segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Anel de ouro, um dos símbolos do cangaço. 

Por: Charles Garrido
"Mulher, ser doce e angelical; não por acaso as bençãos celestiais caíram sobre ti com a incumbência da maternidade".
Na época medieval dizia-se que o “sexo frágil” abrandava o coração do guerreiro. Porque não usarmos esse exemplo ao citarmos o quanto foi importante a entrada da figura feminina ao cangaço, inclusive contrapondo-se à visão teórica machista que diz: mulher deve esquentar a barriga no fogão e esfriar no tanque. Creio ser bem melhor parafrasear o grande nordestino Otacílio Batista (em memória) quando o mesmo cita em uma de suas estrofes:  
“A mulher tem na face dois brilhantes, condutores fiéis do seu destino, quem não ama o sorriso feminino desconhece a poesia de Cervantes”.
O ano era mil novecentos e noventa e nove, eu então com vinte e três anos às vésperas de realizar um grande sonho de infância; percorrer o rastro dos cangaceiros. Tal fato talvez não fosse tão difícil acontecer, entretanto, ter a honra de realizá-lo ao lado de quem foi personagem, vivenciando aquela época tão difícil nas caatingas sertanejas, certamente abrilhantaria ainda mais o tento. Ilda Ribeiro de Souza, nossa querida Sila, marcada pelo destino; antes, durante e após o cangaço.

Pois, uma vez cangaceira; cangaceira para a vida!

 Na usina de Xingó.

Dois de fevereiro: Ano já citado anteriormente é chegado o grande dia. Partindo de Fortaleza alguns pesquisadores e, sobretudo curiosos saem em busca do desconhecido, do inesperado, e porque não dizer do lúdico, pois todos nós que amamos o tema em questão, de certa maneira temos interiormente a figura estereotipada de seu próprio cangaceiro. Sete estados nordestinos percorridos, inúmeros relatos, depoimentos, paisagens e o melhor ainda estava por vir.

Quatro de fevereiro: Todo o grupo estava hospedado em um hotel no município sergipano de Canindé do São Francisco e no dia seguinte iríamos chegar ao ponto crucial da viagem, visitar a Grota do Angico, local do último combate do Rei do Cangaço. Ledo engano, pelo menos de minha parte.

 Gravando documnetário em Angico.

Cinco de fevereiro: É chegada à hora do momento mais esperado, todos já estão de pé para o café da manhã. Dois veículos saem rumo à Piranhas, cidade alagoana às margens do Rio São Francisco. O combinado seria apanharmos o guia responsável pelo trajeto de barco até o local. Ao chegarmos, todos descem dos veículos, entretanto; Sila, que estava comigo pede: - Espere um pouco meu filho. 

Ao voltar os olhos para a velha ex-cangaceira sentada ao banco traseiro do carro, deparei-me com uma cena que marcaria para sempre minha memória; lembro-me como se fosse hoje, embora já passados onze anos, olhando para aquela mulher que até bem pouco tempo só a conhecera através de livros de história, a vi levantar o braço esquerdo e com uma das mãos retirar de um dos dedos um dos adereços mais utilizados pelos cangaceiros e diz:  
- Nessa nossa primeira visita à Grota do Angico, quero te dar uma lembrança; esse anel de ouro que era um dos símbolos da nossa luta. 

 Ladeado pelas meninas Sila e Adília.

Essa frase; audível à época, hoje ainda soa como um badalar de sino incessante aos meus ouvidos, fazendo-me lembrar sempre que nós, os verdadeiros amantes dessa cultura tão massacrada e por diversas vezes discriminada, temos a obrigação de honrá-la, divulgá-la e, sobretudo; deixá-la como um legado para a posteridade.

Sila deixou-nos no dia 15 de fevereiro de 2005 em São Paulo.


Charles Garrido é Pesquisador.
Fortaleza – CE
charlesgarrido@hotmail.com
(85) 8897 8090

7 comentários:

Anônimo disse...

Conheci o pesquisador Charles Garrido quando ainda éramos crianças, talvez uns 12 anos. Nossa convivência foi curta, acho que uns 2 anos, mas sempre nos entendemos. Mas já ali, naquela época, percebia que se tornaria um grande homem, com um coração maior ainda. Acho que foi amizade à primeira vista.
Quase 20 anos depois nos reencontramos e a amizade fluiu com o mesmo entrosamento de antes, mas meu amiguinho era agora um homem, cheio de experiências e histórias de vida para contar. Essa é apenas uma de tantas e quase pude sentir a mesma emoção dele e de D. Sila nesse relato. Pouco conheço sobre o cangaço, aliás, quase nada. Mas quando ouço suas histórias Charles, sei a verdadeira tradução para a palavra PAIXÃO.
Parabéns pelo texto, pelo amor à cultura nordestina, pelo apreço às nossas raízes e pelo respeito à memória dessa gente que escreveu capítulos importantes de nossa história.
É sempre muito bom partilhar dessas vivências tão ricas. Você tem muito mais a contar e certamente, tem muita gente querendo te ler.
Sucesso!
Camila.

Babi disse...

É muito bom ver o resgate da história brasileira por pessoas que amam a sua cultura. O nordeste é sem dúvida o espaço mais cultural do Brasil e sua paixão por ele cativa qualquer um. Continue compartilhando conosco tudo o que aprendeu e vivenciou na sua busca pelas suas raízes.
Barbara Martello

Anônimo disse...

Parabéns ao amigo "Cangaceiro Charles" pelo belo texto. Suas palavras exalam poesia. Tenho a satisfação de ser amigo do Chico, pois Charles lá é nome de cangaceiro e sei que por trás dessa cara fechada e querendo ser rude tem esse coração grande demonstrado nessa verdadeira poesia que escreveu. Mais uma vez parabéns.

Angelo Osmiro

Professora Camila Teles disse...

Parabéns pelo relato. As palavras escritas demostram a emoção do momento, só não superam a sensação de ouví-lo contar com detalhes essa experiência.

Anônimo disse...

Prezado amigo Charles,
Conhecê-lo e tê-lo no círculo dos nossos amigos é um prazer para a nossa família, mas você faz por merecer.
Em seu relato, carregado de emoções, foi uma "aventura" para um jovem daquela época com o interesse pulsante sobre o tema cangaço que você, ainda, possui.
Frequento Piranhas e imediações até Angico desde 1957, quando tinha em torno de 06 anos de idade e ainda hoje, se constitui uma aventura visitar aquela região, ímpar, de beleza e de história, tanto do cangaço, quanto da nossa família Britto.
Tive a oportunidade e satisfação de estar com Sila em vários momentos e mesmo sendo apresentado como "o filho do Bezerra", senti na cangaceira do passado, uma doçura e meiguice que o tempo e a experiência fizeram aflorar.
Portanto, amigo Charles, eu consigo sentir a dimensão das suas emoções tão bem relatadas e o quanto o gesto de Sila em lhe oferecer o anel, foi importante e marcante, para àquele jovem pesquisador.
Um forte abraço
Dos amigos
Paulo Britto e família

Anônimo disse...

AMIGO CHARLES:

PARABÉNS PELO EXCELENTE TEXTO E FOTOGRAFIAS.

AS INFORMAÇÕES DEMONSTRAM QUE O AMIGO DETÉM MUITOS CONHECIMENTOS SOBRE O CANGAÇO, BEM COMO, CONHECEU MUITOS PERSONAGENS DESSA SAGA.

ESSA FOTO, ENTRE AS CANGACEIRAS " SILA E ADÍLIA " ESTÁ SNSACIONAL.

UM ABRAÇO CANGACEIRO CEARENSE.

DO AMIGO E ADMIRADOR
IVANILDO SILVEIRA
Colecionador do cangaço
Natal/RN

graça disse...

adorei tudo,vc como sempre sabe resgatar o mas belo do sertão,sta foto ta muito massa.bj