quinta-feira, 1 de julho de 2010

À ferro e fogo

Marcas e cicatrizes do Cangaço

O fenômeno do cangaço vivenciado por Lampião e seus grupos de cangaceiros, deixou marcas profundas, em todos os recantos nordestinos percorridos, bem como, o sertanejo, vítima de crimes bárbaros. Some-se a isso, também as violências praticadas por alguns policiais das forças volantes.

Foi frequente, o saque de casas comerciais, fazendas incendiadas, corte de orelhas, sequestro, extorsão, castração, violação de mulheres, surra á palmatória e chicote, mulheres ferradas como animais, no púbis, nas coxas, nos rostos, além de corpos "pipinados" a punhal etc.

Algumas destas vítimas de ambos os lados da história se deixaram fotografar pela imprensa, testemunhas oculares e pesquisadores anos depois do fato.


Pedro José dos Santos (Pedro Batatinha) - vítima de castração pelo grupo de Lampião, 
em 17/10/1930,  no município de Nossa Senhora das Dores-SE.

Em 06 de janeiro de 1932, Lampião e seu grupo invadiram Canindé do São Francisco/SE. De imediato, o Rei do cangaço mandou pegar algumas mulheres ( Maria Marques, irmã do soldado Vicente Marques; Izaura, casada com o soldado Bilrinho; Anizia, conhecida por Zininha, além de outras ).

O cangaceiro Zé Baiano ( o qual havia sido traído pela bela Lídia ), esquentou seu "ferro" o qual tinha as iniciais "JB", deixando-o em brasa, e ato continuo, seguindo ordem do chefe, ferrou, em pleno rosto, a Sra. Maria Marques, além de outras (Vide foto abaixo).

 Maria Marques, ferrada com as iniciais "JB" - 
em 06/01/1932

Outra vítima de Lampião e Zé Baiano

 José Custódio de Oliveira ( Zé do Papel ), 
teve a "orelha" mutilada, por cangaceiros em Aquidabã/SE .


Abaixo, foto da Cangaceira "Dadá" - Companheira de "Corisco", a qual foi metralhada pela volante do Cel. Zé Rufino, no dia em 25/maio/1940, na Faz. Pulgas/BA, tendo, posteriormente, sido amputada a perna direita da mesma, na altura da coxa. Ela, ainda, sofreu cinco cirurgias na aludida perna. .



Abaixo, foto do ex cangaceiro " Candeeiro " - o qual, no combate de "Angicos"/SE (28.07.1938), foi baleado no braço direito, ficando com uma grande sequela . Nesse combate, morreram Lampião e mais 10 companheiros.
Obs: Candeeiro ainda é vivo, e mora na cidade de Buíque/PE.

Cabo Antonio Isidoro", da volante do Cel. Zé Rufino, que em combate com Lampião, recebeu um balaço na mão, ficando a mesma inutilizada.

Ferimentos sofridos por Lampião

1921 - Ferimento à bala no ombro e na virilha, no município de Conceição do Piancó-PB.
1922 - Ferimento na cabeça. “Só por um milagre escapei”, disse Lampião em entrevista ao Dr. Otacílio Macedo.
1924 - Ferimento à bala no dorso do pé direito, em Serra do Catolé, distrito de Belmonte-PE.
1926 - Ferimento leve à bala, na omoplata, em Itacuruba, distrito de Floresta-PE.
1930 - Ferimento leve à bala, no quadril, no município de Pinhão-SE

Um abraço a todos, analisem a matéria e façam seus comentários.
 
IVANILDO ALVES SILVEIRA
Colecionador do cangaço
Membro da SBEC
Natal/RN
 
Açude: Besta Fubana

3 comentários:

Márcio HM Maniac !! disse...

Em site algum é explicado porque Pedro Santos foi castrado ou porque a Sra. Maria Marques foi marcada

Kiko Monteiro disse...

Márcio, alguns autores argumentaram que Maria Marques como outras foram ferradas ou castigadas por Zé Baiano só por serem "mulheres" ou melhor dizendo reflexo de sua amada e odiada Lídia como o texto tenta repassar. Em outros casos Lampião tinha "hojerizah por mulheres de cabelos curtos". Mas vamos ser mais técnicos nos valendo de literatura existente na web, sim, na web.
Ana Paula saraiva de Freitas em sua monografia “A presença feminina no cangaço: práticas e representações (1930-1940). Nas páginas 199 a 203 Não é site, mas está disponibilizada online eis o link http://pt.scribd.com/doc/46623096/10/%E2%80%93-Nenem
Procurei editar e resumir o trecho em questão: A socióloga Maria Isaura Pereira Queiroz destaca que: “(...) Zé Baiano, companheiro de Lampião quase desde os primeiros dias, tornou-se célebre pela mania de marcar suas iniciais a ferro em brasa no rosto das mulheres que possuía. Diz-se que se vingava assim da traição de Lídia, sua primeira mulher”.
“Muitos afirmam que Zé-Baiano começou a marcar mulheres com ferro em brasa após a morte de sua própria companheira, Lídia, mas esta tese não tem fundamento. O fato de Maria Marques aconteceu em 1932, e Lídia, mulher de Zé-Baiano, só veio a falecer em 1935”. Os memorialistas Antônio Amaury e Vera Ferreira, baseados no depoimento do ex-cangaceiro Zé - Sereno (que presenciou o ocorrido em Canindé), destacam que a invasão desta localidade Diz o autor: “ Viu a testa da mãe com aquela depressão profunda e tomou a deliberação de agir do mesmo modo com os soldados que tivessem o azar de cair em suas mãos, e na impossibilidade de prendê-los, faria isso com suas mulheres. Mandou um ferreiro executar um ferro de marcação com as iniciais J. B.” Maria Marques "era irmã do soldado Vicente" (Que espancara a mãe de Zé-Baiano), Na narrativa de Zé-Sereno, o parentesco destas mulheres com policiais aparece como uma mera coincidência.
A presença de Maria Marques, irmã do soldado Vicente, revela-se uma alegre surpresa para Zé Baiano, que se viu num momento oportuno para revidar a violência cometida contra sua mãe. O coronel José Rufino tinha uma outra opinião a respeito dos acontecimentos em Canindé. Em depoimento socióloga Maria Isaura, afirmou que o motivo para ferrar estas mulheres não teve nada a ver com o corte de cabelo. Rufino relata que “tinha uma conversa na caatinga de que ele costumava ferrar essas mulheres porque Lampião não gostava de cabelo curto para mulher. Não. Não era por isso purque D. Maria Marques (uma das que ele ferrou) nunca cortô o cabelo. Fica implícito em suas palavras que tal prática fez parte de um ritual de vingança dos cangaceiros contra a volante e estava associado ao cangaceiro Zé-Baiano.
O provérbio: “Olho por olho, dente por dente” foi constantemente empregado por cangaceiros e volantes. Toda violência cometida contra as cangaceiras (mortas ou feitas prisioneiras), era descontada naquelas mulheres que tinham alguma ligação com a polícia. Este mesmo comportamento era compartilhado por soldados. Assim, o espancamento da mãe de Zé Baiano foi vingado em Maria Marques.
Diante deste quadro, algumas indagações nos parecem muito pertinentes: teria realmente Lampião se deslocado para Canindé apenas para punir suas desafiadoras? Será que Lampião perderia o seu tempo com fuxicos femininos, ou teria outros motivos para invadir aquela localidade?
“Zé-Sereno, que participou de todos os acontecimentos desse dia, nos contou que o motivo que levou Lampião a invadir Canindé não tinha nada a ver com dinheiro ou qualquer outro bem material.
Havia chegado até ele uma carta desafiadora, escrita por algumas mulheres residentes nessa vila, dizendo que sabiam que o “Rei do Cangaço” desaprovava o uso de cabelos curtos pelas mulheres, mas que faziam pouco caso de sua opinião, pois os cabelos eram delas e elas cortavam da forma que bem entendiam”. O bilhete e o uso do cabelo curto não seriam um artifício de Zé-Sereno para justificar este ato de barbárie? Por que este bilhete não aparece nas obras historiográficas?

Kiko Monteiro disse...

Agora sobre Pedro Batatinha:

Lembrando que O blog é feito por colaboradores e por questões de direito autoral não pude acrescentar ao texto original. voltando a questão de inexistencia na web: O blog Cariri cangaço http://cariricangaco.blogspot.com.br/2011/01/segunda-visita-de-lampiao-dores-por.html já dispoe desde "17 de janeiro de 2011" o artigo intitulado " Segunda visita de Lampião a Dores" de autoria de José Lima Santana em que existe o seguinte trecho:

Pedro Batatinha, que vinha da Malhada dos Negros, a fim de arrancar um dente, em Dores, que não lhe deixava trabalhar há dias. Chegando no povoado Tabocas, Batatinha ouvira dois disparos. Era o assassinato do alienado mental.

"Ranulfo Prata" relata o ocorrido, "segundo" depoimento que lhe prestara "o próprio Pedro Batatinha":

Prosseguindo, encontrou o bando de Lampião cercando o cadáver de um homem que acabava de ser assassinado naquela horinha. Foi logo cercado e revistado, tomando-lhe a quantia de 20$000, único dinheiro que trazia. Obrigaram-no, em seguida, a voltar com eles, e ao chegarem ao povoado “Cachoeira do Tambory” [na verdade, Lagoa dos Tamboris], apearam-se todos dispersando-se pelas casas da povoação e ficando ele, Batatinha, preso entre dois do bando, no terreiro da casa de Sinhosinho, casado com uma sua prima, onde fora Lampião sentar-se em um tamborete, na saleta da frente, à espera de um café que mandara fazer.

Os dois bandidos começaram, então a surrá-lo a chicote de três pernas, ambos ao mesmo tempo, sem motivo, sem quê nem pr’a quê. Empolgou-se de tamanho terror que não sentiu dores. Virgínio ou Moderno, cunhado de Lampião; o mais famoso castrador do bando.

Após a sova, eis que chega um terceiro, de apelido “Cordão de Ouro”. Ordena-lhe que descesse as calças e, segurando-lhe os dois testículos, cortou-os de um só golpe, atirando-os fora, debaixo das gargalhadas e chacotas dos companheiros. Disse-lhe o facínora:

- Quem lhe fez isto foi “Cordão de Ouro”, é a lei que manda e tenho feito em muitos.

Lampião, calado, assistiu à cena, perguntando, depois, ao castrador:
- Corto tudo?

Não, respondeu-lhe este. Deixei o resto porque o rapaz é novo (Ob. cit., p. 97-98). Encurtando a história, que é longa, os bandidos ainda deram pontapés e pranchadas de punhal em Batatinha. Lampião ao montar, aproximou-se dele, sacou do punhal e cortou-lhe um pedaço da orelha esquerda, acrescentando:

- É um garoto que precisa sê marcado, p’ra eu conhecê quando encontrá.

E voltando-se para as pessoas presentes, preveniu-lhes:
- Vocês trate do rapais senão quando eu passá aqui arrazo cum vocêis todo (PRATA, Ob. cit., p. 98). Batatinha, enfim, fora socorrido pelo Dr. Belmiro Leite, em Aracaju. Escapou e, segundo informações colhidas, morreu, na década de 1990, em São Paulo. Além de Ranulfo Prata, alguns autores que escreveram sobre Lampião registraram o fato da capação de Batatinha.

O autor fecha o episódio narrado em seu livro da seguinte maneira; Ao lado de todas estas tragédias, a nota burlesca: Depois de ouvirmos o pobre Pedro e fotografá-lo, conversamos também com um dos seus irmãos, que nos informou na sua linguagem pitoresca de tabaréu malicioso:

- Pedro casou, ta gordinho que nem “bicho de dicuri”, e sem bigode. Penso que ele não dá conta do matrimonho; regula duas muié numa cama... (Ob. cit., p. 98).

Espero ter ajudado. Eu não sei se você apenas não as encontrou em suas pesquisas ou se já de repente não concorda com as mesmas. Se as versões em que você acredita não forem estas então compartilhe as suas conosco, afinal o cangaço e construído e desconstruído de constrovérsias.

Att Kiko Monteiro