segunda-feira, 6 de abril de 2020

A mulher no cangaço

Feminismo acidental

Por Danielle Romani

Publicado originalmente na Revista Continente em 01 de Março de 2012


 Jô Oliveira

A imagem é reveladora: em plena caatinga, num intervalo entre combates com as volantes, Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, deixa-se flagrar em cena íntima. Diante da câmera do cinegrafista sírio-libanês Benjamin Abrahão, o Capitão Virgolino – de quem poucos podiam se aproximar – permite-se ser penteado pela companheira Maria Gomes de Oliveira, a Maria Déa, que viria a se tornar Maria Bonita. O ato de carinho aponta para uma mulher zelosa, ocupada do seu amado.

A felicidade conjugal da baiana Maria Déa, ou Maria do Capitão, era perceptível. Jovial, sorridente, a figura flagrada no ano de 1936 por Benjamin – no único filme que registrou o bando – mostra um momento de descontração num período de intensa perseguição aos cangaceiros. Imagem de uma sertaneja que não fazia a menor ideia da importância que teria na história nordestina.

Apesar de não poder antever esse futuro, Maria tinha consciência da importância do seu papel como mulher de Lampião. “Ela encarou as lentes da câmera com ar zombeteiro, mas imponente. Sabia que tinha poder”, diz o sociólogo Erivan Felix Vieira, autor de Coronelismo e cangaço no imaginário social.

Nas comemorações do centenário do seu nascimento – que se encerram este mês – , a história de Maria Bonita foi revista por vários pesquisadores. A fama de que era cruel – forjada no passado – foi rechaçada. Maria Déa é uma das poucas unanimidades entre os que se dedicam a estudar o tema, descrita como uma personagem determinada, corajosa e apaixonada.

“Maria Bonita tinha alguma coisa de superficial, de vaidosa. Um jeito meio de moleca, meio de meninona... Era amiga com quem simpatizava e arengueira com quem não gostava, mas fiel e ousada. Seguiu Lampião porque quis. Teve peito para desafiar a sociedade sertaneja. O Capitão, por sua vez, era apaixonadíssimo por ela e a chamava de Santinha. Os dois se amavam verdadeiramente”, descreve o historiador Frederico Pernambucano de Melo, que a considera a mais autêntica das cangaceiras.

OLHOS AZUIS 

No livro A dona de Lampião, lançado este mês, a jornalista e pesquisadora Wanessa Campos traça um perfil da mulher e do mito. E traz algumas informações recentes. A primeira delas é a possibilidade de Maria não ter nascido em 8 de março de 1911, data oficial do seu aniversário. Segundo uma certidão de batismo encontrada pelo sociólogo Voldi Ribeiro, de Paulo Afonso, na paróquia São João Batista de Jeremoabo, também na Bahia, ela teria nascido em janeiro de 1910. Mas não há consenso na veracidade dessa datação.


Maria Bonita e Lampião em foto de Benjamin Abrahão, datada de 1936. 
Foto: B.Abrahão/Aba-Film/Família Ferreira Nunes/Reprodução
do livro
Estrelas de couro - A estética do cangaço.

Outra especulação diz respeito à aparência física de Maria Déa, que teria os olhos claros. “Ela era morena clara, tinha mais ou menos 1,58m de altura, pernas grossas, busto pequeno (o que na época era valorizado), dentes perfeitos. Suas irmãs Antônia e Dorzinha, diziam que ela tinha olhos azuis. Uma geneticista que consultei me afirmou ser isso possível, visto que elas tinham uma avó holandesa. Mas achei melhor me acautelar e considerar que Maria teria olhos claros, mas não totalmente azuis”, pondera Wanessa. Maria entrou no bando aos 20 anos, em 1930, após um flerte iniciado com Virgolino, no início de 1929, no sítio Malhada de Caiçara, a 38km de Paulo Afonso. Nesse dia, segundo testemunhas, os dois conversaram muito. “Houve uma simpatia recíproca. Maria tinha então um pouco mais de 19 anos e Lampião, 30”, descreve a jornalista. Virgolino passou a visitar a fazenda, a despeito do marido de Maria, Zé de Neném, o José Miguel da Silva, com quem a sertaneja se casara aos 15 anos, e de quem já tinha se separado várias vezes. A presença do cangaceiro rapidamente atraiu a ira das volantes sobre a família, que teve de mudar-se para Alagoas. 

Foi então que a jovem escolheu seguir com Lampião. “Maria demonstrava alegria, quando largou a família. Trocou o vestido de voile estampado por uma mescla azul de mangas compridas, meias, perneiras de lona, alpercatas, lenço no pescoço, chapéu de abas largas, bornais, cintos, alforjes”, descreve Aglae Lima de Oliveira, no livro Lampião, cangaço e Nordeste.

Apesar de não ter sido considerado bonito, Lampião tinha charme e atrativos. “Aqueles homens, vestidos de forma diferente, com ouro à vista e chapéu de couro, despertavam sonhos. Avistar um deles era como estar diante de um ídolo, de um artista famoso e rico”, descreve Wanessa.

A beleza de Maria também suscita debates. O escritor Joaquim Goís, que a conheceu ainda adolescente, antes de Virgolino, descreve-a de forma impiedosa: “Uma cabocla apagada, rosto de linhas inseguras, olhar vago, corpo solto em desalinho, seios bambos”. Bem distante da musa cantada pelos cordelistas e cantadores.

Retrato questionado por cangaceiros que conviveram com ela e por suas irmãs. “Os que a conheceram dizem, inclusive, que ela não era fotogênica, que pessoalmente era muito mais bonita. Temos que levar em conta, ainda, que as mulheres do cangaço eram escolhidas pelos atrativos físicos. Lampião, certamente, encantou-se com seus atributos”, pondera a jornalista.

Nesse contexto, vale ressaltar que a alcunha “Maria Bonita” só veio a ser usada um ano antes de sua morte, e, ao que tudo indica, foi criada pela imprensa do Sudeste, para dar um tom mais atraente às manchetes de jornais. Quem conta a história do apelido é Frederico Pernambucano. “O nome não apareceu no Sertão. Foi coisa dos repórteres do Rio”, explica o historiador. O termo, por sua vez, originou-se de um romance de Afrânio Peixoto, do início do século, que foi transformado em filme homônimo, em agosto de 1937.


Sila (segunda, da esquerda para a direita) relatou, na maturidade 
(foto seguinte), sua passagem pelo bando no livro Angicos, eu sobrevivi. 
Foto: Reprodução

O fascínio da sertaneja pelo que lhe oferecia Lampião era compreensível. “Maria Déa queria apenas sair daquela vida ‘todo dia sempre igual’, deixar o marido infiel, livrar os pais da perseguição da polícia e dar um novo destino à própria vida. Afinal, o que ela tinha a perder? Amava Virgolino, sentia-se amada, ele era rico, iria ter uma vida diferente”, defende Wanessa.

Presidente do Núcleo de Estudos do Cangaço da União Brasileira de Escritores – Seção PE, a psicóloga social Rosa Bezerra defende que a decisão tomada por Maria foi a de uma mulher à frente do seu tempo. “Apesar de elas não terem consciência, o movimento dessas mulheres, de optar por seguirem os homens que amavam, gestou o feminismo no Sertão. A mulher sertaneja era treinada para ser doméstica e nada mais. No bando, uma vida nova se apresentava: elas não cozinhavam, não lavavam, eram tratadas como rainhas, uma vez que o cangaceiro era acostumado a fazer tudo. As mulheres só entravam nessa partilha se quisessem. Depois, porque puderam viver sua sexualidade abertamente, puderam usar saias no joelho (quando na época a altura dos vestidos era nas canelas), puderam usar joias, se enfeitar. Se a gente for observar as roupas que elas usavam, existem semelhanças com as que adotamos na década de 1970”, defende Rosa, que é autora do livro A representação social do cangaço.

Neta de Maria e Virgolino, a escritora e diretora da Sociedade do Cangaço, Vera Ferreira, assina o álbum Bonita Maria de Lampião, e diz que a avó não seguiu sozinha. “No caminho ao encontro de Lampião, Maria recebeu a companhia da ex-cunhada, Mariquinha, que também decidiu viver ao lado do cangaceiro Labareda. Uma interpretação em relação às sertanejas que se tornaram cangaceiras é de que elas, nativas de um ambiente árduo e sem perspectivas de mudanças, buscavam, acima de tudo, entrar num novo mundo, e com proteção.”

HÁBITOS 

Se os cangaceiros mudaram a perspectiva de vida dessas mulheres – estima-se que 40 delas se agregaram aos bandos, entre 1930 e 1936 –, elas também interferiram no cotidiano deles. Graças à presença feminina, os grupos se tornaram mais limpos, mais cordatos, menos violentos e mais vistosos nas roupas. No seu estudo, Wanessa Campos reforça essa ideia, batizando os anos entre 1930 a 1938 de período “mariadeano” (de Maria Déa).

“Quando Lampião se apaixona por Maria Bonita, a partir de 1930, quase todos os coitos se dão nas cercanias da Bahia e de Sergipe, onde havia afluentes dos rios. Eles se fixam numa região dadivosa, com águas potáveis, águas puras. Passam a tomar banho quase que diariamente, coisa que não faziam antes delas”, explica Frederico Pernambucano. O historiador destaca, também, que a convivência das cangaceiras com as mulheres e filhas dos coronéis poderosos, aliados de primeira linha dos cangaceiros, mudaram os hábitos das primeiras.

“Da convivência resultará o aprimoramento da estética presente em trajes e equipamentos, e o aburguesamento de maneiras: a máquina de costura, o gramofone, a lanterna elétrica portátil, a filmadora alemã em 35mm e a câmera fotográfica... É o tempo dos bailes perfumados, dos cheiros de Fleurs d’Amour, da casa Roger & Gallet, ou de Atkinsons, da Royal Briar”, explica Pernambucano.


Sila.
Foto: Acrisio Siqueira/Reprodução do livro
Angicos, eu sobrevivi

Ao admitir as mulheres, contrariando os ensinamentos do seu mestre, o cangaceiro Sinhô Pereira, Lampião não apenas dava novo rumo ao cangaço, como, sem querer, mantinha o costume brasileiro de acolher mulheres em campanhas militares. “Há registros dessa presença na Primeira Batalha dos Montes Guararapes, em 1648, às mulheres cabendo o amasso do pão na cozinha móvel do exército holandês. Ele retorna também à saga das vivandeiras, cantada em verso e prosa ao final do conflito da Guerra do Paraguai, quando as mulheres acompanhavam seus amados à guerra. Ou de Canudos, em 1897, quando a mulher precisou enrijecer-se de amazona, para fazer frente às jagunças”, explica Frederico.

Excelente estrategista, Lampião também se pautou na observação da Coluna Prestes, em 1926, que abrigava em sua formação centenas de mulheres, e que fez incursão pelo Nordeste. “As lições de 1926 devem ter vindo à mente do apaixonado de 1929 como um conforto providencial”, sugere o pesquisador.
As mulheres do bando não pegavam em armas nem participavam das batalhas. A elas era dado um revólver para a defesa pessoal e, no caso de Maria Bonita, havia sempre guardiões ao seu redor, inclusive um ajudante pessoal, para auxiliá-la nas suas tarefas diárias.

No livro Angico, eu sobrevivi, a sergipana Ilda Ribeiro de Souza, a Sila, mulher de Zé Sereno, o José Ribeiro Filho, lembra que o maior temor das cangaceiras era serem presas pelas volantes. “Sabíamos que seriamos submetidas a estupros e atrocidades terríveis. Eles nos chamavam de prostitutas, e sonhavam em nos pegar para atemorizar nossos companheiros.” Sila, assim como Maria, nunca participou de batalhas.

Aliás, o fato de que Maria jamais usou de violência leva muitos pesquisadores a afirmar que a sua morte foi uma arbitrariedade, pois a ela não eram imputados crimes, a não ser o de seguir o bando. Tudo indica que ela foi “massacrada” no dia 28 de julho de 1938, pelo simples fato de ser a mulher de Virgolino. 

No seu livro, Wanessa relata a crueldade com que o soldado Panta de Godoy abateu a baiana: “Quando avistei Maria Bonita, ela deu meia volta, correu, gritou: ‘Valha-me, Nossa Senhora!’. Eu atirei nas costas dela e ela caiu, fez uma corcunda e se levantou quando um soldado gritou: ‘Segura a bandida!’. O soldado Santo cortou a cabeça de Lampião e, com o mesmo facão, eu cortei a cabeça de Maria Bonita. Ela ainda estava viva”.


Na história do cangaço, consta a maestria na produção de bordados por Lampião e Dadá. A máquina de costura era indispensável para a confecção de objetos em tecido e couro
Foto: Fred Jordão/Reprodução do livro Estrelas de couro - A estética do cangaço

DADÁ 

A pernambucana Sérgia Ribeiro da Silva, a Dadá, mulher de Cristino Gomes da Silva Cleto, o alagoano Corisco, era uma exceção nesse contexto. Exímia atiradora, valente – citada por alguns cangaceiros como “mais homem que os próprios homens”–, ela se notabilizou pela coragem e pela eficiência nos combates, usando revólveres, espingardas, rifles. Conta-se que era muito respeitada por Lampião, o que provocou os ciúmes de Maria Déa e o afastamento entre Virgolino e Corisco.

Além de guerreira, foi a responsável pela confecção de bornais de bordados floridos em cores vivas, que passaram a ser usados pelos cangaceiros, em meados da década de 1930, segundo afirma Antônio Amaury Corrêa de Araújo.

Frederico Pernambucano discorda dessa informação. Atribui a criação dos adereços ao próprio Lampião, que, segundo afirma, era excelente costureiro. “Dadá não tinha ascendência sobre o bando. Lampião, sim, ditava moda. Tenho peças bordadas por ele e por ela, e posso afirmar que as de Lampião são superiores em originalidade e qualidade”, diz.

Coautora do livro Bonita Maria de Lampião, professora de Artes e Design da Universidade Federal de Sergipe, e desenvolvendo uma tese de doutorado sobre a estética do cangaço, Germana Gonçalves de Araújo foge da polêmica em torno dessas autorias. “É bobagem questionar isso. Devemos desabilitar as definições ‘verdadeiras’ acerca de quem deu início à aparência exuberante dos cangaceiros. Na minha opinião, não há importância ou polêmica quanto a isso. Ou seja, Dadá pode ter sido responsável por parte da estética cangaceira, mas foi Lampião quem aceitou e definiu os construtos de uma identidade”, afirma.


Para Frederico Pernambucano de Mello, Lampião era exímio costureiro, superando outros “artífices” do bando. Foto: B.Abrahão/Aba-Film/Família Ferreira Nunes/Reprodução do livro Estrelas de couro - A estética do cangaço.

Ela ressalta que, depois da entrada da mulher, a imagem do cangaceiro passou a ser menos agressiva. “O traje uniformizado recebeu novos e inusitados elementos. Flores, estrelas, joias e moedas são alguns dos ornamentos que, com base na geometria regular, foram organizados por princípios de composição e se tornaram arranjos com ritmo e simetria.”

RAPTOS 

Apesar de apontados como cordiais companheiros, houve episódios que desabonam o discurso de que os cangaceiros eram gentis com as mulheres. Dois exemplos chocantes são os de Dadá e de Sila. As duas foram raptadas e desvirginadas aos 13 anos de idade, quando ainda brincavam com bonecas e temiam a presença daqueles homens imponentes, vestidos com roupas extravagantes.

No livro Gente de Lampião, Dadá e Corisco, Antônio Amaury Corrêa de Araújo transcreve o depoimento oral de Dadá sobre como ocorreu seu rapto. Primo distante, Corisco a conheceu na fazenda onde morava, e desde que a avistou preveniu o pai da menina que não a casasse com ninguém, porque ela seria sua. Tempos depois, inflamado por uma fofoca de que ele teria sido denunciado pela família de Dadá e de que a menina fora desflorada por um vizinho, Corisco foi à casa do pai de Sérgia, e comunicou: “Vim buscar a menina”.


Apesar de ter sido raptada e estuprada por Corisco, Dadá declarou posterior amor e afeto ao cangaceiro. Foto: B.Abrahão/Reprodução do livro Gente de Lampião - Dadá e Corisco.

Segundo Dadá, no mesmo dia, Corisco a violentou. Ela sofreu hemorragia, ficou traumatizada física e mentalmente. Criou aversão pelo seu raptor, e passou a evitá-lo a todo custo. Com o tempo, diante do homem aparentemente arrependido pela brutalidade, ela perdoou o que ele lhe havia feito.

Já idosa, ao relatar o primeiro encontro com Corisco, Dadá usou as seguintes palavras: “Eu, a Sussuaruna (como era chamada por um primo), não podia adivinhar que aquele estranho loiro, forte, alto, ombros largos, cabelos longos, olhos azulados, era Corisco, que iria ter influência decisiva na minha vida. Em companhia dele percorri, mais tarde, quatro estados, enfrentei lutas terríveis, tive momentos de grande alegria e outros de dor”.

A declaração de Sérgia para o pesquisador Antônio Amaury, que a recebeu em casa para depoimentos durante cinco meses, leva o estudioso a concluir que Dadá era verdadeiramente apaixonada pelo companheiro, o qual defendeu até a morte. “O amor deles era intenso. Um amor trágico, mas tão forte quanto o de Maria e Virgolino”, compara Amaury.

Na opinião de Rosa Bezerra, a relação entre Dadá e Corisco, que teria tudo para ser infeliz, acabou sendo contornada. “Corisco a ensinou a ler e escrever, e a tratava como uma deusa. Dadá conseguiu perdoá-lo e ver o grande homem que ele representava”, aponta a psicóloga.


As cangaceiras só usavam armas para defesa, ficando fora das batalhas.
Foto: B.Abrahão/Aba-Film/Família Ferreira Nunes/Reprodução do livro
Estrelas
de couro - A estética do cangaço.

Raptada da mesma forma por Zé Sereno, Sila também relembra o dia em que foi levada à força de casa. Poupada nas primeiras semanas, posteriormente foi violentada. O episódio é narrado por ela, no livroAngico, eu sobrevivi. “Comemos à vontade, pois a comida era farta e a pinga, saborosa. Naquela noite, conheci o sexo. Experiência ruim. Lua de mel tão amarga quanto as amarguras sofridas por mim nos dois anos seguintes do cangaço”, narra Sila, que aprendeu a gostar de Zé Sereno, com quem viveu até a morte dele, em São Paulo, na década de 1960.

Os cangaceiros não admitiam mulheres sem homem nos bandos. Caso ficassem viúvas, não poderiam permanecer no grupo, salvo se contraíssem matrimônio com outro integrante. “Se fossem rejeitadas, ou seja, se ninguém mais as quisesse, muito provavelmente seriam mortas. A informação difundida entre pesquisadores é de havia o temor quanto à possibilidade de que, ao voltarem à vida em sociedade, elas fossem pressionadas a contar onde ficavam os esconderijos do grupo”, afirma o historiador Jovenildo Pinheiro de Souza, que tem no prelo o livro Sertão sangrento: luta e resistência.

Outra conduta imperdoável era a traição feminina, punida com morte, sem apelação. “Homem podia, mulher não”, contou Dadá. Cristina, mulher do cangaceiro Português, teve um caso, fugiu e tentou refugiar-se no grupo de Corisco. Não aceita, quando era levada de volta à família, foi emboscada e assassinada pelos companheiros do ex-marido. Final ainda mais trágico coube à Lídia, mulher de Zé Baiano, outro integrante do bando de Lampião, morta a pauladas pelo companheiro por tê-lo traído com outro homem.

Jovenildo ressalta, entretanto, que a traição era algo imperdoável em qualquer esfera social. “Fora do cangaço, ela também era punida sem piedade. Além disso, a mulher comum era maltratada e não tinha qualquer relevância. Com os cangaceiros, pelo menos, elas eram respeitadas, tinham deferências. Era uma sutileza, mas, no contexto da época, mostra a capacidade desses homens de respeitarem suas mulheres.”

Pescado no sítio da Revista

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Das 3 maiores batalhas

No fogo do Serrote Preto

Por Valdir José Nogueira de Moura.

Corria o ano de 1925, em fins do mês de março daquele ano, a cidade de Vila Bela, no sertão de Pernambuco, presenciava um intenso movimento de forças volantes, sob o comando do coronel João Nunes, que havia chegado aquela cidade do Pajeú no dia 23, com numerosa força policial deste Estado, incluindo mais dois Estados, da Paraíba e Alagoas, num total de 200 homens, cujo objetivo era proceder combate ostensivo ao terror impetrado na zona sertaneja pelo banditismo.


 João Nunes

No dia seguinte da sua chegada, o coronel João Nunes distribuiu essa numerosa força em vários contingentes que seguiram no encalço de Lampião, sob o comando dos capitães José Caetano, José Lucena, tenentes, Muniz de Andrade, Pedro Malta, Hygino e Clementino.

O coronel João Nunes ficou com os tenentes João Gomes e o belmontense Sinhozinho Alencar, este como seu secretário e aquele por se achar doente.

Durante a sua estadia em Vila Bela, foi o coronel João Nunes muito visitado no Paço do Conselho Municipal, onde ficou hospedado. A notícia da sua chegada ao Pajeú deixou a princípio a população local muito esperançosa, e muito confiante nas medidas que haviam sido tomadas pelos governos dos três Estados nordestinos, ora coligados para o extermínio do bando de Lampião. Entretanto, a chegada da força policial à Vila Bela gerou comentários nas rodas de amigos, nas calçadas, nas budegas, na feira...diziam alguns sertanejos, com suas astutas experiências que não seria ainda daquela vez que Lampião, seria pilhado.

 Lampião com a visão além do alcance.

Cangaceiro dos mais terríveis que já deu o sertão de Pernambuco, o “dito-cujo” era de uma audácia sem nome. Prova-o a última façanha ocorrida em fevereiro de 1925 no “Serrote Preto”.

Sabendo da aproximação de uma força policial composta de 75 homens sob o comando de três bravos oficiais, 2 da Paraíba, e 1 de Pernambuco, tenentes Francisco Oliveira, Joaquim Adauto e João Gomes; em vez de fugirem, os cangaceiros os esperou, apesar da inferioridade numérica de seus 24 comparsas. E os esperou com uma sorte tal, que além de deixar o campo juncado de cadáveres inimigos, ainda conseguiu fazer o devido saque.

Assim é que, dias depois, de rota batida para o Pajeú passou o cangaceiro por Vila Bela conduzindo grande quantidade de armas e munições, apanhadas no conflito do “Serrote Preto”.





 Fotos de achados, fruto de uma pesquisa de campo  em Serrote Preto
do escritor Lourinaldo Telles

Como nas coisas mais sérias da vida, há sempre um lado cômico e engraçado até, dizem que Lampião prometeu não mais matar soldados, mas sim, somente oficiais, isto por ter encontrado no bolso do oficial morto 2 contos de réis, enquanto que, no bolso de um soldado, apenas 300 réis.

Lampião tinha no seu cangaço dois irmãos: Levino e Antônio Ferreira, e que nos encontros com a polícia formavam sempre três grupos, com retaguardas etc. No combate do “Serrote Preto”, foi a retaguarda de Levino que desbaratou a polícia, causando-lhe 12 mortes, inclusive dois oficiais e vários feridos.

O Jornal nos Municípios’ (Alagoas) Ed. 188.38

Eu vi os pedaços de Lampião

Transcrição de Clerisvaldo B. Chagas


 
7 de agosto de 1938. Santana/Piranhas (AL) “Três ou quatro dias após a remessa das cabeças para Maceió, chegava a Santana uma caravana da Faculdade de Direito do Recife, composta dos acadêmicos Alfredo Pessoa de Lima2, Haroldo Melo6, Décio de Souza Valença4, Elísio Caribé3, Plínio de Souza5 e Wandnkolk Wanderley 1, todos em excursão e desejando ir diretamente a Angicos.

Coincidiu que estavam chegando notícias de que os abutres (urubus) viviam sobrevoando o local do combate, sinal de que os corpos não haviam sido bem sepultados.

O Tenente-coronel Lucena resolveu então formar uma caravana com os acadêmicos e me disse que eu teria de acompanhá-los, menos como sargento do Batalhão, do que como correspondente do Jornal de Alagoas. Partimos, então para Angicos no dia 7 de agosto.


"Com a chegada dos acadêmicos do Recife, tivemos de ir com eles a Angicos, local do combate, lá sepultar os corpos deixados à toa. Encontramo-los já meio ressecados, amarelecidos, a pele agarrada no osso como se a carne houvesse fugido. Já não tinham pelos e era difícil a identificação.

À vista daqueles, em plena caatinga, o acadêmico Alfredo Pessoa fez um discurso capaz de comover até mocós e preás que andassem por ali. E só então tive uma pequena ideia da atrocidade da decapitação. Um corpo sem cabeça, onze corpos sem cabeça e o discurso do Pessoa: que coisa de arrepiar cabelos! (FRUTA DE PALMA, 168).’

Na realidade os corpos não haviam sido sepultados. Ficaram ali mesmo no leito do córrego, cheio de pedregulho. Amontoado os onze, a tropa havia simplesmente feito um montão de pedras por cima. Além de ser difícil cavar sepultura ali, a gana de Bezerra e de seus comandados pelos troféus dos cangaceiros lhes havia retirado todo o restinho de senso humano que possuíssem.




Ficamos ali quase um meio dia, a cavar uma vala comum no mesmo local, pois não havia condições de conduzir aqueles pedaços de gente para parte alguma fora do córrego.

O célebre coiteiro Pedro Cândido era integrante da Caravana e, além de nos descrever as principais fases do combate que ele engendrara, mostrou-nos o corpo de Lampião, da mesma forma identificado por três ou quatro pessoas que integravam a caravana e que também conheciam detalhes físicos do Rei do Cangaço.


 Pedro de "Cândjo" está de traje escuro

Se não foi a única (e não foi), foi uma das poucas vezes em que observei emoções no rosto do Tenente-coronel Lucena: ao ouvir o discurso do acadêmico, encarando os pedaços de Lampião.

Pescado em Blog do autor

segunda-feira, 30 de março de 2020

Um senhor documentário

Alpercata de rabicho - O xaxado em Pernambuco (1999)


 David Gomes Jurubeba

Trabalho pioneiro nos sertões, o documentário Alpercata de Rabicho de Petrônio Lorena é um documento essencial da cultura no Pajeú.

Depoimentos históricos de David Jurubeba, "Senhor da Beleza", Marilourdes Ferraz e Frederico Pernambucano de Mello.



Pescado no canal de Camilo Melo

domingo, 29 de março de 2020

Diário de Pernambuco, 10 de maio de 1959

"A vida do Rei do Cangaço esteve em minhas mãos

Por Valdir José Nogueira de Moura

Assim declarou o belmontense “Sinhozinho Alencar” durante entrevista que o mesmo concedeu ao “Diário de Pernambuco”, e que foi publicada na edição de número 00106, que circulou no Domingo, 10 de maio de 1959, pág. 31.

Nascido no dia 13 de março de 1892 na Fazenda Várzea, em São José do Belmonte, o Coronel José Alencar de Carvalho Pires, tratado carinhosamente pelos seus parentes e amigos como “Sinhozinho”, oficial reformado da Polícia Militar de Pernambuco, durante dez anos, percorreu o interior nordestino, enfrentando o cangaceiro Lampião, em combates violentos, arrojados e memoráveis.

Seu depoimento espontâneo, inédito e corajoso, é de um valor extraordinário para quantos se debruçam nos estudos do polêmico tema “Cangaço”.

COM O DEDO NO GATILHO:

A volante comandada pelo sargento Alencar corta rios e caatingas, no rastro do bandoleiro.

Lampião, segue para a Vila de Nazaré, distrito de Floresta. Vai assistir o casamento de uma prima.
Terminada a cerimônia, ao ter início o baile de homenagem aos noivos, começa o tiroteio. Os cabras avistaram os soldados.

Lampião oculta-se numa casa da vila, e dali, com gritos insultuosos, dirige à reação. Portas e janelas se fecham e o fuzilar das balas é impressionante.

O sargento Alencar, avança debaixo do fogo, indo esconder-se no oitão do casebre. Desafia Virgulino a lutar em campo aberto. Escuta então quando o bandido grita:

- Vou pular pro meio da rua prá brigar, almofadinha, pras moças ver!



 Volante de Sinhõzinho Alencar em São José do Belmonte, PE 1927
Acervo do autor

O sargento Alencar aguarda, com o dedo no gatilho. Vê Lampião como um gato, pular a janela e cair em frente da casa. Exatamente atrás, o olho na pontaria visa as costas de Virgulino. Vai atirar. Puxa o gatilho, e a arma nega fogo. O cartucho falhou.

Lampião sente o perigo. Pula novamente para dentro da casa. E logo mais, abrindo violentamente a porta dos fundos, precipita-se de rua afora. Corre a toda velocidade. O cano do fuzil voltado para a retaguarda.

Atirando sem parar.

O sargento Alencar faz nova pontaria. A mira, nas costas do bandoleiro. Puxa o gatilho mais uma vez. E a arma falha novamente.


- A vida de Lampião esteve nas minhas mãos. Mas o destino não quis que eu o matasse.”

 Coronel José Alencar de Carvalho Pires "Sinhozinho Alencar".
Herói do combate de Belmonte contra o bando de Lampião, Tiburtino Inácio e outros cangaceiros, na época em que chefiava volantes pelo interior de Pernambuco.


Adendo Lampião Aceso
O episódio descrito acima se passa em 1º de agosto de 1923.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Pra baixar, ler ou imprimir

Estácio de Lima - Volta Seca e o estranho Mundo dos Cangaceiros

Estácio de Lima, o antigo catedrático de Medicina Legal da Universidade da Bahia escreveu, na metade do século passado, uma obra fundamental para compreensão do cangaço. 



Aqui aparecem duas breves narrativas do autor que, por si mesmas, comprovam que estamos diante de um cientista e ao mesmo tempo de um escritor com notável domínio da sua arte de contar uma boa história. Uma mulher e um menino são os personagens principais dos dois textos escolhidos. Personagens não muito comuns entre os integrantes dos bandos guerreiros. Org., introdução e notas de Cid Seixas. 

Coleção E-Poket.

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Um presente que ganhamos do Cumpadi Joel Reis (Via Cognitiva) e dividimos com vocês

A pisada em Alagoas

Cangaço lampiônico em Pão de Açúcar 

 Por Hélio Fialho

Particularmente, no município de Pão de Açúcar, os cangaceiros escondiam-se em fazendas da chamada Região de Cima, principalmente em coitos localizados em Novo Gosto, Emendadas, Bom Nome, Beleza e outras, cujos proprietários eram fiéis protetores  e, por esta razão, os coitos eram bastante frequentados pelos grupos de Lampião e Corisco.

Em razão da permanência desses cangaceiros no município de Pão de Açúcar muito fatos ocorreram, sendo alguns destes registrados em livros publicados e outros apenas narrados por pessoas idosas que presenciaram ou ouviram de pessoas da família, as quais já faleceram.

A nível de Pão de Açúcar, os livros “Histórias e Efemérides” e “Um lugar no Passado”, dos respectivos autores pão-de-açucarenses  Aldemar de Mendonça e Gervásio Francisco dos Santos, são obras que narram um pouco da história da passagem dos cangaceiros por Pão de Açúcar, sendo a invasão de Lampião ao Povoado Meirus a que mais se destaca, principalmente pelo teor de violência praticada pelos cangaceiros quando abateu 102 cabeças de gado, incendiou fazendas e também uma unidade de beneficiamento de algodão.


Aspecto de Pão de Açúcar em 1910
In História de Alagaoas



Segundo narra o livro Um Lugar no Passado,  o que provocou a ira de Lampião foi uma carta escrita pelos senhores Mário Soares Vieira, José Alves Feitosa (Juca) e Manoel Campos, em que em um de seus trechos tinha o teor seguinte:

“Se quisesse tirar raça de homem valente, mandasse a mãe dele aqui para Pão de Açúcar”.

Esta célebre carta foi escrita em resposta a duas cartas enviadas por Lampião aos senhores Luiz Gonzaga e Luiz Henrique, nas quais o Rei do Cangaço exigia a importância de quatro contos de réis.

Outro fato bastante relevante foi o nascimento de Silvio Bulhões, um dos filhos dos cangaceiros Corisco e Dadá, que nasceu em uma fazenda localizada no Sítio Novo Gosto e, em seguida, foi dado para criar ao Padre Bulhões, naquela época, pároco de Santana do Ipanema. Este filho do casal de cangaceiros é considerado hoje um dos maiores historiadores do cangaço no estado de Alagoas.

Fotografias tiradas naquela época, hoje mostram o incêndio praticado por Lampião à casa de beneficiar algodão, localizada no Povoado Meirus e pertencente ao senhor João Pereira de Mello, conhecido como “ Seu Pereirinha”, no dia 15 de janeiro de 1927.





Histórias narradas por alguns moradores dos povoados Meirus e Rua Nova, a exemplo da Mestra Dadá, confirmam a passagem por estas localidades do grupo de cangaceiros comandados por Corisco, inclusive com práticas de sequestro de um morador (fato ocorrido no Povoado Meirus), espancamento de uma mulher por ter cortado os cabelos (fato ocorrido na estrada que liga Rua Nova a Boqueirão) e a extorsão ao fazendeiro Lucilo de Carvalho Mello, cuja fazenda ficava localizada no Povoado Rua Nova.

Outros registros históricos em livros, jornais, etc. confirmam a passagem dos cangaceiros Lampião e Corisco pelas fazendas Emendadas, Novo Gosto, Bom Nome e Beleza, pois nestas propriedades eles contavam com a proteção de seus proprietários, os quais eram considerados fiéis coiteiros.

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quinta-feira, 26 de março de 2020

1921

Os primórdios da Saga de Lampião 

Por Rostand Medeiros


AINDA VIVE O HOME M QUE EM 1921 SEPULTOU O PAI DE LAMPIÃO
Diário de Pernambuco , 29 de março de 1973, Terceiro Caderno, Página 3.
Pesquisa – Tadeu Rocha / Fotos José Valdério
Diário de Pernambuco, 29 de março de 1973, 
Terceiro Caderno, Página 3.
Num velho casarão alpendrado de uma fazenda sertaneja, em plena caatinga pernambucana do Município de Itaíba reside o ancião Maurício Vieira de Barros, que em maio de 1921 sepultou o pai de Lampião, morto por uma força volante da Policia alagoana. Nos seus bem vividos e muito sofridos 86 anos de idade, ele viu e também fez muita coisa, por esse Nordeste das caatingas e das secas, dos beatos e dos cangaceiros, dos soldados de verdade e dos coronéis da extinta Guarda Nacional.
O Sr. Maurício Vieira de Barros nasceu em 2 de abril de 1886, Na casa dos seus 30 anos, foi Subcomissário de Polícia no Estado de Alagoas e, na dos 40, chegou ao posto de Sargento na Polícia Militar de Pernambuco. Depois, respondeu a dois júris por excesso de autoridade e, desde 1955, está vivendo uma velhice descansada no Sítio dos Meios, em companhia de sua filha Dona Jocelina Cavalcanti de Barros Freire.

Se não fossem as ouças, que já estão fracas, o velho Maurício não aparentaria os seus quase 87 anos, pois ainda caminha com passo firme e guarda boa lembrança dos fatos de sua mocidade e maturidade. 

Ele é, agora, a derradeira testemunha viva do início de uma tragédia sertaneja: a transformação do cangaceiro manso Virgulino Ferreira em bandido profissional que convulsionaria os sertões nordestinos durante 17 anos.
Casa do Sítio do Meio em 1973.
UM ATOR NO PROSCÊNIO

A primeira indicação do Sr. Maurício Vieira de Barros como a autoridade policial que sepultou o pai de Lampião nos foi dada, há mais de 20 anos, pelo Major Optato Gueiros, no segundo capítulo do seu livro sobre Virgulino Ferreira. 

O autor das “Memórias de um oficial ex-comandante de forças volantes” ouviu o relato da morte de José Ferreira da boca do próprio Virgulino, nos começos da década de 1920, quando Lampião ainda era um simples cabra de Sinhô Pereira. 

Optato Gueiros também informa que, anos mais tarde, Lampião poupou a vida de Maurício, no povoado de Mariana, em gratidão pelo sepultamento de seu pai.
Maurício Vieira de Barros sendo entrevistado pelo professor e escritor Tadeu Rocha e acompanhado de Bruno Rocha.
Nos meados de dezembro do ano passado, após concluirmos que não foi feito, absolutamente, o registro dos óbitos de Sinhô Fragoso e do pai de Lampião (mortos na primeira “diligência” da volante do Tenente Lucena), julgamos necessário ouvir o Sr. Maurício Vieira de Barros, que nos constou ainda estar vivo e residir para os lados das cidades de Águas Belas ou Buíque. Somente o antigo policial que sepultou os dois cadáveres poderia revelar-nos a data precisa da morte de José Ferreira.

NO RASTO DA TESTEMUNHA

Após consultarmos inúmeras pessoas sobre o paradeiro do ancião Maurício de Barros, afinal soubemos do Sr. Audálio Tenório de Albuquerque que esse seu compadre estava morando na fazenda Sítio dos Meios, no Município de Itaíba. Rumando para Águas Belas, entramos em contato com os nossos parentes do clã dos Cardosos, entre os quais fomos encontrar o jovem veterinário Ricardo Gueiros Cavalcanti, neto do velho Maurício, por parte de pai.
Notícia do ataque dos cangaceiro ao lugar Pariconha em 1921, 
hoje município alagoano distante 354 km de Maceió.
Na tarde quente do dia 17 de janeiro, em companhia do veterinário Ricardo Gueiros Cavalcanti, do fotógrafo José Valdério e do jovem estudante Bruno Rocha, deixamos a cidade de Águas Belas pela rodovia PE—300, na direção de Itaíba. Após cruzarmos o rio Ipanema e o riacho Craíbas. Pegamos uma estrada vicinal, por onde atingimos, dificilmente, o Sítio dos Meios, a uns 2.5 km de Águas Belas, a outros tantos de Itaíba e a 9 da cidade alagoana de Ouro Branco.

Fomos encontrar o velho Maurício no alpendre do casarão da fazenda de sua filha, jovialmente vestido de blusão de mangas compridas c calçado com sandálias havaianas. A presença do seu neto Ricardo e a delicadeza de sua filha Dona Jocelina permitiram-nos conversar longamente com o Sr. Maurício Vieira de Barros. O fotógrafo Jose Valdério documentou a nossa visita e o estudante Bruno Rocha gravou a nossa conversa.
Lampião nos primeiros anos.
SUBCOMISSÁRIO SEPULTA DOIS MORTOS

O Sr. Maurício Vieira de Barros  já exercia o cargo de Subcomissário de Polícia da cidade de Mata Grande, em maio de 1921, quando o Bacharel Augusto Galvão, Secretário do Interior e Justiça de Alagoas na segunda administração do Governador Fernandes Lima, enviou ao sertão uma força volante da Polícia, sob o comando do 2º Tenente José Lucena de Albuquerque Maranhão, a fim de dar combate ao banditismo. Antes que essa força chegasse ao sertão, os cangaceiros saquearam o povoado de Pariconha, na tarde de 9 de maio. Logo que a volante do Tenente Lucena atingiu seu destino, cuidou de prender os participantes desse saque, entre os quais estavam os irmãos Fragoso e os irmãos Ferreira, residentes no lugar Engenho Velho. A volante cercou a casa dos Fragoso e do tiroteio resultou a morte de José Ferreira e Sinhô Fragoso, ficando baleado Zeca Fragoso e saindo ileso Luís Fragoso.

Avisado em Mata Grande das mortes ocorridas no Engenho Velho, o Subcomissário Maurício de Barros dirigiu-se a esse lugar e fez transportar, em redes, os dois cadáveres para a povoação de Santa Cruz do Deserto, em cujo o cemitério os sepultou. O fato de José Ferreira e Sinhô Fragoso terem sidos deixados mortos por uma “diligência” da Polícia Militar de Alagoas levou o Subcomissário de Mata Grande a enterrá-los no cemitério mais próximo.
DATA DA MORTE DO PAI DE LAMPIÃO

Na breve história de 17 anos, qual foi a do cangaceiro Virgulino Ferreira (que se fez bandido profissional em 1921 e foi eliminado em 1938), existem erros de datas de mais de um ano, como no caso da morte de seu pai pela volante do Tenente Lucena. Tem-se escrito que esse fato aconteceu em abril de 1920, o que não corresponde, em absoluto, à verdade histórica.

Ao que apuramos no Arquivo Público e Instituto Histórico de Alagoas, 2º Tenente José Lucena de Albuquerque Maranhão foi nomeado Comissário de Polícia da cidade alagoana de Viçosa em 10 de abril de 1920, assumiu o exercício do cargo logo no dia 15 e permaneceu nessa comissão até princípios de maio do ano seguinte. Ele ainda assinou ofício na qualidade de Comissário de Viçosa em 28 de abril de 1921. No dia 4 de maio esteve no Palácio do Governo, em Maceió. E no dia 10 desse mês, deixava Palmeira dos índios “com destino ao sertão”, estando “acompanhado de um contingente de 24 praças”, conforme registrou o seminário palmeirense O Índio, de 15 de maio, em seu número 16, página 3.
Nota sobre a volante do Tenente Lucena no seminário palmeirense O Índio, de 15 de maio, em seu número 16, página 3.
Viajando a pé, a volante do Tenente Lucena só alcançou o sertão ocidental de Alagoas uma semana mais tarde. Por isso mesmo, sua “diligência” no Engenho Velho somente pode ter ocorrido nos começos da segunda quinzena de maio de 1921. O Sr. Mauricio de Barros não se recorda mais da data do sepultamento dos mortos pela “diligência” no Engenho Velho. Lembra-se, porém, que foi numa quinta-feira. Ora, a primeira quinta-feira da segunda quinzena de maio de 1921 caiu no dia 19, o que permitiu ao Correio da Tarde, de Maceió, publicar no fim desse mês uma carta de Mata Grande, sobre os acontecimentos do Engenho Velho. A esse tempo, os estafetas do Correi levavam, a cavalo, três dias entre as cidades de Mata Grande e Quebrangulo, de onde as malas postais seguiam de trem para Maceió.  
Detalhe da carta enviada de Mata Grande e publicada no final do mês de maio de 1921 pelo jornal Correio da Tarde, de Maceió, sobre os acontecimentos do Engenho Velho.   
EPISÓDIO MUITO CONTROVERTIDO

Sempre foram muito controvertidas as circunstâncias da morte do pai de Lampião. Na primeira entrevista que concedeu a um jornal (o recifense Diário da Noite, de 3 de agosto de 1953), o Sr. João Ferreira, irmão de Virgulino, declarou o seguinte sobre a morte de seu pai: “Findo o tiroteio, seguido pelo abandono do local pela tropa, eu o fui encontrar sem vida, caído sobre um cesto, tendo às mãos uma espiga de milho, que estava debulhando, ao morrer”.

Por seu turno, parentes e amigos do Cel. José Lucena de Albuquerque Maranhão costumam dizer que o velho José Ferreira resistiu à Polícia, atirando de dentro da casa dos Fragoso. Parece-nos que há engano em ambas as versões, pois o Sr. Maurício Vieira de Barros nos disse que encontrou o cadáver do pai de Lampião no terreiro da casa dos Fragosos.
O Tenente José Lucena de Albuquerque Maranhão, 
comandante da desastrada volante que matou o pai de Lampião.
Este depoimento se harmoniza com o informe que nos deu o Sargento reformado Euclides Calu, residente em Mata Grande, e a história que contava o velho Manoel Paulo dos Santos, Inspetor de Quarteirão no Engenho Velho, ao tempo da morte do pai de Lampião. História que nos foi transmitida por seu filho Gabriel Paulo dos Santos e pelo magistrado alagoano Dr. Dumouriez Monteiro Amaral.
O informe do velho Calu e a história contada pelo velho Manoel Paulo referem que José Ferreira foi morto durante o tiroteio do Engenho Velho, quando ia tirar leite em um curral. De fato, o cerco da casa da casa dos Fragosos foi feito ao amanhecer do dia 19 de maio de 1921. E o tiroteio que se seguiu e vitimou José Ferreira ocorreu “antes do café da manhã de um dia muito chuvoso”, como declarou, textualmente, João Ferreira, na citada entrevista a um jornal recifense. E não há dúvida que o Inspetor de Quarteirão Manoel Paulo dos Santos foi a testemunha mais isenta de paixões no episódio da morte do pai de Lampião.

Pescado no essencial Tok de História

Amaury em Documentário

As mulheres no cangaço

Através de depoimentos do grande decano da pesquisa, mestre Antonio Amaury; da ex-cangaceira "Sila", o universo feminino das mulheres dos grupos de Lampião e Corisco, são cantadas e decantadas neste documentário de 50 minutos, produzido há 20 anos pela Rede Sesc Senac de Televisão de São Paulo.

Apresentação de Rejane Marques e Eldo Mendes.
Produção: Branca Regina Rosa.
Realização: We Do Comunicações.
Direção de Dimas Oliveira Junior e Luis Felipe Harazim




Pescado no canal de Dimas Oliveira Jr.


quarta-feira, 25 de março de 2020

Tu ja tem em sua coleção?

De Junior Almeida, Lampião, o Cangaço e outros fatos do Agreste Pernambucano

Por Roberto Almeida

Com poucos mais de 40 anos de idade, Júnior Almeida lançou seu primeiro livro, “A Volta do Rei do Cangaço”, uma ficção com um toque de Quentin Tarantino, pois mostra Virgulino vivo nos tempos atuais, como vítima de uma espécie de maldição que o torna imortal e não o deixa envelhecer.

“Tarantino mudou a história matando Hitler num atentado, por que não posso ressuscitar Lampião? ”, explicou Júnior, ao comentar o romance, que teve boa acolhida na região e em outras partes do país, principalmente pelos intelectuais apaixonados pelo inesgotável tema do cangaço. Agora, o escritor volta ao tema, mas desta vez deixa de lado a ficção e nos apresenta um trabalho de uma minuciosa pesquisa de campo, livros, jornais antigos e documentários, mostrando como o cangaço esteve presente em algumas cidades do Agreste Meridional, na primeira metade do Século XX.



O livro registra as ligações de coiteiros, volantes e cangaceiros com o Agreste Meridional, nas cidades de Águas Belas, Garanhuns, Angelim, Capoeiras, São Bento do Una, Caetés, Canhotinho e Paranatama, e a passagem de Lampião e outros bandoleiros por algumas delas. Na sua pesquisa, Júnior descobriu fatos relacionados com os “fora da lei do Sertão”, nunca antes revelados e o que são agora, neste livro que representa uma contribuição para a História do Cangaço, do Agreste, de Pernambuco e do Brasil.

Um dos personagens que chama a atenção, no trabalho, é José Caetano, um dos maiores nomes no combate ao cangaço, militar que lutou contra as forças de Antônio Silvino, Sinhô Pereira e Lampião. O destemido volante morou em várias cidades de Pernambuco e terminou a vida em Angelim, a pouco mais de 20 km de Garanhuns, onde está sepultado. Dona Branca, de Paranatama, que viveu até os 103 anos de idade, foi entrevistada mais de uma vez pelo autor do livro e passou informações bem interessantes da passagem de Lampião por Paranatama, alguns anos antes do bandido ser assassinado pelas forças volantes, em 1938.

Capitão Virgulino Ferreira passou uma das maiores humilhações de sua vida no ataque a Paranatama, que à época se chamava Serrinha: sua companheira, Maria Bonita, levou um tiro na bunda e os cangaceiros tiveram de fugir pressas, levando a mulher nos braços. Lampião saiu cheio de ódio a Serrinha e prometeu voltar um dia para incendiar a vila e matar todo mundo que morava no lugar. Tudo isso e muito mais, num estilo seco, objetivo, você vai encontrar em “Lampião, o Cangaço e Outros Fatos no Agreste Pernambucano”. Vale a pena a leitura pelas informações inéditas, por esse novo olhar no fenômeno do cangaço e pela identificação do autor com a realidade de uma parte do Agreste de Pernambuco.

Júnior se interessou por História e está fazendo História, com seus livros que falam de bandoleiros conhecidos, que retratam a luta das forças do governo contra os pistoleiros da primeira metade do século passado, com violências praticadas pelos dois lados e o povo pobre sofrendo, vítima dos cangaceiros, dos coronéis do Agreste e Sertão, do próprio Governo, que ontem, como hoje, tende a servir aos poderosos.


O livro tem 319 pág. Valor: R$ 45,00 com frete incluso 
Como adquirir? Entre em contato com o autor pelo whatsapp (87) 99824-4582 ou pelo email euclidesalmeidaa@hotmail.com

A danação em Nazaré do Pico

O casamento de Licor (prima de Lampião)

Transcrição da Obra do Padre Fredercio Bezerra Maciel, por Raul Meneleu.

No arruado de Nazaré nos idos de 1923, era o cochicho entre os moradores, esse casamento e a vinda de Lampião para assistir esse evento. Contava Nazaré com uma capela, vinte e sete edificações ( casas, casebres e quartos) alinhadas em uma única rua, sendo doze do lado do riacho Ipueiras, dez no riacho Carqueja e cinco ao sul, de frente para a capela. Era assunto palpitante e preocupante.


 Nazaré do Pico em 1967

Como em todo lugar que junte gente, tinha ali naquela pequena povoação o ponto certo pra se ouvir as "urtimas" e esse é claro, era a barbearia de Manuel Flor que segundo o Padre Frederico, era o local onde "aviciados em conversas de toda versidade" reuniam-se para "sortar as premeras do dia".

- "Tem muita volante esgravetando esse sertão brabo na persiga de Lampião!"

E citavam seus comandantes, homens de têmpera de aço, a perseguir o famoso cangaceiro e seu bando.

- "Mas Lampião diz que gosta que persigam ele e açula pra briga de vera. O cabra é da peste!"

- "Nunca mais fartou volante aqui. É uma atrás da outra."

- "Inté se espera uma no casamento de Licô."

- E Lampião num vem mermo pru casamento da prima!"

- "Danega! Já tou vendo: vai ser bala quiném os trinta!"

Rapazes e meninotes não davam palpite. Apenas ouviam, aperuando.

Depois do banho de cuia no fim das lidas do dia, cheirando a folha de mato novo, ao mesmo tempo mesmo tempo que preparavam a ceia de coalhada adoçada com rapadura raspada, pão de milho e café, três cabrochas bisbilhoteiras tagarelavam:

— "Visse o vestido de Licô como está dolero?
— "Os apreparo da festa são grande mesmo!"
— "Pie só: sabe quem vem pra festa?
— "Lampião!"
— "Ele e os menino. Tem cada um da pontinha!..."
— "Eu acho Juriti e Antônio Rosa os mais bonito".
— "Dextá, o mais bonito é Lampião!"
— "Ah! isso é", — confirmaram as outras duas a uma só voz.
— "Açoita os mais todos!"
 
O noivo Enoque e Maria Licor
Acervo Lampião Aceso

Sá Leopoldina, cabocla escura e franzina, a cabeça enrolada com um regô, dona do único hotel local, resumido a uma latada, coberta de mato, em frente do chalezinho de taipa onde vivia. Servindo almoço a dois fregueses de passagem para o vilarejo de Santa Maria, comentava se rindo toda:

— "Lampião tem o coração muito bom para as fraqueza dos pobre. Inté ajuda com dinheiro e de-comer. Toda a vez que aparece pruraqui, compra muito pano nas loja de seu Zé Tiburtino, de seu Quinca e de seu Gominho e dá a pobreza. As irmãs de Mané Neto recebero bastante vestido".

Enquanto eram fritados os mandins que pescara num poço do riacho Ipueiras e aguardava os aficionados do jogo de que era aviciado, Raimundo do Pico, sentado num tamborete na calçada de sua casa e muito ancho na sua sanfona de oito baixos, tocava "Mulher Rendeira", dizendo para os passantes: — "Gosto dela! Foi Lampião que fez os verso e a musga se alembrando de sua avó, a Tia Jacosa, que criou ele e era rendeira. ."
O casamento de Licor foi o momento culminante do rompimento definitivo, que aos poucos vinha se processando, em desde 1919, através de tranças e atritos frequentes, entre os Ferreiras e nazarenos.

Maria Licor Ferreira de Lima, simplesmente Licor, era prima legítima de Lampião, cujas mães eram irmãs. Sabedor de seu casamento, chegou Lampião no dia marcado para sua realização, a 31 de julho de 1923. Ao sol ardente e faiscante do meio dia, penetraram, inesperadamente, na povoação, dezesseis cangaceiros na ativa, sob o comando de seu garboso e elegante chefe, Lampião.

Além de seus irmãos Antônio e Livino, tinha Meia Noite, Juriti I e seu irmão Batista, Manuel Tubiba, Chá Preto, o corneteiro Firmo, Caixa de Fósforo, Piloto... Antes, arredadas duas léguas para trás, deixara estrategicamente Lampião, perto da serra do Pico, na fazenda Enforcado, de seu amigo Pedro de Engrácia, um grupo tático de reserva: oito cangaceiros sob o mando de um cabra macho, Antônio Rosa.

Entre as armas, portavam os cangaceiros rifles papo amarelo e cruzeta, exceção de Lampião e de Chá Preto que conduziam mosquetões. Traziam, também, alguns chicotes de fio cortado da linha telegráfica.



O primo famoso em foto de 1922
Foto de Genésio Gonçalves

Postadas sentinelas em cada esquina da rua, espalharam-se os demais pelas casas, indo logo beber truaca e zinebra "Gato" nas vendas de João Ferreira e Enoque de Sá Menezes. Surpreendida, assustou-se a população. De logo correram boatos: que Lampião tinha vindo para ajustar contas... tirar forra de questões passadas... aquelas Peias eram para dar pisas...

O povo todo sabia que não era coisa do gosto de Lampião aquele casamento de sua prima com Enoque, um sujeito calabar, suspeito de informante à polícia dos movimentos do seu grupo. O destacamento policial local, de seis praças sob o comando do cabo João Cabecinha, cujo quartel era a casa-da-rua cedida por seu dono, Gomes, havia sido retirado pelo delegado de Floresta.

Certo de mesmo, a propalada vinda de forças volantes para aqueles dias.

Cerca das duas da tarde. Pela estrada, vindo de Vila Bela, chegara, com seis horas de viagem, o vigário da freguezia, Padre José Kehrle, ou somente Padre José, mais por simplificação do falar do que pela dificuldade da pronúncia do sobrenome alemão.

Montava a cavalo, guarda-pó branco revestindo-lhe a batina preta e grande chapéu de palha na cabeça e ensombrando-lhe o rosto vermelhão, onde pespegadas as duas bolas azuis de seus olhos buliçosos e vivos.

Lampião tocando na sanfona de Raimundo do Pico, debaixo da latada da feira no meio da rua. Os cabras por todos os lados. Com a chegada de seu vigário, os cangaceiros, nos seus alegramentos, soltaram foguetes, salvando seu estimado amigo e conselheiro. Com os papocos, o animal espantou-se muito, quase Derrubando o reverendo cavaleiro no chão.

Um dos cabras, porém, dominou a montada, segurando fortemente as rédeas abaixo da brida. Os outros se aproximaram, e pedindo a bença beijavam a mão do padre, que os abençoava e retribuía os cumprimentos, satisfeito e agradecido.

Costumava o bom vigário, nas desobrigas mensais em Nazaré, hospedar-se na casa de Antônio Gomes Jurubeba, ou simplesmente Gomes. Mas, este, logo da chegada dos cangaceiros, fugiu para sua fazenda, deixando a casa trancada. Ficou assim desarvorado o vigário, no meio da rua, por um momento sem a ter para onde ir. Não teve dúvidas João Ferreira, acolhendo-o, imediatamente e de muito gosto, em sua residência. atitude insólita de Gomes, taxada de "ignorância", porque não tirava as coisas por menos, e censurada até por amigos e parentes como "afrontosa" ao padre, acirrou ainda mais os ânimos desconfiados, arredios, prevenidos e recalcados de toda 'aquela gente. Aceso assim o estopim de uma explosão preparada e prestes a rebentar em consequências irreversíveis.

Confiado no apoio e no respeito que o vigário imprimia com sua presença na terra, Alfredo Ferreira de Lima, irmão da noiva, sentindo o ambiente tenso reinante, fora ter com Lampião, fazendo-lhe ver que não ficava bem, num dia de festa como aquele, a sua vinda com o bando assim solto, acintosamente armado, e, às bicadas em desde que chegaram.

Meio agastado, Lampião olhou-o a fito com olhar desafiador e o dedo nas fuças do primo:

— "Deixe de bestage! Eu sóstou você acolhendo bandido de gravata, bandido encapado..." Referia-se a certas autoridades que faziam muito pior do que os cangaceiros.

E, ainda puando: — "Nós também somos gente, podemos participar da festa". Nesse momento oportuno apareceu um homem de muito preceito e respeitado, Cândido Ferreira que, auxiliado pelo Padre José, pôs termo àquela discussão e convidou Lampião a ir à sua casa.

Na residência de Cândido começou Lampião a puxar o fole. Os cabras dançando com as moças... muita alegria... Cândido, de sobrosso, reclamou essa dança a modo de não se comprometer depois com as autoridades embuanceiras. Lampião, compreensivo e sem dizer nada, guardou a sanfona. Porém, seu irmão Livino, enticado com a atitude do tio estragando aquela gostosa e singela brincadeira, ficou com a goitana e disgranido ameaçou: — "Pois aqui ninguém dança mais, senão tudo se acabal..." Deu de mão de sua mausa e levantando-a para o alto, sortiu a sala com gritos repetidos: "... se acaba Nazaré!" E mais: — "Não tou esquecido da cicatriz no ombro! Quero todos os rifles de todo mundo agora, aqui, senão boto fogo nas propriedades".

Foi um tendéu danado... Padre José conseguiu a custo amoitar o ânimo exaltado dele, sob promessa de que não haveria dança. E aproveitou o ensejo para mandar os noivos se aprontarem logo.

Esperava Livino pelo tocador, Luís, de Andréza, gente de Zé Saturnino, contratado para a festa dos noivos. — "Quero dar uma pisa nele e rasgar a harmônica". Mas o tocador, sabendo em caminho, da presença de Lampião, no casamento, deixara-se, escabreado, ficar na fazenda Zé Dias, de Chico Flor, onde estava homiziado Luís Soriano, e dali mesmo se esgueirou, sumindo-se, que não era besta, não.

O cortejo

Às quatro horas da tarde, saiu o préstito nupcial para a igrejola, com muitos convidados fazendo par, braço dado, exibindo-a lordeza matuta e ladeados de alguns cangaceiros, respeitosos, chapéus na mão.

Nessa ocasião apareceu Davi Jurubeba com estranha idéia, que depois se deu o nome, mais estranho ainda, de "conspiração". Vendo os nazarenos perdidos, Davi teve a idéia de convidar Manuel e Euclides Flor para escolherem tantos nazarenos quantos dessem para cada um se encarregar de matar um cangaceiro. Os cangaceiros não estavam juntos, mas espalhados pelas casas de Cândido Ferreira, D. Joaninha Ferreira, João Ferreira, Anízia da Ipueira... o que facilitaria o "serviço". Essa "opinião de doído" teve imediata repulsa de João Flor: — ".É, vocês faz isto e eu vou morrer?» Significando que não dava certo e temia por sua sorte.


 Davi Jurubeba em 1978
Acervo Lampião Aceso

A noiva, como sempre, objeto máximo das atenções. Vestida de branco vuale suíço, comprido véu descendo da grinalda — um primor de capela com arranjos de flores de laranjeira de seda branca e botões de goma —, enfim toda linda, distribuindo sorrisos, uma graça de brejeirice... Na passagem do acompanhamento por frente da casa de Cândido, os que estavam sentados em cadeiras na calçada se levantaram, mas Antônio Ferreira ostensivamente virou as costas. Além de não simpatizar com o noivo, suspeito de falso e denunciante, curtia ele paixão arrecolhida, de penar e de tristeza, pela noiva, com quem, outrora, antes do cangaço, apiançava casar-se.

Após o casamento, a fim de desanuviar o ambiente, combinaram os parentes da noiva botar mesa, na casa dela própria, onde os cangaceiros, de apetite aceso, se serviriam juntamente com o Padre José. Durante a janta, tendo Lampião sentado a seu lado, o Padre José, que lhe tinha amizade e muito o admirava, persistente aconselhava: — "Deixe essa vida. Você não é para estar nesse bando. Você .não é ovelha negra, desgarrada..." — "Num tem jeito, não — respondia Lampião. Num quiseram assim? Mataram meus pais. Desmantelaram minha família e negócios. Querem me matar também. Vou até o fim... Ë o meu destino!"

A contrafesta

Terminada a janta, que foi lauta e de tudo o que o prato sertanejo dispõe, aos insistentes pedidos de seus tios Cândido e João, e de sua tia D. Joaninha, foi Lampião, com os seus, fazer arranchação na fazenda do velho preto Antônio do Campo Alegre, obra de menos de quinhentas braças do povoado, do outro lado do Ipueiras.

O bando passou a noite na casa de Sebastião Eusébio onde Livino, ferido, se refugiara, em 1919. À luz amarelenta e vacilante de cuviteiros fumacentos, uns Jogando bozó, outros dançando com cabrochas vindas da rua, outros versejando cantigas no improviso, a sanfona sempre roncando...

Aproveitando a ida de Lampião com seu grupo para Campo Alegre, saíram os nazarenos, nas caladas da noite, para se armarem. Entre eles, Davi Jurubeba, Manuel e Euclides Flor, Gomes Jurubeba, Manuel e Pedro Gomes... aos quais se juntaram Mais outros, ao amanhecer, num total de quinze. Intencionavam cedinho ocupar a 'dia e esperar pelos cangaceiros, mas acharam que eles, os nazarenos, eram "poucos".

Aos acordes animantes da "Mulher Rendeira", foi repisada com ovações a quadra sarcástica:

 "Os cabras de Nazaré
        Chorava que faz horror
             Com pena das muié
                 Que Lampião carregou".

O vilarejo, porém, afogado dentro duma noite desalegrada e de cruviana... Nenhum pé de pessoa na rua. Apenas o grugunhado de gente na casa da noiva, sob a luz dos pavios espevitados das placas.

O Carreiro de Santiago luminando lá na escurideza do infinito...
Cantos de galos tristes rasgando pela madrugada o silêncio da natureza...
No oco de um pau seco, caburés, frientos e arrepiados, piando, agoirentos... De vez em vez, e isto até o quebrar da barra, em revezo contínuo, chegava a Nazaré um cangaceiro.
Encontrando-se com dois deles, perguntou Cândido:

— "Que é que vocês estão fazendo aqui?"
— "A gente — repostou um deles — está jogando lá, e passa uma pessoa e diz: — "Vamos pra rua?" e a gente vai..." Mentira, a modo de ocultar que estavam boscando, inteirando se havia dança.

A Missa

Quando foi o rasgar do dia seguinte, 1° de agosto, chegaram mais dois cangaceiros na rua e foram logo se justificando diante de Cândido, atento a seus movimentos:

— "Passemos a noite inteira sonhando uma voz que mandava a gente ir pra Missa. A gente, também, é cristão, ninguém é cão, não".

A pouco e pouco os outros foram chegando até se completarem os dezesseis.

Da calçada da capela, adonde desarriaram o equipamento, ensarilhando as armas, em cujo entrançamento das bocas se dependuravam as cartucheiras, deitados no chão os bornais refertos e cobertos pelos chapéus de couro, os dezesseis assistiam, com toda a fé e respeito, à Missa, que foi cedo, às 7,00; porque seu vigário estava vexado, tinha de ir logo simbora. A pequena igreja estava dura de gente atochada. Gente do arruado e de toda a redondeza. O canto do Oficio da Imaculada Conceição se arrastava, dominantemente por vozes femininas, quiném querendo não chegar ao fim, numa latomia dolente característica da sofrida alma sertaneja:

— "Dai pressa Senhora
           Em favor do mundo,
                Pois vos reconhece
                     Como defensora".

Para sua breve prática, o padre tomou por tema o profeta Jeremias (17,8): — "O coração do homem é dissimulado e perverso". Depois da Missa, os cangaceiros retomaram o equipamento. maioria saiu para fazer restos de compras. — "Tudo correu bem, na santa paz, graças a Deus!" — dizia o vigário, a satisfação sublinhada nas faces cheias com um sorriso.

O segundo fogo

Lampião, com alguns, apenas aguardava, antes de partir, que o padre terminasse uns batizados a fim de se despedir e receber a bença dele. Nesse quando, coincidiu ser Lampião informado pelas sentinelas e ouvir, ao mesmo tempo, de alguém se aproximando:

— "Vigie! Que cumandita de gente, lá longe, na estrada! Será que vêm pra feira?"

Lampião, de detrás da casa de João Ferreira, mão em pala sobre a testa, buscando acomodar a vista, exclamou alteando as sobrancelhas.
— "É macaco!"

A disgraceira estava feita!

Nunca houve tanta gritaiage e correria do povo, que se esbandaiava por todos os lados, doidamente... Lampião, agindo com rapidez e eficiência, sempre se revelando autêntico comandante inteligente e seguro, imprimindo assim confiança aos seus, imediatamente apitou chamando seu pessoal.

Antônio Ferreira, com outros, estava na barbearia cortando o cabelo e fazendo a barba. Ajuntou, em menos de um sufragante, os homens diante de Lampião, que, calmo e firme, tracejou, com técnica, o cinturão defensivo, estabelecendo os pontos de operação fora da rua e dentro das casas e muros, distribuindo os piquetes de defesa, instruindo para não se perder munição à toa, sem objetivo.

Depois, pegou de um cavalo pombo-seleiro, ali amarrado no pé da quixabeira plantada mesmo defronte da casa de João Ferreira e pertencente a um amigo, e enviou nele um positivo, que num átimo avoou o corpo em cima da sela, para ver Antônio Rosa, no Enforcado, com instrução de dar uma retaguarda, para o que deveria tomar o caminho do outro lado, descendo pela margem direita do riacho da Ema.

De suas posições de combate dentro dos muros das casas, os cangaceiros furavam buracos enviezados na parede, formando assim "torneiras", onde enfiavam o cano dos rifles para atirar.

Livino Ferreira, esse esconjurado do medo, entrincheirou-se na casa de D. Anízia, mesmo em cima do fogo! A volante de mais de trinta praças, sob o comando do sargento Bento Senhorzinho Alencar, vinda em diligência da zona de Pajeú, fora notada logo ao irromper, em fila indiana, a sudoeste.

Ao topar com o riacho Carqueja, parte da soldadesca foi logo se entrincheirando ao longo das ribanceiras barrentas; outra parte vadeiou o leito seco e arenoso do mesmo riacho tomando posição de ataque pelo lado sul, agachando-se por trás da amontoeira de pedra do pequeno serrote que mirava de soslaio; a entrada da rua.

O cabo Manuel Amaro, nutrido na peba* e no gosto de contar pabulagem, temeramente se achegou mais para frente dessa linha de ataque, amalocando-se atrás de uma grande pedra arredondada.

* Cachaça. A denominada "peba" ou "rinchona" é fabricada no sertão e nos agrestes por processo sintético: mistura de álcool, açúcar preto e água. O açúcar preto era o de torrão, de forma, de bangué, o chamado pão-de-açúcar. Em sua substituição. usava-se o açúcar sumeno, mascavo ou demerara, cristalizado e de cor amarelo-queimado. O preparo dessa cachaça se faz em tachos. É, portanto, urna aguardente ordinária, ou cachaça. Um de seus sinônimos: "lasca-peito". Na zona canavieira da "Mata" ou do "Sul", a aguardente é extraída da cana-de,' açúcar ou do mel de cabaú, melaço ou mel de furo (escorrido do açúcar preto por, um furo no depósito). destilada em alambique (raro o de barro). A primeira destilada chama-se aguardente "de cabeça" a média, aguardente "boa"; a terceira, restante, fraca de teor alcoólico, mais água que álcool, denomina-se "caxixi".

Por volta das nove horas, rompeu o tiroteio e prosseguiu, cerrado e violento, trancando o mundo... Bonito que fazia gosto a fuzilaria seca no estrondo dos mosquetões e os estampidos fofos dos rifles! Vez por outra parava. Parecia que tinha acabado. As mu-lheres, dentro de casa suspiravam de alívio. Mas, era só um arejo de momentos, nas mudanças dos combatentes para melhores posições. Em seguida, recomeçava intenso, danasco, em rajadas tatalantes, debaixo de palavrões e insultos, o sangue cada vez mais esquentando.



Partido do meio da rua, ouvia-se o toque guerreiro da "Mulher Rendeira". Era Lampião, nos intervalos em que dirigia a luta e atirava também, com sua sanfona animando os cabras. Os nazarenos, conluiados por João Flor, aproveitaram a oportunidade para se levantarem em armas contra Lampião. Lá para as dez horas, articularam-se com a polícia, entrincheirando-se por trás da cerca de pau-a-pique do cercado da fazenda Campo Alegre, do lado de cá do Ipueiras.

Eram uns quinze homens armados, entre os quais João Flor com seus filhos Euclides e Manuel, os dois irmãos João Domingos e Luís Soriano, Pedro Gomes que portava pistola máuser FN, dois rapazes de fora e Gomes Jurubeba com o pessoal que trouxera para isto de sua fazenda Jenipapo.

Davi Jurubeba, que viera de mãos abanando, armou-se com o fuzil de Zé Preto, o único "aspençada" da volante. Este, chega ia que ia, todo entusiasmado, se protegendo por trás de uma quixabeira.

Divulgando-o, Lampião avisou a Chá Preto que combatia de dentro da barbearia. Atirando de ponto, com seguridade, Chá Preto gritou: — "Lá vai macaco da gota!" Atingindo-o no braço e avoando-o contrafeito de dor, fora de combate. O cangaceiro largou desadorada risadona de mangação. A polícia e os paisanos estabeleceram verdadeiro bolsão ou semi-cerco ao tomarem posições no flanco sul e parte do Poente e em toda a linha do flanco nascente.

Na Igreja

Desde o início do tumulto provocado pelo alarme, o padre José mandou fechar imediatamente as portas da capela pelo sacristão, Zé Rufino, o qual em seguida escapuliu, fugindo montado num cavalo em osso, em disparada louca, numa toada só, até esbarrar, cinco léguas adiante, na fazenda São Miguel.

O padre amparou-se na parede entre as duas portas da entrada. E mandou as pessoas, que ficaram dentro, deitarem-se no chão da nave. Passou o vigário o tempo todo suando, nervoso e pálido, com o rosário na mão, rezando por suas ovelhas desavindas. Poucos balaços alcançaram as paredes externas da capela. Quase meio-dia. A luta, com bem quatro horas de duração, continuava indecisa.

Lampião falou com Cândido para abrir um buraco na parede da casa dele a modo de estabelecer uma passagem para a casa de D. Joaninha. Cândido discordou e, aperriado com a insistência do sobrinho, foi tirar o padre da capela, assim mesmo, debaixo de todo o tiroteio, e levá-lo para a casa de João Ferreira.

A retirada
Ali, na casa do irmão, com muito pedido e imploração, obteve Cândido, com a ajuda do padre, que o opinioso Lampião se decidisse retirar da localidade, principalmente em atenção a seu vigário, que não podia ficar prejudicado diante de compromissos inadiáveis em Vila Bela.

Antes, porém, de se afastar, gritou Lampião para os adversários:

— "Cambada de macaco! Covardes! Vou sair, não por covardia, mas atendendo ao pedido de meus dois grandes amigos, Padre José e tio Cândido Ferreira".

Enquanto, a um sinal seu — a pistola descarregada ininterruptamente — ia se reunindo o grupo em frente à casa de João Ferreira, coincidiu, de novo, as sentinelas lhe avisarem o irrompimento de outra força, que avançava pelo flanco norte, podendo dar ataque de retaguarda e fechar o grupo em perigosíssmo cerco.
Era uma volante de mais de trinta praças, sob o comando do sargento João Francisco, de alcunha João Fininho, vinda das bandas de Vila Bela e, como a primeira, a chamado do próprio Enoque, o noivo, em carta secreta ao então ao comandante da polícia, ten.-cel. João Nunes.

Lampião compreendendo as posições inimigas, agora envolventes, com superioridade numérica e bélica, e temendo o esgotarnento de sua munição, ordenou impetuosa esfuziada, modo de, atarantando o inimigo e aproveitando o fumaceiro, - a retirada ficar facilitada e garantida.

"Cumpadre, foi tanto papoco no oco do mundo que -nunca vi! — o panavueiro cobriu tudo! Maldei que tinha chega o fim do mundo!..."

Pelo caminho, à tangente, lançado do oitão direito da capela, os cabras, todos ilesos, se retiraram, aos xingos e pilhérias, agachando-se e rebolando, correndo e sempre atirando.

Cruzaram o valado seco do riacho, subiram pela margem direita, mais adiante se encontrando com o grupo de Antônio Rosa, vindo à toda para o contra-ataque. Mas era tarde. Empalhara-se ele com a aproximação da segunda volante, que o aturdira, ficando sem saber que rumo tomar. E embrenharam-se todos os cangaceiros na caatinga...

A danação

Terminado o tiroteio de mais de três horas, os atacantes, desconfiados de alguma das indecifráveis ciladas do astucioso Lampião, demoraram bem meia hora para penetrar na rua, assim mesmo cautelosamente. Mas, quando entraram, deu de súbito uma doideira dos diabos naquela soldadesca, que começaram a lançar, assim na doida, disparate de balas nas paredes, portas, janelas, por toda parte, chegando mesmo os projéteis a pegar em quadros de santos pendurados nas paredes do interior de algumas casas momentaneamente abertas.

Desencadeou-se, então, novo pânico. Correrias, gritos, choros, portas e janelas aos baques se fechando outra vez. Incontinenti reclamou o Padre José ao sargento Senhorzinho aquela desordem, o qual, de pronto, ordenou que cessasse. Com mais pouco chegava a volante do sargento Fininho. A rua esborrava de soldado.

Dada por Fininho uma batida por perto, no derredor da povoação, para certeza do afastamento dos cangaceiros. Depois vieram os interrogatórios sobre quem ou não coitei-ro, as acusações fáceis, ameaças de toda sorte, ou sejam de pisa, de capar, de sangrar, de saquear, de incendiar... O terror! A vítima principal naturalmente tinha de ser a família Ferreira ali domiciliada.

Quem pôde, fugiu, no seu animal ou a pé, ou se escondeu. A situação agora pior do que a anterior, pois sob o guante da autoridade, despótica, absoluta, oficial.

E, lá vai o pobre do Padre José, pressuroso e amargurado, suando e exausto — anjo providencial da paz — defender de novo o povo e restituir-lhe a tranqüilidade.

Conformado, senão convencido, com as muitas explicações e justificativas do vigário, o sargento Senhorzinho saiu batendo naquelas portas ainda fechadas de medo:

— "Podem abrirem. Tá todo mundo agarantido".

De todo o jeito, porém, aquele povo, pobre e sacrificado, humilde e abandonado, teve de pagar, e muito caro, uma dívida estranha: almoço com bebida e tudo mais para tanto sol-dado!...

Guarnecendo o vilarejo contra uma daquelas possíveis e perigosas surtidas de Lampião, a soldadesca, refestelada e quente, de entusiasmo vibrante, cantava — coisa curiosa! — "Mulher Rendeira", como se fosse essa canção o hino comum daqueles sertões sangrentos! ...

Consumou-se nesse segundo tiroteio a intriga definitiva e gadal entre Lampião e os nazarenos.

A família Ferreira daí em diante sofreu os piores vexames, ao ponto de ter, mais tarde, de se retirar da localidade. Entretanto, essa família fora sempre a desvelada defensora e salvadora de Nazaré contra os propósitos e as investidas de Lampião. Logo nesse mesmo dia 19 de agosto, dois fatos lamentáveis:
a) O sargento Zé de Xanda, com um tiro, espatifou o grande e belo espelho de cristal da sala de visita da casa de D. Joaninha Ferreira.

b) Apareceu o tenente Senhorzinho Alencar querendo obrigar a mesma D. Joaninha a entregar os vestidos da primeira comunhão das meninas Josefa e Dulce, filhas de Antônio Matilde e que ela criava. Alegava o tenente que os vestidos pertenciam às filhas do finado Gonzaga. Exigia, também, as sapatinas e os trancelins. Chamados, à presença do tenente: o senhor João Cominho, da loja onde foi comprada a fazenda; a costureira D. Ernestina Correia Cruz; Tonheiro, o portador dos vestidos prontos; e René, outra testemunha de tudo. Genésio Ferreira, irmão da noiva Licor, procurou Davi Jurubeba Respondeu que ele obtivesse do tenente o nome da pessoa que lhe dera a informação falsa. respondeu o militar: — "De uma parenta da viúva de Gonzaga, aqui residente (e disse o nome)..."

A família Ferreira ainda hoje é muito grata a Davi Jurubeba e a Manuel Neto, os quais, apesar de inimigos figadais de Lampião e seus irmãos do cangaço, sempre respeitaram e até defenderam os outros membros da familia o seus bens.


O PADRE JOSÉ KEHRLE



Padre José Kehrle. Nascido em 1891, em Wurttemberg, Alemanha. Veio para o Brasil em 1909. Beneditino e veterinário. Sacerdote em 1914. Como padre secular desenvolveu, no sertão, intensa atividade apostólica, além da construção e reforma de igrejas. Ocupou altos cargos e missões na diocese de Pesqueira, ao mesmo tempo que, por infeliz contraste, chega às raias do incrível o que sofreu da parte de bispos. Vigário de Vila Bela (Serra Talhada) de 1922 a 1936, conheceu e acompanhou toda a trajetória de Lampião no cangaço.

Sua força moral sobre ele quase se igualava à do Padre Cícero. Porém, a esse superava no conhecimento do foro íntimo. Lampião era seu confidente. Diante do Padre Kehrle despia sua realeza cangaceiresca para se tornar simples ovelha, nem sempre dócil por motivações extrínsecas. Realmente, grande parte da vida de Lampião não pode ser escrita desligada desse virtuosissmo sacerdote, que chegou mesmo ao impossível de retirar cangaceiros do seu bando.

Em 1936, no sítio Guarda, da serra de Ororubá, perto de Cimbres, município de Pesqueira, testemunhou, com sérias averiguações, as aparições de Nossa Senhora dos Graças a uma humilde camponezinha, depois freira conversa. Nessa ocasião, indignou-se contra as medidas violentas usadas pelo bispo que se valeu da polícia para acabar com aquele "fanatismo", de qualquer modo, "mesmo debaixo de pau", o que, Lamentavelmente, aconteceu àquela pobre gente que, na simplicidade de sua fé, acorria ao local.

Muitos os episódios interessantíssimos em sua vida que merecia escrita para edificação espiritual, principalmente dos sacerdotes. Há anos vivia ele em Buíque (PE), carregando uma saudável velhice dentro um exuberante espírito, cada vez mais acentuando o traço predominante de sua alma — a caridade, quando a 4-8-1978 faleceu.

Pois bem, cabe a cada um ao ler sobre fatos como esse e outros para dizerem se Lampião era Herói ou Bandido. Uns chegam a dizer que ele era uma mistura dos dois adjetivos. Vemos em sua estadia no povoado de Nazaré, que ele estava ciente de sua situação, esta levada por intrigas que descambou para a violência. Lampião foi uma cria do sistema latifundiário brasileiro onde imperava o coronelismo.

Pescado em Caiçara dos Rios do ventos