segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Novo livro na praça!

 O cangaço está em toda parte

Estudo do pesquisador Marcelo Dídimo destaca a persistente presença deste 'personagem' em filmes nacionais de diversos estilos - como a aventura, a comédia e até as pornochanchadas

Por Luiz Zanin Oricchio - O Estado de S.Paulo

Em 1936, um mascate libanês chamado Benjamin Abrahão embrenhou-se no sertão e, tendo uma câmera na mão e no bolso uma carta de recomendação assinada por Padre Cícero Romão Batista, ganhou a confiança de Lampião e conseguiu fazer um filme tendo o "Rei do Sertão" como personagem de si mesmo. Essas imagens abrem, simbolicamente, o ciclo cinematográfico do cangaço, que perdura até hoje. A história desse ciclo com começo definido, mas longe ainda do seu término, é a que conta o pesquisador cearense Marcelo Dídimo em seu belo e rigoroso livro O Cangaço no Cinema Brasileiro (Universidade Federal do Ceará/Annablume/Fapesp).

Em sua pesquisa, Dídimo lista 48 filmes sobre o assunto, entre curtas, médias e longas-metragens, incluindo ficção e documentários. Não basta ter cangaceiro entre os personagens para se caracterizar como filme de cangaço. "Para que um filme seja considerado de cangaço, é necessário que ele tenha o movimento rebelde ocorrido no sertão nordestino como tema central, ou que contenha personagens que participaram desse contexto histórico, influenciando diretamente a narrativa do filme em questão", escreve.

Desse modo, circunscreve o tema e o desenvolve ao longo de seis capítulos temáticos: Primórdios, o Nordestern, Comédias, Documentários, o Cangaço de Glauber Rocha e Releituras. Dos primórdios, o filme mais importante, e seminal, é o já citado Lampião, o Rei do Cangaço, de Benjamin Abrahão. Não apenas por seu pioneirismo, mas porque reaparece como matriz imaginária, mesmo nas produções mais recentes como se verá a seguir.

Se o cangaço começou a mostrar sua cara no cinema brasileiro com as imagens que sobreviveram de Benjamin Abrahão, e as de outros filmes hoje desaparecidos como Sangue de Irmão (1926) e Lampião, a Fera do Nordeste (1930), foi apenas na década de 1950 que se firmou como gênero independente. E isso com um filme emblematicamente denominado O Cangaceiro (1953), dirigido pelo paulista Lima Barreto e filmado no interior de São Paulo.

Produção mais importante da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, O Cangaceiro teve carreira nacional vitoriosa e também foi distribuído em mais de 80 países. Sua trajetória internacional foi impulsionada pelo prêmio que recebeu no Festival de Cannes de 1953 como "melhor filme de aventuras". Como destaca o autor, sua estrutura é decalcada do modelo do western hollywoodiano, reciclado na paisagem brasileira. Mantém, no entanto, o mesmo esquema dicotômico dos faroestes, com sua luta entre o bem e o mal, entre a civilização e a barbárie. Mostra os atores cavalgando, quando os cangaceiros reais se deslocavam a pé pela caatinga.

Com o êxito, O Cangaceiro deu forma a um gênero batizado pelo crítico Salvyano Cavalcanti de Paiva de "nordestern", fusão feliz entre Nordeste e western. Lançou uma dupla de atores que reapareceriam em filmes sucessivos - Milton Ribeiro, como o cangaceiro "mau", e Alberto Ruschel, como o cangaceiro "bom". Alguns diretores se especializaram no gênero, como Carlos Coimbra, que assina quatro nordesterns: A Morte Comanda o Cangaço (1960), Lampião, o Rei do Cangaço (1962), Cangaceiros de Lampião (1966) e Corisco, o Diabo Loiro (1969).

O gênero gerou derivados também nas comédias, sob a forma da paródia. O folhetim de Dumas, Os Três Mosqueteiros, inspirou Os Três Cangaceiros, o famigerado Lampião tornou-se O Lamparina, e o clássico Dom Quixote, de Cervantes, deu as mãos a um personagem cômico da TV e, da fusão, nasceu Pedro Bó, o Caçador de Cangaceiros. Nem a pornochanchada ignorou a matriz inaugurada por Lima Barreto e lançou no mercado títulos como As Cangaceiras Eróticas e A Ilha das Cangaceiras Virgens.

Como se o cangaço, a exemplo do sertão, estivesse em toda a parte, além de aventuras, comédias e pornochanchadas, inspirava também documentários de base sociológica, dos quais o mais marcante parece ser Memória do Cangaço, de Paulo Gil Soares, um dos episódios do longa-metragem Brasil Verdade, coordenado por Thomaz Farkas. Nesse filme impressionante, Paulo Gil vai ao sertão e toma o depoimento de um elegante coronel Rufino, o homem que matou Corisco em 1940 e, portanto, colocou ponto final no ciclo do cangaço. Acabou na vida real, já que no cinema ele continuava existindo.

E, de tal forma, que não poderia estar ausente da obra daquele que é tido como o mais importante cineasta brasileiro, Glauber Rocha. Esse personagem comparece em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963) e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969). Aqui, o cangaceiro faz parte da alegoria política de Glauber ambientada no sertão, onde as contradições sociais se expressam com a rudeza de um sol causticante. Um dos personagens é Corisco, vivido por Othon Bastos. Seu antagonista é Antonio das Mortes (Mauricio do Vale), inspirado tanto nos western spaghetti de Sergio Leone como no muito verdadeiro coronel Rufino, imortalizado por Paulo Gil Soares.

A vitalidade da matriz cangaceira parece não ter fim na cinematografia nacional. Tanto assim que ressurge, já nos anos 1990, em vários filmes. Anibal Massaini refilmou O Cangaceiro de Lima Barreto, o cearense Rosemberg Cariry trouxe de volta o tema em Corisco e Dadá, e os pernambucanos Lírio Ferreira e Paulo Caldas reciclaram o assunto em Baile Perfumado, um dos filmes mais inspirados e vitais do cinema brasileiro contemporâneo. Baile, na verdade, retoma o gênero em seu ponto de origem, em seu grau zero - nas primeiras e únicas imagens de Lampião, registradas por uma câmera à corda da marca alemã Zeiss, modelo Ica, de 35 mm.

O herói de Baile Perfumado não é Virgulino nem quem o matou. É outro: aquele mascate valente e ambicioso, vindo do Líbano para fazer fortuna no Brasil, que colocou a pele em risco para filmar Lampião e seu bando em 1936. Numa linguagem narrativa ágil e moderna, embalada pela música de Chico Science, filmado já não no agreste seco e árido, mas à beira de rios e em meio a uma vegetação luxuriante, Baile Perfumado é uma espécie de nordestern líquido, em ritmo pop, um aggionarmento vigoroso do tema. E que não põe ponto final à trajetória refeita por Marcelo Dídimo. Apenas reticências, marcando a espera do que ainda possa vir desse veio em aparência inesgotável.

Pesquei no: Estadão

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