terça-feira, 3 de novembro de 2009

Opinião

POR QUÊ LAMPIÃO MATAVA?

Por Paulo Moura 


Julgamos importante iniciar este capítulo fazendo referência a um texto extraído do livro de Sigmund Freud “A Psicanálise da guerra” (1941), onde se lê: “Não há lei que ordene ao homem que coma e beba ou que o proíba de introduzir as mãos no fogo. Os homens comem e bebem e não põem as mãos no fogo, instintivamente, por temer os castigos naturais e não os legais.

A lei não proíbe senão aquilo que os homens seriam capazes de realizar sob o impulso de alguns dos seus instintos. O que a própria natureza proíbe e castiga não tem a necessidade de ser proibido e castigado pela lei.

Assim podemos concluir, sem vacilação, que os crimes proibidos por uma lei são crimes que muitos homens praticam facilmente por uma inclinação natural. Se as más inclinações não existissem, não haveria crime e se não houvesse crime, não haveria necessidade de proibi-lo”.

O bandido José Gomes, o Cabeleira, que reinou e aterrorizou grande parte da mata norte do estado de Pernambuco e adjacências, ainda nos tempos do império, celebrizou-se mais pelas atrocidades que praticava – instigado pelo pai, o perverso Joaquim – que pelas motivações naturais que seriam responsáveis por sua vida de crimes. Cabeleira, diferentemente de Lampião, foi um aventureiro sem causa social. Matava indistintamente, apenas pelo prazer de matar.

Estimulado pelo Joaquim, homem de espírito diabólico, que ensinou o filho, desde criança, a sacrificar passarinhos, preás, coelhos, para que no futuro o rapaz pudesse “matar gente”. José Gomes aprendeu, ainda na infância que era preciso matar, para não morrer. Quando cresceu, viveu de matar. Antes para intimidar o inimigo do que para se proteger, já que tinha a cabeça a prêmio.

Lampião foi, levado pelos infortúnios da vida, coagido à prática do crime, pois na adolescência não nutria índole má. Era do bem. Todos os escritos relacionados ao indivíduo Virgulino Ferreira apontam que ele fora um menino bom e que, dentro dos moldes sertanejos foi-lhe dada uma boa educação.

Daí seguir o exemplo do pai, José Ferreira, homem honesto e de passado limpo, entregue aos afazeres da almocrevaria. Um bom pai de família. Todos os pesquisadores são unânimes em admitirem isto. Não há registro de bandidos anteriores a Lampião no seio de sua família. Os Ferreira detinham o respeito e a admiração dos vizinhos por serem pessoas honestas, trabalhadoras e educadas. Mostras de valentia só se via na prática de amansar animais e nas pegas de boi, no que eram admiravelmente bons.

Na família Alves de Barros, de Saturnino das Pedreiras, bem antes das desavenças ocorridas com a família Ferreira, já existiam cangaceiros. O próprio Cassimiro Honório, respeitável cangaceiro manso do Navio, era tio legítimo de Saturnino. Vicente Moreira, cabra de Cassimiro, era cunhado de Saturnino. Quando tem início a briga entre as famílias, o tio é chamado a intervir. Ao descer a serra, o velho afirma:
- Vou às Pedreiras, ensinar meu sobrinho a brigar! 
Virgulino - assim como tantos outros sertanejos - viu ao seu redor as injustiças praticadas pelos “homens do poder”. O jovem fora então “lapidado” pelos elementos do seu meio e, como já tinha inclinação para a coisa - pois era homem de coragem, de ação - não recuou na empreitada. A brutalidade no comportamento do homem sertanejo está impregnada em sua raça desde tempos de antanho.

Lampião sabia que se não matasse, morreria. Como morreu seu pai, sem reagir. Se fosse pego com vida sofreria as mesmas torturas que ele mesmo praticava com quem tinha a infelicidade de cair-lhe prisioneiro. Aprendeu estas artes na mesma escola dos seus inimigos, homens brutos, afeitos à luta e que nutriam total desprezo pela vida.

Lampião, como em tudo que fazia era bem feito, foi também um perfeito assassino. Dependendo da raiva que sentia no momento, trucidava o inimigo da forma mais horrenda possível. Nisso, saciava sua vingança e celebrizava sua fama, usando ainda da tática do terror para fazer tremer o mais valente perseguidor seu, à simples notícia de sua aproximação.

Virgulino Ferreira matou por encomenda, como foi o caso de Gonzaga Ferraz, prefeito de Belmonte que havia mandado dar uma surra num parente de Sinhô Pereira, então chefe do grupo de Lampião.

Matou por vingança, a exemplo da família Quirino, que foi praticamente dizimada pelo bandido. Muitos outros inimigos foram perseguidos e mortos por Lampião e, quando não, tinham as suas propriedades totalmente destruídas.

Porém quem mais sofreu nas garras do bandido Virgulino foi a polícia e os contratados, que viviam de perseguí-lo. Para estes não havia perdão, pois o cangaceiro sabia que se lhes poupasse a vida, estaria criando cobra para ser picado - era o que dizia. Embora se sabe que muitos policiais escaparam da fúria do seu punhal de três quinas e do seu rifle papo amarelo, por obra e graça do Altíssimo, a exemplo do coronel João Nunes, feroz perseguidor de cangaceiros que foi preso e na hora de sua morte Lampião desistiu de matá-lo, soltando-o em seguida, a pedido de um cangaceiro, ex-soldado de volante.

Outro exemplo, entre vários, é o do soldado que ao vê-lo numa cidade (Queimadas) com seu grupo, ajoelhou-se na sua frente e pôs-se a rezar. Quando já estava para ser sangrado pelos cangaceiros Lampião saiu-se com esta:
- Não bulam com este homem, não estão vendo que ele está doido? 
Denunciantes, traidores, soldados, contratados, estes eram os inimigos em potencial do rei do cangaço. Matava-os sem piedade, em combate ou não. Embora preferisse matar homens valentes no campo de luta, nunca à traição ou indefeso. Dizia: “homem valente é prá morrer lutando, prá tirar raça de cabra macho”.

Vicente Moreira, cabra de Cassimiro e cunhado de Saturnino, batalhou contra Lampião horas a fio, protegendo a casa do cunhado que havia se evadido do campo de luta. Vicente, junto com dois cabras seus, sustentou o fogo até enquanto pôde. Cercado, foi forçado a se render, porque já estava sem munição. Virgulino, estranhamente, o deixou em paz, exaltando sua valentia e prometendo não mais combater contra ele se o mesmo jurasse não mais pegar em armas para brigar com Lampião. A proposta foi prontamente aceita. Lampião admirava-o.

O pulso que Lampião impôs sobre o sertão foi, no molde de quem lá vive ou viveu, tão bem elaborado por sua pessoa que o fez alcançar notoriedade e respeito nos quatro cantos do país. A sua estratégia de Marketing foi o impacto, sob a forma do terror e da violência. Lampião agia como um furacão devastador, numa terra onde os meios de comunicação eram precários ou quase inexistentes, o bandido fez ressoar, na forma de propaganda boca-a-boca os seus feitos, mostrando que não estava para brincadeiras. Que era, antes de tudo, um homem revoltado com o destino que lhe fora impingido. Que a sua luta, de longa envergadura, vingança e domínio, iria alcançar o objetivo, como de fato alcançou.

Embora que, como o crime não compensa, teve o seu fim, trágico e ironicamente medíocre, pois não morreu lutando como queria.

E surgem Lampiões, vão-se Lampiões, o mundo continua com seus bandidos vários, uns de arma em punho, outros de gravata, alguns de farda, extorquindo cidadãos e fabricando novos bandidos. No mundo atual, onde Lampião é apenas uma lembrança menos terrível, a banda podre da polícia e a banda corrupta da política continua a roubar-nos o direito de ser cidadãos e de poder viver num mundo onde a justiça faça valer o seu nome.

PAULO MOURA é poeta, escritor, pesquisador e membro da: SBEC (Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço) autor do livro "Lampião, a trajetória de um rei sem castelo"
 Este texto foi feito para o lançamento do livro: PERNAMBUCO NO TEMPO DO CANGAÇO (Antonio Silvino, Sinhô Pereira e Virgulino Ferreira, Lampião).Subtítulo: THEOPHANES FERRAZ TORRES, UM BRAVO MILITAR (1894-1933)
Lançado em 2003 o livro, escrito pelo pesquisador Geraldo Ferraz, conta a trajetória de um dos mais destacados comandantes de Forças Volantes entre 1894 e 1933. O Alferes Theophanes Ferraz Torres que foi o responsável pela prisão do cangaceiro Antonio Silvino no ano de 1914.

Nenhum comentário: