sábado, 26 de junho de 2010

Eu, leitora "fui cangaceira do bando de Lampião"

Depoimento da ex cangaceira Sila à revista Marie Claire

Por Rosane Queiroz


A costureira aposentada Ilda Ribeiro de Souza, a "Sila", 77 anos, foi cangaceira durante dois e é a última sobrevivente do massacre que matou Lampião e Maria Bonita, em Angicos, Estado de Sergipe, em 1938. Viúva de Zé Sereno, homem de confiança de Lampião, ela lembra como era a vida no cangaço e ainda tem pesadelos com tiroteios

 
O bando de que Sila e Zé Sereno (no destaque) faziam parte.

Sou boa corredora, e por isso escapei do cerco que matou Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros que tiveram suas cabeças decepadas e exibidas pelo Nordeste. Participei do cangaço por dois anos, depois que Zé Sereno me sequestrou para ser sua mulher.

Nasci em Poço Redondo, interior de Sergipe, às margens do rio São Francisco. Na minha casa, éramos oito irmãos – seis homens e duas mulheres –, sou a sexta filha. Meu pai tinha uma pequena fazenda. Quando eu tinha 6 anos, minha mãe morreu, nem sei de quê. O povo diz que foi de nervoso. Era uma vida sacrificada. Mas tínhamos uma família unida, meu pai nos ensinou a ter respeito pelos mais velhos, a ser honestos e a ter personalidade.

Desde menina eu escutava histórias sobre Lampião, mas achava difícil ele chegar ali. Só que um dia ele passou pela cidade. Eu estava na casa de minha madrinha, e os coiteiros [sujeitos que protegiam os bandidos] foram avisar meu tio que os cangaceiros estavam chegando. Ele tinha uma venda e poderia ser assaltado. Meu tio trancou eu e minhas primas num quarto. E eu louca para ver Lampião! Deitei no chão para espiar por debaixo da porta. Eles levaram açúcar, bolachas e foram embora. Só vi os pés dos cangaceiros.

Eu tinha uns 12 anos quando papai morreu, e meu irmão mais velho, João, é quem tomou conta da gente. Eu estudava na cidade, só ia para a fazenda nas férias. Corria o boato de que os cangaceiros sequestravam as moças e, como eu era bonitinha, cheia de luxos, meu irmão tinha medo de que eu fosse à fazenda: 'Os cangaceiros podem lhe carregar'. Foi ele falar, no dia seguinte cinco deles invadiram nossa fazenda.

Mandaram a gente preparar uma galinha e era para eu levar até o riacho, onde eles estavam acampados. Eu disse que não iria, mas meu irmão achou que seria pior. Fui caindo pelo caminho, de medo. Tremia tanto quando entreguei a comida para o cangaceiro Zé Baiano que ele disse: 'Menina, nós não vamos fazer nada com você'. E me deu um anel, que não aceitei. Fui para casa e comecei a arrumar a mala para fugir quando Zé Sereno, o chefe do bando, apareceu e ameaçou: 'Volto daqui a oito dias para te carregar. Não adianta fugir. E não conte para ninguém'.

Guardei segredo os oito dias todinhos, morrendo de angústia. Tinha medo de que fizessem mal à minha família. No dia marcado chegou o bando. Fizeram uma festa na fazenda. E eu triste, pedindo a Deus que Zé Sereno não quisesse mais me levar. Dancei com Luís Pedro, que estava com Neném, sua mulher. Ao amanhecer, Neném me disse: 'Sila, se prepare que a gente vai embora'. Imaginei que, se não fosse, matariam minha família.

Fui com a roupa do corpo. Meus irmãos nem me viram sair e, mesmo que tivessem visto, quem era louco de reclamar? Fomos andando pelo mato, calados. Zé Sereno na frente, eu atrás.

Era tudo tão estranho, parecia que eu flutuava. Eu chorava quietinha, e Neném me dizia que não adiantava chorar. Se a gente pisava numa pedra e tirava do lugar, os homens colocavam de novo, para não deixar pistas para os macacos [policiais].

Zé Sereno não tinha aparência ruim: era baixo, de tipo nortista e tinha uns 20 anos. Ganhou o apelido de Sereno por causa do temperamento. Mas eu estava morrendo de medo dele.

À noite, ele estendeu um cobertor em cima de uma pedra, e tive de me deitar com ele. Foi assim minha primeira noite. Fui sabendo que a partir daquele dia seria sua mulher. Naquela época o marido era um só, não tinha esse negócio de separação. Ele nunca me maltratou, mas tinha o jeito dele, a grossura dele. No dia seguinte, paramos em uma fazenda e a volante [grupo de policiais] apareceu. Nesse tiroteio morreu Neném. Apesar de termos passado só um dia juntas, ela foi minha primeira amiga ali. Eu só chorava, desesperada.

Dali fomos encontrar Lampião, que estava acampado em Sergipe. No caminho, outro tiroteio. Comecei a pegar prática de fugir correndo. Chegando no acampamento, Lampião me olhou e deu uma bronca no Zé: 'Como, uma menina?'. Zé respondeu que eu era a mulher ideal para ele. Eu imaginava Lampião baixo, e ele era alto, magro. Simpático, mas de pouca conversa.

Maria Bonita me chamou para ir à barraca dela e trocar de roupa, porque eu ainda estava do jeito que saí da fazenda. Me deu um vestido dela de brim, enfeitado com passamanarias. Ficou enorme. Ela era mais gorda e mais baixa do que eu. Maria era divertida, inquieta, chamava a atenção, mas não era tão bonita. Tinha muita mulher bonita no mato. As que conheci melhor foram ela e Dulce, mulher do cangaceiro Criança.

No dicionário, cangaceiro é bandido. Mas o Lampião da história oficial não é o mesmo que conheci. Bandido, essa palavra a gente não pode tirar. Mas ele só era bandido para quem era para ele também. Ele se preocupava com a moral do bando, tinha amizades, considerava as pessoas, as crianças. E era muito religioso, rezava de manhã e à tarde.

Nunca presenciei um ato de selvageria. Às vezes ficava sabendo de execuções necessárias à segurança do bando, mas nunca vi tomarem nada dos pobres, ao contrário. Quando chegava nas casas, se a moça ia casar, a gente dava o enxoval todo. Se via criança passando fome, o que a gente tinha dava. Nossa riqueza era a polícia nos deixar em paz.

De noite, se não tinha perseguição, a gente tirava os bornais [bolsas de pano que usavam a tiracolo], estendia uma coberta. Senão, era só encostar em uma árvore. Dormia debaixo de chuva, de xiquexique [cacto]. Nunca mais deitei numa cama nem sentei em uma mesa para comer.

A comida principal era bode assado. De vez em quando matavam um boi roubado. Quando não tinha nada, comíamos jacuba, uma mistura de rapadura com farinha e água. Eu tinha vontade de comer arroz, mas era difícil.

Às vezes eu ficava no coito [esconderijo] com Maria Bonita. Lampião ia encontrar amigos e deixava uns cangaceiros com a gente. Ali, um respeitava a mulher do outro, não tinha bagunça. Falam que os cangaceiros eram machistas, mas isso dependia da inteligência da mulher. No nosso bando eles respeitavam muito a nossa opinião, mesmo que a gente não tivesse muita função nas lutas. Nos curtos períodos de trégua, as que sabiam costurar costuravam. Tínhamos máquinas de manivela. Apesar da vida dura do sertão, os cangaceiros eram vaidosos, gostavam de usar jóias e roupas enfeitadas.

Uns dois meses depois da partida, engravidei e fiz o enxoval do meu filho todinho no mato. Fiz camisinhas em opalina, tecido fininho, tudo cor-de-rosa, bordadinho à mão. E nasceu homem. Mas, com dois dias, tive que dar ele. Era proibido ter crianças no bando: dificultaria as caminhadas e o choro seria uma pista. Ao nascer, a criança era levada por um coiteiro para alguém criar.

Tive meu filho embaixo de uma árvore, Maria Bonita foi a parteira. No outro dia Lampião jogou uma aguinha na cabecinha dele, rezou um padre-nosso e o batizou como João do Mato. Aí o coiteiro chegou, e chorei muito. Dobrei as roupinhas dele e mandei entregar para uma pessoa de minha confiança. Meu leite demorou a secar e fiquei muito deprimida. Soube depois que com seis meses João adoeceu e morreu.

Eu não tinha muita noção do que era o cangaço. Apesar de ser considerado um movimento revolucionário, naquela época ninguém pensava assim, nem Lampião. Era o jeito de sobrevivermos sem obedecer aos coronéis. Eu achava que aquilo não era vida de gente. Mas não tinha saída.

Nos tiroteios, eu rezava muito, era tudo caindo, e eu rezando. Uma vez, tinha tanto macaco em volta que a gente não podia mais andar. Um tiro passou perto da minha cabeça e levantou um tampo de terra do chão. Vi muita gente morrer na minha frente, mas, engraçado, nunca pensei na morte.

Apesar do sofrimento, entrei no espírito do grupo. Andava com um punhal e uma pistola 'máuser' pequenininha, que dava cinco tiros, igual à de Maria Bonita. Mas só usei uma vez, para libertar o Zé. Ele entrou em uma casa e um homem o derrubou no chão. Por causa do peso do armamento, quando um cangaceiro caía, era difícil levantar. Eu cheguei na hora, peguei minha pistola e falei: 'Se não soltar ele agora, eu mato'. Depois Zé falava para todo mundo que, se não fosse eu, ele tinha morrido.

O momento bom era fim de mês, quando os macacos iam receber o ordenado na sede da polícia, na Bahia. Por 15 dias o sertão ficava livre. A gente ia para a fazenda de algum coiteiro, matava criação, fazia festa. O cangaceiro Balão tocava realejo [espécie de acordeom], a gente dançava. Éramos como uma família.

Quando Zé Sereno informou que iríamos para a gruta de Angicos, em Sergipe, onde o massacre aconteceria, achamos que seria mais uma reunião de costume. A viagem foi tranquila, mas, ao chegar, notei Lampião abatido. Talvez estivesse adivinhando as coisas. Maria me disse que há uns meses ele andava assim.

De noite, depois de comer, Maria disse a Lampião que ia sair comigo para fumar. Ela não fumava na frente dele em sinal de respeito. Ela gostava de conversar comigo. E me confidenciou que estava cansada daquela vida: 'Nem minha filha posso ver, é só fugir, correr'. Contou que tinha até proposto a Lampião irem morar no Mato Grosso, e ele não quis. Durante a conversa, percebi uma luz, ao longe, que acendia e apagava, como uma lanterna. Comentei com Maria e ela disse que devia ser um vaga-lume. Já eram os macacos posicionados para nos atacar.

Voltamos para a barraca, Zé já estava deitado, preferi não incomodá-lo. Se eu tivesse acordado ele, ele chamaria Lampião, teríamos fugido ou nos equipado. Mas a volante chegou de surpresa. Acho que estava escrito.

No dia 28 de Julho de 1938, Zé Sereno se levantou antes de amanhecer e foi rezar com Lampião. Falei que ia dormir mais um pouco e já me levantei com um tiro. Saí descalça, correndo, a fumaça das balas não me deixava enxergar nada. Era tiro de metralhadora, rifle, revólver. Segurei nas mãos de Enedina e corremos. Vi o desespero dos outros, pela última vez avistei meu irmão, Mergulhão, que tinha entrado no cangaço até por minha causa.

Subimos um morro com sangue escorrendo pelas pernas machucadas pelos espinhos dos xiquexiques. Enedina foi atingida e os miolos dela cobriram meu rosto. Eu e Criança nos arrastamos por uns 300 metros e escapamos. Ouvíamos os gritos dos soldados: 'Lampião está morto!'. De repente, Zé apareceu entre as moitas. Depois soubemos que ao todo foram 11 mortos.

Foi a coisa mais triste do mundo. Arrasados, fugimos com os outros sobreviventes e passamos uma temporada no mato. De vez em quando aparecia um coiteiro que nos contava que as cidades estavam em festa. Soubemos que as cabeças de nossos amigos foram exibidas em várias cidades. Eu nunca quis saber detalhes sobre isso, nunca quis ver as fotografias. As lembranças desse dia são horríveis. Com o tempo, a memória vai ficando mais sensível. Tenho pesadelos frequentes com tiroteios, em que corro, corro... Só acordo quando caio da cama.

O bando foi reorganizado às pressas por Zé Sereno, mas, sem Lampião, o movimento estava morto. Nos escondemos em uma fazenda amiga, e o capitão Aníbal, comandante da polícia, a mando do presidente Getúlio Vargas, começou a mandar cartas para o Zé, falando que a gente se entregasse, que nada iria acontecer. Um dia Zé reuniu todos os cangaceiros e falou: 'Se não der certo, a gente se revolta'.

Seguimos para Jeremoabo, cidade baiana, onde devíamos nos entregar, e, no caminho, passamos um dia em Serra Negra. Quando entramos na cidade, não ficou ninguém dentro de casa. Saíram todos para nos ver. Lá, à tarde, eu e Zé casamos na igreja. Usei um vestido estampado. Estava feliz, achando que a vida ia melhorar.

Ao nos entregarmos, não fomos presos, mas não podíamos sair da cidade. Os casados tinham até direito a uma casa. Eu estava grávida e tive um aborto aos cinco meses. Adoeci, sentia dores pelo corpo, acho que de canseira.

Após dois meses, fomos tentar a vida em Salvador. Antes, pedi que Zé desse ao capitão Aníbal os pertences do cangaço – chapéus, bornais, cantis cravejados a ouro. Queria esquecer tudo. Zé tomou conta de uma fazenda de cana até sair a anistia. Lá, tive Gilaene, minha primeira filha. Mas Zé pegou uma briga com jagunços e fugimos. Andamos a pé semanas. Meu braço ficou inchado de carregar a menina.

Fomos para Minas, onde tive Ivo, meu segundo filho. Zé trabalhava em uma fazenda e eu costurava. Tive outro parto, de gêmeos, que morreram com 14 dias. Depois de outras pequenas andanças, paramos em São Paulo, onde tive Wilson, o caçula, e aprendi a evitar filhos, com tabelinha.

Fomos morar no bairro de Vila Jaguara, onde criamos as crianças. Zé trabalhou como segurança particular, depois em uma escola da prefeitura, onde se aposentou. Mas eu é quem sempre tomei as rédeas da casa. Costurei por dia em casa de freguesa, tive sala de costura nos Jardins, costurei no Mappin, na TV Bandeirantes, fiz bicos de vendedora e enfermeira.

Por nove anos Zé viveu doente, a vida ficou ainda mais dura. Ele morreu de derrame cerebral em 1982. Durante quase 50 anos juntos, ele foi bom pai, mas toda a vida foi mulherengo.

Por muitos anos, nunca comentei nossa história com ninguém. Só me dei conta da importância do que tinha vivido quando meus filhos já eram moços. Hoje vivo de aposentadoria e ganho algum dinheiro extra dando palestras em faculdades e eventos sobre o cangaço. Daquela época, guardo apenas o chapéu do Zé e um bornal.

Eu sou feliz, graças a Deus. Pude criar meus filhos com três coisas importantes – paz, saúde e uma mãe que olhasse por eles. Acho que o cangaço era meu destino e que sobrevivi para contar a história. Me dou valor por ser o que sou e ter passado o que passei. Mulher tem que ser corajosa. Até hoje ando sozinha por esse Nordeste todo, todo mundo sabe que fui cangaceira de Lampião e me respeita."

Livros lançados por Ilda Ribeiro de Souza: "Sila – Memória de Guerra e Paz", editora da Universidade Federal de Pernambuco, 1995; e "Angicos, Eu Sobrevivi", Oficina Cultural Monica Bonfiglio, 1997.
Edição 114, Setembro de 2000 da Marie Claire

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NOTA LAMPIÃO ACESO: Sobre A legenda da imagem: O bando: entenda-se por "Subgrupo" e este era comandado pelo próprio Zé Sereno. Acrescentamos a leitura recomendada "Gente de Lampião": Sila e Zé Sereno de Antonio Amaury. E o nome verdadeiro de Sila também não era Ilda!!! ??? eis uma curiosidade que vamos revelar posteriormente.

9 comentários:

Anônimo disse...

tenho este depoimento em video uma grande filmegen feita por aderbal nogueira e muito bom e emociomante o depoimento dela

assina CAPITÃO VANDERLI

Anônimo disse...

Sou respeitador e grande fã da literatura nordestina, em especial, tudo que fala e retrata a vida de Lampião e seus companheiros de luta no cangaço!

joao cruz disse...

todo mundo quer ser o último !!

será que ela é mosmo a última cangaceira viva?

http://tokdehistoria.wordpress.com/2012/03/25/casal-de-ex-cangaceiros-de-lampiao-conta-como-era-a-vida-no-cangaco/



vá até este site.

abraço.

joao cruz disse...

será que ela é a última cangaceira viva?

vá até o site:

http://tokdehistoria.wordpress.com/2012/03/25/casal-de-ex-cangaceiros-de-lampiao-conta-como-era-a-vida-no-cangaco/

abraço

Kiko Monteiro disse...

Senhor João Cruz esta matéria é do ano 2000. A ex cangaceira Sila é falecida desde 15 de fevereiro de 2005.

Ja a matéria indicada por você data de 25 de Março de 2012. Tanto Moreno quanto Durvinha já são falecidos, Moreno em 06 de setembro de 2010 e Durvinha em 29 de junho de 2008.

A ultima cangaceira ainda viva (Hoje 25/09/2013) chama-se Dulce, que foi companheira de "Criança".

juliana monte negro disse...

Nossa muito bom esse depoimmente

Historiadores Funeso disse...

Se existe ainda algum cangaceiro vivo por favor publiquem

Thiago Menezes disse...

Minha Vó Dulce é a ultima cangaceira viva, conta as historias pra gente como se fosse ontem, hoje minha vó é evangelica e agradece muito a Deus por ter sobrevivido ao massacre que matou Lampiao e Maria bonita

Anônimo disse...

Ola Thiago, resido em Mossoró RN, cidade onde foi baleado e enterrado vivo o cangaceiro Jararaca,bem dizem que no dia da invasão Lampião fugiu, só que Lampião não entrava em cidades que a igreja tivesse 2 torres, a pergunta é; será que LAMPIÃO REALMENTE ESTEVE EM MOSSORÓ RN? Será que D Dulce se lembra de algo nesse sentido? Gostaria na medida do possível uma resposta. Ok Obg