quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Revolta de Princesa – 1930 

Este é o capítulo 3.8 de uma monografia intitulada Livramento, um Quilombo desde o “Tempo de Pa Trás” de Janine Primo Carvalho de Meneses. Para o Programa de pós-graduação em história da Universidade Federal de Pernambuco - Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Pag 111 à 118. Alem de um resumo sobre a famosa revolta paraibana ele destaca depoimentos sobre a ação de Lampião e de Volantes durante o conflito.

Em 1930, eclodiu na Paraíba, no município de Princesa Isabel, um conflito armado conhecido como “Guerra ou Sedição de Princesa”. Segundo Medeiros, a guerra foi ocasionada por divergências entre o governador eleito da Paraíba em 1927, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, e os coronéis monopolizadores da economia e política do interior do estado. João Pessoa discordava da forma como o grupo político que o elegera conduzia a política paraibana, onde era valorizado o grande latifundiário de terras do interior, possuidores de grandes riquezas baseadas no cultivo de algodão e na pecuária. Estes ‘coronéis’ atuavam através de uma estrutura política arcaica, que se valia entre outras coisas do mandonismo, da utilização de grupo de jagunços armados, da conivência com grupos de cangaceiros e outras ações as quais o novo governo não concordava (MEDEIROS, 2009, p.2).

Os pontos mais fortes da discórdia eram: a perseguição aos cangaceiros, com o objetivo de aniquilar os grupos de crime organizados, e a cobrança de taxas de exportação do algodão. Os ditos coronéis paraibanos exportavam a produção de algodão pelo porto do Recife, causando perdas tributárias para o estado da Paraíba. O governador estabelece, então, diversos postos de fiscalização nas fronteiras do Estado. Segundo Medeiros, por esse motivo os coronéis passaram a apelidar João Pessoa de “João Cancela”.

O mesmo autor referencia José Pereira Lima, mais conhecido como “o Coronel Zé Pereira”, como o mais poderoso entre as lideranças coronelistas da região, é descrito como verdadeiro imperador do oeste da Paraíba, na área da fronteira com o estado de Pernambuco, onde a cidade de Princesa Isabel (PB) servia de base para o conflito.

José Pereira Lima
Medeiros afirma que a revolta teve início oficial no dia 28 de fevereiro de 1930, quando a polícia paraibana invadiu a Vila do Teixeira, aprisionando a família Dantas, ligada à família de Zé Pereira.Coronel Zé Pereira Fonte: Rodrigues, 1993, p.59 Fonte: Triumpho a Côrte do Sertão

Zé Pereira contava com o apoio dos governadores de Pernambuco e do Rio Grande do Norte, Estácio de Albuquerque Coimbra e Juvenal Lamartine de Faria, respectivamente. Com isso, declarou o “Território Livre de Princesa”, separando-o do estado da Paraíba, tornando-o absolutamente autônomo.

Dona Rosa canta uma cantiga que revela o imaginário dos negros antigos de Livramento no tempo da Revolta de Princesa:
"Era uma cantiga dos nêgo que eles cantava né? Ele tinha um sonho com eles, eles tinham uma conversa que Princesa era deles, aí eles cantavam assim, que Princesa era deles e Vila Bela ia tomar, só não tomava João Pessoa porque não podiam ceicar, Princesa já foi minha, Vila Bela eu vou tomá Só não tomo João Pessoa Proque não posso ceicá” (Maria Rosa dos Santos, 72 anos). 
“Princesa se tornou uma fortaleza inexpugnável, resistindo palmo a palmo ao assédio das milícias leais ao governador João Pessoa. O exército particular do Coronel José Pereira era estimado em mais de 1.800 combatentes, onde diversos lutadores eram egressos das hostes do cangaço e muitos eram desertores da própria polícia paraibana (MEDEIROS, 2009, p.3) 

A força do governador João Pessoa fazia-se em 890 homens organizados em colunas volantes, as famosas “volantes”. Essas colunas eram chefiadas pelo coronel comandante da polícia militar da Paraíba, Elísio Sobreira (Foto abaixo), por Severino Procópio (delegado geral do Estado) e José Américo de Almeida (secretáio do interior e justiça).


Esse acontecimento foi regado de cangaceirismo na região afetada, Lampião “volta e meia” andava por Triunfo, por Princesa Isabel, fazendo crueldades e servindo aos coronéis que apoiavam seu bando. Segundo Freixinho, “as razões da opção feita pelos coronéis repousavam na ânsia de preservar seus haveres e proteger seus familiares contra a sanha do banditismo, não dominado pelos poderes institucionais (FREIXINHO, 2003, p. 213).”

Freixinho, minuciosamente, descreve o terrorismo de Lampião, fazendo referência às ações dos bandos de cangaceiros:

Devastando, com incêndios e saques, centenas de propriedades. Destruindo casas e currais, fuzilando milhares de reses. Violentando mulheres. Humilhando anciões. Espancando jovens donzelas. Impondo castigos físicos e torturas, os mais sórdidos e brutais. Mandando ferrar homens e mulheres, nas nádegas e no rosto, desfrutando de espetáculos cruéis. Extorquindo dinheiro, sob ameaças de retaliação caso não atendido. Fazendo alianças com chefes políticos e alguns coronéis. Interferindo na Justiça. Promovendo festas ruidosas, nos casebres do sertão onde não permitirá que os seus homens fossem incomodados sequer pela poeira – ordenando, para tanto, que o chão desses casebres fossem aguados com cerveja. Sangrando até a morte seus desafetos.

Escapulindo do cerco policial, em vezes sem conta. Enfrentando mais de duzentos combates com soldados das ‘volantes’ e adversários pessoais, demonstrando feroz valentia. Ferido gravemente, restabelece-se na caatinga, retornando à ação com redobrada ferocidade. Exibindo reações as mais contraditórias e inexplicáveis. Fuzila com tiros de armas de fogo, na cabeça e no rosto, os que, no seu entender, merecem ser justiçados, por vingança. Completa com tiros de misericórdia, vítimas de seu bando. Terá gestos de nobreza, algumas vezes.

Noutras ocasiões se comportará como um cão danado, repelente, furioso, frio ante a desgraça alheia. Amará, perdidamente, a mãe, os irmãos também bandoleiros, e as irmãs; com eles e por eles chorará nos momentos mais tristes. Dotado de profundo sentimento religioso, não dispensa a oração diária, quando genuflexo e contrito, sob o sol inclemente do meio-dia, é observado silenciosamente por seus comparsas. Só respeita uma pessoa: o padre Cícero (FREIXINHO, 2003, p. 224).

Dona Maria Massá conta a manifestação do medo de sua mãe de tudo o que compreendia o tempo da revolta, o cangaço, as volantes. 

"Que nós morava, não morava aqui não, morava lá embaixo no Pernambuco num sabe, menino, eu alcancei essa revolta viu, um pinguinho de gente, morava lá embaixo, aqui embaixo apontava (o povão?), aí vinha, vinha percurando nós num sabe, pra subir pra Triunfo num sabe, aí lá vinha a tropa num sabe, aí quando vinha a tropa mamãe dizia mermo assim, ‘oh Maria, eu vou me esconder, me esconder que eu não quero assistir não e vem bater aqui, aí ???? da estrada mas era fácil de vir aqui’. Aí ela corria se esconder, aí eu dizia assim, aí eu fazia comida, quando acabar ia levar pra mãe, ela fumava, eu levava o cachimbo no fogo pra ela fumar no mato, aí ela dizia ‘num vou não, num vou não minha fia, que eles me pegam’, eu dizia, ‘pega não mamãe, pega não’, aí ficou, passado, iam se embora. Pra Triunfo, presse mundo, pra Santa Cruz, ia naquela Santa Cruz, oi já foi fogo mais fogo, oi os Pato, aquele Pato ali, era fogo mais fogo" (Maria Marçal - Maria Massá, 96 anos). 

Freixinho (2003) destaca no Sertão Nordestino, as figuras dos paisanos, pequenos agricultores sem vínculos com os latifúndios e sem vinculação com o crime, que para não caírem nas mãos da crueldade dos cangaceiros ou mesmo para comerciar com estes próprios, os protegiam, prestando-lhes informações ou dando abrigo em suas propriedades, o chamado  “coito” – “coiteiro”. “Em suma, o ‘paisano’, ao fugir da sanha do cangaço, dando proteção aos bandidos, ficava à mercê das atrocidades das ‘volantes’ desconfiadas de sua cumplicidade com os cangaceiros” (FREIXINHO, 2003, p. 217). Segundo Lopes: Em 1923 e 1924, Lampião instalou-se em Triumpho – PE e Princesa Isabel – PB.

Visitou Triumpho até 1926, onde contava com o total apoio dos coronéis e influentes políticos. Recrutou os triumphenses Felix da Mata Redonda (Foto abaixo) e Luiz Pedro Cordeiro ou Luiz Pedro do Retiro, o seu lugar-tenente de confiança e que tombou ao seu lado, aos 28/7/1938, no Grotão de Angico/SE. Em Triumpho Lampião cumpriu este roteiro: participava de bailes perfumados; dançava o Xaxado; arranchava-se na Serra e Cachoeira do Grito para descansar e abastecia-se no comércio local; visitava amigos e coiteiros; enterrava pessoas acometidas da peste bulbônica no sítio Retiro, propriedade de Luiz Pedro (LOPES, 2003, p.131).


Dona Maria Massá, 96 anos, relembra com vivacidade a situação dos coitos, da crueldade das volantes e do cangaço em sua infância:
"Muito bem, eu tinha um tio que morava no Maico, aí eu fui pra casa de meu tio, Luiz Preto, aí quando foi no outro dia, era pra eu dormir fora, a revolta encostou, ali no Maico. Encostou, e meu tio morava assim no Maico sabe, aí vinha, vinha atrás dum Casca de Aio, era um rapaz viu, Casca de Aio, ele era da sua cor num sabe, ele tava escondido na casa de meu ti, num sabe esse Casca de Aio, e quando a revolta apontou embaixo ele correu e veio avisar, veio avisar, aí ele aqui, tinha uma mata assim de calumbi, porque aqui era um (peneirão?), num tinha uma mata assim né, e pracolá tinha uma mata num sabe, e ‘a revolta vem ali, a revolta vem ali’, aí quando disse a revolta vem ali, ele aqui saiu no terreiro, que era um terreirão grande viu, no terreiro ele deu duas voltas assim, ói, duas volta assim, sumiu -se o rapaz até hoje"! 
Refere-se ao Sr. Lau da Capela:
"Tava lá, orando, aí meu tio foi e pediu, pro mode de nós pontá ele, ele amuntado num animá e me trazer pra entregar a (??????) pro mode, com medo da força num sabe, a força num (????), mas não queria que chegasse lá não... Eu saí mais ele e mais (duas turmas ???) num sabe, aí um veín veio me trazer num sabe, rezador, saí mais ele aí quando chegou na cancela aí ele disse ‘vá com deus que eu vou pra minha capela’, aí eu subi e vim pra casa num sabe, ... aí ficou essa revolta, caminhando, caminhando, caminhando, e quando foi um dia, nós viemo embora, lá tinha um pé de laranja e tinha a casa, uma casa (caembar????) e a nossa era fora num sabe, aí tinha o cumpade Luiz Rosa, meu irmão, tavam trabaiando, (???) ‘ta fazendo o que aí nêgo?’ aí ele disse ‘tô limpando uns matim’, aí ele foi e disse ‘apois eu quero água pra beber’, aí ele pegou um pote, foi num ôi d’água que tinha, carregou chei d’água, eles beberam, beberam, beberam, beberam, quando acabaram quebraram o pote, quando acabar pegaram (???) e deram (a mim?) umas lapada".
 Eram maivado!!! Eram maivado, a gente se explodia com essa revolta, era ruim demais, castigava viu, (???? Da senhora) aí o cacete comia, aí com paciência, aí deram (???) aí subiu pra Santa Cruz, a tirada lá era horrorosa, lá nos Pato, menina era um serviço, mas ?? a intendência, aí foi que parou essa revolta de lampião, mãe passou pra casa, mas (que nem eu nem outro????)..., eu levava de comer, cachimbo pra ela fumar, água pra beber, tudo no mato, ela sofria do coração (Maria Marçal - Dona Maria Massá, 96 anos).

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA.

FREIXINHO, Nilton. O sertão arcaico do Nordeste do Brasil: uma releitura. Rio de Janeiro:
Imago Ed., 2003

LOPES, D. R. Triumpho a Corte do Sertão. Santa Cruz da Baixa Verde: Gráfica Folha do
Interior, 2003.

MEDEIROS, Rostand. Guerra ou Sedição de Princesa

RODRIGUES, Inês Caminha L. A Revolta de Princesa – poder privado x poder instituído. Coleção
tudo é história 19. São Paulo: Editora Brasiliense,1993.


As fotos foram inseridas por nós para ilustrar a matéria. imagem do Coronel Elísio Sobreira foi pescada em: História Esperancense

2 comentários:

Mendes e Mendes disse...

Obrigado Ilustre Kiko Monteiro: Eu já tinha visto esta foto do cangaceiro Félix da Mata, talvez nos seus escritos. Mas não sei porquê, eu a havia perdido.
José Mendes Pereira - Mossoró - Rio Grande do Norte.

Anônimo disse...

me chamo EDSON LOPES QUERIA SABER SOBRE MEU AVO PEDRO LOPES MEU EMAIL é ellopps@HOTMAIL.com