quarta-feira, 1 de julho de 2020

Jornal do Brasil, 11 de maio de 1977

 A contagem regressiva para a morte de Lampião

Uma Interessante Entrevista Com Joca Bernardo, o Homem Que em Agosto de 1938 Informou a Polícia Quem Conhecia a Localização do Esconderijo de Lampião e Foi o Responsável Pelo Massacre de Toda Uma Família, Perpetrado Pelo Cangaceiro Corisco, Que Buscou Vingar a Morte do Rei do Cangaço.

Autor do texto – Jornalista Roberto Vilanova – Maceió, Alagoas.

Fonte – O blog TOK DE HISTÓRIA informa que recebeu o material original dessa reportagem com o nome do autor, o número da página (12), mas sem a indicação de data de publicação e do nome do jornal, ou revista. Sabemos que o Jornalista Roberto Vilanova publicou reportagem semelhante no Caderno B do Jornal do Brasil, edição de 11 de maio de 1977, página 5, sugerindo uma época da publicação original desse texto, que agora apresentamos. Com Exceção das Fotos Originais da Reportagem, Todas as Outras Fotografias Aqui Publicadas, São de Responsabilidade do blog TOK DE HISTÓRIA.

A história não reservou para Joca Bernardo, quase 80 anos de idade, uma linha sequer. Mas é bem melhor assim, porque ele entrou para a história intima do sertão como traidor de Virgulino Ferreira  – o Lampião, e, talvez por arrependimento, recusou receber o prêmio maior pela delação: a patente de sargento da Polícia Militar de Alagoas. Por causa disso sua esposa, desde essa época, lhe abandonou depois de argumentar e tentar convencê-lo de que não deveria jogar fora a sorte. Como jogou, ela preferiu ir embora para São Paulo no primeiro pau-de-arara que cortou as estradas secas do sertão, não lhe dando mais notícias.

Mas não é fácil encontrar Joca, apesar dele viver discretamente no distrito do Piau, pertencente a Piranhas, a mais de 350 quilômetros de Maceió, porque o sertanejo é, também, antes e tudo, muito desconfiado. Aliás, a sua própria existência só é sabida por quem conhece a fundo a história de Lampião, como o presidente da Arena de Piranhas, Antônio Rodrigues, que lhe descobriu para essa reportagem.

A bela cidade de Piranhas, Alagoas, a margem do Rio São Francisco  
– Foto – Rostand Medeiros.
Medo da morrer
A troca de identidade, complementada pelos cumprimentos à mão estendida, durou pouco, mas Joca Bernardo mantinha-se olhando por baixo dos olhos, como se estivesse diante de um Tribunal. À pergunta se escondia com medo de morrer, respondeu que não. E explicou que era para evitar comentários que, na certa, iriam lhe trazer recordações. E ele não deseja recordar as inconveniências naturais de um traidor. Nesse pé a conversa se expandiu e tomou gosto, porque se Joca se manteve, durante todo esse tempo, calado, chega mesmo um momento, principalmente na sua idade, em que o peso da consciência rompe a barreira do silêncio que se impõe por conveniências. 

O silêncio é quebrado também pelo conflito interno que Joca passou a viver logo depois da morte de Lampião, não porque traiu o bandido, mas porque, para escapar da morte que Corisco espalhou como vingança, acabou delatando um inocente. Ou seja, disse a Corisco, com quem se encontrou mais tarde, que o vaqueiro Domingos Silvino, empregado do sogro do tenente Bezerra, é quem havia delatado Lampião à polícia. Corisco foi à casa de Domingos e matou ele, a mulher, uma visita e três só deixou vivo apenas o de menor idade, Antônio Silvino, que mora hoje em Piranhas e não quer ver Joca na sua frente.

Joca Bernardo.
Foi o próprio Antônio Silvino quem relatou o massacre a sua família e, conforme Corisco disse a seu pai, Joca é o único responsável. Silvino falou que um dos cangaceiros chegou a puxar o punhal para matá-lo, mas Corisco o conteve. Nessa época, ele, Antônio, tinha 6 anos de idade e recebeu a missão de conduzir, de burro, as cabeças de toda a sua família que deveria ser entregue ao tenente Bezerra, em Piranhas, com um bilhete atrevido.

Silvino Ventura tinha seis anos de idade quando viu sua família ser covardemente trucidada pelo famigerado Corisco na Fazenda Patos e foi obrigado a transportar em um animal as cabeças cortadas de seus familiares para a casa do tenente José Bezerra, em Piranhas. Faleceu de um acidente em Piranhas, no dia 30 de julho de 1985, aos 54 anos de idade.
“Quando eu passei pelas ruas de Piranhas era dia de feira. O Corisco juntou as cabeças dentro de um caçuá e mandou eu tanger o burro. Nas ruas o povo pensava que o sangue que escorria era carne de bol. E quando eu parei na porta do tenente Bezerra foi que juntou gente”, conta Silvino.

A casa extremada era a residência do tenente José Bezerra, 
para onde a criança Silvino Ventura trouxe as cabeças 
ensanguentadas de seus familiares dentro de um caçuá, 
transportado por um animal – Foto -Rostand Medeiros.
Nega tudo
Joca Bernardo nega a delação ao vaqueiro Domingos Silvino, mas confirma que se encontrou com Corisco. Até o seu relato do encontro – surpresa e, até mesmo, as circunstâncias dele, Joca parece não mentir. Mas na reprodução do diálogo ele acaba revelando uma certa frieza:
“Eu tava juntando o gado quando o Corisco pulou de cima de um lajedo. O Corisco e mais uns cinco cabras, inclusive a Dadá, que foi a minha salvação. Aí o Corisco falou se era verdade que tinham matado Lampião Eu respondi que ouvi dizer. Até ele disse: vou matar muita gente para vingar a morte. E vou começar logo por você. Aí a Dadá ”ó xente, home. Que história é essa? A gente mata quem tem culpa, inocente não,” relatou.

Ruínas da propriedade Patos, onde a família Ventura foi trucidada 
– Foto – Rostand Medeiros.
A História, segundo se sabe através do Sr. Antônio Rodrigues, de tradicional família de Piranhas e político influente na região, é bem diferente. Corisco soube que Joca havia traído Lampião e foi procurá-lo. No encontro, disse que ia matá-lo e Joca, com medo, falou que se morresse, seria inocente. E lamentou que tivesse servido de coiteiro para Lampião e, agora, “qual o pagamento que recebia?”. Corisco titubeou, principalmente diante da interferência de Dadá, e resolveu tirar a história a limpo. Foi então que Joca Bernardo lembrou, maliciosamente, “onde Lampião teria passado antes de ir para Angicos”, seu até então inexpugnável esconderijo.

Lampeão, antes de atravessar o rio São Francisco, passou na fazenda do sogro do tenente Bezerra (o fazendeiro Antônio Brito). Com isso, Joca quis insinuar que o vaqueiro Domingos Silvino Ventura, sempre à disposição para cumprir ordens fazer recado do bando, teria denunciado os planos de Lampeão de se alojar em Angico por alguns dias. A verdade é que Corisco aceitou a justificativa, se não teria evitado o massacre da família Silvino Ventura, de quem sobrou, a propósito, apenas Antônio Silvino, o filho mais novo, na época, do vaqueiro.

Corisco.
Traição a Lampião
Na verdade, Joca Bernardo não tinha nada contra Lampeão – a quem ajudava, na medida do possível, para poder ir levando a vida sem ser molestado pelo seu bando, se bem que tivesse de enfrentar as inconveniências da polícia que sempre se confundia, pelas arbitrariedades cometidas, com os cangaceiros, às vezes, praticando horrores em nome da Lei que a bem da verdade era material, porque estava simbolizava na mira de um fuzil “bem azeitado e municiado”.

Assim, dentro do possível ou de acordo com os conformes, Joca e tantos outros coiteiros se prestavam ao serviço de acoitar Lampião e seu bando porque não tinha mesmo escolha. E entre ser morto pelos cangaceiros ou pela polícia, o que dá, no fundo, no mesmo, era preferível morrer tentando ser fiel a Deus e ao diabo, mesmo sem se saber quem era quem. Ou seja, quem era Deus e quem era Diabo.

Pedro de Cândido.
Mas como a miséria só quer começo, um dos maiores coiteiros de Lampião, Pedro de Cândido – ninguém duvidava da sua ligação com Lampião, mas Pedro vivia imune em Piranhas, no dia em que os cangaceiros se arrancharam em Angico, foi comprar queijo que Joca fabricava. E apesar de sempre levar dinheiro suficiente, dado por Lampião acabava usurpando o chefe e não pagava as mercadorias, o que criava, naturalmente, um clima de animosidade não só para ele, como para o bando.

Tiro fatal

Naquele dia, porém, Pedro de Cândido, inadvertidamente, engatilhou a arma que desfechou em Lampião o tiro fatal. Utilizando-se da fama de valente, talvez imposta pela condição de coiteiro chefe de Lampião, Pedro bateu à casa de Joca Bernardo para comprar “todos os que queijos que tivesse na hora ou a fazer durante os próximos 15 dias”, que era o tempo de descanso dos cangaceiros.

– Foto – Rostand Medeiros.
Joca respondeu que tinha uma encomenda de queijo do Juiz de Pão de Açúcar e não podia ceder o volume já encontrado pronto. O argumento não foi levado em consideração, porque Pedro de Cândido retrucou abusado: – “Cabra safado, eu tou pedindo o queijo e não quero saber de história. Vou levar tudo agorinha mesmo”, recorda Joca.

Apesar de se saber que Pedro era coiteiro de Lampião Joca ainda duvidou para quem seria tamanho carregamento de queijo até que descobriu:

– “Eu pensei assim” – conta ele – “o Pedro não negocia e se quer tanto queijo só pode ser pra muita gente. se é para Muita gente, Lampião tá por aqui.”

Ruínas da propriedade Patos – Foto – Rostand Medeiros.
Joca não reagiu e Pedro de Cândido levou todo o carregamento de queijo que havia sido encomendado pelo Juiz de Pão de Açúcar. Mas naquele mesmo dia o sargento Aniceto, que tinha ficado em Piranhas, enquanto o coronel Lucena, o tenente bezerra e o aspirante Chico Ferreira saíram em diligência por Delmiro Gouveia, atrás de Lampião foi informado da situação. O relate ainda é de Joca.

“Eu fui procurar o tenente Bezerra, mas ele não estava. Encontrei o sargento Aniceto e lhe contei: sargento, saber eu não sei não senhor, mas o senhor quiser saber onde Lampião tá escondido, aperte o Pedro de Cândido que ele diz. Agora só digo uma coisa ao senhor: Lampião está aqui por perto e não veio com pouca gente não. Têm uns 100 homens com ele. E contei também o caso dos queijos que o Pedro me tomou.”

Muro formado por pedras na propriedade Patos. – 
Foto – Rostand Medeiros.
A partir daquele momento começou a contagem regressiva da vida de Lampião e seu bando. Mas como o próprio Joca admite a delação não tinha a intenção de trair Lampião porque, do jeito que até hoje alguém afirme que o cangaceiro não morreu, naquele tempo acreditava-se na sua imortalidade, pelo menos à bala ou à faca. Joca desejava que Pedro levasse uma surra, através do “aperto” da polícia, e não admitia que a polícia desse fim a Lampião, porque o bandido sempre escapava aos cercos ileso, Mas não foi assim: o cangaceiro morreu mesmo.

Recusa

O sargento Aniceto se encarregou de assegurar junto ao tenente Bezerra e ao coronel Lucena o trabalho decisivo de Joca Bernardo, ajudando à Polícia. Aí os dois oficiais chamaram Joca a Piranhas e anunciaram o prêmio: 5 contos de réis e a patente de sargento da Polícia Militar de Alagoas, que lhe seria dada pelo Governo do Estado. Joca recusou as divisas e aceitou apenas o dinheiro, que acabou não recebendo em toda sua totalidade.

– “Eu acho que o Governador mandou o dinheiro todo, mas o portador ficou com um pedaço. Eu só recebi 1 conto e réis,” relembra.

Bela região do Rio São Francisco – 
Foto – Ricardo Trigueiro Morais.
Ele recusou as divisas de sargento, porque teria de vir morar na Capital e um sargento, naquela época, não ganhava suficiente para sustentar uma família. Então, Joca preferiu continuar tangendo gado e fazendo queijo, sem pagar aluguel de casa e sem ter outros gastos que naturalmente teria de assumir se mudasse de cidade e de vida. Mas sua mulher não aceitou a argumentação e como não pôde fazê-lo receber a patente, preferiu abandonar a casa. Foi morar em São Paulo.

Por ironia, quem recebeu as divisas foi o Pedro de Cândido. Joca, que pensava em se vingar da sua violência, não só lhe proporcionou a reaproximação com as autoridades de Piranhas e de Alagoas, como lhe deu a própria chance de ser autoridade, porque logo em seguida ser incorporado à polícia como sargento, Pedro foi nomeado delegado no sertão. E morreu assassinado por culpa, ao que se sabe, de seus dotes de “dom Juan”, sem que lhe respeitassem, ao menos, a posição de delegado.

Joca amarga a fama de traidor – na verdade o traidor é ele mesmo e se não fosse a aposentadoria do Funrural, engordada pelo frete que consegue tangendo urro carregado d’água, estaria na miséria. Sequer conseguiu o intento de fazer Pedro de Cândido levar uma surra porque Pedro, ao ser preso, não reagiu e nem foi difícil contar o esconderijo de Lampião.

Pescado no Tok de História

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Cangaceiros desconhecidos

Quem foi o cabra Manuel Rodrigues de Lima

Transcrição por  Wellington Rodrigues




Esse é Manuel Rodrigues de Lima. Natural da Vila do Espírito Santo (nome de Tabira até 1939) na época distrito de Afogados da Ingazeira. 


Foi membro de um dos subgrupos de Lampião. Primo segundo do meu pai, Jotinha (primo meu de 3° grau). A casa da sua filha, Edite Bastos era bem no meio da rua direita da Praça Pedro Pires. 

O coronelismo, para garantia de privilégios políticos e principalmente as injustiças dos crimes impunes e perseguições eram causas determinantes para se lançar no cangaço. Abaixo (e nas fotos) alguns registros sobre Manuel Rodrigues nos livros dos historiadores Frederico Pernambucano e Frederico Bezerra Maciel.

"Ainda no meado do século XIX, passaram a atuar os "Guabiraba", sob a chefia dos irmãos Cirino, Jovino e João, e do cunhado destes, Manuel Rodrigues. 


Naturais da vila de Afogados da Ingazeira, ao pé da serra da Baixa Verde, no sertão pernambucano, fizeram-se bandidos nas escolas do Pajeú de Flores, onde praticaram tantos crimes que foram obrigados a fugir para Teixeira, na Paraíba. 

Em sua faina de poeta a seu modo historiador, Leandro Gomes de Barros pinta o grupo de Cirino com traços bem carregados;

Os Guabiraba eram um grupo
De três irmãos e um cunhado,
Todos assassinos por índole,
Cada qual o mais malvado
Aquele sertão inculto
Tinha essas feras criado."

Trecho do livro "Guerreiros do Sol - Violência e Banditismo No Nordeste do Brasil. Autor: Frederico Pernambucano"

*Fotos em texto do livro Lampião, seu tempo e seu reinado (Frederico Bezerra Maciel)

quarta-feira, 24 de junho de 2020

E Jurity volta aos tribunais

Veja decisão de Juíza quanto a processo que pedia por censura de filme sobre o chefe cangaceiro

"Memória histórica coletiva se sobrepõe a interesse individual", diz juíza

O interesse coletivo à formação e à informação por meio da base histórica se sobrepõe aos direitos individuais. O entendimento é da juíza Gardênia Carmelo Prado, da 2ª Vara Cível de Aracaju (SE), em decisão proferida no último dia 3 de junho.


 Da esquerda pra direita, Barra Nova, Neném, Jurity e Gorgulho


A magistrada extinguiu, com resolução do mérito, uma ação que buscava condenar a Google e um professor de Sergipe pela publicação de dois vídeos que narram o assassinato dos cangaceiros Jurity e Neném.

Segundo o material, os cangaceiros foram mortos por uma tropa volante comandada pelo sargento Amâncio Ferreira da Luz, conhecido como sargento De Luz. As filhas do militar solicitaram que os vídeos fossem apagados e que os réus pagassem reparação por danos morais.

"O ponto atinente ao direito ao esquecimento, invocado pelas autoras como fundamento da lide e pedidos, quanto às ações laborais do pai envolvendo o cangaço, não pode ser aplicado nesta situação. Nas linhas de narrativa histórica de âmbito nacional ou local com relevância cultural, como foi a do cangaço e de outros movimentos destacados, não pode vigorar e ter seus efeitos ativados esse direito ao esquecimento, mecanismo de extirpação dos registros da história para certas pessoas e em certas situações", afirma a decisão.

Interesse público

A juíza argumentou que, em casos como o julgado, cabe ao magistrado analisar se existe interesse público atual na divulgação da informação. Caso ele exista, não é possível aplicar o direito ao esquecimento.

"Não há como apartar os fatos históricos dos personagens que os marcaram nesta situação em especial, justo porque a atribuição do fato se voltou para o grupo militar identificado pelo seu comandante — cujo nome e fama são emblemas da história do segmento — e extirpar tal dado da narrativa histórica feriria de morte a própria compreensão da história do cangaço, seu contexto, suas ambiências etc. Assim seria também se outros personagens fossem extirpados ou ocultados dessas narrativas", diz.

Sendo assim, prossegue a decisão, a publicação dos vídeos não possui nenhum ato ilícito, uma vez que o material apenas publiciza conteúdo histórico, informativo, fruto de extensa pesquisa, sem sequer trazer menção expressa ao pai das autoras.

"Sem desonrar os sentimentos por ambas [as autoras] experimentados e a veracidade com que devem ser considerados, os vídeos que trazem o conteúdo desse sofrimento não são senão mais uma menção histórica que envolve o nome de parente próprio das mesmas, como um registro inevitável da história da qual aquele participou — nesse caso, emprestando o nome ao agrupamento que comandava. E mesmo que, por hipótese, houvesse a imputação expressa e direta dos fatos ali narrados ao pai das autoras, a imputação em si, numa fiel e desapaixonada narrativa histórica, não seria capaz de ensejar uma indenização, justo por se tratar de conteúdo histórico elaborado e apresentado, em tese, sem intuito algum de ofender, mas tão somente de informar e formar", conclui.

Clique AQUI para ler a decisão
0044386-18.2018.8.25.0001


Publicado originalmente no Portal Conjur

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Jornal "A Noite" 5 de agosto de 1938

A chacina da Fazenda Patos

Transcrição de Antonio Correia Sobrinho

Arrastadas pelos cabelos para a degola! Depois da formidável chacina perpetrada com inomináveis requintes de crueldade, Corisco" e seu bando dançam alegremente ao som do realejo - Poupadas à sanha assassina "para contarem história.

PEDRA (Alagoas), 5 (Dos enviados especiais de A NOITE) – Segundo informações aqui recebidas em Piranhas, “Corisco”, à frente de um grupo composto de oito pessoas, inclusive duas mulheres, foi visto ontem na fazenda Bem-Feita, em Mata Grande. A polícia do Estado, através de suas forças volantes, já está no encalço, nesta direção.


Refere-se também que o assalto à fazenda dos Patos, de propriedade do sogro do capitão João Bezerra, foi realizado sem se disparar um tiro sequer. Todas as vítimas foram degoladas vivas pelos bandidos, o vaqueiro Domingos, sua mulher e três filhos cujas cabeças foram mandadas para o capitão João Bezerra, na falta de prefeito de Piranhas, ausente no momento.
________________

PIRANHAS (Alagoas), 5 (Serviço especial de A NOITE) – O assalto do grupo de “Corisco” à fazenda dos Patos foi realizado pela madrugada. Os bandidos puderam assim aproximar-se sem serem pressentidos, atacando de surpresa as vítimas. Seis pessoas, como já informamos, foram então decapitadas, sendo as cabeças enviadas ao capitão João Bezerra. Acompanhava os despojos, que incluíam duas cabeças de mulher, o seguinte recado: “As cabeças destas mulheres pagaram as duas mortas”.

O grupo de Corisco, depois da chacina, conseguiu montada na própria fazenda, batendo em retirada. Comunicado o fato às autoridades, saiu em perseguição do grupo o sargento Aniceto, que, anuncia-se, já conseguiu a pista dos bandidos.
____________________

IMPRESSIONANTE! – O FESTIM SINISTRO

PIRANHAS, 5 (Dos enviados especiais de A NOITE) – Urgente – Acabamos de chegar a Piranhas, a cidade do interior alagoano que Corisco escolheu para palco do seu sanguinolento revide pela morte de Lampião. Ainda todos os habitantes da localidade se encontram sob a penosa impressão do monstruoso crime. Ouvimos, a respeito, o Sr. Manoel João da Costa, cunhado do vaqueiro Domingos José Ventura, o infeliz morador da fazenda dos Patos que encontrou morte horrível, juntamente com toda a sua família, nas mãos ávidas de vingança do bandoleiro Corisco e seu bando.

Ainda tomado de profunda emoção, o Sr. Manoel João da Costa, narrou-nos o drama tremendo, verdadeiro festim de sangue e horror.
Demos a palavra ao nosso entrevistado:

- “Corisco” chegou noite fechada já na fazenda dos Patos. Eram mais ou menos oito horas. Ao estrepito dos bandoleiros, que se aproximaram como demônios batendo as coronhas das armas no terreiro, a família do vaqueiro Ventura acordou em pânico. Mas nada mais era possível fazer; nem fugir! “Corisco”, à frente do bando, com os olhos verdes fuzilando de ódio, ordena rispidamente à mulher e à filha do morador:

- Faça café para todo o pessoal!

Em seguida, apontando para o vaqueiro e seu filho Manoel, ordena aos seus “caibras” que os levem para trás do curral, o que é feito imediatamente, sem qualquer gesto de resistência dos prisioneiros.
Os dois homens são amarrados e arrastados para fora.

No local escolhido, “Corisco” então contempla mais uma vez com uma expressão de sinistro sarcasmo as duas vítimas e, em voz ríspida, grita para os seus homens, que já haviam desembainhado os punhais agudíssimos:

- Degolem esses bandidos!

HEDIONDO!

- Uma angustiada expressão de desesperança perpassa pelas fisionomias dos homens que iam ser imolados. Inútil qualquer apelo a quem já perdeu o último resquício de bondade humana.
Os cangaceiros escolhidos para carrascos apressam-te para a tarefa macabra. Fuzilam os punhais na meia luz do luar. Rápidas como raios, as lâminas cortam o espaço e duas cabeças tombam sobre a terra, entre golfadas de sangue. Os troncos decepados oscilam ainda uma última vez e caem pesadamente sobre o solo empapado de sangue.

ÓDIO DE BANDIDO

Não satisfeitos em sua insaciável sede de vingança, “Corisco” e seus homens, depois de amaldiçoarem em altos brados as vítimas indefesas, voltam à casa, onde tinham ficado os outros “caibras”, guardando os demais moradores. Um frêmito de horror circula pelo sistema nervoso daquelas pobres criaturas, ao verem de volta o sombrio “Corisco”, cujas pupilas com um ódio inextinguível.

Chegou a vez dos filhos do vaqueiro Ventura: José, solteiro, e Odon, casado. Os facínoras amarram-lhe as mãos para trás, conduzem-nos para o terreiro, e aí, entre imprecauções demoníacas, degolam-nos de um só golpe, com a sua alucinante maestria de sangradores.

AGORA AS MULHERES!

- Agora as mulheres! – grita “Corisco”, enquanto seus homens agarram pelos cabelos a mulher e a filha do vaqueiro, Guilhermina Nascimento Ventura e a jovem Waldomira Ventura.
- Vocês vão pagar a morte de Maria Bonita e Enedina – diz o bandido olhando para as mulheres.
Nenhuma sombra de piedade naquelas fisionomias que só o ódio sabe fazer vibrar. As mulheres são brutalmente arrastadas para fora, e ainda o feroz “Corisco”, com a sua impassibilidade desumana, ordena e assiste ao seu degolamento.

MÚSICA!

- Parece momentaneamente aplacada a cólera do chefe. Seus cabeças jazem sobre o solo, imobilizadas numa última expressão de angústia e sofrimento. Mas nada comove o bandoleiro empedernido. Gritos de satânica satisfação atroam os ares. É a alegria das feras saciadas. Os bandoleiros estão superexcitados. Voltam à casa, no meio de um vozerio infernal. “Corisco” ordena então que se comemore condignamente a vingança.

Manda transformar em salão de baile a sala da casa assaltada. E, estimulados pela cachaça, entregam-se a desenfreadas manifestações de alegria, dançando e gritando. Alguns dos bandidos trazem violas e realejos com que animam a dança. É um festim macabro. Pantomina de horror e sangue. Farândula de demônios alucinados.

O SAQUE – BILHETE AO CAPITÃO BEZERRA

- Quando se dão por satisfeito, “Corisco” ordena o saque geral da fazenda, depois do que dá instruções para a retirada. Dirigem-se todos para a fazenda Pedrinhas, próxima à fazenda dos Patos, pertencente também ao Sr. Antônio José de Brito, vulgo, “coronel Antonio Menino”. Aí então “Corisco” redige uma carta injuriosa e violenta ao capitão Bezerra, endereçando-lhe as cabeças sangrentas. Entrega o bilhete ao portador, que foi o vaqueiro João Crispim Moraes, dizendo:

- Vá entregar isto ao tenente Bezerra. Diga a ele para comer uma, frita. Na falta dele, entregue ao prefeito.

POUPADOS PARA CONTAREM A HISTÓRIA!

- Os bandidos deixaram vivos três outros filhos do vaqueiro Ventura: Antonio, de doze anos, Silvino, de dez e Carmelita, de onze.

Por isso, ao despedir-se do portador da macabra encomenda, “Corisco” acrescentou:

- Os meninos ficaram para contar a história. Mas brevemente voltarei para matá-los, pois faço questão de extinguir toda a raça daquele vaqueiro traidor, que nos denunciou à polícia.
As cabeças foram enterradas no cemitério da cidade, sendo que aos corpos foi dada sepultura cristã na fazenda Patos.




 Os meninos com o jornalista Melchiades da Rocha
Acervo Robério Santos

O vaqueiro tão tragicamente trucidado tem ainda uma filha que reside em companhia da família do “coronel Menino”. Receia-se aqui nova façanha dos bandidos, que prometeu vingar a morte de Lampião impiedosamente.

Na carta dirigida ao tenente Bezerra enviando as cabeças, diz “Corisco”: “Matei duas mulheres para vingar a morte de Maria Bonita e Enedina.

A esposa de Odon Ventura, que também se encontrava na casa assaltada, foi perdoado pelos bandidos em virtude de ter dato à luz há oito dias. A criancinha também nada sofreu. Os três filhos sobreviventes do vaqueiro que foram mandados por “Corisco” juntamente com as cabeças de seus pais e irmãos, nada quiseram declarar.

Seguimos viagem para Angicos


Na mesma edição do dia 05/08/1938, este mesmo jornal, sobre a chacina na fazenda Patos, publicou notícia de uma outra fonte, a Agência Nacional, nos seguintes termos:


MACEIÓ, 4 (Agência Nacional) – A população desta capital continua sob a forte impressão da vindita tomada por Corisco e seu bando, composta todo ele dos fugitivos da fazenda Angicos. Os jornais dão amplo noticiário do fato sangrento. Conhecem-se, agora, os mortos da fazenda de Patos, onde Corisco chegou de surpresa, não tendo sido possível nenhuma resistência.

Chegou e não conversou. Amarrou todas as pessoas encontradas, em número de seis, fuzilou-as, cortando, depois as cabeças e mandando-as num saco para o prefeito de Piranhas, com um bilhete, no qual dizia que as onze cabeças da fazenda de Angicos fariam rolar muitas outras. O saco com o presente macabro foi levado por uns caboclos, que chegaram a Piranhas pela madrugada. Esses caboclos, que vivem nas redondezas onde se deu a chacina, foram obrigados a cumprir a tarefa, sob a ameaça de que se não levassem o saco e não o depositassem no lugar determinado, mais tarde seriam sacrificados e decapitados.

O saco foi encontrado pela criada do prefeito, no batente da porta da rua. Alarmada, a empregada saiu correndo e gritando. As pessoas da casa vieram ver o que se passava, e deram com aquela coisa horrível. O prefeito de Piranhas também foi ver e deparou com as cabeças, empapadas em sangue e terra. A notícia espalhou-se com rapidez, e dentro em pouco a residência do chefe do executivo municipal estava cercada por uma multidão de curiosos, que ali ficou comentando a trágica represália, entre indignada e transida de pavor.

BRUTAL!

MACEIÓ, 4 (A. N.) – As pessoas mortas e decapitadas na fazenda de Patos pelo bandoleiro Corisco, em revanche à morte de Lampião, foram o vaqueiro do coronel Antonio Brito, sua mulher e quatro filhos menores. A família do proprietário da Fazenda lá não se encontrava. Mas a vingança foi tirada, somente porque essas pessoas trabalhavam para o coronel Brito, que é, como já mandamos dizer, avô da esposa do atual capitão João Bezerra. Corisco, entretanto, depois de sacrificar seis vidas inocentes, num ato de incrível barbaridade, incendiou a fazenda, que é, agora, por informações de pessoas vindas de lá, um campo ressequido e devastado.

NO COMANDO DAS FORÇAS VOLANTES

MACEIÓ, 4 (A. N.) – O primeiro-tenente Francisco Ferreira de Mello, por determinação do coronel Lucena, assumiu o comando das tropas volantes, que saíram em perseguição do novo bando de cangaceiros, chefiado por “Corisco”.

 Silvino Ventura, filho de Domingos Ventura
morreu vitima de um acidente em Piranhas, 
em dia 30 de julho de 1985, aos 54 anos.


Imagens: Acervo Lampião Aceso.

sábado, 20 de junho de 2020

Foto rarissima

Os donos da Carnaúba



O casal Napoleão Franco da Cruz Neves, da fazenda Carnaúba em São José do Belmonte,PE (em cujas terras Lampião assume em 1922 a chefia do bando) e Donana Neves do Jardim (Ana Pereira Neves, irmã do coronel Manoel Pereira Lins, o "Né da Carnaúba). Ao lado dela se terno escuro um dos vários Pereiras que se homiziaram em suas terras (segundo Dr. Napoleão estava se recuperando de ferimentos sofridos nas pelejas do Pajeú).

Atrás dele, Joaquim Pereira Neves, pai do Dr. e escritor Napoleão Tavares Neves.

Nesta mesma propriedade, em 1926, Lampião recebera a carta do padre Cícero Romão para ir até o Juazeiro.


A foto é de 1920.- Acervo: Leandro Cardoso Fernandes.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Série: O cangaço e eu

Clidinho e Netinho 

Euclides de Souza Ferraz Neto - "Clidinho" e Hildebrando de Souza Nogueira Neto - "Netinho", descendentes diretos dos nazarenos, falam um pouco de suas raízes e de seus antepassados que participaram da campanha contra o cangaço.



Pescado no canal de Aderbal Nogueira

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Imagens raras

Funerais do Beato José Lourenço
.
Após os fatos do Caldeirão e da Mata dos Cavalos, o Beato José Lourenço montou em Exu, no Pernambuco, o Sítio União, onde viveu até fevereiro de 1946.

Acometido de peste bubônica, o beato encantou-se em 12 de fevereiro de 1946. O pranto dos homens e mulheres que viviam no União, foi derramado pelas muitas léguas que separam Exu e Juazeiro. A pé, trouxeram seu corpo para a terra do Padre Cícero, e aqui o beato não teve direito a missa de corpo presente. Tanto na capela de São Miguel, quanto na do Socorro, somente portas fechadas, os padres negaram.




O enterro se deu no Cemitério do Socorro, após as exéquias improvisadas, e até hoje seus restos mortais lá repousam.


FONTE: Cariri das antigas
TEXTO: @robertojunior.cda
FOTOS: Acervo de Renato Casimiro e Daniel Walker.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Histórias de Tuparetama, PE

Quando o cangaceiro Zezé Patriota assombrou Assombrou Bom Jesus

Por Tárcio Oliveira

Nas primeiras décadas do século passado grupos de homens armados, justiceiros e ao mesmo tempo saqueadores amedrontavam o sertão nordestino. Eram os chamados cangaceiros sendo Lampião e seu bando o mais famoso deles. Na nossa região, sertão do Pajeú na divisa com a Paraíba tiveram atuação mais recorrente dois bandos, o do cangaceiro Antônio Silvino e o comandado por Zezé Patriota.

O grupo chefiado por Zezé Patriota teve curta duração e também ganhou fama pela perversidade que praticava. Um exemplo da crueldade com que atuava Zezé Patriota e seu bando aconteceu na zona rural de Tuparetama, na estrada entre o sítio Seixo e a Liberdade.

Para seu azar, o agricultor e pai de família Francisco Fidélis topou com Zezé Patriota e parceiros quando se dirigia para a casa onde morava, no Sítio Melancias. Francisco Fidélis foi reconhecido pelo cangaceiro, que o tinha entre os desafetos. É que anos atrás, numa festa junina, ao disparar um tiro de bacamarte durante as comemorações no terreiro em torno da fogueira (tradição muito presente nas festividades da época) um menino parente de Zezé Patriota fora atingido e falecera. A tragédia foi acidental, mas o cangaceiro jurou vingar a morte do parente. E a oportunidade surgiu naquela tarde no caminho da Liberdade.


Antes de matar o agricultor Francisco Fidélis, os cangaceiros arrancaram suas unhas e seus olhos a ponta de faca, O crime chocou e deixou assustada a população do povoado(***).

Por motivo das investidas dos bandos da cangaceiros na região, por essa época, em 1926 as senhoras Francisquinha Venâncio, Clara Véras e Ritinha Gabriel doaram à Capela do Sagrado Coração de Jesus, na Vila Bom Jesus (hoje Tuparetama) a imagem de Nossa Senhora do Desterro, como pagamento antecipado de uma promessa para ‘desterrar os revoltosos, jagunços e bandidos que revolucionavam a região’. Segundo os mais antigos¹, a comunidade considerou de muito êxito tal promessa, pois com a chegada da imagem da santa, eles se afastaram da região.


Cruz marca o local onde Zezé Patriota foi morto


De fato em 1927 foi morto o cangaceiro Zezé Patriota aos 31 anos de idade na divisa entre Pernambuco e Paraíba. O fato ocorreu em 30 de agosto, pela volante do tenente Alencar.

Há um bom tempo o tenente Alencar fazia diligências para pegar o cangaceiro e a oportunidade finalmente surgiu no dia de feira de Umburanas (hoje, Itapetim) quando encontrou os irmãos de Zezé Patriota, chamados de Caboclinho e Levino Patriota. Caboclinho conseguiu escapar do interrogatório mas Levino foi espancado e forçado a informar o paradeiro de Zezé Patriota.

Vila de Bom Jesus

O tenente seguiu com o policiamento ao encalço do cangaceiro. No caminho cercaram e trocaram tiros com parte do bando de Zezé na fazenda São Pedro indo em seguida para o Sítio Mocambo. Avisado da aproximação do tenente Alencar e sua volante, Zezé Patriota não fugiu. Havia sido baleado na perna num confronto dias antes noutra fazenda e estava com o membro granguenado.

Ao chegar no local onde estava o Zezé Patriota ferido e debilitado, o tenente Alencar certificou-se de que se tratava do cangaceiro procurado e deu ordem para os soldados atirarem. Zezé morreu no local, sem reagir. Contam que ele só foi enterrado dois dias depois, por familiares, no cemitério de Umburanas.


Com informações orais coletadas de Elias Souto (Tuparetama)
e via internet, atribuídas a Bernardo Garappa Ferreira (Itapetim).
(¹) As informações foram dadas por Eutrópia Perazo (Tofinha) e Valfredo Leite,
durante a pesquisa para o Tuparetama, Livro do Município, em 1998 e 1999

terça-feira, 2 de junho de 2020

O Estado de S. Paulo 21/10/2001

Afinal, quem decapitou Maria Bonita? Os volantes Cecílio, Bertoldo ou "Negro"

Por Leonencio Nossa
(Transcrição de Antonio Corrêa Sobrinho)

“NEGRO”, QUE ERA POLICIAL NAQUELA ÉPOCA ,
GARANTE QUE MARIA BONITA JÁ ESTAVA MORTA


OROCÓ (PE) – Ele ajudou a cortar a cabeça de Maria Bonita com faca tão afiada quanto a própria memória. Depois de trocar tiros e punhaladas com cangaceiros na juventude, Augusto Gomes de Menezes, um policial aposentado que acaba de completar 85 anos, virou contador de histórias do cangaço e de Orocó, cidade sertaneja a 620 quilômetros do Recife, às margens do rio São Francisco. Um lugar violento e pobre, com 10 mil moradores, onde mais de 5% das crianças morrem nos primeiros dias de vida.

Negro, como era chamado pelos colegas de polícia, participou de um capítulo decisivo da história do Sertão. O cenário é a fazenda Angicos, em Flor da Mata, atual Poço Redondo (AL), na manhã de 28 de julho de 1938. O bandido Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, escondia-se no local com seus homens. “Morreram nove cangaceiros e duas cangaceiras, Enedina e Maria Bonita”, inicia a prosa.

“Maria Bonita morreu pertinho dele, Lampião, assim como daqui ali naquela parede”. Sentado numa cadeira de plástico, na sala da casa de estuque, onde mora com duas filhas, Negro não reivindica papel de destaque na ação que resultou na decapitação do bando de Lampião. “Quando eu cortei a cabeça dela (Maria Bonita), não estava mais viva, não”, diz. “Num combate anterior, eu gritei pra ele (Lampião): ‘Traz tua mãe, filho da peste, pra tirar raça de homem valente!’ Ele gritava pra gente também: ‘Taca espora na tua mãe, aquela égua’”, exclamou.

Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, do Recife, Frederico Pernambucano de Mello afirma que Negro é personagem desconhecido pela história, talvez por ter sido soldado raso da campanha contra Lampião.

Na avaliação de Mello, o depoimento do aposentado ao “Estado” não apresenta contradições, especialmente na descrição do massacre de Angicos, e preenche lacunas, como por exemplo, a morte do cangaceiro Mané Velho, em 1937. O pesquisador planeja uma viagem a Orocó para conhecê-lo.
Hormônios – O aposentado mostra uma foto da época. “Este aqui sou eu”, aponta para um dos retratados. “Já este aqui é o cabo Terror, que tinha esse apelido porque era um terror mesmo.” Negro desafia o crespúsculo de Orocó. Entre um cigarro de palha e outro, vai construindo imagens mais vivas que o presente, feitas de duelos e sangue.

“Só de bornal nas costas eu tenho cinco anos”, fala numa alusão ao período em que ficou isolado na caatinga. “Desses cinco anos, só descansei oito dias”. Negro ri do fato de o povo de Orocó ter pensado que ele deu o primeiro tiro em Lampião. O aposentado esclarece que não foi bem assim. “Muita gente ainda jura que ele morre por mim, não sabe?” Negro deixa claro que só quem viveu o período é capaz de acreditar nos feitos atribuídos a Lampião. “Numa fazenda em Simão Dias, mataram dois rapazes, defloraram uma moça e cortaram a língua de uma velha”, diz. “A gente perguntou a ela o que acontece, e ela: ahhh... Não disse nada. Coitada, não tinha culpa, pois não tinha língua.”

Homens valentes e mulheres decididas não fizeram sozinhos a história do cangaço. Muitos integrantes do bando de Lampião viviam a explosão dos hormônios. Menores também foram usados na repressão aos bandidos. Negro era um deles. Nascido na cidade baiana de Curaçá, em 1916, foi recrutado ainda menino pelo governo. Não tinha completado 22 anos quando participou do combate de Angicos.


 Augusto Gomes de Menezes (Negro)
“Com 14 anos peguei na espingarda para perseguir gente ruim e só saí quando acabou o derradeiro, em 1941”, afirma, numa referência ao fim do cangaço. E era na caatinga, longe das vilas e cidades que os meninos descobriam a sexualidade. A caça aos cangaceiros levava os jovens das volantes a ficarem meses afastados de mulheres. O jeito era se virar com animais ou, se tivessem sorte, cangaceiras capturadas.

PARA PEGAR BANDIDO NA CAATINGA , SÓ SE FOR A PÉ

Policial aposentado discorda dos meios usados pela polícia e pelo Exército.

Um dos últimos sobreviventes do combate de Angicos, o policial aposentado Augusto Gomes de Menezes, o Negro, discorda das ações atuais das polícias e do Exército contra assaltantes de caminhões e traficantes de drogas em Pernambuco. Ele releva o fato de os fuzis e as metralhadoras terem substituído os punhais no sertão. “Eu não posso informar nada da polícia de hoje, mas o que eu acho é que carro com sirene não é modo de perseguir gente ruim”, afirma. “Na caatinga não dá para entrar de carro.”

Negro lembra que para caçar cangaceiros o jeito era andar a pé, sem mula ou viatura. Vida na caatinga era à base de carne, farinha e rapadura. A farinha ficava no bornal. O jeito era meter a mão no bornal. “A gente não tinha tempo de assar carne, comia crua mesmo, tirava a dente”, conta. A escassez de água levava o grupo a apelar para a rapadura. “A gente passava até sete dias sem beber”, dramatiza. “Isso escureceu a vista de todo mundo.”

O policial aposentado se casou e enviuvou duas vezes. Da primeira união, com Ocília Barbosa, em 1940, nasceram dez filhos. A mulher morreu 33 anos depois, quando os dois já estavam separados. “Ela caiu de repente e morreu”, lembra. Quem também morreu por nada, há oito anos, foi Antônia Maria do Nascimento, com quem teve mais oito crianças. Dos 18 filhos de Negro, restaram dez.

Amigos não faltam; de solidão, reclama pouco. O maior problema, segundo ele, é o salário mínimo que recebe da Previdência Social.

A casa de Negro não tem televisão nem guarda-roupas. Também faltam baús. Segredos e histórias de uma polícia violenta e criminosa estão na memória do homem que após participar das volantes foi chamado para lutar na Segunda Guerra Mundial – chegou a se apresentar em Salvador, mas a guerra acabou uma semana antes.

Negro colaborou com o Exército na repressão aos integralistas da Bahia, durante o Estado Novo de Vargas, e no auge do regime militar, nos anos 60. Sobre essa época, pouco revela. Desconfia-se que passava informações sobre a geografia da região. “Depois de sair da volante, eu trabalhei nesse negócio de pistolagem”, diz sem ir adiante. Em 1965, no governo do marechal Castelo Branco, gente do Exército andou prometendo “coisa” para o policial aposentado. (L.N.).

PARTILHA DE BENS DO CANGAÇO GERAVA DISCÓRDIA ENTRE POLICIAIS

Tenente teria ficado com maior parte do tesouro do bando de Lampião
Os macacos, como os policiais eram chamados pelos cangaceiros, travaram duelo particular pela divisão do tesouro do bando de Lampião. Um dos integrantes da volante que massacrou os criminosos, em 1938, Augusto Gomes de Menezes, o Negro, revela que o chefe, o tenente João Bezerra, morto nos anos 70, ficou com a maior parte da fortuna, cerca de 1200 contos de réis e cinco quilos de ouro. O prêmio máximo da Loteria Federal valia, à época, 200 contos de réis. “A gente tinha ordem do presidente que quem matasse cangaceiro ia ficar com os objetos dos mortos”, diz.
Negro afirma que o tenente não repartiu a fortuna e dá a lista dos nomes dos colegas de farda que teriam sucumbido numa suposta operação travada por João Bezerra para evitar a partilha. “Zé Gomes foi morto por um pistoleiro e Mané Velho conseguiu escapulir.”

Mais de 60 anos depois da maior façanha da volante, Negro ainda tem raiva do tenente. “Eu não fui perseguido pelo João Bezerra, mas ao mesmo tempo posso dizer que fui; eu trabalhei demais”, diz resignado. “eles prometeram um negócio para mim e nunca saiu.” Ele jura que não ficou com nenhum pertence dos cangaceiros. “Eu peguei dez contos de réis de um, mas um colega me traiu.”

O pesquisador Frederico Pernambucano de Mello desconhece as perseguições, mas confirma a revolta dos soldados e a promessa de partilha. Há 40 anos estudando o cangaço, Mello diz que Mané Velho era homem violento e que causava medo entre os colegas. Após o massacre de Angicos, Mané Velho cortou as mãos do cangaceiro Luís Pedro para ficar com os anéis de ouro.

Fotos das revistas da época mostram as cabeças dos onze cangaceiros expostas na escadaria da prefeitura de Piranhas, em Alagoas. O crânio de Lampião aparece no centro. A mórbida cena é atenuada pelos chapéus com pedaços de ouro e signos de Salomão e pelos bornais. “A estética do cangaço é uma arte nascida em circunstância de conflito; seus símbolos não são apenas estéticos, mas possui funções místicas”, avalia Mello, um dos curadores da Mostra do Redescobrimento.

“Numa comparação universal, o traje do cangaceiro só se compara ao do samurai japonês.” Nas andanças pelo sertão, Mello encontrou pessoas que afirmaram que a cena de maior impacto na vida foi ver o bando de Lampião. “Tinha-se a impressão de que o grupo, ao chegar às cidades, estava trajado como se fosse pular carnaval”, diz. “Era uma mistura de pavor e êxtase; um êxtase estético, épico e viril.” (L.N.).

sábado, 30 de maio de 2020

Nota de pesar

Morre o cordelista e radialista cearense Arievaldo Vianna, aos 52 anos



Morreu neste sábado (30), o poeta popular, radialista, ilustrador e publicitário cearense Arievaldo Vianna, aos 52 anos. Amiga do artista, a cordelista e hematologista Paola Torres informou que a causa do falecimento foi uma infecção bacteriana severa.Natural do município de Madalena, artista é um dos nomes mais importantes da poesia popular do Brasil.

Conforme publicação feita pela esposa, Juliana Araújo, nas redes sociais, Arievaldo deu entrada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital local na última quinta-feira (28).

No texto, ela destacou que o poeta "é um homem íntegro, um pai responsável, amoroso, um marido amado" e que convive com ele desde os 17 anos de idade. "Metade de minha vida foi com ele".

Criador do projeto Acorda Cordel na Sala de Aula  – que utiliza a poesia popular na alfabetização de jovens e adultos, adotado pela Secretaria de Educação, Cultura e Desporto de Canindé e diversos outros municípios brasileiros  – Arievaldo Vianna é um dos maiores nomes das letras do Ceará.
O artista percorreu mais de 10 Estados ministrando oficinas e realizando palestras sobre Literatura de Cordel. Atuou como consultor e redator de uma série de programas da TV Escola, também tendo como foco uma das maiores paixões, o cordel.

Em 2000, foi eleito membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, na qual ocupa a cadeira de nº 40, patronímica de João Melchíades Ferreira.

Teve também alguns trabalhos escritos em parceria com outros poetas, a exemplo de Pedro Paulo Paulino, Jota Batista, Klévisson Viana (irmão), Gonzaga Vieira, Zé Maria de Fortaleza, Manoel Monteiro da Silva, Rouxinol do Rinaré e Marco Haurélio.

O poeta parte deixando esposa, os filhos Daniel, Mariana, Yuri e João Miguel, e uma legião de admiradores dos ofícios que executou.

Homenagens

A Secretaria da Cultura do Ceará emitiu nota de pesar pela morte de Arievaldo.

"Pai, companheiro, amigo, irmão de cordelista e escritor Klévisson Viana, e grande artista, Arievaldo nasceu em Quixeramobim, e se fez um cordelista que trazia na escrita a luta do povo, as marcas da política, as palavras fáceis e críticas deste e de outros tempos", traz a nota.

Fabiano Piúba, gestor da pasta, também se manifestou: "Perdemos não só um grande poeta e difusor da literatura de cordel nos ambientes culturais, mas, principalmente nas escolas, promovendo nos mais diversos rincões do Brasil a promoção da leitura através da literatura de cordel. Perdemos um amigo".

O poeta Rouxinol do Rinaré expressou os sentimentos pelo cordelista por meio de algumas estrofes:

Uma nuvem de tristeza
Pairou sobre nosso Estado...
O Cordel está de luto,
Todo poeta abalado,
Arievaldo Viana
Foi pra mansão soberana,
Porque por Deus foi chamado!

Nos deixou grande legado
Como poeta sem-par
Imortal entre seus pares,
Sem dúvidas posso afirmar.
A perda é triste demais,
Pedimos ao Pai dos pais
Pra família confortar!

A saudade vai ficar
Nos lembrando dia a dia
Dos seus cordéis, dos seus causos
Recitados com alegria...
Vá em paz, poeta nobre,
A Terra fica mais pobre
E o céu rico de poesia!

Também são diversos os relatos emocionados de artistas da palavra nas redes sociais em reverência ao grande legado de Arievaldo Viana.

A doutora e poeta Paola Torres conta que estava preparando um livro em parceria com ele, uma ficção em cordel que descrevia o encontro entre Guimarães Rosa, Ariano Suassuna e Euclides da Cunha. Klévisson Viana também fazia parte da obra.

"O Arievaldo foi um dos poetas que mais se aproximaram de poetas geniais. Ele é um segundo Leandro Gomes de Barros, um segundo Patativa [do Assaré]. Não era um simples poeta, era um poeta genial. Ele tinha uma beleza, uma potência, uma criatividade, como chargista, desenhista... Era uma pessoa lúcida demais, detentora de um conhecimento histórico do cordel. Ele era a própria história do cordel. Era um pesquisador apaixonado por histórias", afirmou a artista.

Compadre de Arievaldo, o cordelista Stelio Torquato Lima publicou, nas redes sociais, o pesar pela partida do poeta.

    "Ficamos todos nós órfãos de um artista ímpar e de uma figura incomparável. Eu, compadre dele, fui um aprendiz privilegiado, pois usufruí da sua companhia, em sua casa, em viagens, em eventos. Fica sua obra belíssima para servir de testemunho de seu talento às novas gerações que não terão mais o prazer de vê-lo recitar, de ouvi-lo palestrar, de acompanhá-lo em rodas de conversas, em que sua maestria na arte do humor se exibia com tanta graça".

A também cordelista Julie Oliveira, uma das integrantes da nova safra da arte em versos populares no Ceará, escreveu: "Um dia triste para todos nós do cordel, da arte.Esteja em paz, Arievaldo Vianna. Os poetas não morrem, apenas mudam sua poesia de lugar, e a sua estará sempre conosco. Muito triste de não podermos abraçar a Klévisson Viana e Juliana Araújo nesse momento. São tempos difíceis, mas não perderemos a esperança".

O escritor Bruno Paulino, que dividiu a pena com Arievaldo no livro "Os Milagres de Antônio Conselheiro", sublinhou os diferentes papéis que o artista ocupou em sua vida.

    "Primeiro o Arievaldo Vianna foi meu Patativa do Assaré e meu Monteiro Lobato. Depois foi meu professor e o cara que mais me apresentou gente e abriu portas no meio literário. Foi o companheiro de boêmia mais engraçado que conheci, o maior contador de causos do mundo. Por fim, foi meu parceiro em muitos projetos. Talvez a pessoa que eu mais entrevistei e com quem mais participei de mesas literárias até hoje. Não é possivel mensurar o legado de uma obra tão grande e de qualidade como a do Arievaldo".

Por sua vez, a editora cearense Imeph, que publicou vários livros do artista, destacou: "O céu ganha mais uma estrela e o mundo perde esse grande e talentoso artista! Obrigada por ter compartilhado conosco tanto conhecimento e tanta cultura!"

Trajetória

Nascido na fazenda Ouro Preto, em 18 de setembro de 1967 - antes pertencente a Quixeramobim e hoje parte integrante do município de Madalena -, o artista, xilogravador e poeta passou a infância e parte da idade adulta no Sertão Central, tendo toda a formação cultural formada através das cantorias e da leitura do cordel.

"Fui alfabetizado com a ajuda do cordel, era a leitura que mais me agradava, ficava pedindo para minha avó ler 'João Grilo' e a 'Chegada do Lampião no Inferno'", explicou ele em entrevista ao Diário do Nordeste, em 2017.

À época, estava lançando o livro "Encontro com a consciência", da editora Imeph, em comemoração aos 50 anos de vida.

Juntando sílaba por sílaba, o futuro poeta já lia suas histórias sozinho, aos três anos de idade. Propagador do cordel como ferramenta de educação, desde criança já demonstrava a veia literária.

    "Na escola tinha aquelas leituras em voz alta, onde você precisava escolher entre texto de prosa e poesia. Sempre tive preferência pela poesia e procurava textos desse tipo para declamar", ressaltou.

Residindo em Canindé dos 12 aos 25 anos, Arievaldo Vianna traz traços nordestinos em todos os livros que escreveu e ilustrou, mesmo trabalhando com temas urbanos - como fez na adaptação das obras de Cervantes, em que aqui e acolá encontra-se uma palavra nordestina.

Vivendo desde 1993 em Fortaleza, trazia à fala a dificuldade de se viver somente de literatura no Brasil e lembrava que já trabalhou em diversos ofícios ao longo da vida - por exemplo, quando morou em Canindé foi camelô e, por conta disso, teve oportunidade de conviver com a romaria, que muito o inspirou culturalmente.

Ao longo de cinco décadas, o autor publicou mais de 30 livros e cerca de 150 folhetos de cordel, tendo sido premiado em diversos concursos literários e quatro vezes selecionado pelo Ministério da Educação, através do extinto PNBE (Programa Nacional da Biblioteca na Escola).

Pescado no Diário do Nordeste

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Aderbal Nogueira aperta o rec....

Diz aí Sergio Dantas

Um dos mais respeitados pesquisadores e escritores do movimento cangaço, o pesquisador potiguar Sérgio Augusto de Souza Dantas, fala um pouco sobre suas andanças e também sobre a vida do famoso Corisco, o Diabo Loiro.

 Parte 1


Parte final


Pescado no essencial Canal de Aderbal Nogueira clique aqui e inscreva-se

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Vila de Nazaré 1969

Símbolo de resistência contra o cangaço

 Pescado no canal de Fabiano Ferraz

Imagens do documentário sobre o Ex-comandante Geral das Forças Volantes, o Nazareno Manoel de Souza Ferraz (Manoel Flor) e o Ciclo do Cangaço, realizado pela Empetur (Empresa Pernambucana de Turismo de Pernambuco) e TV Universitária, órgão suplementar da Universidade Federal de Pernambuco, com o apoio da Prefeitura de Floresta.

Gravações realizadas na Vila de Nazaré  no ano de 1969, nos escombros da casa em que nasceu Virgolino Ferreira da Silva na Passagem das pedras e em sua posterior moradia no Poço do Negro.

A filmagem faz parte do projeto da jornalista, pesquisadora e escritora Marilourdes Ferraz, com roteiro dos jornalistas Carlos Garcia e Marilourdes Ferraz e com a participação dos jornalistas Duda Guennes (à época residente em Portugal) e o premiado cinegrafista Rucker Vieira.





Material cedido para o projeto de pesquisa intitulado "Abismos do Cangaço" de autoria de Fabiano de Souza Ferraz

segunda-feira, 11 de maio de 2020

CEEC apresenta:

Seminário online "Corisco não se rendeu"!
 



É com grande prazer que te convidamos para participar do Seminário Online "CORISCO NÃO SE RENDEU: 80 Anos da morte do Diabo Loiro e da Prisão de Dadá" que acontecerá na Fanpage do evento no Facebook.

Para fazer sua inscrição basta curtir a página e aguardar até o dia 25 de maio de 2020, quando postaremos os vídeos com as falas de nossos convidados.


Clique aqui para se curtir e aguardar


 



O seminário é uma iniciativa do Centro de Estudos Euclydes da Cunha - CEEC da Universidade do Estado da Bahia - UNEB e conta com o apoio do Arquivo Liandro Antiques - História e Genealogia de Barra do Mendes - BA, da Coordenadoria de Documentação e Memória da Polícia Militar da Bahia - PM/BA e da Diretoria de Audiovisual - DIMAS da Fundação Cultural do Estado da Bahia - FUNCEB.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Jornal o Globo, 5 deoutubro de 1975

O último dos cangaceiros do nordeste vai ser solto

Depoimento de Marcos Alexandre da Costa, vulgo Curió
transcrito por Antonio Correa Sobrinho

Preso desde 1945, Curió está na Penitenciária Agrícola de Itamaracá, trabalhando no viveiro e recebendo Cr$ 30,00 por semana, mas, antes disso passou 27 anos na antiga Casa de Detenção de Recife. Embora ele conte uma história diferente, os registros da Penitenciária mostram que Curió foi condenado por quatro crimes – e não por sua atuação no bando de Virgulino Ferreira – pois todos os crimes foram praticados após a morte de Lampião e a dispersão do bando.

Dos quatro processos que envolvem o nome do ex-cangaceiro, dois são por assassinatos praticados em Alagoas e no Maranhão e os outros dois por furto e latrocínio nos municípios, pernambucanos de Canhotinho e Nazaré da Mata. Mas Curió declara que antes de 1945 esteve preso em Alagoas porque se entregou:

- Foi no mesmo ano em que a Polícia matou Lampião – explica Marcos Alexandre da Costa – eu e mais 19 jagunços resolvemos nos entregar ao comandante do II Batalhão de Polícia de Alagoas, porque o bando tinha ficado sem chefe e nós queríamos acabar com as perseguições. Fiquei preso dois anos, até 1940, e depois o Presidente da República mandou soltar todo mundo. Aí viajei para São Paulo e foi entre as visitas que vinha fazer aqui no Nordeste que pratiquei os quatro crimes, porque faziam pilhérias comigo.

Curió acha que somente com emprego certo poderá terminar a vida tranquilo e parado num lugar porque desde menino sempre gostou de andar pelo mundo.

 

 Curió aos 34 anos, 
quando entrou pra cadeia...

GANHAS O MATO

Ele entrou para o bando de Lampião em 1934, com 27 anos, mas antes morava em Recife e negociava com cereais no Mercado de São José. O desejo de viver andando pelo mundo e o fato de ter matado duas pessoas durante uma briga levaram-no a sair da capital pernambucana e “ganhar o mato”.

Em Alagoas encontrou o bando de Lampião e, através de Velocidade, Pinga Fogo e Santa Cruz todos seus amigos e cangaceiros, foi logo aceito no bando para trabalhar como cargueiro, “a pessoa que ia fazer as compras quando o bando parava em alguma cidade”.


 O cabra Velocidade após as entregas

- Com o grupo eu fiquei até o dia em que mataram o chefe. Ganhei o nome de Curió porque gostava muito de subir em árvores, feito passarinho.

Curió conta que no dia da morte de Lampião estava dormindo juntamente com 21 cangaceiros a uma distância de um quilômetro do local onde se encontrava o chefe, Maria Bonita e mais nove jagunços.

- A Polícia matou todos eles e nós, quando ouvimos os tiros e corremos para lá só tinha gente morta, as cabeças de Lampião e Maria Bonita cortadas; mas tudo foi traição do tenente João Bezerra, que se dizia amigo do chefe e tinha jogado dados com ele no mesmo dia em que cometeu o crime.

 

 ... E após 30 anos de prisão, 
esperando a sonhada liberdade.

ATAQUES DO GRUPO

Com o bando de Lampião, o ex-cangaceiro viajou por quase todo o Nordeste, “desde a Paraíba até São Luiz do Maranhão e tudo feito a pé ou a cavalo”. Mas sobre os ataques do grupo às cidades em que chegava. Curió nada explica. Diz apenas: - Lampião só matou para se defender e era amigo de todo mundo, dos policiais e dos fazendeiros, andando livre por todo canto.

Para Curió, Lampião é um ídolo; honesto, corajoso “e também não gostava muito que a gente andasse com mulheres porque tinha medo que começasse a falta de respeito”.

- Dinheiro – afirma Curió – foi coisa que nunca faltou. Lampião sempre dividia tudo com os jagunços, mas nada era roubado. Sempre ganhava o dinheiro e eu acho que os fazendeiros era os que davam, sem precisar brigar. Ele não se arrepende do tempo do cangaço, somente dos crimes que cometeu depois. Acha que a vida de lutas no sertão era uma aventura onde “se matava para não morrer”.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

A mulher no cangaço

Feminismo acidental

Por Danielle Romani

Publicado originalmente na Revista Continente em 01 de Março de 2012


 Jô Oliveira

A imagem é reveladora: em plena caatinga, num intervalo entre combates com as volantes, Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, deixa-se flagrar em cena íntima. Diante da câmera do cinegrafista sírio-libanês Benjamin Abrahão, o Capitão Virgolino – de quem poucos podiam se aproximar – permite-se ser penteado pela companheira Maria Gomes de Oliveira, a Maria Déa, que viria a se tornar Maria Bonita. O ato de carinho aponta para uma mulher zelosa, ocupada do seu amado.

A felicidade conjugal da baiana Maria Déa, ou Maria do Capitão, era perceptível. Jovial, sorridente, a figura flagrada no ano de 1936 por Benjamin – no único filme que registrou o bando – mostra um momento de descontração num período de intensa perseguição aos cangaceiros. Imagem de uma sertaneja que não fazia a menor ideia da importância que teria na história nordestina.

Apesar de não poder antever esse futuro, Maria tinha consciência da importância do seu papel como mulher de Lampião. “Ela encarou as lentes da câmera com ar zombeteiro, mas imponente. Sabia que tinha poder”, diz o sociólogo Erivan Felix Vieira, autor de Coronelismo e cangaço no imaginário social.

Nas comemorações do centenário do seu nascimento – que se encerram este mês – , a história de Maria Bonita foi revista por vários pesquisadores. A fama de que era cruel – forjada no passado – foi rechaçada. Maria Déa é uma das poucas unanimidades entre os que se dedicam a estudar o tema, descrita como uma personagem determinada, corajosa e apaixonada.

“Maria Bonita tinha alguma coisa de superficial, de vaidosa. Um jeito meio de moleca, meio de meninona... Era amiga com quem simpatizava e arengueira com quem não gostava, mas fiel e ousada. Seguiu Lampião porque quis. Teve peito para desafiar a sociedade sertaneja. O Capitão, por sua vez, era apaixonadíssimo por ela e a chamava de Santinha. Os dois se amavam verdadeiramente”, descreve o historiador Frederico Pernambucano de Melo, que a considera a mais autêntica das cangaceiras.

OLHOS AZUIS 

No livro A dona de Lampião, lançado este mês, a jornalista e pesquisadora Wanessa Campos traça um perfil da mulher e do mito. E traz algumas informações recentes. A primeira delas é a possibilidade de Maria não ter nascido em 8 de março de 1911, data oficial do seu aniversário. Segundo uma certidão de batismo encontrada pelo sociólogo Voldi Ribeiro, de Paulo Afonso, na paróquia São João Batista de Jeremoabo, também na Bahia, ela teria nascido em janeiro de 1910. Mas não há consenso na veracidade dessa datação.


Maria Bonita e Lampião em foto de Benjamin Abrahão, datada de 1936. 
Foto: B.Abrahão/Aba-Film/Família Ferreira Nunes/Reprodução
do livro
Estrelas de couro - A estética do cangaço.

Outra especulação diz respeito à aparência física de Maria Déa, que teria os olhos claros. “Ela era morena clara, tinha mais ou menos 1,58m de altura, pernas grossas, busto pequeno (o que na época era valorizado), dentes perfeitos. Suas irmãs Antônia e Dorzinha, diziam que ela tinha olhos azuis. Uma geneticista que consultei me afirmou ser isso possível, visto que elas tinham uma avó holandesa. Mas achei melhor me acautelar e considerar que Maria teria olhos claros, mas não totalmente azuis”, pondera Wanessa. Maria entrou no bando aos 20 anos, em 1930, após um flerte iniciado com Virgolino, no início de 1929, no sítio Malhada de Caiçara, a 38km de Paulo Afonso. Nesse dia, segundo testemunhas, os dois conversaram muito. “Houve uma simpatia recíproca. Maria tinha então um pouco mais de 19 anos e Lampião, 30”, descreve a jornalista. Virgolino passou a visitar a fazenda, a despeito do marido de Maria, Zé de Neném, o José Miguel da Silva, com quem a sertaneja se casara aos 15 anos, e de quem já tinha se separado várias vezes. A presença do cangaceiro rapidamente atraiu a ira das volantes sobre a família, que teve de mudar-se para Alagoas. 

Foi então que a jovem escolheu seguir com Lampião. “Maria demonstrava alegria, quando largou a família. Trocou o vestido de voile estampado por uma mescla azul de mangas compridas, meias, perneiras de lona, alpercatas, lenço no pescoço, chapéu de abas largas, bornais, cintos, alforjes”, descreve Aglae Lima de Oliveira, no livro Lampião, cangaço e Nordeste.

Apesar de não ter sido considerado bonito, Lampião tinha charme e atrativos. “Aqueles homens, vestidos de forma diferente, com ouro à vista e chapéu de couro, despertavam sonhos. Avistar um deles era como estar diante de um ídolo, de um artista famoso e rico”, descreve Wanessa.

A beleza de Maria também suscita debates. O escritor Joaquim Goís, que a conheceu ainda adolescente, antes de Virgolino, descreve-a de forma impiedosa: “Uma cabocla apagada, rosto de linhas inseguras, olhar vago, corpo solto em desalinho, seios bambos”. Bem distante da musa cantada pelos cordelistas e cantadores.

Retrato questionado por cangaceiros que conviveram com ela e por suas irmãs. “Os que a conheceram dizem, inclusive, que ela não era fotogênica, que pessoalmente era muito mais bonita. Temos que levar em conta, ainda, que as mulheres do cangaço eram escolhidas pelos atrativos físicos. Lampião, certamente, encantou-se com seus atributos”, pondera a jornalista.

Nesse contexto, vale ressaltar que a alcunha “Maria Bonita” só veio a ser usada um ano antes de sua morte, e, ao que tudo indica, foi criada pela imprensa do Sudeste, para dar um tom mais atraente às manchetes de jornais. Quem conta a história do apelido é Frederico Pernambucano. “O nome não apareceu no Sertão. Foi coisa dos repórteres do Rio”, explica o historiador. O termo, por sua vez, originou-se de um romance de Afrânio Peixoto, do início do século, que foi transformado em filme homônimo, em agosto de 1937.


Sila (segunda, da esquerda para a direita) relatou, na maturidade 
(foto seguinte), sua passagem pelo bando no livro Angicos, eu sobrevivi. 
Foto: Reprodução

O fascínio da sertaneja pelo que lhe oferecia Lampião era compreensível. “Maria Déa queria apenas sair daquela vida ‘todo dia sempre igual’, deixar o marido infiel, livrar os pais da perseguição da polícia e dar um novo destino à própria vida. Afinal, o que ela tinha a perder? Amava Virgolino, sentia-se amada, ele era rico, iria ter uma vida diferente”, defende Wanessa.

Presidente do Núcleo de Estudos do Cangaço da União Brasileira de Escritores – Seção PE, a psicóloga social Rosa Bezerra defende que a decisão tomada por Maria foi a de uma mulher à frente do seu tempo. “Apesar de elas não terem consciência, o movimento dessas mulheres, de optar por seguirem os homens que amavam, gestou o feminismo no Sertão. A mulher sertaneja era treinada para ser doméstica e nada mais. No bando, uma vida nova se apresentava: elas não cozinhavam, não lavavam, eram tratadas como rainhas, uma vez que o cangaceiro era acostumado a fazer tudo. As mulheres só entravam nessa partilha se quisessem. Depois, porque puderam viver sua sexualidade abertamente, puderam usar saias no joelho (quando na época a altura dos vestidos era nas canelas), puderam usar joias, se enfeitar. Se a gente for observar as roupas que elas usavam, existem semelhanças com as que adotamos na década de 1970”, defende Rosa, que é autora do livro A representação social do cangaço.

Neta de Maria e Virgolino, a escritora e diretora da Sociedade do Cangaço, Vera Ferreira, assina o álbum Bonita Maria de Lampião, e diz que a avó não seguiu sozinha. “No caminho ao encontro de Lampião, Maria recebeu a companhia da ex-cunhada, Mariquinha, que também decidiu viver ao lado do cangaceiro Labareda. Uma interpretação em relação às sertanejas que se tornaram cangaceiras é de que elas, nativas de um ambiente árduo e sem perspectivas de mudanças, buscavam, acima de tudo, entrar num novo mundo, e com proteção.”

HÁBITOS 

Se os cangaceiros mudaram a perspectiva de vida dessas mulheres – estima-se que 40 delas se agregaram aos bandos, entre 1930 e 1936 –, elas também interferiram no cotidiano deles. Graças à presença feminina, os grupos se tornaram mais limpos, mais cordatos, menos violentos e mais vistosos nas roupas. No seu estudo, Wanessa Campos reforça essa ideia, batizando os anos entre 1930 a 1938 de período “mariadeano” (de Maria Déa).

“Quando Lampião se apaixona por Maria Bonita, a partir de 1930, quase todos os coitos se dão nas cercanias da Bahia e de Sergipe, onde havia afluentes dos rios. Eles se fixam numa região dadivosa, com águas potáveis, águas puras. Passam a tomar banho quase que diariamente, coisa que não faziam antes delas”, explica Frederico Pernambucano. O historiador destaca, também, que a convivência das cangaceiras com as mulheres e filhas dos coronéis poderosos, aliados de primeira linha dos cangaceiros, mudaram os hábitos das primeiras.

“Da convivência resultará o aprimoramento da estética presente em trajes e equipamentos, e o aburguesamento de maneiras: a máquina de costura, o gramofone, a lanterna elétrica portátil, a filmadora alemã em 35mm e a câmera fotográfica... É o tempo dos bailes perfumados, dos cheiros de Fleurs d’Amour, da casa Roger & Gallet, ou de Atkinsons, da Royal Briar”, explica Pernambucano.


Sila.
Foto: Acrisio Siqueira/Reprodução do livro
Angicos, eu sobrevivi

Ao admitir as mulheres, contrariando os ensinamentos do seu mestre, o cangaceiro Sinhô Pereira, Lampião não apenas dava novo rumo ao cangaço, como, sem querer, mantinha o costume brasileiro de acolher mulheres em campanhas militares. “Há registros dessa presença na Primeira Batalha dos Montes Guararapes, em 1648, às mulheres cabendo o amasso do pão na cozinha móvel do exército holandês. Ele retorna também à saga das vivandeiras, cantada em verso e prosa ao final do conflito da Guerra do Paraguai, quando as mulheres acompanhavam seus amados à guerra. Ou de Canudos, em 1897, quando a mulher precisou enrijecer-se de amazona, para fazer frente às jagunças”, explica Frederico.

Excelente estrategista, Lampião também se pautou na observação da Coluna Prestes, em 1926, que abrigava em sua formação centenas de mulheres, e que fez incursão pelo Nordeste. “As lições de 1926 devem ter vindo à mente do apaixonado de 1929 como um conforto providencial”, sugere o pesquisador.
As mulheres do bando não pegavam em armas nem participavam das batalhas. A elas era dado um revólver para a defesa pessoal e, no caso de Maria Bonita, havia sempre guardiões ao seu redor, inclusive um ajudante pessoal, para auxiliá-la nas suas tarefas diárias.

No livro Angico, eu sobrevivi, a sergipana Ilda Ribeiro de Souza, a Sila, mulher de Zé Sereno, o José Ribeiro Filho, lembra que o maior temor das cangaceiras era serem presas pelas volantes. “Sabíamos que seriamos submetidas a estupros e atrocidades terríveis. Eles nos chamavam de prostitutas, e sonhavam em nos pegar para atemorizar nossos companheiros.” Sila, assim como Maria, nunca participou de batalhas.

Aliás, o fato de que Maria jamais usou de violência leva muitos pesquisadores a afirmar que a sua morte foi uma arbitrariedade, pois a ela não eram imputados crimes, a não ser o de seguir o bando. Tudo indica que ela foi “massacrada” no dia 28 de julho de 1938, pelo simples fato de ser a mulher de Virgolino. 

No seu livro, Wanessa relata a crueldade com que o soldado Panta de Godoy abateu a baiana: “Quando avistei Maria Bonita, ela deu meia volta, correu, gritou: ‘Valha-me, Nossa Senhora!’. Eu atirei nas costas dela e ela caiu, fez uma corcunda e se levantou quando um soldado gritou: ‘Segura a bandida!’. O soldado Santo cortou a cabeça de Lampião e, com o mesmo facão, eu cortei a cabeça de Maria Bonita. Ela ainda estava viva”.


Na história do cangaço, consta a maestria na produção de bordados por Lampião e Dadá. A máquina de costura era indispensável para a confecção de objetos em tecido e couro
Foto: Fred Jordão/Reprodução do livro Estrelas de couro - A estética do cangaço

DADÁ 

A pernambucana Sérgia Ribeiro da Silva, a Dadá, mulher de Cristino Gomes da Silva Cleto, o alagoano Corisco, era uma exceção nesse contexto. Exímia atiradora, valente – citada por alguns cangaceiros como “mais homem que os próprios homens”–, ela se notabilizou pela coragem e pela eficiência nos combates, usando revólveres, espingardas, rifles. Conta-se que era muito respeitada por Lampião, o que provocou os ciúmes de Maria Déa e o afastamento entre Virgolino e Corisco.

Além de guerreira, foi a responsável pela confecção de bornais de bordados floridos em cores vivas, que passaram a ser usados pelos cangaceiros, em meados da década de 1930, segundo afirma Antônio Amaury Corrêa de Araújo.

Frederico Pernambucano discorda dessa informação. Atribui a criação dos adereços ao próprio Lampião, que, segundo afirma, era excelente costureiro. “Dadá não tinha ascendência sobre o bando. Lampião, sim, ditava moda. Tenho peças bordadas por ele e por ela, e posso afirmar que as de Lampião são superiores em originalidade e qualidade”, diz.

Coautora do livro Bonita Maria de Lampião, professora de Artes e Design da Universidade Federal de Sergipe, e desenvolvendo uma tese de doutorado sobre a estética do cangaço, Germana Gonçalves de Araújo foge da polêmica em torno dessas autorias. “É bobagem questionar isso. Devemos desabilitar as definições ‘verdadeiras’ acerca de quem deu início à aparência exuberante dos cangaceiros. Na minha opinião, não há importância ou polêmica quanto a isso. Ou seja, Dadá pode ter sido responsável por parte da estética cangaceira, mas foi Lampião quem aceitou e definiu os construtos de uma identidade”, afirma.


Para Frederico Pernambucano de Mello, Lampião era exímio costureiro, superando outros “artífices” do bando. Foto: B.Abrahão/Aba-Film/Família Ferreira Nunes/Reprodução do livro Estrelas de couro - A estética do cangaço.

Ela ressalta que, depois da entrada da mulher, a imagem do cangaceiro passou a ser menos agressiva. “O traje uniformizado recebeu novos e inusitados elementos. Flores, estrelas, joias e moedas são alguns dos ornamentos que, com base na geometria regular, foram organizados por princípios de composição e se tornaram arranjos com ritmo e simetria.”

RAPTOS 

Apesar de apontados como cordiais companheiros, houve episódios que desabonam o discurso de que os cangaceiros eram gentis com as mulheres. Dois exemplos chocantes são os de Dadá e de Sila. As duas foram raptadas e desvirginadas aos 13 anos de idade, quando ainda brincavam com bonecas e temiam a presença daqueles homens imponentes, vestidos com roupas extravagantes.

No livro Gente de Lampião, Dadá e Corisco, Antônio Amaury Corrêa de Araújo transcreve o depoimento oral de Dadá sobre como ocorreu seu rapto. Primo distante, Corisco a conheceu na fazenda onde morava, e desde que a avistou preveniu o pai da menina que não a casasse com ninguém, porque ela seria sua. Tempos depois, inflamado por uma fofoca de que ele teria sido denunciado pela família de Dadá e de que a menina fora desflorada por um vizinho, Corisco foi à casa do pai de Sérgia, e comunicou: “Vim buscar a menina”.


Apesar de ter sido raptada e estuprada por Corisco, Dadá declarou posterior amor e afeto ao cangaceiro. Foto: B.Abrahão/Reprodução do livro Gente de Lampião - Dadá e Corisco.

Segundo Dadá, no mesmo dia, Corisco a violentou. Ela sofreu hemorragia, ficou traumatizada física e mentalmente. Criou aversão pelo seu raptor, e passou a evitá-lo a todo custo. Com o tempo, diante do homem aparentemente arrependido pela brutalidade, ela perdoou o que ele lhe havia feito.

Já idosa, ao relatar o primeiro encontro com Corisco, Dadá usou as seguintes palavras: “Eu, a Sussuaruna (como era chamada por um primo), não podia adivinhar que aquele estranho loiro, forte, alto, ombros largos, cabelos longos, olhos azulados, era Corisco, que iria ter influência decisiva na minha vida. Em companhia dele percorri, mais tarde, quatro estados, enfrentei lutas terríveis, tive momentos de grande alegria e outros de dor”.

A declaração de Sérgia para o pesquisador Antônio Amaury, que a recebeu em casa para depoimentos durante cinco meses, leva o estudioso a concluir que Dadá era verdadeiramente apaixonada pelo companheiro, o qual defendeu até a morte. “O amor deles era intenso. Um amor trágico, mas tão forte quanto o de Maria e Virgolino”, compara Amaury.

Na opinião de Rosa Bezerra, a relação entre Dadá e Corisco, que teria tudo para ser infeliz, acabou sendo contornada. “Corisco a ensinou a ler e escrever, e a tratava como uma deusa. Dadá conseguiu perdoá-lo e ver o grande homem que ele representava”, aponta a psicóloga.


As cangaceiras só usavam armas para defesa, ficando fora das batalhas.
Foto: B.Abrahão/Aba-Film/Família Ferreira Nunes/Reprodução do livro
Estrelas
de couro - A estética do cangaço.

Raptada da mesma forma por Zé Sereno, Sila também relembra o dia em que foi levada à força de casa. Poupada nas primeiras semanas, posteriormente foi violentada. O episódio é narrado por ela, no livroAngico, eu sobrevivi. “Comemos à vontade, pois a comida era farta e a pinga, saborosa. Naquela noite, conheci o sexo. Experiência ruim. Lua de mel tão amarga quanto as amarguras sofridas por mim nos dois anos seguintes do cangaço”, narra Sila, que aprendeu a gostar de Zé Sereno, com quem viveu até a morte dele, em São Paulo, na década de 1960.

Os cangaceiros não admitiam mulheres sem homem nos bandos. Caso ficassem viúvas, não poderiam permanecer no grupo, salvo se contraíssem matrimônio com outro integrante. “Se fossem rejeitadas, ou seja, se ninguém mais as quisesse, muito provavelmente seriam mortas. A informação difundida entre pesquisadores é de havia o temor quanto à possibilidade de que, ao voltarem à vida em sociedade, elas fossem pressionadas a contar onde ficavam os esconderijos do grupo”, afirma o historiador Jovenildo Pinheiro de Souza, que tem no prelo o livro Sertão sangrento: luta e resistência.

Outra conduta imperdoável era a traição feminina, punida com morte, sem apelação. “Homem podia, mulher não”, contou Dadá. Cristina, mulher do cangaceiro Português, teve um caso, fugiu e tentou refugiar-se no grupo de Corisco. Não aceita, quando era levada de volta à família, foi emboscada e assassinada pelos companheiros do ex-marido. Final ainda mais trágico coube à Lídia, mulher de Zé Baiano, outro integrante do bando de Lampião, morta a pauladas pelo companheiro por tê-lo traído com outro homem.



 Cristina e seu companheiro Português em 1936

Jovenildo ressalta, entretanto, que a traição era algo imperdoável em qualquer esfera social. “Fora do cangaço, ela também era punida sem piedade. Além disso, a mulher comum era maltratada e não tinha qualquer relevância. Com os cangaceiros, pelo menos, elas eram respeitadas, tinham deferências. Era uma sutileza, mas, no contexto da época, mostra a capacidade desses homens de respeitarem suas mulheres.”

Pescado no sítio da Revista