domingo, 20 de fevereiro de 2011

O "murinho" de Lampião 

por Rangel Alves da Costa*

Quem pretender conhecer Poço Redondo/SE não pode deixar de conhecer também a Praça Lampião, situada bem ao lado da rodovia estadual que corta a cidade e dá acesso ao vizinho município de Canindé do São Francisco.


Em 1988, o então prefeito Alcino Alves Costa, um apaixonado pela história do cangaço e pela figura do Capitão Virgulino, o Lampião, resolveu homenageá-lo dando nome a uma pequena praça recém reconstruída. O que seria uma homenagem virou uma verdadeira celeuma, com pessoas a favor e contra o tributo. Para uns, por ter sido um bandido que havia aterrorizado por muito tempo a região, não merecia nenhuma lembrança na praça. Já outros, na defesa do heroísmo do rei dos cangaceiros, achavam justa a homenagem e até apontavam que aquilo também seria um modo de atrair turistas.

Verdade é que a solução do problema não foi pacífica, envolvendo mais tarde até o Ministério Público estadual no conflito. Contudo, tais fatos são relatados pelo professor e historiador Fernando Sá em dissertação intitulada "O Cangaço nas Batalhas da Memória" (Clique Aqui), conforme a seguir transcrito:

"Dentro das comemorações do cinqüentenário de morte de Lampião, houve um abaixo-assinado para a legalização da praça, com cerca de 300 assinaturas. Liderados por Raimundo E. Cavalcanti e Manoel Dionízio da Cruz, militantes do movimento popular e sindical preocupados em resgatar a memória do cangaço, o documento foi encaminhado à Câmara de Vereadores. Após sua aprovação, a praça foi inaugurada em julho de 1988, com a presença do então prefeito da cidade, Alcino Alves Costa, sendo, então, batizada pela população da cidade como “murinho de Lampião”.

Segundo Raimundo Eliete Cavalcanti, “o Murinho era tão disputado que a população assumiu como sendo (...) um espaço importante da cidade”. Portanto, tornou-se um “lugar de memória” do município.

Campo de disputa em torno da memória do cangaço em Poço Redondo, a Praça Lampião, em 1993, teve sua existência questionada pelo então prefeito Ivan Rodrigues Rosa, sob o argumento de que ela lembrava o nome de um bandido e que não era digna da cidade. Articulado com o juiz de Direito, Pedro Alcântara, o prefeito da cidade convocou um grupo de vaqueiros para uma filmagem da TV Sergipe, retransmissora da TV Globo, no sentido de receber apoio para a derrubada da Praça.

Como forma de se contrapor a esta iniciativa, Manoel Dionízio da Cruz e Raimundo E. Cavalcanti organizaram uma exposição de documentos nacionais e locais, com o intuito de demonstrar a importância do cangaço para a cidade. Com o apoio de estudantes, professores e da comunidade de Poço Redondo, Dionízio enfrentou um debate acalorado com o juiz de Direito, Pedro Alcântara, e o líder político local, Durval Rodrigues Rosa, pai do então prefeito da cidade. Durante a polêmica, Dionízio argumentou que a Praça só seria derrubada se houvesse um plebiscito na cidade.

Vencidos pela mobilização popular em torno da importância do cangaço para a cidade, explicitada pela presença na cultura local de grupos de teatro, de xaxado, além do Centro de Cultura Popular Zé de Julião, os opositores ao monumento realizaram ainda depredações ao monumento. Contudo, ficou mantida a homenagem da cidade a Lampião. Em 1998, na gestão do prefeito Enoque do Salvador foi reinaugurada, toda reformada, a Praça Lampião".

A Praça de Eventos é outro local que merece visitação, principalmente nas datas que marcam o calendário festivo do município: Festa da Padroeira Nossa Senhora da Conceição, com festas dançantes nos dias 13 a 15 de agosto, e a Emancipação Política do Município, celebrada no dia 23 de novembro. Desse modo, inaugurada em agosto de 1997, a praça foi construída para sediar as festas promovidas pela administração municipal. O espaço tem aproximadamente 1500 m2. É composto por um palco, um camarim e um bar que funciona nos dias em que acontecem os eventos. Conta com uma área descoberta, em frente ao palco, iluminada por refletores, onde se concentram os espectadores.

A memória cultural do município, principalmente em anos mais recentes, vem sendo objeto de grande preocupação de determinados setores da população. Neste sentido, os jovens do município fundaram o Centro Cultural Raízes Nordestinas e o Grupo de Xaxado na Pisada de Lampião, ambos em intensificando cada vez mais suas atividades. O grupo de xaxado já se apresentou em diversas localidades nordestinas, e até em outras regiões, recebendo também convites para apresentações no exterior. Sobre tais aspectos assim disserta o professor e historiador Fernando Sá:

"Do ponto de vista da influência do fenômeno na esfera cultural, as iniciativas memoriais incentivaram às atividades folclóricas já existentes em torno do tema do cangaço, como foi o caso da criação do Grupo de Xaxado “Na Pisada de Lampião” de Poço Redondo. Sua proposta é desenvolver interessante trabalho de valorização da cultura popular vinculado ao cangaço, com um auto teatral que divulga a memória de Lampião. Em um dos seus cantos, pode se ouvir a exaltação da valentia e a simpatia com os pobres, tal como proposto pelo padre Eraldo em suas missas do Cangaço:
“Quanta saudade invadiu meu coração, ao lembrar de Virgulino cabra macho Lampião/ Foi cangaceiro cabra macho justiceiro correu o sertão inteiro com seu bando a arrepiar/ (...) Roubava os ricos para dar de comer os pobres sertanejos lá do norte que o povo consagrou
(Fernando Sá, "Santos e Demônios: Religiosidade Popular e a Memória do Cangaço no Sertão do Rio São Francisco")".


Capítulo do seu Livro: POÇO REDONDO: ASPECTOS SOBRE O REFÚGIO DO SOL (Terceira viagem)

Rangel Alves da Costa é Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com

6 comentários:

Julio Cesar disse...

Amigo Rangel
Visitei Poço Redondo e achei que essa praça está, praticamente, abandonada. Muitas pessoas resistem em apoiar o estudo e a preservação da memória do cangaço, esquecendo que esse movimento fez e faz parte da história de toda a cidade.
Não se trata de fazer apologia ou reverenciar o cangaço, mas preservar uma parte da história.
Grande abraço

José Mendes Pereira disse...

Parabéns aos que conseguiram preservar o murinho de Lampião. Lógico que ninguém deseja a sua volta, mas não podemos por fim a este acontecimento. De agora em diante é estudarmos o motivo que levou essa gente a se tornar marginal. E para que isso não venha mais acontecer, temos que educar a juventude, criando escolas musicais, teatros, esportes e principalmente uma boa educação, para que ela tenha um futuro de paz e felicidade. Educar o jovem é preciso.

José Mendes Pereira - Mossoró-RN.

Anônimo disse...

Não entendi se os versos publicados no final do artigo são de autoria do Padre Eraldo ou de Fernando Sá, porém recomendo a quem escreveu, ler o livro de Alcino Alves Costa, “Lampião Além da Versão”, para refletir sobre a versão de que Lampião roubava dos ricos para dar de comer aos pobres. Eu acredito que isso é meia-verdade. Roubar dos ricos está comprovado, aliás de ricos e de pobres também, mas dar de comer aos pobres, carece de confirmação.

C Eduardo.

blograngel disse...

Meu caro Eduardo, imenso prazer em conhecê-lo.
Você lembrou bem, qualquer dia desses vou pedir um livro emprestado ao meu pai Alcino para ver se se confirma sua tese de que Lampião não estava nem aí para os pobres nordestinos, pois suas vítimas também.
Como bem cito no texto, é o professor Fernando Sá que mostra os bastidores do surgimento da Praça Lampião. Atualmente, é bom que se diga, envergonha os cidadãos poço-redondenses envolvidos com sua história e com a passagem de Lampião pelo município.
Como bem reflete Júlio Ischiara, parece mais um triângulo abandonado do que um monumento alusivo a pessoa tão importante para os sertanejos.
Sua crítica ao Capitão, por ter sido ruim por todos os lados, segundo diz, ressoa muito mais como uma opinião pessoal do que como uma constatação histórica. Na verdade, Lampião não estava ali para ser bom ou mau, mas apenas para jogar igualmente o jogo de quem lhe ajudava na vida catibgueira, podendo ser o pobre com um bode preparado ou um coronel com um carregamento de munição. E se fez o mal é porque em toda maldade pode ser vista um certo troco. Afinal o homem era gente do amto e não santo.
Por último, os versos mostrados ao final, que são cantados pelo grupo de xaxado, refletem bem a visão que muitos sertanejos ainda têm sobre Lampião. Para estes, ele pode ter sido o bicho mais desumano no mundo, mas o sentimento que se guarda e se tem é de um Capitão Virgulino refletindo o próprio sertanejo nas suas qualidades.
Por mais que você pense diferente. De repente você acha que os bons moços estavam na volante.
Ah!, ia esquecendo, acesse www.agbook.com.br e compre o meu livro.
Um abraço

Rangel Alves da Costa

Anônimo disse...

Rangel, gosto muito do assunto cangaço, mas sou radicalmente contra essa teoria de que Lampião foi de alguma forma um agente de mudanças ou que tenha tido qualquer preocupação com a situação do sertanejo oprimido. Ao contrário, o cangaceiro fez associações que não deixam dúvidas sobre sua intenção de tornar-se um coronel sem terras, usando métodos tão cruéis, quanto os piores oligarcas daquele tempo.
Entendo muito bem a situação do homem do sertão que era obrigado a conviver com os dois lados violentos, cangaceiros e volantes, algo parecido com o que vivem hoje os moradores de favelas nos morros do Rio de Janeiro e periferias das grandes cidades. Porém isso não pode ser confundido. Os traficantes, assim como os cangaceiros, no seu tempo, não são solução para a ausência de assistência ao cidadão carente, eles não foram escolhidos para atuarem dessa forma, impuseram-se pelo terror e a comunidade não tem o direito de discordar e mudar o modelo.
Não sou nordestino e não vivo no sertão, por isso não tenho a pretensão de falar sobre a escolha entre cangaceiros ou volantes com autoridade. Respeito muito aquilo que escuto de pessoas que como você e seu pai (a quem admiro e sempre menciono o livro dele como referência a violência praticada por Lampião na sua região). Mas você vai me permitir discordar da sua comparação expressada na frase a seguir.

Para estes, ele pode ter sido o bicho mais desumano no mundo, mas o sentimento que se guarda e se tem é de um Capitão Virgulino refletindo o próprio sertanejo nas suas qualidades.

Pelo que conheço do sertanejo nordestino, posso dizer, que talvez só na coragem Lampião reflita aquilo que tenho observado durante minhas viagens ao nordeste. Vejo o sertanejo como um cidadão honrado, solidário, trabalhador, criativo, entre outras qualidades. Lendo, ouvindo os historiadores que se dedicam ao assunto, conversando com contemporâneos de Lampião, não consigo associar o cangaceiro com quase nada do que observo no sertanejo de hoje. Lampião na minha visão representa, egoísmo, crueldade, esperteza, violência, arrogância.

Agradeço sua atenção em responder meu comentário, deixo meu abraço e incentivo ao seu trabalho de pesquisa e preservação da cultura local.

C Eduardo.

Julio Cesar disse...

Meus amigos Carlos Eduardo e Rangel...

Leio sempre seus textos e respeito muito a opinião de ambos, pois são grandes conhecedores da história do cangaço.
Ambos são frutos de grandes mestres.
Suas análises do comportamento, meu caro Carlos, são precisas e de grande interesse para mim.
Rangel, além de ser nascido em Poço Redondo, ter raizes cangaceiras e grande conhecimento sobre o cangaço, tem uma sensibilidade poética que muito me agrada, embora me passe a impressão bucólica e melancólica em seus versos.

Somos parceiros na busca pelo conhecimento, portanto, buscadores parceiros.

Um grande abraço meus amigos