quinta-feira, 18 de março de 2010

Opinião

Destruição, Atraso e Violência
 Por: Carlos Eduardo 

Tendo minha atenção cativada pelas histórias de cangaceiros, passei a frequentar os eventos organizados para debater e desenvolver os estudos sobre o cangaço. Inicialmente, despertou minha curiosidade, a valentia dos protagonistas desse fenômeno, a resistência física dos cangaceiros para conseguir transpor grandes distâncias com seu equipamento, e o romantismo que impregnava os relatos dos poetas do cordel, primeiros a registrar os movimentos de rebeldia dos bandos de salteadores.

Procurando saber um pouco mais sobre esses titãs das caatingas, passei a ler e pesquisar na literatura e em conversas com outros estudiosos do assunto, a respeito do cangaceirismo.

Muitos historiadores consideram a adesão dos cangaceiros a vida bandoleira, como uma reação desses elementos a um código de ordem assimétrico (aos amigos tudo, aos inimigos a lei), imposto pelos coronéis que comandavam a política na região, notadamente na segunda metade do século XIX e início do século XX. Bem como, a dura sobrevivência no ambiente hostil da caatinga, onde o cidadão tinha enorme dificuldade de produzir seu sustento, principalmente durante épocas de secas prolongadas. Por tudo que tenho lido e escutado nos seminários que freqüento, parece que esta hipótese é aceita quase que de forma unânime entre os “cangaceirólogos”.

Embora essa motivação possa ser compreendida, os cangaceiros nunca demonstraram estarem conscientes e interessados em mudar aquela situação, quando muito, seus objetivos eram de conquistar pela força, um poder igual ou maior do que aquele que os coronéis detinham. O terror imposto ao sertanejo nordestino foi sendo ampliado com a disputa pelo controle político entre grupos adversários, a violência dos cangaceiros e a convivência com forças policiais despreparadas, que no lugar de dar tranqüilidade ao cidadão aplicava métodos tão cruéis quanto os bandoleiros.

Essa situação deixou uma herança negativa na região, causando grande destruição de riqueza e perda de vidas. Os recursos subtraídos da produção (comerciantes, fazendeiros, etc.) passaram a financiar o combate e deixaram de circular no sertão, indo em boa parte para as mãos dos traficantes de armas e munição. A insegurança atrasou e encareceu o desenvolvimento da infra-estrutura para acelerar a comunicação e progresso.

Considerando apenas os grupos de cangaceiros mais conhecidos, não encontro em nenhum deles, uma atitude que pudesse ser considerada como protesto aos oligarcas e a situação de desamparo legal ao sertanejo.

Jesuíno Brilhante. (Não existem sequer pinturas que retratem a sua imagem). A literatura relata que este cangaceiro foi mais preocupado com a situação de miséria imposta pela seca. Porém esses registros não encontram confirmação oficial.


Antônio Silvino
> Na sua fase inicial, encontramos alguns episódios descritos pelos poetas de cordel, principalmente, onde o cangaceiro tomou atitudes que poderiam ser vistas como reparadoras de injustiças contra os sertanejos “sem padrinho”. Com o passar do tempo Silvino foi abandonando sua versão justiceiro e usando as armas para roubar.









Sebastião (Sinhô) Pereira
> Esse cangaceiro adotou a vida das armas como soldado da família Pereira que de longa data mantinha luta com os Carvalho. Com problemas de saúde e aconselhado pelo Padre Cícero, abandonou o sertão nordestino, indo refugiar-se em Goiás e depois no estado de Minas Gerais.









Virgulino Ferreira , Lampião
> A grande referência do cangaço. Sua biografia vem sendo discutida e registrada com detalhes por diversos pesquisadores. Apesar de alguns autores apresentarem Lampião como tendo sido um rebelde em luta contra os coronéis, nada confirma esta hipótese. Os registros policiais, o relato de contemporâneos de Virgulino e suas relações com os donos do poder, não comprovam esta tese.

Apesar das consequências tão negativas no meio em que atuaram, os cangaceiros despertaram um sentimento de curiosidade e até admiração, que passados aproximadamente 70 anos do desaparecimento desses bandoleiros, suas histórias continuam motivando pesquisas, livros, filmes, seminários e etc.
Devemos considerar que os cangaceiros deixaram marcas evidentes na cultura local. Na musica, dança, alimentação. A indumentária do bando de Lampião, ainda nos dias de hoje serve como inspiração para a moda. Sem dúvida, o traço mais marcante da influência dos cangaceiros na cultura nordestina, é a adoção como marca registrada da região, do chapéu de aba virada.

Tenho visitado regularmente esta página, que é hoje, um ponto de encontro de muitos pesquisadores e colecionadores destas façanhas sertanejas. Por isso gostaria de deixar aqui algumas perguntas:

- Por que um capitulo tão cruel e negativo da história pode motivar tanto debate?
- Corremos o risco de confundir criminosos com heróis?
Muito boa a ideia do coordenador do Cariri Cangaço, Manoel Severo, de colocar ao lado das palestras sobre os cangaceiros, na próxima edição, uma exposição da vida de Delmiro Gouveia, sem dúvida uma referência muito importante e positiva para a sociedade. Um cearense paradigmático. Outro cearense que poderia enriquecer o seminário e que deixou um legado a ser exposto e debatido, poderia ser Rodolpho Theóphilo (imagem abaixo). Um homem que dedicou boa parte da sua vida e patrimônio pessoal, para salvar vidas dos seus conterrâneos.


Rodolpho Marcos Teóphilo 
(Salvador, 6 de maio de 1853 " Fortaleza, 2 de julho de 1932) 


- Entendo que comparando as ações desses grandes personagens regionais, ajudaria a criar uma consciência daquilo que queremos exaltar ou não. Precisamos ser cuidadosos ao escolher nossos heróis e vilões.
Carlos Eduardo Gomes.

No açude de Coroné Severo: Cariri Cangaço

terça-feira, 16 de março de 2010

'Deu a testa'

A coragem do cabo Alfredo
por Ângelo Osmiro Barreto


Silvino em tempos de paz
Antônio Silvino foi o primeiro Rei do Cangaço, pernambucano de Afogados da Ingazeira, aderiu à vida de bandoleiro para vingar a morte do pai. Homem temido no Nordeste, principalmente nos Estados do Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte.

O cangaceiro Antônio Silvino não gostava de cobradores de impostos, através de amigos tomou conhecimento que no povoado de Parelhas seria instalado um posto de coleta de impostos.

Não gostou nada da notícia, e logo que pode se dirigiu ao lugar para se inteirar da novidade. Naqueles dias o povoado estava com seu policiamento mais reduzido que o normal, estando no local um cabo e três soldados. Silvino invadiu a cidade e se dirigiu a delegacia, encontrando no local, somente um soldado, que não o conhecia pessoalmente.

Perguntou pelo comandante, o soldado respondeu que seu chefe estava em casa. O cangaceiro mandou chamá-lo, pois quem estava ali era o capitão Antônio Silvino e desejava vê-lo urgentemente.

O soldado tomando conhecimento de quem se tratava, foi correndo chamar seu superior, voltando logo em seguida acompanhado do cabo Alfredo de Souza. Com o militar na sua presença o cangaceiro perguntou áspero e arrogante:
- Não me esperava?
- Não senhor. Respondeu o cabo sem titubear.
- E se soubesse iria me esperar?
O cabo demonstrando uma coragem impressionante respondeu:
- Sim, esperaria junto com os meus soldados, porque esse é o meu dever.
O Cangaceiro Antônio Silvino gostou da franqueza e coragem do cabo, encerrou a entrevista. Entretanto disse que precisava de dinheiro, conseguisse junto aos comerciantes da localidade uma , determinada quantia.

Não houve alteração no povoado, depois de feita a coleta, o cangaceiro e seu grupo retiraram-se para outras paragens. A coragem do cabo Alfredo, talvez tenha evitado uma tragédia, aquele lugar livrou-se de presenciar atos de barbaridade e violência.

A polícia no sertão também era formada de homens corajosos e valentes.

 *Escritor e pesquisador do cangaço, atual Presidente da SBEC (Soc. Bras. Estudos do cangaço).

Novo livro na praça

Diga lá, Xará! 

O autor

Marcos Edilson de Araújo Clemente, filho de Inácio Catingueira e dona Maria de Lourdes, nasceu em Paulo Afonso e sua formação acadêmica concentra-se na área da História. É doutorando pela UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestre pela UNICAMP- Universidade Estadual de Campinas – São Paulo e é graduado pela Universidade Católica do Salvador. Foi professor concursado da Universidade do Estado da Bahia, em Paulo Afonso. Atualmente é professor efetivo da Universidade Federal do Tocantins–UFT. Tem artigos publicados em revistas periódicas de circulação nacional.

A obra

Este é um livro convidativo. Folheando suas páginas o leitor encontrará uma abordagem singular sobre o cangaço e o seu consagrado chefe Virgulino Ferreira da Silva, Lampião.
  
Diferente da maioria das obras sobre o tema, que buscam narrar fatos da vida do Rei do Cangaço - desde seu nascimento em Villa Bella, atual Serra Talhada-PE, perpassando pelos episódios de bravura ou de crueldade atribuídas àquele cangaceiro, até sua trágica morte em Angicos, sertão de Sergipe, em 1938- a perspectiva deste estudo migra do campo da história para o da memória.
  
O autor sai do lugar-comum e “procura compreender como vem se constituindo uma memória coletiva do cangaço e ainda como vêm se construindo imagens sociais de Lampião em diferentes localidades do sertão nordestino.”
  
Preocupa-se o historiador em explicar as múltiplas apropriações da personagem de Lampião em cidades que podem ser consideradas como centros irradiadores da memória do cangaço, a exemplo de Serra Talhada e Triunfo, em Pernambuco; Piranhas, Alagoas; Poço Redondo, Sergipe e Mossoró, Rio Grande do Norte. Todas elas, cada uma a seu modo, reivindicam para si uma forma singular de discutir o cangaço e Lampião, com o objetivo de compreender os problemas sociais que historicamente assolam a região sertaneja.
  
A pesquisa revela como se organizam nessas localidades os grupos ativos de defesa da memória, associações culturais e os museus do cangaço. Simultaneamente, revela também que Marcos Edílson é um historiador que não mede esforços para reunir e analisar fontes de estudo, ainda que estejam em lugares geograficamente distantes.
  
O foco do livro, no entanto, é a notável apreciação que o autor faz ao discutir os processos de constituição da memória coletiva do cangaço protagonizado pela Associação Comunitária dos “Cangaceiros” de Paulo Afonso, Bahia, sua cidade natal. O autor tece uma narrativa fluida, correta e atraente amparada em reflexões da moderna historiografia, ao lançar mão de relatos, de evidências e de pistas aparentemente sem importância das recordações individuais e coletivas, trilhando um caminho ainda hoje pouco explorado.
  
Marcos Edílson, docente da Universidade Federal do Tocantins, mestre em história pela Unicamp, atualmente doutorando pela UFRJ, recupera a história da agremiação e analisa o sentido das suas práticas sociais. Para tanto, transita e dialoga com domínios da história e da memória cujo aporte teórico provém de clássicos da historiografia francesa e inglesa como Jacques Le Goff, Pierre Nora, Maurice Halbwachs e Eric Hobsbawm, entre outros.
  
Lampiões acesos: o cangaço na memória coletiva, obra de título curto e sugestivo que remete o leitor para esse campo de conhecimento das memórias coletivas do cangaço, é um desdobramento de uma dissertação de mestrado defendida com distinção na Unicamp, em 2003. Trata-se, portanto, de um livro de muitos méritos tanto pelas teorias que o amparam como pelo objeto empírico que analisa. Finalmente, deve perguntar o leitor, o que a agremiação de Paulo Afonso recorda e imagina de Lampião e do instigante universo do cangaço? Deixamos ao leitor o prazer da descoberta. Nada como mergulhar na leitura desse livro e perceber que a história também se faz com muita recordação e pouco esquecimento.

Débora Cavalcantes de Moura 
Professora de língua portuguesa
Doutoranda em Literatura Brasileira - UFPB


Para contato e aquisição do livro:
Marcos Edilson de Araújo Clemente.
Rua Liberdade, 1040, Setor Itapuan 
Araguaina- TO 
CEP. 77823-550
(63) - 3414 - 0117 / 98131 - 8096.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Videoteca básica

Memória do Cangaço, 1964 

Categorias Curta-metragem / Sonoro / Não ficção
Gênero:
Documentário sociológico
Material original:
35mm, BP, 26min, 24q
País:
Brasil

Direção:
Paulo Gil Soares
Assistência de direção:
Terezinha Muniz
Direção de fotografia:
Affonso Beato
Câmera:
Affonso Beato
Fotografia de cena:
Dolly Pussi
Montagem:
João Ramiro Melo
Intérprete:
João Santana Sobrinho, José Canáro
Canção:
Dois Irmãos
Autor da canção:
Armindo de Oliveira
Conjunto e banda:
Banda da Polícia Militar do Estado da Bahia
Produção:
Divisão Cultural do Itamarati; Departamento de Cinema do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
Produção:
Thomaz Farkas
Produção executiva:
Edgardo Pallero
Distribuição:
Thomaz Farkas Filmes Culturais

Identidades/elenco:

Paulo Gil Soares
Narrador
Gregório Estácio de Lima
José Rufino
Cabo Leonício Pereira
Cabo Benevides
Cabo Antônio Isidoro
Ângelo Roque
"Labareda"
Benício Alves dos Santos
"Saracura"
Sérgia Ribeiro da Silva
"Dadá"

Sinopse:
Mostra as origens do cangaço, movimento armado de bandoleiros no Nordeste entre 1935 e 1939, com entrevistas de alguns sobreviventes da luta, policiais e cangaceiros. Entre os entrevistados, o prof. Estácio de Lima, Catedrático de Medicina Legal da Universidade da Bahia e Diretor do Museu de Antropologia (onde se encontram as cabeças dos mais famosos cangaceiros), que apresenta a sua teoria da origem dos cangaceiros ligada à predisposição criminal, distúrbios endócrinos e fatores morfológicos tipicamente caraterizados naqueles indivíduos. Partindo destas afirmações, a entrevista com o vaqueiro Sr. Gregório expõe a vida do sertanejo como sendo a mesma dos seus antepassados, ou seja, marcada pelo abandonado, exploração e rebeldia. É apresentado o cel. José Rufino da Polícia Militar Baiana, responsável pela perseguição e morte de mais de 20 cangaceiros, cuja história é mostrada entremeada pelas sequências autênticas de filmes realizados em 1936 por Benjamin Abrahão, um mascate árabe que conseguiu filmar o famoso bando de Virgolino Ferreira da Silva, o "Lampião". Contando seus combates mais perigosos o cel. Rufino apresenta também ex-cangaceiros e ex-perseguidores que contam suas histórias, entre os quais Leonício Pereira que cortava as cabeças dos cangaceiros "para que fossem tiradas fotografias". (Baseado no press-release).

OBS:
Os senhores Ângelo Roque, e Benício Alves dos Santos, foram, respectivamente, os antigos cangaceiros Labareda e Saracura.
CCBB/Caravana Farkas indica assistente de montagem: Amauri Alves, e Terezinha Muniz.
CB/Transcrição de letreiros apresenta, nos letreiros iniciais, o seguinte trecho: "Um filme pesquisa, apresentando trechos do documentário sobre cangaceiros feito em 1936 pelo mascate Abraão Benjamin, fotografias e versos de Virgulino Ferreira da Silva, Lampião, e gravuras populares da literatura de cordel".
Sérgia Ribeiro da Silva é o nome de Dadá, ex-mulher do famoso cangaceiro Corisco.

Prêmios:
Prêmio Gaivota de Ouro obtido no Festival Internacional do Filme, 1965, RJ.. Prêmio Menção Honrosa Governador do Estado, 1965, SP.. Prêmio paralelo, não oficial, Prêmio Robert Flaherty (da União Mundial dos Museus de Cinema).. Prêmio Dziga Vertov da União Mundial de Cinematecas, 1965, Brasília - DF.. Prêmio da Crítica Internacional do Festival Cinematográfico, 1966, Tours - FR.. Rassegna Del Film Etnográfico e Sociológico, 7 no Festival de Popoli, 1966, Florença - IT.. Premiado no Festival de Berlim, 16, 1966 - DE.






Créditos: Canal do Chico Marques

domingo, 14 de março de 2010

Balanço sobre evento em Paulo Afonso

Maria já é quase centenária

Com tamanho atraso devido a problemas técnicos postamos aqui nossas impressões sobre o 2º Seminário do Centenário de Maria Bonita ocorrido nos últimos dias 8, 9 e 10 de março na UNEB - Universidade Estadual da Bahia (Campus de Paulo Afonso).

O evento organizado pelos confrades João de Sousa Lima, Professor Juracy Marques, Antônio Galdino, Rubinho Lima, Edson Barreto e Marcos Edilson contou com o apoio da SBEC - Sociedade Brasileira de estudos do cangaço principal entidade sobre a pesquisa do tema além da consolidada Cariri Cangaço nas pessoas de Manoel Severo e sua esposa Danielle Esmeraldo.  oão de Sousa, nosso anfitrião, palestra para crianças do ensino básico.

 
 Juracy Marques dá as boas vindas. 

Não faltou a indispensável latada de livros, com lançamentos para a bibliografia cangaceira, além de farta munição em Literatura de cordel, revistas, souvenirs de Paulo Afonso e região. 

 Alcino, Aninha, este blogueiro e Coroné Severo no Pórtico da UNEB.

Os colecionadores e estudiosos adquiriram dois novos livros, sendo estes "Maria Bonita, diferentes contextos que envolvem a vida da rainha do cangaço", uma coletânea de artigos resultado da primeira edição do evento, acontecido em Março de 2009, dos autores; João de Sousa Lima, Edson Barreto, Antonio Galdino, Juraci Marques e Rubinho Lima. 


E o livro "Lampiões Acesos, o Cangaço na Memória Coletiva" do escritor Marcos Edilson de Araújo Clemente trabalho do qual iremos em breve trazer uma resenha junto com contatos para aquisição direta com o autor.
 
Mesa redonda para construção do III Seminário

Os promotores do II Seminário Internacional de Nascimento de Maria Bonita; UNEB - Universidade Estadual da Bahia, Prefeitura Municipal de Paulo Afonso e a SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, promoveram agora a pouco, grande reunião de trabalho com representantes das entidades envolvidas, já se preparando para a realização em 2011 da grande festa de realização das comemorações ao Centenário de nascimento de Maria Bonita; que nasceu no dia 08 de Março de 1911.

 Prof. Juracy Marques presidiu a mesa que definirá a programação de 2011.


Sob a coordenação do Diretor da UNEB, Professor Juraci Marques, os participantes foram convidados a contribuir com idéias e sugestões para a construção do grande III Seminário a se realizar em 2011. Foi criada uma Comissão que ficará responsável pela organização e gestão da referida iniciativa, com a coordenação da UNEB e colaboração da SBEC e apoio da Prefeitura de Paulo Afonso. Os encontros estarão determinados a partir de uma periodicidade e todos os membros da Comissão terão tarefas específicas na construção do III Seminário no ano de 2011, na cidade de Paulo Afonso.

Fonte: Cariri cangaço

 Palestras
  
 

Na terça feira, segunda e mais importante noite do evento a plateia foi formada em sua maioria por alunos da UNEB. O temas tinham direcionamento para A presença feminina no cangaço e aspectos que envolveram a vida de Maria Bonita ao lado de Lampião.

1ª - Manoel Severo Curador do Cariri Cangaço, abriu com o tema: O Cangaço no Imaginário Feminino Sertanejo;

2ª - O escritor Rubinho Lima reforça com A presença das mulheres e sua especialidade que é o Cordel e Xilogravura;

3ª - Pesquisador e escritor Antônio Vilela aborda o episódio “Rainha Baleada”, ocasião em que Maria Bonita foi ferida na cidade de Serrinha do Catimbau atual Paranatama –PE;

4ª - A quarta palestra na verdade uma intervenção foi por nossa conta e risco - Kiko Monteiro Blogueiro. Cangaço e as Novas Mídias, sugerindo e promovendo a importância de blogs, sites e comunidades do Orkut ligados à pesquisa cangaceira;

5ª - Pesquisador César Megale com o episódio da morte de Maria em Angico;

6ª - O polemico e irreverente escritor sergipano Alcino Costa, assumiu e arrancou sorrisos com o tema: As Mulheres Mudaram o Cangaço;

7ª - Pesquisador Paulo Gastão conformado com 10 minutos estipulados desfilou o tema: Os Aspectos Sociais e Econômicos do Cangaço; 

8ª - E por fim o Presidente da SBEC Ângelo Osmiro, aproveitou a oportunidade para explanar sobre O significado e importância do trabalho da entidade.

 
 Kiko Monteiro, Manoel Severo e Alcino Costa


Rota do cangaço em Paulo Afonso


 Rubinho Lima e Nós 

 
 Casa de Dona Generosa

Na quarta-feira dentro da programação matinal foi proporcionada uma visitação técnica até o museu casa de Maria Bonita, erguido no local original da casa da rainha do cangaço (povoado Malhada da Caiçara) e às ruínas da casa de Dona Generosa (povoado Riacho) onde eram realizados bailes para Lampião e seus meninos quando estes estavam na região, além de contemplar a Serra do Umbuzeiro. Mencionado em outro artigo tentamos localizar a Lagoa do Mel local da morte de Ezequiel Ferreira.  
Mas seu João!!! prepare a "cangaia" pra levar todo mundo ano que vem aos pontos que faltaram, pois são muitos, não é cumpadi Severo?. 
Por motivo de compromissos inadiáveis tive que retornar ao Sergipe após o almoço sem poder acompanhar as atividades da noite que encerrariam o evento.

Fotos: Kiko Monteiro, Manoel Severo e Danielle Esmeraldo. 

A pisada de Lampião em Sergipe

 Capela

A literatura cangaceirista narra, com uma grande riqueza de detalhes, a visita de Lampião á cidade de Capela, distando esse município, apenas 70km de Aracaju, capital do estado de Sergipe.

A visita indesejável ocorreu no dia 25 de novembro de 1929.

Após visitar e fazer escaramuças na cidade sergipana de Nossa Senhora das Dores/SE, o rei vesgo do cangaço, se apropriou de alguns poucos veículos existentes nesse lugarejo, e junto com sua malta, algo em torno de 15 cangaceiros, se dirigiu a cidade de Capela.

Ao se aproximar dessa última urbe, o rei do cangaço mandou emissário ao então intendente (cargo de Prefeito), Sr. Antão Correia Andrade, conhecido por "Correinha", com o seguinte recado:

"Diga ao major Correinha (irmão do Chefe de Polícia/SE - Dr. Heribaldo Dantas Vieira) que se quizé qui eu entre em paz venha até aqui, se não vié eu entro com bala e a rapaziada ".

Em seguida, partiu o emissário, voltando em companhia do intendente. Após confabulações com seu interlocutor, Lampião entrou na cidade de Capela/SE, por volta das 2h, antes, porém, mandou cortar os fios de comunicação. Os cangaceiros do estado-maior de Virgulino: Moderno, Ezequiel, Arvoredo, Volta Seca, Mourão, Gavião, Zé Baiano e outros valentes, tomaram posição, em pontos estratégicos.

Lampião foi até o " Cinema Municipal de Capela ", acompanhado de alguns cabras, e do intendente. Ao chegarem no local, foi grande o alarido, tendo os espectadores sido dominados pelo pavor, impossibilitados de fugir. Na ocasião estava sendo exibido o filme "Anjo da Rua ", com a atriz Janet Gaynor.


A projeção foi interrompida. O rei do cangaço advertiu a todos que não corressem. Era um cinema simples, com banda de música que tocava no intervalo. Os músicos tocaram com beiços trêmulos, uma valsa triste e desafinada.


Na sala de projeção, avista-se o telegrafista Zózimo Lima, (Foto á esquerda) e previne-lhe de que não dê notícia de sua entrada na cidade, sob pena de ser sangrado. Do cinema, Lampião sempre acompanhado do intendente, e do telegrafista Zózimo foi até a estação da estrada de ferro, utilizando 3 automóveis, dos 4 tomados em Nossa Senhora da Dores.

 Com a chegada do trem, os passageiros começaram a saltar, calmos. Ao saberem da presença do Rei do Cangaço, o desembarque se transformou numa debandada. Um soldado que vinha de Aracaju, foi abordado por Lampião, que arrebatou-lhe o fuzil, tirou as balas e disse que ele tinha sorte, pois se fosse da polícia baiana, o sangraria, ali mesmo.

 Cine Capela
Cortesia de Sérgio Dantas.

Como contribuição, o caolho do cangaço estabeleceu que a cidade contribuiria com a importância de 20 contos de réis. O prefeito, no entanto, salientou que os habitantes de Capela eram pobres, se achavam desprevenidos, estavam atravessando três anos de seca. Nisso, foi atendido, tendo a importância sido reduzida para $6 contos de réis. O próprio chefe de polícia (delegado), Pedro Rocha quem fez a coleta entre os que dispunham de posse. Entregue ao cangaceiro Moderno, esse colocou o montante no bolso, sem contar.

O chefe do cangaço deu ordens a seus subordinados para que andassem livremente pela cidade, mas que ficassem atentos ao apito para a retirada estratégica. Na loja do comerciante Jackson Alves de Carvalho, Lampião adquiriu Roupas, capa de borracha e uma pistola parabellum, sendo dito o seguinte:  
" Eu carrego comigo três coisas: coragem, dinheiro e bala.."



Por onde andavam os cangaceiros eram acompanhados de uma grande legião de admiradores, encantados com as histórias de suas façanhas e vestimentas esquisitas.

Por seu turno, o padre José Cabral esteve com os delinquentes que a ele se curvaram pedindo bênção. Foram aconselhados a deixarem aquela vida. Lampião recebeu das mãos do comerciante Jackson Alves Carvalho, com dedicatória, o livro "Vida de Cristo".

Cerca das 23h, Lampião desejou telefonar para o chefe de polícia da capital (Aracaju), Sr. Heribaldo Vieira. A ligação não pôde ser completada, em face da hora.

Lampião desejou conhecer o "brega" (cabaré) de Capela, pois essa cidade gozava da fama de ter mulheres decaídas bonitas em abundância. Ele foi recebido pela prostituta "Enedina ", a quem obsequiou, após o " coito", com 70 mil réis. Enquanto vadiava, dois cangaceiros davam guarda a entrada e saída do lupanar.

No salão de bilhar (jogo) situado na Praça do Mercado, o Rei vesgo do Cangaço, deixou, em uma das paredes, o seguinte aviso:
Capela - 25-11-29  
Salvi. Eu cap.m Virgolino Ferreira
Lampeão
deixo Esta Lca. para o officiá qui parçar
Em minha perceguição, apois tenho Gosto que
Voceis me persigam. Descupe as letra qui sou
Um bandido como voceis me chama pois eu não
Mereço, Bandido E voceis que andam roubando
e deflorando as famia aleia porem eu não tenho
este costume todos me desculpe a gente a quem odiar ?
Aceite Lças. do meu irmão Ezequiel Vulto Ponto Fino e
do meu cunhado Virginho Vulgo Moderno



Por volta das 03 horas da madrugada, Lampião convocou os demais cangaceiros, com três silvos de apito, tendo deixado Capela, nas mesmas viaturas em que haviam chegado. No caminho, trocaram os automóveis por cavalos. A políca sergipana, na capital, havia sido avisada, mas não conseguiu chegar a Capela, senão às 07 hs da manhã do dia seguinte.

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Um abraço a todos.
IVANILDO SILVEIRA
Colecionador do cangaço
Natal/RN

sábado, 13 de março de 2010

Até hoje procuramos

A Misteriosa Lagoa do Mel 
Por: Manoel Severo 

Desbravadores da Lagoa do Mel
Aproveitando uma pequena pausa em nossas andanças aqui pelo Distrito Federal, vou trazer para todos os amigos, um dos episódios mais marcantes e hilários de nossa visita a Paulo Afonso, ainda no começo desta mesma semana; como diz o Senador Mão Santa, do Piauíiiiiii: "Atentem bem!"
 
O Mistério da Lagoa !!!!
 
Era a terça-feira, segundo dia do Seminário Internacional de Paulo Afonso, toda a caravana de pesquisadores almoçava por volta das 13 horas, então propuz a todos uma visita ao local onde foi morto o irmão mais novo de Virgulino, Ezequiel; no fogo; como João de Sousa Lima nos fala: da Lagoa do Mel. Pois bem, de pronto quase todos, com exeção de Ângelo Osmiro e Paulo Gastão, que iriam tirar uma soneca, aceitaram o desafio de ir até o local, que não é muito distante do centro de Paulo Afonso. 

Marcamos para sair perto das 15 horas, mas... não sabíamos como chegar e João de Sousa não podia nos acompanhar; estava com um grupo de alunos com um vídeo sobre Maria Bonita. Aqui começou o nosso suplício, explico: Sua excelencia João de Sousa fez um "Mapa" e determinou um guia, Rubinho Lima, que disse no momento: "Conheço como a palma da mão".....É mole!!!!

E la se foi a caravana em busca da Lagoa do Mel e do local onde foi morto Ezequiel. Eu dirigindo, Alcino Costa ao meu lado e atrás mais quatro: Danielle Esmeraldo, Kiko Monteiro, Ana Lúcia e o famoso guia: Rubinho. João falou que era logo perto, era só pegar a rodovia que vai para Jeremoabo e quando passar de uma plantação de bananeiras, "entra a esquerda, tem uma pedra, e entra a direita, aí vão ver duas pedras:pronto é lá!!" Queria só saber como é que fomos "cair nessa", rsrsrs.


Em busca do elo perdido


Eleitor de Alcino Costa desde 1914


Enigmático Mapa de João de Sousa Lima
 
Depois de rodar cerca de 420 horas, contar quase todos os pés de bananeira da rodovia, fazer o senso de todas as entradas "à esquerda", examinar cada pedra a beira do caminho, e entrevistar 345 pessoas; que em todos os casos, nunca tinham ouvido falar da tal Lagoa do Mel ou tinham se mudado para ali há pouco tempo, até um antigo eleitor de Alcino, quando o mesmo era prefeito em Poço Redondo em 1914, encontramos; mas, a Lagoa do Mel, estava encantada!!

Nosso Guia Rubinho Lima, a beira do desespero confessava: "Estamos perdidos", na verdade, ele não sabia nem por onde começar. Olhou o espetacular mapa de cima para baixo, de baixo para cima, de lado, ao contrário, não tinha jeito... E tem mais, quando perguntei a ele onde, no mapa, ficavam as famosas bananeiras das quais falou João, ele candidamente me apontou: " Ali Severo, naquele verdinho"!!!! Meu Deus Rubinho, que verdinho meu amigo, o Mapa era em preto e branco!! Tivemos que admitir, nosso guia estava além de perdido, louco!

Alcino achou ótimo, mais uma polêmica para suas teses: "Olha não sei se Ezequiel morreu mesmo, porque realmente ninguém pode encontrar essa tal Lagoa do Mel, dessa forma, também naquela época não encontraram"!


Kiko Desiludido!


Rubinho apelando para a comunidade da vizinhança...


Constatação: Não convidem Rubinho Lima para Guia!

Kiko Monteiro com aquele jeitão maravilhosamente professoral declarou: "Calma pessoal isso acontece, não é a primeira vez que nos perdemos..." Eu, simplesmente, conclui que João de Sousa armou uma grande armadilha para todos nós e só avisou ao Vilela, que de última hora desistiu de nos acompanhar... João queria manter em segredo a famosa Lagoa do Mel. É um fato.
Naquela altura já estávamos procurando qualquer lagoa; do mel, do fel, lago, açude, riacho, poça d'água, qualquer coisa servia; mas, o máximo que achamos foi uma maravilhosa plantação de melancias. Bem, já estava anoitecendo, tínhamos as palestras da noite, precisávamos voltar e assim o fizemos, mas determinamos uma condição: Rubinho estava proibido de abrir a boca por todo o final do dia.

Moral da história: João de Sousa é um péssimo cartografo, Rubinho é um desastre em guia e nós, lamentavelmente: somos uma catástrofre como desbravadores do sertão.


Lagoa do Mel, nunca mais!!!

Manoel Severo do alto de seu Cariri Cangaço

Cabra de Silvino

Entrevista com o cangaceiro "Cobra Verde" 
O "cangaço" em reminiscências no depoimento de “Cobra Verde”, do bando de Antônio Silvino
Silvino
Mora e trabalha em Taperoá/PB, no sítio "Serra do Saco", de Adalício Andrade, um dos poucos remanescentes do cangacei-rismo nordestino. É o velho Odilon Sebastião da Silva, o "Cobra Verde", do grupo de Antônio Silvino. Contando 87 anos, está lúcido e ainda trabalha de manhã à noite, no cabo da enxada. Queixa-se apenas da vista curta. Pelo que relata, deve estar com catarata em evolução. Alvo, de fala mansa, sem expansões, feições finas, respeitador, goza da estima do patrão e de quantos o conhecem. Avisado de que iria contar alguma coisa do "cangaço", pediu licença para se sentar e acender um cigarro.

– Onde nasceu o senhor, seu Odilon?
– Nasci ali na Umburana, hoje Itapetim, Estado de Pernambuco. Meu pai era da família Garapa, de Teixeira, e minha mãe dos Cunha, das Cacimbas, hoje no município de Desterro. Mas eu fui batizado em Soledade.
 
– E por que isso, seu Odilon?
– Meu pai se meteu em briga e teve que fugir às pressas. Eu era novinho e fui levado dentro de um saco para Soledade, onde meu pai foi morar, na fazenda Santa Teresa, do Coronel Claudino Alves da Nóbrega, conhecido como Dino Perna-de -Pau, porque tinha uma perna postiça de madeira. Naquele tempo, brigavam entre eles mesmos, de Teixeira para sair em Umburana, os Garapa, os Guabiraba, os Dantas e os Pereira. Isso desde o fim do século passado.

– E como o senhor se incorporou ao bando de Antônio Silvino?
– Eu tinha dez anos de idade, quando ele apareceu em Santa Teresa. Procurava um menino para recados e mandados.


FOTO: Cortesia pesquisador/escritor, Dr. Sérgio Augusto Sousa Dantas.


Interessou-se por mim, porque eu era muito ligeiro. Mandava buscar um cavalo, longe, e eu chegava em cima dos pés, com o animal. Meu pai e minha mãe não queriam se separar de mim, mas o Capitão garantiu que me trazia em casa de vez em quando. No bando de Lampião tinha "Sabonete", que carregava os "troços" de Maria Bonita, quando ele era menino.

– E por que o apelido de Cobra Verde?
– As cobras verdes são muito ligeiras e, além disso, eu acho que foi porque eu tinha cor meio esverdeada. Mas quero dizer ao senhor que houve outros cabras com o nome de Cobra Verde, tanto no bando de Lampião, como no de Antônio Silvino. Eu fui o segundo Cobra Verde do grupo dele. Muita gente pensa que eu fui homem dos dois, mas não senhor, eu só servi ao Capitão Antônio Silvino.


PRIMEIRA VIAGEM

Naquele tempo – prossegue Cobra Verde – o grupo do Capitão era pequeno. Tinha somente sete homens. Eu não conheci os outros que andaram com ele antes de 1910, mas me lembro bem que quando entrei, estavam no grupo: João de Banda, Passarinho, Zé Bernardo, Cajarana, João Polia, o Negro Geraldo e Gato, que é daqui do Cariri, e estava vivo até um tempo desse, morando aí entre Livramento e Cordeiro.
 
– Da fazenda Santa Teresa, o Capitão tirou direto para a fazenda do finado Benedito Queiroga, em Pombal, chamada Várzea do Saco. Quando chegamos lá, ele me mandou de volta, para devolver os cavalos. Ainda me lembro que dois animais eram daqui de Taperoá, um deles do coronel Deusdedit Vilar, o outro do doutor José Queiroga, que foi dono da fazenda "Colme Pinto", que depois foi de Sabino Pinto e hoje é do Dr. José Madruga.


Faz uma pausa, puxa uma baforada e diz: – O Capitão era assim. Quando tomava uma coisa empres¬tada fazia questão de devolver. Também, quando tinha precisão, ninguém lhe negava o que pedia.

MAIS NA PARAÍBA

O Capitão Antônio Silvino – continua Cobra Verde – gostava mais da Paraíba, embora andasse pelo Ceará, Rio Grande do Norte e Pernambuco. Não teve lugar para a gente não ir, a cavalo ou a pé, tanto nos sertões como no Cariri e nos brejos. Andava-se sempre a pé. Estivemos bem perto da Capital e o Capitão tinha vontade de chegar lá. Em todo canto ele tinha amigos e s6 era perseguido pelos "macacos".

— E o senhor continuou fazendo mandados?
— Muito bem, distinto. Eu, sendo menino, não dava para ninguém desconfiar que era gente do "cangaço". Ia nas cidades fazer compras, especialmente charutos para o Capitão, que gostava muito, dar recados a fazendeiros, trazer animais, água e comida.

— E ele mandava dinheiro?
— Não senhor. Eu levava a ordem de um fazendeiro para ser despachado no comércio.

— E Antônio Silvino dormia com vocês, no mato?
— Sim, senhor. Nunca dormia fora do grupo. Às vezes, deixava a gente e ia na casa do fazendeiro, sozinho, para conversa entre eles. Voltava logo. Se acontecesse que levasse um cabra, acompanhado, deixava ele do lado de fora.

OS COMBATES

— Quando foi que o senhor começou a participar de tiroteios?
— Até os doze anos, seu moço, eu ajudava durante os "fogos". Ligeiro como era, eu carregava os rifles dos cabras. As armas esquentavam muito. Muitas vezes, quando tinha água, era preciso até molhar os canos para esfriar. Dava recados do chefe a uns e outros. Sabia atirar direitinho e era doido para entrar no serviço. O Capitão estava esperando que eu ficasse maior. Mas, um dia, aqui bem perto, abaixo de Santo André, num lugar chamado Lagoa de Pedras, quando o dia estava amanhecendo, o Capitão foi dizendo: "espia meninos, como está o aceiro da lagoa, cheio de macacos".

— Era a polícia, seu Odilon?
- Ora se era! Era o alferes Maurício, homem valente, com vinte e cinco "macacos". Ele vinha rastejando o grupo. O Capitão já tinha sabido que esse alferes estava lhe perseguindo. Quem avisou a ele foi o fazendeiro Raulino Maracajá, no anoitecer do dia anterior. 

O Capitão pediu a ele que fizesse ver ao alferes que desistisse de nos perseguir porque ninguém ia se entregar e a parada ia ser muito dura. Mas o alferes queria fita enão atendeu ao aviso. Amanheceu o dia na beira da lagoa, seguindo os rastros da gente.

- E quantos homens tinha o Capitão, naquela ocasião?
- Eram somente uns dez homens, mas eram umas feras. Valiam por cem, porque não tinham medo de nada e atiravam até no vento.

Prossegue Cobra Verde:

- Ia começar o tiroteio. Os "macacos" ainda não tinham nos avistado e nós ficamos esperando o primeiro tiro, que só podia ser disparado pelo Capitão.

- E ele atirava bem, seu Odilon?
- Era capaz de acertar num mosquito!

- E aí, o que aconteceu seu Odilon?
- Ele escalou o rifle e ficou mirando. Quando o alferes ia baixando a cabeça para olhar rastros no chão, do outro lado da lagoa, o Capitão mandou-lhe fogo na testa, de longe. O bicho caiu, os "macacos" se assanharam e aí fechou-se o tempo. Foi fogo grande, meu doutor! Perto do meio-dia, serenou um pouco. Os "macacos" pensavam que a gente tinha saído. Então, um -macaco- pretão subiu num pereiro para nos avistar. O Capitão disse para nós: "deixa, menino, que eu vou botar aquele porco abaixo—. Meteu-lhe bala e o bicho caiu como um cevado! Quando fomos vê-lo, de tarde, ainda foi sangrado.

- Como terminou, seu Odilon?
- Eu estava acostumado a ver "fogos" maneiros e pesados, com meia hora, uma hora, duas ou três de duração. Mas o de Lagoa da Pedra foi brabo. Deu dez horas, meio-dia, e o fumaceiro estava fazendo nuvem. E foi naquele dia que entrei. O Capitão viu que o aperto era grande e disse: "pegue o pau furado e mande bala nesses cachorros". De tarde, ainda se lutava. Com o sol já se pondo, foi parando. Os "macacos" correram e nós ficamos atirando neles pelas costas, embora recebendo resposta aqui e ali. Com pouco tempo, o Capitão saiu e foi dar um "corta-lourenço" .

- E o que era "corta-lourenço", seu Odilon?
- Era fiscalizar as redondezas para saber se ainda havia "macaco" que pudesse mandar algum besouro doido.

- E o que era besouro?
- Era bala, meu patrão!

Narra ele que, encerrado o tiroteio, Antônio Silvino foi direto ao local onde estava o cadáver do alferes. Pegou uma pedra grande e meteu-a na cabeça do morto.  

Voou miolo de juízo para toda parte. Nessa hora, ele disse assim: "quando se mata cobra a gente esmaga a cabeça dela". Morreram muitos "macacos". Contamos até nove. Dos que escaparam, um deles foi parar ferido na fazenda "Barrocas". de Terto Marques, muitas léguas p'rá baixo.

REVÉS

– Houve combate ruim para vocês, seu Odilon?
– Ora se houve! Ali numa lagoa, perto de Patos, a gente vinha andando por dentro da caatinga, vindo de Catolé do Rocha, onde houve um fogo maneiro. O rumo era a fazenda Malhada da Onça, no Desterro. De surpresa, foi o encontro com os "macacos". Apesar de se andar prevenido, quase não houve tempo para repicar. 

Fechou-se o tempo e a bala zuniu no meio do mundo. Fizemos estrepulias'de toda qualidade, mas corremos com os tiros nas costas, por dentro da jurema, em busca do sertão. Morreram muitos, tanto "macacos" como homens do bando. Mataram Criança, que era homem de toda confiança do Capitão. Pois bem, ele ferido e amarrado e com a cara coberta com um pano, foi fuzilado. Mas era de uma coragem fora do comum. Pediu que tirassem o pano da cara e o soltassem, para morrer brigando com os "cachorros". O oficial disse que era um perigo soltar um cabra daquele. Foi fuzilado na hora. Perdemos outros camaradas e não morremos porque conseguimos fugir.

– E quando acontecia isso, como se encontravam depois?
– Era tudo combinado antes. Quando se partia para algum lugar, o Capitão dizia onde deveriam se encontrar com ele, se caíssem num "imbé" e escapassem.
 
– E o que era "'imbé", seu Odilon?
– Era emboscada, seu moço.

Continua a narração:

– Desta vez, o encontro era na fazenda Várzea do Saco, do finado Benedito Queiroga, que era lugar onde o Capitão descansava. Estavam todos estropiados. Depois que chegou o derradeiro, foi que se ficou sabendo que cinco morreram. O Capitão chorava como menino, lamentando a perda de homens de confiança.

O BANDO

– E como ele reconstituía o bando?
– Não faltava quem quisesse entrar. Mas o Capitão testava o cabra para ver se era valente. Muitas vezes, travavam-se no punhal, ele e o freguês que queria entrar. Uma vez, ali em São José da Lagoa Tapada, ele "esprementou um caboco" novo que se apresentou para entrar no grupo. Foi uma meia hora de briga e o cabra era bom mesmo e terminou entrando. Nesses sertões velhos e também aqui no Cariri, não faltava homem valente. E ali no Brejo era a mesma coisa. Eu fui na fazenda "Geraldo", perto de Campina, nas encostas de Alagoa Nova, para trazer dois cabras bons. No Ceará, no Rio Grande do Norte, no Pernambuco, tinha homem valente em todo canto.

– Do bando, quem mais Antônio Silvino considerava?
– Era doido por Criança, Chico Sabiá, Zé Bernardo e Jararaca, valentes e perversos demais. Tinham coragem de onça. Ele dizia que estando com eles não tinha medo de "macaco" nenhum. Vez por outra, era preciso que o Capitão os "chamasse às ordens".

– E os outros mais que estiveram no bando?
– Antônio Sobral, que depois chegou a formar um grupo para ele mesmo, mas que durou pouco; Cícero Azevedo, Zé Coruja (este por pouco tempo) e mais outros que agora não me lembro.

– E o grupo era grande?
– Não senhor. Quando eu entrei eram sete, como eu já dis¬se. Depois, foi aumentando, mas nunca passou de quatorze, quinze ou dezesseis homens. Quem tinha bando grande danado era o Lampião! Esse era bandido de verdade. O Capitão Antônio Silvino era cangaceiro, sim senhor, mas bom e justiceiro. Matava quando não tinha outro jeito.

– E quando um ficava ferido, o que fazia o Capitão?
– Se o ferimento era grave, ele procurava um fazendeiro para tomar conta do homem. E ia embora.

– E se o cabra melhorava, voltava?
– Não senhor. O Capitão não queria mais não.
 
– E por que, seu Odilon?
– O senhor sabe, um balaço pesado deixa o homem fraco.

– E se o ferimento era menor?
– O cabra tinha que se tratar andando, tomando garrafada do mato e botando raspa de pau nas feridas. Se não tivesse condições de andar, ficava. Depois, podia procurar os companheiros.


FOTO: cortesia do escritor/pesquisador, Dr. Sérgio Augusto Sousa Dantas

MUITOS COMBATES

Cobra Verde dá os lugares e até as datas dos tiroteios. Recorda os nomes dos coiteiros e das fazendas, tanto na Paraíba, como no rio Grande do Norte, no Ceará e Pernambuco. Repete que havia "fogos" maneiros e pesados. Em Catolé do Rocha tiveram arregaço ligeiro. Quando entraram na cidade, até as mulheres ofereciam dinheiro ao Capitão, que conheceu que o povo gostava dele. Mas lá o negócio era quente. Nem Lampião aguentou.

Os tiroteios pesados e maneiros foram muitos – adiantou. Ali no Rio Grande, brigamos um bocado, e aqui na Paraíba foi de Conceição até o Brejo, nas barbas do Governo.

O REVÉS FINAL

Seu Odilon diz que o Capitão gostava de todo mundo, mas ficava com raiva de quem o denunciava à Polícia. Por isso tanto brigava com os "macacos" como ajustava contas com os que facilitavam para ele cair nos "imbés".

– E por que foi derrotado?
– Porque buliu com quem não devia.

– Como assim, seu Odilon?
– Em Soledade, soube que o vigário, padre José Betâmio, parente do coronel Dino Perna-de-Pau, estava falando contra ele. Foi lá e deu uns empurrões no padre velho e ainda esfregou a macaca (açoite de animais) nas ventas dele. Logo que saiu, foi dizendo que tinha começado a se atrapalhar porque tinha mexido com um padre.

– E ele era católico, seu Odilon?
– Era, sim senhor. Fazia as orações dele.

– E o que aconteceu então, Cobra Verde?
– Mal deu as costas, o padre mandou bater os sinos e celebrou uma missa forte contra ele, como se fosse de corpo presente.

- E daí para a frente, o que aconteceu?
- Ele ia para a Serra de Taquaretinga, no Pernambuco, mas resolveu passar antes em Pocinhos, onde tinha acertos de coisas com fazendeiros. Em Pocinhos, o vigário não deu atenção a ele, de certo porque sabia o que tinha acontecido com o colega de Soledade. Esse outro padre também recebeu uns empurrões. Quando o Capitão deu as costas, chegou Frei Maninho, a quem o vigário, de joelhos, contou o sucedido.

Frei Martinho, botando a mão na cabeça do padre, disse-lhe: "fique certo de que aquele bandido não fará mais isso com ninguém".

E continua Cobra Verde a narração:

– Saindo no rumo de Taquaretinga, o Capitão disse mais uma vez a todos nós que estava mesmo atrapalhado. Logo adiante, ali perto da fazenda "Cabeça de Boi", encontrou uma boiada, que se soube pertencer ao coronel Cristiano Lauritzen, que tinha arranjado o alferes Mauricio para persegui-lo. Atirou em um boi e a bala varou o animal de um lado para outro. Mesmo com o sangue esguichando, o boi saiu acompanhando o Capitão, urrando forte, como se estivesse agourando ele. Aí, ele disse novamente: "conheço que estou atrapalhado".

PRISÃO DO CAPITÃO

Parecia que o Capitão estava "ispritado" – conta Cobra Verde. Logo que entrou em Taquaretinga, mandou invadir as casas de Comércio e tomou os dinheiros dos apurados e jogou na rua para o povo apanhar. Um fazendeiro convidou o Capitão para ficar na propriedade dele. Debaixo de um juazeiro grande, a gente jogava sueca. Um menino vinha trazendo comida para nós, quando o comandante de uma força policial o apertou num interrogatório e acabou sabendo onde estava o bando. Fomos pegados de surpresa. O Capitão Antônio Silvino recebeu logo o primeiro balaço na coxa e deu ordens para que a gente corresse. Ele ficou sozinho. Um soldado quis sangrá-lo, mas o oficial – um homem educado – não deixou. O "macaco" insistiu e foi expulso na hora.

O Capitão foi levado numa rede. Recebeu tratamento, ficou preso, condenado a 32 anos de cadeia. Tirou os trinta. Nós fugimos para a Várzea do Saco, em Pombal. Levamos muitos dias para chegar. E acabou-se. Cada um foi morar e trabalhar com algum patrão. Eu fiquei lá, ainda muito novo, trabalhando em tudo, com o finado Zé Queiroga, durante 18 anos. Passei a me chamar Armando. Com o tempo, também me chamavam "Leão" e depois que a idade aumentou, uns me chamavam "Velho do Bisaco", porque eu sempre andei com um bisaco a tiracolo.

– E nunca mais viram o Capitão?
– Nós voltamos para visitá-lo em Taquaretinga; depois esteve nas prisões de Recife, João Pessoa é Campina Grande. A gente levava charutos para ele e a conversa era recordação das coisas passadas. Ele trabalhava na prisão, fazendo uns chicotes, com um punhal embutido no cabo.

E remata saudoso:

— Era homem de conversa boa!

— E quando soltou-se, o que fazia?
— Ainda andou muito por aí. Sei que foi ao sertão receber até dinheiro que tinha emprestado a fazendeiros.


FOTO: Cortesia do escritor/pesquisador, Dr. Sérgio Augusto Sousa Dantas

BALAÇOS

Perguntado se foi ferido, pediu licença, tirou a camisa e mostrou as cicatrizes no ventre e nas costas. E acrescentou:

— O primeiro foi em Alexandria, Rio Grande do Norte, e o segundo foi em Lastro, na Paraíba, todos em tiroteios com os "macacos". No Lastro o homem forte era o coronel Manuel Gonçalves.


 Manoel Gonçalves de Abrantes (1889 - 1973) 

OUTROS FATOS

Conta Cobra Verde que Antônio Silvino tomava as dores dos outros. Em Taperoá mesmo, um homenzinho o procurou para dizer que o major Jocelino Vilar, que era chefe político, proibiu que ele vendesse rapadura no mercado velho. Ele foi ao "major" e disse-lhe que a ordem não ia ser cumprida. Como o velho não gostou, o Capitão o chamou de "major de merda". Certo é que, quando ele passava por aqui, procurava saber se o homenzinho estava negociando. E estava... Ainda dando informações sobre o Capitão, disse que ele tanto tomava dinheiro emprestado, como recebia por doação, mas também emprestava dinheiro a fazendeiros amigos. Muitos foram lhe pagar na prisão. Depois de solto, ainda recebeu dinheiro que tinha emprestado.

— E como comprava arma e munição, seu Odilon?
— Nunca comprou nada disso. E nunca deixou de ter rifle bom e bala. Os fazendeiros lhe davam, porque precisavam de amparo dele contra perseguições de inimigos e dos "macacos".

— E os apetrechos do bando, quem os dava?
— Era tudo feito ali em São Mamede, pelos Caroca: os chapéus de couro, cartucheiras, "alpercatas" e "bornais". Os punhais eram verdadeiros espetos. Também eram dados.

– E vocês se divertiam?
– Pouco. Quando a gente estava numa fazenda segura, o Capitão mandava preparar um baile. Arranjavam tocador bom e cavaleiras. Dançava-se até a barra aparecer. Dois ou três homens se revesavam na vigilância, do lado de fora, para evitar surpresa. O Capitão era dançador.

– E vocês bebiam?
– Não senhor. O Capitão não permitia, porque dizia que o homem que bebia ficava inconveniente e podia "botar as coisas a perder". Se algum bebesse, era pouco, com ordem e fiscalização. Ele mesmo nunca bebia. Quando muito um "goipe" de vinho.

– Contam que os cangaceiros faziam violências com as moças. É verdade?
– No bando do Capitão Antônio Silvino, isso não acontecia. Era uma coisa que ele avisava: "se fizerem safadeza com moça, eu mato".

– E algum cabra se revoltava contra ele?
– Quem era que tinha coragem para isso? Ele dava ordem e todo mundo respeitava!

– Dizem que ele mandou uma mulher se abraçar com um mandacaru?
– Não foi bem assim. A mulher, dona de casa, tinha falado umas besteiras. Ele soube e foi lá. Mandou que ela se abraçasse três vezes com o pé de mandacaru. Mas disse aquilo só para fazer medo. Uma filha da mulher se abraçou com ele, chorando, e pediu para não fazer aquilo, ele atendeu logo.

Cobra Verde diz ainda que devem estar vivos outros companheiros do bando. No curso da conversa, lembrou-se de Zé Renovato e de outro "da cara miúda que só espiava p'rá baixo", cujo nome não recordou.
– Esses dois – diz ele – estavam morando em Catolé do Rocha até um tempo desse. Se vivo for, Renovato deve estar caducando.

Adianta que numa viagem que fez para Goiás, passou por Brasília, e lá encontrou o negro Isac, que ele chama "Isac dos Pés de Paiêta". Estava trabalhando numa firma construtora. O outro, ainda possivelmente vivo, seria o Gato, já falado.

O MAIS VALENTE

– Todos eram valentes. Mas eu acho que Zé Bernardo, caboclo baixote, tamboeira mesmo, de braço curto e grosso, era muito corajoso. Tinha força de animal. Muitos anos depois, ele morava na "Taba", outra fazenda dos Queiroga, quando eu tive aviso de que cinco sujeitos arrebanhados por Zé Coruja, que tinha sido do bando, estavam vindo de Lagoa do Catolé para matá-lo. Fui avisar a ele, de noite, a pé. Era distante. 

E como sabia que ele tinha rifle cano-de-mamão, fraco, deixei com ele o meu, um papo amarelo. Ele botou os filhos e a mulher debaixo da cama e esperou os cabras, que arrombaram as portas da casinha. Mas não ficou um para contara história. Matou todos. Fez uma ruma dos corpos e amanheceu no pátio da fazenda, avisando ao patrão para mandar buscá-los.

MAIS FATOS

Antônio Silvino era ligeiro como um gato, e era andador. Cobra Verde narra que estavam vindo do Ceará e entrando na Paraíba. No lugar conhecido como Boqueirão dos Gatos, que deve ficar nas encostas de São José de Piranhas (antigo Jatobá), o Capitão travou combate com uma onça pintada, usando o chapéu de couro como escudo. Matou-a com uma punhalada. Mas Zé Bernardo agarrou-se com uma, no braço. Ela já estava ferida pelos cachorros que a acuavam. Os outros cabras ajudaram a matá-la de arrocho. O mulato fez mais do que o Capitão, porque dominou a fera. Isso aconteceu quando a gente estava voltando de um jogo de sueca e de uma buchada preparada na casa de um sujeito chamado João Sessenta, num vão de serra distante de Pombal.

Na sede da fazenda velha Várzea do Saco, havia, como ainda deve haver, túneis com saída para açude e outros pontos – adianta Cobra Verde.

E continua:

– Subindo a Serra dos Anís, vindo de passagem para Desterro, uns caçadores estavam atirando. Imaginando que eram "macacos", Antônio Silvino mandou fazer fogo contra eles. Os homens gritavam: "É caçador, Capitão, é caçador, Capitão"! Um deles encostou-se numa imburana e o Capitão atirava arrancando as cascas do pau. Foi medo grande! Safa rindo às custas do medo que fez a eles.



ÚLTIMA ENCRENCA

– E tudo ficou em paz como senhor, seu Odilon?,
– Muitos anos depois, um cachaceiro quis desfeitas uma filha minha. Eu estava até sem arma na ocasião. Peguei uma pedra e lasquei-lhe a cabeça. Ele morreu e eu fui preso. Mas o tenente Osório Queiroga me soltou e mandou que eu ficasse fora de Pombal, longe, durante quinze anos. E assim eu fiz, cumprindo suas ordens. Andei por Misericórdia onde tinha um irmão, por Teixeira, São José do Egito, Taperoá, Soledade. Estive até em Brasília, quando ía em busca de dois irmãos que moravam no Goiás. Foi dessa vez que encontrei Isac dos Pés de Paiêta.

TRISTEZA

Cobra Verde anda muito triste. Faz pouco tempo que um bêbado matou um filho dele, do segundo matrimônio, um rapaz calmo e trabalhador, segundo todo mundo informa. Foi esfaqueado sem ter havido sequer uma discussão. O criminoso fugiu. Diz ele que tudo é como Deus quer, mas ressalva:

– Ah! seu moço, se eu ainda tivesse pelo menos a vista boa!... Ia cortar Lourenço para encontrar aquele perverso. E se aparecerem com ele, não precisa me entregar arma de fogo; basta um pau para eu enfrentara covardia dele.

Ainda hoje não se aparta de uma bolsa. Diz que nunca deixou de andar com um bisaco, onde conduz documentos, cigarros e pequenas coisas, e uma arma, quando necessário.

Após um dia de conversa e de recordações, Cobra Verde conclui:

– Pois é, tudo isso se passou. Foi coisa do destino. Pergunta e ele mesmo responde:

– Piá que? Prá nada!


Fonte: Jornal: "O Norte" • João Pessoa: 15/11/97

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Um abraço a todos
IVANILDO ALVES SILVEIRA
Colecionador do cangaço
Membro da SBEC

domingo, 7 de março de 2010

Recado pra Lemuel Rodrigues

A SBEC - Sociedade Brasileira de estudos do cangaço - já está em clima de transição administrativa e alguns amigos já manifestam seu apoio ao Potiguar Lemuel Rodrigues através de mensagens os quais transcrevemos do blog Cariri Cangaço para este espaço!


Estamos com você!  
Presidente da SBEC, Ângelo Osmiro  

Tenho algumas paixões em minha vida: Minha Família a primeira delas; depois a literatura, onde desde cedo sempre me dediquei a leitura, pesquisa, livros, livreiros, sebos, enfim; e a outra grande paixão, todos sabem: o Cangaço. Não sei quantas horas de minha vida dediquei nas andanças ao lado de estimados amigos; apaixonados como eu pela temática; pelos confins deste querido torrão nordestino, buscando fragmentos desta epopéia tão nossa, tão cheio de encanto e mistérios.Ter tido a oportunidade de formar ao lado de grandes homens, a diretoria da SBEC, me enche de orgulho e satisfação. Com muita humildade e senso de responsabilidade procurei e procuro me conduzir e conduzir os destinos da entidade visando o seu bem e o bem comum, sempre à luz dos estatutos. E o que mais me emociona é sem dúvidas o apoio que recebi de todos os confrades; sócios e amigos da SBEC.

No momento em que poucos meses nos separam de uma nova eleição para a Presidência de nossa querida SBEC, tenho a honra e inteira satisfação de apresentar como nosso candidato oficial, este grande batalhador, um apaixonado pelas coisas do nordeste, um homem determinado e que ao longo de sua vida, soube construir amizades e com muita competência vem galgando passo a passo muitas conquista: Confrade Lemuel Rodrigues, vamos juntos continuar nessa luta e com todos os sócios e amigos da SBEC, colocá-la onde ela merece. Você é o nosso candidato e com certeza estaremos a seu lado neste desafio.

Abração.


Cariri Cangaço ao lado de Lemuel Rodrigues
 
Receber a indicação de nosso querido confrade Professor Lemuel Rodrigues ao pleito de junho quando teremos a eleição do novo Presidente da SBEC - Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, para nós foi uma enorme alegria. Tanto pela proximidade que acabamos construindo, como pelo respeito e admiração que temos pelo mesmo.

Com certeza meu querido amigo professor Lemuel, saiba que pode contar conosco, como sócios da SBEC e receba nosso irrestrito e total apoio. Estaremos a seu lado sempre, dessa forma também gostaríamos de dizer que conta com o apoio total do Cariri Cangaço.

Abraço Fraterno

Manoel Severo e Danielle
Sócios da SBEC

 

The Lemon  
Por: Aderbal Nogueira

Grande amigo Lemuel (The Lemon), com a sua candidatura a presidente da nossa SBEC, tenho a mais absoluta certeza que ela estará em boas mãos, pois sei de sua competência e do seu comprometimento sensato sobre a mesma, além do mais, tenho a convicção de que você vai dar continuidade ao brilhante trabalho que o nosso presidente e amigo Ângelo vem fazendo. Tenha o meu total apoio a sua candidatura, e tenho certeza que você tem também o apoio de Ângelo e de todos os seus amigos sbequianos, pois é assim que se faz uma democracia. Quem sabe um dia a direção da SBEC não vai estar em Manaus, São Paulo, Rondônia, Paulo Afonso, cajazeiras, Garanhuns, e por aí vai. Sinal de que a SBEC está realmente se nacionalizando. 


 Valeu.




quarta-feira, 3 de março de 2010

Não há distinção

A Canga e o cangaço


 "A canga ", que é uma peça de madeira trabalhada, apropriada para o pescoço dos bois de carro, tanto para um como para dois, formando uma parelha ou junta, o que duplica a força de tração do animal para qualquer trabalho de arrasto e, provavelmente, porque restringe a liberdade do animal, é também vista pelo povo como um símbolo de pressão e de coação contra o homem.

Ainda hoje, é muito comum ouvir-se dizer lá pelo sertão que determinada pessoa está com a " canga no pescoço", isto é, está sem condições morais ou econômicas para se tornar independente do jugo do patrão.

Uma espécie de escravidão forçada pela necessidade.

Antigamente, este simbolismo de " canga", numa época em que não se falava ainda em justiça social, em que o direito provinha da força própria de cada um, muito, mas muito de verdade, este simbolismo, que tem a sua origem na realidade nua e crua dos fatos deve ter contribuido para o nascimento e proliferação do " Cangaço," de tão triste memória, sobretudo no nordeste.

Aquele problema, gravíssimo, que por tantos anos a fio desafiou a capacidade dos governos de então, cujo fundamento principal chamava-se questão social, da qual ele, o " Cangaço ", não foi senão uma mera consequência, resultante de fatores vários, dentre os quais, se sobressaíam o monopólio da terra e a exploração injusta do homem do trabalho pelo senhor do latifúndio, mandão absoluto e protetor declarado da violência e do crime.


Naquelas circunstâncias, enquanto o caboclo da roça permaneceu com a "Canga" no pescoço, o que vale dizer, analfabeto e ignorante, explorado e faminto, perseguido e humilhado, não houve governo, por mais forte e mais bem armado que fosse, que triunfasse sobre o Cangaço - hidra de sete cabeças -tão logo desaparecido do cenário das secas com a diminuição dos abusos e a reparação parcial da injustiça.

Ainda agora, não tanto quanto antigamente, que, graças a Deus, os tempos estão mudados para melhor, a " Canga" continua fustigando o cangote do meeiro e do assalariado do campo.

Há bem pouco tempo, coisa de cinco ou seis anos atrás, em Patos/PB, numa fazenda, à sombra de um juazeiro, na beirada de um açude, em conversa com um dos antigos moradores daquela fazenda, uma das maiores do município, ele, depois de me dizer que pagava “meia” ao patrão de tudo o que colhia na sua roça e que era mais obrigado a vender a sua parte ao dito patrão, não raro, por um preço vil, inferior ao corrente no mercado, exclamou:
— Ah, seu Zé, se eu um dia pudesse tirá a "Canga" do meu pescoço! Ah, se eu pudesse!!!
Eu, que conheço bem tudo aquilo, sabendo o que ele queria dizer, todavia, me fiz de desentendido:
— Canga, Seu Vicente?! E que canga é esta que o senhor diz que tem no seu pescoço e eu olho e não a vejo?
— Num é coisa pra se vê, não, seu Zé. É coisa só pra gente sintí. E, pra o sinhô vê, ela é mais pesada ainda qui a do boi. A do boi todo dia se tira pra butá ele no cercado e a da gente passa a vida intêra de corrêa amarrada, sem afroxá um instantim!
E, logo em seguida, como que resumindo tudo, definiu:
— É a canga da sujeição!
—Tenha paciência, seu Vicente, que os governos já estão olhando para o problema do homem do campo, de vocês trabalhadores rurais.
— Se fosse cuma no tempo antigo e eu fosse mais moço, seu Zé, eu num esperava pelo governo, não, quem resolvia era eu mermo...
— Como, então, seu Vicente?
— Eu já tava no cangaço...
É isso, a " canga" só dá mesmo certa em pescoço de boi, de gente, não.


( * ) Texto extraído do livro: “Bicho do cão: Canga, Cangaço, Cangaceiro” – Autor: José Cavalcanti

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OBS: Para a maioria dos autores/pesquisadores lampiônicos, o termo Cangaço, é derivado da palavra Canga, ou seja, os homens por carregarem os rifles e objetos, ao longo do pescoço/costas, viviam sob o cangaço (meio de vida). É por ai...

Um abraço a todos
Ivanildo Alves Silveira
Colecionador do cangaço