sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Estórias Ordinárias II

O Tenente Kiko faz um mudo falar
por Fábio Costa

João Elesbão, - atentem a foto abaixo - na flor de seus 22 anos carpia preguiçosamente a terra do sitiozinho em que morava. A paisagem ressequida do sertão (de cor verde na monotonia de cinza e vermelho da caatinga, só os periquitos que esvoaçavam em bando gritando, e os inacreditáveis e ridículos óculos feitos com fundos de garrafas de vinho barato que as vacas do Cel. Geziel usavam no terreno logo em frente a modesta propriedade dos Elesbões - assim as bovinas comiam gravetos secos, palha e até terra, pensando que eram mato verde - só pra num alugar uma manga, pense num home pão duro!!), as árvores desfolhadas, o ar quente, tudo desanimava o jovem, que não capinava as magras raízes de mandioca com muita vontade.

 João e seus nove bruguelos. Sabe como é.. Televisão? Tem três, mas quando não gosta da programação recorre à uns filminho pesado que seu primo Rubinho, cultua e aluga pra moçada mais carente.


Nesse momento, quase dormindo encostado no cabo da enxada, enquanto aproveitava a sombra convidativa de uma moita de quixabeira, José Elesbão viu um tropel diferente, não eram os pinguços dos vaqueiros do muquirana, coisa-ruim do Cel. Geziel.

Viu uns 15 homens a cavalo, apesar de ser otário de carteirinha registrada reconheceu de imediato a indumentária dos bandoleiros do sertão!!!! Só lhe veio a mente o nome do famigerado Virgínio Fortuna e seu bando, que andava aterrorizando as paragens, tomando aposentadoria de veinha, surrando pobres aleijados, dando chifre em mulher casada (eita!), e fazendo arruaça nas feiras das vilas.

Os homens se aproximaram do pobre João, caras más curtidas pelo sol, roupas sujas de poeira e encharcadas de suor, pendiam brilhantes nas cartucheiras centenas de balas de fuzil e de “papo amarelo”, as pistolas Parabellum e os revólveres Colt cavalinho e “Chimit Oeste” na cintura. Não se borrou por que não tinha “massa” pronta, como dizia vovô.
- Esse menino – falou com voz gutural Virgínio Fortuna – essa estrada vai pro furado grande? 
- Seu moço sei não, mas se ela for vai fazer uma falta grande pra gente!! Respondeu o abestado rapaz já se molhando todo...
- Ah tá cum fulerage Capitão!!! Falou o cabra Ronnyere.
- Num sabe com quem ta falando não fí duma iégua? Respondeu irritado quase espumando o cabra Jomar . Este era filhote de cruz cedo com cascavel de tão ruim que era!!
- Se tem língua e num sabe conversar, melhor que fique sem!! Bradou impassível o Virgínio Fortuna.
Os cabras Ronnyere e Jomar seguraram o moleque e o capitão charqueou a língua do camarada fora e deu pra seu famoso cachorro “Piaba” comer.

Saíram em disparada rindo da maldade e falando que depois dessa iam ao Maqui Flonalds da vila do “Furado grande” (já notaram por que raios a maioria das cidades dos sertão tem nomes de duplo sentido?) comer Big Meque e dar umas porradas no gerente, o Ronaldo cabeção (primo cearense do gringo Ronald Maqui Flonalds, que instalou a primeira lanchonete e confeitaria com o famosos hambúrguer de bode em 1925 em Natal/RJ).

José Elesbão correu sangrando em prantos para o humilde sitio onde morava com a família, chamaram Dª Sinhana benzedeira, que passou umas ervas e estancou o sangue.

No 2º dia lá estava de novo o rapaz na rocinha, o olhar vago, perdido em tristezas, aí ele viu um idoso num jegue preto! Reconheceu de imediato a batina surrada (de preta tava cinza) e o chapelão de palha ensebada do padre Ivanildo (pra não queimar a careca no sol). Correu pra pedir a bênção e talvez um milagre, o padre perguntou ao moleque que agora era mudo:
- Rapaz falta muito pro furado grande? Eu nunca passei por aqui, vim pedir um donativo pra igreja pra o Cel. Geziel mas o agourento só queixa miséria !! 
Esperou um pouco, e nada o cabra não respondia.
- Falta muito pro furado grande? Responde moleque sem educação! 
Como o moleque não respondia o padre desapeiou, P. da vida, meteu a mão no bolso do rapaz de olhar esbugalhado, e tirou a única moeda que ele tinha falando  
- Esta vai pra minha cervej... quer dizer pro donativo da vela da missa de domingo, pra que sejas perdoado por ofender um homem santo como eu (sei... as meninas de Dª branca que te conhecem bem). Tecus molecum safadummmm (latim fajuto...)
No 3º dia de mudez o garoto estava ainda capinando de novo (mudinho e burro, agora que ele não ia ter mesmo outra vida).

Novamente ele ouviu um vozerio, uma balbúrdia, correu pra estrada (tem gente que não aprende mesmo) quando viu uma tropa de puliça, todos de uniforme caqui, aqui ou ali, uma alpercata, uma camisa de mescla, ou um chapéu de cangaceiro se sobressaíam ao fardamento padrão. Um jovem com cara de arrogante parou em frente ao matuto:
- Sou o 2º tenente Kiko da força publica de Sergipe, diga cidadão essa estrada vai pro furado grande? 
Nada.
- Vou repetir, acho que o cidadão não me ouviu!! Essa estrada vai pro furado grande? 
O rastejador do grupo, Rostão, cabra safado e ex- vaqueiro de Geziel, com a cara maior que a lua cheia, todo inchado de cachaça, falou matreiro.
- Ih! Tenente o cabra não comeu sua farofa não, ta lhe mangando!
- Sargento Narciso, ponha este cabra desrespeitoso, em cima daquele formigueiro, cubra-lhe de "reio" e só pare quando ele falar!!! 
O mudo vermelhou-se, gesticulava, gritava silenciosamente. E se contorcia, mas caiu no reio mesmo assim!!

Colocaram o cabra no furmigueiro, depois de umas 20 lapadas de cipó. Assim que as formigas começaram a lhe roer o ... O mudo se desvencilhou dos meganhas, saiu correndo na capoeira com a bunda vermelha e toda caroçuda, gritando xingamentos contra o tenente, Virgínio Fortuna, e o padre muquirana, a plenos pulmões!!
Os vizinhos saíram das casas estupefatos, uma senhora começou a gritar:
- Valei-me meu padim Ciço, é milagre, milagre do Tenente Kiko... 
Bem, só sei dizer que o povo conta assim na região!!!

Cabra Ronnyere, João Elesbão e o cabra Jomar 


À serviço da república: Rastejador Rostão e o sargento Narciso. 


6 comentários:

CARIRI CANGAÇO disse...

Tenente Kiko essa turma não é fácil!!!

Abração meu amigo.

Manoel Severo

José Mendes Pereira disse...

Amigo Kiko Monteiro:

Se o Fábio Costa colocou o título desta história/estória no sentido de má qualidade, eu não concordo, pois ela foi muito bem criada, é engraçada, tem sentido próprio e vale uma excelente nota. Procurei no seu blog a número I, mas não a encontrei.

Pior do que as minhas estórias, com certeza esta não é.

Parabéns pela criatividade!

José Mendes Pereira - Mossoró-Rn.

Kiko Monteiro disse...

Severo, a cabroeira virtual não é brincadeira tem muita gente na trama soube que um dos próximos capítulos envolve um certo Coronel do Cariri cearense!? deve ser parente seu... não recordo o nome no momento.

José Mendes o primeiro capítulo é justamente aquele que você comentou NO LOMBO DE VIRGÍNIO FORTUNA.

Abraçando os amigos

Narciso disse...

Valeu pelo personagem Kiko,

Grande abraço à cabroeira.

Sgt Narciso.

João Pessoa - PB

João de Sousa Lima disse...

Kiko,

de tão perfeita a história tive a sensação de estar participando diretamente dela.
parabéns pelo texto e pela arte das fotografias.
grande abraço
joão de sousa lima

Ronnyeri ... disse...

hahahahahahahaha.

Ainda não tinha visto em seu blog.

Vlw Kiko pelas fotos e o texto do Fábio ficaram bem legais.

esta eu vou guardar pra mim.