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quarta-feira, 26 de agosto de 2020

A Santa Cruz do Deserto:

Revisitando o Caldeirão – Beato José Lourenço é o último “Conselheiro”

Por Tarcísio Marcos Alves (1940 – 2016) – Professor – Autor do livro A Santa Cruz do Deserto: a comunidade igualitária do Caldeirão: 1920-1937.

Fonte – Suplemento Cultural. Estado de Pernambuco. Ano XII. Outubro/Novembro 1997, págs 24 e 25. Imagens – Tok de História

Em 1897, quando as tropas federais destruíram Canudos, o beato José Lourenço Gomes da Silva iniciava, no Sítio Baixa D’Anta, no Juazeiro do Norte — Ceará, a organização de uma comunidade camponesa igualitária que, após, alguns anos, realizara no Sítio Caldeirão, no Crato — Ceará. A experiência realizada pelo beato José Lourenço representou a última tentativa de um beato e seus seguidores de organizar uma comunidade camponesa de cunho religioso nos sertões nordestinos.
Beato José Lourenço.
Isto porque a política modernizante-autoritária do Estado Novo, aliada às facções fascistas da Igreja Católica, destruíram sistematicamente os movimentos populares — de beatos e cangaceiros — filhos do século XIX; Caldeirão foi devastado em 1937, e, um ano depois, Lampião e seus sequazes foram assassinados pelo capitão João Bezerra, seguido, meses depois, pela dizimação dos restos de beatos que viviam em Pau de Colher, na Bahia, pelo implacável caçador de beatos e cangaceiros Optato Gueiros…
O Estado Novo encerrou assim, para sempre, um ciclo de revoltas populares características do século XIX, que desde então estarão historicamente ultrapassadas.

José Lourenço chegou ao Juazeiro do Norte na época dos “milagres” (1889), quando a aldeia fervilhava de romeiros que afluíam de todas as regiões sertanejas para a terra do Padre Cícero Romão Batista. Duas coisas importantes os atraíam: as terras férteis do Vale do Cariri e a certeza de alcançarem a salvação na cidade do santo milagreiro. O próprio Padre Cícero constatou o fato, ao afirmar que “Juazeiro tem sido um refúgio dos náufragos da vida”. É que para lá iam multidões de miseráveis, refugiados das regiões castigadas pelas secas…
Outra imagem do Beato José Lourenço.
O beato José Lourenço logo se integrou na aldeia e tornou-se penitente. Morou alguns anos no Juazeiro e depois foi com a família viver no sítio Baixa D’Anta. Lá começaram a desenvolver uma experiência de trabalho coletivo com base no mutirão, o que levou a um esboço de organização de uma comunidade camponesa de cunho cooperativista. Mas o que mais marcou a sua vida no sítio e o tornou conhecido na região foi o episódio do boi “Mansinho”. Tratava-se de um garrote que o Padre Cícero ganhara de presente e dera ao beato para criar. Como era um animal pertencente ao Padre Cícero, toda a comunidade dedicava um tratamento especial ao boi. Em pouco tempo surgiram boatos de que o boi “Mansinho” estava fazendo milagres…
Região do Caldeirão – Foto – Rostand Medeiros.
Por essa época (cerca de 1920), além das perseguições religiosas contra o Padre Cícero, a imprensa fazia uma feroz campanha contra Floro Bartolomeu. Este passou a ser acusado pelo Deputado Federal Morais e Barros como o “Deputado de bandidos e fanáticos”. Sob pressão, Floro Bartolomeu foi obrigado a agir: mandou prender o beato José Lourenço e matar o boi “santo”.
Padre Cícero em sua mesa de trabalho.
Solto e humilhado, com fama de “fanático” José Lourenço voltou para o sítio Baixa D’Anta, onde viveu mais alguns anos, quando o proprietário da terra vendeu a propriedade e expulsou-o de lá. O beato passou algum tempo em Juazeiro, onde, pelas suas práticas religiosas, adquiriu fama de “homem santo” e passou a ser tratado como “beato”. Em 1926 retirou-se com algumas famílias para o sítio Caldeirão dos Jesuítas, terra pertencente ao Padre Cícero. O Padre entregou as terras ao beato quando o seu testamento já estava pronto, no qual doara todas as suas propriedades aos Salesianos, inclusive o sítio Caldeirão. Encerrava-se a história do boi “Mansinho” e começava a do beato José Lourenço, que em breve tornar-se-á o beato mais célebre da região do Cariri e liderança indiscutível de uma comunidade camponesa contando com alguns milhares de trabalhadores pobres.
Igreja do Sítio Caldeirão – Foto – Rostand Medeiros
Na comunidade, a experiência vivida expressou-se em uma experimentação concreta da fé, a materialização de uma nova forma de vida: o trabalho tornou-se um meio para a salvação da alma. A principal testemunha dos acontecimentos do Caldeirão, o senhor Henrique Ferreira, recentemente falecido, assim descreve o trabalho como penitência na comunidade do Caldeirão: “É os penitentes, é os pobres penitentes, que todo pobre é penitente. O trabalhador é um pobre penitente! Tá na penitência do trabalho!” Nestas condições, a pobreza da vida tornou-se suportável e até prazerosa. Foi a partir desta perspectiva religiosa – o trabalho como penitência —, que a comunidade camponesa do Caldeirão se organizou.
Formação rochosa que acumulava água na época de seca, conhecida como “Caldeirão”, que batiza a localidade histórica. Esse tipo de local foi essencial para o sucesso inicial da comunidade do Beato José Lourenço – Foto – Rostand Medeiros.
O sítio era uma pequena propriedade abandonada, com cerca de 900 hectares, do outro lado da Serra do Araripe, distante vinte quilômetros do Crato. Encravado entre serras e morros, de acesso extremamente difícil, era lugar ideal para o isolamento. Lá instalados, o beato e seus seguidores deram início aos trabalhos de limpeza dos matos e construções e reparos de cercas. Construíram a casa do beato e as primeiras e pequenas casas de taipa e, como a terra era seca, iniciaram também a construção de pequenas barragens nos grotões e socavões dos morros, garantindo assim razoável abastecimento de água para as épocas de secas. Nas terras altas deu-se início a plantação de algodão, milho e feijão. Nas terras baixas, irrigadas por processos primitivos, plantou-se cana-de-açúcar e arroz. Pequena engenhoca levantada nas imediações do pequeno povoado passou a produzir rapadura, batidas e melaço suficientes para o sustento da comunidade. Construíram ainda a casa de farinha e produziam sabão, a partir de uma planta nativa da região, conhecida por “pingui”. Em pouco tempo, o que era uma terra deserta e abandonada transformou-se em um pequeno arraial.
Área do antigo Sítio Caldeirão na atualidade 
Foto – Rostand Medeiros.
Nessa fase inicial, a comunidade trabalhava basicamente na agricultura e na construção de casas em mutirão para os novos moradores. Cada nova família que lá chegava era bem recebida, e os que já viviam no sítio construíam logo a nova moradia; alastraram-se as casinhas a partir do sopé dos morros, formando, gradativamente, um cinturão em redor da pequena planície onde floresciam as primeiras plantações. A divisão do trabalho era simples: os homens trabalhavam na limpeza dos terrenos, na construção de casas, de caminhos, cercas e na agricultura, enquanto as mulheres, além dos trabalhos caseiros, carregavam água para molhar as plantas, ajudadas pelas crianças maiores. O problema da água será resolvido definitivamente através da construção de dois açudes.
A educação na sua comunidade era uma grande preocupação 
do Beato José Lourenço.
O beato estava sempre à frente de todos os trabalhos e tudo era feito sob a sua orientação. Trabalhava-se das seis da manhã às seis da noite, sob o ritmo dos benditos, puxados pelo beato… A incrível capacidade de trabalho e liderança do beato é atestada por todos, inclusive por aqueles que não nutriam simpatia por ele, como é o caso do tenente Góis de Barros – que comandou a invasão e destruição do sítio em 1936 —, que afirmou espantado em seu Relatório: “Aliás, faça-se justiça, o espetáculo de organização e rendimento do trabalho, com que nos deparamos ali, era verdadeiramente edificante”. Toda a produção e consumo eram controlados por Isaías, espécie de “ministro do planejamento e da economia” da comunidade. Os produtos eram armazenados em celeiros e redistribuídos de acordo com as necessidades de cada família.
A igreja local na década de 1930.
Não circulava dinheiro na comunidade e a organização social era rígida, dentro de padrões de uma religiosidade quase ascética. Outras pessoas ajudavam o beato José Lourenço na administração da vida da comunidade, destacando-se o papel exercido por Severino Tavares, que, apesar não viver no sítio, exercia o papel de “aliciador” de romeiros para visitar a comunidade. Seu trabalho como divulgador da vida no Caldeirão muito contribuiu para o aumento da população do sítio, pois muitas pessoas que iam apenas conhecer o beato lá permaneciam…
Foto – Rostand Medeiros.
Com o crescimento populacional do sítio diversificaram-se as atividades produtivas. No meio de tantos trabalhadores que chegavam ao Caldeirão, encontravam-se profissionais das mais diversas especialidades. Organizaram-se então as primeiras oficinas, passando-se a fabricar os mais diversos instrumentos de trabalho e utensílios domésticos. Em pouco tempo a comunidade produzia praticamente tudo o que necessitava para a sua sobrevivência. Apenas o sal e o querosene, assim como remédios, eram comprados pelo beato, com o dinheiro que arrecadava com a venda de rapadura e algodão.

Paralelamente desenvolveu-se a criação de animais, bovinos, caprinos e suínos, além das mais diversas espécies de galináceos. Através deste quadro sintético da organização econômica e social da comunidade do sítio Caldeirão, fácil é perceber que ela formava um vivo contraste em relação à situação dos trabalhadores dos latifúndios do Sertão. Ali reinava a fartura, fruto do trabalho intenso de milhares de pessoas em mutirão – a população do sítio alcançou na fase mais populosa, cerca de duas mil pessoas —, o que duplicava a produtividade do trabalho, fazendo com que os celeiros estivessem sempre cheios. Foi esta fantástica organização do trabalho visando a plena satisfação das necessidades fundamentais da comunidade — que se tornou praticamente autossuficientes —, que caracterizou a experiência realizada no sítio Caldeirão pelo beato José Lourenço, e que o transformou em uma ilha de fartura em meio à miséria reinante no Sertão da época. Era uma comunidade pobre, evidentemente, mas bem alimentada material e espiritualmente. A religiosidade popular, que perpassava todos os atos cotidianos da comunidade, tornava suportável a penitência do trabalho e fácil a vida…
Uma das casas remanescentes do antigo Sítio Caldeirão,
 sendo preservada na atualidade – Foto – Rostand Medeiros.
As reservas de víveres permitiram que a comunidade sobrevivesse à grande seca de 1932, apesar de o número de habitantes do sítio ter sido acrescido de cerca de 500 pessoas no período. É que o beato abriu as portas do sítio para receber todos os flagelados da seca que lá quisessem entrar e permanecer!

Após a morte do Padre Cícero, em 1934 — época em que os habitantes do Caldeirão passaram a se vestir todos de preto, em luto perpétuo pelo “santo” do Juazeiro —, grande parte dos romeiros que iam a Juazeiro visitar o túmulo do Patriarca fazia questão de ir ao Caldeirão pedir a bênção ao beato José Lourenço. Isto se devia ao fato de José Lourenço representar o único sobrevivente dos “santos” do Juazeiro.
Os romeiros ao visitarem a comunidade contribuíam com o desenvolvimento econômico do sítio, pois levavam valiosos presentes, que iam desde cargas de alimentos, animais a até objetos preciosos. Entretanto, a morte de Padre Cícero – amigo e protetor do beato -, anunciava também as tempestades que se avizinhavam. O crescimento constante da popularidade do beato, aliado à prosperidade crescente do sítio, despertou a atenção das elites políticas e religiosas do Crato.

Os jornais iniciaram a campanha contra o beato e sua comunidade. O artigo intitulado “Os fanáticos do Caldeirão”, publicado no jornal “O Povo”, afirmava, entre outras coisas: “Dois malandros do Ceará, José Lourenço e Severino Tavares, andam explorando no Vale do Cariri a memória do Padre Cícero.”’ Para a hierarquia católica, o Caldeirão parecia representar uma ameaça: o beato poderia tornar-se um novo “santo” como o Padre Cícero… E, nesse caso, com o agravante de estar fora do controle da Igreja: seria um novo Antônio Conselheiro!…
Assim, alarmados, os proprietários vizinhos e as elites políticas e religiosas atacavam sistematicamente o beato e sua comunidade: “Setores conservadores ligados à política regional, insuflados pelos proprietários de terras e do clero, encarregam-se de espalhar boatos sobre o beato José Lourenço e os habitantes do Caldeirão. Diziam que o beato oficiava sacramentos reservados ao clero de forma bárbara e sacrílega, que vivia em concubinato com as beatas, possuindo harém de 16 mulheres, que explorava a ignorância e o fanatismo dos camponeses, usando a sua força de trabalho para enriquecer”.

Era, enfim, a orquestração de uma formidável avalanche de inverdades — como a de que o beato, então com 65 anos, tivesse capacidade sexual de manter um harém com 16 concubinas! —, com o objetivo de destruir a experiência comunitária do Caldeirão, que, além de atrair trabalhadores de todas as partes, “as relações de produção e consumo tendiam abertamente para o comunismo”, na expressão do Tenente Góis de Barros…
Os padres salesianos, herdeiros das terras do Padre Cícero, decidem tomar o sítio sem indenizar o beato pelos benefícios lá realizados. Para isto, contratam o advogado Norões Milfont, deputado da Liga Eleitoral Católica — LEC (de cunho fascista), que passa a defender a causa dos mesmos. O advogado passa a divulgar que o Caldeirão era uma nova Canudos, que o beato José Lourenço possuía armas escondidas e que a comunidade representava uma séria ameaça ao Estado, por ser de franca tendência comunista…
O então tenente Alfredo Dias foi um dos oficiais da polícia cearense que combateu os membros do Caldeirão. Entrou na corporação como soldado e se aposentou como coronel, tendo chegado a combater cangaceiros do bando de Lampião.
A hierarquia católica confirma: “Nos sermões, os padres falam do perigo do ajuntamento de fanáticos e da infiltração de agentes vermelhos a serviço do totalitarismo ateu. Os boatos chegam aos ouvidos das autoridades estaduais.”’ Era, enfim, a união da Igreja, do Estado e das elites políticas e latifundiárias contra a comunidade camponesa igualitária do sítio Caldeirão… O advogado dos salesianos, Norões Milfont, não se limitou a espalhar boatos denegrindo a comunidade; para provar suas denúncias e incriminar ainda mais o beato e seus seguidores, enviou um espião ao Caldeirão. A escolha feita, por si só, revela as intenções subjacentes ao ato: decidiu-se enviar “um dos maiores bandidos-autoridade de que se teve notícias no Ceará”, na expressão de Optato Gueiros.
Era o Capitão José Gonçalves Bezerra, conhecido na região como um implacável caçador de cangaceiros, sendo, na verdade, um deles, só que escondido por trás da farda policial. Escolhido o espião, as autoridades iniciaram as investigações. O tenente José Góis de Campos Barros encarregou-se de comandar a destruição, que descreveu depois no seu “Relatório”. Nele afirma que o número de habitantes do Caldeirão havia tomado tamanho vulto que as autoridades locais alertaram o Capitão Cordeiro Neto, Chefe de Polícia, de “certos fatos singulares, que ali estavam passando”.

Para esclarecer os “fatos”, foi ao sítio o Capitão José Bezerra, disfarçado em industrial interessado nas possibilidades econômicas da região, em relação à indústria de oiticica. Admitido na residência do beato, o Capitão Bezerra tudo observou, especialmente as riquezas acumuladas no sítio, fruto do trabalho sistemático da comunidade, o que logo lhe despertou o interesse…
Os mortos do Caldeirão foram identificados pela imprensa como “São Anastácio”, “São Pedro” e “São Cosmo”.
No seu relatório, refere-se à existência de “uma nova Canudos, coito de fanáticos e do terrível perigo comunista,”’ e conclui solicitando urgente intervenção.

Depois das investigações realizadas pelo Capitão José Bezerra, o interventor e Governador do Estado, Menezes Pimentel, reuniu o advogado dos salesianos Norões Milfont, O Bispo do Crato, Dom Francisco de Assis Pires, Andrade Furtado, Martins Rodrigues, O Capitão Cordeiro Neto, Chefe de Polícia e o Delegado do DEOPS, o tenente José Góis de Campos Barros. Com exceção dos dois militares, todos os outros pertenciam à LEC. Decidiu-se pela intervenção. O Tenente José Góis de Campos Barros comandou a expedição, no mês de setembro de 1936.
O beato José Lourenço conseguiu fugir, escondendo-se na Serra do Araripe, acompanhado de algumas famílias. Em meio a todo tipo de violência, inclusive estupros, os militares atearam fogo em todas as casas, expulsaram os moradores, destruíram e saquearam o sítio…
Segundo um levantamento realizado pelo então delegado de Ordem Política e Social do Ceará, o tenente do Exército José de Goes de Campos Barros (que chegou ao generalato), cerca de 75% dos participantes do Caldeirão eram oriundos do Rio Grande do Norte, 20% divididos entre Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Maranhão e Piauí e apenas 5% do próprio Ceará.
O Tenente José Góis, em seu relato, diz que após juntar todos os habitantes, explicou a eles para que viera: acabar com a comunidade, porque “o Estado não podia permitir aquele ajuntamento perigoso”. As ordens eram que cada família juntasse seus pertences e voltasse para os seus locais de origem. Ofereceu passagens de trem e de navio, que foram unanimemente rejeitadas: “E, fato singular, ninguém tinha bens a conduzir. Tudo o que ali estava, diziam, era de todos, mas não tinha dono”.

O beato José Lourenço continuou por algum tempo refugiado na Serra do Araripe. Severino Tavares e seu filho Eleutério foram presos em Fortaleza. A imprensa da época calculou que, após a destruição do sítio, pelo menos mil pessoas foram juntar-se ao beato José Lourenço, na Serra. Entrementes, Severino Tavares e seu filho foram soltos da prisão e dirigiram-se para Serra do Araripe. Enquanto o beato José Lourenço ganhava tempo para iniciar negociações visando voltar para o sítio, Severino Tavares planejava vinganças… (Afirma-se que uma das moças estupradas pelo Capitão Bezerra era sua filha…)
Sobreviventes do ataque ao Caldeirão.
Os jornais começam a publicar notícias alarmantes, informando que os beatos ameaçavam invadir fazendas e a feira do Crato. Segue uma patrulha comandada pelo Capitão José Bezerra para debelar os “fanáticos”. Severino Tavares montou uma emboscada com alguns seguidores e, em luta corpo a corpo com a patrulha, morreram o Capitão, um filho seu e o próprio Severino Tavares, além de outros soldados e camponeses.
O TOK DE HISTÓRIA apresenta o texto do professor Tarcísio Marcos Alves (1940 - 2016), com a história de uma comunidade religiosa que viveu no seco sertão nordestino, liderada pelo beato José Lourenço, que não perturbavam ninguém, dividia entre seus moradores a produção local e seus lucros. Mas em meio a uma época de grandes conflitos políticos no Brasil, foram acusados de comunistas e massacrados pelas forças militares cearenses.
Seguiu-se o bombardeio na Serra, quando três aviões, comandados pelo Capitão José Macedo, autorizado pelo Ministro da Guerra, General Eurico Gaspar Dutra, conduzindo bombas, metralhadoras e grande quantidade de munições, metralharam e bombardearam os agrupamentos de camponeses oriundos do Caldeirão…
Por terra, atacavam as forças policiais. O Capitão Cordeiro Neto avaliou a chacina em cerca de duzentos mortos, enquanto outras fontes orais afirmam que o número de mortes teria atingido uma cifra bem maior: entre setecentas a mil pessoas…

O beato José Lourenço escapou do bombardeio na Serra. Após muitas negociações, conseguiu voltar ao sítio Caldeirão, em 1938. Lá passou mais dois anos, trabalhando e reconstruindo o sítio, junto com poucas famílias de camponeses — o acordo não permitia mais “ajuntamentos”.
Em 1938, quando já reorganizara a produção no sítio, foi novamente expulso pelos salesianos. Na ocasião, o Sr. Júlio Macedo conseguiu junto ao Juiz de Direito do Crato a devolução do dinheiro que fora entregue ao Juizado por ocasião do leilão do que restara dos bens do sítio após a destruição e saque do mesmo.

De posse de pequena quantia, o beato ainda conseguiu adquirir uma pequena propriedade no município de Exu, em Pernambuco. Lá, no sítio que denominou de União, o beato, acompanhado de umas poucas famílias, viveu em paz durante oito anos. Morreu no dia 12 de fevereiro de 1946, vitimado pela peste bubônica…

Seu corpo foi transportado através da Chapada do Araripe pelos seus fiéis seguidores, até o Juazeiro…
O que o beato não sabia era a recepção que o seu corpo teria da Igreja: levado para uma capela onde seria realizada a missa de corpo presente, o padre, na última condenação da Igreja ao beato, negou-se a cumprir o ritual…
Foto – Rostand Medeiros.
NOTAS 
1 — CAVA, Ralph Della. Milagre em Juazeiro. Rio de Janeiro-RJ, Paz e Terra, 1976, pág. 122
2 — Henrique Ferreira, entrevista ao autor, 12/07/1983
3 — CARIRY, Rosemberg. O Beato José Lourenço e o Caldeirão de Santa Cruz. In Revista Itaytera, Crato – CE, n°26, pp. 189-199-1982
4 — BARROS, Ten. José Góis de Campos, A Ordem dos Penitentes. Imprensa Oficial, Fortaleza – CE, 1937, pág. 31.
5 – Jomal “O Povo” – Fortaleza – CE, 02/03/1935
6 — Jornal “O Povo” — Fortaleza — CE, 02/03/1935
7 — CARIRY, Rosemberg, in op. cit., pág. 195
8 — GUEIROS, Optato. Lampeão: Memória de um oficial ex-comandante de forças volantes. Recife – PE, 1952, pág. 252.
9 – ANSELMO, Otacílio. “Tragédia de Guaribas”. In. Revista Itaytera., n° 25,1972, pág. 13. 10 – BARROS, Ten. José Góis de Campos. In op. cit., pág. 30.

Pescado no Tok de História

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Imagens raras

Funerais do Beato José Lourenço
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Após os fatos do Caldeirão e da Mata dos Cavalos, o Beato José Lourenço montou em Exu, no Pernambuco, o Sítio União, onde viveu até fevereiro de 1946.

Acometido de peste bubônica, o beato encantou-se em 12 de fevereiro de 1946. O pranto dos homens e mulheres que viviam no União, foi derramado pelas muitas léguas que separam Exu e Juazeiro. A pé, trouxeram seu corpo para a terra do Padre Cícero, e aqui o beato não teve direito a missa de corpo presente. Tanto na capela de São Miguel, quanto na do Socorro, somente portas fechadas, os padres negaram.




O enterro se deu no Cemitério do Socorro, após as exéquias improvisadas, e até hoje seus restos mortais lá repousam.


FONTE: Cariri das antigas
TEXTO: @robertojunior.cda
FOTOS: Acervo de Renato Casimiro e Daniel Walker.

terça-feira, 10 de março de 2020

Atendendo a pedidos

O maior sebo virtual de historiografia nordestina ao seu alcance



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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Convite

Para rememorar os 68 anos de morte de beato José Lourenço e remanescentes da comunidade do Caldeirão.



Data: 12/02/2014 (quarta-feira) - Horário: 17h.
Local: Capela do Perpétuo Socorro em Juazeiro do Norte/CE.


Fonte: ONG Beato José Lourenço
Curta a página da ONG no Facebook: Clique Aqui

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Documentário Completo

Caldeirão de Santa Cruz do deserto de Rosemberg Cariry

Resgate da memória e da história da comunidade religiosa do Caldeirão, liderada pelo beato José Lourenço, que se organizava em moldes comunitários primitivos. Depois de alcançar grande progresso, a comunidade foi destruída pela polícia cearense e pelo bombardeio de aviões, em 1937, deixando mais de 2 mil camponeses mortos. A partir dos depoimentos dos remanescentes e dos símbolos da cultura popular, o filme faz uma reflexão sobre o poder, a liberdade e a luta pela terra.
Diretor: Rosemberg Cariry
Duração: 96 minutos
Ano de Lançamento: 1985




O filme foi encontrado no canal de Daniel C. Valentim no Youtube.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Beato José Lourenço

O sepultamento
Por Renato Casimiro

José Lourenço Gomes da Silva era paraibano da cidade de Pilões de Dentro, nascido em 1870, filhos de escravos alforriados – Lourenço Gomes da Silva e Teresa Maria da Conceição. Muito jovem foi trabalhar na agricultura, afastado da família que migraria para Juazeiro. Aos vinte anos de idade, José Lourenço vem para Juazeiro, onde reencontra sua família e ser torna beato. Em 1894 José Lourenço e seus familiares foram morar no Sítio Baixa Dantas, arrendado do proprietário cratense João de Brito e arrendado anteriormente ao Padre Cícero. Aí em Baixa Dantas, Zé Lourenço constituiu a sua primeira comunidade, de cerca de duas mil pessoas que vivia da agricultura e da pecuária. Em 1921, o Pe. Cícero recebe de presente um exemplar bovino da raça zebu, oferecido pelo industrial Delmiro Gouveia.

In http://www.portaldejuazeiro.com
O animal foi entregue para o zelo de Zé Lourenço que o levou para Baixa Dantas. O animal foi alcunhado de Boi Mansinho, pela docilidade de seu trato. As atenções com o animal, pela raça exemplar e pelo destino que se dava para melhorar o plantel da região, fizeram crescer as histórias de práticas fanáticas de adoração ao animal, do uso de sua urina como pretenso medicamento, etc. Desde junho de 1920, Floro Bartholomeu da Costa já tinha manifestado a sua intolerância com as chamadas Cortes Celestes, tendo inclusive determinado atos de violência para a dissolução de uma comunidade nos arredores do Horto, sendo alguns presos na cadeia local.

Floro, deputado estadual na época, foi por diversas vezes admoestado por críticas com respeito ao apoio que o Pe. Cícero dava ao beato Zé Lourenço. Não se contendo, determinou a captura do beato e a transferência do boi para Juazeiro, onde foi sacrificado. Zé Lourenço ficou preso em Juazeiro por cerca de 17 dias, segundo se diz, sem nenhuma alimentação. A intervenção do Pe. Cícero e amigos influentes levou o beato à soltura, que saiu da prisão nos braços de membros de sua comunidade. Zé Lourenço ainda permaneceu em Baixa Dantas até 1926, quando o Sítio foi vendido. Com a saída de José Lourenço e sua gente, Pe. Cícero os encaminhou para uma outra sua propriedade, o Sítio Caldeirão dos Jesuítas, no município de Crato.

No Caldeirão viveram 10 anos, até que em setembro de 1936 a comunidade foi tomada por uma ataque de forças policiais. Alguns foram presos e levados para Fortaleza, outros teriam sido vitimados por um discutido ataque aéreo. José Lourenço fugiu para nova propriedade, denominada Mata dos Cavalos. Em 1937 ainda teria acontecido alguns conflitos entre membros da comunidade e tropas militares.

Sobreviventes do massacre do Caldeirão

Falava-se com receios que o beato tivesse restaurando sua comunidade, como um novo Caldeirão. E a perseguição se tornou implacável. José Lourenço e remanescentes se refugiam em Pernambuco, no Sítio União, município de Exu, e aí tiveram algum sossego, pois não mais aconteceu qualquer perseguição por força policial. Entre 1938 e 1946, a comunidade experimentou ainda um período de reconstrução, até que em 12 de fevereiro de 1946 falece José Lourenço, aos setenta e seis anos de idade. A comunidade leva seu líder para ser sepultado em Juazeiro do Norte, a 70 quilômetros de Exu.

Cerca de trinta e cinco homens da comunidade trouxeram o caixão com os restos mortais do beato, em uma caminhada extenuante, onde gastaram doze horas pelas veredas. Pelas duas horas da manhã o cortejo chegou ao Juazeiro. Encontraram naquela manhã de 13 de fevereiro de 1946 a proibição da acolhida do corpo do beato para cerimônias de exéquias, imposta pelo então vigário de Juazeiro, Mons. Joviniano da Costa Barreto. Os homens do Sítio União levaram, então, o corpo de José Lourenço para a Capela de São Miguel, hoje inexistente, onde também se verificava a mesma proibição. A solução foi realizar o velório no lado de fora da capela. Depois das orações realizadas pelos presentes, o cortejo seguiu para o cemitério do Socorro, onde, finalmente o beato José Lourenço descansa em paz.    

Ao relembrar a trajetória e estes últimos momentos da vida de José Lourenço Gomes da Silva, reproduzimos algumas imagens da figura do beato e flagrantes do velório e cortejo fúnebre.


Foto 1 a 3: José Lourenço Lourenço Gomes da Silva;
Foto 4: Capela do Sítio Caldeirão;
Foto 5 e 6: Velório, à porta da antiga Capela de São Miguel;
Foto 7 e 10: Cortejo fúnebre pelas ruas de Juazeiro do Norte.

In: www.colunaderenato.blogspot.com.br

sábado, 14 de julho de 2012

Canudos nas telas

Um filme poético e delirante sobre a epopéia da Guerra de Canudos. Um mosaico sobre o maior acontecimento histórico do país.



ANTÔNIO CONSELHEIRO - O TAUMATURGO DOS SERTÕES (de José Walter Lima) é o encontro de Antônio Conselheiro, ressurgindo nos sertões da Bahia, com seu próprio mito no imaginário popular. O filme é uma metáfora sobre os sertões, uma epopeia da saga desse peregrino.

O filme se desenvolve seguindo duas linhas: a do sagrado ou apostolado, e a da campanha militar. A confluência dessa narrativa se dá no reencontro dos mitos do Cel. Moreira Cezar e do Antônio Conselheiro, o primeiro como Anticristo e o segundo como Iluminado.

Em comum ambos têm a morte que os transformou em mito no imaginário popular, tal como o Demônio e o Santo. Um vive pelo outro. Ambos morrem, mas o mito, atemporal, sobrevive.

Confira trailer:



HISTÓRICO - As primeiras imagens deste filme foram realizadas com o ator Carlos Petrovich (Idade da Terra/Glauber Rocha) no final de 1987. Esperamos três anos para o projeto ser aprovado e, quando a primeira parcela dos recursos foi liberada, o governo Collor de Melo confiscou.

Em seguida, uma tragédia se abateu sobre o cinema brasileiro com a extinção da Embrafilme. Os recursos confiscados foram liberados em 18 parcelas, o que resultou em um grande prejuízo para produção do filme. Além disso, um incêndio ocorrido no incío da década de 90 consumiu 40% dos negativos e 100% do som original.

Em 2009 retomamos o processo de finalização do filme. Fizemos uma imensa garimpagem e restauração do material de audio e vídeo. Promovemos soluções criativas, realizando filmagens complementares para enfim deixar pronto esse longa-metragem que documenta um importante momento da história do Brasil.

Mais informações: www.antonioconselheiroofilme.com.br

Pesquei in Luz de Fifó

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Guerras no Sertão

Pau de Colher ou a Guerra dos Caceteiros.
Tudo ocorreu cerca de cinquenta anos depois do episódio do Arraial de Canudos, quando o beato cearense Antônio Conselheiro insurgiu-se contra a hierarquia católica e o autoritarismo da república então nascente, culminando com o massacre dos conselheiristas; e pouco tempo depois de outro massacre, o do Caldeirão da Santa Cruz, no Cariri, comunidade místico-religiosa liderada por outro beato, o Zé Lourenço. Eis que na confluência do Estado da Bahia com o Piauí, na localidade denominada Pau de Colher, no termo de Casa Nova, — originalmente São José do Riacho da Casa Nova — mais um cearense é o protagonista inicial de uma saga de insurreição e misticismo
O rezador de apelido Quinzeiro soube da existência de algumas grandes fazendas no interior do Piauí, na citada área limítrofe com o Estado da Bahia. Tratava-se de três propriedades que pertenciam a Antônio Martins (Barra), Mariano Rodrigues de Sousa (Cágados) e Alexandre Oliveira (Caldeirão). Quem conta a história é o pesquisador Marcos Oliveira Damasceno, bisneto de Alexandre. Vale salientar que o interesse de Quinzeiro era econômico, posto que o Piauí era o maior exportador de gado vacum para o município de Rio Branco, atual Arcoverde, em Pernambuco.

Por razões estratégicas a localidade de Pau de Colher foi a escolhida para a empreitada. Ali o rezador fez logo amizade com moradores do lugar, entre os quais Sinhorinho, Ângelo Cabaço e José Lourenço. No início da construção do arraial os poucos moradores locais ajudaram na construção das casas de moradia, bem como de outras edificações. Concomitantemente, iniciaram-se as rezas e procissões que tinham o condão de irmanar cada vez mais aquela população ignara e naturalmente mística. Segundo alguns estudiosos do movimento, logo aqueles rígidos costumes adotados e os rituais e manifestações de religiosidade popular descambariam para o fanatismo.


Rigorismo para iniciados e compromisso de fidelidade ao líder

A comunidade de Pau de Colher cresceu com rapidez, apesar do rigor com os iniciados no movimento de clara conotação religiosa. As pessoas que desejassem aderir ao movimento tinham que raspar a cabeça, doar todos os seus bens ao mestre Quinzeiro, prometer fidelidade ao ritual e estar sempre à disposição das ordens do líder. O fanatismo exacerbou-se a tal ponto que, segundo consta, o assassinato do pecuarista chamado Zé da Barra foi praticado pelo irmão, em cumprimento de ordem dada pelo “mestre”. O motor do crime teria sido o fato de que o pecuarista não aceitou o convite para aderir ao movimento, ao contrário do seu irmão fratricida.




O fato é que o movimento ganhou muitos adeptos, alcançando uma dimensão que levou as autoridades a ficarem preocupadas, pois além do apelo religioso tinha claramente um apelo social. Tal chamamento foi ouvido além Casa Nova indo repercutir até no município piauiense de São Raimundo Nonato. Muitas pessoas das localidades de Cachoeirinha, Proeza e Minadouro aceitaram o convite e apenas uma minoria não se dobrou aos argumentos sócio-religiosos de Quinzeiro e seus adeptos, agora bem numerosos. Entre as lideranças locais inscritas no rol de seguidores do movimento citam-se Quinca e a esposa Hermenegilda; Zeferino e Zé Caboclo. Com eles, a maioria do povo. Entre os que resistiram ao convite estão Zé da Barra, Raimundo Carlos, Doquinha da Mata e Norberto. Vale ressaltar, de logo que, os que não aceitaram pertencer à irmandade do rezador, transformaram-se em colaboradores da polícia quando o arraial de Pau de Colher foi atacado.


Prosélitos armados de cacetes convidavam as pessoas a aderir ao movimento


A denominação “caceteiros” se deu em razão de que os militantes do movimento destinados a fazer o trabalho de proselitismo se apresentavam armados de cacetes, pedaços de pau. Armados de cacete é que eles enfrentaram as forças policiais e voluntários a serviço do Estado. No início da reação, claro. Posteriormente muniram-se com as armas de fogo conquistadas ao inimigo no campo de batalha.


Com o crescimento e ação desenvolta dos líderes de Pau de Colher as autoridades viram que algo deveria ser feito para barrar o movimento que se propunha ocupara extensas áreas de terra em propriedades privadas, mais precisamente localizadas no Estado do Piauí. Os caceteiros começaram a ameaçar a integridade de quem quer que se opusesse a seus desideratos e, segundo entenderam as autoridades locais na época, a ordem pública estava ameaçada. Portanto, urgia uma providência rigorosa para por abaixo os planos dos caceteiros, cujo contingente a cada dia mais aumentava. Algo teria que ser feito, mesmo porque corriam boatos de que o movimento planejava tirar do caminho cinco personalidades que não mais permitiriam o avanço dos adeptos de Quinzeiro.


Para avançar nas terras piauienses, o movimento teria que assassinar cinco homens influentes na região, os quais teriam condições de atrapalhar os planos de Quinzeiro. São eles: João Rodrigues Sousa (Janjão), que era subdelegado; João Rodrigues Damasceno, líder político, e os três fazendeiros: Antônio Martins, Mariano Rodrigues de Sousa e Alexandre Oliveira. Depois, conforme depoimentos de sobreviventes, se soube que o chefe do movimento, Quinzeiro, determinara que os fazendeiros deveriam ser capturados vivos e acorrentados pelo pescoço, conduzidos ao arraial, onde assinariam as escrituras das terras, transferindo-as para o movimento.


Com efeito, o primeiro a ser atacado foi Janjão, o subdelegado, por morar mais próximo, na localidade Olho D’Água. Depois seria a vez dos demais. Prevenido, o subdelegado contratou oito capangas, de modo que sabedor da guarnição de Janjão, Quinzeiro enviou sessenta jagunços armados com cacetes para matá-lo. Apesar de armados com rifles, os 8 homens eram insuficientes para derrotar um contingente oito vezes maior. O subdelegado resolveu bater em retirada, fugindo pelos fundos da casa levando consigo a esposa Marieta Oliveira e uma menina de 15 anos, que tinha o nome de Santa. Os três fugiram para a localidade de Riachinho a abrigar-se sob a casa do Sr. Júlio Dias, bem distante do local do assalto.

Os caceteiros mataram os oito homens e a casa foi queimada juntamente com uma bodega ali existente. Os objetos foram saqueados. O subdelegado pediu reforço à polícia de São Raimundo Nonato. Corria o mês de dezembro de 1937. Veio a Força Policial de São Raimundo Nonato, comandada pelo major Toinho. A “força policial” constava de dois soldados: Militão Martins e Carlos Santana. Segundo os relatos esses soldados valiam por uma centena de praças, segundo depoimento do próprio Janjão. Ao se aproximar do local, a volante policial foi surpreendida por uma multidão de pessoas. Ao avistar os caceteiros, o major Toinho logo recuou e correu do local, deixando algumas armas de fogo (rifles) no acampamento. Bom para os “caceteiros”, que as pegaram.


Multidão explode em violência na defesa dos caceteiros

Diante do revés, mais uma vez foi solicitado reforço de Casa Nova - BA. Essa volante era comandada pelo cabo Vieira. Essa volante chegou a entrar no arraial, aprisionando algumas pessoas e cercando os principais líderes. Todavia, de repente, uma multidão de cerca de três mil pessoas explodiu em violência e perpetrou um massacre contra a volante, morrendo inclusive o Major Toinho. As armas novamente ficaram para os “caceteiros”.

Depois desse episódio, os caceteiros só ganharam mais forças. E prepararam outra investida. Vendo a gravidade da situação, os Estados do Piauí e da Bahia pediram ajuda ao Estado do Pernambuco. Os que resistiam aos caceteiros nas fazendas da região de Pau de Colher estavam desorganizados e lhes faltava comunicação eficiente com as forças policiais. A esta altura, as notícias dando conta dos conflitos no arraial do Pau de Colher já havia chegado ao conhecimento do presidente Getúlio Vargas por intermédio do bispo Dom Inocêncio, de Juazeiro da Bahia. Atendendo aos apelos das autoridades da região, o presidente Vargas, no final de janeiro de 1938, autorizou o envio de contingente policial proveniente de Pernambuco.


Quando chegou ao local do arraial, guiada pelas próprias pessoas resistentes, a força pernambucana montou uma estratégia infalível: cercou toda a área do arraial. Eram cem soldados bem estruturados preparados para a invasão, o que efetivamente ocorreu. A batalha durou cerca de 24 horas e as baixas foram grandes de ambos os lados. Ao contrário do que ocorreu em Canudos, em Pau de Colher as crianças foram poupadas. No mais a ordem era matar quem se manifestasse em estado de insubordinação e rebeldia. Porém, dominado o adversário as forças do Estado permitiram que as mulheres saíssem da área conflituosa. Foram liberadas. Diz-se que a medida facilitou a fuga de Quinzeiro. O mentor de toda a sublevação teria conseguido empreender a fuga vestido de mulher.

No final da luta, quando restavam poucas pessoas, em meio à verdadeira carnificina, houve a rendição dos caceteiros. Muitos dos presos foram depois liberados. Eram apenas pessoas residentes no lugar, sem culpa naquele estado de coisas. Todavia, finalmente os líderes do movimento foram presos e no arraial foi tocado fogo.

As crianças órfãs e que não tinham nenhum parente que por elas se responsabilizassem foram levadas para Salvador e adotadas ou colocadas em conventos. Alguns jovens foram servir na Marinha, outros no Exército. Uma dessas crianças chegou a se tornar brigadeiro da Força Aérea Brasileira.

Pau de colher constitui, destarte, uma das guerras populares mais trágicas do interior do Nordeste. Porém, são necessárias mais aprofundadas pesquisas para que se aclare algumas lacunas que ainda persistem na história até aqui registrada.

Romaria anual reverencia os mortos inocentes


A Paróquia de São José Operário de Casa Nova/BA, com o apoio da Comissão Pastoral da Terra-CPT, da Diocese de Juazeiro da Bahia, promove todos os anos uma romaria ao local dos enfrentamentos, com o objetivo de reverenciar a memória dos muitos inocentes que tombaram na batalha de Pau de Colher. No ano passado ocorreu VI Romaria de Pau de Colher, a 13 de dezembro. A romaria acontece há cerca de 60 km da sede do município. O tema trabalhado pelos organizadores e romeiros em 2009 foi “Com Fé e organização conquistamos nossos direitos e o lema: Terra, Água, Saúde e Energia!.

Cerca de quatro mil adeptos compunham a comunidade de Pau de Colher


Pau de Colher é uma localidade do município de Casa Nova - BA, aproximadamente 15 km da divisa com o Piauí, especificamente no limite com o município de Dom Inocêncio. Na época da “Guerra dos Caceteiros” ou de “Pau de Colher” (1938) pertencia ao território do município de São Raimundo Nonato-Piauí, ao tempo administrado pelo prefeito Francisco Antônio da Silva, o Bitozo Silva, um dos que não concordaram com a situação em que cerca de 4000 pessoas propugnavam obediência a uma legislação consuetudinária própria da comunidade de Pau de Colher, em clara desobediência às leis do país.

No fundo das águas


 Cidade de Casa Nova (BA), 
que em 1977 foi submersa pela barragem de Sobradinho

O município de Casa Nova originou-se na primeira metade do século XIX, em razão da produção de sal em seu território. O fundador teria sido um rico português conhecido apenas como Senhor Viana, de quem seria descendente o Conselheiro Luís Viana, um dos grandes do Império e o mais preeminente casanovense. O filho deste, Luís Viana Filho, foi igualmente ao pai, governador da Bahia. Foi também Senador da República e era escritor famoso, tendo ocupado uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.

Oficialmente o município foi criado por lei provincial de 1879, com área desmembrada do município de Remanso, que por sua vez já pertencera a Pilão Arcado. Seu nome original foi São José do Riacho de Casa Nova. Em 1976, o lago formado pela barragem de Sobradinho cobriu as cidades originais de Casa Nova, Pilão Arcado, Remanso e Sento Sé. A mudança das cidades e das populações ribeirinhas por causa da barragem causou protestos e contribuiu para colocar no fundo das águas um pedaço da memória histórica do Brasil, especialmente do Nordeste.

Pesquei na essencial: Revista Nordeste 21 Edição nº 12, Ano I, Junho de 2010.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Scans

As armas que defenderam e destruíram Canudos 











Pesquisa de Aldo Barbieri, para a Revista Magnum edição nº 55, Nov/Dez de 1997.
*Créditos para o confrade Augusto da comunidade do Orkut: Lampião, Grande Rei do Cangaço