quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Eitcha cambada...

  Que 2010 já tá no meio da beirada!

Eu respeito a crendice dos ateus
E a descrença que mora nos beatos
O atrativo daqueles que são chatos
E o modesto que às vezes se acha Deus.

Reconheço o valor dos versos meus
E a sujeira que habita a mente pura
A pureza que mora na mistura
E a discórdia que mora no consenso.

Deus conserve pra sempre meu bom senso
Temperado à pitadas de loucuras

Eu respeito as hipócritas verdades
E o valor natural dos imperfeitos
Pois somente através dos seus defeitos
Poderão destacar as qualidades.

Reconheço o valor das falsidades
E a mentira que mora em cada jura
Tanta lágrima mole em cara dura
Que eu já nem ofereço mais meu lenço.

Deus conserve pra sempre meu bom senso
Temperado a pitadas de loucuras

Eu respeito o lamento dos contentes
E a alegria que mora em todo pranto
O pecado que mora em cada santo
E o temor que apavora os mais valentes.

Reconheço a moral dos indecentes
E o sabor palatável da amargura
O azedume que mora na doçura
E a fumaça que limpa pelo incenso.

Deus conserve pra sempre meu bom senso
Temperado a pitadas de loucuras

Eu respeito a breguice do elegante
E a desordem na mente do analista
O desanimo mora no otimista
E a inocência namora o meliante.

Reconheço a modéstia do arrogante
E o maestro que odeia partitura
O erudito que foge da leitura
E o aluno que adora ser suspenso.

Deus conserve pra sempre meu bom senso
Temperado à pitadas de loucuras

Eu respeito a vontade do capacho
E o sucesso de todo o fracassado
A macheza do homem delicado
E a porção delicada do homem macho.

Reconheço a elegância do esculacho
E o poder criador da criatura
A coragem que mora na paúra
E o valor da derrota quando venço.

Deus conserve pra sempre meu bom senso
Temperado à pitadas de loucuras

Eu respeito a esperteza que há no tolo
E a tolice que mora em cada sábio
O mau jeito que mora no mais hábil
Jubileu celebrado sem o bolo.

Reconheço a desculpa para o tolo
E o valor nutritivo da gordura
A doença saudável que nos cura
E a paixão que parece amor intenso.

Deus conserve pra sempre meu bom senso
Temperado à pitadas de loucuras.

Eu respeito a doidera do careta
Lucidez que se mostra no maluco
A memória que mora no caduco
E o fantasma que mora na gaveta.

Reconheço o caráter da mutreta
E a beleza que mora na feiúra
Pilantragem que mora na lisura
E a pressão 10 por 8 do hipertenso.

Deus conserve pra sempre meu bom senso
temperado à pitadas de loucuras.

Eu respeito o sorriso do sisudo
E a tristeza que mora na risada
Quem é tudo, mas diz que não é nada
Quem é nada, mas diz que sabe tudo.

Reconheço a grandeza do miúdo
E a umidade que mora na secura
Noite em claro que ofusca noite escura
E a incerteza que mora no que eu penso.

Deus conserve pra sempre meu bom senso
Temperado à pitadas de loucuras.
 

*Autoria ainda desconhecida. 
Quem souber entregue aí.



terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Lampião e o "Lajedo do boi"

Um dos locais das filmagens de Abrahão

Na historiografia do cangaço são muito analisadas as filmagens que Benjamin Abrahão fez com Lampião e seu bando.
 



No ano de 1936, o árabe passou vários meses filmando o bando nas caatingas, e, no governo de Getúlio Vargas, o "DIP" - departamento de imprensa e propaganda confiscou o filme produzido, entendendo que o mesmo, ia contra os princípios da república e afetava a imagem do governo.

Das filmagens originais de Abrahão, sobraram, apenas, em torno de 10 minutos, uma vez que, o restante foi estragado pelo tempo, nos porões da ditadura.

Onde foram feitas as filmagens de Abrahão com o grupo de Lampião?

Segundo estudiosos, apesar de Benjamin ter passado vários meses filmando o grupo um dos locais destas foi No lugar “Lajedo do boi”, próximo ao povoado do "Capiá da igrejinha ", pertencente ao município de Canapi , estado de Alagoas .

Pequeno templo que batiza o povo e o povoado.


O Lajedo fotografado há alguns anos.
Nesse lajedo, os cangaceiros se abasteciam de água, cozinhavam etc. Veja, logo abaixo, a imagem da época feita por Benjamin Abrahão, vendo-se, um cangaceiro carregando água em um pote, em cima do lajedo que acumulava o precioso líquido.naquele “lajedo”, que Lampião se acoitou com seu grupo, em 1936.

 
Cangaceiros carregando potes com água, para abastecimento do grupo.

 Mais um ângulo do grande "Lajedo do boi” hoje.

Fotos recentes - Cortesia do escritor do cangaço, Dr. Sérgio Augusto Souza Dantas.

Créditos
Ivanildo Alves Silveira
Colecionador do cangaço
Membro da SBEC
Natal/RN

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Cangaço na telinha

Novela da Rede Globo será gravada no sertão sergipano 

Além de Sergipe, um castelo do Vale do Loire, na França, também será cenário para a próxima trama das seis que, segundo informações da colunista Patrícia Kogut, deve misturar os núcleos da Aristocracia e do Cangaço.

Segundo informações da coluna Controle Remoto, do Jornal O Globo, Nathália Dill viverá o papel da vilã Dora, uma menina que se passará pelo menino Fubá para entrar no Cangaço. Bruno Gagliasso completa a dupla central de vilões.

A diretora geral da novela será Amora Mautner e o elenco conta com nomes como Cauã Reymond, Bruno Gagliasso, Nathália Dill e Bianca Bin

Novela tem estréia prevista para 2011


Sergipe será locação para as gravações da próxima novela das seis da Rede Globo, chamada de ‘Cordel Encantado’. A notícia foi recebida com extrema satisfação pelo diretor-presidente da Empresa Sergipana de Turismo (Emsetur), José Roberto de Lima, que desde os primeiros contatos com o Renato Azevedo, coordenador de Produção da novela, não mediu esforços para garantir a escolha do estado.

“Nossos primeiros contatos foram por telefone e, desde então, fizemos o que estava ao nosso alcance para fornecer todo e qualquer subsídio do qual precisassem. Enviamos várias informações por e-mail e sedex, como publicações do estado, folders, fotos, vídeos, enfim, tudo o que fosse necessário para mostrar o que Sergipe tem de melhor e, assim, poder surpreendê-los”, afirma José Roberto.

Diante desta missão, a diretora de Marketing da Emsetur, Caroline Portugal, não descansou. “Na Abav – Feira das Américas (maior evento de turismo do País) tive a oportunidade de conhecer o produtor, Renato Azevedo, e convidá-lo para visitar o Estado. Ele aceitou e, quando chegaram aqui, gostaram do que viram. Mas ainda haviam outros estados na ‘disputa’, como Alagoas”, informa.

Sabendo que o cenário da novela seria o sertão e com o apoio de Thaís Figueiredo, assessora do Departamento de Marketing da Empresa, Caroline Portugal imediatamente reuniu imagens e contatos que pudesse ajudar nessa empreitada. “Automaticamente inseri Silvinha Oliveira no circuito e a ajuda dela foi fundamental para todo apoio que tivemos em Canindé do São Francisco”, diz. Segundo ela, foi o trabalho em conjunto que rendeu essa vitória à Sergipe.

“Desde o final de setembro que temos mantido contatos com a Globo. Não só informamos sobre cenários, como oferecemos apoio logístico nas várias visitas que fizeram ao nosso estado. Aliás, quero destacar o profissionalismo do Governo do Estado e das pessoas que fazem parte da Emsetur, que foi um dos diferenciais destacados pela equipe da Rede em relação aos outros ‘concorrentes’. Isso vai gerar uma enorme exposição de nossos atrativos turísticos na mídia nacional”, reforça José Roberto.

Para Caroline Portugal, é uma exposição que só trará vantagens. “Fico muito feliz de poder participar deste momento do turismo em nosso estado. Sergipe é um destino riquíssimo em belezas naturais, cultura e história. Ser cenário de novela é o melhor merchandising para qualquer produto, principalmente quando não gera ônus, como é o caso. Tenho certeza que a partir de agora Sergipe ficará nas ‘prateleiras’ das operadoras e agências de viagens nacionais e internacionais, já que as novelas da Globo são vendidas para o mundo inteiro”, anima-se.

A confirmação sobre a escolha de Sergipe como locação partiu do produtor Raul Gama, que ressaltou o compromisso dos envolvidos em facilitar o acesso da equipe aos cenários. “Percebemos o empenho e que todos estão dispostos a contribuir”, revela.

De acordo com a diretora de Marketing da Emsetur, Sergipe mostrou não só que possui belezas naturais mais que suficientes para se tornarem cenários de novelas, como também se destacou por ter uma excelente infraestrutura. “Eles observaram nossa estrutura física e o acesso às possíveis locações. Tudo contribuiu para que nos escolhessem, afinal, serão mais de 100 pessoas na produção da novela”, informa Caroline Portugal.

Fonte: Agencia Sergipana de Notícias.

Imagem: César de Oliveira)
Pesquei no Portal Infonet

  
Nota do Lampião Aceso
O Cangaço ou "um Cangaço" estará novamente em maior evidencia na TV.  

Segundo o portal emsergipe esta trama terá estreia logo após a atual novela Araguaia. 
Só nos resta aguardar e torcer para que os autores se valham do mínimo possível de licença poética. Já adiantaram que existe uma personagem fictícia que ingressa nas hostes de algum líder cangaceiro. 

Que sejam cuidadosos, pelo menos 90% fiéis ao vestuário, cotidiano, caracteristicas e costumes etc etc etc. Sem falar no irrinitente e pejorativo Hibrido sotaque nordestino desenvolvido nos laboratórios linguístico do sudeste. É incrível como o imigrante daqui de cima sabe interpretar o sulista mas o sulista tende a desafinar tanto com nossa melodia?

Ei cambada

Com este belo cartão virtual, obra dos parceiros Arievaldo Viana e Jô Oliveira, desejamos a todos os nossos amigos, confrades de SBEC, Cariri Cangaço, colaboradores, seguidores e visitantes... 
    Feliz Natal!


Acompanhado de um abraço Fraterno!
Kiko Monteiro. 


*Imagem gentilmente enviada pelo confrade Kydelmir Dantas.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Vídeo

Homenagem a Antonio Vieira 

Por: Aderbal Nogueira

Há poucos dias o amigo João de Souza comunicou a morte do ex - volante Antônio Vieira. Mais um participante da história que se vai, pois é, o tempo é cruel. Venho aqui prestar uma homenagem póstuma ao ex-combatente e também ao incansável garimpeiro da história, meu amigo João, pois através dele tive a oportunidade de conhecer e entrevistar o Sr. Antônio.

Como disse há pouco no blog do Cariri Cangaço, em quase todos os depoimentos gravados por mim, sempre tive ao lado vários amigos me dando suporte, entre os quais o ímpar Paulo Gastão e vários outros, como Lemuel Rodrigues, Ângelo Osmiro, Waldir Júnior, Jairo Oliveira, Kydelmir Dantas, entre outros. Eu simplesmente apertei o botão da câmera. Agradeço a João de Souza pela oportunidade de ter conhecido mais um personagem importante do combate da Grota de Angico.

Coloco agora uma pequena parte de como a volante de seu Antônio chegou ao local onde tombou o Rei do Cangaço.



João, continue na sua luta incansável em prol da verdadeira saga Lampiônica. Você tem uma mina ao seu alcance. Destrinche todo o sertão baiano, alagoano e sergipano; nós, seus amigos, só temos que agradecer.

Aderbal Nogueira

Opinião

Quem foi Lampião 

Por Alfredo Bonessi

Alto, magro, moreno escuro, quase pardo, esguio, meio corcunda, ágil, saudável, resistente a fadigas, manco do pé direito por causa de bala - segundo quem lhe conheceu - por causa de calos no pé segundo declarações dele mesmo, em estado espiritual, a um programa de televisão, com belida no olho direito, um leucoma, assim era o corpo de Virgulino Ferreira, vulgo Lampião.

De personalidade alegre, disposto, temperamento inconstante, sujeito a crises de fúria e descontrole, místico, religioso, rezador, intuição apurada, perspicaz, agudeza de raciocínio, inteligente, líder nato, exímio atirador de armas curtas e longas, fazendeiro, domador de animais de montaria, vaqueiro campeão, amante de bebidas finas, cigarros, charutos e mulheres, excelente trabalhador em couro e tecidos, narcisista, jogador de baralho sem sorte, impiedoso, cruel, vingativo, justiceiro - falso moralista, abusou sexualmente de algumas mulheres, embora, hoje, não sabemos se eram esposas ou filhas de inimigos. – mesmo assim são fatos lamentáveis e inaceitáveis para qualquer época de uma geração.

Desconfiado, prudente, calculista, infiel mas respeitador das opiniões da companheira, maleável até certo ponto, principalmente em algumas decisões a ponto de alterar as ordens dadas por interferências dela, respeitado, temido, considerado, perigoso, astuto, inquisidor, julgador, musico, dançarino, corajoso, amigo, leal, acreditava nas pessoas, perfeccionista , gostava de tudo o que era bom, rico, comerciante, artífice, laborioso, habilidoso e estrategista.

Lampião foi um homem notável para o seu século. Não existiu até o presente momento ninguém mais do que ele, igual a ele, em mesmas circunstâncias, fazer o que ele fez em um ambiente hostil, carente de meios e desprovido de tudo, por tanto tempo assim – mais de vinte anos - acossado por centenas de volantes policiais.


A impressão que se tem pela fotografia acima, é que em 1928 – na visita a Ribeira do Pombal, BA possuía um relógio de pulso no braço esquerdo.

Não sabemos até hoje como conseguiu gravar o seu nome e o de sua mulher no interior das alianças que ambos portavam e que simbolizavam a paixão que um nutria pelo outro. Gostava de tudo que brilhava, que reluzia. Quem o avistasse pela primeira vez ficava impressionado com aquele homem impecavelmente trajado de azul, ou brim caqui, apetrechos ricamente ornamentados de variadas cores e matizes, armas luzidias nas mãos prontas para o uso, tez da cor de cuia, olhar firme, voz rouca, sons profundos que calavam fundo na mente de quem o ouvia – de repente a pessoa, em seu intimo, sentia um arrepio, um frio, um medo, um temor – sentia a impressão que estava correndo um grande perigo, e aguardava, apavorada, a qualquer momento o bote daquela fera perigosa, de punhal em riste, e com a ponta do aço duro cutucar a veia jugular na tabua do pescoço, sangrando a vítima em questão de segundos.

O pavor que os nordestinos sentiram quando estiveram frente a frente com Lampião, sentiram também os homens que outrora conviveram com pessoas diferentes e superdotadas, como por exemplo, quem esteve nas presenças de Alexandre, O Grande, Julio César, Nero e Napoleão Bonaparte. – personagens da História, grandes personalidades em suas diferentes épocas, alguns líderes excepcionais, guerreiros, vencedores, que sucumbiram pela vontade do destino, dono absoluto da vida das pessoas importantes. Quem os visse, a princípio, sentiam-se admiradas diante de tanta beleza, depois de contemplá-los por alguns instantes sentiam um respeito profundo pelo que viram, depois eram possuídas por um temor inexplicável que lhe arrebatavam a alma e que lhes causavam calafrios, palidez nas face, suor frio e tremores nas pernas.

Não se pode desejar que lampião nasça em outro lugar, em outro país, em classes mais abastadas. Lampião nasceu e se criou no lugar exato em que todo o homem valente deseja nascer e ser criado - uma terra de homens corajosos, valorosos, que não tem medo de nada e de ninguém. Homens acostumados a vida dura, difícil, onde só o destemido, o persistente, o audacioso, os corajosos sobrevivem, tiram raças e prosperam em cima do solo duro, pedregoso, domando o gado hostil - animais bravios - em meios a serpentes venenosas, como a cascavel e rodeado de mata espinhenta por todos os lados.

Quem visita o lugar onde Lampião nasceu sente a alma envolta por um romantismo inexplicável, o ar circundante é adocicado pelo aroma das flores silvestres. Ainda pode se escutar o gorgeio livre da passarada ao amanhecer e ao entardecer; pode-se sentir o cheiro natural que brota da terra estrumada; pode-se ouvir o guizo da cobra oculta; pode-se escutar ao longe o mugido do gado na invernada; pode-se imaginar o fogo aceso, panelas ferventes, chiando nas trempes, o prato de bolinhos feitos pela Dona Jacosa, sua avó, o café fumegando na caneca, e as suas mãos ágeis enfeitando o couro dos arreios, o seu semblante concentrado mas feliz pela alegria que sentia de viver e de trabalhar, o prazer de tudo e por tudo, o gosto pelo que é bom.

Toda essa vida boa, doce, tranqüila, prazeirosa, o destino ingrato retirou dos caminhos de Lampião, menos a fé em Deus e o amor puro que nutria pelos seus familiares. Mesmo nas horas mais difíceis de sua vida atribulada a paixão pela Virgem Santíssima nunca se arrefeceu de seus pensamentos ardorosos, forjados por uma fé inquebrantável – sentia um amor infinito e incompreensível pela Santa, a ponto de sempre rezar em sua homenagem, ao deitar, ao levantar, ao meio dia e as seis horas da tarde.


Lampião queria viver bem e feliz. Queria ser o melhor em tudo e por tudo, de acordo com o que Deus lhe dera. Por ser portador de qualidades inerentes a poucos seres humanos, foi invejado, odiado, perseguido, traído e levado a morte, embora tenha feito de tudo para que isso não acontecesse, pois era um amigo leal e de confiança, era muito bom para quem fosse bom para com ele – Lampião era um homem de palavra e não se apossava das coisas alheias por ser ladrão vulgar, salteador de beira de estrada, fazia o saque por necessidade de manter o bando de cangaceiros e por esse fato pedia sempre dinheiro as pessoas mais abastadas, por carta, bilhetes ou mensageiros, ou simplesmente tomava delas.

Lampião a frente de seus homens mantinha uma rede de informantes pagos a peso de ouro. Aliciava policiais e pessoas influentes, e quando não conseguia demover o perseguidor por bons modos, difamava-os, inventava historias cômicas sobre eles, dava-lhes apelidos depreciativos, contava piadas que fazia brotar risos na turma acampada aos redores das fogueiras, sobre esse e aquele oficial. Era temerário, mas não poderia ter negligenciado a capacidade combativa de Bezerra - o oficial que o matou- segundo Lampião, dito por ele mesmo, não tinha medo de boi brabo, quanto mais de bezerra.........o descuido, esse erro de avaliação foi-lhe fatal e custou-lhe a cabeça naquela manhã de 28 de julho de 38.

Criou para si e para seu bando sinais, códigos e gírias que significavam algo entre eles, que conheciam a chave para decodificação, como por exemplo o L formado pelo indicador e o polegar da mão direita que devia ser mostrado quando se aproximavam das sentinelas do grupo. A três pancadas nos troncos das arvores - mas não eram pancadas comuns, elas tinham intensidade, ritmo e freqüência, que só os do bando sabiam executa-las.

A manutenção dos esconderijos, os depósitos escondidos nos interiores dos troncos das arvores, de dinheiro, munição e armamento; a ocultação do cadáver do seus comandados, o sumiço dos rastros, a camuflagem, a dissimulação, a finda, o drible, a manobra audaciosa, o descarte dos dejetos dos acampamentos, a busca pela água e pelos alimentos, - o lampejo na mente iluminada pela escolha da decisão mais acertada, na hora certa e diante de grande perigo - fizeram o bando sobreviver por longos anos, diante de volumoso número de perseguidores, graças ao tirocínio de seu comandante, de sua visão combativa, de seu planejamento bélico, do seu sentido de direção, de seus objetivos previamente ajustados e na maioria das vezes bem sucedidos, e por esse fato granjeava a admiração e o respeito dos seus seguidores, a ponto de sempre confiarem nele e o considerarem invencível. Seu bando nunca andava a ermo, sem um roteiro estabelecido, se um objetivo, sem uma missão a cumprir. Seus deslocamentos sempre tiveram início, meio e fim.

Lampião morreu no tempo certo e na hora certa. Morreu no apogeu da vida e da saúde. Morreu em combate. Após o mortífero impacto da bala que lhe pôs por terra, enquanto pode, enquanto tinha uma pouco de energia, tentou ficar de pé, não conseguiu, se contorceu até que o tiro final esgotou todas as possibilidades de vida. Um espírito muito forte retornava a sua morada divina.



Lampião pode ter sido o que seja, mas um dia voltará para cumprir a sua missão terrena em uma nova chance dada pelo criador. Esperamos que tenha mais sorte desta vez. Analisando a vida de grandes malfeitores podemos dizer que Lampião não teve as mesmas chances e as oportunidades de fazer o bem que tiveram Reis, Rainhas, Religiosos e Políticos da Nova Era. – pelo contrário – foram até muito pior do que ele. As centenas de pessoas que caíram pelo aço de seu punhal ou pelas balas de suas armas nem de longe se comparam aos milhões de mortes causadas pela inquisição religiosa e nos porões das masmorras ideológicas. Talvez seja por isso que Lampião mereça uma nova chance nesse mundo de pecado.


Alfredo Bonessi. (Foto: Coroné Severo)
Estudante Pesquisador – Membro da GECC - Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará e SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Notas

Nossa solidariedade ao confrade Honório

Faleceu na noite deste último dia 19, domingo, no Hospital Wilson Rosado Mossoró, o senhor Francisco Honório de Medeiros, 83. "Seu Chico Honório" era pai de Honório de Medeiros, companheiro confrade de SBEC e Cariri Cangaço, um grande caráter, um ser humano inigualável. O velório aconteceu na Capela de São Vicente e o sepultamento ocorreu na manhã de ontem, segunda-feira, 20, no Cemitério São Sebastião em Mossoró.

A neta Bárbara ao lado do saudoso vovô Chico. 

Amigo Honório e familiares aceite nosso votos de pesar pela perda deste velho amigo. E que Deus logo renove a alegria que cedeu um espaço para a tristeza às vésperas deste Natal.

Atenciosamente  
Kiko Monteiro.

Nota e imagem colhida no Cariri Cangaço
Clique e confira a homenagem do coroné Severo.

Cangaço em HQ: Um clássico e uma novidade!

As aventuras de Milton Ribeiro 
Por José Salles

Os primeiros anos da década de 50 do século passado foram de grande vulto para o cinema brasileiro, com a exibição de um filme que se tornaria um grande clássico entre os cinéfilos: O Cangaceiro, de Lima Barreto (não é o famoso escritor carioca, mas um homônimo), que ganhou prêmios no exterior e transformou seu principal protagonista, Milton Ribeiro, em astro de renome internacional.

Na época, Ribeiro tinha como vizinho um artista das Histórias - em - Quadrinhos, e com isso pensou em contatá-lo para uma possível versão do filme O Cangaceiro para as páginas de gibi. O artista em questão atendia pelo nome de Gedeone Malagola, então um jovem de 30 e poucos anos que dava seus primeiros passos como roteirista e ilustrador de HQs na paulistana Editora Júpiter, de Auro Teixeira (Ribeiro e Malagola residiam em Jundiaí, próximo da capital paulista).

As negociações para se conseguir os direitos do filme não avançaram, e Milton Rodrigues pensou em transformar a si mesmo, ou por outra, apresentar um personagem vestido de cangaceiro chamado exatamente... Milton Ribeiro! E o ator deu carta branca ao vizinho & amigo Gedeone, só exigindo que o personagem fosse totalmente voltado ao Bem, e por isso que o Milton Ribeiro do gibi é diferente do sádico & violento Capitão Galdino, personagem que o ator interpretou no laureado filme. Muito ao contrário, Milton Ribeiro estava sempre ao lado da lei e da justiça.




Milton Ribeiro em Quadrinhos começou a ser publicado pela própria Editora Júpiter em Aventuras No Sertão (no ano de 1953), e posteriormente na famosa revista Vida Juvenil de Mário Hora Júnior, onde a série foi publicada por quase dez anos, e, mesmo não tendo aparecido em todos os números, tornou-se um inesperado sucesso entre os leitores, sucesso que durou quase uma década.




 



E com a longevidade a série foi ganhando alguns outros personagens, como Filhota (uma versão da Luzia-Homem, eventual parceira de Milton Ribeiro, em algumas aventuras tendo destaque principal) e o delegado Ricardo – que fisicamente se assemelhava ao próprio Gedeone (que também tinha por hábito desenhar colegas seus como personagens das histórias). Gedeone, a propósito, já demonstrou na ocasião muita criatividade (a marca de sua carreira), neste personagem que lhe exigiu muito estudo também, haja vista a adaptação que fez do romance de José de Alencar, O Gaúcho, e também sua polêmica versão sobre o conflito de Canudos. (JS)

 Gedeone Malagola (de pé) e Milton Ribeiro.

Pesquei no Salles Fanzineiro
Primeira imagem: Guia dos quadrinhos

Lançamento - Pau de Arara de Leandro Gonçalez

Leandro Gonçalez, quadrinhista e artista plástico da vizinha cidade de Bauru, lança o fanzine Pau de Arara (18 páginas p&b - lembrem-se que em fanzine a capa, contracapa e versos também são consideradas como páginas) mostrando, através do tema do cangaço, peculiaridades do semi-árido nordestino. Gonçalez recentemente promoveu em sua cidade uma exposição dos trabalhos do artista plástico José Lanzelotti (de obra profícua e diversificada, conhecido entre os fãs da HQB por seu Raimundo, O Cangaceiro), e usa aqui tema & cenário muito usados por Lanzelotti em seus anos de trabalho.

Mesmo aqueles que não se entusiasmarem pela temática, hão de reconhecer o talento de Gonçalez, que desenha bem pra caramba. O fanzine foi lançado em dois tamanhos, no formatinho e no formatão. Infelizmente não há e-mail nem endereço para contato, mas digitem “Leandro Gonçalvez-Bauru” na busca do Orkut, que vocês o encontram lá.

Texto: José Salles – Fonte: Jupiter2hq
 Pesquei em Editora EMT

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Mais uma fonte que seca

Faleceu aos 98 anos o ex soldado de Volante Antonio Vieira

Antonio Vieira e o pesquisador João de Sousa Lima

Servindo à volante comandada pelo aspirante Francisco Ferreira o soldado esteve presente na batalha da Grota do Angico, sendo um dos primeiros a realizar o cerco a Lampião e seu grupo. Morava em Delmiro Gouveia, Alagoas. No momento estava sendo finalizado um vídeo-documentário sobre Antonio Vieira, o trabalho é uma realização em conjunto da TV Mandacaru com a Gal Vídeo e estará sendo lançado em breve.

Em 2008 Antonio Vieira marcou presença no grande encontro sobre o tema acontecido em Fortaleza, Ceará, onde foram reunidos ex cangaceiros e soldados, depois de 70 anos da morte de Lampião.

Estiveram presentes os ex-cangaceiros Moreno, Durvinha e Aristeia Soares (ainda viva), assim como os ex soldados Antonio Vieira e Teófilo Pires do Nascimento (ainda vivo). Antonio Vieira também concedeu depoimento para o filme do cineasta Wolney Oliveira, que será lançado em janeiro de 2011.

Descanse na santa paz de Deus bravo Antonio Vieira!
Nosso votos de pesar para os seus familiares.  
É o que deseja o Lampião Aceso.

Pescado no Blog do primo João

Antonio Silvino e Zezé Patriota

Suas aventuras em Itapetim, PE

Por: João de Sousa Lima

As intrincadas veredas do nordeste serviram de caminhos para os vários bandos de cangaceiros, assim como fazendas, sítios e roças, dos homens simples aos mais abastados criadores da época, foram passagens desses grupos. Os catingueiros tinham suas residências visitadas tanto pelos que andavam “à margem da lei”, como pelos que se diziam defensores delas.

A cidade de Itapetim, em Pernambuco não fugiu a regra: Antônio Silvino pisou aquelas terras.




Segundo a história registrada em livros, o povoamento daquele município começou em 1885, sob a orientação do Senhor Amâncio Pereira, que deu início a construção das primeiras casas. Graças ao seu esforço e espírito progressista organizou-se uma feira e a primeira casa de comércio, que marcou a evolução do povoado.

É fácil desmistificar essa data, pois fazendo uma pesquisa mais detalhada encontramos casa com datas gravadas nas madeiras, registrando o ano de 1814.

 Em 1890 foi erguida uma capela em homenagem a São José do Egito, Coube ao padre José Gomes, a celebração da primeira missa. Outro templo, mais amplo, foi construído em 1914, com a finalidade de acomodar maior número de fiéis.

Registros da data da construção

O primeiro nome de povoação foi Umburana, em virtude da existência de uma árvore de igual denominação na localidade. Posteriormente passou a ser conhecida como São Pedro das Lajes. O terceiro nome foi Itapetininga e, finalmente, em 1943, por decreto lei nº 952, passou a ser Itapetim. Entre as várias construções ali existentes, a casa do casal Emídio Ferreira de Lima e Maria Ferreira da Conceição era uma dessas residências, em suas madeiras e paredes, apesar de abandonadas, ainda estão registradas essas datas. A casa foi construída nas proximidades do Riacho do Gato, um dos afluentes do Rio Pajeú.

Antônio Silvino se dividia entre a Paraíba e Pernambuco, Itapetim faz essa divisa com Teixeira, são dois lugares conhecidos por ter nascido grande cantadores repentistas.

No Sítio Prazeres (tinha esse nome Prazeres por ser o lugar das danças realizadas pelos escravos que ali viveram) Maria Ferreira da Conceição e Emídio Ferreira de Lima viram surgir o famoso Antônio Silvino e seu grupo, o cangaceiro apenas solicitou água e alimentação; Maria serviu alguns biscoitos “Mata-Fome” ou Bolachas Pretas, feitas de rapadura.

 Fachada da casa de Emídio Ferreira de Lima 
e Maria Ferreira da Conceição 

Os cangaceiros devoraram a saborosa iguaria e Antônio Silvino, depois desse primeiro contato, sempre que possível passava nessa residência para apreciar as bolachas feitas por Maria, acabaram tornando-se amigos.

Além de Antônio Silvino, outros grupos de homens armados apareceram na região. Um desses grupos era chefiado por Zezé Patriota.

 Marcos e João de Sousa visitaram a centenária moradia. 

Como sempre nos rastros dos cangaceiros vinha às volantes policiais, aquela região passou a ser também caminho dos soldados. O tenente Alencar fazia diligências contínuas por lá. Um dia de feira o tenente chegou entre os feirantes e prendeu Caboclinho Patriota, o tenente forçou o rapaz a dizer o itinerário dos cangaceiros que andavam com seu irmão Zezé; Caboclinho aproveitou um descuido do tenente e fugiu no meio da feira; Na mesma hora o tenente encontrou outro irmão do cangaceiro: Levino Patriota. O jovem foi espancado e forçado a dizer quais eram os lugares percorridos pelo irmão cangaceiro.

O jovem acabou contando ao tenente sobre o paradeiro do irmão. O tenente seguiu com o grupo até a fazenda São Pedro, os cangaceiros foram cercados, o tiroteio foi intenso, morrendo Bernardo Nogueira, apelidado de Repentista. O tenente continuou sua busca, indo ao Sítio Mucambo.

Chegando ao sítio, novo cerco foi armado, tiros pipocaram, o combate durou pouco, como saldo dos disparos, morreu Zezé Patriota, o restante do grupo, sem a voz de comando do chefe, partiu mato à dentro, em disparada. Os familiares de Zezé Patriota o enterraram em Itapetim. Como registro daquela época, resta uma cruz tombada e carcomida que marca o lugar do tiroteio, onde Zezé caiu morto.

 A dupla posa diante de uma árvore 
em que os cangaceiros amarraram os burros.

A casa do casal Emídio Ferreira de Lima e Maria Ferreira da Conceição, ainda está lá, teimando contra o tempo, semi destruída, como imagem querendo perpetuar um tempo que não volta mais. Nas palavras emocionadas de minha entrevistada Antonia Dias de Oliveira, neta do casal citado acima e do seu filho Marcos, ouvi sobre esse tempo de lutas, histórias que o tempo não apaga.

Na visita a velha casa, durante alguns minutos observando-a, transportando-me no tempo, imaginei sentir o cheiro da fabricação da saborosa bolacha preta, a mata fome, que tanta fome matou, nos confins das terras, no mais distante rincão, da região banhada pelo adorado Rio Pajeú.

Paulo Afonso, madrugada do dia 20 de dezembro de 2010.

*João de Sousa Lima é Pesquisador e escritor

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Silvio Bulhões

O filho de Dadá e Corisco 
Por Aderbal Nogueira

Há pouco o nosso amigo colecionador e reverendo Ivanildo Silveira postou uma raridade com Dadá Clique aqui . Venho agora colaborar com um trecho de uma entrevista feita por mim, juntamente com Paulo Gastão, Valdir Júnior e Kydelmir Dantas com o economista Sílvio Bulhões, filho de Dadá e Corisco, no qual ele nos fala do massacre da Fazenda Patos, contado por Dadá a ele.

Sílvio é de uma simplicidade sem tamanho, realista ao extremo, pois sabe perfeitamente da realidade vivida por seus pais, conhece a história de sua mãe como ninguém, e nos narrou o que ouviu dela ao longo do tempo.

 Aderbal Nogueira e Silvio Bulhões exercícios na "Academia".

Espero um dia fazer um vídeo sobre a história do seu batizado, pois entre todas as histórias que ouvi até hoje, nunca escutei nada tão emocionante, é uma coisa tão forte que é quase impossível você ouvir contada por ele e não encher os olhos de água. Embora Corisco fosse uma fera e Dadá uma mulher de fibra, a história de Sílvio quando bebê sendo batizado é simplesmente extraordinária.

OBS: participação especial do nosso querido Alcino Costa.




Abraço
Aderbal Nogueira
Documentarista.

Livros sobre cangaço novos e usados?

É com o Professor Pereira.

Confiram o catálogo atualizado para o mês de Dezembro. Sempre lembrando que aqui são listados somente livros sobre Cangaço, se você procura por Coronelismo; Messianismo: Canudos, Caldeirão. Por Padre Cícero; Luiz Gonzaga; Secas; Revolução de 30; história do nordeste: Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte e vários nºs Revista Itaytera basta solicitar uma cópia da listagem completa que lhe o professor lhe envia por email.


          AUTOR                            TÍTULO                               VALOR /OBS.

  1. Abelardo F. Montenegro Fanáticos e Cangaceiros / 140,00 Regular estado
  2. Adésio Rangel de Farias Cangaço e Polícia – fatos e Feitos Paraibanos 56 pag. / 18,00 Bom estado
  3. Aglae Lima de Oliveira Lampião – Cangaço e Nordeste 2ª Ed. 1970 / 120,00 Bom estado
  4. Alcino Costa O Sertão de Lampião/ 40,00 Novo
  5. Alcino Costa Poço Redondo – A Saga de Um Povo 349 pag. / 45,00 Novo
  6. Ana Cláudia marque e outros Andarilhos e Cangaceiros 1999 233 pag. / 25,00 Novo
  7. Anildomá Willans Lampião – Nem herói Nem Bandido / 35,00 Novo
  8. Anildomá Willans de Souza Nas Pegadas de Lampião / 30,00 Novo
  9. Antonio Amaury C. de Araújo Assim Morreu Lampião / 20,00 Novo
  10. Antonio Amaury C. de Araújo Gente de Lampião – Sila e Zé Sereno 15,00 Novo
  11. Antonio Amaury C. de Araújo Lampião e as Cabeças Cortadas / 50,00 Novo
  12. Antônio Amaury C. de Araújo Lampião – As Mulheres e o Cangaço 1984 / 100,00 Bom estado
  13. Antônio Amaury C. de Araújo Lampião Segredos e Conf. do Tempo do Cangaço / 45,00 Novo
  14. Antonio Amaury e Carlos Elydio Lampião, Herói ou Bandido? / 22,00 Novo
  15. Antônio Vilela de Souza O Incrível Mundo do Cangaço - 2 vol. 2010 / 35,00 cada - Novos
  16. Arthur Shaker Pelo Espaço do Cangaceiro Jurubeba  175 pag. / 25,00 Bom estado
  17. Billy Jaynes Chandler Lampião o Rei dos Cangaceiros / 45,00 Ótimo estado e Bom estado / 35,00
  18. Bismarck Martins de Oliveira Histórias do Cangaço - O Saque de Souza – PB 1924 / 28,00 Novo
  19. Carlos Lyra (entrevista) Nunca Matei Ninguém - Chico Jararaca / 25,00 Novo
  20. Carlos Newton Júnior O Cangaço na Poesia Brasileira / 30,00 Novo
  21. Cicinato Ferreira Neto A Misteriosa Vida de Lampião / 30,00 Novo
  22. Daniel Lins Lampião – O Homem que Amava as Mulheres / 25,00 Ótimo estado
  23. Élise Jasmin Cangaceiros 2006 / 80,00 Novo
  24. Estácio de Lima O Mundo Estranho dos Cangaceiros / 100,00 Bom estado, envelhecido
  25. F. Pereira Nóbrega (pe.Pereira) Vingança Não 40,00 Novo. Ed. 1960 / 80,00
  26. Firmino Holanda Benjamim Abrahão / 15,00 Novo (bolso)
  27. Frederico P. de Mello Estrelas de Couro. Edição de luxo - Lançamento 1,6 kg / 110,00 Novo
  28. Frederico Pernambucano de Mello Quem Foi Lampião 1993 151 pag. 80,00 Ótimo estado
  29. Geraldo Ferraz Pernambuco no Tempo do Cangaço 2 Volumes. / 110,00 Novo
  30. Gonçalo Ferreira da Silva Lampião – A Força de Um Líder. / 40,00 Novo
  31. Gregg Narber Entre a Cruz e Espada: Violência e Misticismo no Brasil Rural 206 pag. / 30,00 Bom estado
  32. Hilário Lucetti/Magérbio Lucena Lampião e o Estado Maior do Cangaço / 70,00 Novo
  33. Honório de Medeiros Massilon / 40,00 Novo
  34. Ilda Ribeiro de Souza Angicos- Eu Sobrevivi- Sila 1997 / 70,00 Ótimo estado
  35. Ivan Bichara Carcará- Romance Histórico - Ataque de Sabino Gomes a Cajazeiras em 1926 276 pag. / 25,00 Bom estado
  36. Ivonaldo Guedes Lampião, Corpo Fechado 2007 183 pag. / 30,00 Novo
  37. João de Sousa Lima A Trajetória Guerreira de Maria Bonita / 35,00 Novo
  38. João de Sousa Lima Moreno e Durvinha / 35,00 Novo
  39. João de Sousa Lima e Juracy marques(Org.) Maria Bonita- Diferentes contextos que envolveram a vida da rainha do Cangaço 172 pag. / 35,00 Novo
  40. João Gomes de Lira Lampião, Memórias de um Soldado de Volantes - 2006 (2 volumes) / 100,00 Novo José Alves Sobrinho Lampião e Zé Saturnino - 16 anos de lutas / 40,00 Novo
  41. José Anderson Nascimento Cangaceiros, Coiteiros e Volantes / 25,00 Novo
  42. José Peixoto Junior Bom de Veras e Seus Irmãos (Os Marcelinos) / 35,00 Novo
  43. José Vieira Camelo Filho (ZUZA) Lampião e Sertão e Sua Gente / 40,00 Novo
  44. Leandro C. Fernandes / Antônio Amaury Lampião a Medicina do Cangaço / 40,00 Novo
  45. Leda Barreto Julião - Nordeste- Revolução / 22,00 Bom estado
  46. Leonardo Mota No Tempo de Lampião 2002 / 35,00 Novo
  47. Luis Wilson Vila bela, os Pereiras e Outras Histórias / 200,00 Capa Dura Bom Estado
  48. Luiz Bernardo Pericás Os Cangaceiros / 50,00 Novo
  49. Luiz Ruben F A Bonfim Notícias Sobre a Morte de Lampião -166 pag. / 35,00 Novo
  50. Luiz Ruben F. de A. Bonfim Lampião e os governadores – volume I / 30,00 Ótimo estado
  51. Luiz W. Torres Lampião e o Cangaço / 25,00 Ótimo estado
  52. Marcos Medeiros A Caatinga Sustentou Campesino e Cangaceiro Cordel 16 pag. / 5,00 Novo
  53. Maria C. R. da Matta Machado As Táticas de Guerra dos Cangaceiros / 40,00 Bom estado
  54. Maria Isaura P. de Queiroz História do Cangaço / 15,00 Bom estado
  55. Mariane L. Wieserbron Historiografia do Cangaço e o Estado Atual da Pesquisa Sobre Banditismo a Nível nacional e Internacional Col. Mossoroense Série A - 28 pag. (Apostila) 20,00 Bom estado
  56. Marilourdes Ferraz O Canto do Acauã / 300,00 Regular Estado
  57. Mario Souto Maior Antonio Silvino – Capitão de Trabuco / 40,00 Ótimo estado
  58. Melchíades da Rocha Bandoleiros das Catingas 178 pag. / 40,00 Bom estado, envelhecido
  59. Moacir assunção Os Homens Que Mataram o Facínora / 40,00 Novo
  60. Nertan Macedo Lampião- Cap. Virgulino Ferreira – RJ – 5ªed. 1975 / 25,00 Regular estado
  61. Nertan Macedo Sinhô Pereira- O Comandante de Lampião / 45,00 Bom estado
  62. Nertan Macedo Floro Bartolomeu – O Caudilho dos Beatos e Cangaceiros 217 pag. / 50,00 Bom estado
  63. Oleone Coelho Fontes Lampião na Bahia / 45,00 Novo
  64. Optato Gueiros Memórias de Um Oficial Ex-Comandante de Forças Volantes / 70,00 regular estado
  65. Raimundo Nonato Jesuíno Brilhante - O Cangaceiro Romântico / 40,00 Novo 2007
  66. Raimundo Soares de Brito Nas Garras de Lampião 2006 161 pag. / 40,00 Novo
  67. Ranulfo Prata Lampião / 30,00 Novo ótimo estado 20,00
  68. Raquel de Queiroz Lampeão, a Beata Maria do Egito- Teatro 1995 60 pag. / 20,00 Ótimo estado
  69. Raul Fernandes A Marcha de Lampião: Assalto a Mossoró. / 40,00 Novo
  70. Raul Fernandes Ultimato de Lampião e Resposta de R. Fernandes / 15,00 Novo
  71. Renato Phaelante Cangaço – Um Tema na Discografia da MPB 97 pag. / 40,00 Novo
  72. Rodrigues de Carvalho Serrote Preto - Lampião e seus sequazes 1961 e 1974 1ª e 2ª Ed. / 70,00 Ótimo Estado
  73. Rodrigues de Carvalho Lampião e a Sociologia do Cangaço / 80,00 Ótimo estado
  74. Rosa Bezerra A Representação Social do Cangaço / 40,00 Novo
  75. Rui Facó Cangaceiros e Fanáticos / 25,00 Bom estado
  76. Sabino de Campos Lucas, o Demônio Negro 1957 275 pag. 80,00 Bom estado "com Manchas".
  77. Sérgio Dantas Lampião- Entre a Espada e a Lei / 55,00 Novo
  78. Sérgio Dantas Antônio Silvino, O Cangaceiro, o Homem, o Mito / 60,00 Novo
  79. Severino Barbosa Antonio Silvino – O Rifle de ouro / 80,00 Reg. Bom estado 100,00
  80. Vera Ferreira /Antonio Amaury De Virgulino a Lampião 2010 / 50,00Novo
  81. Vera Ferreira/Antonio Amaury O Espinho do Quipá/ 45,00 Bom estado
  82. Vilma Maciel Lampião- Análise de suas Características de Líder / 20,00 Novo

Segue a relação de alguns títulos da “Coleção Mossoroense” Série “B” – Que são Plaquetas ou Folhetos, semelhante a uma apostila. São publicações de Palestras, Artigos, Pequenas Biografias, Crônicas, pequenos registros de Fatos históricos, entre outros. Tenho pequeno estoque desses trabalhos, pois a Coleção Mossoroense está em fase de arrumação, por mudança de Sede. Mas em breve terei estoque suficiente para atender a todos.

  1. - Depoimento Sobre Lampião em Mossoró – Laire Rosado - 13 pag. Ótimo estado – 5,00
  2. - Jesuino Brilhante - Câmara Cascudo – 23 pag. – Ótimo estado – 12,00
  3. - Jararaca – Câmara Cascudo – 20 pag. Ótimo estado – 12,00
  4. - A Versão Oficial Sobre Lampião – José Romero A. Cardoso – 12 pag. Ótimo estado – 12,00
  5. - Cangaço e Coiteiros – Oswaldo Lamartine – 7 pag. Ótimo estado – 5,00. OBS. Pequeno conteúdo para título tão importante.
  6. - Breve Histórico do Cangaço e das Secas no RN. Gutenberg Costa – 37 pag. Ótimo estado – 15,00
  7. - Bibliografia Sobre Cangaço Cangaceirismo no Boletim Bibliográfico e na Coleção Mossoroense – Isaura Ester F. R Rolim – 10 pag. 5,00
  8. - Cangaço e Organização da Cultura, Caso da 1ª Biografia de Lampião – Jose R A Cardoso – 30 pag. Ótimo estado – 10,00
  9. - O Frustado ataque de Lampião a Mossoró- Diógenes Magalhães – 8 pag. Ótimo estado – 6,00
  10. - O Mito de Lampião – Visão Histórica e Literária – Kécia B de Figueiredo e Terezinha H M Costa – 48 pag. Ótimo estado – 12,00
  11. - Três Crônicas Sobre o Treze de Junho(1927) - Vingt-um Rosado - 11 pag.– Bom estado – 5,00

A Coleção Mossoroense tem um grande acervo sobre SECAS no Nordeste. Qualquer informação, estou as ordens.

  LITERATURA DE CORDEL- EDITORA LUZEIRO

  Todos os Folhetos são NOVOS e 32 páginas. Preço R$ 4,00 cada.

- Leandro Gomes de Barros - A Confissão de Antonio Silvino
- Manoel D’Almeida Filho - Zé Baiano – Vida e Morte
- Antonio Teodoro dos Santos - Lampião, o Rei do Cangaço
- Antônio Teodoro dos Santos O Encontro de Lampião com Dioguinho
- Antônio Teodoro dos Santos -Maria Bonita a Mulher do Cangaço
- Manoel D’Almeida filho - A Volta de Lampião ao Inferno
- Costa Senna- Lampião e Seu Escudo Invisível + Lídia – Amor e Tragédia no Cangaço
- Enéias Tavares Santos - O Cangaceiro Isaias
- Luiz Gonzaga de LimaA Chegada de Lampião no Purgatório
- Rodolfo Coelho CavalcanteA Chegada de Lampião no Céu
- Lampião e padre Cícero Num Debate Inteligente
- Antônio Américo de MedeirosLampião- A Sua História Contada Toda em Cordel
- Minelvino Francisco da SilvaO Cangaceirismo do Nordeste
- Manoel D’Almeida Filho - O Encontro de Lampião Com Adão no Paraíso
- Manoel de D’Almeida Filho - Vida, Vingança e morte de Corisco
- José Pacheco - A Chegada de Lampião no Inferno
- Manoel D’Almeida Filho - Os Cabras de Lampião
- José Camelo de melo ResendeUma das maiores Proezas Que Antonio Silvino Fez no Sertão de Pernambuco + A Confissão de Antônio Silvino + Como Antônio Silvino Fez o diabo chorar
-JotabarrosLampião e Maria Bonita no Paraíso
    
  Obs.

 - Estou sempre comprando e vendendo livros, os preços podem variar para mais ou para menos, a qualquer momento.
  - Possuo apenas uma unidade de alguns títulos, então será sempre importante confirmar o estoque do livro desejado.
 - O frete não está incluído no preço dos livros
 - O frete registrado fica numa média de R$ 4,00 por livro.
 - Para compras acima de R$ 200,00 o frete é grátis.
- Os pedidos podem ser feitos por E-mail franpelima@bol.com.br ou pelos Tel. (83) 3531 7352 /(83) 9911 8286 / (83) 8706 2819

Att Professor Pereira 
Cajazeiras/PB

Nas ondas do rádio

Escritor Luiz Ruben fala sobre Lampião na Rede Liberdade


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Publicado originalmente no: Vimeo
Créditos: Chiko Penha.

Dica do Fabrício Ramos participante da Comunidade do Orkut Lampião, Grande Rei do Cangaço

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Especial de aniversário

Comemorando Dois anos de Lampião Aceso. Rostand Medeiros nos contempla com mais este resultado de suas andanças no rastro dos cangaceiros. 


Desta vez com menor transpiração e muita inspiração. Em viagem até Recife precisamente ao instituto histórico e geográfico (absorvendo e espirrando os preciosos ácaros residentes no Diário de Pernambuco) entre outros jornais daquele estado, encontrou uma matéria como diriam os jornalistas um furo de reportagem da época: As narrativas de Benjamim Abraão sobre o seu encontro com o rei do cangaço. Uma matéria “estibada” de detalhes além de disponibilizar as fotografias dos arquivos consultados presente do nosso blog para os fiéis rastejadores e visitantes. 
 

Acompanhe na íntegra como se fosse manchete do dia o comportamento dos cangaceiros assimilado pelo mascate libanês. A descrição detalhada dos materiais utilizados para colher as imagens históricas que incomodaram o alto escalão do poder nacional. E os fatos desde sua chegada ao nordeste até os principais indícios sobre seu assassinato.!
Bom proveito! 



QUANDO A ESTRELA FOI LAMPIÃO
A saga do libanês Benjamim Abrahão para filmar o rei do cangaço e a repercussão nas páginas do “Diário de Pernambuco”

Por Rostand Medeiros

Nesta clássica foto vemos Benjamin Abrahão, o armado Lampião e a sua Maria Bonita
ostentando uma profusão de correntes de ouro.
Este instantâneo foi conseguido em uma das visitas de Abrahão ao “Rei do Cangaço”.  
Foto do acervo da Aba Film, reproduzida a partir do livro “Cangaceiros”, de Élise Jasmin, página 42, 1ª edição.


No início da vida bandida de Virgulino Ferreira da Silva, o famoso cangaceiro Lampião, as suas ações, os seus feitos de armas, eram basicamente conhecidos pelos sertanejos através dos cantadores, dos emboladores, das conversas dos mascates nos dias de feira.

Estes meios de divulgação tradicionais, mesmo de forma lenta, ajudaram cada vez mais a criar na população do sertão o temor e, igualmente, contribuíram na propagação do mito ao redor da figura verdadeira.
Durante certo tempo muitos sertanejos não tiveram ideia da aparência e de outros aspectos ligados à figura de Lampião. Logo surgiu na imprensa uma boa quantidade de fotografias do chefe cangaceiro e este fazia questão de se deixar reproduzir diante das câmeras. Ele não tinha a aversão que o grande cangaceiro Antônio Silvino, preso em 1914, nutria pelas lentes fotográficas. Pelo contrário, gostava tanto que até cartões com a sua foto estampada foram um dia produzidos.

Na proporção em que cresciam as suas ações e a fama do seu bando nos sertões nordestinos, a sua figura ultrapassava limites regionais e as pessoas de todas as partes passaram a ouvir falar no conhecido “Rei do Cangaço”. Mas para o público dos grandes centros terem a oportunidade de visualizarem a figura de Lampião e seu bando, em uma película cinematográfica, no interior de uma confortável sala de projeção, era algo mais complicado.

Desde que o cinema chegou ao Brasil, em 8 de julho de 1896, com a inauguração de um “omniographo” na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, o seu desenvolvimento era cada vez mais intenso. Novas salas de exibição eram inauguradas pelo país afora, onde o público consumidor desejava através das imagens, tanto o entretenimento, quanto o conhecimento dos aspectos do imenso país.
Para uma pessoa de iniciativa e coragem, a ideia de filmar Lampião e seu bando poderia gerar muita fama e dinheiro.

Somente através da iniciativa de um emigrante libanês, foi possível imagens do famoso cangaceiro e do seu bando, sendo este o único registro cinematográfico desta controversa figura.

UM HOMEM SEM FRONTEIRAS 

Benjamin Abrahão em fotografia realizada em um estúdio pernambucano.  
A partir do livro “Lampião o mito”, autoria de Roberto Tapioca, 9ª edição, página 50.

Segundo o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do sol, 2ª edição”, págs. 313 a 317), seu nome completo era Benjamin Abrahão Calil Botto, sendo originário do Líbano. Sua terra natal era Zahle, uma cidade situada na parte central deste país, no chamado Vale do Bekaa, próxima a cadeia de montanhas do Monte Líbano, em uma área extremamente fértil para agricultura e onde até hoje predomina uma população cristã.

Para alguns estudiosos ele teria vindo para o Brasil em 1910 e para outros ele aqui chegou em 1915. A razão de sua saída seria a ideia de buscar novas paragens para progredir na vida e deixar uma região então dominada pelo Império Turco Otomano desde 1517. Outra teoria aponta que a vinda de Abrahão seria uma fuga da convocação do exército que ocupava sua terra, para combater na Primeira Guerra Mundial.

Nesta época a nação libanesa ainda não havia sido oficialmente criada e os imigrantes que deixavam esta região e se dirigiam para o Brasil, eram normalmente conhecidos como “Turcos” ou “Sírios”. Apenas em 1926 foi oficialmente criada à República do Líbano, por interesses dos franceses.

Foto atual da cidade de Zahle, Líbano. Com uma população em torno de 100.000 habitantes, é a terceira maior cidade deste país, sendo bastante conhecida pela qualidade do vinho aí produzido. 
Coleção do autor.

Quis o destino que Benjamin Abrahão viesse para Recife, onde conseguiu um emprego de vendedor. Depois, impulsionado pelo espírito aventureiro e senso de oportunidade, foi até a cidade de Juazeiro, no interior do Ceará, onde conheceu o mítico e venerado líder religioso Padre Cícero Romão Batista.

Após os primeiros contatos com o homem considerado santo pelos romeiros que afluíam de todos os lugares do Nordeste, o libanês passou a ser conhecido na cidade como jornalista, secretário particular, fotógrafo e acompanhante do “Padim Ciço”. Existe a versão que o libanês de fala enrolada conquistou o coração do severo clérigo quando mentiu descaradamente ao afirmar ter nascido em Belém, a cidade natal de Jesus Cristo.

Para estas duas interessantes figuras este encontro foi extremamente positivo. Para o eterno cura dos desvalidos do Cariri, a figura de um secretário estrangeiro, nascido na terra de Jesus, certamente trazia respeitabilidade junto a elite local e chamava a atenção dos milhares de romeiros que vinham atrás de suas bênçãos. Já Benjamim sabia que o Padre Cícero era um líder prestigiado, sendo um porto seguro em um país desconhecido, em meio a uma Juazeiro em franco crescimento.

Era bem melhor o calor de Juazeiro, do que vestir um uniforme turco e levar um tiro dos ingleses na península de Gallipoli.

Tudo indica que o imigrante se deu muito bem nas terras do “Padim Ciço” e se entrosou perfeitamente com a sociedade local. Segundo o jornal “Diário de Pernambuco”, edição de 27 de dezembro de 1936, ao apresentar o “Sírio” Abrahão, o periódico informava que o imigrante teria fundado um jornal chamado “O Cariri”.

Acervo do professor Renato Cassimiro 
publicado no www.cariricangaco.com

O FILME DO PADRE CÍCERO E O ENCONTRO COM LAMPIÃO

O libanês esperto se encontrava em Juazeiro, quando no dia 4 de março de 1926 chega à urbe sagrada o famoso cangaceiro Lampião e todo o seu séquito. O bandoleiro das caatingas vem a “cidade santa” para se juntar aos membros de uma força militar denominada “Batalhão Patriótico”, com a intenção de combater uma coluna de revoltosos comandados por Luís Carlos Prestes, Isidoro Dias Lopes, Siqueira Campos e outros oficiais rebelados do Exército Brasileiro contra o governo de Arthur Bernardes, então Presidente da República.

Lampião recebe uniformes, armas novas, se encontra com Padre Cícero, concede entrevistas e se deixa fotografar. Segundo o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (op. cit.), a figura que coordena o assédio ao “Rei do Cangaço” não é outro se não o próprio Benjamim Abrahão. Afirma o pesquisador que a partir deste encontro surgiu uma amizade entre o libanês e o cangaceiro, bem como o germe da ideia de ser realizada uma película mostrando a vida de Lampião.

Assim o jornal recifense “A Província”, edição de 3 de junho de 1926, analisou a exibição do filme “Joaseiro do Padre Cícero”, ocorrida no dia anterior, no prestigiado Cinema São José. 
Coleção do autor.

Apesar do autor de “Guerreiros do sol” haver entrevistado Lauro Cabral de Oliveira, uma das pessoas que esteve com Lampião naquela ocasião para realizar entrevistas e fotografá-lo, que teve seu acesso ao cangaceiro garantido por Abrahão, acreditamos que a ideia surgiu na cabeça do libanês algum tempo antes.

Em 1925 foi produzido “Joaseiro do Padre Cícero”, um filme que buscava contar a vida e o trabalho do Padre Cícero Romão Batista. Rodado em película de 35 milímetros, a um custo de 40 contos de réis, esta obra tinha o objetivo de criar uma propaganda positiva em relação à ação política e social do padre, além de mostrar o desenvolvimento da cidade de Juazeiro. Nesta época o Padre Cícero sofria na imprensa dos grandes centros do Brasil uma feroz enxurrada de críticas e comentários negativos sobre a sua figura, a sua trajetória política e a mistificação que se criava em torno de sua pessoa.

A direção do filme coube ao cearense Adhemar Bezerra de Albuquerque e sua primeira exibição ocorreu no mesmo ano de sua produção. O local escolhido foi o Cinema Moderno, em Fortaleza, um empreendimento que foi inaugurado em 1921 e ficava na Praça do Ferreira.

Fachada do Cinema Moderno, em Fortaleza.  
A partir do livro “Ah, Fortaleza!”, vários autores, 1ª edição, página 143.

Depois de seu lançamento, a película foi apresentada em várias capitais brasileiras, chamando a atenção da crítica e do público. Certamente um dos que se impressionou com o sucesso da obra foi Benjamim Abrahão.
Provavelmente o diretor Adhemar Bezerra de Albuquerque, seguramente um dos principais pioneiros e expoentes do cinema cearense, que produziu muitos documentários em 35 milímetros, deve ter criado laços de amizade com o libanês durante a produção deste filme e certamente o imigrante participou de alguma maneira da concretização desta produção.

A BUSCA POR LAMPIÃO

Ao longo dos anos o libanês continuou com o seu trabalho ao lado do Padre Cícero, mas em julho de 1934, aos 90 anos o seu patrão e protetor faleceu. É provável que sem maiores perspectivas ressurja na cabeça do libanês a ideia de mostrar ao mundo o cangaceiro Lampião, entrevistá-lo e conseguir assim se tornar o primeiro homem a filmar o “Grande Rei do Sertão”.

No ano seguinte Abrahão busca na capital cearense um empreendedor que o ajude nesta empreitada. Este apoio surge na pessoa do velho conhecido Ademar Albuquerque, agora proprietário da empresa Aba-Film, que tinha apenas um ano de funcionamento. Ademar percebe que o libanês é suficientemente arrojado (ou maluco) para procurar Lampião no “Oco do Mundo” e se ele não morresse tentando, a distribuição deste documentário poderia render um bom dinheiro. Percebemos que não é de hoje que a figura de Lampião alavanca negócios.

O proprietário da Aba-Film lhe cedeu uma câmera, que segundo Frederico Pernambucano de Mello (op. cit.), seria de 35 milímetros, da marca Ica. Rolos de filmagem da empresa Gevaert-Belgium, um tripé e uma câmera fotográfica desenvolvida pela empresa alemã de produtos óticos Carl Zeiss, até hoje uma conceituada marca no meio fotográfico.

Relato de seus encontros com o bando de Lampião no jornal “Diário de Pernambuco”,
edição de 27 de dezembro de 1936.  
Coleção do autor.

Benjamim estava munido com máquinas de conhecida qualidade e portabilidade, que certamente lhe trariam um ótimo resultado visual. Evidentemente que o imigrante libanês não seria tão louco a ponto de comentar quem o ajudou nesta empreitada. Mas seria praticamente impossível ele chegar próximo a Lampião sem a ajuda dos grandes coronéis do interior de Pernambuco.

Ele teria buscado o apoio de Audálio Tenório de Albuquerque, então o todo poderoso comandante da cidade de Águas Belas e de outros coronéis da região próxima ao rio São Francisco. Esta hipótese se baseia na informação transmitida por Frederico Pernambucano de Mello, que nos seus últimos anos da vida de Lampião, teria sido o coronel Audálio Tenório uma pessoa com forte aproximação com este chefe cangaceiro. (Mello, op. cit., pág. 325).

De toda maneira Benjamim Abrahão conseguiu seu intento. No jornal Diário de Pernambuco, nas edições de 27 de dezembro de 1936 e 12 de janeiro de 1937, Abrahão relatou detalhes dos seus encontros com Lampião e seu bando.

Em narrativa franca e aberta, o libanês demonstra ao seu entrevistador, com certo orgulho, que a sua empreitada havia durado mais de um ano, precisamente 18 meses. Informava que havia passado pelos estados da Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas e Bahia. Ele entrou no sertão com uma roupa de “brim azulão” e suas máquinas a tiracolo. Afirmou que passou “fome e sede”, mas trouxe “um punhado de notas suficiente para seu livro de impressões”. Aparentemente estas impressões estariam contidas em seus diários.

O contato inicial de Abrahão com o bando de Lampião, segundo suas afirmações para o Diário de Pernambuco, foi num dia bastante quente e os primeiros com quem ele esteve foram os cangaceiros Mergulhão e Juriti.

Segundo o relato de Abrahão ao jornal Diário de Pernambuco, os dois primeiros cangaceiros que ele encontrou foram Juriti  (dir.) e *Mergulhão (a esq.).

Mas o encontro teve certa tensão, pois os dois guerreiros das caatingas chegaram totalmente equipados. Ao visualizarem o estranho apontaram seus fuzis e gritaram “-Não se mexa cabra. Vai morrer” e colocaram balas nas agulhas de suas armas. Foi um momento “angustioso” para o documentarista, mas logo o ambiente serenou. Abrahão afirmou ao jornalista que lhe entrevistava que “se impressionou”, pois os dois cangaceiros já sabiam quem ele era e qual era seu objetivo.

É provável que nada disso tenha ocorrido. O Mais lógico foi que Abrahão deve ter sido guiado por uma pessoa de confiança dos coronéis da região, onde os cangaceiros já tinham conhecimento de sua chegada e que tudo estava previamente acertado.

Tanto é que sobre estes primeiros momentos junto a estes cangaceiros, Abrahão chega ao ponto de transmitir uma opinião jocosa sobre um dos seus acompanhantes armados. Este era Juriti, que ele considerou
-Um sujeito de boa aparência, tem os cabelos bons, é metido à almofadinha e gosta de luxar”.
Afirmou que teve de caminhar três quilômetros com os dois homens armados. Eles primeiramente entraram em entendimento com uma sentinela posicionado em local estratégico. Daí Mergulhão se embrenhou nos matos e desapareceu. Voltou algum tempo depois afirmando que Lampião queria vê-lo.

AS PRIMEIRAS IMPRESSÕES DE UM ESTRANHO MUNDO

Quando chegou ao local onde estava o bando, após passarem por uma área de caatinga bastante fechada, todos os cangaceiros estavam de pé, menos Lampião que se encontrava encostado em um tronco, lhe observando com olhos que o libanês classificou como “indagadores”. Era hora do almoço e todos comiam carne de bode com farofa.

O capitão Virgulino veio até ele, lhe ofereceu comida e um copo com conhaque, demonstrando boas maneiras no tratamento ao estranho de fala enrolada. Lampião afirmou  
“- Não sei como você veio bater aqui com vida, bicho véio. Só mesmo obra de Mergulhão que é muito camarada”.
Abrahão não informou ao jornalista o que achou da tirada do chefe cangaceiro. Logo se dispôs a montar o tripé com uma das suas máquinas para dar início à sessão de captação de imagens.
Nisto Lampião gritou “-Para, para”.

Ele queria ver de perto o maquinário. Queria se certificar que daquele mecanismo estranho não poderia sair uma bala. Satisfeito nas suas dúvidas, o chefe liberou o libanês para trabalhar tranquilamente.
Ele continuou captando imagens, mas em pouco tempo Lampião mandou parar a sessão afirmando  
“- Basta. O resto fica para outra vez”. 
Abrahão retrucou com Lampião, afirmando que tinha lutado muito por este momento e que queria continuar. Ao que o chefe responde taxativamente  
“-Quem anda comigo tem de ter paciência”. 
Insatisfeito com a resposta, o imigrante voltou à carga “-E onde poderia (Lampião) ser encontrado na próxima vez?”.
“-Sou homem que não tem pouso certo. Hoje estou aqui, amanhã posso estar na Bahia, em Sergipe ou Pernambuco.”
Seja pelo fato de Abrahão ter se sentido a vontade com o “Rei do Cangaço”, ou porque era uma figura completamente maluca, mais uma vez ele continuou retrucando com Lampião. Para sua sorte este nada falou.
Depois, segundo sua narrativa, levaria quatro meses para ocorrer um segundo encontro com o bando. Por sorte este momento foi muito mais duradouro, calmo e positivo. Segundo Abrahão o local do esconderijo ficava “do outro lado do São Francisco”, a “36 léguas”. Ele só não disse de onde.
Afirmou que era um domingo, sendo este “um grande dia, pois ninguém trabalhava e se reza de manhã e no começo da noite”.

Para o imigrante os cangaceiros são muito religiosos e sobre o momento da oração ele fez interessantes observações. Um dos membros do grupo colocou um quadro do Sagrado Coração de Jesus em um tronco de árvore e Lampião, com um livro de orações, comanda a ladainha. Todos estão ajoelhados, contritos, alguns com rosários, ouvindo atentamente o chefe declamar em voz alta a prédica de um velho “adoremos”, que todos repetiam em coro.

Para o observador Abrahão “as mulheres, neste dia, vestem-se melhor, enfeitam-se mesmo”. Para ele é como se elas fossem a uma missa em alguma paróquia. O imigrante apontava que aquelas mulheres, mesmo vivendo escondidas no meio do mato, em meio às correrias e violências, pareciam querer manter de alguma maneira os mesmos hábitos da vida “civil”.

Durante o almoço todos os cangaceiros comem em grupos, uns em pé e outros sentados. Lampião, talvez por precaução, degusta a alimentação no meio de todos. Abrahão repetiu varias vezes ao repórter o quanto Lampião era desconfiado, sempre planejando mudanças de seus esconderijos.

FILMANDO OUTROS GUPOS DE CANGACEIROS E PRESENCIANDO O COMBATE DE PIRANHAS

Abrahão afirma textualmente que filmou e fotografou os grupos dos chefes Corisco, Luís Pedro, Português, Zé Sereno, Mané Moreno, Pancada, Canário e Gato. Praticamente ele teve a oportunidade de filmar todo o movimento de cangaceiros que gravitavam ao redor de Lampião. Apenas os instantâneos chegaram até os nossos dias.

Em relação ao chefe cangaceiro Gato, Abrahão afirma que estava no combate ocorrido em Piranhas, dois meses antes da entrevista ao Diário de Pernambuco e que viu este cangaceiro ferido.
Segundo a sua narrativa, ele se encontrava a cerca de meia légua (três quilômetros) de Piranhas, atravessando o Rio São Francisco, quando se deu o tiroteio e logo seguiu em direção à refrega. Afirmou que “era uma oportunidade que não poderia deixar passar”.

O primeiro combate entre os cangaceiros e os policiais ocorreu a cerca de 4 ou 5 léguas de distância da cidade, “no meio da caatinga bruta”.

A tropa volante era comandada pelo tenente João Bezerra e neste combate foi ferida e capturada a companheira de Gato, conhecida como Inacinha. Este buscou apoio de Corisco e de outros cangaceiros que circulavam na região, para invadirem a cidade de Piranhas e tentaram resgatar a cangaceira ferida. Era por volta meio dia quando um grupo de 26 cangaceiros tentou realizar o ataque, mas a cidade recebeu seus “visitantes” com forte fuzilaria.

No momento em que Abrahão encontrou os cangaceiros estes já se retiravam de Piranhas. Afirma que viu o chefe Gato ainda ferido, deitado em um “sofá”. Comenta (certamente com exagero) que quando tentou entrar na cidade os defensores lhe tomaram como um cangaceiro e mandaram bala.

Segundo o pesquisador paraibano Bismarck Martins de Oliveira (in “O cangaceirismo no Nordeste”, 2ª edição, págs. 228 e 229) o nome verdadeiro do cangaceiro Gato era Josias Vieira e era natural de Santana do Ipanema, Alagoas. Ele teria entrado no cangaço em 1922, tendo participado de inúmeras ações importantes ao lado de Lampião, era tido como um cangaceiro de extrema violência e periculosidade acentuada. Fez parte do bando de Corisco, mas depois decidiu montar seu próprio grupo.

Já o pesquisador baiano Oleone Coelho Pontes (in “Lampião na Bahia”, 4 edição, pág. 329) informa que o combate se deu no dia 28 de outubro de 1936, que Gato chamou Corisco para tentaram entrar na cidade, mas a intenção era sequestrar a mulher de João Bezerra, Cira Britto Bezerra, filha do prefeito da cidade, a fim de vingar-se da captura da sua companheira.

Gato e Inacinha, fotografados por Abrahão. Acervo AbaFilm, Fortaleza. 
Reproduzida a partir do livro “Cangaceiros”, de Élise Jasmin, página 90, 1ª edição.

Quanto à questão do “sofá”, realmente imaginava que naquele lugar, naquele tempo, naquelas condições de combate, um cangaceiro ferido seria normalmente transportado em uma rede. Mas como eles ainda combateram no perímetro da cidade de Piranhas e eu não tenho muito conhecimento sobre o mobiliário do sertão nordestino da década de 30 do século passado, deixo a questão em aberto.

SENHORA DE BARAÇO E CUTELO
DOS SERTÕES NORDESTINOS 


Em relação à companheira de Lampião, de quem Abrahão em nenhum momento da reportagem declamou o nome com o qual ela seria imortalizada, ele praticamente se restringe a informar que a mesma, por razão de uma promessa, não trabalhava entre o sábado e a segunda feira. Mas Abrahão não diz qual seria este “trabalho” e a chamava de “Maria Oliveira”, ou “Maria do Capitão”. Mas aparentemente são os jornalistas da redação do Diário de Pernambuco que se impressionam com a morena baiana.

Na edição do dia 17 de fevereiro de 1937, uma quarta-feira, como sempre na primeira página e com amplo destaque, a jovem sertaneja aparece sentada ao lado de dois cachorros que pertenciam a Lampião, um dos quais se chamava “Ligeiro”, em uma pose que foi classificada como “cinematográfica de uma Greta Garbo”. Dizia que ela era a única pessoa com “ascendência moral sobre Lampião” e que chamava a atenção até mesmo pela simplicidade.

Para os jornalistas Abrahão descreveu que a companheira de Virgulino estava “com os cabelos alisados a banha cheirosa, meias de algodão, sapatos tresé e seu vestido azul claro de linho”. Estando correta a descrição do imigrante libanês sobre a vestimenta de “Maria do Capitão”, no meio daquela caatinga cheias de espinhos, esta fina indumentária servia apenas para rezar e bater fotografias.
Chama atenção a descrição da utilidade das mulheres do bando nos combates. Abrahão informou que elas “Abrem nas caatingas cerradas os caminhos que possam fugir os cangaceiros, ante a eminencia de se verem cercados”.

Se a pose de “Maria do Capitão” na foto era simples, como o leitor deste artigo pode observar, a manchete chamava bastante atenção.

Maria Bonita e os cachorros do bando de Lampião na primeira página do “Diário de Pernambuco”, edição de 17 de fevereiro de 1936. Para Abrahão ela não trabalhava entre os sábados e as segundas feiras. 
Coleção do autor.

Os jornalistas passaram a comparar a companheira de Lampião com a francesa Jeanne-Antoinette Poisson, a Marquesa de Pompadour, ou como ficou mais conhecida Madame de Pompadour. Esta foi uma burguesa, nascida em Paris em 1721, que usou a sedução para conquistar um lugar entre os mais nobres e se tornar a principal amante do rei da França daquela época, Luís XV. Mas além de ser bela, sedutora e encantadora, era extremamente inteligente e se tornou decisiva na política francesa. Logo através de sua influência, conseguia audiências a embaixadores, tomava decisões sobre todas as questões ligadas à concessão de favores, de forma tão absoluta quanto qualquer monarca.

A comparação entre a cortesã francesa e a cangaceira brasileira surgiu provavelmente após Abrahão comentar e ser publicado que “os asseclas de Lampião lhe rendem as mais servis homenagens, tudo fazendo para não cair no desagrado dessa Madame Pompadour do cangaço, senhora de baraço e cutelo dos sertões nordestinos”.

Não pudemos comprovar com exatidão, mas certamente esta é a uma das primeiras grandes reportagens sobre uma jovem sertaneja chamada Maria Gomes de Oliveira. Baiana nascida em 1901, no sítio Malhada da Caiçara, que um dia encantou o “Rei dos Cangaceiros” e seria conhecida em toda parte como Maria Bonita.

A VOLTA A “CIVILIZAÇÃO” E O SANGRENTO FIM DE ABRAHÃO

Relato de seus encontros com o bando de Lampião no jornal “Diário de Pernambuco”,
edição de 12 de fevereiro de 1937. Coleção do autor.

Abrahão volta ao Recife e novas matérias são publicadas no Diário de Pernambuco, sempre com muito destaque e na primeira página. Elas informavam detalhes do encontro de Abrahão com os cangaceiros e que a sociedade pernambucana em breve teria a oportunidade de assistir nos cinemas da capital o “film” sobre Lampião. Benjamim Abrahão aproveitava sua notoriedade.

Sobre o tamanho do rolo de filme e sua duração, não conseguimos apurar corretamente, pois o tamanho foi crescendo e diminuindo. Dependia do lugar, provavelmente do gosto dos editores, ou através de informações equivocadas de Benjamim Abrahão. Segundo o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do sol, 2ª edição”, págs. 339), em dezembro de 1936 o libanês teria entregue a Ademar Albuquerque cerca de “quinhentos metros de filme”, mas em abril do ano seguinte os jornais cearenses noticiavam que havia “mais de mil metros”. Em Recife a película esticou mais ainda.

No Diário de Pernambuco, na edição de 12 de fevereiro de 1937, Abrahão afirmava que o filme tinha “2.000 metros”, que seria exibido no Rio de Janeiro e anunciava que além do filme, seria publicado um livro “com a maior e mais completa reportagem sobre Lampião”.

Mas foi a mesma atenção dispensada pela imprensa que gradativamente foi lhe criando problemas. Os jornais mostravam com destaque a façanha de um simples imigrante libanês, que havia conseguido encontrar Lampião, filmá-lo tranquilamente com o seu bando, enquanto que as forças de segurança nunca davam cabo dos cangaceiros.

No Rio de Janeiro, então capital do país, a revista “O Cruzeiro”, um dos principais veículos da imprensa brasileira da época, estampou no exemplar de 6 de março de 1937 uma manchete com cinco fotos do bando. De forma crítica afirmava que “onde os policiais falharam, Abrahão havia triunfado”.

No dia 2 de julho de 1938, no mesmo Cinema Moderno que apresentou a película sobre o padre Cícero, ocorreu à única exibição conhecida do filme de Benjamin Abrahão. A fita cinematográfica foi assistida por autoridades que se revoltaram diante do destaque dado a Lampião e seus acompanhantes. Logo os membros do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), o órgão de censura do chamado Estado Novo, como ficou conhecida a ditadura comandada por Getúlio Vargas e implantada no ano anterior, apreenderam o filme.
Benjamin Abrahão tentou reverter, sem sucesso, a situação. Ele fica em uma posição difícil e parte para o interior em busca de apoio.

Em 9 de maio de 1938, na então vila de Pau Ferro (atual município pernambucano de Itaíba), a cerca de 45 quilômetros de Águas Belas, Abrahão foi morto com 42 facadas por um homem que seria deficiente físico e que trabalhava como sapateiro. A razão foi uma vingança ocorrida pelo fato do libanês ter mantido relações com a mulher deste sapateiro.

Entretanto, segundo as edições do Diário de Pernambuco de 10 e 19 de maio de 1938, ao comentar sobre a morte de Benjamin Abrahão, trazem algumas informações interessantes.

Foi divulgado que o inquérito realizado pelo delegado do 2º Distrito Policial de Águas Belas, concluiu que o assassino do imigrante libanês se chamava José Rodrigues Lins, conhecido como Zé de Ritinha ou Zé de Rita e que teria sido ajudado por uma mulher chamada Alayde Rodrigues de Siqueira. Mas as reportagens não especificavam maiores detalhes do ocorrido e nem o grau de participação desta mulher.

Para muitos pesquisadores a verdadeira razão da morte de Abrahão teria sido as insistentes cobranças que ele fazia aos coronéis da região, sobre uma pretensa ajuda financeira prometida para a realização do filme. Aparentemente, diante das recusas, ele possivelmente teria feito algum tipo de ameaça e encontrou a morte.

Certamente que em meio a um momento político onde o poder do Estado Novo estava muito forte e centralizado, onde as velhas lideranças do sertão já não possuíam a mesma desenvoltura nos círculos do poder, onde a desconfiança e o temor de perda de prestígio e de força política eram evidentes, a figura de um imigrante que sabia de muita coisa, impertinentemente exigindo dinheiro, deveria ser uma fonte de preocupação.

Seja qual for a verdadeira razão, percebemos que faltou a Benjamin Abrahão, mesmo depois de estar vivendo a cerca de vinte anos no Nordeste, uma maior percepção em relação as suas atitudes e o que elas poderiam gerar.

Rostand Medeiros é Pesquisador
rostandmedeiros@gmail.com

*A foto foi cedida pelo colaborador Ivanildo Silveira devido à qualidade da sugerida pelo autor. Salientamos que existe uma controvérsia quanto ao outro cangaceiro que estava em companhia de Juriti: Que este tenha sido o "sabonete" e não Mergulhão. A foto que compõe o livro "Cangaceiros" de Élise Jasmin, está identificada como: Juriti e cangaceiro "desconhecido". Esse cangaceiro desconhecido, também não seria "Mergulhão"??? O escritor Antonio Amaury disse a Ivanildo que tratava-se do “Quinta feira”.


Att Kiko Monteiro.