quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Mascotes

Os "outros cães" do cangaço

Por Jaozin Jaaozinn


O sertanejo sempre tem em sua companhia animais, sejam de pequeno ou grande porte. O principal deles é o cachorro, geralmente um Boca Preta digno, que lhe diverte nas horas vagas e lhe segue para as andanças no mato, na caça de um bicho ou no tocar do gado. No cangaço não era diferente. Mesmo que essa história tenha sempre o cheiro de pólvora e sangue, recheada de batalhas e contos mirabolantes, havia também a passagem desses "sabidos de quatro patas".

A moda do cão não vem junto com o das mulheres, digo na década de 1930, no cangaço — principalmente no de Lampião. Há passagens de Virgolino tendo em sua posse, ainda no ano de 1926, um cão de cor avermelhado que atendia pelo nome Solon, em clara zombaria ao tenente pernambucano Solon Jardim. Quando da invasão de Lampião na vila de São Francisco/PE, em 23 de novembro de 1926, em que ocorreu um forte tiroteio com os nazarenos, o soldado Antônio Pequeno consegue pegar o animal, entregando este para o soldado Lero, que presenteia o sargento José Lucena com o cachorro.

Isso mesmo, o animal apreendido pela polícia quando num combate não era abatido na hora. Sempre que possível, um soldado ou comandante se propõe a cuidar do bicho. Os casos dos mortos são no momento em que o cachorro avança na volante. Não é questão dele ser treinado, e sim pelo seu instinto e pelo costume que esse tinha com os cangaceiros (ocorreu assim a morte de Guarany na grota do Angico). Algumas das citações que afirmam o cão do bandoleiro ser adestrado, que pouco faltava para falar, é na verdade uma forma de "engrandecer" o evento. Não é possível fazer um cachorro parar de latir, afinal, é da natureza dele fazer tal som. O cachorro sente cheiro e escuta barulhos em curtas e longas distâncias por sua capacidade como animal. Seu posicionamento para uma caça também vem no seu entendimento como um caçador. É claro, recebiam certos direcionamentos no bando, mas não um treinamento bruto.


Mas vamos voltar ao que nos interessa: o cãogaceiro.

Com a ascensão dos subgrupos e a vinda das mulheres, o cangaceirismo "relaxou". Agora, quase todos os grupos tinham um ou dois cães. Quando da investida que Virgolino deu em Serrinha do Catimbau, atual Paranatama/PE, no mês de julho de 1935, acompanhavam o grupo cerca de três cachorros. Dois meses antes, em maio do mesmo ano, o bando trava um combate com a força volante do tenente José Jardim, em uma região chamada Pernambuquinho. Na refrega tomba um cão de alcunha Dourado, que tentou atacar um dos soldados. Em seu pescoço, Dourado carregava uma valiosa coleira. E na tentativa de invadir Serrinha, um outro animal do bando é ferido, com o mesmo nome de Dourado. Só nesse entendimento, de maio para julho, Lampeão carregava quatro cães.


No ano seguinte, em 1936, somos agraciados pelas fotos e filmagens de Benjamin com os bandos cangaceiros. É lá que os cachorros são apresentados para nós. Corisco aparece com dois cachorros, um Boca Petra de nome Seu Colega, e uma cadela conhecida como Jardineira; Virgolino tinha os cães Ligeiro e Guarany; quanto aos outros carregavam também seus animais de estimação — sejam eles já adultos ou então filhotes. Luiz Pedro tinha o seu, e que zelava muito bem pois sua mulher, Neném, tinha um grande carinho; Ricardo Pontaria também aparece acariciando outro, de cores preta e branca, não sabendo se era dele.


 
Estes sempre faziam o papel de grandes companheiros, não deixando um ou outro sozinho. Candeeiro, em entrevista para Aderbal, relata que nos momentos em que saía para caçar, o "cão do Capitão" seguia-o sempre, não importando se era dois ou três dias na procura da preza. Vinte e Cinco e Sila afirmam que o Guarany era rápido também na hora dos tiroteios, sempre seguindo na frente destes. Da mesma forma que ocorriam as brigas de peito entre os bandoleiros, haviam também as brigas de cachorro, apostando do mesmo jeito para saber qual dos animais eram realmente ditos como "feras enjauladas", saindo sempre judiados pelas mordidas.



Por andarem sempre com ouro, é claro que "paparicavam" os cachorros; adicionavam medalhas, moedas, ilhóses, e às vezes castanhas que faziam interessantes barulhos. E era isso que a volante também procurava, pelo peso em ouro das coleiras que muitas vezes denunciavam o próprio coito por onde passava, pela chamativa sinta de couro com prata em seu arredor — como o fim do subgrupo de Serra Branca, no início de 1938, quando o cão deste fora beber água num tanque rodeado de volantes. 


Mesmo pela procura do ouro para adquirir, a polícia também via o animal como uma nova companhia para o resto da vida.


Certamente os cachorros apreendidos pelas forças nos momentos dos combates tiveram um destino agradável. Por exemplo, quando do combate do bando de Corisco com a tropa alagoana de Elpídio Magalhães, na fazenda Cafundó, o cachorro Seu Colega acaba se perdendo do grupo, e debanda para o lado da polícia. No fim da troca de tiros, o cão é adotado pelo comandante, recebe os apelidos de "Cafundó" e "Corisco", e veio a passar seus últimos anos na fazenda do dito militar. Outros dois casos são de dois cachorros que João Bezerra tinha: um ele adquiriu em combate com um grupo nas regiões de São José da Laje/AL, que tinha o nome de "Quidabã"; o outro, presenteado pelo tenente Zé Rufino quando travou um combate com Zé Sereno, na Lagoa de Domingos João, em Canindé de São Francisco/SE, no ano de 1937. Esse recebera o alcunha de "Lampião" pelos militares, clara ironia para o Cego Virgolino.

 


Todos estes foram cuidados e zelados pelo Bezerra. O cachorro de Mané Moreno, pêgo pela volante de Odilon Flor; o cachorro de Serra Branca, pêgo pela volante de Aniceto; e o cachorro Guarany (não o de Virgolino), que pertenceu a Dorotheu e adquirido pela polícia pernambucana tiveram também respectivos cuidados pelos "novos donos".

Nem sempre se tem a novidade de que tropas volantes carregavam cães (igual ao destacamento do sargento Deluz), talvez não sendo necessário já que tinham o rastejador. Mas há a testemunha de João Gomes de Lira, nazareno, que traz a história do cachorro "Já Velho", que seguiu a tropa militar quando estava no Raso da Catarina/BA, na persiga dos bandoleiros. O animal não teve um fim feliz, sendo morto por um porco do mato semanas depois que os soldados pegaram afinidade pelo doce bicho. 

Todos aqueles homens brutos choraram, sem exceção. 


Outros como Dourado, Guerreiro, Jardineira, Ligeiro, Guarany, um cão branco (morto em combate de Lampião com Odilon Flor, região de Carira/SE, pelo Sgt° Neco de Pautilha) e um de Canário (morto pela volante de Zé Rufino para chegarem no corpo do bandoleiro) também pareceram bravamente nessa luta sangrenta.

O cão fora o verdadeiro aventureiro nessa história, um inocente no meio de tantos culpados. Cumpriu o seu dever como tal, fiel companheiro nas horas de sofrimento e alegria; animal puro que também era jogado no "covil dos lobos", para satisfazer o desejo de muitos sujeitos sádicos. A esses dedico essa postagem.

𝐹𝑂𝑁𝑇𝐸𝑆: 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜 𝑒𝑚 𝑆𝑒𝑟𝑟𝑖𝑛𝒉𝑎 𝑑𝑜 𝐶𝑎𝑡𝑖𝑚𝑏𝑎𝑢 — 𝐽𝑢𝑛𝑖𝑜𝑟 𝐴𝑙𝑚𝑒𝑖𝑑𝑎; 𝐷𝑖𝑎́𝑟𝑖𝑜 𝑑𝑒 𝑃𝑒𝑟𝑛𝑎𝑚𝑏𝑢𝑐𝑜 — 𝟏𝟗𝟑𝟓, 𝟏𝟗𝟑𝟖; 𝐵𝑙𝑜𝑔 𝑑𝑜 𝑀𝑒𝑛𝑑𝑒𝑠; 𝐵𝑙𝑜𝑔 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜 𝐴𝑐𝑒𝑠𝑜; 𝐵𝑙𝑜𝑔 𝐶𝑎𝑟𝑖𝑟𝑖 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜; 𝐵𝑙𝑜𝑔 𝐵𝑎𝑛𝑐𝑜 𝑑𝑒 𝐼𝑚𝑎𝑔𝑒𝑛𝑠 𝑑𝑜 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜; 𝑐𝑎𝑛𝑎𝑙 𝐴𝑑𝑒𝑟𝑏𝑎𝑙 𝑁𝑜𝑔𝑢𝑒𝑖𝑟𝑎 — 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜; 𝑐𝑎𝑛𝑎𝑙 𝑂 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 𝑛𝑎 𝐿𝑖𝑡𝑒𝑟𝑎𝑡𝑢𝑟𝑎; 𝑐𝑎𝑛𝑎𝑙 𝐾𝑖𝑛𝑘𝑜 𝑃𝑒𝑙𝑒𝑔𝑟𝑖𝑛𝑒; 𝑐𝑎𝑛𝑎𝑙 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜𝑙𝑜𝑔𝑖𝑎; 𝐽𝑜𝑎̃𝑜 𝑑𝑒 𝑆𝑜𝑢𝑧𝑎 𝐿𝑖𝑚𝑎; 𝐼𝑣𝑎𝑛𝑖𝑙𝑑𝑜 𝑆𝑖𝑙𝑣𝑒𝑖𝑟𝑎

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