segunda-feira, 18 de junho de 2018

Opiniões

O cangaço como atraso do Nordeste

por Paulo Goethe

  Arte Silvino - Diário de Pernambuco

Em abril de 1937, o repórter Fernandes de Barros foi enviado pelo Diário de Pernambuco para mostrar como as chuvas haviam mudado o cenário no interior do Nordeste. O seu relato, publicado no dia 24, com direito a quatro fotos feitas por ele, apresentava uma realidade que poderia escandalizar os leitores do litoral. Pior que a estiagem, quem vivia no semiárido sofria mais era com o banditismo, agravado por extorsões e saques praticados pelas volantes, que deveriam manter a ordem e o direito.

A reportagem de Fernandes de Barros apresentou uma abordagem que vem ganhando força entre os pesquisadores do fenômeno do cangaço nas últimas décadas. Entre 1919 e 1927, agiam no interior nordestino pelo menos 54 bandos armados. Essa movimentação gerava uma instabilidade econômica em uma região que já apresentava um desenvolvimento inferior em relação ao Centro-Sul do país. Todos os setores produtivos da sociedade sertaneja sentiam-se ameaçados. Além dos saques nas pequenas cidades e ataques a fazendas, Lampião – o mais famoso dos cangaceiros, que só saiu de cena em julho de 1938 – instituiu uma nova modalidade criminosa: o sequestro.

Os fazendeiros não estão dispostos a arriscar a vida morando em sua propriedade. Há o êxodo para as cidades. Agora, não mais pelo flagelo da seca: por uma questão social. Se ficarem trabalhando, no fim da safra Lampião iria buscar o dinheiro da venda do algodão e do gado que levara para Rio Branco (atual Arcoverde). O pobre que passou os doze meses do ano embrenhado na fazenda plantando e criando para sustentar a família é obrigado a dar tudo aos bandidos e ainda fica preso para resgate. Tem de escrever aos comerciantes seus amigos pedindo dinheiro, como muitas vezes já tem acontecido.

Quando o cangaceiro sai, vem a polícia. Acusa-o de coiteiro e lá é o homem preso de novo e será feliz se não for bater com os quartos na cadeia, e não levar uma surra, como sucede sempre e como se deu ano passado nos arredores de Alagoa de Baixo, conforme as reportagens publicadas a respeito nesta folha.

Resultado: para resolver essa grave situação, os fazendeiros prejudicados não trabalham e vivem na cidade esperando que os bois e os cabritos cresçam em abandono, para terem com que se manter.


Imagem: Blog do Crato
Durante 16 anos, de acordo com Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros, autora de "A derradeira gesta: Lampião e Nazarenos guerreando no sertão", Lampião impediu o fortalecimento de uma camada intermediária economicamente autônoma no interior nordestino. Luitgarde é a mais contundente crítica da ação dos fora da lei na região.

Ela calcula que, a partir de 1930, quando Lampião dividiu os cangaceiros em subgrupos, foram realizados cerca de 10 saques que rendiam 5 contos de réis por dia. Em 15 anos, a extorsão de pequenos e médios produtores sertanejos teria rendido a fortuna de 273 mil contos de réis, dinheiro suficiente para manter postos de pronto-socorro em cinco estados, além de uma Escola Normal e uma Profissional em cada um.

Enquanto os governos do Sudeste conseguiam subsídios para investir em produção e pesquisa, no Nordeste boa parte do dinheiro público era destinado ao combate à criminalidade. De acordo com Luitgarde, somente a Bahia recebeu 400 mil contos de réis para ação de combate ao cangaço, isso sem representar melhoria das estradas ou aparelhamento da polícia.

José Anderson Nascimento, em Cangaceiros, coiteiros e volantes, ressalta que o banditismo causou ainda uma grande queda de arrecadação nos estados nordestinos. Os cangaceiros assaltavam coletorias, incendiavam documentos, destruíam equipamentos. “Os fiscais não podiam viajar”, acrescenta. Luiz Bernardo Pericás, em seu livro Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica, ratifica a tese de que a criminalidade fez a diferença negativa no Nordeste.


De acordo com o jornalista Moacir Assunção, cujo livro Os homens que mataram o facínora: a história dos grandes inimigos de Lampião abordava os principais perseguidores do mais famoso cangaceiro, Virgulino Ferreira da Silva precisava manter a região que dominava bem longe do progresso: “Sagaz, ele percebia que o desenvolvimento do sertão conspirava contra o seu domínio.

Afinal de contas estradas, telégrafo, melhores comunicações e crescimento das vilas trariam, com certeza, mais soldados e proteção às pequenas povoações do interior. O seu tempo, como notava, passaria quando o sertão estivesse em melhores condições”.

No início da década de 1930, o caminhão passaria a ser mais usado como meio de transporte de tropas, constituindo uma poderosa vantagem para os inimigos do bandoleiro, em pleno governo Getúlio Vargas. Lampião chegaria a ameaçar alguns donos de caminhão que cediam seus veículos ao transporte de “macacos”. Menos de quatro anos depois, era a vez de entrar em cena as metralhadoras, que decretaram o fim dos cangaceiros.

Pescado no Diário de Pernambuco

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Nota de falecimento

Adeus ao professor, pesquisador e escritor José Romero



 É com pesar que informamos à comunidade 'Uerniana' e especialmente a de pesquisadores da Historiografia Nordestina o falecimento do Professor Mestre José Romero de Araújo Cardoso. O fato lamentável ocorreu no início da noite desta sexta-feira, 15 de junho de 2018.

Romero tinha 48 anos, e de acordo com informações foi vítima de complicações cardiorrespiratórias.

Nascido em 28 de setembro de 1969 em Pombal (PB), era geógrafo, especialista em Geografia e Gestão Territorial e em Organização de Arquivos, Mestre em desenvolvimento e Meio Ambiente.

Professor do Departamento de Geografia da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN) escreveu diversos livros, dentre os quais "NAS VEREDAS DA TERRA DO SOL" e "NOTAS PARA A HISTÓRIA DO NORDESTE".





Membro do Instituto Cultural do Oeste potiguar (ICOP), da Sociedade Brasileiras de Estudos do Cangaço (SBEC) e da Academia dos Escritores Mossoroenses (ASCRIM), dedicava-se a estudos sobre a região Nordeste, Cultura Regional e cangaço.

O Departamento de Geografia da  UERN externa sua mais sinceras condolências à família e amigos por esta inestimável perda.


Créditos para esta nota Prof. Fábio Ricardo Silva Bezerra - Chefe do departamento de Geografia - Campus Mossoró - UERN

quinta-feira, 14 de junho de 2018

VOCÊ SABIA?

O Cangaço foi objeto de estudos e pesquisas dos alunos da Faculdade de Direito do Recife

No Arquivo da Faculdade de Direito do Recife há um relatório documentando uma viagem de observação e pesquisa na “zona sertaneja assolada pelo banditismo” realizada por uma comissão de estudantes da Faculdade na ocasião da morte de Lampião e de seus companheiros em Angico, sertão de Sergipe, em julho de 1938.

Sob a orientação dos professores Drs. José Joaquim de Almeida e Aníbal Firmo Bruno, formou-se, na Faculdade de Direito do Recife, uma comissão de estudantes do 2º ano do curso de bacharelado, a qual, para conseguir facilidades em Alagoas, tomou o nome de Comissão Acadêmica Coronel Lucena, com a finalidade de visitar e estudar os resultados da Tragédia de Angico in loco.


A Comissão visita o Cap. João Bezerra no Pronto Socorro

Compunha-se a caravana de seis acadêmicos: Wandenkolk Wanderley (presidente)1, Elisio Caribé3, Décio de Sousa Valença4, Plínio de Sousa5, Haroldo de Mello6 e Alfredo Pessoa de Lima2.

A este incumbia apresentar ao interventor federal em Pernambuco, Agamenon Sérgio de Godoy Magalhães, o relatório da missão.

Os estudantes acompanharam de perto as análises frenológicas e antropométricas praticadas sobre as cabeças dos cangaceiros e tiveram a oportunidade de examinar as peças de fardamentos, ornamentos e pertences dos cangaceiros, além de observar o local da caatinga em que se travou a luta.

 A Comissão ouvindo a prelação sobre os dados antropológicos 
colhidos nas cabeças

Por fim, os estudantes da Faculdade de Direito do Recife entenderam que o Cangaço é resultante de um tríplice sistema de fatores: sociais, mesológicos e antropológicos.


Referências:
Comissão Acadêmica Coronel Lucena. Arquivo da Faculdade de Direito do Recife.

Pesquei no site da www.ufpe.br

Afinal, quem decapitou Maria Bonita?

Os volantes Bertoldo, Cecílio ou... 'Negro', o da reportagem abaixo?


Por Leonencio Nossa “O Estado de S. Paulo” edição de 21/10/2001



OROCÓ (PE) – Ele ajudou a cortar a cabeça de Maria Bonita com faca tão afiada quanto a própria memória. Depois de trocar tiros e punhaladas com cangaceiros na juventude, Augusto Gomes de Menezes, um policial aposentado que acaba de completar 85 anos, virou contador de histórias do cangaço e de Orocó, cidade sertaneja a 620 quilômetros do Recife, às margens do rio São Francisco.

Um lugar violento e pobre, com 10 mil moradores, onde mais de 5% das crianças morrem nos primeiros dias de vida.

 “Negro”, que era policial naquela época, garante 
que Maria Bonita já estava morta"

'Negro', como era chamado pelos colegas de polícia, participou de um capítulo decisivo da história do Sertão. O cenário é a fazenda Angicos, em Flor da Mata, atual Poço Redondo (AL), na manhã de 28 de julho de 1938. O bandido Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, escondia-se no local com seus homens. “Morreram nove cangaceiros e duas cangaceiras, Enedina e Maria Bonita”, inicia a prosa.

“Maria Bonita morreu pertinho dele, Lampião, assim como daqui ali naquela parede”.

Sentado numa cadeira de plástico, na sala da casa de estuque, onde mora com duas filhas, Negro não reivindica papel de destaque na ação que resultou na decapitação do bando de Lampião. “Quando eu cortei a cabeça dela (Maria Bonita), não estava mais viva, não”, diz. “Num combate anterior, eu gritei pra ele (Lampião): ‘Traz tua mãe, filho da peste, pra tirar raça de homem valente!’ Ele gritava pra gente também: ‘Taca espora na tua mãe, aquela égua”, exclamou.

Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, do Recife, Frederico Pernambucano de Mello afirma que Negro é personagem desconhecido pela história, talvez por ter sido soldado raso da campanha contra Lampião.


Na avaliação de Mello, o depoimento do aposentado ao “Estado” não apresenta contradições, especialmente na descrição do massacre de Angicos, e preenche lacunas, como por exemplo, a morte do cangaceiro Mané Velho, em 1937. O pesquisador planeja uma viagem a Orocó para conhecê-lo.
Hormônios – O aposentado mostra uma foto da época. “Este aqui sou eu”, aponta para um dos retratados. “Já este aqui é o cabo Terror, que tinha esse apelido porque era um terror mesmo.” Negro desafia o crepúsculo de Orocó. Entre um cigarro de palha e outro, vai construindo imagens mais vivas que o presente, feitas de duelos e sangue.

“Só de bornal nas costas eu tenho cinco anos”, fala numa alusão ao período em que ficou isolado na caatinga. “Desses cinco anos, só descansei oito dias”. Negro ri do fato de o povo de Orocó ter pensado que ele deu o primeiro tiro em Lampião. O aposentado esclarece que não foi bem assim.

“Muita gente ainda jura que ele morreu por mim, não sabe?” Negro deixa claro que só quem viveu o período é capaz de acreditar nos feitos atribuídos a Lampião.

“Numa fazenda em Simão Dias, [Sergipe] mataram dois rapazes, defloraram uma moça e cortaram a língua de uma velha”, diz. “A gente perguntou a ela o que acontece, e ela: ahhh... Não disse nada. Coitada, não tinha culpa, pois não tinha língua.”

Homens valentes e mulheres decididas não fizeram sozinhos a história do cangaço. Muitos integrantes do bando de Lampião viviam a explosão dos hormônios. Menores também foram usados na repressão aos bandidos. Negro era um deles. Nascido na cidade baiana de Curaçá, em 1916, foi recrutado ainda menino pelo governo. Não tinha completado 22 anos quando participou do combate de Angicos.

“Com 14 anos peguei na espingarda para perseguir gente ruim e só saí quando acabou o derradeiro, em 1941”, afirma, numa referência ao fim do cangaço. E era na caatinga, longe das vilas e cidades que os meninos descobriam a sexualidade. A caça aos cangaceiros levava os jovens das volantes a ficarem meses afastados de mulheres. O jeito era se virar com animais ou, se tivessem sorte, cangaceiras capturadas.

Para pegar bandido na Caatinga, só se for a pé

Policial aposentado discorda dos meios usados pela polícia e pelo Exército.

Um dos últimos sobreviventes do combate de Angicos, o policial aposentado Augusto Gomes de Menezes, o Negro, discorda das ações atuais das polícias e do Exército contra assaltantes de caminhões e traficantes de drogas em Pernambuco. Ele releva o fato de os fuzis e as metralhadoras terem substituído os punhais no sertão. “Eu não posso informar nada da polícia de hoje, mas o que eu acho é que carro com sirene não é modo de perseguir gente ruim”, afirma. “Na caatinga não dá para entrar de carro.”

Negro lembra que para caçar cangaceiros o jeito era andar a pé, sem mula ou viatura. Vida na caatinga era à base de carne, farinha e rapadura. A farinha ficava no bornal. O jeito era meter a mão no bornal. “A gente não tinha tempo de assar carne, comia crua mesmo, tirava a dente”, conta. A escassez de água levava o grupo a apelar para a rapadura. “A gente passava até sete dias sem beber”, dramatiza. “Isso escureceu a vista de todo mundo.”

O policial aposentado se casou e enviuvou duas vezes. Da primeira união, com Ocília Barbosa, em 1940, nasceram dez filhos. A mulher morreu 33 anos depois, quando os dois já estavam separados.

“Ela caiu de repente e morreu”, lembra. Quem também morreu por nada, há oito anos, foi Antônia Maria do Nascimento, com quem teve mais oito crianças. Dos 18 filhos de Negro, restaram dez. Amigos não faltam; de solidão, reclama pouco. O maior problema, segundo ele, é o salário mínimo que recebe da Previdência Social.

A casa de Negro não tem televisão nem guarda-roupas. Também faltam baús. Segredos e histórias de uma polícia violenta e criminosa estão na memória do homem que após participar das volantes foi chamado para lutar na Segunda Guerra Mundial – chegou a se apresentar em Salvador, mas a guerra acabou uma semana antes.

Negro colaborou com o Exército na repressão aos integralistas da Bahia, durante o Estado Novo de Vargas, e no auge do regime militar, nos anos 60. Sobre essa época, pouco revela. Desconfia-se que passava informações sobre a geografia da região. “Depois de sair da volante, eu trabalhei nesse negócio de pistolagem”, diz sem ir adiante. Em 1965, no governo do marechal Castelo Branco, gente do Exército andou prometendo “coisa” para o policial aposentado. (L.N.).

Partilha de bens do Cangaço gerava discórdia entre policiais

Tenente teria ficado com maior parte do tesouro do bando de Lampião

Os macacos, como os policiais eram chamados pelos cangaceiros, travaram duelo particular pela divisão do tesouro do bando de Lampião. Um dos integrantes da volante que massacrou os criminosos, em 1938, Augusto Gomes de Menezes, o Negro, revela que o chefe, o tenente João Bezerra, morto nos anos 70, ficou com a maior parte da fortuna, cerca de $1.200 contos de réis e cinco quilos de ouro. O prêmio máximo da Loteria Federal valia, à época, 200 contos de réis.

“A gente tinha ordem do presidente que quem matasse cangaceiro ia ficar com os objetos dos mortos”, diz.

Negro afirma que o tenente não repartiu a fortuna e dá a lista dos nomes dos colegas de farda que teriam sucumbido numa suposta operação travada por João Bezerra para evitar a partilha. “Zé Gomes foi morto por um pistoleiro e Mané Velho conseguiu escapulir.”

Mais de 60 anos depois da maior façanha da volante, Negro ainda tem raiva do tenente. “Eu não fui perseguido pelo João Bezerra, mas ao mesmo tempo posso dizer que fui; eu trabalhei demais”, diz resignado. “eles prometeram um negócio para mim e nunca saiu.” Ele jura que não ficou com nenhum pertence dos cangaceiros.

“Eu peguei dez contos de réis de um, mas um colega me traiu.”

O pesquisador Frederico Pernambucano de Mello desconhece as perseguições, mas confirma a revolta dos soldados e a promessa de partilha. Há 40 anos estudando o cangaço, Mello diz que Mané Velho era homem violento e que causava medo entre os colegas. Após o massacre de Angicos, Mané Velho cortou as mãos do cangaceiro Luís Pedro para ficar com os anéis de ouro.

Fotos das revistas da época mostram as cabeças dos onze cangaceiros expostas na escadaria da prefeitura de Piranhas, em Alagoas. O crânio de Lampião aparece no centro. A mórbida cena é atenuada pelos chapéus com pedaços de ouro e signos de Salomão e pelos bornais. “A estética do cangaço é uma arte nascida em circunstância de conflito; seus símbolos não são apenas estéticos, mas possui funções místicas”, avalia Mello, um dos curadores da Mostra do Redescobrimento.

“Numa comparação universal, o traje do cangaceiro só se compara ao do samurai japonês.” Nas andanças pelo sertão, Mello encontrou pessoas que afirmaram que a cena de maior impacto na vida foi ver o bando de Lampião. “Tinha-se a impressão de que o grupo, ao chegar às cidades, estava trajado como se fosse pular carnaval”, diz. “Era uma mistura de pavor e êxtase; um êxtase estético, épico e viril.” (L.N.)


Matéria transcrita pelo amigo Antônio Corrêa Sobrinho

terça-feira, 12 de junho de 2018

A partir desta quinta-feira, 14

'Cangaceirólogos' do Brasil voltam seus olhos para Poço Redondo



Há nove anos iniciamos ao lado de inúmeros apaixonados pela cultura e tradições nordestinas esta jornada chamada Cariri Cangaço, é verdade... já se vão nove anos,muitas veredas percorridas e muitas histórias para contar.

O Cariri Cangaço promove não só Conferências, Debates, Visitas Técnicas,Lançamentos de Livros, enfim, o Cariri Cangaço promove acima de tudo o ENCONTRO DAS PESSOAS e isso não tem preço.Mais uma vez nos encontramos diante de um novo desafio, a partir do sensacional Cariri Cangaço Poço Redondo 2018 consolidamos nossa presença no estado de Sergipe e pela primeira vez chagaremos ao estado da Bahia a partir da Serra Negra, município de Pedro Alexandre, para nós um tento importante, agora são 6 estados: Ceará, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia.

Um dia nos separa de mais uma grande demonstração da integração de uma Nação chamada nordeste, reuniremos a partir desta quinta-feira em Poço Redondo, Sergipe e Pedro Alexandre na Bahia, personalidades do universo do estudo e pesquisa do cangaço de todos os cantos deste país, numa autentica festa da alma nordestina.

Nos cenários importantes e significativos dos dois municípios, onde ocorreram episódios marcantes da historiografia do cangaço; como o fatídico Angico e o espetacular fogo do Maranduba, sem falar na enigmática Estrada de Conselheiro e a grandiosa Serra Negra dos Carvalho, o Cariri Cangaço busca mais uma vez nesta sua 21ª edição, fragmentos da verdade histórica na direção da consolidação de nossa memória.Tudo foi pensado para que pudéssemos proporcionar, tanto para as queridas famílias de Poço Redondo e de Pedro Alexandre, como para os convidados de todo o Brasil, uma programação rica, dinâmica e extremamente responsável, marcas de nossos empreendimentos.

A Comissão Local em Poço Redondo, com Manoel Belarmino, Rangel Alves da Costa, Maria Oliveira, Fernandes Reis, Djalma Feitosa e tantos outros estimados amigos, o apoio incondicional do querido amigo prefeito Junior Chagas e uma zelosa equipe em todas as secretarias, como também o decisivo apoio em Pedro Alexandre da tradicional Família Carvalho, nos dão a certeza de um excepcional evento no "chão sagrado de Alcino", o nosso patrono, o Caipira de Poço Redondo.

Temáticas preciosas, próprias do lugar...presenças de personalidades talentosas e que dedicam boa parte de suas vidas à pesquisa do cangaço não dão a certeza de mais um grande empreendimento que se inicia nesta próxima quinta-feira. Assim, gostaríamos de convidar a cada um de vocês para virem conosco, sem dúvidas, estaremos juntos escrevendo mais uma página importante dessa fantástica saga de nossos sertões.

Manoel Severo - Curador do Cariri Cangaço, 12 de junho de 2018


 Programação Cariri Cangaço Poço Redondo 2018
"Celebrando o chão sagrado de Alcino"

Quinta-feira, 14 de Junho de 2018

6h00min - Alvorada Festiva e Queima de Fogos

19h00min – Noite Solene de Abertura
Praça de Eventos de Poço Redondo-Sergipe

19h20min – Formação da Mesa de Autoridades
19h30min – Hino Nacional e Hino de Poço Redondo

19h40min – Apresentação do Cariri Cangaço
Por Conselheiro Raul Meneleu Mascarenhas , Aracaju-SE

19h50min - Fala das Autoridades

20h20min - Entrega de Comendas
Por Conselheiros Celsinho Rodrigues e Manoel Serafim

20h20min - Entrega de Diplomas de Honra ao Mérito
Por Pesquisadores Rodrigo Honorato e Voldi Moura Ribeiro

Homenageados
- Padre Mário César de Souza
- Zefa da Guia
- Guiomar Vito
- Manoel Dionízio da Cruz - "in memoriam"

20h50min - "Cariri Cangaço, Mais que um Evento, um Sentimento"
Por Manoel Severo Barbosa

21h15min - Lançamento de Livro
"Roteiro Histórico e Anotações do Cariri Cangaço Poço Redondo 2018"
Por Rangel Alves da Costa e Manoel Belarmino

21h30min - Apresentação de Grupos Folclóricos
Feira de Cordéis, Xilogravuras e Literatura do Cangaço

22h00min - Show em Praça Pública

Sexta-feira, 15 de Junho de 2018

8h30min - Saída para Curralinho

9h00min - Inauguração dos Marcos Históricos na Estrada Antônio Conselheiro

"Cangaceiro Canário"
"Zé de Julião"
"As Cruzes dos Soldados"
"Tonho Canela"
Rangel Alves da Costa, Poço Redondo-SE
Manoel Belarmino, Poço Redondo-SE

10h00min - Alto da Igreja de Nossa Senhora da Conceição
Conferência - "Antônio Conselheiro: O Mito"
por Carlos Alberto Silva, Natal-RN;
Wescley Rodrigues, Sousa-PB;
Oleone Coelho Fontes, Salvador-BA.



10h40min - Caminhada pelas ruas do povoado de Curralinho

11h00min - Margens do Rio São Francisco - Orla de Curralinho
Conferência - "Lampião e as Novidades na Historiografia do Cangaço em Sergipe"
Por Archimedes Marques, Aracaju-SE

12h00min - ALMOÇO

14h00min - Saída para Fazenda Maranduba

Visitações aos Marcos Históricos
- Brió e Zé Joaquim
Rangel Alves da Costa, Poço Redondo-SE; Manoel Belarmino, Poço Redondo-SE



15h00min - Recepção na Fazenda Maranduba
Grupo Teatral Raízes Nordestinas

15h30min - Inauguração dos Marcos Históricos
- Serrote da Maranduba
- Cruz dos Nazarenos


16h30min - Capela da Maranduba
Conferência - "O Fogo da Maranduba: Vitória de Lampião ou Derrota das Forças Volantes?"
Ivanildo Silveira, Natal-RN

19h00min - Lançamentos de Livros
Praça de Eventos de Poço Redondo-SE

"A Revolução Praieira no Sertão" Por Leonardo Ferraz Gominho
"As Quatro Vidas de Volta Seca" Por Robério Santos
"Lampião, o Cangaço e outros fatos no Agreste Pernambucano" Por Junior Almeida

21h00min - Shows na Praça de Eventos

Sábado, 16 de Junho de 2018

8h30min - Saída para 'Serra Negra' Pedro Alexandre - Bahia

9h30min - Solenidade de Abertura na Câmara de Vereadores de Pedro Alexandre

9h50min - Fala das Autoridades

10h00min - Entrega de Comendas por Conselheiros Ana Lúcia Souza e Luiz Ruben Bonfim

10h15min - Conferência
"A Importância de Serra Negra para a História do Cangaço"
Por Orlando de Carvalho, Serra Negra - BA

10h50min - Visitação aos pontos Históricos de Pedro Alexandre

Quartel das Volantes
- Praça João Maria de Carvalho
- Rua Velha
- Praça General Liberato de Carvalho

12h30min - ALMOÇO


 Comissão Organizadora do Cariri Cangaço em Pedro Alexandre

14h00min - Retorno para Poço Redondo

15h00min - Cortejo Festivo pela Avenida Alcino Alves Costa, Poço Redondo-SE

15h30min - Inauguração do Marco em Homenagem a Alcino Alves Costa

16h30min - Inauguração da Reforma da Praça Lampião

17h00min - Feira de Livros e Artesanato na Praça da Matriz

19h00min - Praça de Eventos de Poço Redondo - SE

19h20min - Entrega de Certificados aos Familiares de remanescentes do Cangaço
Por Conselheiros Kydelmir Dantas e Elane Marques, Antonio Vilela e Edvaldo Feitosa

Homenageados:

Família dos ex-cangaceiros Sila, Novo Tempo , Mergulhão e Marinheiro
Família dos ex-cangaceiros Adília e Delicado
Família do ex-cangaceiro Cajazeira (Zé de Julião)
Família da ex-cangaceira Enedina
Família das ex-cangaceiras Rosinha e Adelaide
Família da ex-cangaceira Áurea
Família do ex-cangaceiro Zabelê
Família do ex-cangaceiro Canário
Família do  coiteiro Manoel Félix
Família do coiteiro Adauto Félix
Família do coiteiro Messias Caduda 

19h30min - Conferência "O Legado de Alcino Alves Costa: Vida e Obra"
Por Rangel Alves da Costa, Poço Redondo-SE
Depoimentos: Juliana Pereira, Quixadá-CE

21h00min - Apresentações Artísticas

22h00min - Shows em Praça Pública

Domingo, 17 de Junho de 2018

 "Aniversário de Nascimento de Alcino Alves Costa" O Caipira de Poço Redondo

6h00min - Alvorada Festiva e Queima de Fogos



7h00min - Missa de Aniversário "78 Anos de Nascimento de Alcino Alves Costa"
Memorial Alcino Alves Costa em Poço Redondo - SE

8h30min - Café Sertanejo de Encerramento
Grupos Folclóricos
Forró Pé de Serra


 


Realização
INSTITUTO CARIRI DO BRASIL
 

Co-realização
PREFEITURA MUNICIPAL DE POÇO REDONDO
MEMORIAL ALCINO ALVES COSTA

Apoio
SBEC- SOCIEDADE BRASILEIRA DE ESTUDOS DO CANGAÇO
GRUPO DE ESTUDOS DO CANGAÇO DO CEARÁ
ICC - INSTITUTO CULTURAL DO CARIRI
GPEC-GRUPO PARAIBANO DE ESTUDOS DO CANGAÇO
INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO PAJEÚ
 

Mídia e Redes Sociais
GRUPO LAMPIÃO CANGAÇO E NORDESTE
GRUPO OFICIO DAS ESPINGARDAS
COMUNIDADE O CANGAÇO
GRUPO HISTORIOGRAFIA DO CANGAÇO
GRUPO DE ESTUDOS CANGACEIROS
O CANGAÇO NA LITERATURA
GRUPO SERTÃO NORDESTINO


Maiores informações no Blog do Cariri Cangaço

Diversão e Arte

O Xadrez do Cangaço


O Xadrez do Cangaço foi um projeto para conclusão do curso de design gráfico. Consiste na comunhão entre a história do cangaço e plataforma do xadrez, ambos unidos pelo senso estratégico, militar, do combate e do conflito rural no Brasil do século 19. Como solução final, foram produzidos dois times distintos: os cangaceiros e os militares.

 Estudos de poses em rafes


 

 Processo de montagem do tabuleiro: módulos individuais (casas), 
fileiras, união e texturização.

Personagens retratados, esquerda para direita: cangaceiros Maria Bonita (rainha) e Lampião (rei), e militares João Bezerra (rei) e Zé Lucena (rainha). João Bezerra e seu subalterno Zé Lucena foram os responsáveis pela entrada de Lampião no cangaço, movido pela vingança e revolta, assim como também foram responsáveis pelo seu fim. Emboscaram e metralharam ele e seu bando na grota de Angico, em 1938.


 
 Peças colorizadas em photoshop


 DVD multimídia com material final do projeto.

Publicação na 4ª edição da revista Cliche

Pesquei no www.behance.net

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Eventos


Oficial de volante será homenageado em Angelim,PE


Por Roberto Almeida

 O capitão José Caetano de Melo, nasceu no distrito de Papagaio em Pesqueira, PE, em julho de 1872. Sentou praça na então Força Pública de Pernambuco, hoje Polícia Militar, em 1893 e durante três décadas em que esteve na corporação foi um dos maiores nomes na luta contra banditismo e o cangaço que assolou o Nordeste no início do século passado.

José Caetano trabalhou em dezenas de cidades de Pernambuco e até fora do Estado onde travou luta com célebres bandoleiros das caatingas como o cangaceiro Antônio Silvino, considerado o primeiro rei do cangaço, Sinhô Pereira, esse chefe de Lampião, e com o próprio Virgulino Ferreira e seu bando, além de ter feito tombar nas Terras das Sete Colinas um dos envolvidos na Hecatombe de Garanhuns em 1917.

Depois de aposentado Zé Caetano foi morar em um lugar fora do foco das confusões que ficaram dos muitos combates que travou quando militar, querendo o sossego de sua aposentadoria. Angelim, a 25 quilômetros de Garanhuns, no Agreste de Pernambuco foi a cidade escolhida pelo célebre oficial volante, onde constitui família e findou seus dias em 1964.


Agora a história desse guerreiro será contada pelo pesquisador Junior Almeida, no livro Lampião, o Cangaço e Outros Fatos no Agreste Pernambucano, que terá seu primeiro lançamento em Poço Redondo, Sergipe, município o qual Lampião foi morto com parte do seu bando em 1938.

Antes disso, porém, o Capitão José Caetano será homenageado numa cerimônia militar na cidade de Angelim na próxima quinta feira 14 à 9h da manhã.

Está à frente dessa homenagem a Polícia Militar de Pernambuco, através do 9º BPM que tem no comando o tenente-coronel Paulo César Gonçalves; da Prefeitura Municipal de Angelim; do prefeito Douglas Duarte, e do Instituto Cariri Cangaço do Brasil, representado pelo seu conselheiro, escritor Junior Almeida.


Receba o nosso convite virtual




Pescado no  Blog do Roberto Almeida
e Editado pelo Lampião Aceso

domingo, 3 de junho de 2018

A vida depois do Cangaço

O encontro de Zé Sereno e o ex-soldado Adriano

Matéria da revista Realidade, transcrita por Raul Meneleu


O que faz dois homens não esqueceram suas rixas depois de três décadas do último encontro bélico entre eles? O soldado Adriano e o cangaceiro Zé Sereno, nos contam nesse histórico e eletrizante encontro ocorrido há 48 anos em um restaurante em São Paulo, promovido pela jornalista, historiadora e pesquisadora do cangaço, Cristina Mata Machado, no ano de 1968, 30 anos depois da morte de Lampião no ataque das volantes a seu esconderijo/coito da Grota do Angico. Vamos à leitura! 

Trinta anos depois do cerco de Angico, Alagoas, onde Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros foram mortos e decapitados, reencontraram-se em um restaurante de São Paulo cinco participantes do combate na Grota do Angico. Eram quatro ex-integrantes do bando do "Rei do Cangaço" e um antigo membro da "volante", tão temida quanto os cangaceiros.

Depois da madrugada de 28 de julho de 1938, eles tomaram rumos diferentes. Deixaram o sertão, construíram uma existência sem aventura, tiveram filhos, tornaram-se cidadãos comuns. Todo aquele passado voltou, num relance dramático, quando o grupo começou a ser apresentado ao antigo "volante", o ex-soldado Adriano.



Adriano pareceu receber um choque ao ouvir o nome de Zé Sereno, o ex-bandido que ele perseguiu todo esse tempo, para vingar-se, e que hoje é um pacato zelador de um colégio. Adriano Ferreira de Andrade andou caçando Zé Sereno durante muitos anos. Em verdade, entrou na polícia, ficou três anos e meio na "volante" pervagando o alto sertão, unicamente para vingar-se de Zé Sereno.

Tinha umas contas a acertar com o cangaceiro desde um dia qualquer de 1936.

  - Pensei em dar uns conselhinhos pra ele, bem devagar, pra não sofrer muito.
 

Adriano cultivava seu ódio de morte por Zé Sereno. Jamais se esqueceu da provação que o cangaceiro lhe impôs em Jeremoabo, na Bahia, quando se avistaram pela primeira vez. Adriano trabalhava na fazenda do Coronel João Dantas e, um dia, viajava com a boiada quando passou por uma fazenda. Um coiteiro, sujeito que se especializara em homiziar cangaceiros, advertiu-o de que devia mudar o caminho, parque a estrada era ruim.
 

- Fui parar noutra fazenda. Quando menos esperava. estava cercado por cinco cangaceiros. Eles disseram que eu era delator, me amarraram e me deixaram preso durante três dias. Fui até obrigado a ir numa festa com eles e me mandaram dançar. Imagine se uma pessoa que vai morrer tem vontade de dançar. O dono da fazenda. que me conhecia, falou com os cangaceiros e pediu pra não me matar. Foi assim que eu me salvei de morrer mesmo. Quando eles me soltaram. disseram assim:
 

- "Agora pode andar sossegado". Mas eu disse pra mim mesmo: "Sossegado, hein?"

Em vez de sossegar, Adriano entrou para a "volante" e fez uma jura: — Enquanto existir cangaceiro, eu não saio da polícia. Só saio quando não tiver mais nenhum vivo.

A vingança, quase


Por duas vezes a vingança de Adriano esteve por se consumar. A primeira foi no cerco do Angico, comandado pelo Tenente João Bezerra, que reunira várias "volantes para liquidar Lampião. Não se tratava de pega-lo vivo ou morto mas eliminá-lo sumariamente.

O Tenente soube par intermédio de coiteiros que Lampião e diversos cabras se encontravam na Fazenda Angico. Foi para lá, obrigou outro coiteiro. que sempre fora amigo de Lampião, a dar notícias dos cangaceiros. Apresentou um ultimato: — Ou você me põe no lugar onde se encontram os bandidos ou então vai morrer. O "coiteiro" preferiu viver.

As 5 da manhã, Lampião estava sitiado. As demais 'volantes' já haviam tomado posições diferentes cercando o refúgio do 'Governador do Sertão' quando o Tenente chegou à área que lhe cabia. O embate durou 20 minutos, talvez menos. O grupo do Tenente travara vários choques com cangaceiros, que corriam para tomar posição ou fugir ao cerco. O oficial já estava baleado. Ao chegar à barraca de Lampião, casa e trincheira ao mesmo tempo, viu muitos cangaceiros mortos. Um soldado gritou:

— Lampião morreu, Seu Tenente!

Entre a fugitivos estavam Zé Sereno, Sila sua mulher, Marinheiro e Criança. Adriano chegara um pouco tarde. Entre as onze cabeças decepadas na mesma hora, para mostrar ao povo do sertão que Lampião "mostrar ao povo que Lampião morrera mesmo", não estava a de Zé Sereno.

Na segunda vez, Adriano empreendeu sozinho a caça a Zé Sereno. Foi dois anos depois, em 1940. Ele soube em Jeremoabo que o cangaceiro estava lá. Havia festa na cidade, os cabras fatalmente iriam. Adriano preparou o fuzil, procurou um rapaz que estivera preso com ele na fazenda, convidou-o para a vingança, dava-lhe até outro fuzil. O rapaz não quis. Aquilo já passou. Adriano foi sozinho.

— Armei uma tocaia pro Zé Sereno. Só que ele não passou. Se passasse eu torava ele.


Mas Zé Sereno não foi à festa. Adriano gravou bem o bando de cangaceiros que o prenderam e humilharam. Além de Zé Sereno, do grupo, fazia parte: Diferente, Zabelê, Meia Noite, Manuel, Moreno. O chefe era Zé Sereno, por isso Adriano pensava em se vingar nele.

O antigo volante não sabia que no almoço, tantos anos depois, estariam Zé Sereno, sua mulher e mais dois ex-cangaceiros. Ele reaviva o velho ódio ao relembrar o seus passado na "volante", na qual ficou até a morte de Corisco, o Diabo Louro.

Corisco, lugar-tenente de Lampião, vingou a morte do chefe, matando toda a família do coiteiro que o denunciou. (Nota: O coiteiro que Corisco matou, não o tinha traído, veja detalhes no artigo O Coiteiro que traiu Lampião. 


Matou inclusive duas mulheres pura "vingar Maria Bonita e Enedina", também mortas e decapitadas no cerco de Angico.

Com a morte de Corisco, desaparecia o último cangaceiro. Adriano cumprira sua jura, podia deixar a "volante". Foi o que fez. Trocou a profissão de soldado pela de comerciante, ficou em Jeremoabo até 1947, negociando com gado, viajando muito. Numa dessas viagens parou em São Paulo, torno-se laminador. Exerce o oficio até hoje numa fábrica perto de casa. Antes de ser oficial, fez um aprendizado lento, como auxiliar.


Aos sessenta anos Adriano conseguiu o que queria. Criou os dois filhos. Maria, casada e mãe de cinco filhos, e João, oficial de uma costura. O rapaz tem clientes famosos: Chico Buarque de Holanda, Wilson Simonal, Edu Lobo. Adriano só não conseguiu achar Zé Sereno. Dizem que ele mora aqui em São Paulo. Mas não sei não. Se eu encontrasse ele hoje... Não quero nem saber...

Um dia de Surpresas

Também os antigos cangaceiros não sabem como será esse encontro no restaurante. Só Sila sabe, e está impaciente.

— Cadê o pessoal?

 Zé Sereno é o primeiro a chegar. Não estranha a presença da companheira. Agora vem Marinheiro, irmão de Sila, cunhado de Zé Sereno. Depois chega Criança. Os abraços são apertados, de longa saudade. Risos, lágrimas. Criança é o que estivera mais tempo afastado dos outros nestes trinta anos. Sila se dirige a ele com carinho, sorrindo:

— Como o senhor está forte, compadre!

Numa briga Criança era uma cobra

Criança mal consegue sorrir, a emoção o sufoca. Custa a responder:

— Comadre Sila também está forte e cheia de saúde.

Zé Sereno olha com admiração para Criança. Ainda o trata de "menino". Criança contempla o companheiro, cinquentão como ele, e traz o mesmo respeito de outrora, quando Zé Sereno era o seu comandante. Zé Sereno fala. Criança se envaidece, mas baixa a cabeça, modesto, ao ouvir um elogio:

— Esse menino aqui era muito valente. Sempre calmo. Numa brigada, ele ela uma cobra.

Zé Sereno é o mais desembaraçado de todos; entre os demais, preserva ar de comando, vestígio do antigo chefe de grupo do bando de Lampião. Marinheiro o respeita como cunhado e como antigo líder. Tem razões para isso.

— Zé Sereno — lembra — encarou duas vezes o Capitão Virgulino.

A conversa agora é entre amigos íntimos. Casos e histórias são repassados. Um fala, outro completa a narrativa, corrige Ou acrescenta um pormenor.

Ao grupo se junta agora um estranho, que é posto frente a frente com Zé Sereno. Adriano. O antigo volante. Os dois se olham. Zé Sereno cumprimenta o recém chegado mais por cortesia, sem saber ao certo de quem se trata. Adriano reconhece logo o antigo inimigo: sua imagem jamais abandonou a sua memória. Zé Sereno franze a testa, morde os lábios e volta rápido ao passado sem saber quem é aquele que chegou:

—Zé Sereno este é Adriano, ex-volante e seu ex-inimigo.

Zé Sereno não esqueceu as mínimas coisas de sua vida de cangaceiro. Há nove anos trabalha como zelador num colégio, mas antes disso fez muitas coisas. Trabalhou como ambulante, vendendo peixe nas nas, foi operador de fábrica, depois esteve num frigorífico. Em São Paulo. criou os filhos, todos "bem encaminhados". O mais velho, Ivo. é dono de uma imobiliária: o caçula Wilson pediu engajamento na Aeronáutica, é cabo; Gilaene trabalha numa grande empresa.

Zé Sereno nunca revelou a ninguém que pertenceu ao bando de Lampião. Antes por segurança do que por vergonha de sua outra vida. Temia que algum inimigo lá de Alagoas, onde o desejo de vindita é transmitido como herança de família, tentasse vingar algum fato do passado. Vergonha não tinha nem havia por que. Foi anistiado por decreto do Presidente Vargas, no fim da ditadura do Estado Novo; não tinha contas a prestar. Além disso, lá no Sertão, não tinha escolha:

— Naquele tempo tinha que ser cangaceiro mesmo ou entrar na volante.  tanto um como outro passava maus bocados.

Dois tios e dois primos de Zé Sereno, Antonio de Engrácia, o velho Cirilo, Zé Baiano e Antonio Honório — eram cangaceiros, sem querer, acabaram por empurra-lo para o mesmo destino.

— Houve uma briga e dois soldados foram mortos pelos meus tios. O pai de um dos soldados, de nome Lau, resolveu se vingar em mim. Disse que ia me matar. Como não sou cabrito pra morrer dependurado numa corda, resolvi sair pro mato. Me lembro bem, isso foi em 1930, eu tinha sé dezessete anos.
 

Zé Sereno foi ao encontro de Lampião. O Capitão Virgulino, como era chamado, estranhou a presença do quase garoto e foi logo perguntando:

— O que é que faz esse macaquinho aqui?

Zé Baiano, primo de Zé Sereno, respondeu:

— Na minha família só tem gente valente. Esse menino não vai negar a raça.

Lampião quis a prova, e a teve. Arrrumaram uma briga de Zé Sereno com Volta Seca, também muito jovem, os dois se digladiaram durante muito tempo. Lampião deu um basta e ditou a sorte de Zé Sereno

— Esse menino é valente mesmo. Vai longe.

Lampião, o justiceiro

Zé Sereno, Antonio Ribeiro na pia de batismo, guarda por Lampião um respeito quase religioso. Ainda se refere a como "o capitão", patente com que o "Rei do Cangaço contemplou a si mesmo.


— Ele era corajoso e ajudava os pobres. Gostava muito das coisas justas e respeitava quem merecia respeito.

Uma vez. no sertão baiano. conta Zé Sereno, o grupo de Lampião encontrou um rapazinho que queria falar com o ''Capitão". Estava desesperado, porque o dono da fazenda não queria pagar os homem direito.

— Nós trabalhamos e ele não paga. Dinheiro ele tem; o que não tem é vergonha na cara.

Lampião mandou um recado:

— Você não fala pra ninguém que nós vamos lá.

No dia seguinte — relembra Zé Sereno — nós fomos na fazenda. O Capitão, chamou o fazendeiro, mandou reunir os empregados e obrigou ele a pagar todo mundo. Quando nós íamos saindo, o Capitão falou pro fazendeiro:

— Vou sair e não quero saber que mandou um empregado desses embora; Se mandar, eu volto aqui.

Ao falar da "volante'', Zé Sereno se exalta. Como Adriano, também ele conservou seu ódio.

— Eles perseguiam muita gente inocente. Matavam em nome da lei. Chiquinho de Imbuzeiro, um volante, pegou meu tio Firmino, que era vaqueiro, amarrou as pernas e os braços, acendeu uma caieira de fogo e jogou ele dentro, vivo. Só porque ele tinha os parentes no Cangaço. O Tenente Soares também matou dois primos meus, um a bala e outro queimado.

Antes de chegar a São Paulo, Zé Sereno passou pelo município de Rio Novo Camamu na Bahia e Jordânia em Minas Gerais. Dali chegou a Martinópolis no norte de São Paulo. Em Rio Novo Camamu, trabalhou em uma fazenda administrada pelo Sargento Cardoso. que pertencera a "volante" mas também empregava ex-cangaceiros. No sertão, cangaceiro era profissão. Zé Sereno trabalhou dois anos e meio na fazenda, nunca conseguiu receber o dinheiro do salário. Teve então a última aventura de violência de sua vida.

— Eu disse pros meninos: 'guenta ai com os capangas do Sargento que eu vou falar com ele'. Os meninos deitaram no chão, cada um com sua peixeira de uns 75 centímetros e ficaram cortando a grama, rindo do que estava acontecendo lá dentro. Eu cheguei pro sargento e falei: "Vai pagar e é hoje", ele respondeu que não tinha dinheiro. "Não quero saber" eu disse. Fiquei firme. ele teve de pagar mesmo. No dia seguinte, eu já estava no meio da estrada. Sabia que vinha bala atrás.

Um filho no mato

Aos 45 anos Sila ainda é uma mulher bonita. Tipo sertanejo, concorreu em beleza com Maria Bonita e Dadá. Tem uma expressão meiga, a voz pausada, mansa. O olhar é triste. Sorri apenas quando olha para os filhos.

— Não é bonito o Wilson?

Aos catorze anos, Sila teve o primeiro contato direto com os cangaceiros. Sabia costurar qualquer tipo de roupa, deparou um dia com dois homens que lhe pediram para coser algumas peças. Eram Zé Baiano e Zé Sereno com o qual passou a viver. Nunca atirou. mas não deixou o companheiro em suas andanças. A persiga — a perseguição das "volantes" — era implacável.

— Nós não tínhamos nem água nem comida quando a persiga era muita. As vezes viajávamos três dias sem parar, sem dormir, sem comer, sem sossego, num calor horrível, pelo mato da catinga. Já imaginou ter um filho no mato? Foi o que aconteceu comigo  quando tinha quinze anos. Nós estávamos acampados perto dc Canindé em Sergipe. Nasceu um menino, que levou o nome de João. Como eu não podia ficar com ele mandei levar pra família de Galdino Leite, cunhado do Tenente Literato. Os ou-troa só nasceram quando deixei esta correria.

Sila ficou apenas dois anos no cangaço. O oficio que aprendeu em menina ajudou-a a se adaptar em São Paulo, onde sempre teve muito serviço, muita costura encomendada. Entre suas freguesas estava Dona Luisinha, tia afim de Hebe Camargo. Dona Luisinha sempre a procurava, tratava-a pelo nome de batismo, Hilda — Hilda Gomes de Souza. Sila trabalha como dama de companhia de uma senhora. Em breve, vai Maar um mês na Europa com a patroa.

Toda a família de Sila sofreu por causa do cangaço.



— Quando sai de Poço Redondo, em Sergipe, as volantes começaram a perseguir meus pais. Dai para cá nunca mais vi eles. Por minha causa era tanta a persiga naquela região  que meus irmãos resolveram entrar no bando de Lampião. Mergulhão, que morreu no cangaço; Novo Tempo, que vive em Montes Claros, Minas Gerais, e Marinheiro, que tinha apenas treze anos. Hoje estamos aqui, numa vida nova, vendo crescer nossos filhos e esperando netos.

Sila tem do cangaço uma memória amarga. Só morte, fuga, sacrifício.

— Vi coisas horríveis. Tinha uma arma pequena só pra me defender se fosse preciso, mas não houve necessidade, nem mesmo no cerco do Angico. Pra nós mulheres, nessa hora não dava pra enganar a volante e dizer que era amigo. A polícia não levava mulher. Se nos pegasse era um horror. Matava logo. Enedina morreu ao meu lado. Fugi com Criança e só depois encontrei Zé Sereno.

"É companheiro!"

Criança confessa que não foi fácil romper o cerco em Angico, com Sila e Marinheiro.


— Nunca vi tanta volante na nossa frente. Era tiro pra tudo quanto é lado. Enedina caiu morta aos meus pés. A gente Saia correndo, ouvindo tiro e dando tiro. O que salvou é que as volantes usavam a mesma roupa que nós e isso confundia. Nós passávamos perto dos "macacos" como a gente chamava os soldados, e dizia fingindo que também, era da volante: "É companheiro!"

Criança, ou Vítor Rodrigues Lima, é muito calmo, os olhos se mexem devagar, a voz também é lenta, arrastada. É casado há 22 anos com Dona Ana Caetano Lima, filha de um ex-policial na época da Coluna Prestes. Baiana de Barra. Ela é costureira profissional. O casal tem três filhos. Aduíse, já casada, Vicentina e Adenilson e agora adotou uma menina, Edna Márcia. Quando os dois se casaram, Dona Ana conhecia o passado de Criança:

— Sabia que tinha sido cangaceiro, mas isso não me assustou. Não tive tempo para saber tudo antes, porque nos conhecemos num dia e dezessete dias depois já estávamos na igreja.

Criança tem uma quitanda e casa própria. Gosta muito de São Paulo, onde o "homem que trabalha não morre de fome". Com Zé Sereno, Marinheiro e mais seis, trabalhou na fazenda Maralina dois anos e meio, foi para Martinópolis em 1942. Quatro anos depois, no dia de Natal, casou-se com Dona Ana. Foi cangaceiro como podia ter sido polícia.

— Eu nasci em Bonfim e estava em Jeremoabo onde a coisa estava danada lá pra 1930. Um dia a volante Me pegou pra Cristo, queria que eu dissesse o que não sabia. Eles me ameaçaram e prometeram voltar. Antes que voltassem, entrei no bando de Mariano. Estava com dezessete anos incompleto. Depois de sua morte, fiquei com Zé Sereno. Conheci Lampião logo que entrei no cangaço. Antes tinha medo dele. Depois, vi que era um homem que não tinha nada daquilo que falavam. Falavam que o Capitão matava crianças. Era tudo mentira. Ele não gostava de matar ninguém a toa, matava só pra se defender. Naquele tempo, quem tivesse dezesseis, dezessete ou dezoito anos tinha de se alistar no cangaço ou na volante ou então ficava à mercê dos dois.

Criança se habituou à ideia de que poderia ser morto de um tiro.

— Quando a gente está na luta, nem tem medo de nada. A gente até se esquece. A pólvora dá fogo à pessoa, que nem se lembra se vai morrer. Quando a morte está por perto, a gente tem que lutar pra não morrer.

O pequeno cangaceiro
Marinheiro era ainda mais jovem que Criança quando entrou no cangaço. Foi em 1936, ele estava com treze anos.

— Fui chamado pelo meu cunhado Zé Sereno. porque a volante queria me caçar. Depois que minha irmã Cila resolveu acompanhar o Zé, minha família passou a ser perseguida.
 
Até então, Marinheiro era vaqueiro de seu tio China, na Fazenda Recurso, em Sergipe. Voltou a ser vaqueiro depois do cerco de Angico, do qual escapou "correndo como louco no meio das volantes". Estava transtornado. Vira Maria Bonita morrer, bem de perto.

— Ela estava desarmada, nem pôde se defender.

 Como Zé Sereno, Marinheiro foi trabalhar na fazenda dirigida pelo Sargento Cardoso. De lá seguiu a mesma trilha: Palestina, Martinópolis, São Paulo. No começo, em São Paulo, a vida foi muito dura. Por dez anos, trabalhou na lavoura. Depois. passou para a indústria química, onde está até hoje. Vive satisfeito com o trabalho, com a vida.

— O cangaço era um inferno. Nem se podia dormir. Mas a gente não tinha outro jeito, não tinha encolha. Aqui a gente tem liberdade e pode dormir sossegado.

Marinheiro casou-se com a filha de um ex-volante, mora em casa própria. As filhas mais velhas, Maria José, de vinte anos, e Ivani, de dezessete, trabalham para ajudá-lo. Um dos meninos, Isaurino, está no quarto ano primário, e o outro, Wilson, de seis, saiu agora do jardim de infância.

— Se Deus quiser, eles vão ter na vida o que o pai não pôde ter. Marinheiro foi um dos raros cangaceiros que jamais sofreu um ferimento de bala. Corria no sertão que ele tinha "corpo fechado", fora encantado para ficar imune a tiro ou golpe de arma branca. Ele jura que não.

— Eu não tenho não. Mas tem muita gente que tem.

"O que passou passou"

Zé Sereno é muito católico, organiza romaria todos os anos, em outubro, a Aparecida do Norte, sua padroeira. A mulher, Sila, é espírita, médium, mas ele é devoto da santa; usa sempre, fora da camisa, uma medalha de Nossa Senhora Aparecida. É outro homem, diferente do cangaceiro Zé Sereno. Agora sabe ser tolerante. Após a apresentação ao ex-volante Adriano, fechou o rosto, contrariado, mas logo se descontraiu, abriu a guarda. Passada a surpresa, abre os braços, aceita a confraternização com Adriano, vai abraçá-lo.

— Não guardo rancor. O que passou passou.

Adriano agora sorri, ainda surpreso, incrédulo, é como se visse um fantasma — o homem que êle procurara tanto estava ali diante de seus olhos. Também é sensível à reconciliação, abraça o antigo inimigo, procura explicar as razões da mudança de atitude.

— Eu tinha raiva mesmo era do coiteiro. Ele é que foi perverso. Vocês estavam na vida de vocês mesmo. Eu compreendo. Se eu achasse aquele coiteiro, agora, ele ia ver.

Zé Sereno está mais animado. Puxa o antigo volante para o lado, oferece-lhe uma batida, Adriano aceita, os dois bebem, começam o bate-papo. O cangaceiro intercala o diálogo com as mesmas expressões. — O que passou passou. Adriano quer explorar o terreno. Faz sondagens. Arrisca:

— O que eu queria mesmo é saber por que aquele coiteiro me mandou desviar do caminho. Você que mandou, Zé?

— De jeito nenhum, Adriano. Pra dizer a verdade, nem me lembro bem de quem era o coiteiro. Só sei que você tinha fama de delatar cangaceiro, e queria nos pegar. Os coiteiros é que diziam.

— Não é verdade, Zé. Eu vivia minha vidinha até aquele dia em que você e mais quatro me amarraram e fizeram o diabo comigo. Aí eu resolvi entrar na volante e ser contra vocês.

Zé Sereno desconversa, se desculpa, tenta recompor o passado.

— Os coiteiros às vezes falavam demais e mentiam pra gente. Sabe como é que é. A gente vivia num aperto danado, não podia descuidar.

Uma invenção que pegou

O almoço demora, Adriano toma a iniciativa de pedir "mais uma". Há uma surpreendente facilidade de comunicação entre o ex-cangaceiro e o ex-volante. Os dois agora recordam casos e combates. Zé Sereno quer saber se Adriano esteve na "brigada de Maranduba".

— Não, não estive, mas estava bem perto. Soube dos estragos. Vocês perderam três cabras, né?

— Perdemos, mas a volante perdeu muito mais. Morreram mais de quinze macacos. Adriano não gostou do termo "macacos". A súbita cordialidade está sob ameaça. Indaga com ar de reprovação:

— Por que vocês costumavam chamar os soldados de macacos?

— Isto quem inventou foi o Capitão. E pegou. Pra ele toda volante era macaco. Como é que você queria que a gente chamasse uns homens que estavam sempre na nossa persiga?

Adriano agora faz sinal de que concorda. Zé Sereno ganha fôlego.

— A volante é que fabricava mais cangaceiro. Está vendo aqui? — aponta para o cunhado, Marinheiro.

— Esse menino, com treze anos, teve que entrar no cangaço pra não morrer dependurado numa árvore.

A hora é de expiação de culpas. Adriano não revela o menor desejo de defender a volante. Já dissera que entrara na polícia apenas por desejo de uma desforra pessoal. Ouve atentamente Zé Sereno, faz-lhe uma confissão.

— Sabe de uma coisa, Zé? Volante e cangaço era tudo igual. Os dois atrapalhavam a vida do povo.


O almoço começa a chegar, bem à nordestina: cabidela de galinha, peixe e camarão no coco, vatapá, sarapatel. Zé Sereno senta à cabeceira da mesa. Para um ex-comandante, um lugar de destaque. Adriano vai ao bar do restaurante em busca da batida que demora. É a última, "para abrir o apetite". Volta, o grupo come, esquecido do cangaço, das "volantes"; prefere elogiar as virtudes dessa cabidela de galinha, as qualidades do peixe, as virtudes do coco, a substância de um vatapá, um sarapatel.

Chega a hora das despedidas. O volante toma a iniciativa:

— Zé Sereno, espero agora você na minha casa.
— Não, Adriano, você é que vai lá em casa.
— Mas eu tenho prazer em receber você, Zé.

Mas Zé Sereno ainda teme uma traição.

— Lá, não. Lá eu não vou.

A custo Zé Sereno revela por que recusa o convite:

— Lá no bairro dele tem dois cabras que querem fazê a minha pele.

Adriano continua a insistir, mas o ex-cangaceiro já decidiu: não vai mesmo. Afinal, o ex-volante cede na discussão, que se prolonga por alguns minutos. Faz uma promessa:

— Está bem, Zé Sereno. Vou lá comer um sarapatel quando você matar aquele porco que está cevando no fundo do quintal.

O instinto venceu

Longe de Adriano, já de volta a casa, Zé Sereno se dispõe a revelar os nomes dos homens que querem "fazer a sua pele". Um, o ex-volante Euclides Marques, suposto matador de Maria Bonita. Ele fica mais tranquilo ao ser informado de que Euclides cumpre pena num presídio de São Paulo, por ter assassinado a esposa. E o outro nome? Zé Sereno faz certo mistério, mas acaba confessando que é mesmo o do ex-volante Adriano. Nesse instante o instinto do cangaceiro ressurgiu no pacato zelador de colégio.

— Sabe? A gente precisa ter certo cuidado. A pior coisa é traição.

FIM
 


Lampião e seus cangaceiros adoravam fotografias. No grupo estão os sobreviventes de Angico: Sila (segunda à esq.) , Zé Sereno (terceiro) , Criança (quinto) e Marinheiro (sexto).
 

FONTE DA MATÉRIA:  Revista Realidade de Janeiro de 1969 (acervo Geziel Moura) 



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