domingo, 8 de novembro de 2009

Opinião

Uso da historia oral! 

Por José Eliton de Lima Dantas

O uso da História Oral como metodologia na pesquisa sobre o cangaço, ainda é uma constante. Em sala de aula tivemos a oportunidade de conhecer a obra do professor e pesquisador Gisafran Nazareno Mota Jucá, “A ORALIDADE DOS VELHOS NA POLIFONIA URBANA” que veio a ligar de forma ampliadora as nossas convicções a cerca da atitude na utilização da História Oral. Para a nossa pesquisa, autores como: Gustavo Dodt Barroso, Leonardo Mota e Vera Ferreira, sendo que os dois primeiros escrevem em épocas que nem fazíamos a noção do que seria hoje a História Oral (metodologia), entrevistaram e conviveram com suas fontes orais, para poder nos deixar uma série de informações que, não estão nas paginas de documentos oficiais.

Para entendermos como o uso da memória é importante nas pesquisas acadêmicas, o professor Gisafran Mota, fala e argumenta de forma incisiva que: “a maioria dos documentos expressava uma versão oficial, ou seja, as abordagens de autoridades políticas ou mesmo a opinião de uma elite acerca da realidade” não depreciando a importância da documentação oficial ele diz: “mesmo reiterando o valor da documentação consultada, percebemos os limites presentes em tais fontes, o que nos motivou a buscar uma alternativa de melhor entender a realidade” assim autores que aproveitam a memória dos agentes que viveram os acontecimentos, podem expandir suas linhas que limitam a pesquisa.

Partindo das idéias do uso da oralidade autores que se empreitaram na busca de informações verdadeiras, foram basicamente corajosos publicando entrevistas em épocas em que não se tinha um respaldo seguro para tal feito. Leonardo Mota no decênio de 1920 a 1930 publicou obras essencialmente orais de uso da memória, onde dedicou boa parte do seu tempo caindo em campo à procura de pessoas que estivessem dispostas a lhe falar de suas lembranças ou participações em diferentes episódios.

Seu livro, “No Tempo de Lampião”, onde o título já nos dá uma noção de como o autor fez uso da oralidade, buscando divulgar, que seus leitores iriam acha informações atuais acerca de um personagem que estava presente aos acontecimentos do hoje, do agora, e o que as pessoas que conviveram com Virgulino Ferreira o famoso capitão Lampião, diziam a respeito do afamado cangaceiro. Leonardo mota viajou incansavelmente a procura de informações que desvendassem mitos e lendas sobre Lampião, em uma de suas visitas a Penitenciaria Municipal do Estado de Pernambuco na cidade do Recife no ano de 1914, o mês era novembro, ele entrevista um cangaceiro chamado Antonio Silvino, que vivera a fazer suas andanças no mundo do crime antes mesmo de Lampião, e pergunta a ele:
- Silvino o que é que você diz de Lampião?
- Ah, seu Dr., Lampião é um prinspe!
- Príncipe por quê?
- Veio depois de mim. Os tempo são outro. As armas estão mais aprefeiçoada. Não falta quem lhe dê de tudo. Caixeiro viajante não é besta pra se esquecer de levar presente de bala pra ele, a policia quer só se encher de dinheiro no sertão. O mundo todo virou revoltoso, os governo deixam de mão os cangaceiros porque não tem tempo nem de cuidar dos revoltosos, não tenha duvida, Lampião é um prispe!

Inquieto em saber mais sobre Lampião ele corre a traz de colher mais informações, e ainda na casa de correção da capital Pernambucana diz que conversa a vontade com vários comparsas de Lampião, homens que estiveram ligados diretamente com o facínora, segundo Leonardo mota ali se encontrava, já felizmente presos e caídos nas malhas da justiça os cangaceiros: Serra Umã, Braúna, Pássaro Preto, Zabelê (Foto acima), Canção e Guará. Ele faz uma indagação a todos pra ver se algum deles se manifestava ou até mesmo podíamos dizer que usou a pergunta como forma de quebrar a tensão inicial da conversa que teria pela frente, e pergunta:
-Lampião é corajoso? Zabelê atendeu a pergunta e começou a falar:
- É, e tem uma coisa, pra prender ele ainda nasceu home. Pode nascer ou já nasceu pra juntar os pedaços dele, porque ele se esbagaça, mas não vai preso. Virgulino é home pra se acabar nas mãos doutro home, a qualquer hora do dia ou da noite, o cabra que se cair na besteira de se botar a ele segure o pulo porque se errar o salto ele o lambisca dipressinha, tão certo como dois e dois são quatro. Tem uma coisa, brigar a toa só pra esperdiçar munição ele não briga não.


Leonardo Mota (à esquerda na foto acima) envolvido com o uso da oralidade, naquele momento teve a feliz ideia de perguntar a eles se lembravam de algum caso engraçado, que envolvesse matuto medroso, a se ver as voltas com Virgulino e diz:
"Riram os bandidos como se o caso recordado fosse jocoso e não atestasse acima de tudo a perversidade de Virgulino. Mas para aquelas almas, embotadas pela torpeza de delitos inenarráveis, a brutalidade do gesto infame se afigurava de irresistível comicidade, Zabelê cochichou qualquer coisa aos ouvidos de Canção e este num riso de mostro, a mostrar a fileira de dentes pontiagudos, cerrados como caninos, desembuchou, desembaraçado, aquilo que Zabelê se acanhava de referir".
Percebemos ai a memória induzida pelo entrevistador, os cangaceiros submergidos em resgatar suas façanhas entram num êxtase emocional coletivo, pois tal feito perecia ter sido presenciado por todos eles e como uma espécie de porta voz do pequeno grupo relata o episódio:
A coisa mais engraçada que eu tive de assistir passou-se numa fazenda do município de Princesa, na Paraíba. O velho dono da casa tremia que era ver uma vara verde, Lampião botou ele debaixo de confissão, riscando o punhal nas costelas e ele acabou descobrindo o rumo da volante do tenente Mané binisso. Virgulino queria dar uma surra de relho, mas era tento choro de muié e menino, que o jeito foi se perdoar. Mais com pouca, Lampião tirou do bolso um maço de cigarro e ofereceu:

-Pita?
O velho ficou calado, fez que não tinha ouvido e Lampião tornou a perguntar, desta vez gritando no pé do ouvido dele:
-Pitaaaaaaaaaa? Ai todo tremendo, o velho disse:
-Pito, mas vamincê querendo eu largo o viço.

Vimos ai à importância do uso da oralidade empregada por Leonardo Mota, a memória usada como um ciclo capaz de fornecer ricas informações, talvez não como escolha de metodologia para sua obra, pois como já dissemos antes ainda não se falava de Historia Oral como forma de metodologia.
Assim como Gizafran Mota usa a oralidade dos velhos, para justificar a ampliação do conhecimento sobre fortaleza em épocas passadas, dizendo:
Por isso, as informações prestadas por eles trazem subsídios valiosos à compreensão do passado, uma vez que elas são apresentadas de uma maneira mais espontânea, deixando fluir o conteúdo restaurador do passado.

Leonardo Mota usa a oralidade dos contemporâneos de lampião e de outros cangaceiros igualmente famosos para justificar as ações dos bandidos que tanto se ouvia falar, mas, nada tinha escrito sobre eles. E até mesmo sem conhecer a possível metodologia que estava aplicando ele segue umas regras que servem de exemplo para quem quer se aventurar na arte da Historia Oral, diz:  
- O velho tabaréu a quem perguntei se o Lucas era valente deu um moxoxo e contestou:
-O que ele era, era um grandessíssimo desalmado. Era perverso, era levado do não sei de que diga, mas era frouxo, mijou-se todo na hora da morte.
- Não lhe quis obtemperar que a micção é natural nas mortes por enforcamento. Preferi deixá-lo desatar a língua a seu modo
- Lucas foi o diabo em figura de cristão, Deus o perdoe, aquilo não era gente, uma vez ele agarrou um negro beiçudo na estrada e sabe que é que fez com ele? Prendeu com prego caibral o beiço do infeliz numa arvore, quando acabou, disse ou suplicante que ia não sei aonde e mais tarde voltaria para capá-lo.

Observamos que ele deixa o entrevistado à vontade para falar aquilo que achar conveniente, fazendo assim uma relação de confiança entre ele e sua fonte. Gisafran Mota acha essencial a memória dos velhos, para a captação dos dados que irão ampliar os limites da historia e diz:
"O papel dos velhos, expresso através das opiniões coletadas, pode ser fundamental a compreensão do que havia sido esquecido, dependendo de uma decisão do pesquisador de incluí-lo no contexto estudado".
Tanto Gisafran Mota como Leonardo Mota usam a memória dos agentes da historia, para assim vincular os acontecimentos relativos à suas pesquisas, onde essas recordações trariam uma nova probabilidade de aprendizado sobre o devido tema. Para exemplificar bem vejamos o que Gisafran Mota diz:
"A memória remete a algo mais do que a um mundo pessoal, deixando transparecer a relação entre o individuo e o seu meio social, que torna mais abrangente o perfil da realidade estudada".
Considerações Finais

Os dois autores apresentados nesse artigo nos mostram a realidade de pessoas que estiveram presentes e atuantes, como agentes construtores do momento histórico. A narração na fala dos protagonistas não retrata o caso ocorrido de maneira singular, uma vez que cada sujeito divulga o experimento especial que viveu, sentiu ou captou em profundidade, tornando o fala muito mais opulenta do que a simples nota informativa ou referencia ao fato, fica certo a seriedade da oralidade para divulgar as memórias, contribuindo para a construção de uma história mais rica.

Fonte CAFÉ HISTÓRIA

3 comentários:

Rostand Medeiros disse...

Parabéns José Eliton.
Um abraço,
Rostand

josé eliton disse...

é isso ai meu amigo!!!o lampião sempre estará no imaginario do povo brasileiro!!!e será um fonte inesgotavel de pesquisa!!!

Mendes e Mendes disse...

Amigo José Eliton de Lima Dantas:
Gostaria de saber do escritor: Essa foto que aparece a cima é do cangaceiro Zabelê, ou não?
José Mendes Pereira - Mossoró - Rio Grande do Norte.