quinta-feira, 14 de julho de 2016

Cariri Cangaço Piranhas 2016

Confira a programação completa do evento


DIA 28 - Quinta-feira
PIRANHAS - ALAGOAS

18h - Abertura Oficial - Centro Cultural Miguel Arcanjo.
18h15min    - Sessão Solene da Câmara Municipal de Piranhas.
"Entrega de Título de Cidadão da cidade de Piranhas" a
Manoel Severo Barbosa.


19h15min    - Posse dos Novos Conselheiros do Cariri Cangaço

19h25min - Homenagem dos Grupos de Estudos do Cangaço do Brasil ao Deputado Inácio Loiola Damasceno Freitas.

19h30min - Lançamento : "Nas Trilhas do Cangaço" O Sertão que Lampião Pisou, Márcio Vasconcelos


21h  - Xaxadão no Centro Histórico de Piranhas



DIA 29 - Sexta-feira
ÁGUA BRANCA - ALAGOAS


8h - Saída para Água Branca

8h30min  - Visita a Fazenda Cobra
"A Vida do Coronel Ulisses Vieira de Araújo Luna" Edvaldo Feitosa.

10h - Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição
Centro Histórico de Água Branca
Solenidade de Boas Vindas em Água Branca
Poder Executivo - Poder Legislativo - Poder Judiciário
"O Poder da Cultura e o Poder da Violência no Cangaço" por Dr. José Geraldo Dantas Santos.

11h - Inauguração do Memorial Dra Quitéria Bezerra de Melo

11h30min - Manifestações Artísticas
Danças Indígenas - Tribo Kalankó
Teatro - "O Dia em que Lampião invadiu Água Branca"

12h - Visita a Casa do Barão de Água Branca, por América Fernandes Torres
Participação: Dra. Maria Stela Torres Barros Lameiras
Representando as Família Siqueira Torres e Veira Sandes
Participação: Dra. Wilma Nóbrega, Superintendente do Arquivo Público Estadual.

13h - Visita e Almoço no Engenho São Lourenço ao som do Sanfoneiro Du de Bia

15h - Mercado Público
"Música e Cultura - Augusto Calheiros na MPB" por Múcio Procópio.

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Lançamento: "O Messianismo no Brasil" por José Silva
"Fé e Tradição - O Catolicismo Popular Praticado no Alto dos Coelhos" por Bruno Mafra.
"Nossas Riquezas: Patrimônio Material e Imaterial de Água Branca" por Amosiel Feitosa.

16h30min - Homenagem da Câmara Municipal ao Cariri Cangaço.

17h15min - Visita de Encerramento no Mirante do Calvário.
"Filarmônica Santa Cecília"

18h30min - Retorno para Piranhas

21h - Programação Cultural no Centro Histórico de Piranhas.

DIA 30 - Sábado
ENTREMONTES E PIRANHAS - ALAGOAS

8h30min  - Saída para Entremontes

9h - Visita guiada pelas ruas de Entremontes  e principais cenários históricos locais.

10h - Apresentação dos fatos históricos de Entremontes , Igreja Local, por Celsinho Rodrigues.

PIRANHAS
12h - Almoço em Piranhas

14h - IFAL - Instituto Federal de Alagoas

14h30min - Reflexões sobre a Criação da Editora Cangaço por Raul Meneleu Mascarenhas e Manoel Severo.

15h - Palestra: "O Desfecho de Angico"  por Leandro Cardoso Fernandes.

16h - Palestra: "Sobre o Nome de Maria Bonita"  por Luiz Ruben Bonfim  e João de Sousa Lima.
Debatedores: Raul Meneleu Mascarenhas, João Tavares Calixto Junior e Cristiano Ferraz.

19h30min - Centro Cultural Miguel Arcanjo

Lançamentos

"Sila: do Cangaço ao Estrelato" de Elane Marques.

"Lampeão Antes de ser Capitão" de Luiz Ruben Bonfim.

"Império dos Rifles"  de Bibi Saraiva.





Palestra: "A Rota do Cangaço" por Jannyne Barbosa e Celsinho Rodrigues

Palestra: "Piranhas: Cidade das Volantes" por Paulo Britto
Debatedores
Wescley Rodrigues
Marcos de Carmelita
Jorge Remígio

22h Encerramento


NOTA CARIRI CANGAÇO: informamos a todos que a "Missa do Cangaço" que se realizará a partir das 9h da manha do dia 28 de Julho de 2016 - quinta feira, na Grota do Angico, município de Poço Redondo em Sergipe; é uma promoção da Sociedade do Cangaço, não fazendo parte da Programação Oficial do CARIRI CANGAÇO PIRANHAS, entretanto a organização local do Cariri Cangaço estará disponibilizando transporte fluvial, partindo do porto de Piranhas, a todos os participantes que desejarem estar presentes a Missa na Grota do Angico, com saída prevista para as 8h da manha do dia 28 de julho do Porto Local.



Cariri Cangaço Piranhas 2016
Piranhas e Água Branca
Alagoas - Brasil

terça-feira, 5 de julho de 2016

PROTEÇÃO E OSTENTAÇÃO


Os punhais do cangaço
Conferência do colecionador e especialista Dênis Artur Carvalho, feita especialmente para o Cariri Cangaço Floresta 2016.


Os punhais nordestinos, juntamente ao chapéu de aba “quebrada”, sem sombra de dúvidas são os principais símbolos iconográficos do cangaço. Não podemos, contudo, falar das facas nordestinas sem que antes façamos uma explanação sobre os diferentes tipos de lâminas que foram fabricadas no Brasil.


 

De uma forma genérica, podemos afirmar que a cutelaria brasileira divide-se em cinco linhas de produção.

A primeira delas é a chamada “faca sorocabana”. Era a faca usada pelos bandeirantes paulista e pelos tropeiros que transitavam entre as regiões sul e sudeste

 "A Sorocabana"

Um outro tipo de fabricação foi desenvolvida na região das Minas Gerais; a chamada “faca mineira”, com uma lâmina triangular, bastante semelhante às peças produzidas na cidade espanhola de Albacete.

 "Mineiras"

A “franqueira”, também desenvolvida na região centro oeste, era uma faca claramente voltada à defesa pessoal. Tinha quase sempre uma lâmina esguia e excelente trabalho de prataria no cabo.

 A “franqueira”

Na região sul do país, devido á forte influência castelhana desde os primórdios da colonização e ao isolamento das demais capitanias, respeitando o tratado de Tordesilhas, que determinava ser aquela área possessão espanhola, temos um outro tipo de manufatura, a chamada “faca gaúcha” ou “faca dos pampas”, com design bastante fiel às suas ancestrais mediterrâneas.

"As Gaúchas"

Por fim, chegamos à ferrageria do nordeste; as ”facas nordestinas”, ou “facas do cangaço”; tema central da nossa conferência.


Esse tipo surgiu na extinta cidade de Pasmado, no litoral de Pernambuco, por volta do século XVIII, claramente inspirada nas antigas facas mediterrâneas e empunhadura que remete às antigas adagas árabes, introduzidas na Península Ibérica durante a invasão muçulmana.

 Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem do Pasmado

 
"Faca de Pasmado"

O cronista português Henry Koster narra que mesmo à certa distância de Pasmado, já era possível ouvir o intenso e marcante som do martelar na bigorna, tamanho era o número de ferreiros que ali existia.

Mas foi no sertão do Pajeú que o uso e fabricação desses instrumentos tomaram maior proporção. Talvez devido à cultura do sertanejo, voltada à valentia, aos paradoxos morais que faziam da vingança um legítimo direito do ofendido, abraçando a “teoria do escudo ético” proposta pelo eminente autor Frederico Pernambucano de Melo.

Era quase que um núcleo de produção voltada à fabricação e Lâminas, concentrado nas imediações da Serra da Baixa Verde, abrangendo cidades de Pernambuco, Paraíba e Ceará, comparável a região de Solingen na Alemanha, uma das primeiras concentrações ferrageiras da história.

Contudo, apesar da proximidade dos centros produtores, as facas guardam variações e peculiaridades próprias. No sertão, a faca geralmente era nomeada e acordo com a cidade onde fora produzida.

A “Pajeuzeira” era a faca produzida em Pajeú das Flores, hoje a cidade de Flores. Tinha lâmina larga, geralmente lisa, bastante primitiva.

 A “Pajeuzeira”

A Santa Luzia era feita na cidade de mesmo nome, no estado da Paraíba, com lâmina geralmente afilada nos dois dorsos, pelo qual também era chamada “lambedeira”.

 A "lambedeira"

A baixa Verde provinha de Triunfo, cidade que outrora chamou-se Baixa verde. Tinham lâminas estreitas, encavadas e dotadas de maior requinte.

 "Baixa Verde"

Um outro tipo de faca que cabe fazer menção é a “Parnaíba” ou “faca de arrasto”. Trata-se de uma variante da faca nordestina, mas com lâmina exageradamente longa; tão longa que levava um certo tempo para ser sacada ou “arrastada” a bainha, daí a sua designação: “faca de arrasto”. Uma outra versão para o nome é de que as facas eram tão longas que chegavam a arrastar a ponta no chão.

 Faca "Parnaíba"

Da macrorregião da Baixa Verde, migraram artífices para diversas localidades do nordeste.

Na região do Cariri, mais especificamente na cidade de Jardim, uma família de ferreiros que fizeram escola na região de Baixa Verde ficaram muito afamados. Era a “faca jardineira”, que despertou a paixão até mesmo de Lampião no ano de 1926.

 Faca "Jardineira"

Uma outra família conhecida por “Caroca” saiu de Santa Luzia para firmar tenda na cidade de Campina Grande na Paraíba. Lá, atingiram tamanha fama que suas facas e punhais eram encomendados para presentear políticos e pessoas de prestígio.


Homens do coronel José Pereira, revolução de princesa usando facas “carocas” produzidas ainda na região de Santa Luzia

O auge da produção dos Carocas foi em meados da década de 40, onde até mesmo os americanos instalados na base aérea de Parnamirim dirigiam-se à Campina grande para adquirir a tão cobiçada “faca caroca”.

 
Caroca "Bowie" feita por encomenda para algum militar americano instalado na base de Parnamirim, RN, ao estilo das facas norte-americanas.

As Lâminas do Cangaço


Os punhais, facas e facões estavam entre as mais caras possessões dos cangaceiros e este apreço por lâminas existia tanto por questões culturais da região Nordeste da época, onde a honra masculina determinava que as questões entre homens deveriam ser resolvidas na ponta e no corte de uma lâmina.

Eram sempre carregados de forma ostensiva, transversalmente ao abdome, que lhes servia de perfeita moldura, sustentados pelo cinturão de balas.


 Corisco ostentando punhal com cabo em marfim.

A vaidade de cada um se manifestava de diversas maneiras: pelo material com que era produzida sua lâmina, a composição de sua empunhadura e sua bainha, o cuteleiro que o confeccionou, seu comprimento e a habilidade que cada um possuía ao manejá-lo.

O material para as lâminas era quase sempre importado: espadas quebradas, ferramentas agrícolas e especialmente pedaços de trilhos de ferrovias. A forja e montagem desses punhais eram feitas em locais denominados tendas, que nada mais eram que rústicas cutelarias bastante disseminadas pelo Nordeste, em especial nos Estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Ceará, onde a movimentação de cangaceiros era intensa.

A estética e características gerais de forma, tipo de cabo, comprimento de lâmina e material e modelo da bainha era função da criatividade do cuteleiro e dos recursos de quem encomendava o produto. De maneira geral, o punhal tinha forma bastante esguia, longa e fina.
As bainhas também eram caprichosamente elaboradas, quase sempre por terceiros, podendo ser de couro ou metal.

Quando metálicas, por vezes eram forradas de couro ou veludo e podiam possuir uma ou duas articulações, ao logo de seu comprimento, como delicadas dobradiças, de forma a facilitar o andar e o montar de quem as usasse.

O fato de Lampião e alguns outros integrantes de seu bando terem sido fotografados quase sempre portando punhais cujas lâminas tinham mais de 60 cm de comprimento, não significa que o uso de versões extremamente longas fosse uma constante absoluta por parte de todos os cangaceiros.

Outras fotos de seu bando e também de integrantes das volantes (principalmente a de nazarenos) mostram que o tipo de punhal mais habitualmente portado tinha lâmina entre 30 e 40 cm de comprimento.


O punhal de Maria Bonita, manufatura de José Pereira de Jardim, em ouro e marfim.


Pela cuidadosa análise de antigas fotos do bando de Lampião, é possível observar que – de maneira comprovada– somente outros dois líderes de seu grupo portavam habitualmente  punhais extremamente longos, os cangaceiros Juriti e Corisco.

 Corisco

É também especialmente digno de nota o fato de que numa das fotos em que figuram "Juriti"...

 O longo punhal parece ser idêntico àquele portado pelo primeiro numa outra imagem.

O cangaceiro Zé Baiano, provavelmente, demonstra ser a única exceção a essa regra. Seu punhal, de dimensões exageradas, superava em tamanho até mesmo aquele portado pelo seu chefe. 


Estas constatações levam à hipótese provável de que os punhais de lâminas extra longas também servissem como uma espécie de símbolo de “status” e de liderança dentro dos bandos, não sendo, entretanto os de maior uso, pois – do estrito ponto de vista da praticidade - portar uma lâmina co
m mais de 60 cm de comprimento não devia ser algo confortável nas andanças pela caatinga.

Contudo, parece não ter havido uma relação direta entre o tipo de punhal e faca utilizados e a hierarquia interna do grupo.  Tudo era exatamente uma questão de gosto, vaidade e dinheiro.

Embora nem fosse de uso mais frequente, os punhais longos exerciam especial fascínio entre os cangaceiros, sendo curioso reproduzir aqui parte do “Inventário dos objetos apreendidos, pertencentes ao famigerado “Lampeão””, produzido pelo Regimento Policial Militar de Maceió, em 26 de novembro de 1938:

FACA: de folha de aço, com 67 cm de dimensão, com cabo e terço de níquel, adornado o cabo com três anéis de ouro, notando-se na lâmina, uma mossa produzida naturalmente por bala; bainha toda de níquel, com forro interno de couro, notando-se também na parte interna superior o estrago produzido por bala.

Sabe-se pela literatura a respeito do tema que aos 67 cm de lâmina são acrescidos 15 cm de cabo, perfazendo um comprimento total de 82 cm.

O tamanho exagerado dos punhais do grupo não tinham nenhuma utilidade prática, exceto manifestar poder e vaidade. Muito embora este relato se refira aos despojos particulares de Lampião, outros membros do bando também possuíam punhais igualmente longos, o que é visível na famosa “foto das cabeças” e que viria reforçar a tese da inexistência de vínculo entre o comprimento dos punhais e a posição hierárquica do indivíduo no grupo.


Os famosos punhais de lâmina longa não eram uma prerrogativa conferida apenas aos bandos de cangaceiros. Há inúmeros registros de tropas volantes portando peças dotadas de lâminas extraordinariamente compridas.

Volante baiana portando punhais longos. Foto de Benjamim Abraão (1936).

 Temos também registros de Manoel de Souza Neto, o “Mané Neto”...

 ... E até mesmo do Major Teóphanes Ferraz, portando longos punhais.

O Ritual de Sangria

Como sabemos, a maior parte das execuções sumárias feitas pelos cangaceiros se dava através da chamada “sangria”, a qual era a técnica de desferir um único golpe de punhal longo na clavícula esquerda (na região popularmente conhecida por “saboneteira”), que atingia coração e pulmão e causava morte lenta e agonizante.

O escritor Frederico Pernambucano em demonstração de sangria

Vale ressaltar que muito provavelmente existia um aspecto psicológico, mórbido e doentio quando se considera o significado que o sangramento tinha, e tem, para o homem rústico do sertão nordestino.

Ao usar sua arma esteticamente mais expressiva para esse fim, o indivíduo manifestava, a um só tempo, sua vaidade em relação ao punhal, e também um importante poder sobre a vítima, não apenas porque esta sempre se encontrava subjugada pelo grupo, mas também porque sangrar era, e é, ato de extrema ofensa para quem o sofria, extensiva a toda a família da vítima. Ou seja, para o sertanejo, o drama não estava em morrer, mas sim em ser sangrado. Ofensa inadmissível, sangrar era para porco, cabrito, boi – não para o homem.


OS Punhais de Lampião

Imagem retirada do filme de Benjamim Abraão, onde Lampião, segundo especialistas em leitura labial, em referência à seu punhal, diz: "Esse é pra furar todo mundo. Muitas pessoas. Fura até o chifrudo!".

É fato bem conhecido entre os estudiosos do cangaço que os integrantes do bando de Lampião (e o próprio) tinham especial predileção por lâminas produzidas pela família Pereira, da cidade de Jardim, no Ceará, que chegou a ficar conhecida, pelo menos regionalmente, como “os cuteleiros de Lampião”.

Estes punhais eram feitos pelo ferreiro José Pereira, (Foto abaixo) que residia na cidade de Jardim, ponto de passagem de viajantes de Pernambuco para o Cariri.

(Acervo do autor)

Foi ali, na localidade chamada de Barra do Jardim, que Lampião se arranchou com seus cangaceiros para comprar e encomendar os punhais feitos por Zé Pereira.

De lá, Virgulino Ferreira, com cerca de 50 cangaceiros, seguiram para Juazeiro, de onde saiu com a patente de Capitão. De volta a Pernambuco, passaram por Jardim, onde receberam os punhais encomendados.”

De fato, a mais icônica e pomposa fotografia de Lampião, tirada em Juazeiro, mostra ele portando um punhal com cabo prateado, com características de Baixa Verde.

Logo mais, podemos ver o facínora em fotografia tirada quando do retorno do bando, ainda dentro do estado do Ceará, ao lado do seu irmão Antônio Ferreira, portando uma faca longa e com o cabo de embuá, bastante característica da ferrageria de Jardim

https://tokdehistoria.files.wordpress.com/2014/09/antonio-e-lampic3a3o.jpg



As criações atribuídas a José Pereira são de boa qualidade e embora não tenham acabamento superlativo, grande parte delas apresenta empunhaduras do clássico tipo “embuá”, por assemelhar-se ao inseto também conhecido como piolho de cobra.


 

 

Entretanto, segundo o escritor e pesquisador do cangaço Frederico Pernambucano de Melo, a tenda que atingiu o “mais alto prodígio”, provendo o bando de Lampião por toda década de 30, inclusive na fase final do cangaço, foi a de João Jorge, em Itaíba-PE.

A lâmina, de aço fino, de espada da velha Guarda Nacional, mede exatamente 67 cm, segundo relatório do Regimento Policial Militar de Maceió.

 O cabo, medindo 15 centímetros, é adornado com três anéis de ouro: um no pomo, um no centro e outro na guarda. 


No total, a peça contava com 82 cm de comprimento.

A bainha é de metal, articulada, forrada internamente com couro. A articulação seria, em tese, muito importante para o tamanho da peça, dando a esta uma maior flexibilidade e impedindo maiores danos à própria bainha. Possui desenhos requintados, feitos com buril, em toda sua extensão, revelando uma verdadeira jóia da cutelaria nordestina.




Dênis Carvalho e parte de sua coleção.
Com a morte de Lampião em 1938 e o consequente fim do cangaço, os punhais de lâminas muito longas foram perdendo sua aura de arma famosa e a demanda diminuiu muito. Especialistas acreditam que já na década de 1950 sua produção normal teria sido interrompida pela maioria dos artesãos.

E foi por meados da década de 60 que se iniciou a decadência da faca de ponta no nordeste. Sobreviveram algumas cutelarias, mas não mais fabricava, com o objetivo inicial (defesa/arma). Eram agora peças que visavam o turismo. Era a época do cinema brasileiro, filmes sobre o cangaço estava em destaque, eram compradas como lembrança do nordeste, “Souvenir”, peças para adorno. E com isso começou a cair a qualidade das peças.

A têmpera das peças fabricadas em Caruaru – PE e Juazeiro do Norte – CE eram péssimas, uma simples mudança de pressão era suficiente para entortar a lâmina. Os cabos também não tinham mais o requinte das antigas nordestinas. Era a moda do acrílico, do alumínio. Fatores que juntos foram responsáveis pela decadência e o quase esquecimento desse tipo.


Estão inteiramente liberadas para uso em publicações as postagens deste blog, devendo–se primeiramente realizar a formal gentileza de citá–lo como referência primária.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

NOVO LIVRO NA PRAÇA

“As cruzes do cangaço – Os fatos e personagens de Floresta-PE”
Confira o prefácio de Frederico Pernambucano de Mello para o livro.

Por Rostand Medeiros

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Em um momento pouco produtivo no cenário de lançamentos de obras sobre o Cangaço, eis que surge um trabalho diferenciado e que merece esta chancela.

Texto inicial de Rostand Medeiros

Recentemente eu tive a oportunidade de retornar aos sertões de Pernambuco e Alagoas, onde segui os antigos rastros dos cangaceiros nos municípios de São José de Belmonte, Serra Talhada, Floresta (PE) e Piranhas (AL). Nesta jornada eu tive a grata companhia do artista plástico Sérgio Azol, potiguar radicado em São Paulo, que realiza um interessante e diferenciado trabalho artístico utilizando o Cangaço como tema.

Na bela cidade de Floresta fomos recebidos pelos escritores e pesquisadores Marcos Antonio de Sá, conhecido como “Marcos De Carmelita”, e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, ambos autores do livro “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE”, recentemente lançado.

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Os autores Cristiano Luiz Feitosa Ferraz (E) e Marcos Antonio de Sá (D), conhecido como “Marcos De Carmelita”.

Em um clima de extrema fidalguia, cordialidade e parceria, estes dois pesquisadores procuraram mostrar vários aspectos da bela cidade de Floresta e dos fatos relativos ao Cangaço na região. Além deste maravilhoso exemplo de cordialidade sertaneja, através do contato com Marcos e Cristiano eu pude adquirir o resultado de um interessante e valoroso trabalho de pesquisa sobre o Cangaço.

O livro eu recomendo sem nenhuma ressalva aos amigos e amigas que gostam deste tema, pois antes de tudo é resultado de muita pesquisa de campo e de muitas horas de diálogos com os guardiões da memória na região. Tudo conduzido de maneira séria e objetiva.

Em minha opinião as páginas de “As cruzes do Cangaço” possuem várias virtudes. Mas a que mais me chamou atenção foi a deste livro não se perder em uma abrangência geográfica e histórica desnecessária, de focar a história do Cangaço em uma área específica – Floresta. Os autores competentemente dissecaram interessantes pormenores ali ocorridos, que por sua vez se ligam a inúmeros outros episódios da história do Cangaço em outras partes do Nordeste. 

A obra é tão dinâmica e envolvente que me fez refletir que talvez tivéssemos conhecido a história do Cangaço de uma forma muito diferente se existissem mais pesquisadores como Marcos e Cristiano. Fiquei imaginando o que ganharíamos em termos de conhecimentos se, em um passado nem tão distante assim, quando inúmeras testemunhas daqueles dias difíceis ainda estavam neste plano, existissem mais pessoas focadas e dispostas a correr atrás da história como estes dois florestanos.

Não é a toa que “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE” recebeu uma deferência rara nos dias atuais – O prefácio de Frederico Pernambucano de Mello.

Acredito que o respeito por quem palmilha o solo duro e poeirento do sertão atrás da história, além do resultado de uma pesquisa séria e objetiva, foram alguns dos fatores que fizeram um intelectual do porte de Frederico Pernambucano de Mello realizar o prefácio deste livro.

A meu ver Frederico é um homem muito consciente da sua história acadêmica, da sua obra e do peso do seu nome. Ele não chancela qualquer trabalho sobre este tema, usa de muitos critérios e neste aspecto ele está certo.

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Os autores entregando um exemplar do seu trabalho aos descendentes da família Gilo, na fazenda Tapera dos Gilo, local do maior massacre da história do cangaço, fato extensamente narrado no livro. 

Até mesmo porque atualmente sobram muitas obras sobre o Cangaço são realizadas sem nenhuma pesquisa ao sertão. Muitos destes trabalhos são produzidos no conforto de cadeiras reclináveis, em ambientes extremamente assépticos, refrigerados por potentes aparelhos de ar condicionado e com objetivos muitas vezes distintos do resultado de uma pesquisa histórica e focados em alvos bem escusos.

Mesmo assim, não posso negar que algumas destas obras me despertam certo interesse. Mas eu conto nos dedos os exemplos positivos!

Afora isso ainda temos pessoas que são ligados a este tema e que parecem possuir sérios problemas de diversos matizes e que só criam problemas para os que querem produzir de verdade. E estes não são poucos!

Existem os que nos seus devaneios interiores se acham “Mestres da História do Cangaço” e se sentem sumamente injuriados por uma pequena crítica, principalmente no âmbito da internet. Ou aqueles que por conta de uma vírgula mal colocada, ou de uma referência na imprensa realizada de forma incorreta por um jornalista medíocre, criam ódio mortal a um pobre interlocutor. Tem os que se sentem “donos” da história do Cangaço em suas cidades, que criam toda ordem de obstáculos para os pesquisadores vindos de fora, mas também não produzem nada de interessante sobre os acontecimentos ligados ao tema em seus rincões. Temos as interessantes figuras advindas das Academias, que por serem laureados por obras medíocres, inseridas em extensos e inócuos currículos Lattes, colocam-se na posição de verdadeiramente exigir o resultado do trabalho daqueles que apaixonadamente rodam muito pelo sertão para conseguir uma pequena informação. Ou ainda aqueles que se acham “pesquisadores” apenas por se fazerem presentes aos muitos encontros de admiradores do tema, ou por baterem fotos de um túmulo de alguém ligado ao Cangaço. Os exemplos negativos destas figuras são bem amplos para este espaço.

Talvez eu não seja a pessoa mais correta para comentar sobre estes “doutos” autores que realizam o que denomino “Livros de Cangaço de Gabinete”. Mesmo sendo autor de quatro livros, nenhum deles foi sobre o tema. Mas eu não vou me escusar de comentar, pois já produzi e democraticamente já divulguei muita coisa sobre o Cangaço aqui no TOK DE HISTÓRIA.

Seria interessante que estes autores de gabinete copiassem o belo exemplo de Marcos Antonio de Sá e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz em relação à obra “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE” – Deveriam tentar realizar mais seus trabalhos sentindo o que é realmente o sertão!

Talvez isso não ocorra atualmente com tanta frequência porque, mesmo com todas as facilidades logísticas, aparentemente são poucos os que desejam realizar seus trabalhos escritos após encararem as estradas pedregosas do sertão, a poeira, os quase sempre normais 40 graus positivos na canícula e outras situações desconfortáveis.

Mas ao passar por estes possíveis desconfortos, estes autores teriam então a oportunidade de conhecer em profundidade uma região ímpar no território brasileiro. Uma área cheia de contrastes interessantes, comida saborosa, natureza diferenciada e, principalmente, pessoas incríveis e maravilhosas.

Além disso, poderiam receber algo muito interessante e diferenciado dos que realmente gostam e estudam este tema da história nordestina – Respeito.

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Ao centro vemos Frederico Pernambucano de Mello, tendo a sua direita Cristiano Luiz Feitosa Ferraz e a sua esquerda Marcos Antonio de Sá, conhecido como “Marcos De Carmelita”. Marcos e Cristiano são os autores do livro “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE”, cujo prefácio é de autoria de Frederico. 


AS CRUZES DO CANGAÇO – Os fatos e personagens de Floresta-PE, por Frederico Pernambucano de Mello. Uma verdadeira aula de História, por quem entende de História e sociologia:

Floresta: bravura e talento

Floresta, velho município pernambucano de território outrora imenso, encravado no vale do Pajeú, a 433 km do Recife, tem o privilégio de aliar dois primores bem acima da média: o das armas e o da pena. Seus homens de guerra, de um lado e do outro da lei, notabilizaram-se pela valentia desde o período colonial, cultivada ao longo de toda a madrugada de sangue da conquista da terra ao tapuia guerreiro, no afã de assentar os currais de gado civilizadores, vindo a dar vida a uma crônica de passagens épicas não raro inacreditáveis, não contassem os fatos por si com o abono de documentação copiosa.

É nesse ponto que se encarta o segundo dos primores a que aludimos, que tem por fonte a produção intelectual dos filhos da terra, entregues ao empenho de colocar a pena a serviço da per-petuação dos acontecimentos mais quentes da ribeira do riacho do Navio. E nos dando, do mesmo modo, as ocorrências amenas daquele cotidiano que sedimenta a história, a partir dos assentos sociais, econômicos, políticos, religiosos ou apenas ligados à natureza do lugar, de chãs imensas, ipueiras generosas e serras férteis.

Sem se deter por aí, a pena florestana vai além das coisas pas-sadas no universo da caatinga, ofertando estudos de interesse nacional relevante. Quantas vezes não ouvimos de Gilberto Freyre, nosso mestre por quinze anos, elogios ao trabalho de investigação antropológica conduzido por Álvaro Ferraz, médico da então Brigada Militar de Pernambuco, e por seu assistente, Andrade Lima Júnior, intitulado A Morfologia do Homem do Nordeste. Estudo que Gilberto tratou de editar em livro de 1939, convertendo-o em marco da disputada Coleção Documentos Brasileiros, da Livraria José Olympio, de que era diretor com carta branca. Vitória florestana por excelência. Como vitória igualmente notável nos vem da contribuição do militar e professor Carlos Antônio de Souza Ferraz, com o seu Floresta do Navio: Capítulo da História Sertaneja, de 1992, timbrando na mesma tecla a que já se dedicara, em outro livro, o admirável Doutor Álvaro.

Como esquecer nesse arrolamento o estudo de história política denominado Liberais & liberais, da professora Maria do Socorro Ferraz Barbosa, da Universidade Federal de Pernambuco, vindo à luz em 1996, ponto alto de bibliografia concebida, toda ela, com rigor digno de nota. Ou a contribuição de Leonardo Ferraz Gominho, com o seu Floresta: uma Terra, um Povo, também de 1996. Ou ainda os estudos da professora Bartira Barbosa acerca do rio São Francisco, desde quando possuía apenas o nome indígena de Opara.

No plano do memorialismo, oriundo de vivência direta ou de recolha da história oral que se refugia em nichos de família, seria imperdoável deixar de mencionar os livros de Marilourdes Ferraz, O Canto do Acauã, de 1978, com várias reedições, hino de amor de uma filha ao pai guerreiro, que foi o coronel Manuel de Souza Ferraz, o Manuel Flor, da nossa Polícia Militar, a se bater contra o chamado banditismo rural por muitos anos, em todo o Nordeste. Mesmo tema no qual despontou, já com os primeiros cabelos brancos a circundar a calva, o tenente João Gomes de Lira, filho do lendário Antônio Gomes Jurubeba, um dos braços fortes da resistência heroica de Nazaré – vilazinha perdida em meio ao oceano de caatingas que se estendia até o beiço do rio São Francisco – contra o império de terror implantado pelo maior de todos os cangaceiros, o lendário Capitão Lampião. E ele próprio, o então juveníssimo soldado Joãozinho, a passar a cartucheira na cintura, cingir o punhal, embarbelar o chapelão e acompanhar a força volante do parente Manuel de Souza Neto pelos carrascais de Pernambuco e da Bahia.

Foi por lá, às voltas com águas de presença incerta nos anos de seca, que todos esses memorialistas se fizeram testemunhas dos fatos do lugar, tomando contato com a crônica dos homens de sangue no olho que se entregavam à “vida da espingarda”, sem deixar de ter as vistas abertas para a ação duramente civilizadora dos coronéis chefes políticos sertanejos, comandantes de terras e de homens por todo o Brasil Colônia. Com trânsito pelo Império, chegando à República e ultrapassando até mesmo o regime temperado ao calor das brasas da Revolução de 1930. Coronéis que lançavam luz, a seu modo, sobre o universo rural brasileiro, para o que não se eximiam do emprego do baraço e do cutelo, assim lhes ditasse a circunstância. Protagonistas no processo social desdobrado em nossa terra, em qualquer caso. Afinal, Gilberto Freyre já proclamou que o Brasil não foi colonizado pela Coroa ou pelo Altar, mas pela família patriarcal.

A base humana do coronel foi essencialmente o patriarca, às voltas com a agricultura e a pecuária em suas terras sem-fim, raramente se abrindo o espaço social para a figura da matriarca, a exemplo de Fideralina Augusto Lima, das Lavras da Manga-beira, Ceará; ou para um religioso, caso do Padre Cícero, do Juazeiro, no mesmo estado; ou para um autocrata modernizador, como se viu com o industrial Delmiro Gouveia, na Vila da Pedra, Alagoas, ou com Veremundo Soares, em Salgueiro, Pernambuco.

Já tivemos ocasião de dizer que a civilização dos campos do Nordeste recaiu sobre os chamados homens bons da linguagem de época, os principais da terra, capitães e sargentos-mores de Ordenanças, corporação de origem portuguesa datada de 1569 e introduzida no Brasil em 1575, que se converterá em Guarda Nacional a partir de 1831. A existência legal da nova corporação se estendendo até 1918, quando vem a ser extinta por decreto presidencial.

Os integrantes das corporações de Ordenanças ou da Guar-da Nacional, metidos nas fardas vistosas que saíam do guarda-roupa nas eleições e nas solenidades, nada mais eram que os indivíduos mais bem sucedidos no empreendimento colonial por sua face privada, cedo cooptados em instâncias de poder público local – a um tempo, militar e político – pela habilidade de uma Coroa que se reconhecia pobre de capitais e de agentes, mas certamente não de astúcia. Não daquele pragmatismo eficiente que tantos proclamam ter permeado os dois primeiros séculos da colonização.

Vitoriosamente hábil, essa Coroa com os pés no chão, sobretudo no modo de desbravar um território gigantesco como o nosso e de se fazer presente em todos os rincões que o integram. Eis aí conquistas difíceis de explicar pelo intérprete da história ainda hoje.

O passar dos anos, aprimorando a administração pública, vai permitir ao estado ir mostrando o rosto nos mais diferentes lugares, da pancada do mar ao grotão mais arredado. A morte do coronel da Guarda Nacional estaria fadada a ocorrer, pela perda natural da utilidade, ainda no final do Império. Morte por inanição. Lenta. Inexorável.
Não foi que aconteceu. A partir de 1898, o que se vê é o presidente da República, à época Campos Sales, delegar poder político quase absoluto aos governantes estaduais, estes, aos chefetes municipais, quase todos graduados da Guarda Nacional, nas patentes de alferes a coronel. Compromisso sagrado, dessa que ficou conhecida como Política dos Governadores: votar com o presidente. Sem perguntas. E a República Velha vira pasto dos chefes políticos militarizados pela Guarda Nacional, a se espalharem, livres de canga e corda, até 1930, quando sentem o primeiro golpe com o movimento revolucionário que toma conta do país naquele ano. Aguentam. Adaptam-se. Fingem-se de mortos, em alguns casos. Trocam o couro, imitando as cobras. E lá estão de volta com a Constituição de 1934, que põe fim ao Governo Provisório de Getúlio Vargas com uma das mãos, e o devolve ao poder, com a outra, ungindo-o presidente constitucional por mais quatro anos.

Mandato que o gaúcho de São Borja findaria por espichar em quinze anos de reinado absoluto, graças às mil astúcias de que era capaz, conhecedor profundo da alma humana como sempre se mostrou ser, especialmente das fraquezas que a sombreiam.

O paraíso do coronel do interior era aquele Brasil anterior a 1930: um país de 35 milhões de habitantes, 70% morando no campo, 60% de analfabetos, em que o presidente da República era eleito por menos de 3% dos eleitores. Em que o voto não era secreto nem feminino. E as eleições, uma farsa.

Eis aí o caldo de cultura que permitiu a disseminação do fenômeno do cangaço por todos os rincões do Nordeste rural, bafejado pela indevassabilidade da fronteira entre os estados e pela inviolabilidade da fazenda-feudo do coronel que estivesse de cima na política.

Fenômeno que não se detinha diante da fronteira estadual, reprimido ironicamente por polícias que não possuíam ação regional. É claro que, com o tempo, foram surgindo encontros entre governadores ou seus chefes de polícia, no intuito de subtrair o trunfo aos bandidos. Mas o prejuízo já estava feito. O cangaço se espalhava por todas as ribeiras da região, subindo de endêmico a epidêmico nos períodos de seca. Na de 1879, porventura a maior de que se tem notícia, um dos mais antigos cantadores-repentistas do Nordeste, Joaquim Jaqueira, talento que alguns dão como cearense, outros, como alagoano, nobilitado, em qualquer caso, por cantar na Pitombeira, para o barão do Pajeú, traçava o quadro da geografia do punhal em início de expansão:

Aí foi que os cangaceiros
Caíram no gado sem dó:
Calango, no Cariri,
Sereno, no Piancó,
Barbosa, lá no Navio,
Antõi Grande, em Moxotó.

Nos sertões do Nordeste, palco do livro que se vai ler, intitulado As Cruzes do Cangaço, escrito, em coautoria harmoniosa, por Marcos Antonio de Sá e por Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, jovens florestanos que não mediram esforços no afã de levantar e detalhar ao máximo os acontecimentos verificados no território atual da província de berço, o poder do cangaço atingiu níveis alarmantes, desapropriando, de facto, áreas inteiras do município de Floresta. Tempo de inversão de papéis, em que o soldado se escondia do cangaceiro, como disse o sargento volante Optato Gueiros, em rasgo de sinceridade acerca do ano de 1919.

A partir dos Anos 1910, foi comum que bons jornais recifenses, como o Jornal Pequeno e o Jornal do Recife, para não falar de A Província, de O Pernambuco e do Diário de Pernambuco, trouxessem seções fixas sob as manchetes “Questão da Vila Bela” e “Questão de Floresta”, tratando dos lances quase diários da disputa sangrenta entre as famílias Pereira e Carvalho, e do ajuste de contas entre os cangaceiros Cassimiro Honório e Zé de Souza, respectivamente. Toda uma geração abriu os olhos nas ribeiras do Pajeú e do Navio vendo a terra de seus pais pegar fogo, em meio às correrias do cangaço. E precisou adestrar-se no uso das armas brancas e de fogo, como requisito de sobrevivência.
 
Marcos e Cristiano não inauguram a crônica da guerra social florestana, é certo, que já dispunham das contribuições re-levantes de Marilourdes e de João Gomes, entre outros, mas vão além no detalhamento, por vezes correção, de episódios emblemáticos ocorridos em seu chão de berço, a exemplo da formação do povoado de Nazaré, das primeiras lutas do futuro Lampião e de sua família, da tragédia incrível da fazenda Tapera, da questão entre Horácio Novaes e Tibúrcio Gomes, do fogo do Tigre, do grande combate da Favela, do choque de parentes no riacho do Mundé, da Revolução de 1930 na cidade, do desforço cruel da fazenda Gravatá, do ataque à fazenda Barra da Forquilha pelo bando de Moreno, em meio à crônica de sangue da passagem desse carrasco de Lampião pelo município, todo o sumário servido com o molho dos diálogos refertos de regionalismos, das pabulagens, dos chamados ditos de mofa, dos pregões de valentia.

Como resultado do esforço que sabemos ter sido grande, os jovens autores nos permitem saborear o êthos e o páthos de uma ribeira pernambucana de imensa riqueza cultural, dando-nos, do mesmo passo, a satisfação de uma leitura aliciante, com o risco do leitor somente se deter para as refeições, como foi o caso deste prefaciador.

A Marcos Antonio de Sá e a Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, sem esquecer o revisor Leonardo Gominho e o consultor em genealogia Nivaldo Carvalho, os cumprimentos de quem, padrinho da obra, já se investe do privilégio de cobrar novos estudos à dupla de primos, ampliados a fim de abranger todas as ocorrências da Grande Floresta de outrora.

Frederico Pernambucano de Mello
Historiador da Academia Pernambucana de Letras

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