terça-feira, 22 de junho de 2010

Pegadas de Lampião no RN

O Grande Fogo da Caiçara e a desconhecida "Missa do soldado" 

Por Rostand Medeiros
Pesquisador


 

Homenagem ao soldado Matos, o herói do “Fogo da Caiçara”.

Segundo os principais autores que trataram do ataque de Lampião a Mossoró, Sérgio Augusto de Souza Dantas, Raul Fernandes e Raimundo Nonato, no dia 10 de junho de 1927, após o bando do cangaceiro Lampião haver cruzado a fronteira potiguar, seguiu em direção norte, visando a cidade de Mossoró.

Próximo à povoação de Vitória, atual município de Marcelino Vieira, atacaram as primeiras casas do sítio conhecido como “Caiçara, ou “Caiçara dos Tomaz”. Entre estas estavam as vivendas de Francisco Tomaz de Aquino e de Antônio Dias de Aquino, onde praticaram saques, ameaças aos proprietários e seus familiares, invasão, depredação e outros crimes. Neste local eles libertaram o agricultor Antônio Higino, que havia sido forçado a guiar o bando por terras estranhas e Antônio Dias de Aquino assume a espinhosa função.
Na Vila de Vitória, às sete da manhã do dia 10 de junho, em meio aos preparativos para a festa do padroeiro do lugar, São Francisco, foi disseminada a terrível notícia “-Corre que Lampião vem aí”.

Em meio ao temível rumor o coronel José Marcelino de Oliveira, líder político local, organiza a resistência. Piquetes são montados, sentinelas armadas são fixadas em pontos estratégicos, buscam-se armas e munições para a defesa e o telégrafo transmite um pedido de socorro à cidade de Pau dos Ferros, distante quase 30 quilômetros. Por volta das nove horas da manhã, chega à vila um automóvel trazendo o tenente Napoleão de Carvalho Agra e alguns outros policiais.

Entre as missões atribuídas a este oficial estava primeiramente organizar a defesa em Vitória, através da criação de um grupo misto de policiais militares, alguns recém-incorporados, e civis da vila. Outra missão era procurar entrar em contato e combater a coluna de cangaceiros. Diante da celeridade, Agra organiza a tropa.
Buscando ganhar tempo, ele solicita mais dois veículos na Vila de Alexandria. Enquanto aguarda a chegada dos automóveis, em meio a informações fornecidas por tropeiros, que no sítio Aroeira o bando teria sequestrado a mulher do proprietário do lugar. o tenente Agra então ordena ao cabo Porfírio que siga a pé com o grupo de combatentes, em torno de vinte homens, pelo caminho que segue em direção a esta propriedade.

 Sob as águas do açude da Caiçara, ou açude do Junco, está o local original do combate de 10 de junho de 1927. 

Em meio ao alarido e a movimentação da tropa mista, um jovem soldado recém-incorporado a Polícia Militar do Rio Grande do Norte, ainda sem uniforme padrão, negro, baixo, natural de Pernambuco, de nome José Monteiro de Matos, em meio a provocações de colegas e de outras pessoas pronunciou:
- Eu morro! Mas não corro!
O grupo de combatentes seguiu marchando pelo caminho empoeirado. Algum tempo depois, com a chegada dos dois veículos vindos de Alexandria, o tenente Agra segue em busca do adiantado grupo de policiais e civis arregimentados. Logo o oficial alcança seus comandados, onde a maioria embarcou nas três viaturas e continuam o trajeto em direção ao sítio Aroeira.

A distância entre a antiga vila de Vitória e a Aroeira é superior a vinte quilômetros. Provavelmente esta aparente e segura distância do bando, associada a uma possível falta de maiores informações da real quantidade de cangaceiros e acrescidos de excesso de confiança da tropa novata, pode ter causado uma distensão na vigilância dos policiais. Pois em pouco tempo, nas terras do sítio Caiçara, os dois grupos combatentes se encontraram de maneira inesperada e o tiroteio tem início.

Os ditos "Defensores da legalidade", levou extrema desvantagem em relação a vanguarda dos cangaceiros. O guia Antônio Dias de Aquino aproveita a confusão para fugir, mas um cangaceiro percebe sua intenção e abre fogo contra o agricultor. O tiro lhe atinge a região torácica e ele cai no chão. Mesmo ferido com gravidade ele consegue sobreviver. Pelo resto de sua vida este sertanejo vai carregar a marca, nunca totalmente cicatrizada, do balaço de fuzil que levou.

Com o desenrolar do combate, as outras frações dos cangaceiros se unem à vanguarda e a relação numérica entre os dois grupos beligerantes faz a balança pender favoravelmente a favor dos bandoleiros.

Memorial do “Fogo da Caiçara”, na Comunidade Junco, em Marcelino Vieira.
A munição começa a escassear junto à tropa de Agra. Diante da situação inevitável o oficial ordena a retirada. O soldado José Monteiro de Matos se encontrava ferido com gravidade, mas continuou atirando. Se ele não escutou a ordem de recuo, se não teve condições de se retirar, ou se não quis abandonar o seu posto de combate e assim da à cobertura necessária para a fuga dos companheiros, isso nunca ficou totalmente esclarecido. O certo é que os outros policiais nunca esqueceram a frase que ele pronunciou ainda na vila de Vitória e, querendo ou não, cumpriu o que disse.

Depois da debandada dos homens comandados pelo tenente Agra, logo os cangaceiros passam a seviciar o corpo do soldado Matos, incendeiam os três automóveis e a linha telegráfica que passava nas proximidades foi cortada. Outro resultado do tiroteio, que durou quase uma hora, foi à morte do cangaceiro Patrício de Souza, o Azulão. Outro membro do grupo de bandoleiros, o cangaceiro Cordeiro, foi ferido com certa gravidade. Azulão foi enterrado em cova rasa e Cordeiro, mesmo ferido, seguiu adiante com o bando.

Durante nossa pesquisa em Marcelino Vieira, percebemos nitidamente que para as pessoas que habitam a região, os fatos mais marcantes em termos da memória sobre a passagem do bando de Lampião, estão relacionados ao combate conhecido como “Fogo da Caiçara” e a valente postura do soldado José Monteiro de Matos. Em vários locais, tanto antes do local do combate, como após, a população local repete exaustivamente a história do “-Eu morro! Mas não corro!”.

 Capela da Comunidade Junco, onde atualmente, sempre na data de 10 de junho, se realiza a “Missa do Soldado”.

Para muitas pessoas que habitam o sertão nordestino, ainda se mantêm muito forte a percepção sobre a postura que alguém assume diante de questões de sangue, honra e valentia. Quando um cidadão é marcado por alguma violência e “lava a honra com sangue” é exaltado. Quando, por exemplo, não vinga a morte de um parente, ou foge desta "responsabilidade", é execrado. Estes pontos continuam presentes no dia a dia, mesmo diante da crescente modernização e acessibilidade a variados meios de informações.
No passado então estas características eram ainda mais fortes.

Não foi surpresa que membros da comunidade local, no dia 10 de junho de 1928, apenas um ano após o combate na região da Caiçara, decidissem realizar uma missa em honra a memória do valente militar. Segundo Francisco Assis da Silva, proprietário de um restaurante na comunidade do Junco, as margens do açude da Caiçara, foram seus avôs, junto com outras pessoas da região, que de forma espontânea e apoiadas pelas lideranças locais deram início a um singelo ato religioso pela alma do soldado.
No começo ele ocorria no mesmo ponto onde se desenrolou o combate. Segundo o nosso entrevistado, ele recorda quando criança, que o evento sempre atraiu um número considerável de pessoas, passando a ser conhecida como “A Missa do soldado”.


 Aspecto atual da cidade de Marcelino Vieira, antiga comunidade conhecida como Vitória, na Zona Oeste do Rio Grande do Norte. 

Para o Secretário de Cultura de Marcelino Vieira, o professor Romualdo Antônio Carneiro Neto, apesar da inexistência de documentação comprobatória, os variados relatos coletados no município apontam que a primeira cerimônia foi realmente realizada em 1928 e continua até hoje sem interrupções. Romualdo, árduo pesquisador da história local, comenta que entre os grandes incentivadores para a existência e a manutenção anual desta singela cerimônia, figuram os comerciantes João Medeiros e seu filho Antônio, já falecidos.
Com o passar do tempo à missa continuou crescendo e se tornou uma das mais importantes tradições religiosas de Marcelino Vieira e da Comunidade do Junco. Até mesmo a classe política, tanto a nível local, quanto estadual, diante do crescimento em número de participantes e da repercussão positiva do evento religioso e histórico, buscou angariar simpatia junto à comunidade e aproveitar a concentração de eleitores fora do período de votação.

No dia 10 de junho de 1957, quando o “Fogo da Caiçara” e a morte do soldado Matos completavam trinta anos, o Rio Grande do Norte era então governado por Dinarte de Medeiros Mariz, sendo ele o responsável pela edificação de um marco para apontar o local do combate. Neste monumento foram fixadas uma cruz e uma placa de mármore, onde está escrito; “Aqui morreu a 10-06-1927, em luta contra os cangaceiros de Lampião, o soldado José Monteiro de Matos. Homenagem do governo do Rio G. do Norte. Sr. Dinarte Mariz”. Este marco passou a ser conhecido então como “O Cruzeiro do soldado”.

Em 1981 foram iniciadas as obras para a construção do açude da Caiçara. Diante da inundação da área original do tiroteio, e como a Comunidade do Junco já possuía uma capela, foi para junto deste templo que os habitantes removeram o marco, o cruzeiro e a placa comemorativa. Desde então “A Missa do soldado” é realizada neste local.

Nos primeiros tempos, ainda na outrora Vitória, a cerimônia tinha início na igreja de Santo Antônio, na sede do município, onde uma procissão percorria os quase seis quilômetros que separam Marcelino Vieira, do local do combate. Era normal ocorrerem à apresentação de músicos locais e queima de fogos de artifício. Atualmente foi abolida a procissão, mas a missa permanece, cada vez mais atraindo um número maior de participantes. Além das questões envolvendo o heroísmo e valentia do soldado Matos, uma das razões para este evento conseguir completar em 2010 seus oitenta e três anos de realização ininterrupta, segundo as pessoas com quem tivemos oportunidade de dialogar em Marcelino Vieira, está relacionada à proximidade da "Missa do Soldado" com a principal data religiosa da cidade, a festa do padroeiro Santo Antônio.

 Da esquerda para direita: Secretário de Cultura de Marcelino Vieira, prof. Romualdo Antônio Carneiro Neto, prof da rede municipal de ensino Ênio Almeida, o comerciante Francisco Assis da Silva, descendente dos primeiros incentivadores e organizadores da “Missa do Soldado” e o autor deste artigo.

2 comentários:

Anônimo disse...

O nome LAPIÃO na placa é porque o cabra Virgulino LAPIAVA muito.

Anônimo disse...

tudo que é registrado que diz respeito ao cangaço eu gosto e respeito, pois meu saudoso pai trabalhou com um cangaceiro dr lampião nos anos 50...