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segunda-feira, 18 de julho de 2022

Benício "Saracura"

Como foi a vida deste cabra após o cangaço (Atenção: foto inédita)

Por Moisés Reis

Benício Alves dos Santos era paripiranguense, entrou para o cangaço após desacertos com a polícia local e foi combater ao lado do notório Labareda. Sua vida durante o cangaço é relativamente bem conhecida. Saracura ficou famoso por aparecer em um famoso documentário onde é descrito por "Zé Rufino" como um homem destemido e inteligente, capaz de comandar um grupo por conta própria.
 

"Saracura" preso em Salvador

No mesmo documentário Benício aparece já como funcionário público do Instituto Médico Legal da Bahia. Em uma breve entrevista, entre informações sobre a vida bandoleira, deixa claro que não gostava de falar do cangaço.
 

Tudo que foi dito até aqui, não é novidade para quem gosta e pesquisa sobre o cangaceirismo, contudo, recentemente, tive a oportunidade ímpar de entrevistas Silvano Andrade Santos, filho de Benício. A descoberta do contato me foi gentilmente passada pelo pesquisador Kiko Monteiro (Blog Lampião Aceso).
 

Por telefone, Silvano me passou as informações que faltavam para compor o perfil de "Saracura" após o fim do cangaço e finalmente compor a historiografia sobre o tema.

Saracura faleceu ainda jovem, aos 59 anos, contrariando a tradição de longevidade dos cangaceiros sobreviventes ao cangaço. A data exata do seu falecimento é 2 de junho de 1975, morreu de hepatite e foi sepultado em Salvador.
 

Benício nasceu no dia 1º de novembro de 1916, se entregou em 1940 em Paripiranga e seguiu para cumprir pena em Salvador. Após cumprir sua sentença, continuou morando na capital, mas, de acordo com Silvano, fez diversas visitas à Paripiranga após o cangaço. Foi na fazenda de um amigo, Ramiro Vieira de Andrade, que conheceu a sua segunda mulher com quem viveria pelo resto de seus dias.
 

A filha do fazendeiro que encantou Saracura foi Josefa Vieira de Andrade Santos, ainda viva, com 83 anos, residente em Itaberaba, a 288 km de Salvador. Foi dela que Silvano retirou a maior parte das informações a mim passadas para a composição deste artigo, uma vez que ele tinha apenas 11 meses de idade quando o pai faleceu.
 

Sua vida cotidiana era dedicada ao trabalho e à família, tornou-se um cidadão tranquilo, ordeiro, casado, pai de quatro filhos, três biológicos e um adotivo. Como ele mesmo afirmou no documentário já citado, não gostava de falar do cangaço e está aí o motivo de sua vida civil não ter sido devidamente documentada até agora. 

Não temos informações acerca da sua relação com o outrora chefe Ângelo Roque. Sabe-se, contudo, que chegou a contar algumas histórias da respectiva parceria para a esposa em momentos de descontração.

 

Ângelo Roque, prestes a regeneração

 

A esposa de Saracura criou os filhos em Salvador apoiada na pensão de um salário mínimo que recebia como viúva, diante das dificuldades da vida, seu pai chegou a ir busca-la para voltar a viver em Paripiranga, mas ela recusou e preferiu criar os filhos onde acreditava ter melhores condições de dar a eles boa educação, oportunidade que não teve durante a vida. A família optou por Itaberaba, onde vive ainda hoje. 

A família permanece unida, Silvano é casado, pai de três filhos, um deles, o caçula, leva o nome do avô, Benício Andrade. É um nome forte para uma criança que vai crescer com um nome carregado de significados e com uma bela história de lutas.
 

Silvano é empresário e pai também de Victória Andrade (26 anos) e Miguel Andrade (21), Valentina Andrade, filha de Simone Andrade, completa o rol de netos do ex-cangaceiro Saracura.

 

Abaixo, uma foto inédita de Saracura e D Josefa Vieira, no dia do casamento religioso.
 

Benício e sua 2ª esposa, Josefa Vieira

Casamento religioso em Paripiranga, BA, 8 de janeiro de 1971

Acervo Kiko Monteiro (Lampião Aceso)

         

 *Moisés Santos Reis Amaral, Professor há 20 anos do Município de Fátima, Licenciado em História pela Uniages com especialização em História e Cultura Afro-brasileira, Mestre em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe. Autor das obras: Manual Didático do Professor de História, O Nazista e da HQ Histórias do Cangaço. Contatos (75) 99974-289. E- mail.moisessantosra@gmail.com

 

Adendo Lampião Aceso em 2 de maio de 2024: Ainda segundo dona Josefa, seu companheiro foi enterrado na Quinta dos Lázaros (Salvador). E que a família foi avisada que deveriam retirar os restos após dois anos do sepultamento. Mas, quando eles foram tomar esta providencia, (em prazo não confirmado) encontraram a sepultura aberta e vazia. Quando ela questionou os coveiros, lhe disseram que ele já havia sido retirado e que tinham descartado os restos. 

*Depoimento concedido ao pesquisador Rubens Antonio em setembro de 2013.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Estácio de Lima

O acadêmico e o Mundo Estranho dos cangaceiros

Por Lamartine Lima*

No ano do centenário do falecimento de Nina Rodrigues, foi publicado, na “Coleção Ponte da Memória”, através da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, um importante livro, o derradeiro escolhido para re-ediçâo pelo falecido membro da Academia de Letras da Bahia, Guido Guerra. Foi escrito por um outro acadêmico, também falecido, que merece ter revistos seus traços bio-bibliográficos.




O autor, Estácio Luiz Valente de Lima, nasceu na cidade de Alagoas, depois denominada de Marechal Deodoro, antiga capital do estado de Alagoas, no dia 11 de junho de 1897, filho do desembargador Luiz Monteiro de Amorim Lima e de D. Francisca de Jesus Valente de Lima, caçula de 14 irmãos, compondo uma daquelas famílias numerosas nordestinas do passado, que deram grandes médicos, advogados, engenheiros, militares, sacerdotes e religiosos ao Brasil.

Fez o curso primário na sua cidade natal e o secundário em Maceió e Recife, para onde se transferira seu pai, quando a família foi residir no arrabalde da Várzea, onde, atualmente, localiza-se a Universidade Federal de Pernambuco. Rapazinho ainda, prestou concurso, alcançou o primeiro lugar e foi nomeado telegrafista dos Correios e Telégrafos. Nessa condição, no ano de 1916, despediu-se dos pais, irmãos e amigos, embarcou num paquete, veio para Salvador trabalhar naquela repartição pública, prestar concurso vestibular, em que tirou o primeiro lugar, e fazer o curso da famosa e primaz Faculdade de Medicina da Bahia.

Na capital baiana, morando na república estudantil “Não Posso Comer Sem Molho”, na Rua da Lama, bairro da Barroquinha, fez a boêmia da estudantada de seu tempo, todavia destacou-se como dedicado às ciências e também às letras, ficou conhecido como ótimo orador.




Assim, apreciado pelos seus mestres da Faculdade, recebeu convite para tornar-se acadêmico-interno do Serviço de Clínica Médica de Augusto do Couto Maia, no antigo Hospital de Isolamento de Monte Serrate, atual Hospital Couto Maia, na Península de Itapagipe, em Salvador, onde passou a desempenhar suas funções com grande proficiência, inclusive acompanhando as autópsias ali realizadas no Serviço de Patologia. No final do curso, foi eleito pelos colegas como orador da turma dos doutorandos, para a cerimônia em que solenemente colariam grau no ano de 1921.

Quis o Destino que o seu pai falecesse às vésperas da formatura, ele declinasse da honra de orador para outro colega, recebesse sem solenidade o diploma de médico, e colocasse no dedo o anel da eterna lembrança do genitor. Logo decidiu completar a formação profissional na Europa e, com esforço econômico, viajou para a Alemanha, onde fez estágio em Berlim, no Urbankrankenhauss, em que frequentou as clínicas médicas do cardiologista Max Koch, e do nefrologista Fritz Munck.

Estava na capital alemã, quando recebeu carta de Couto Maia, avisando-o do falecimento, no ano de 1923, de Oscar Freire de Carvalho, o segundo aluno preferido (o primeiro discípulo fora Júlio Afrânio Peixoto, nessa época catedrático no Rio de Janeiro) e sucessor, na cadeira de Medicina Legal da Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus, de Raymundo Nina Rodrigues, o Mestre da Escola da Bahia, que, no ano de 1906, falecera em Paris, França.

Oscar Freire, além de ter sido, também, fundador do Instituto “Nina Rodrigues”, sede do Serviço Médico-Legal do Estado, em Salvador, criara a especialidade na Faculdade de Medicina de São Paulo, e ali construíra o instituto que hoje tem o seu próprio nome. Imediatamente, Estácio de Lima voltou-se com afinco para o estudo da Medicina Forense com os sucessores de Casper, na capital alemã, com Leclerc em Estrasburgo, na Alsácia-Lorena, e com Balthazard, na capital francesa. Regressou ao Brasil, no ano de 1925, com o objetivo de fazer o concurso para a celebrizada cátedra que pertencera a Nina e a Oscar, onde teve como competidor o primeiro aluno deste último, Armando de Campos Pereira, importante jornalista, dirigente de “A Tarde”, o maior periódico da capital baiana.

Foi um muito disputado certame, em 1926, no qual Estácio apresentou tese sobre assunto então absolutamente novo – Indagação da Ascendência –, escreveu dissertação acerca do ponto sorteado – Responsabilidade Civil – e teve de dar demonstrações de grande domínio das matérias envolvidas nas questões teóricas e práticas científicas de laboratório e sala de necropsia, além de superar enormes obstáculos políticos, vindo a vencer galhardamente.

Por sua vez, Armando de Campos deixou Salvador e foi tornar-se legista de nomeada no Rio de Janeiro. Assumida a cadeira, o Professor Estácio de Lima tornou-se, ipso-facto, diretor do Instituto “Nina Rodrigues”, e resolveu retomar os trabalhos do Mestre Nina, na Antropologia Forense, e do Mestre Oscar, na Perícia Judiciária, procedidos paralelamente ao ensino, e, para tanto, contou com a assistência do seu conterrâneo recém-formado Arthur Ramos de Araújo Pereira – depois o extraordinário docente de Psiquiatria Social no Rio de Janeiro e revisor da obra do Mestre da Escola da Bahia –, mais Álvaro Dória, Egas Moniz Barreto de Aragão Júnior e outros profissionais escolhidos.

Assim, quando, em 1929, o capitão de cangaço pernambucano Lampeão (que muitos grafam hodiernamente Lampião) e seu grupo de cangaceiros, perseguidos desde Pernambuco, atravessaram o rio São Francisco, para a Bahia, alcançaram o Raso da Catarina, e aquele chefe procurou aumentar o seu bando com sertanejos recrutados nos municípios do interior baiano e sergipano, surgiu ocasião do Professor Estácio estudar os criminosos do banditismo rural. Sabedor de que existiam coiteiros poderosos para os cangaceiros, ele fez contatos com importantes fazendeiros daquela região porém não logrou obter entrevista com Lampeão e seu bando.

No ano de 1932, todavia, Mestre Estácio foi chamado a examinar, com seu assistente Arthur Ramos, dois jovens criminosos que haviam sido capturados no interior do Estado. Eram os cangaceiros Volta Seca – apontado como tendo sido, em 1929, o sangrador, a punhal, dos soldados da Polícia Militar, baleados por Lampeão e Corisco, no destacamento de Queimadas, – e Passarinho, noviço do bando. Seus exames clínico-psiquiátricos e antropológicos, em que suas histórias foram bem ouvidas, encetaram as anotações e registros médico-legais, inclusive fotográficos, que fundamentaram as primeiras observações científicas diretas sobre os bandidos do sertão brasileiro.


José Condé e Arthur Ramos na entrevista de 30 de outubro de 1937.
in históriadealagoas.com.br

Seguiu-se que, em 1936, foram entregues, ao Instituto “Nina Rodrigues”, as primeiras peças de decapitação de cangaceiros, as cabeças de Azulão, Maria do Carmo (Maria de Azulão), Zabelê e Canjica, degoladas por uma Força Policial Volante baiana, comandada pelo civil contratado Eleutério, conhecido como Cravo Roxo, de Campo Formoso, que os pegou de emboscada numa fazenda em Baixa Verde, também no interior da Bahia. Tais segmentos cefálicos foram examinados e mumificados por Estácio de Lima. Trinta e dois anos depois, em 1968, elas foram inumadas, em nichos vedados, dentro de uma reentrância entre carneiras do velho Cemitério da Quinta dos Lázaros, por ordem do governador do Estado da Bahia. Em 2003, exumei-as, fotografei-as e fiz a respectiva ata, a pedido da administração daquela necrópole, onde elas estão postas em ossuário.




No ano de 1938, o Professor Estácio, mandou buscar em Maceió, onde estavam com o Professor José Lages Filho, no instituto que hoje tem o nome de “Estácio de Lima”, e recebeu no “Nina”, as cabeças de Lampeão e sua mulher, a cangaceira baiana Maria Bonita, mortos e decapitados, com mais nove bandidos, na Grota de Angicos, próxima do rio São Francisco, no município de Poço Redondo, estado de Sergipe, pela tropa do Tenente João Bezerra, da Polícia Militar de Alagoas. As duas peças foram minuciosamente estudadas por ele, que nelas não encontrou os famosos estigmas anatômicos apontados por Césare Lombroso.

Depois de modeladas suas máscaras mortuárias, foram mumificadas, pelos cuidados de um de seus assistentes, o suíço-baiano Dr. Charles René Pittex. Trinta anos depois, em 1968, foram também inumadas, juntamente com aquelas anteriormente referidas, no Cemitério das Quintas, por ordem do Governo do Estado.

Em 2001, exumei-as, a pedido da família do casal de cangaceiros, a filha, Expedita, e as netas, Vera e Gleuce, estas quem presenciaram todo o procedimento, de que fiz a ata, documentaram tudo com fotografias e filmagem, e conduziram as duas cabeças para sepultamento no túmulo dos parentes, em Aracaju, Sergipe. Ainda, no ano de 1941, o Professor mandou desenterrar, em Miguel Calmon, e trazer para o “Nina”, a cabeça e o braço direito fraturado por bala, do cangaceiro Corisco, que fora abatido quando fugia, com a esposa cangaceira Dadá; depois de pernoitarem em uma casa de farinha da Fazenda Juá, na Malhada da Areia, no local Barro Alto, vizinho do lugar Ventura, fronteira do município de Miguel Calmon, nos contrafortes da Chapada Diamantina, foram surpreendidos, de manhã, pela tropa do Tenente José Rufino, da Polícia Militar do Estado da Bahia.




As peças estavam saponificadas; mesmo assim, foram analisadas por Estácio de Lima e conservadas por Charles Pittex. Trinta e sete anos depois, as peças foram inumadas, igualmente às dos outros bandidos, por ordem governamental.

A cangaceira Dadá, viúva de Corisco, fora ferida na perna esquerda, amputada, na sede daquele município, e re-operada do coto, no Hospital Santa Isabel, da Santa Casa da Misericórdia da Bahia, pelo cirurgião Aristides Novis Filho. Estava “sub judice” quando foi apresentada ao Professor Estácio, já presidente do Conselho Penitenciário do Estado, que a entrevistou, tornou-se amigo e, mais tarde, muito ajudou na formação e no encaminhamento prático das filhas e netos daquela senhora. Em 1977, a bordadeira Dadá, no segundo casamento, fez exumar e dar sepultura em túmulo condigno, àqueles restos mortais do seu primeiro marido, o cangaceiro Corisco, perto da capela do Cemitério das Quintas. Finalmente, em 1943, os últimos bandidos de Lampeão, os cangaceiros Labareda, Saracura, Deus-te-Guie, Candeeiro e Balão, através de acordo procedido por um fazendeiro de quem eram amigos, renderam-se ao juiz de Direito de Jeremoabo, Antonio de Oliveira Brito, foram presos, submetidos a júri, sentenciados, apenados e transferidos para a capital baiana, onde cumpriram alguns anos de prisão na antiga Penitenciária do Engenho da Conceição.

Do total de oito componentes do bando de Lampeão, aprisionados e processados pela Justiça na Bahia, sete deles foram condenados. Na qualidade de catedrático de Medicina Legal, Estácio de Lima os entrevistou, examinou-os, analisou individualmente suas personalidades, o comportamento carcerário de cada um deles, observados durante longo período, finalmente exarou seu Parecer.

Considerou os cangaceiros como homens imersos nas circunstâncias de seu áspero ambiente sertanejo; sujeitos aos costumes de reviçamento medieval em uma sociedade interiorana camponesa quase esquecida pelas autoridades constituídas regularmente nas cidades; diferentes daqueles que ali não se tornaram criminosos, talvez porque estes não sofreram ofensas maiores; os cabras da peste, umas vezes na situação de vitimados pela injustiça manipulada pelos coronéis, outras tantas pela truculência da polícia a serviço dos proprietários rurais, mais outras, deserdados da honra pessoal ou da terra de sua sobrevivência, pela indignação foram empurrados para o crime, na condição de rebeldes que pegaram em armas e viveram ou morreram como bandoleiros rurais.

No mesmo passo, reativos, a forte excitação endócrina, proporcionando o seu vigor pessoal, impelia à liberdade de ação e capacidade de imposição da vontade pelas armas, que os levou, em seguida, a fazerem daquilo rendosa profissão, na qual se tornaram conhecidos e seria quase impossível deixá-la. Seu julgamento popular ouvia-se pela boca dos simples cantadores de feira, nas comunidades pobres do sertão, do agreste ou da mata, recitando cordéis sobre suas façanhas e recebendo animados aplausos dos matutos humildes, que viam naqueles guerrilheiros os seus iguais heroificados. E os moços caipiras mergulhados naquela atmosfera, gênese de mais cangaceiros. Não negou, todavia, o Professor Estácio, a possibilidade de algum criminoso não ter maior razão para ser bandido, que um convite de um chefe de cangaço, e usar um falacioso escudo ético.


 Ele ponderou que, fora daquelas circunstâncias, aqueles homens seriam, como mais tarde demonstrariam ser, capazes de plena recuperação social, tornando-se cidadãos úteis. Logo conduziu a revisão de seus autos processuais no Conselho Penitenciário, arrazoou com seus fortes argumentos ao presidente da República, general Eurico Gaspar Dutra, que lhes indultou as penas. Estácio conseguiu-lhes emprego digno, eles formaram família e criaram os filhos corretamente, como pessoas prestantes, nos padrões comuns da sociedade citadina.

Pelo resto de suas vidas, nunca mais delinquíram. Como também aconteceu com os cangaceiros Zé Sereno, Cila e Criança, que Estácio de Lima conheceria, bem mais tarde, em São Paulo, os quais, depois da morte dos principais chefes, conseguiram fugir para o Sul do País, onde começaram nova vida de trabalho e tiveram prescritos os prazos para serem levados à barra dos tribunais. Senhor das mais exatas informações e registros dessas fontes primárias, originais, o Professor Estácio de Lima, que, além de cientista e presidente da Academia de Medicina, também era literato e presidente da Academia de Letras, ambas da Bahia, sentiu a necessidade de escrever um livro sobre aquele mundo estranho dos cangaceiros. E assim o intitulou.

Elegeu os mais velhos daqueles bandoleiros – Labareda e Saracura – como regentes da orquestração dos outros antigos companheiros de lutas, para reviver na memória, para a qual não faltaram as relembranças de Dadá, aquele tão esquisito pequeno universo do cangaço.


 Benício Saracura


 Ângelo Roque, "Labarêda"

Determinou que um funcionário de sua cátedra na Universidade Federal da Bahia, acadêmico-monitor Rogério Henrique de Medeiros Pacheco, seu conterrâneo alagoano e estudante de Medicina, acompanhasse Labareda pelas históricas veredas do sertão baiano, anotasse e fotografasse os lugares e pessoas remanescentes dos tempos dos reencontros entre volantes e cangaceiros, e trouxesse o relatório de como estava aquele torrão depois de três décadas de exterminado o cangaço. Foi em busca de antigos comandantes de Forças Policiais Volantes, como os coronéis João Bezerra e José Rufino, famosos perseguidores de bandidos e matadores de cangaceiros, entrevistou-os, procurou velhos componentes das tropas, inclusive rastejadores, e colocou-os ao lado dos antigos cangaceiros para recontarem as suas versões de perseguições, fugas e combates.

Tendo ao seu lado a conterrânea e assistente, quem o sucederia em todas as cadeiras que ensinou, Professora Maria Theresa de Medeiros Pacheco, a qual conheceu tão bem os velhos cangaceiros, ele estudou as anotações, registros de entrevistas e fotografias.

Em seu estilo suave de amante das belas letras, entrecortado de frases pronunciadas pelos sertanejos rudes, Estácio de Lima construiu seu livro singular, preciosíssimo, O Mundo Estranho dos Cangaceiros, que foi lançado, em primeira edição, no ano de 1965, na Livraria Civilização Brasileira, pela Editora Itapoan, através do proprietário das duas, o falecido livreiro Demeval Chaves.

Para citar apenas uma cena marcante, aquela em que é descrita a eutanásia do cabra Sabino – dos mais valentes e cruéis homens do cangaço – quando, malferido em combate, e para não dar oportunidade à polícia que tanto o queria sangrar, tira o lenço vermelho do pescoço e o coloca sobre o rosto, enquanto roga ao seu compadre, o cabra Mergulhão, que lhe dê um tiro de parabélum no crânio.

Essa obra veio juntar-se a outras que escreveu desde a sua tese inicial, Introdução ao Estudo da Agonia, passando pelas acima citadas duas monografias para a cátedra, mais o trabalho pioneiro no País sobre A Inversão Sexual Feminina, os avançados Ensaios de Sexologia, a original pesquisa sobre O Infanticídio e o Estado Puerperal, o especialista demonstrado mais uma vez em Perícias e Pareceres, o ficcionista revelado em A Aeromoça e Outras Novelas Regionais, o etnólogo mostrado no O Mundo Místico dos Negros, livros editados, além de três centenas de ensaios, artigos e crônicas brilhantes e inspiradas poesias publicados em coletâneas, revistas e jornais. Lamentavelmente, faltou a reunião de seus discursos admiráveis, pronunciados de improviso, os quais não anotava, restando alguns gravados, nem sempre em condições perfeitas.

Recebeu Estácio de Lima a láurea de Professor Emérito, depois de haver sido, ainda, catedrático da Faculdade de Odontologia e da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, e titular da Faculdade de Direito da Universidade Católica do Salvador, e mais, fundador da cadeira e primeiro titular de Medicina Legal na Escola “Bahiana” de Medicina e Saúde Pública e na Academia de Polícia Militar do Estado da Bahia. Presidiu inúmeras bancas de concurso para titulares da especialidade, participou de congressos nacionais e internacionais de Medicina Legal, viajou pela América do Sul, voltou outras vezes à Europa, e, em duas oportunidades, demorou pesquisando na África Ocidental.

Como desejou, prosseguiu nos trabalhos de Nina Rodrigues, Mestre da Escola da Bahia, anotou, na qualidade de Ogâ do Terreiro do Gantois, as observações sobre a religião dos orixás, relacionadas com as práticas médicas; registrou as reações dos homens do povo, alcoolizados ou drogados pela maconha; documentou as entrevistas com homossexuais, masculinos e femininos; analisou os criminosos, particularmente os homicidas; estudou os costumes dos africanos no Continente Negro e na Bahia; criou uma coleção de objetos, que deu origem ao Museu Antropológico e Etnográfico “Estácio de Lima”; e, principalmente, ensinou através da teoria e da prática pericial, no exercício da função de grande educador, premiado pela Academia Nacional de Medicina.

Em reconhecimento, a Cidade do Salvador e o Estado da Bahia oficializaram sua cidadania, que já obtivera no dia-a-dia de serviços prestados aos concidadãos de sua comunidade.

O Professor Estácio de Lima, alagoano, baiano e soteropolitano, um homem admirável, faleceu aos 87 anos de idade, no dia 28 de maio de 1984, em Salvador, recebeu homenagens oficiais dos governos estadual e municipal, das universidades, academias e demais instituições a que pertenceu, e particularmente de seus antigos alunos, na Faculdade de Medicina da Bahia, em cujo Salão Nobre o féretro foi velado, sob a Guarda de Honra dos Cadetes da Polícia Militar. Depois de ato religioso celebrado pelo seu conterrâneo alagoano, confrade da Academia de Letras da Bahia e Cardeal Arcebispo Primaz do Brasil, D. Avelar Brandão Vilela, foi conduzido, sobre a elevação da escada de um carro de bombeiros, acompanhado por seus amigos, para receber sepultamento no Cemitério do Campo Santo.


A republicação de seu mais famoso livro, no ano de 2007, é, sem dúvida, a melhor homenagem que se poderia prestar, pela passagem do 110º ano de seu nascimento.

* Lamartine de Andrade Lima é médico e ensaísta, presidente da Academia de Letras e Artes do Salvador e presidente emérito do Instituto Bahiano de História da Medicina.

Pescado em Blog do Facó

Adendo Lampião Aceso: 



Na imagem acima o recipiente sepulcral de Estácio Luiz Valente de Lima, no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Cortesia do pesquisador Rubens Antonio, Blog O cangaço na Bahia



quinta-feira, 19 de julho de 2018

Tu já tinha visto...

Fotos inéditas de Zé Rufino em 'Memória do Cangaço'?


 



As fotos foram divulgadas pelo recém criado canal do grande Thomas Farkas.

O Canal foi criado com o principal objetivo de difundir a produção cinematográfica do húngaro radicado no Brasil, Thomaz Farkas. Além de ter sido um importante fotógrafo na consolidação da tradição moderna da fotografia brasileira, Farkas também desenvolveu uma sólida produção cinematográfica. Tais filmes marcaram a produção do cinema documentário brasileiro e foram o início de uma transformação que influenciou diversos realizadores.

Lá estão reunidos 35 filmes de curta e média metragem que Thomaz atuou ora como produtor, ora como diretor de fotografia e ora como diretor.

Realizados entre os anos de 1964 e 1980, em plena ditadura militar, tais documentários investigam as manifestações culturais localizadas nos rincões do pais, forjando assim uma busca pela identidade da cultura popular brasileira. Os filmes realizados dentro deste período, sendo a serie pioneira Brasil Verdade (1964-65) e a segunda, essa realizada no Nordeste, Heranças do Nordeste, (1969-70) ficaram conhecidos como Caravana Farkas. Na mesma época em que Eduardo Coutinho realizava o antológico Cabra marcado para morrer (1964-1984), a Caravana Farkas decidiu lidar com a efervescência política do país (época do endurecimento do regime militar sobretudo com o decreto do AI-5 em 1968) se interessando pela cultura popular nordestina. A transformação social estando ligada, desse modo, com a expressão tradicional de um Brasil afastado  do eixo industrial.

O Canal Thomaz Farkas ressalta a importância do feliz encontro de diversos realizadores, alguns deles muito jovens neste período, que desempenharam papéis importantíssimos na futura trajetória do cinema brasileiro. São eles: Geraldo Sarno, Paulo Gil Soares, Sérgio Muniz, Maurice Capovilla, Guido Araújo, Manuel Horácio Gimenez, Affonso Beatto, Lauro Escorel, Eduardo Escorel, Sidney Paiva Lopes, Edgardo Pallero, Wladimir Herzog entre outros. Destacamos ainda três figuras citadas como referências no âmbito desta produção: Fernando Birri, Joris Ivens e Jean Rouch.

‘Baiano de alma’, como o próprio Thomaz dizia, o fotógrafo, produtor de cinema e empresário, deixou um legado cultural muito importante para a construção do país. Este canal tem por dever histórico e interesse político divulgar e difundir ao máximo tal propriedade intelectual brasileira.

 A grande motivação de oferecer todo o acervo em alta qualidade é fazer com que ele seja mais visível, e de modo intuitivo, tanto para pesquisa como para outras apropriações —, explica Guilherme, cujo avô morreu em 2011, em São Paulo.

Os 34 filmes, de curta e média metragens, estão disponíveis via streaming. Vão desde “Memória do cangaço” (o primeiro, de 1964, de Paulo Gil Soares) a “Hermeto campeão” (1981), do próprio Farkas. Além disso, há extras como fotografias de bastidores e documentos, como a tese de doutorado sobre o cinema documentário feita por Farkas, apresentada à USP em 1972.

Adendo Lampião Aceso:

Já que nossa primeira publicação de Memória do Cangaço, assim como centenas de imagens ,também expirou, vamos republicar, em parte única, para deleite de todos vocês.


Texto com informações do Canal Thomas Farkas e do Portal O Globo.com

sábado, 7 de junho de 2014

Seu Atanásio

Memória centenária do cangaço em Paripiranga, BA


Por Kiko Monteiro


Dando continuidade aos registros de minha pisada junto com o confrade Narciso Dias por terras que ontem pertenciam a Paripiranga e hoje são de Adustina, tivemos mais uma grata surpresa ao sermos avisados da existência, eu diria até espetacular existência e presença de Seu Atanásio. Ele é mais uma testemunha ocular dos fatos lampiônicos no sertão baiano, e que para nossa sorte naqueles dias se encontrava em tratamento de saúde na casa da sua filha.


Ex-vaqueiro e coiteiro assumido, Atanásio Gregório dos Santos já não enxerga à onze anos. Precisamente quando completou os 102 anos de idade... Hoje aos "111" desafia o tempo e o vento, sim, o homem nasceu em 05 de fevereiro de 1902. Com prova documental.



Garantiu lembrar de ontem como se fosse ainda ontem. Conversamos com ele por pouco mais de uma hora. Não foi fácil montar o seu depoimento. É preciso intimidade com o ritmo e expressões e corruptelas da fala dos nossos vizinhos de estado. E seu Atanásio nem sempre partia do inicio ou finalizava um episódio. Alguns capítulos ficaram pela metade, portanto sem validade para nossa publicação. Não poderíamos exigir muito, os fatos conhecidos e vivenciados por este baiano fecharam com chave de ouro a nossa tão proveitosa visita.

Pra inicio de conversa, ele nos disse que não era filho de Paripiranga, é natural de Bebedouro (atual cidade baiana de Coronel João Sá que pertencia à Jeremoabo). 

Que na verdade foi um coiteiro de dupla função, pois serviu aos dois lados da força. 

Na época do cangaço ele já residia nos Jardins  mesmo lugarzinho em que vive amparado pelos filhos, (atualmente o Jardins é um povoado do município baiano Sitio do Quinto). 

O que facilitou sua amizade com os cabras de Lampião foi o fato de ser casado com uma prima do cangaceiro "Saracura". Assinala que o grupo que dominava a região era justamente o de Ângelo Roque "O Labarêda" um cangaceiro manso e chefe de Saracura.
Saracura não, o Benício, que era um excelente vaqueiro e conforme a história, um sertanejo que revoltou-se ao ver seu pai quase invertebrado numa rede por conta de uma surra que tomou de uma força volante.

Confiram a data de nascimento no RG do "menino"
Ressalta que manteve boa convivência com policiais. Todavia ao botar na balança quem mais apreciava, deixa claro a sua simpatia pelo modus operandi dos cabras de Lampião. Afirma que presenciou muito mais atrocidades dos "Macacos". Afinal de contas...
 - "O que mais tinha na policia era vagabundo a procura de comida e dinheiro. Era uma época de secas terríveis e estas pessoas não tinham opção. A única alternativa era pegar em armas para perseguir cangaceiros. Mas a única coisa que a maioria sabia fazer era pilhéria, covardia de bater em pobres coitados. Enfrentar os cangaceiros como devia de ser... Ah! foram poucos".
L.A. - Sabendo que havia violência de ambas as partes, por que o senhor preferia lidar com os cangaceiros do que com as Forças?
- "Vamos dizer assim: Eu não fazia nem cara feia, nem corpo mole. A volante exigia que eu matasse um bode dos meus, eu atendia, eles comiam, enchiam o bucho, nem sequer agradeciam e iam embora. Já os cangaceiros pediam a mesma coisa, porem ao se fartarem pagavam pelo animal abatido. Aliás, eu ganhava de cinco a dez mil réis por qualquer favor prestado a cabroeira".
 L.A. - O senhor chegou a frequentar algum baile com os cangaceiros? 
- "Fui dançar uma única vez um "pagode" convidado pelo próprio Ângelo Roque no Pinhão. Mas chegou uma força e teve tiroteio. Nesse dia não morreu ninguém, eu consegui fugir me arrastando pelo batente da choupana". 
 L.A. - E Lampião? 
- "Conheci demais, ele andou muito no sitio (Do quinto), aqui pelas matas de Paripiranga, também, tinha preferência pelos coitos na beira do rio Vaza Barris que corta a região".
  
A cada intervalo Seu Atanásio sempre repetia: 
"Tempo bom, meus amigos, é o de hoje".

Também pudera, o homem na condição de coiteiro, e de quem viu muito assombro e desmandos de toda a sorte no sertão pode fazer o comparativo.
Certa vez ele guiou a cabroeira até a casa de uma mulher chamada Josefa de Bispo, que morava com três filhos no lugar chamado Quixaba. Ao perceber a fome que estes passavam, os cabras ruins do sertão num momento de benevolência (heroismo) se compadeceram da situação e deram-lhes comida.
Mas certa feita esta mesma mulher achou de informar para a volante comandada pelo Sargento Balbino a localização do coito dos bandoleiros. O cangaceiro (cujo nome ele não recorda e prefere não sugerir ) Tomou conhecimento da desfeita e a visitou mais uma vez, desta vez sem piedade nem tampouco caridade.
- "Ele cortou a língua dela com uma faca de ponta para servir de exemplo à  todos que não soubessem manter silencio sobre suas presenças na região".
Pensam que o castigo lhe bastou? Dona Josefa, revoltada e sem a língua para caguetar, apontava com o dedo a direção do bando para a volante. Ligeiramente engraçado? No cangaço nada é cômico. Essas "apontadas" ocasionaram em tiroteio e como nova represália os cangaceiros intimidaram a velha de vez, matando dois dos seus filhos.
Recordou um outro trágico episódio envolvendo gente que desafiou o perigo, narrativas que ouviu dos próprios executores.
O jovem Manoel Caetano, “Manoelzinho” era caçador e certa vez deu de cara com um coito de cangaceiros que se preparavam para tratar uma vaca. Ao voltar para casa ao invés de segurar a novidade resolveu procurar o sargento Balbino e delatar o local. Novo embate com a policia... Não tinha outro, eles já sabiam quem os havia entregado e juraram vingança contra o Manoel. Tempos depois Manoelzinho que pensava que era invisível descia as margens do riacho sozinho e deu de cara com um cangaceiro que o cumprimentou pelo nome, Manoelzinho desconfiado perguntou quem ele era, e o cabra identificou-se como Soldado do governo".
O caçador nem imaginava quem seria a caça, achou de fazer a média com o volante e foi proseando:
- Pois um dia destes, botei vocês no rastro dos bandidos, não mataram porque não quiseram.
- É verdade, mataram ninguém não, tanto que estou aqui conversando com você, seu filho de uma p... vais morrer agora mesmo.
Outros cangaceiros saíram do mato. Manoelzinho se ajoelha clama que poupem sua vida pois tinha uma boa quantia de dinheiro pra lhes dar.
- Tenho pra vocês um conto e quietos réis...
Trato aparentemente aceito, mas o levaram e mantiveram-no prisioneiro no coito e no final da tarde o mataram a punhaladas e deixaram o cadáver exposto em outro ponto da mata. Paisanos que passavam pelo local ao se depararam como aquela cena medonha e fugiram esquecendo-se das montarias.
 Atanásio tira sem dificuldade mais coisas da sua centenária e incrível memória
Conta que conheceu "Mariquinha" prima de Maria Bonita e companheira de Ângelo Roque.

[Mariquinha também era natural de Jeremoabo e foi assassinada por Odilon Flor no lugar Riacho do Negro, (diz que na época o lugar também foi conhecido por Curral do Saco) juntamente com os cabras Pé-de-peba e Chofreu. Quem participou desta diligencia e está vivo para contar esta história é o ex volante Gerson Pionório entrevistado por João de Sousa Lima Leia Aqui ]
 

Cabeças dos cangaceiros Mariquinha, Chofreu e Pé-de-peba
Acervo Lampião Aceso
 
Cruzes dos cangaceiros mortos no Riacho do Negro
E que em 1938 após o massacre, descobriu que dois sobrinhos dele estavam junto com Lampião em Angico. Um deles recebeu o vulgo de "Zeppellim" e o outro não lembra, mas enfim, era o Pedrinho. Os dois conseguiram escapar. permaneceram escondidos durante seis meses na fazenda Caraíbas (Divisa entre Adustina e sitio do Quinto).
- "O Pedrinho tinha um ferimento de bala na coxa que ele tratou com farinha molhada".
 L.A. - E o senhor? não chegou a ser convidado para pegar em armas e acompanhar os cangaceiros? 
- "Com os meninos? Não, mas cheguei a marchar com Zé Rufino algumas vezes na persiga de cangaceiros". Recebi um fuzil e uma recomedação dele -"Se ver alguém não seja doido de atirar, espere minha ordem".
Seu Atanásio disse que também serviu como coiteiro do célebre Corisco.
 L.A. - E Dadá, o senhor lembra dela?
- "A Dadá? Ah ali era uma “cabocla positiva”. Uma vez eu pesquei não sei quantos quilos de Jundiá pra ela e pra Corisco... Conheci o "Balão" e o Mariano quando ele era comandado pelo diabo Loiro... e outros e outros".

"Esse depoimento foi gravado no dia 2 de julho de 2013 e escrito dois meses depois. Antes de publica-lo eu precisava me certificar da condição atual do nosso entrevistado. Hoje, 07 de junho de 2014, mantive contato com o nosso amigo e anfitrião professor Salomão que foi buscar noticias junto a filha de Seu Atanásio e ela nos assegurou que: Aos "112 anos" o pai dela está vivendo seus últimos dias, meses, ou quem sabe até anos no rancho dele, lá no Sitio do Quinto".

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Este blog destina–se à discussão, preservação e divulgação da memória dos eventos do Cangaço, em todas as suas dimensões e amplitudes.
 

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terça-feira, 16 de abril de 2013

Paripiranga na História

O cangaceiro Saracura
Por Thomaz Araújo

Cada vez mais descobrem-se pessoas e fatos que elevam Paripiranga à  categoria de palco de uma das páginas mais estudadas e dolorosas do Brasil contemporâneo: O Cangaço.

Desta vez, a surpresa veio por conta de uma conversa com um amigo que também pesquisa a nossa História e que revelara através de relatos orais de pessoas que viveram nas décadas de 1920 e 1930.

Catando informações aqui e ali, ficou constatado que Paripiranga foi um pequeno celeiro dos cabras de Virgolino e dos seus subgrupos aqui de passagem, além de ser também referência  de algumas pessoas que davam apoios chamados pelas volantes de "coiteiros".

Uma dessas personagens foi o natural de Paripiranga, (BA) de nome Benício Alves dos Santos, que recebeu a alcunha de "Saracura".

Nascido na região chamada de Curral, perto da comunidade Maritá, divisa com os  municípios de Carira e Pinhão no estado de Sergipe.

Em entrevista ao jornalista  Joel Silveira em Março de 1944, na Penitenciária de Salvador, Saracura conta como entrou para o bando de Virgolino, grupo de Zé Sereno e depois seguiu com Angelo Roque, o "Labareda", que assim como Corisco tentaram manter viva a chama do Cangaço após o passamento de Lampião em 1938.
      
 Veja a seguir, um trecho desta conversa interessante com alguns cangaceiros sobrevieventes:
O próprio Saracura parece, agora, sair do seu sono triste. Pede a palavra e conta:
-"Posso falar do meu caso. Peguei na espingarda quase obrigado, para mim vingar das misérias que fizeram com meu pai. Um dia, no Coité, uma volante invadiu o nosso sítio. Queriam à força que meu pai desse notícia dos cangaceiros, como se ele fosse um coiteiro. O velho não sabia de nada, e então os "macacos" começaram a supliciar o pobre: arrancaram as barbas dele, fio à fio, arrancaram suas unhas com alicate; se o senhor pensar que estou mentindo, vá lá no Coité e procure André Paulo Nascimento, que mora nas redondezas. É o meu pai. Ele dirá ao senhor se estou ou não falando a verdade. Ele mostrará ao senhor o estado em que ficaram seus dedos. E eu próprio, antes de pegar na espingarda, fui um dia violentamente espancado na Fazenda Curral, perto do Coité. Os "macacos" haviam dito que eu era coiteiro, mas na verdade é que, até então, eu nunca vira um bandido na minha vida ".

Saracura me revela mais que é casado e tem três filhos, que de vez em quando o visitam.

Saracura quando ainda se encontrava preso na Bahia.
Acervo: Geziel Moura

 Em Salvador, 1964, onde ele trabalhava no necrotério do Instituto Nina Rodrigues. Emprego arranjado pelo amigo Dr. e escritor Estácio de Lima. Um cargo que poucos ou quase ninguém aceitaria, mas como se tratava de um ex-cangaceiro de Lampião... Só tinha medo dos vivos.

O termo dito pelo cangaceiro Saracura que relaciona Coité como sua terra está correto, pois Paripiranga antes chamava-se de Patrocínio do Coité. Como está contida na seguinte informação tirada no WIKIPÉDIA:

  Grupo de Zé Sereno. Saracura é o penúltimo


Saracura é o 1º a esquerda
Cortesia de Ivanildo Silveira

Nos seus primórdios, a povoação de Malhada Vermelha foi premiada pelo cidadão José Antônio de Menezes, que construiu uma capela sob a invocação de Nossa Senhora do Patrocínio, filiada à Freguesia de Nossa Senhora do Bom Conselho dos Montes do Boqueirão. A dita capela foi elevada à categoria de freguesia pela Lei Provincial 1 168, de 22 de maio de 1871, com o nome de Nossa Senhora do Patrocínio do Coité.


 Patrocínio do Coité, inicio do século XX.
 Acervo: Marcos Aurélio Carregosa Lima

Foi o Arraial de Patrocínio de Coité elevado à categoria de vila pela Lei Provincial 2 553, de 1º de maio de 1886, que criou o município de Patrocínio de Coité, com território desmembrado do de Bom Conselho (atual Cicero Dantas), que se instalou a 1º de fevereiro de 1888. Pelo Decreto Estadual 7 341, de 30 de março de 1931, o município teve o seu nome mudado para Paripiranga.


Saracura, entregue aos homi em sua terra natal.
Cortesia de Ivanildo Silveira

O documentário Memória do Cangaço contém relatos de Saracura. Se preferir avance para 15m:50s



Fonte:
- http://lampiaoaceso.blogspot.com.br/2009/10/entrevista-com-cangaceiros-na-prisao-em.html
- http://pt.wikipedia.org/wiki/Paripiranga

- Memória do Cangaço - Paulo Gil Soares, 1964 http://www.youtube.com/watch?v=vk1CutCJZJ
- Entrevista de Joel Silveira integra o livro "Tempo de Contar" (Editora Record, 1986).
Catei no: www.historiaparasecontar.blogspot.com.br
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OBS. Com exceção do vídeo, as imagens e algumas informações foram inseridas por nós a fim de enriquecer a matéria. Até o momento não temos qualquer informação sobre a causa e data da morte de Saracura.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Videoteca básica

Memória do Cangaço, 1964 

Categorias Curta-metragem / Sonoro / Não ficção
Gênero:
Documentário sociológico
Material original:
35mm, BP, 26min, 24q
País:
Brasil

Direção:
Paulo Gil Soares
Assistência de direção:
Terezinha Muniz
Direção de fotografia:
Affonso Beato
Câmera:
Affonso Beato
Fotografia de cena:
Dolly Pussi
Montagem:
João Ramiro Melo
Intérprete:
João Santana Sobrinho, José Canáro
Canção:
Dois Irmãos
Autor da canção:
Armindo de Oliveira
Conjunto e banda:
Banda da Polícia Militar do Estado da Bahia
Produção:
Divisão Cultural do Itamarati; Departamento de Cinema do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
Produção:
Thomaz Farkas
Produção executiva:
Edgardo Pallero
Distribuição:
Thomaz Farkas Filmes Culturais

Identidades/elenco:

Paulo Gil Soares
Narrador
Gregório Estácio de Lima
José Rufino
Cabo Leonício Pereira
Cabo Benevides
Cabo Antônio Isidoro
Ângelo Roque
"Labareda"
Benício Alves dos Santos
"Saracura"
Sérgia Ribeiro da Silva
"Dadá"

Sinopse:
Mostra as origens do cangaço, movimento armado de bandoleiros no Nordeste entre 1935 e 1939, com entrevistas de alguns sobreviventes da luta, policiais e cangaceiros. Entre os entrevistados, o prof. Estácio de Lima, Catedrático de Medicina Legal da Universidade da Bahia e Diretor do Museu de Antropologia (onde se encontram as cabeças dos mais famosos cangaceiros), que apresenta a sua teoria da origem dos cangaceiros ligada à predisposição criminal, distúrbios endócrinos e fatores morfológicos tipicamente caraterizados naqueles indivíduos. Partindo destas afirmações, a entrevista com o vaqueiro Sr. Gregório expõe a vida do sertanejo como sendo a mesma dos seus antepassados, ou seja, marcada pelo abandonado, exploração e rebeldia. É apresentado o cel. José Rufino da Polícia Militar Baiana, responsável pela perseguição e morte de mais de 20 cangaceiros, cuja história é mostrada entremeada pelas sequências autênticas de filmes realizados em 1936 por Benjamin Abrahão, um mascate árabe que conseguiu filmar o famoso bando de Virgolino Ferreira da Silva, o "Lampião". Contando seus combates mais perigosos o cel. Rufino apresenta também ex-cangaceiros e ex-perseguidores que contam suas histórias, entre os quais Leonício Pereira que cortava as cabeças dos cangaceiros "para que fossem tiradas fotografias". (Baseado no press-release).

OBS:
Os senhores Ângelo Roque, e Benício Alves dos Santos, foram, respectivamente, os antigos cangaceiros Labareda e Saracura.
CCBB/Caravana Farkas indica assistente de montagem: Amauri Alves, e Terezinha Muniz.
CB/Transcrição de letreiros apresenta, nos letreiros iniciais, o seguinte trecho: "Um filme pesquisa, apresentando trechos do documentário sobre cangaceiros feito em 1936 pelo mascate Abraão Benjamin, fotografias e versos de Virgulino Ferreira da Silva, Lampião, e gravuras populares da literatura de cordel".
Sérgia Ribeiro da Silva é o nome de Dadá, ex-mulher do famoso cangaceiro Corisco.

Prêmios:
Prêmio Gaivota de Ouro obtido no Festival Internacional do Filme, 1965, RJ.. Prêmio Menção Honrosa Governador do Estado, 1965, SP.. Prêmio paralelo, não oficial, Prêmio Robert Flaherty (da União Mundial dos Museus de Cinema).. Prêmio Dziga Vertov da União Mundial de Cinematecas, 1965, Brasília - DF.. Prêmio da Crítica Internacional do Festival Cinematográfico, 1966, Tours - FR.. Rassegna Del Film Etnográfico e Sociológico, 7 no Festival de Popoli, 1966, Florença - IT.. Premiado no Festival de Berlim, 16, 1966 - DE.






Créditos: Canal do Chico Marques

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Célebres Vaqueiros da História

"O medo da prisão transforma o indivíduo numa fera "


Um ilustre conterrâneo do amigo Kiko Monteiro, grande jornalista "Joel Silveira", (Foto) no ano de 1944, realizou uma entrevista com os cangaceiros ( Volta Seca; Angêlo Roque, Saracura, Cacheado, Deus Te Guie e Caracol ), quando todos eles se encontravam presos, na Penitenciária de Salvador/BA, cumprindo pena. Vejamos, abaixo, o texto na íntegra dessa famosa conversa.

Penitenciária de Salvador, Março de 1944.

Em meio á conversa, fiz a pergunta inesperada: os antigos companheiros e comandados de Lampião se entreolharam, silenciosos. Angêlo Roque (Labareda) baixou a cabeça e Saracura, a fisionomia carregada, pôs-e a olhar pela janela aberta. Segundos depois, Cacheado me encara com seu rosto de criança, ilumina-se num sorriso cândido e me diz:
- A gente matava como uns danados. - E acrescenta: - Mas a culpa não era da gente.
Ângelo Roque, o "velho Ângelo", aprovou com a cabeça. e, Cacheado continuou:
- Se os homens educados não auxiliassem a gente com munição, a história seria outra. Não teria se dado nada do que se deu. Pensando bem, os criminosos são eles. Uma pessoa de bem não ajuda bandido.
É uma tarde de quinta-feira, e estamos aqui, num dos mais amplos salões da Penitenciária da cidade de Salvador, diante dos seis famosos ex-cangaceiros: Volta Seca, Ângelo Roque (Labareda), Saracura, Cacheado, Deus Te Guie e Caracol.

Deus Te Guie é quase um menino, mas Ângelo Roque já vai se aproximando dos cinquenta anos: tem um rosto grave, de uma tristeza séria. O sertão deixou nele profundas marcas - as faces cortadas por rugas como talhos e nos olhos um brilho de sol inclemente. Antes de começar a tomar os meus apontamentos, o diretor da penitenciária fizera um pequeno discurso aos seis antigos bandoleiros. Aquilo seria, disse ele, uma espécie de mesa-redonda, na qual o jornalista e os prisioneiros debateriam assuntos ligados ao cangaço.

Que cada um contasse a sua história, as razões que o haviam levado a deixar a Lei, suas roças e seus empregos para a tremenda aventura do banditismo sertanejo. E que falassem, com toda a sinceridade.

Ângelo Roque fez um aparte, numa voz rouca:
-Eu sempre falei com sinceridade.
E me conta, dando início á conversa que entrou para o cangaço para desafrontar a sua honra.  
“Sempre fui um homem de ordem. Sempre vivi honestamente do meu trabalho ".
Sua história é simples, e escuto do próprio "velho Ângelo", na sua linguagem seca e típica. Ângelo Roque da Costa nasceu em Jatobá, Tacaratu, em Pernambuco. Entrou para o banditismo em 1928, quando conheceu Lampião. Seu primeiro encontro com Virgulino foi na Fazenda Arrasta-Pé, na margem baiana do São Francisco.
-Não me esqueço da primeira impressão que Lampião me deu: a de um homem tão sujo que dava nojo.

 

Anjo Roque Labareda

Pouco antes de 1928, em Jatobá, um soldado da força local deflorou uma irmã de Ângelo, é o que me diz. O caso foi para a Justiça, mas o soldado era protegido da política "de cima" - as queixas de Ângelo de nada valeram.

- "Então resolvi fazer justiça com as minhas próprias mãos. Fui na casa do soldado, mas só estava lá a mulher dele. Esperei na porta até que ele chegasse. De noitinha ele apareceu, e então eu lhe disse que ia morrer. Atirei duas vezes. O "praça" caiu de bruços, mas não morreu. Me disseram depois que andou muito tempo á beira da morte, mas não morreu".

O medo da prisão jogou Ângelo Roque na caatinga: durante vários meses, andou como um sem pouso pelos áridos caminhos do sertão. Pouco aparecia nas cidades. Trabalhou em roças, dormia no mato. Conheceu, depois, os cangaceiros Corisco e Arvoredo, e os dois lhe explicaram que a única maneira de viver tranquilo, longe da polícia, era entrar para o cangaço. Em 1928, quando conheceu Lampião, se decidiu. Mas demorou pouco tempo ao lado de Virgulino.
- Lampião não podia ficar parado num canto, e eu nunca fui homem viajeiro. Além disso, de vez em quando, a gente se encrencava. Um dia tive uma briga mais séria com ele, por causa de uma coisa sem importância. A gente estava de emboscada, na caatinga, á espera de um caminhão. Mas depois aconteceu a disgraceira.
O culpado da "disgraceira", me explica Ângelo Roque, foi o promotor de Coité que, em 1941, requereu na Justiça estadual a prisão do velho e dos seus companheiros.
- Este homem sempre me quis o mal, não sei por quê. Nunca fiz nada com ele.
A Justiça foi implacável para com os antigos reis do cangaço: Ângelo e seus amigos foram condenados, cada um, a trinta anos de prisão. Há meses atrás, o antigo bandoleiro trabalhou numa Horta da Vitória da Legião Brasileira de Assistência e, diariamente, sem qualquer vigilância, tomava o bonde e ia para o bairro de Brotas, como um passageiro comum.

De todos os seis cangaceiros presentes, o único que tentou fugir da cadeia foi "Volta-Seca". Pergunto ao famoso cabra de Lampião, seu lugar-tenente, o que pretende fazer ao recuperar a liberdade. Volta Seca - é o mais vivo, o mais alegre e o mais inteligente de todos - me responde num sorriso:
- "Vou cuidar da minha vida".
- E depois ?
- "Me meto num lugar bem longe, tão longe que ninguém vai ouvir falar de mim. Mudo o nome, e vou viver tranquilo. O que passou, passou".
Sua fuga, há pouco mais de um ano, foi um prodígio de habilidade e sangue-frio: com uma lima rústica, Volta Seca conseguiu serrar uma das grades da prisão, e seu corpo fino e elástico, corpo de menino, deslizou pela pequena abertura e, em seguida, por um reduzido espaço entre fios elétricos do muro da penitenciária.
- " Em pouco mais de vinte dias, fui a pé daqui da Bahia até Santa Luzia, em Sergipe. Não fui em menor tempo, porque um companheiro meu, que também havia conseguido escapar, adoeceu no caminho ".
Converso com esse rapaz de 26 anos de idade (parece ter apenas vinte), e ás vezes me esqueço que foi ele próprio, há uns dez anos, quem comandou uma série de horrores numa fazenda de uns parentes meus, no Sul de Sergipe. Seu bom humor é contagiante, e é impossível deixar de rir quando Volta Seca nos revela, na sua maneira dialogada, ecos de sua fuga recente:
-"Uma tarde cheguei numa roça e pedi emprego. A dona da roça me olhou, perguntou depois: "você não é o Volta Seca ?". Dei um pulo para trás, gritei: "Deus me livre, minha senhora ! isso é coisa que se diga ! ".
Então a moça continuou: "Pois ja vi o retrato de Volta Seca e o senhor se parece muito com ele. " Respondi: "Pois então, dona, me pareço com o diabo ! ".
Peço a Volta Seca sua opinião sobre Lampião, e ele me responde:
-Lampião sempre foi um homem difícil de explicar.
- Mas era valente ? Perguntei-lhe .
- " Homem, não sei. Rodeado de amigos e bem armados e dispostos, todo mundo é valente....Nunca vi ele brigar sozinho. Lampião só andava rodeado, e assim qualquer trabalho fica fácil "
Aponta para Ângelo Roque, afogado na sua gravidade:
- Valente era aquele ali. Isto sim. Já vi várias vezes o velho Ângelo enfrentar sozinho vários "macacos" (soldados das volantes).
Também Volta Seca brigou, certa vez, com Lampião. Foi uma briga muito séria, me diz ele, e Deus Te Guie confirma.
-Naquele dia, eu tinha certeza que um dos dois ia deixar de viver: ou Volta Seca ou Lampião.

O mal-entendido entre o Chefe do bando e o seu cabra mais famoso teve lugar em 1931, após um duro combate com a força policial. Um dos bandoleiros, "Bananeira", havia sido ferido pelos soldados, e, ficara estendido na estrada. Volta Seca procurou Lampião e pediu-lhe autorização para ir buscar o amigo ferido. Virgulino achou que a empresa era perigosa e que a ida de Volta poderia facilitar aos soldados a pista do bando.


Mas Volta Seca não podia deixar o companheiro morrer, explica Deus Te Guie. Então, surgiu o primeiro atrito entre os dois. Em companhia de Caracol (também presente á entrevista, com seu rosto parado), Volta Seca conseguiu arrastar Bananeira até um lugar seguro. Mas Bananeira estava muito ferido e teve que ser transportado numa rede.

Deus  Te Guie

Bananeira ferido em 1932*

-Bananeira pesava como o diabo - me diz Volta Seca.
Quando os dois chegaram com o companheiro ferido, Lampião e o resto do bando já haviam ido embora. Voltaram depois, e Virgulino procurou Volta Seca:
- "Menino, a gente tem que andar depressa. Os "macacos" estão por perto. Solte o ferido ai, e monte no seu cavalo."
Volta Seca respondeu que não podia fazer aquilo. Bananeira iria com ele - e montou o ferido no seu próprio cavalo. Virgulino, enfurecido, ordenou a Volta Seca que desmontasse Bananeira.
- " Então, o sangue me subiu á cabeça. Disse que não desmontava. Lampião pegou a carabina, mas fui mais ligeiro do que ele. Apontei bem no peito dele e lhe disse: " Se o senhor bulir com as pestanas, atiro. "Lampião estava verde de raiva. Ficamos assim um tempo grande, um olhando para o outro. Depois os companheiros serenaram a coisa. De noite no meu rancho, fui avisado por Quixabeira e Gavião que Lampião ia me matar no dia seguinte. Então dei o fora "
Volta Seca tinha apenas 14 anos quando entrou para o bando de Virgulino. Nascera em Itabaiana, no centro de Sergipe, fugiu de casa menino e andou sozinho pelo sertão. Encontrou-se com Lampião, em Goroso, no município de Bom Conselho, na Bahia. Ele me diz agora que no princípio apanhava quase que diariamente de Lampião. De Virgulino e dos outros:
- "Todo mundo gostava de enxugar a mão em mim. Até o velho Angelo Roque. Mas depois endureci o cangote, e o primeiro que me apareceu com ares de pai, recebi com a mão no rifle ".
Volta Seca me garante que quase todas as histórias que contam a seu respeito não são verdadeiras.
- "Gostavam de contar, por exemplo, que eu só matava á traição. Uma calúnia. Eu posso ser tudo, meu senhor, posso ser ruim de doer, uma coisa , no entanto, não sou: covarde e traidor. Nunca matei ninguém pelas costas, mas sempre em defesa própria. E sempre fui amigo dos meus amigos. Eu podia ter matado Lampião, naquele dia da briga, matar pelas costas, friamente. Mas não matei, porque era feio ".
Pergunto a Volta Seca os nomes de alguns dos coiteiros mais importantes e mais chegados ao bando. Ele sorri e responde:
“- O que passou, passou ".
Mas, o cangaceiro Cacheado toma a palavra:
- " Quase todo dono de fazenda era coiteiro. Os coiteiros sempre foram a nossa perdição. Eles nos davam dinheiro, comida e munição. E eram sempre eles que nos entregavam aos macacos (policiais). "

 

Cacheado

Volta Seca tenta inocentar os coiteiros:

- " Eles tinham que ajudar a gente. Senão a gente queimava as fazendas deles e matava o gado".
O cangaceiro "Saracura", de pele esverdeada pelo impaludismo, tem o olhar distante, perdido no mundo lá fora que a janela aberta deixa ver: o telhado comprido da estação de Calçada, as casas equilibradas no morro ao lado, a chaminé comprida da fábrica. É um rapaz calado que de vez em quando morde os lábios. Suas respostas são quase monossilábicas. Pergunto:

-Como você Saracura começou essa vida de bandoleiro ? Ele responde:
- A gente nunca sabe.
Ângelo Roque é da mesma opinião.
 - " Nunca se sabe. Uma coisa digo ao senhor: "Ninguém nasce bandido". Vamos dizer que aquele soldado casado não tivesse feito mal á minha irmã: tudo seria diferente. Eu continuaria na minha rocinha, talvez tivesse hoje umas economias, talvez até fosse dono do sítio. Nunca fui um homem da maldade. Depois que a gente vai pelo caminho, é que é o diabo.
O medo da prisão transforma o indivíduo numa fera ". O cangaceiro Caracol, tão calado, parece despertar, e começa a falar numa espécie de explosão:
- Por ai só se fala nas crueldades dos bandidos. Mas o senhor ande pelo sertão, converse com o povo pobre de lá: todo mundo dirá ao senhor que muito mais barbaridades do que nós, praticavam os soldados da força volante. E os coronéis, também. Eu poderia citar casos e mais casos de coisas horrorosas que eles fizeram por estes sertões. Bandidos como a gente. Por isto é que, em muitas cidades e povoados, nós, os "cabras", éramos recebidos como salvadores. Em certos lugares, meu senhor, o povo tinha mais confiança na gente do que nos "macacos" das volantes.
Volta Seca aparteia:
- " É isso mesmo: os crimes dos "macacos" foram iguais aos nossos. Mas nada aconteceu com eles. E com os coiteiros ? Os homens importantes e ricos do sertão, que nos ajudavam, nos davam armas, dinheiro e comida, continuam ricos e importantes. "
Cacheado volta com seu riso de menino:
-" A gente matava muito, a gente matava como uns danados. Mas a policia e os coronéis, matavam muito mais. "
Ângelo Roque faz um gesto com a mão, e o silêncio volta á sala. Agora só se ouve a voz grossa do " velho Ângelo", que diz, o rosto fechado:
-"Mas não vamos falar mais nisso. O que passou, passou, já disse. O que adianta agora é que nos dêem a liberdade prometida. Sou ainda um homem moço, quero ficar livre, trabalhar e cuidar de minha vida."
Volta Seca se volta para mim:
-"Veja o que o senhor pode fazer por nós. Até agora ninguém nos ajudou. Chegam aqui os doutores, pedem para ver a gente e saem prometendo mundos e fundos. Mas a verdade é que continuamos aqui. Já passei um tempo medonho na prisão, mais de dez anos, quero a liberdade. Fugi, há pouco tempo, porque não aguentava mais. Se eu não fugisse ficava maluco "
O cangaceiro " Deus Te Guie " acrescenta:
-" Seu Ângelo não gosta que a gente fale, mas é preciso que se diga que houve muita injustiça por esses sertões. Por que foi que "Arvoredo" ficou criminoso ? Por causa das barbaridades que os "macacos" fizeram com a sua familia. "
E é Volta Seca quem me conta a história:
- "O pai de Arvoredo vivia em Santo Antônio da Glória. Numas eleições, o velho deixou de votar no chefe político do lugar. O chefe mandou uma volante no seu sítio e eles fizeram horrores: estupraram as duas filhas e mataram os quatro filhos do velho, inclusive duas criancinhas de berço. Só escapou Arvoredo. Acabou bandido. E o velho se tornou coiteiro. Foi preso, morrendo aqui nesta penitenciária, há dois anos atrás, quase com oitenta anos. "
O próprio Saracura parece, agora, sair do seu sono triste. Pede a palavra e conta:
-"Posso falar do meu caso. Peguei na espingarda quase obrigado, para mim vingar das misérias que fizeram com meu pai. Um dia, no Coité, uma volante invadiu o nosso sítio. Queriam á força que meu pai desse notícia dos cangaceiros, como se ele fosse um coiteiro. O velho não sabia de nada, e então os "macacos" começaram a supliciar o pobre: arrancaram as barbas dele, fio a fio, arrancaram suas unhas com alicate; se o senhor pensar que estou mentindo, vá lá no Coité e procure André Paulo Nascimento, que mora nas redondezas. É o meu pai. Ele dirá ao senhor se estou ou não falando a verdade. Ele mostrará ao senhor o estado em que ficaram seus dedos. E eu próprio, antes de pegar na espingarda, fui um dia violentamente espancado na Fazenda Curral, perto do Coité. Os "macacos" haviam dito que eu era coiteiro, mas na verdade é que, até então, eu nunca vira um bandido na minha vida ".

 

Benício Saracura

 

Saracura me revela mais que é casado e tem três filhos, que de vez em quando o visitam. A conversa chega ao fim, e peço aos antigos companheiros de Lampião que permitam ao meu fotógrafo uma série de instantâneos, coletivos e individuais. Instintivamente, "Deus Te Guie" abotoa a blusa e passa a mão nos cabelos lisos. "Volta Seca" diz, num sorriso:

- "Só deixo tirar meu retrato se o senhor mandar uma cópia para mim".
E quando o violento magnésio da câmera fotográfica do meu amigo Brito rebenta na sala, como um tiro de canhão, o ex lugar-tenente do Capitão Virgulino dá um pulo da cadeira:
-"Um tiro desgraçado ! Parece pólvora seca".
E ao lhe pedir uma pose especial, "Volta Seca" chega até a janela aberta e diz:
- "Quero tirar um retrato olhando para fora, com a cara triste. Para mostrar aos doutores que estou doidinho para sair daqui."
Há uma larga distribuição de charutos e, ao se despedir, o velho "Ângelo", aperta minha mão com força:
-" Disponha aqui de um criado ás ordens. Desminta as calúnias que dizem a nosso respeito e veja o que o senhor pode fazer por nós.."

A entrevista integra o livro "Tempo de Contar" (Editora Record, 1986).

Estimados colegas: Leiam esse importante texto, e tire as suas próprias conclusões.
Um abraço!
Ivanildo Silveira

*Foto de Bananeira ferido Acervo Guilherme Velame Wenzinger