença do Piauí por volta de 1980 e era analfabeto, sendo sua profissão “banqueiro”, ou seja, possuía uma banca de vender artigos regionais, como fumo de rolo, rapadura, farinha, calçador, livretos de cordel, remédios caseiros, etc.  Disse ainda que frequentava a Cidade desde 1952 como ambulante.


O Ezequiel valenciano acrescentou que viajou constantemente como ambulante para as cidades nordestinas de Mossoró (Rio Grande do Norte), Bom Jardim (Pernambuco) e Catolé do Rocha (Paraíba), lugares onde era bastante conhecido. Mas não explicou se era conhecido como um vendedor valenciano comum ou como irmão do célebre cangaceiro Lampião.


Contou ainda sobre incontáveis anos do bando de lampião em escaramuças contra os “nazarezistas” (ferrenhos inimigos de lampião, os volantes nazarenos viviam no Povoado de Nazaré, próximo a Serra talhada). Disse ainda que não sabe quantas pessoas morreram no campo de luta mas que nunca matou ninguém, sendo apenas um rastejador, destinado a informar ao bando de Lampião a aproximação dos inimigos.
 

O que o Ezequiel Valenciano nunca explicou em suas entrevistas foi como escapou dos tiros que recebeu das volantes que, historicamente, causaram sua morte nem como escapou para o Piauí.
Outro problema que observamos é que na entrevista, o repórter se refere a Ezequiel como sendo um senhor de 72 anos em 1985, tendo nascido no dia 6 de janeiro. Ora, tendo nascido em 1908, o verdadeiro Ezequiel deveria ter 77 e não 72 anos em 1985.


Na entrevista ao repórter Antônio de Pádua o Ezequiel valenciano fala do assassinato do pai e da mãe quando se sabe que somente o pai foi assassinado. A mãe morreu de desgosto dias depois.
Mistérios, folclore, fantasia, elucubrações desenfreadas e afirmações desencontradas. Cada um faça seu julgamento....
.......... 

Créditos Reinaldo Antiquário

Fontes:
Coutinho, Reinaldo. Antiguidades valencianas. Teresina, 2000.
"Irmão de Lampião diz que nunca Matou Ninguém". Matéria publicada por Antônio de Pádua, no Jornal da Manhã, Teresina 16 de janeiro de 1985.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Vítimas

Policias militares mortos ao terem enfrentado cangaceiros ou assassinados após capturados

Por Rubens Antonio

Em um tempo em que há quem, na Bahia, pense em colocar nomes de cangaceiros em praça, cabe lembrar estes nomes:

Cabeça do ten PM Geminiano José dos Santos, 
morto e decapitado pelo bando de Lampeão.

1924

11 de outubro de 1924

tenente Joaquim Alves de Souza

1927

14 de fevereiro de 1927

soldado Paulo Sant’Anna

dezembro de 1927

inspetor Norberto Xavier Gomes

cabo desconhecido

soldado desconhecido

1928

6 de abril de 1928

3° sargento Antônio Anacleto de Oliveira

21 de agosto - Passagem de Lampeão à Bahia

21 de dezembro de 1928

3° sargento José Joaquim de Miranda

soldado Francellino Gonçalves Filho

soldado Juvenal Olavo da Silva

1929

7 de janeiro de 1929

soldado José Rodrigues da Silva

soldado Manoel Nascimento Souza

2 de fevereiro de 1929

anspeçada Francisco Estevam do Carmo

soldado Enedino Alves Ribeiro

soldado Francisco Nascimento dos Santos

soldado Lourival Ricardo da Conceição

27 de fevereiro de 1929

anspeçada desconhecido

soldado desconhecido

14 de maio de 1929

soldado Pedro Alves da Fonseca

4 de julho de 1929

cabo Antonio Militão da Silva

soldado Cecílio Benedicto Silva

soldado Leocadio Francisco Silva

soldado Manoel Luiz França

soldado Pedro Sant’Anna

20 de setembro de 1929

soldado Antonio Geraldo de Oliveira

24 de setembro de 1929

cabo João Soares da Silva

21 de outubro de 1929

soldado Olegário Correia da Silva

18 de dezembro de 1929

soldado João Felix de Souza

soldado Vitorino Baldoino Lopes

22 de dezembro de 1929

anspeçada Justino Nonato da Silva

soldado Antonio José da Silva

soldado Arestides Gabriel de Souza

soldado Ignacio Oliveira

soldado José Antonio Nascimento

soldado Olympio Bispo de Oliveira

soldado Pedro Antonio da Silva


Cadáveres de alguns soldados que foram vítimas de Lampião no dia 22 de dezembro de 1929 em Queimadas-BA.

1930

29 de março de 1930

soldado Calixto Eleutério

1 de agosto de 1930

tenente Geminiano José dos Santos

2° sargento José de Miranda Mattos

soldado Argemiro Francisco dos Reis

soldado Arnaldo Claudio de Souza

1931

30 de janeiro de 1931

soldado desconhecido

3 de fevereiro de 1931

soldado desconhecido

soldado desconhecido

5 de fevereiro de 1931

soldado desconhecido

24 de abril de 1931

2° sargento Leomelino Rocha

soldado Carlos Elias dos Santos

soldado Francisco dos Santos

soldado José Carlos de Souza

soldado José Gonçalves do Amarante

soldado Pedro Celestino Soares

soldado Saul Ferreira da Silva

9 de maio de 1931

soldado desconhecido

soldado desconhecido

soldado desconhecido

junho de 1931

soldado Antonio José da Silva

28 de agosto de 1931

soldado Francisco Cyriaco Sant'Anna

1932

2 de fevereiro de 1932

soldado Bôaventura Manoel da Silva

1933

20 de julho de 1933

cabo Pedro Luiz de Farias

soldado Antonio Fernandes de Lima

7 de setembro de 1933

soldado José Fernandes

soldado Manoel Bellarmino de Macedo

2 de outubro de 1933

soldado Pedro Emygdio de Oliveira

 

Soldado Pedro Emygdio de Oliveira.

1934

22 de abril de 1934

soldado João Pereira de Souza

1939

23 de maio de 1939

soldado desconhecido

Postado originalmente no Cangaço na Bahia

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Em N. S. da Glória, SE

Dona Nair viu Lampião

Por Antonio Correia Sobrinho

Toda vez que boto os pés em Nossa Senhora da Glória, cidade do sertão sergipano, lembro que ela foi visitada por Lampião e asseclas em 1929, e fico a imaginar, em cima do que nos conta a história, como isso se deu.

Estou de novo na antiga Boca da Mata, e agora lembrei da matéria que há dois anos aqui publiquei, sobre a entrada de Lampião nesta, à época, minúscula localidade do sertão sergipano, hoje cidade progressista e porta de entrada do nosso sertão.


 N S. da Glória, provavelmente na década de 50 mantendo o 
mesmo aspecto das décadas de 20/30.
Acervo de Airles Almeida dos Santos

Leiam o texto até o fim, para saberem de dona Nair, a senhora que me disse que viu Lampião; ela que já se aproxima de um século de vida.

Em busca de Lampião

Demorar um pouco mais na sertaneja e progressista cidade sergipana de Nossa Senhora da Glória, antiga Borda da Mata, onde estou nestes dias, a trabalho, foi a disponibilidade de tempo que eu precisava para ir a lugares que Lampião e seus asseclas Luiz Pedro, Volta Seca, Quinta Feira, Ezequiel (Ponto Fino), Virgínio (Moderno), Corisco, Arvoredo, Ângelo Roque (Labareda), Mariano, Delicado e Zé Fortaleza (Fortaleza II), no dia 20 de abril de 1929, nesta cidade estiveram em razia.

Fui ao local da feira, onde Lampião e os seus amigos cangaceiros fizeram-se presentes, até assistiram à morte de um bode, ali mesmo, na feira; feira onde ele, quieto, tranquilo e bem humorado, deu esmolas, agradou a crianças, conversou com pessoas. Tirei foto onde funcionava o salão de Zé Besouro, onde Lampião fez a barba.

Também da Intendência, hoje a Prefeitura, cujo gestor João Francisco de Souza (Joãozinho), também comerciante de tecidos, tratou Lampião muito bem e atendeu a todas às suas reivindicações: bom dinheiro, lauto almoço e animais de montaria. E a Cadeia, segundo consta, xadrez sujo e fedido, onde ficaram presos enquanto Lampião agia, sem antes entregarem as armas, o sargento Alfredo e os soldados Osório, João e Zé Rodrigues.

Nada, porém, foi mais interessante do que o encontro que eu tive com a senhora Nair Aragão Feitosa, de 95 anos, viúva do ex-escrivão Pedro Alves Feitosa, ofício que ela também exerceu; dona Nair que foi uma das centenas de pessoas que naquele dia, estiveram a mercê do mais temível bandoleiro das terras sertanejas.

Embora convalescendo de uma cirurgia ortopédica, mas lúcida como poucos na sua idade, dona Nair me disse coisas a respeito desta presença de Lampião, confirmando o que disseram os pesquisadores. Informações que, considerando a sua pouquíssima idade em 1929, ela, em boa parte, deve ter obtido de terceiros, no correr dos seus anos.

Porém, o que eu mais queria dela, era saber se ela realmente viu Lampião.

Quando lhe fiz a pergunta, ela respondeu imediatamente, sem pestanejar, que sim.



 Nair Aragão Feitosa
Acervo do autor


Disse dona Nair que naquela manhã estava em casa, uma edificação situada na praça da feira, e ouviu quando o seu pai bradou: “Lampião entrou, Lampião entrou!” Portas e janelas foram fechadas, e de uma fresta na janela, a uns 20 metros de distância, ela com alguns da família viram claramente quatro cangaceiros, juntos, em pé, parados, segurando o fuzil fora de posição, na vertical, cano pra cima, coronha no chão. Tinham chapéus grandes na cabeça, que brilhavam muito, reluziam, contou ela.
Num momento, seu pai lhe disse: “Lampião é aquele mais alto, o de óculos”.
Ela voltou a dizer, também com gestos de mãos, sem eu perguntar: Os chapéus deles brilhavam muito...

Perguntei se seu pai teve medo. Ela disse que não.


 Policiais diante da antiga delegacia
Acervo de Airles Almeida dos Santos

Nossa conversa durou pouco, não quis cansá-la, em razão de sua idade e de seu estado de saúde, mas o suficiente para, atento às suas palavras, ao tom de sua voz e, principalmente, ao seu olhar que parecia vivenciar aquele inesquecível instante, aquele misto de medo, apreensão, curiosidade e expectativa, eu saí transbordante de satisfação. Agora eu posso dizer que estive com alguém que, muito provavelmente, viu Lampião, o rei do cangaço, este que fez dona Nair recordar e contar essa história durante toda a sua vida.

Nossa Senhora da Glória/SE, 22/01/2015.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

O rei cangaceiro e a princesa dos Tabuleiros

Lampião em Capela, SE

Por José Bezerra Lima Irmão

Lampião esteve em Capela (SE) duas vezes. A primeira foi em novembro de 1929. A visita foi pacífica. A segunda foi em outubro de 1930, e aí o pau comeu, e ele desistiu de entrar na cidade. Transcrevo, a seguir, trechos do meu livro Lampião – a Raposa das Caatingas, em que faço a descrição desses episódios. 

Lampião ia encontrar-se com Eronides de Carvalho, oficial do Exército que viria a ser governador de Sergipe. Primeira passagem por Dores Refeito daquela provação, Lampião desceu para Sergipe, passando novamente por Carira na manhã do dia 24 de novembro de 1929, um domingo. Demorou algumas horas no povoado, fez compras nas bodegas de Zé Martins e Balbino e rompeu na direção da Cotinguiba.

Na tarde da segunda-feira, dia 25, acompanhado de 14 cangaceiros, o Capitão Virgulino chegou a Nossa Senhora das Dores, dirigindo-se diretamente à delegacia de polícia. O delegado recebeu pacificamente os visitantes. Lampião mandou cortar o fio do telégrafo, para evitar que fossem alertadas as autoridades de outras localidades. Mandou avisar ao povo que tivesse calma, pois não faria mal a ninguém.



Pediu ao intendente (prefeito), Manoel Leônidas do Bonfim, que fizesse uma coleta de dinheiro com os moradores ricos da cidade. O delegado ajudou o intendente a fazer a arrecadação. Conseguiram juntar quatro contos e quinhentos mil-réis. Os cangaceiros deram uma volta pela cidade, respeitosamente, fizeram compras, comeram, beberam, pagando tudo. Circulou o boato de que Lampião ia pernoitar em Dores e pretendia promover um baile. Os pais de família ficaram alarmados. O escrivão, conceituado cidadão chamado Petronílio de Menezes Cotias, temendo por suas cinco filhas jovens, foi falar pessoalmente com o Capitão Virgulino.

O cangaceiro tranquilizou-o:
– Nun se avexe não, seu Cutia... Cuma eu já diche pro delegado, ninguém pricisa se preocupá cum nada. Tou aqui de passage. Vim a Segipe foi pra fazê amigos.

Ao anoitecer, tomou emprestados 4 automóveis e rumou para Capela, distante cerca de 3 léguas. Lampião viajou na fubica do comerciante e industrial Otacílio Menezes – dirigida pelo próprio Otacílio. No caminho, foram conversando prazenteiramente, como velhos conhecidos. No banco traseiro iam Ezequiel e Virgínio, sempre atentos.   Lampião visita Capela, a Princesa dos Tabuleiros Já chegando a Capela, num sítio denominado Sobradinho, de seu Xixiu, Lampião mandou parar o automóvel e enviou Otacílio à cidade para avisar ao intendente que queria conversar com ele. O intendente, Antão Correia de Andrade, recebeu o recado por volta das 7 horas da noite. Consultou o delegado, para saber se era possível resistir.

O delegado foi claro:
– Tá doido, Correinha?! Nem me fale uma coisa dessa! Eu só tou cum um cabo e três sordado, purque os outo foro cum o tenente Elesbão procurá uns bandido no sertão. Além disso, esses sordado nun sabe brigá, só serve pra prendê e dá pisa im cabra safado...
– Tá bem – concordou o intendente. – Já qui nun tenho cumo dexá de atendê o pidido do Home, vou buscá-lo. Dê orde pra qui os sordado nun se meta.

Não foi preciso dar a ordem, pois a essa altura o destacamento já tinha dado no pé. Uma hora depois, o Capitão Virgulino Ferreira, com o intendente à sua esquerda e tendo atrás de si sua estranha comitiva, entrou tranquilamente na cidade. Por onde passava, acenava para o povo, assegurando que não iria fazer mal a ninguém:

– É Lampião qui tá chegano... Amano, gozano e quereno bem...

Na Esquina do Padre, onde ficava a casa paroquial, os cangaceiros dividiram-se em dois grupos: uns foram com Arvoredo montar guarda no posto do telefone na Rua Pé de Banco e os outros acompanharam Lampião, que pediu ao intendente para levá-lo à agência do telégrafo. Como o telegrafista tinha ido ao cinema, Lampião deixou um cabra vigiando a agência e foi procurar o operador do telégrafo no Cine-Teatro Capela.

Cine-Teatro Capela

Naquela época os filmes eram “mudos”, e por isso durante a exibição alguns músicos tocavam modinhas para entreter a assistência. Em Capela a orquestra era um piano, uma rabeca e uma sanfona. Ouvia-se a valsa Abismo de Rosas. Quando os cangaceiros entraram no cinema, houve um rebuliço medonho. Os músicos pararam de tocar. As luzes acenderam-se. Interrompeu-se a projeção do filme. O cangaceiro Virgínio, vulgo Moderno, cunhado de Lampião, mandou que todos ficassem quietos, avisando que ninguém podia sair. Algumas pessoas conseguiram escapulir, entre elas o juiz, Dr. Otávio Teles de Almeida, que, esgueirando-se de quatro pés entre as cadeiras, alcançou uma portinhola que havia por detrás da tela, pulou o muro do cinema e foi se esconder no convento das freiras. Depois que foi localizado o telegrafista, Lampião mandou que apagassem as luzes e continuassem a passar a fita.

O filme era O Anjo das Ruas. Lampião não viu graça nenhuma naquilo e saiu do cinema. Preferia tratar de negócios. Lá fora, chamou Moderno e mandou que fosse procurar o delegado de polícia. Perguntou ao telegrafista: – Cuma é o seu nome, cabrinha? – Zózimo Lima – respondeu o rapaz.

– Quero falá ũas coisa cum você, Zosmo. Cunvessa de home pra home. Venha cá. Afastou-se para o lado, e por algum tempo conversou a sós com o telegrafista. Zózimo Lima nunca revelou o que Lampião queria. Apenas contava que Lampião lhe recomendou que não desse notícia dele. Essa explicação não convence, pois se fosse para isso não precisava falar reservadamente.

É provável que Lampião tenha pedido a Zózimo a relação dos homens ricos de Capela. Daí a pouco, Moderno retornou com o delegado, major Pedro Rocha, um homem de mais de 80 anos, remanescente da Guarda Nacional. Estava um pouco trêmulo, mas esforçava-se para se manter altivo. Lampião, respeitosamente, apertou a mão dele, tranquilizando-o:

– Fique sem sobrosso, colega. Nun vai tê arteração. O respeitável major engoliu em seco. Nunca lhe passara pela cabeça ser “colega” de um cangaceiro.

Lampião chamou o intendente: – Seu Antão, tou sabeno qui o sinhô é irmão do chefe de puliça de Segipe.
O intendente confirmou:
– É verdade, Capitão. Sou irmão do chefe de polícia estadual, Dr. Heribaldo Dantas Vieira.
– Será qui eu posso falá cum ele no telefone?
– Se o sinhô qué... – concordou o intendente.

Foram ao posto telefônico, que continuava sob a vigilância de Arvoredo. Lampião não conseguiu telefonar para o chefe de polícia porque a ligação para Aracaju dependia de conexões com postos telefônicos de outras cidades, que àquela hora já tinham encerrado os trabalhos.

Mesmo assim, Lampião deu 50 mil-réis de gorjeta à telefonista, dona Emília Sousa, e fez um pedido: – Me faça um favô, moça: amanhã, telefone pro Doutô Heribardo Viera e diga qui eu nun tenho nada contra ele, quiria falá cum ele só pra dizê qui me trate bem, cumo tou tratano o irmão dele. Sabendo que estava para chegar um trem procedente da capital, Lampião foi à estação ferroviária, na Rua São Pedro, aguardar a chegada do comboio. Por precaução, levou também o intendente, o delegado e o telegrafista. Não custou muito, ouviu-se o apito da locomotiva.

Quando o trem parou, soltando uma fumaça espessa que enegreceu tudo, alguns passageiros começaram a descer, sendo imediatamente abordados pelos cangaceiros. Outros, percebendo o que estava acontecendo, entraram em desespero e começaram a pular pelas janelas, do outro lado da plataforma, num desvario indescritível. Um dos que desembarcaram normalmente era um soldado chamado Gilberto Santos. Lampião segurou-o pela túnica, arrebatou-lhe o fuzil e perguntou:

– Macaco, você é de onde? Baiano ou segipano?
– Sou de Araca...caju... – respondeu o soldado, tremendo.
– Tu é de sorte, visse? Se tu fosse da puliça da Bahia eu ia tirar o teu couro agora mermo, cê nun ia dá nem um pio!

Examinou o fuzil do soldado com ares de entendido, tirou as balas e devolveu-lhe a arma, dizendo:
– Home, esse fuzi seu é mais véio do qui a Lua... Andá cum isso aí é o mermo qui andá cum um cacete... Vá simbora.

O soldado ia saindo, quando Lampião o chamou de volta:
– Você, assim cum essa farda, pode se incontrá cum meus minino e vão querê fazê argũa brincadera. – Chamou um cangaceiro e ordenou:
– Acumpãe esse macaco até o quarté.



Os cangaceiros tinham prendido o chefe da estação. Virgulino ordenou que lhe fosse entregue a renda. Conforme fazia nas localidades por onde andava, o Capitão avisou ao intendente que ele devia conseguir alguma contribuição dos homens ricos da cidade. Pediu inicialmente 20 contos de réis. Em face das ponderações do intendente, que explicou estar a região atravessando três anos de seca, sendo difícil juntar tanto dinheiro, Lampião reduziu a exigência para 6 contos, dizendo que sabia o que representam as secas, pois era filho do sertão de Pernambuco.

O próprio delegado de polícia, Pedro Rocha, foi encarregado de fazer a coleta entre os moradores de maiores posses. Quando o delegado chegou com o dinheiro arrecadado – só conseguira 5 contos –, Lampião mandou que fosse entregue a Moderno. O cangaceiro contou as notas por alto e meteu o pacote no bornal. Depois dos negócios, era chegada a hora de se divertir. Sempre acompanhado do telegrafista, por recear que ele tivesse algum meio de se comunicar com outras localidades, apesar do adiantado da hora, Lampião deu um giro pela cidade. Pediu que abrissem algumas lojas, pois os meninos queriam fazer compras. E de fato os cangaceiros compraram muitas coisas, inclusive joias, nas casas dos ourives Alfredo Assis e Euclides Silva.

Na Casa Stella, estabelecimento comercial de Jackson Alves de Carvalho, na Praça do Mercado, Lampião viu uma capa de chuva de gabardina e um parabelo. O parabelo era de uso pessoal do comerciante. A capa de borracha, também – o avô de Jackson criara um rapaz que se tornou suboficial da Marinha, e a capa era um presente que Jackson recebera do “tio”.

Lampião disse que ia levar a capa e o parabelo. Perguntou quanto devia. – Nada não, Capitão, eu... – Não sinhô, seu Jaque – contrapôs o cangaceiro –, a um home de sua marca nun se dá prijuízo. – Meteu a mão no bolso, tirou 500 mil-réis: – Tou lhe pagano. O comerciante, em agradecimento, presenteou o cangaceiro com um livrinho intitulado Vida de Jesus, da escritora adventista norte-americana Ellen G. White, apondo na folha de rosto a seguinte dedicatória: “Ao intrépido forasteiro Capitão Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, com um abraço de Jackson Alves de Carvalho. Capela, 25 de novembro de 1929”.

Noutra loja, Lampião comprou uma lanterna de pilhas. Pagou sem pechinchar. Do mesmo modo que acontecera em Carira e meu ip Poço Redondo, passado o susto inicial, aos poucos foi-se espalhando a notícia de que não havia perigo, Lampião não ofendia ninguém. Então muita gente foi chegando para ver de perto o Rei do Cangaço. Por onde Lampião e seus cabras passavam eram acompanhados por muitos moradores da cidade. Custava acreditar que aqueles eram os tão temidos cangaceiros de tantas histórias tenebrosas que corriam de boca em boca nos sertões. Na parede do salão de sinuca de Manoel Pestinha, na Praça do Mercado, Lampião escreveu com o bastonete de giz de marcar os pontos do jogo:

“Capela – 25-11-29 Salvi Eu capm. Virgulino Ferreira Lampeão Deixo Esta Lça. para o officiá qui aqui parçar em minha priciguição, apois tenho gosto que Voceis me prisigam. Discurpe as letra qui sou um bandido cumo voceis me chama pois eu não mereço. Bandido e voceis que andam robando e deflorando as famia aleia porem eu não tenho este custume todos me desculpe a gente a quem me odiar. Aceite Lça. do meu irmão Ezequiel Vurgo Ponto Fino e de meu cunhado Virginio Vurgo Moderno.” 




Até o vigário de Capela, cônego José da Mota Cabral, conhecido como Padre Juca, veio falar com Lampião. Alguns cangaceiros pediram-lhe a bênção. O padre aconselhou-os a deixar a vida de crime. Lampião pediu ao telegrafista para levá-lo a uma pensão, pois os meninos estavam com fome. O telegrafista levou-os à Pensão Comercial, de dona Irinéia, uma senhora gorda, baixa, conversadeira. Enquanto preparava a comida, dona Irinéia não calava a boca: – Ói, seu Capitão, eu tenho galinha, frango, porco, carne de porco, galinha, frango, porco... Lampião impacientou-se: – Mĩa sinhora, se acalme!... Desse jeito vai até passá a mĩa fome!... Foi o telegrafista quem provou a comida antes que o grupo se servisse, pois Lampião receava que pusessem veneno nos alimentos. Não satisfeito com essa precaução, o cangaceiro mergulhou uma colher de prata na comida, meio que considerava seguro para detectar a presença de veneno.

Depois do jantar, os cangaceiros passaram perfume no corpo e foram passear de automóvel. Por volta da meia-noite, dirigiram-se para o cabaré, que chamavam de “distrito”, na Rua Coelho Campos, e ali foram se revezando: enquanto uns montavam guarda, os outros se divertiam com as mulheres. Lampião levou para o quarto uma mulata chamada Enedina. Ela quis ajudá-lo a despir-se. Lampião disse: – Nun pegue im nada. O cangaceiro encostou o fuzil na parede, e logo estava pronto para a função – de roupa e tudo, não tirou nem as alpercatas. Durante o procedimento, Moderno ficou na esquina, a uns 10 metros, e Arvoredo foi vigiar o fundo da casa. Enedina gostou do chamego. Perguntou: – O sinhô tem mulé? – Não – respondeu Virgulino. – Home qui veve nesta vida nun pode tê pensão. Enedina ficou rica – ganhou 70 mil-réis! Às 3 horas da madrugada, Lampião soprou o apito para reunir o grupo.

Os cangaceiros entraram nos automóveis que tinham sido requisitados em Dores. Lampião apertou a mão do intendente, acenou para o delegado e os demais, e disse: – Adeus! Nun aperto a mão de todos pra nun gastá... Satisfeito com o próprio gracejo, entrou no carro. O intendente não acreditava que estivesse livre do problema. Na fazenda Pedras, Lampião mandou parar os veículos. Despediu-se de Otacílio: – Vamo ficá aqui, seu Otacilo. Tou ino pra Aquidabã. Até mais vê, e munto obrigado. Quando os automóveis se foram, o bando tomou o rumo de Canhoba. No dia seguinte, o chefe de polícia de Sergipe fez seguir para Capela em trem especial um contingente de 50 praças sob o comando do coronel Severino Gonçalves.

A segunda passagem Tiroteio em Capela 

Lampião sentia-se tapeado pelos sergipanos. Até então, em suas incursões por Sergipe ele se limitara a pedir dinheiro, montarias e certos favores. Não permitia que seus homens maltratassem ninguém.

Na primeira vez em que esteve em Capela, foi recebido pelo prefeito (intendente), conversou com o padre, teve até tempo de namorar certa criatura, mas foi só dar as costas todo mundo virou valentão. Nos jornais ele era chamado de tudo o que havia de ruim. Estava disposto a dar uma lição naquela terrinha de gente ingrata. No início da tarde do dia 15 de outubro de 1930, o bando passou pelo povoado Outeiro, onde o fazendeiro Alvino Ferreira e sua família foram submetidos a maus-tratos, sendo por fim incendiado o seu paiol de algodão. Por volta das 3 horas, Lampião chegou à fazenda de Félix da Mota Cabral, nos arredores de Capela. O fazendeiro era irmão do vigário, José da Mota Cabral (Padre Juca). No momento, Félix Cabral estava vendendo gado a uns marchantes. Os cangaceiros apoderaram-se dos cavalos dos marchantes.

Dali, parte do bando seguiu para a fazenda Lavagem, e Lampião desviou-se com os demais para o engenho Tabocal, de seu Ioiô, levando Félix como guia. Os cangaceiros submeteram os moradores a vexames, tomaram dinheiro de quem tinha, aplicaram bolos de palmatória em uma garota. A mocinha apegou-se a Félix Cabral: – Seu Félis, pur Nossa Sinhora, nun dexe esse home me batê!... Seu Félix disse:  – Mĩa fia, eu nun posso fazê nada... eu tamém tou preso... As cenas de maus-tratos repetiram-se na fazenda Pedras, do velho José Cabral. No caminho, os cangaceiros capturaram Jucundino Calasans, do engenho Recurso, e levaram-no como refém, juntamente com José Xavier de Andrade e Renato Sousa. Lampião tomou emprestado um automóvel e rumou para a cidade, com a cabroeira atrás, a cavalo. Pretendia entrar em Capela em grande estilo, como da vez anterior.

Chegando perto, na localidade Lá Vem Um, mandou parar o veículo, a fim de esperar os cangaceiros, e despachou um mensageiro, com a incumbência de informar às autoridades sua intenção de entrar pacificamente na cidade. Mandou dizer que estava com 50 homens – na verdade eram somente 18.



Os moradores entraram em pânico. Tinha-se notícia do que acontecera em Queimadas, logo após a passagem do bando por Capela no ano anterior. Encontravam-se em Capela uns soldados vindos de Vila Nova (atual Neópolis), em diligência relacionada com a Revolução de Outubro. Em Sergipe, a “revolução” era uma coisa mais ou menos fictícia, pois, a rigor, ninguém sabia do que se tratava, e não havia luta, apenas perseguição a adversários. O sossego da tropa acabou quando estourou a notícia de que Lampião estava para chegar. Apesar do apelo da população, o comandante contrapôs que estava ali para reprimir revoltosos, e não para lutar com cangaceiros. Num abrir e fechar de olhos, os milicos sumiram. Dois soldados do destacamento local estavam na casa do médico Odilon Machado.

Encorajados pelo major Honorino Leal e por um viajante comercial que estava de passagem por Capela, chamado Josias Mota, que dizia ser aposentado da Marinha, os soldados disseram que estavam dispostos a impedir a entrada dos cangaceiros, desde que contassem com o apoio dos civis. Josias e o major mandaram chamar todos os homens que tivessem armas em casa. Despacharam de volta o mensageiro: podia dizer a Lampião que se quisesse entrar, entrasse, mas seria recebido à bala. Lampião não se mostrou surpreso com a resposta e apenas disse: – Ah, entonce, se é assim qui quere... Félix Cabral, temendo o pior, prontificou-se a ir conversar com o intendente, com o delegado, com o padre. – Coroné, o sinhô vai mais nun vorta... – desconfiou Virgulino.

– Sou home de palava, Capitão! – respondeu Félix. – Se lhe digo qui vou e vorto, vou e vorto! – Apois vá. Mais fique sabeno, coroné: se o sinhô nun vortá, eu vou nas suas fazenda, mato seu gado e toco fogo nas suas cana, arraso tudo!... Félix Cabral montou no burro e foi à cidade. Quando começou a expor suas razões, Josias Mota nem quis ouvir o resto: – Seu Félix, o sinhô mi discurpe, mais o sinhô tá preso. Nun sabe qui é crime sê coitero? Félix se exaltou: – Eu, preso?! Quem você pensa qui é?! Vim só dá um recado, e já qui nun quere acordo, vou vortá e dizê a resposta!... – Ah, nun vai não... – Vou, eu dei mĩa palava qui vortava, e vou cumpri! – Cum bandido ninguém sustenta palava, seu Félix!

Enquanto isso, os boatos corriam soltos na cidade – o coronel Félix Cabral estava preso! Era coiteiro! Amigo de Lampião de longa data! Lampião ia invadir a cidade para soltar o amigo! Capela ia pegar fogo! O mundo ia se acabar! Àquela época era raro o homem que não tivesse uma arma. Todo fazendeiro tinha um ou vários rifles, revólveres, garruchas. Os pobres tinham pelo menos uma espingarda de caça. Naquele momento terrível, com a notícia de que a cidade estava cercada pelos cangaceiros, o medo virou coragem, até as mulheres se armaram. Josias Mota organizou a defesa. Pôs atiradores nos telhados e até na torre da igreja de Nossa Senhora da Purificação.

Enquanto esperavam a volta de Félix Cabral, os cangaceiros esvaziaram o estoque de bebidas de uma bodega no Lá Vem Um. Como desconfiassem de veneno nas bebidas, o dono do boteco era obrigado a beber primeiro sempre que abria uma nova garrafa. Resultado: foi o primeiro a ficar bêbado.

E nada de Félix voltar. Lampião decidiu:

 – Nóis vamo dá uns tiro, qui é pra eles nun dizê qui nóis saiu sem brigá, cum medo. Volta Seca e Pretão ficaram tomando conta dos cavalos e do automóvel, e os demais se dirigiram à cidade. Quando os cangaceiros apontaram, estourou a fuzilaria. Além dos tiros vindos da cidade, vinham também tiros da retaguarda, como se os moradores pretendessem cercar o bando. Atiravam até da torre da igreja.

Os cangaceiros espalharam-se em quatro grupos e começaram a atirar também. Seus alvos principais eram o fundo da casa de Antão Correia e o oitão da casa do médico Odilon Machado. Uma bala entrou ninguém sabe por onde e furou o piano, que Odilon tinha comprado por uma fortuna. Os reféns aproveitaram o pandemônio e fugiram. Já estava anoitecendo, e Lampião percebeu que aquele ataque não fazia sentido.

Dois cangaceiros estavam feridos: Gato e Beija-Flor. Para completar a confusão, os cangaceiros que tinham ficado na retaguarda tomando conta dos animais não reconheceram os companheiros e abriram fogo contra eles, sendo preciso pôr os chapéus na boca dos fuzis e levantá-los acima das ramagens para serem identificados. Os moradores ouviram um apito, e num segundo os cangaceiros sumiram.

Custava acreditar que o pesadelo havia passado. Adroaldo Campos (Dudu da Capela), o rábula da cidade, que andava de muletas por ser aleijado, pegou a corda do badalo do sino e anunciou as Ave-Marias. Nunca o povo de Capela agradeceu com tanto fervor o amparo de Nossa Senhora da Purificação."

Imagens pescadas no acervo de Junior Gomes - Sergipe em Fotos

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Em 1929 jornais baianos registravam...

O mais antigo filme sobre Lampião

Por Rubens Antonio

Aproveitando a puxada dos nossos amigos Guilherme Machado e Robério Santos no grupo cangaceirólogos, aqui cenas do mais antigo filme realizado sobre o Cangaço... 1ª matéria Publicado em 27 de novembro de 1929, no “Diario de Noticias”, Salvador, Bahia..

Ele procurava mostrar ações do bando de Lampeão já ocorridas, até então, na Bahia. A equipe de filmagem e atores se deslocaram até os locais dos eventos e, com base nos testemunhos locais, filmaram. Não sei onde foi parar, mas parece que chegou a ser apresentado em Salvador. 

A Cinematographia grava os crimes do Bandido


Nesta imagem, à esquerda, a câmera, à direita, reconstituição de um tiroteio.

Estamos numa epocha em que factos de tamanha sensação não podem ter a sua descripção limitada ao registro da imprensa; elles, graças á divulgarização da cinematographia, são mostrados, ao vivo, ao povo.

Em todo o mundo civilizado assim occorre, com a modernização dos novos processos de reportagem. Todo o mal que o bandoleiro faz ás nossas populações sertanejas é salientado, mediante uma reconstituição de scenas verdadeiras, honestamete feitas, nos proprios locaes onde ellas se verificam e mediante o testemunho de pessoas sabedoras dos factos. A empresa Nelli–Film, bahiana, se incumbe da organização dessa pellicula sensacioal.

É dificil distinguir–se qual o crime mais perverso

O reporter soube da confecção desse “film” e tranto investigou que acabou encontrando o sr. José Nelli, chefe da empresa. Palestraram. O industrial relatou as difficuldades que teve de vencer, da deficiencia de personagens aos trabalhos de reconscituição.
Qual o crime de maior sensação?
Fica–se na duvida. Virgolino tem cem requintes de malvadez. E não é um valente nem um heroe. Assassina covardemente, para roubar ou por mero prazer.
– Posso, porém, dissenos o sr. Nelli, dizer–lhe que a morte da mulher queimada que se avantaja a tudo. Pretendera ella envenenar Lampeão, que, desconfiado, descobriu o ardil e ordenou que, amarrada a uma arvore, della fizessem uma tocha humana. Realizou–se, assim o homicidio. No cinema, isso é de grande effeito.
 A enguia da caatinga
– E por onde andou filmando:
– Pela zona do Rio do Peixe, Queimadas, Serrinha, etc. Apanham–se os factos “in loco”, sob o rigor da verdade.
– Que diz da acção da policia?
– Que procura atacar o grupo.
Essa caça faz–se com grandes sacrificios, porque Lampeão é como a enguia: some–se sempre na caatinga, fugindo.
– Tem reproduzido combates?
– Oh! diversos, bem como passagens curiosissimas, a que serve de moldura uma excellente natureza, prodiga em scenarios. E claro que teremos de solicitar o auxilio da Policia. Mostrado o bandido, é indispensavel divulgar o que tem sido a acção dos seus perseguidores implacaveis."
 27 de novembro de 1929, no “A Tarde”:
No Rastro dos Bandoleiros. As proezas de Lampeão e de seu sinistro bando num film

O sr. José Nelli, conhecido operador cinematographico, resolveu fazer um grande film de divulgação das façanhas de Lampeão e do seu terivel bando.

O intuito do sr. Nelli é, revivendo os moticinios e scenas de vandalismo do faccinorara apresental–o tal qual elle é: simplesmente um animal senguinario. Para isso o sr. Nelli esta percorrendo todo o nordeste reconstituindo os crimes de Virgulino. Os clichês acima mostram a estação de Rio do Peixe e uma scena do film.

 Os clichês acima mostram a estação de Rio do Peixe e uma scena do film.

Pescado no Cangaço na Bahia

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Adendo Lampião Aceso

O título deste filme não foi citado na matéria do jornal pois estava em fase de produção. Concluído, ele foi batizado de LAMPIÃO, A FERA DO NORDESTE e outra remetência foi LAMPIÃO, O TERROR DO NORDESTE. Tratou-se de um longa-metragem silencioso.


Chegou a ser exibido em São Paulo no ano de 1931: de 20 a 22.de novembro no Royal; 1º de dezembro no Colombo; 2 de dezembro no São José; a 03.de dezembro no Cambuci; 04 de dezembro, no Glória. e nos dias 22 e 23.março de 1932 no Oberdan.

Sinopse

    "... Meia dúzia de apanhados da capital (Salvador) atoamente. Uma vista de Ilhéus da mesma forma. Um horrível apanhado da feira de gados em Feira de Santana. Um cafezal. Um canavial. Uma locomotiva chegando a Juazeiro. Um apanhado do Rio São Francisco. Uma vista péssima de Bom Jesus da Lapa. (...) Lampião ataca um rancho qualquer. Ataca Riacho Seco. (...) Outra cena Lampião cerca uma fazenda. Aparece a casa do 'coronel'. O coronel e a filha estão na sala de visitas. Ele de pés descalços, assentado num frangalho de cadeira, lê um retalho de jornal. A moça lava roupas num caixão de gasolina. Lampião entra na sala. O coronel protesta. Assassinam-no pelas costas. Lampião entra para um quarto. Vem lambendo os beiços...". (Cinearte, 16 de Abril de 1930)

As locações foram: Salvador; Ilhéus; Feira de Santana; Juazeiro; Rio São Francisco; Bom Jesus da Lapa; e Riacho Seco cidades do estado da Bahia.

Observações e resenha:

A revista Cinearte de 30 de Abril de.1930 informa que o filme estava programado para o Teatro Olímpia, de Salvador, mas teve a sua exibição proibida pela polícia. "Filme de enredo e cenas documentárias, com um ator no papel do Capitão Virgolino". muito provavelmente o primeiro filme de enredo rodado na Bahia".
A revista ainda publicou o seguinte comentário:
Tudo filmado com a pior fotografia do mundo, sem noção alguma de arte e realidade. A interpretação é pavorosa! Tudo horrível! Como filme Lampião é mais prejudicial à Bahia que o próprio bandoleiro”.
As pesquisas de Dídimo em seu livro "O cangaço no cinema Brasileiro" não apontaram referências aos nomes dos atores que trabalharam na obra. Em alguns sites há uma referencia de direção para Guilherme Gáudio porem o Dicionário de Filmes Brasileiros (longa-metragem), de Antônio Leão Neto, traz apenas a menção de José Nelli como produtor e Antônio Rogato na fotografia.

Pioneiros do tema cangaço

Quem pesquisar sobre os primórdios do cinema de cangaço vai identificar o filme Filho sem mãe, de Tancredo Seabra no ano de 1925, o primeiro em que aparece um grupo de cangaceiros e alguns de seus sinais de identidade, tais como trajes, armas, acampamentos etc. 
Sangue de irmão de Jota Soares em 1926.

Segundo Luiz Felipe Miranda em “Cinema e Cangaço – História” (1997), houve ainda um curta,chamado  Lampião, o banditismo no Nordeste, “do qual se desconhecem autoria e procedência [...] apresentado por volta de 1927” (1997, p.93).

Em Lampião, A fera do Nordeste, uma ficção com cenas documentais. o rei cangaceiro já teria o papel de protagonista e, provavelmente, é o primeiro filme a abordar o cangaço como tema central. O filme relata o episódio da chacina do Rio do Peixe, na Bahia, mostrando Lampião monstruoso e sanguinário que matava ate criancinha, lançando ao ar e aparando com seu punhal.

Estes quatro títulos citados estão infelizmente desparecidos.

Fontes:

1) Cinemateca.gov.br

2) NORDESTE: MISERABILISMO LOCAL/SUMMA NACIONAL
Estudo de Sebastião Guilherme Albano da Costa.
Disponivel no: Razony Palabra

3)  Revista Fenix  O cangaço no cinema brasileiro: Um olhar panorâmico  estudo de Anderson R. Neves - Universidade Federal de Uberlândia – UFU. Disponível na: Revista Fênix

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

"Arvoredo"

Alguns subsídios para sua história

Por Rubens Antonio

Cangaceiro Arvoredo... cujo nome real era Hortêncio Gomes da Costa. Também ficou conhecido, por assim se identificar, como Hortêncio Gomes da Silva, Hortêncio Gomes de Lima, José Lima e José Lima de Sá.


Em Pombal, BA 1928
Depoimento de "Arvoredo", quando preso. 1927, copiado em extrato em inquérito policial de 1929:
José Lima, (que é o mesmo Hortencio Gomes de Lima ou José Lima de Sá, vulgo “Arvoredo”) estava;em Juazeiro, onde foi preso a pedido da autoridade policial de Jaguarary, alli;chegou a 5 sendo ouvido em auto de perguntas. Declarou “ser filho de Faustino Gomes, vulgo “Banzé” e Maria de Jesus, natural de “Salgado do Melão”; que dalli partiu;com destino a São Paulo, encontrando–se em Varzea da Ema com João de Souza,;(Cicero Vieira Noia) seu conhecido e João Baptista (que é o mesmo Christino ou “Curisco”); que em caminho se encontraram com Manuel Francellino, vindo em sua; companhia para Jaguarary, pernoitado em casa delle os tres; que moraram cerca de oito dias em casa de Antonio Piahy, até que alugaram uma casa a Demosthenes Barboza, por intermedio de João Baptista, seguindo na terça feira, 30 de Agosto para Juazeiro, a negocios, sendo alli preso na sexta feira ultima, dois do corrente; que antes de chegar á “Santa Rosa” com seus companheiros de viagem, o de nome João Baptista propoz para todos mudar de nome, ficando o depoente com o de Jose Lima, lembrando–se tambem que depois de se acharem nesta Villa, com João Baptista e João de Souza ou Cicero, foram á cidade de Bomfim, alli se hospedando na pensão de Piroca, por indicação do cel. Alfredo Barboza; que pretende não se juntar mais com João Baptista e João de Souza, caso se encontre ainda com os mesmos, pretende se retirar desta Villa depois de pagar o que deve ao senhor coronel Alfredo Barbosa”. (fls.208–210).

De depoimento da mãe de "Arvoredo", colhido em inquérito policial, em 1929:
"Maria de Jesus e tambem da Conceição, mulher de Faustino Gomes da Costa (“Banzé”) ou “Pae Velho”, do grupo de “Lampeão)) foi ouvida nesta mesma data e affirmou que ha tres mezes reside em “Olhos d’Agua”; que o apellido de “Arvoredo” foi posto em Hortencio por seus irmãos, quando era pequeno; que tem cinco filhos – Hortencio, Ambrosio, Raphael, Sylvestre e Manoel, vulgo “pé de meia”, os quais têm sobrenome de Gomes da Costa que Hortencio tem, alem deste nome, o de José Lima; que seu filho “Arvoredo” acompanha “Lampeão”, por ser amigo de infancia de Christino, conhecido por João Baptista da Silva, vulgo “Corisco”; que João Baptista é filho de Firmina, empregada na fabrica de linhas da Pedra, Estado de Alagoas e Manoel de tal, já fallecido, na Matinha de Agua Branca, com parentes residentes na fazenda “Sitio”, de Salgado do Melão."

Como referência não tanto inédita, mas completamente esquecida no estudo do Cangaço, ressurge aqui informação de que Pae Velho, o cangaceiro que morreu junto com Mariano e Zeppelin, era pai do também cangaceiro Arvoredo.


Pai velho está ao centro

Outro ponto discutido é se "Arvoredo" e "Corisco" eram primos. Estes trechos, tirados de inquérito policial com o depoimento de dois dos irmãos de "Arvoredo", confirmam este ponto:

"Declararam, então Raphael Gomes da Costa, filho de Faustino Gomes da Costa e Maria de Jesus que: “seu pae é criminoso em Santo Antonio da Gloria; que seu pae ha pouco chegou em Salgado do Melão devido á perseguição da força contra o mesmo; que no grupo denominado “Lampeão” tem os parentes Hortencio Gomes de Lima ou José Lima de Sá, vulgo “Arvoredo”, irmão do depoente, e Christino de tal, vulgo “Curisco”, ex soldado da policia de Sergipe, primo do depoente; que o grupo de “Lampeão” ha cerca de um mez fôra visto no “Serrote da Macambira”, de Santo Antonio da Gloria, com destino a Sergipe, de cujo grupo constavam entre outros, “Lampeão”, Curiscu, Arvoredo, o menino conhecido por “Volta Secca” e outros; que “Arvoredo”, seu irmão, já lhe escreveu por duas vezes e mandou recado convidando o respondente a fazer parte do bando “Lampeão” que tambem já mandou fazer esse convite. Perguntado que respostas deu a esse convite, respondeu que por hora ainda não decidiu nada.” José Gomes da Costa fez quase identicas declarações, referindo tambem que recebera convite de “Arvoredo” e “Lampeão” para fazer parte do seu bando, não tendo ainda resolvido nada a respeito."

Arvoredo, colorizado por Rubens Antonio

Arvoredo morreu em 26 de maio de 1934, na serra, próximo à estação ferroviária da Barrinha, por então conhecida como "Angicos". Os dois matadores foram Cícero José Ferreira, o Xisto, que nasceu em 1911, e João Biano da Silva, que nasceu em 1913.

Uma imagem cuja dificuldade para conseguir foi grande, mas, graças ao senhor Raimundo, de Jaguarari, ex-cunhado de João Biano, e a gentileza imensa da filha e do filho deste valente matador de Arvoredo, aqui a única foto existente... de João Biano:



Muito chamado por "João Biana" é uma alteração posterior ao evento da morte de Arvoredo. O nome correto é João Biano da Silva. No texto de Oleone Fontes, em seu livro "Lampião na Bahia", aparecem os matadores citados como Xisto e João Martins da Silva... Este erro apenas reproduz o cometido pelo coronel Alfredo Barbosa, de Jaguarary, que, à época do evento, relatou-o, errando no nome de João. João Biano está enterrado na Fazenda Saco, em Jaguarari.

Partícipe, com o amigo João Biano, na morte do cangaceiro Arvoredo, esta é a única foto restante de Cícero Ferreira, o Xisto.
 

A dificuldade para se conseguir esta foto foi imensa, mas, finalmente, graças ao sobrinho de Xisto, Messias, e à filha adotiva daquele, a "Neguinha", consegui esta imagem. Xisto está sepultado na Fazenda Mulungu, em Jaguarari.


Sepultura do cangaceiro Arvoredo, em Jaguarari:

Detalhe na cruz - "AC" = Arvoredo Cangaceiro:

Está lá no Cangaço na Bahia.com

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

19 de março de 1929, no “Diário de Noticias” Bahia

A primeira menção a Volta-Secca, então divulgado seu apelido como "Estrume-Secco"
Transcrito por Rubens Antonio

Affrontando a lei e a civilização! A ronda macabra de Lampeão e as miserias que elle contuna a praticar


 Como se deu o fuzilamento horrivel de duas praças da policia bahiana

Lampeão e o seu grupo se encontram, neste momento, entre Canudos, Bom Conselho, Geremoabo e Varzea da Ema, caminhando em zig–zags, praticando as tropelias de sempre.

Seguem–lhes as pegádas grupos volantes da Força Publica do Estado. É possivel, uma hora destas, um encontro, a destruição talvez, da famigerada caravana do crime. As ultimas informações que temos são estas, que se seguem:

Por que a policia ainda não liquidou o bandido

Toda a difficuldade da policia é provocada por Virgolino. Este chegou, por exemplo, a semana atrasada, na Fazenda Carneira, municipio de Bom Conselho, á noite. Pediu dormida. O velho antonio, da Carneira, coagido, deu–lha. Lampeão disse–lhes:

– Se eu “drumi muito”, até depois das 7 horas, me acorde!

– E para onde você vae Lampeão?

Vou seguindo. Quero matar o tenente Abdias e mato mesmo. Já o enganei, diversas vezes, deixando–lhe rumo errado, e o pego de tocaia. Você, “seu” Antonio diga aos “macacos” (é como Lampeão chama a policia bahiana) que eu não saio daqui. Os sertões estão verdes. Daqui vou para a fazenda Barra.

O que é preciso

No outro dia, Lampeão fez rumo dessa fazenda mas, no caminho, tomou outra direcção, entrando na caatinga, pernoitando no logarejo Casinhas, distante legua e meia de Guloso, onde o tenente Abdias acampara! Nota–se a tactica de Virgolino.

Esteve em Sergipe e regressou

Lampeão já esteve em Carira, Estado de Sergipe, ha dias. Mas, regressou á Bahia, para a fazenda Caritá, perto de Guloso. Tomou informações d=sobre a marcha da policia. Dahi foi parar.

Na Fazenda “Boboreiras”, onde houve fogo!

Isto no dia 9. Abdias o descobriu e fez fogo.

É preciso dizer que a policia não poupa o bandido. O fogo devia ter durado umas duas horas. ao cabo, porém, ficou baleada uma praça, ferida no hombro direito e o grupo saiu incolume, tendo Lampeão deixado os seus companheiros entretanto o tiroteio, emquanto elle fugia.

Urge que o governo guarneça com contingente de 10 a 20 homens as localidades. Porque Lampeão tem por norma retornar aos logares nos quaes esteve uma vez e foi feliz, isto é, roubou e contou o seu rol de proesas.

Um menor que é uma fera!

Em Guloso, Lampeão encontrou um menor de 15 annos, apellidado “Estrume secco” alli respeitado pelo seu temperamento malvado. Alliciou–o. Pois bem, esse menor é, actualmente, o peor elemento do grupo, o mais perverso e impetuoso. Respeita, apenas, o chefe.

Foi esse menor quem matou, ha dias, tres praças da Força Publica perto de Novo Amparo, na fazenda Cabaceiras. Amarrado um soldado, o menor tomou o fusil do mesmo, tomou posição e fez fogo, fusilando o infeliz.

Outra praça, presa, assistiu á scena. Depois, foi tambem morta, a fusil. Terminada a façanha, o menor fez o cachorro de Lampeão, um felino enorme, preto, beber o sangue da victima!...

Como foram presos os soldados

Esses dois desgraçados foram surpreendidos proximos do local onde foram fusilados.

Iam montados em burros, para servir no destacamento de Bom Conselho, e tinha partido desta Capital. Surpreendidos por Lampeão, acovardaram–se. Podiam ter usado os fusis. Mas, pensaram que, rendendo–se, o bandido os pouparia.

Como se vê, Lampeão não está mais disposto a ser complacente com os soldados bahianos. Vinga–se de todos, nos que consegue deter! Os miseros, supreendidos pararam os animaes. Lampeão gritou–lhes:

– Macacos, apeiem. entreguem as armas!
E elles obedeceram.

Depois, foi o que se viu, a execução junto a uma capoeira de “pao de rato” e malvas pretas, sobre um terreno arenoso, proprio do Nordeste...

Ameaças em portugues de “Garruncha”

– Passamos a divulgar uma carta de Virgolino, dirigida ao commandante do destacamento de Bom Conselho, carta cujo original deve estar em poder do sr. chefe de policia. Escreve o bandido:

“Snr. Sargento Dudú. Lhe faço este aviso para participar–lhe apois vinha um aspeçada para ficar ahi em seu logar e você ir embora porem coitado a sorte delle foi muito mesquinha. Encontro cómigo e não o pude dispensar apois até outro dia soldado deste Estado tinha passage poréma gora mesmo tomei outro acôrdo ainda encontrando rezando não posso dispensar passo avisar que tenha muito cuidado apois meu fusil atrai sargento baiano e não pense que lhe aviso o dia de nós se encontrar quando você não esperar eu chego. Portanto não lhe trato milhor por causa de não ter pulicia em conta.

Nada mais fica para outro encontro.

(Assig.) Capitão, Virgolino Ferreira, vulgo Lampeão o 1° terror do sertão.”

Não é preciso commentar a audaio do scelerado!.. .. ..

sábado, 14 de abril de 2012

Memorial

Militares mortos... Baianos e na Bahia

Por Rubens Antonio


O levantamento do número de militares mortos em combate, seja baianos ou na Bahia, tem surgido apenas esparsamente, muito dado a erros e imprecisões.

Esta listagem é uma contribuição que aponta aqueles mortos que estão referenciados em diversas publicações, especialmente aquelas reconhecidas, no momento, pela própria Secretaria de Segurança da Bahia.

O seu acompanhamento é interessante ao demonstrar evidente o despreparo inicial da polícia baiana, no combate ao Cangaço. No seu passo, a correta dimensão do problema e a profissionalização crescente permitiu, primeiramente, a queda do número de militares mortos. Em segundo lugar, a inversão, com a progressão de cangaceiros eliminados.

Outro ponto que chama a atenção foi a desatenção descuidadosa do Estado, em relação aos seus mortos.
Inumados em sepulturas simples, seus restos, em sua maior parte, perderam-se.

1927
Quarta–feira 18 de fevereiro de 1927 - Picos, em Santo Antônio da Gloria

+ soldado Paulo Sant’Anna

1928
22 de dezembro - Fazenda Curralinho, no Cumbe (Atualmente Euclides da Cunha)

+ sargento José Joaquim de Miranda, (que aparece também citado como João Joaquim de Miranda, apelidado “Bigode de Ouro”).
+ soldado Juvenal Olavo da Silva, (Que aparece também citado como Juvenal A. da Silva).
+ soldado Francellino Gonçalves Filho, (Que aparece também citado como Francisco G. Filho).

1929
7 de janeiro de 1929 - Arraial de Abóbora, em Jaguarary (Atualmente é povoado de Juazeiro)
+ soldado José Rodrigues
+ soldado Manoel Nascimento de Souza

João Alves Guimarães, testemunha do combate de Abóbora, aponta a localização da entrada do antigo cemitério de Abóbora. Os soldados foram enterrados próximo à quina branca que se vê à esquerda. um novo cemitério foi instalado em outra localização, entretanto, os restos dos mortos não foram retirados. Daí, os restos dos soldados ainda repousam nos mesmos sítios, sob o pavimento da nova Abóbora.

26 de fevereiro de 1929 - Novo Amparo
+ soldado desconhecido
+ soldado desconhecido

4 de junho de 1929 - Brejão da Caatinga - Campo Formoso
+ cabo Antônio Militão da Silva
+ soldado Pedro Santana
+ soldado Cecílio Benedito da Silva, (Que aparece também citado como Cecílio Bernardino Alves).
+ soldado Manoel Luiz França, (Que aparece também citado como Manoel Luis de França).
+ soldado Leocádio Francisco da Silva, (Que aparece também citado como Leocádio Francisco dos Santos).



Os corpos dos soldados mortos em Brejão da Caatinga foram exumados e levados para a cidade de Campo Formoso, em cujo cemitério foram enterrados. Em uma reforma no cemitério, os restos de diversos mortos foram retirados e agregados em uma cova comum, em uma quina do cemitério. Entre eles estavam os restos dos militares. Na imagem, o coveiro atual, Eduardo Costa Sebastião, mostra onde repousam os mortos de Brejão da Caatinga, na quina, sob a árvore e os tocos de madeira.

20 de setembro de 1929 - Tanque Novo - Juazeiro
+ soldado desconhecido
+ cabo João Soares

21 de outubro de 1929 - Patamuté

+ soldado Olegário C. da Silva
Soldado Pantaleão da Silva foi dado por Felippe Castro (1975) como morto, mas foi apenas ferido, tendo sido promovido.


Soldado Pantaleão da Silva,
ferido, recuperando-se em Salvador.


18 de dezembro de 1929 - Uauá

+ soldado Vitorino Baldoino Lopes
+ soldado João Felix de Souza

19 de dezembro de 1929 - Santa Rosa - Jaguarary
+ soldado Vitorino Baldoino Lopes
+ soldado João Felix de Souza
+ soldado desconhecido
+ cabo João S. da Silva

22 de dezembro de 1929 - Queimadas

+ anspeçada Justino Nonato da Silva
+ soldado Olympio Bispo de Oliveira
+ soldado Aristides Gabriel de Souza
+ soldado José Antônio do Nascimento
+ soldado Ignacio Oliveira
+ soldado José Antônio da Silva, (Que aparece também citado como Antônio José da Silva).
+ soldado Pedro Antônio da Silva

1930
1 de agosto de 1930 - Fazenda Lagoa dos Negros - Tucano
+ tenente Geminiano José dos Santos
+ sargento José de Miranda Mattos, (Que aparece também e erradamente citado como José Miranda Marques).
+ soldado Argemiro F. dos Reis, (Que aparece também citado como Francisco Almiro dos Reis e Aquino Francisco dos Reis).
+ soldado Arnaldo Claudio de Souza, (Que aparece também citado como Arnaldo Cândido de Souza).
+ soldado André Avelino de Souza, (Que aparece também citado como André Avelino dos Santos).

1931
30 de janeiro de 1931 - Brejo do Burgo
+ soldado desconhecido

3 de fevereiro de 1931 - Vassouras
+ soldado desconhecido

24 de abril de 1931 - Fazenda Touro - Paulo Afonso
+ sargento Leomelino Rocha

1932
15 de abril de 1932
+ soldado Odilon G. da Silva

1933
2 de outubro de 1933 


+ soldado Pedro Emygdio de Oliveira (Ferido em tiroteio, trazido a Salvador, faleceu no Hospital da Força).

1934
21 de abril de 1934 - Paripiranga
+ soldado João Pereira de Souza

De uma maneira geral são estes os nomes e as datas. Caso haja outros dados referenciados, basta comunicar que serão inseridos.

Colhido no fértil Cangaço na Bahia

sábado, 15 de outubro de 2011

Rubens "Ontonho" no rastro de Lampião

Os Lantyer, de Queimadas 
A entrada de Lampeão e seu bando, em Queimadas, BA. em 22 de dezembro de 1929, se fez após a travessia, por canoa, do Rio Itapicuru.


Ponto atravessado por Lampeão e seu bando, em 22 de dezembro de 1929.

Desembarcou o grupo a cerca de 150 metros do chamado Chalé Lantyer. Caminharam em sua direção e encontraram dois homens diante de um automóvel. Foi assim que João Lantyer de Araújo Cajahyba tornou-se o primeiro a ser abordado por Lampeão e demais cangaceiros, após aqueles terem atravessado o Rio Itapicuru, diante da sua residência.

João Lantyer

O Chalé Lantyer, em seu aspecto original (Acervo família Lantyer)

João Lantyer, segundo à direita, com seu "Ford Bigode". Na extrema direita, o mecânico Patápio. Foto de 1928. Possuiu-o por pouco tempo. Vendeu-o para atender ao pedido da esposa, que temia que, em suas viagens, fosse novamente abordado por Lampião. Informação de Antonio Lantyer, seu filho, in Chalé Lantyer

Ali, João se encontrava com o mecânico Pedro Patápio realizando consertos no seu "Ford Bigode”. Após breve conversa com Lampeão, que solicitou o automóvel para adentrar a cidade no mesmo, informando-o que este se encontrava, como se podia perceber, com defeito, foi deixado para trás. Isto, enquanto o cangaceiro despachava alguns cangaceiros para neutralizar o telégrafo e avançou adentrando a cidade.

Zulmira Lantyer de Araújo Cajahyba, irmã de João, que se encontrava na residência da sua irmã, Djanira Lantyer de Araújo Cajahyba, quando foi chamada a ver a passagem do que seria uma tropa volante pernambucana. Reconheceu Lampeão e os cangaceiros que, passando-se por força volante, adentravam Queimadas.

Zulmira Lantyer

Tentou avisar a cidade, em uma ação poderia ter evitado o saque da cidade e o massacre dos soldados.
Entretanto, não deram crédito ao seu alerta. Tendo tomado a cadeia e quartel e prendido o sargento Evaristo e alguns praças, Lampeão fez tocar o apito que chamava os demais para o quartel. João Lantyer avistou e avisou um dos soldados que a pretensa volante era, na verdade, um "troço de cangaceiros” liderado por Lampião. Entretanto, o soldado não acreditou nele e seguiu para a morte.

Nascido em 24 de setembro de 1895, João Lantyer faleceu em 17 de dezembro de 1987, em Queimadas. Zulmira Lantyer faleceu em Queimadas em 25 de junho de 1989.

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