sexta-feira, 18 de maio de 2012

Para o fim de semana

"Corisco e Dadá" - Rosemberg Cariry | 1996 - completo |



Sinopse:

O Capitão Corisco (Chico Diaz), conhecido como Diabo Loiro, famoso por sua crueldade, valentia e beleza, rapta Dadá (Dira Paes) quando ela tinha 12 anos de idade, jogando-a na difícil vida do cangaço. A partir desse acontecimento, a vida de Corisco se transforma por completo. Ele é um condenado de Deus cuja missão é lavar com sangue os pecados do mundo. Dadá, que a princípio o odiava, descobre o companheirismo, entre lutas e dificuldades, e vê o ódio transformar-se em amor. E é o seu amor que humaniza Corisco, livra-o da condenação divina e determina a sua nova história sangrenta e trágica.


Créditos: TV Cangaço - YouTube

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Para os "guris"

Papercraft cangaceiro

Toy-art para você imprimir e montar. Salve a imagem, imprima, dobre, cole e taí mais um cangaceirinho na sua coleção.


Pesquei em www.cubinhokids.com.br

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Prévia

A Sedição está literalmente em ponto de bala

Clip de divulgação do Making of da minissérie "Sedição de Juazeiro" com música de meu cumpadi Camilo Vidal. Tá prontinha visse, e logo a FGF TV vai exibí-la para todo o estado do Ceará.


Abraço a todos!

Aderbal Nogueira

domingo, 13 de maio de 2012

Memórias de um tempo brabo

O cangaço na literatura de Francisco J. C. Dantas

Por Antônio Fernando de Araújo Sá

Resumo: dialogando com a tradição literária do Nordeste brasileiro, a obra do escritor sergipano Francisco J. C. Dantas possibilita um rico diálogo entre literatura, memória e história em que a temática da identidade regional associada ao cangaço emerge, de forma diferenciada, mas sempre recorrente, nos livros Os Desvalidos (1993) e Cabo Josino Viloso (2005). 


Francisco J. C. Dantas
Nascido em Riachão do Dantas (SE), em 1941, Francisco J. C. Dantas tem produzido uma obra literária baseada na sua vivência no interior nordestino, particularmente de Sergipe e Bahia, em que sobressai a preocupação estilística de estabelecer um vocabulário particular destes sertões, pautado na oralidade. A invenção da identidade sertaneja dos Estados de Sergipe e Bahia aparece nas narrativas literárias em sólidas bases históricas e linguísticas do falar de sergipanos e baianos. Os testemunhos das personagens são verossímeis, edificando vestígios das memórias do tempo do “cangaço” e sua herança no imaginário social do sertão nordestino, principalmente dos ecos da literatura de cordel.
“... outra vez Lampião se fizera encantado”.(Francisco J. C. Dantas)

Inserida numa proposta de releitura da literatura brasileira contemporânea, especialmente da prosa romanesca de Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, a obra do escritor sergipano Francisco J. C. Dantas possibilita um rico diálogo entre literatura, memória e história em que o mundo do sertão é construído a partir da visão do homem simples e desvalido e indissociavelmente ligado ao cangaço. Esta opção narrativa enuncia uma tensão entre literatura e sociedade, na qual o escritor, diferenciando-se da tradição regionalista nordestina, estrutura uma requintada carpintaria literária, em que sobressai a preocupação estilística de estabelecer um vocabulário particular dos rincões de Sergipe e Bahia.

Pautando-se na oralidade, sua obra literária denuncia a falta de acesso à cidadania dos marginalizados da seca por meio de seus conflitos existenciais, em que múltiplas vozes se fazem presentes. Ao mesmo tempo, sua escrita possui sólidas bases históricas, como podemos perceber nos testemunhos das personagens que edificaram vestígios de memórias do “tempo do cangaço” e sua herança no imaginário social do sertão nordestino, especialmente, nos livros Os Desvalidos (1993) e Cabo Josino Viloso (2005).

Como a matéria prima dos livros Os Desvalidos e Cabo Josino Viloso trata da memória, partimos do princípio de que tal ideia se vincula ao próprio conceito de cultura, no qual assentam os quadros de sentido e de referência que funcionam como princípios geradores, esquemas de percepção, de apreciação e de ação (CARDIM, 1998).



 Pescada in Portal Infonet

Ao mesmo tempo, a memória é uma prática de intermediação entre as estruturas sociais, individuais e coletivas da identidade e os desafios da alteridade, ela se produz também pela mediação de uma cultura, materializando-se em livros, filmes, imagens etc. É neste sentido que tomamos estes objetos culturais como operadores da memória social, revelando mais como uma conjunção, um entrecruzamento do que a suposta oposição entre “memória coletiva” e “história” (DAVALLON, 1999).

Aliás, Wagner de Souza sugere que a verdadeira mimese deve ser procurada nas obras não preocupadas em refletir a história, como em Os Desvalidos, na qual a criação literária vem ao encontro do texto histórico. Segundo ele, “o romance de Dantas, mesmo não fazendo parte da mesma ordem de discurso que o do historiador, apresenta o contexto social e cultural, traz para a narrativa os personagens históricos, no entanto, ficcionalizando-os, sem utilizar o distanciamento da terceira pessoa”. Deste modo, o “que torna seu texto diferente do construído para figurar na estante da história é o posicionamento narrativo escolhido, concedendo voz aos cangaceiros e aos desvalidos para que se saiba a história também pelo viés deles” (SOUZA, 2007, p. 115 e 116).

Como o “literário” é construído historicamente, consideramos as obras literárias como reescrituras, mesmo que inconscientes, em que “o significado não é apenas alguma coisa ‘expressa’ ou ‘refletida’ na linguagem – é na realidade produzido por ela” (EAGLETON, 2006, p. 66). Em A Lição Rosiana, o próprio Dantas (2002, p. 391) sugere que, a literatura não se esgota na retórica [...] que tem de se abastecer nas raízes do contexto de formação do próprio escritor. Que só podemos escrever exuberantemente quando nos abandonamos e abrimos os ouvidos às forças inconscientes que nos rodeiam e alimentaram a nossa formação.

Para ele, a força e a permanência de uma obra literária advêm “do mergulho profundo no chão onde nasceram” (DANTAS, 2002, p. 391). Deste modo, o elemento articulador entre memória e cultura é a categoria sertão, que estrutura a narrativa literária de Francisco J. C. Dantas, em seu diálogo com a tradição literária presente no livro seminal Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, que, segundo ele, traçou “o caminho da literatura ambientada no campo e nas pequenas cidades” como “legítimo fundador da nossa contemporaneidade” (DANTAS, 2002, p. 392).

Desta reescritura da tradição literária do sertão, irrompem nas narrativas de Francisco J. C. Dantas personagens marcados pela miséria, não-cidadãos, mas que revelam, dialeticamente, alegrias, afetos, honra, amor e outros sentimentos, fazendo alta literatura sobre desvalidos, roceiros, mulheres, metamorfoseando a matéria do sertão em pura transcendência, tal como fez Guimarães Rosa.

Um primeiro aspecto da literatura do escritor sergipano que dialoga com a tradição intelectual que remonta a Euclides da Cunha é a transitoriedade do sertão, daquela “possibilidade de que os seres e coisas sertanejos possam transformar-se, subitamente, em seus próprios opostos” (AMADO, 1995, p. 65). Tanto a personagem Maria Melona, de Os Desvalidos, quanto Josino Viloso, de Cabo Josino Viloso, são exemplares desta transfiguração de seres em seus opostos. 

A primeira personagem era uma “criatura de corpo solto e bem apanhado”, “desempenada e peituda”, mas era “mulher afinada e zeladora” e “engolfada em parecer feminina”. Depois da ruptura do casamento com Filipe, ocasionada pela fofoca de Coriolano, transfigura-se em um cangaceiro de punhal, calça e fuzil, “bem mudada em homem macho” (DANTAS, 1993, p. 56, 68 e 105). Logo depois, em atitude heróica, Maria Melona salva a vida de Filipe, em “correria desapoderada” na garupa do seu cavalo, sob a fuzilaria de Azulão.

Já a segunda personagem, Josino Viloso, à sua maneira, fizera uma revolução no lugar, onde o cacete comia e sopapos, rasteiras e cabeçadas eram constantes no cotidiano do Alvide. Por meio de inúmeras táticas – hipnose, compadrio –, o delegado tornara-se uma “evangelizador” da paz. Caracterizado como ausente do sentido de vilão, ou de vileza, mas também “não se destacava pelo talhe brioso, não tinha o porte olímpico, o desempeno espartano, nem galhardia cortês de um cavalheiro” (DANTAS, 2005, p. 77), a personagem fugia da violência a todo custo. Ainda que apareça como antiherói, que de delegado passa a comparsa de assassino profissional, Valenciano, só para não contrariar o compadre, o autor revela o cenário de violência marcante na sociedade nordestina da época, no qual o trabuco dominava as relações interpessoais.

De certo modo, a personagem da narrativa de Francisco J. C. Dantas, Cabo Josino Viloso, no exercício do seu mandato como delegado de polícia, questiona a ideia de um sertão parado no tempo, que remete à descrição euclidiana de que os sertanejos estão abandonados faz três séculos e cujos costumes remetem às sociedades passadas (ALVES, 1997).

Ainda em debate com aquela tradição intelectual, a representação literária do sertão de Dantas aparece como um lugar autêntico e, ao mesmo tempo, indômito. Na prosa romanesca de Os Desvalidos, o desvalido Aribé aparece com sua rala capoeira e alojado no saco de serrote, não passando [...] de um sovaco de chão carrasquento, forrado a lascas de pedra e afivelado de espinhos, muito agressivo com todo suplicante que, corrido dos cachorros, fure o cerco impenetrável, ziguezagueando entre agudas baionetas, e descambe até aqui pra se acoitar (DANTAS, 1993, p. 146). Em outra passagem, o autor justifica a fama de lugar desvalido do Aribé, pois do “sertão, tem o sol e a míngua, mas não a seiva: do brejo, a mesma areia e o saibro rugoso, mas não a chuva. Natureza madrasta!” (DANTAS, 1993, p. 162).

Em Cabo Josino Viloso, a representação do sertão isolado e indômito aparece associada à descrição da cidade de Alvide, no sertão baiano. Inserida num tabuleiro, “em um lençol de areias, destampado de estuporada claridade”, a cidade se resumia a “uma pracinha com seu chão de areia e duas fileiras de casas mal-ajambradas”. No centro da Praça, somente existe um “mastro comido pelo cupim, um madeiro ladeado pelas duas únicas árvores desse pedacinho de tabuleiro enquadrado pelas casas de portas encostadas” (DANTAS, 2005, p. 26, 28, 27).

A ideia de ausência de poder público associada à representação do sertão na literatura também se faz presente nos dois livros analisados. Essa menção pode ser registrada na personagem de Coriolano,
desvalido pelo poder do trabuco, por conta do domínio de Lampião: “O que tinha de gente e terra,
perdera na força do trabuco. Está esvaziado ... e as vozes mortas o arrastam a seu castigo” (DANTAS,
1993, p. 20). Na novela Cabo Josino Viloso, a descrição da delegacia e a condição de delegado sem
provisão são reveladoras da ausência do poder público na região da Bahia:
[...] Como é que um militar da Corporação Policial Baiana tem condições de se estabelecer num vilarejo sem pensão para a bóia e o pernoite, sem um alojamento de tijolo cozido e platibanda para fundamentar a sua Delegacia? (DANTAS, 2005, p. 24).
Próximo da representação clássica do sertão, há menções ao fanatismo religioso, em que a cidade de Alvide é habitada por “terríveis descendentes daqueles brutos que morreram em Canudos, ao lado de Conselheiro” (DANTAS, 2005, p. 27). Paralelamente, Josino Viloso se remete ao fenômeno de Canudos como sinônimo de luta, resistência, coragem e violência, quando lembra sua origem familiar que reporta a: 
[...] uma família dragona e medonha. Me reporto a um tal Chiquitintão, homem de fé do finado Conselheiro.

Na guerra santa, este tal aguentou o tranco à custa de farofa feita de sangue talhado. Comia orelha torrada
de soldado inimigo. Adonde eu digo que compartilho com ele, que não desapartava de uma laçada de forca. Me venho dessa raça pagã que tem o sangue gelado, um povo sem perdão, refeito na impiedade (DANTAS, 2005, p. 78).

Em Os Desvalidos, é registrada também a passagem do séquito de Antônio Conselheiro pelo Aribé, quando de “pescoço entupido de bentinho e patuá”, este povo “beato e romeiro” rumaram para o Ceará, provavelmente os sobreviventes da guerra fratricida (DANTAS, 1993, p. 174).

Assim, as referências históricas e culturais dos dois livros aqui analisados remetem à imagem clássica do sertão como sinônimo dos fenômenos de “fanatismo religioso” e “banditismo”, ambos produzidos pela ausência do poder público que caracteriza a sua história. Aqui emerge o Nordeste da fome, da miséria, do fanatismo, do cangaço, temas que vão marcar toda a produção cultural brasileira contemporânea sobre a região, tanto do ponto de vista sociológico, quanto artístico. É a descoberta do “outro” Nordeste. Contudo, o diferencial da literatura de Dantas é que este “outro” é moldado por uma carpintaria reveladora da sociedade, desprezando a ideologia romanesca presente na geração de 1930, que só percebia a exploração humana nas relações de classe entre patrão e empregado.

Na prosa romanesca brasileira a temática do cangaço serviu de inspiração literária como são os casos do pioneiro livro O Cabeleira, de Franklin Távora, passando por Coiteiros de José América de Almeida, Os Cangaceiros e Pedra Bonita, de José Lins do Rego, Seara Vermelha, de Jorge Amado até chegar ao magistral livro de João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas. Maria Isaura Pereira de Queiroz já havia alertado que a utilização do cangaceiro como tema artístico desempenhou uma função semelhante ao índio para o romantismo na literatura brasileira, na medida em que, a partir da última grande guerra, aquele personagem passou a se constituir em símbolo da nacionalidade.

Para ela, o cangaceiro possibilitava o debate sobre as transformações de uma socidade tradicional em sociedade de classes, ao mesmo tempo em que fornecia uma compensação psicológica aos oprimidos diante das camadas superiores opressoras (QUEIROZ, 1975, p. 514). Neste sentido, o mito do cangaço servia para salientar características que lhe sejam úteis para reforçar a solidariedade interna das coletividades e para distinguir uma das outras as sociedades globais e, internamente, os grupos que as compõem. Os símbolos são, antes de mais nada, brumosos e ambíguos. São estas condições, porém, que lhe permitem captar e expressar os rumos essenciais e profundos do sentir coletivo (QUEIROZ, 1991, p. 68).

Aqui encontramos como elemento fundamental das narrativas históricas e literárias a ambiguidade do cangaço num movimento pendular entre fato histórico e projeções coletivas, favorecendo a leitura mitológica do fenômeno social e construindo certa memória coletiva sobre o Nordeste brasileiro.

Por exemplo, a diabolização e a idealização de Lampião moldaram essa memória, fornecendo um instigante campo de pesquisa, ainda inexplorado, da compreensão do funcionamento dos imaginários sociais e seus mecanismos de apropriação de acontecimentos históricos. Aqui o cangaceiro pode ser representado como um símbolo contraditório associado a múltiplas representações que vão do bandido sanguinário ao bandido social, do justiceiro ao mau-caráter sem escrúpulos, tornando-se, portanto, aberto a várias ressonâncias (SILVA, 1996).

Dialogando com esta tradição literária, Francisco Dantas, em Os Desvalidos (1993), narrou “os tempos do cangaço” em Sergipe, a partir do olhar de Coriolano. O desamparo da personagem sem proteção de coronel demonstra que naquele “tempo brabo”, “pobre não vive sem patrão”. A falta de opção do sertanejo é explicitada na afirmação: “ou se apanha de Lampião ou dos mata-cachorros”, isto é, quando não eram os cangaceiros, era a volante a humilhar o pobre sem patrão (DANTAS, 1993, p. 126, 135).
Como apontou Frederico P. de Mello, na pobreza feita de espinho e pedra do sertão, os jovens que não fossem filho de fazendeiro ou ligado a elite econômica local “restava apenas a alternativa de ser policial ou bandido, uma e outra coisa, aliás, parecendo-se bastante num meio em que a luta diária orientava-se pela sobrevivência” (MELLO, 2004, p. 26).

Assim, a construção do romance mostra outra faceta da memória escrita e da poesia cantada pelo povo, que é a memória daqueles que não se tornaram volantes ou cangaceiros. A relação entre Coriolano e Lampião apresenta-se como ponto nodal para demarcar o espaço e o tempo da narrativa, oferecendo diferentes vozes para o relato ambíguo do mito de Lampião.

Não podemos esquecer que a literatura de cordel colaborou, decisivamente, na construção deste mito, seja produzindo uma “apologia do cangaço”, seja efetuando uma “diabolização” do cangaceiro (SILVA, 1996). Inclusive, ecos da influência da literatura de cordel na construção narrativa do romance podem ser percebidos em referências aos versos de Gomes de Barros tirados por Filipe e lembrados por Coriolano. Ou ainda quando este personagem sonha em ser cordelista, mas “fecha a livralhada, que é muito difícil conciliar leitura com algum trabalho duro que se converte em dinheiro, e se volta a montar um fabrico de bombom de mel de abelha” (DANTAS, 1993, p. 26 e 29). Entretanto, a prosa romanesca de Dantas constrói uma moldura complexa do mito de Lampião.

De um lado, o cangaceiro aparece como sinônimo da violência gratuita do prazer em matar, em que emerge a associação à animalidade, como é o caso da afirmação de que “Lampião é um bicho sem medidas”, “se encrespa todo como uma cobra para o bote”. Ou ainda o “besta-fera é envultado, tem o corpo fechado pelo poder da reza do santo de Juazeiro” (DANTAS, 1993, p. 202 e 132). Nestes trechos da narrativa o cangaço é destituído de qualquer conteúdo social, é produto de ‘um instinto’ quase animalesco (...). Escondem-se os motivos sociais do cangaço, procurando minar a solidariedade popular e denunciar o apoio dos coronéis tradicionais a tal prática (ALBUQUERQUE, 1999, p. 127).

Paradoxalmente, na narrativa também é realçada uma descrição crítica do funcionamento do coronelismo à época de Lampião, mostrando o comprometimento dos poderosos coronéis com a vida criminal dos seus jagunços: Quanto mais graúdo e mais gabado é o nome de um coronel, mais ficam encobertas as armadilhas e patifarias que os jagunços cometem com sua permissão, de tal forma que, botando assim outros culpados pela frente, o manhoso se resguarda dos crimes que financia, e vai vivendo sem que lhe cobrem um só pingo das vilezas semeadas, cada vez mais honradão das larguezas e canduras, engordando a própria fama a desacatos de tamanha impunidade! (DANTAS, 1993, p. 150-1).

Neste sentido, encontramos um olhar mais humano de Lampião, em que a cultura sertaneja abonava o cangaço, como pode ser visto na passagem que o romancista afirma que ele “é um estranho rei corrido e engendrado pela penúria de seu próprio povo” (DANTAS, 1993, p. 15). Lampião aqui aparece como produto do meio, como herói vingador construído pela literatura de cordel e pela memória popular, em que aparece como uma forma rudimentar de agitação social. Na própria fala de Coriolano percebe-se alguma feição de gente quando comenta que “Virgulino metia medo também a esses ricaços malvados” (DANTAS, 1993, p. 80).

Registre-se ainda neste processo de humanização dos cangaceiros a entrada das mulheres nos bandos de cangaceiros, modificando alguns comportamentos. Para Coriolano, foi o encontro com Maria Bonita que o fez amolecer o coração. “Na roda da saia dela, Virgulino bem sabe que virou outro” (DANTAS, 1993, p. 186).

Mas talvez o que mais chame atenção na caracterização de Lampião, nos dois livros analisados, seja a menção à crença no seu “corpo fechado”, constituindo-se no quadro de crendices e superstições comuns ao catolicismo rústico. Inclusive, Coriolano, com receio de ser boato, não explodiu em alegria pelo medo que sentia de Virgulino:

A notícia chegou indagorinha trazida de Boquim, onde o trenzinho, de ordinário a chocalhar atrasado,
cochilando o ano inteiro pelos trilhos, rompeu hoje estabanado na frente do horário, resfolegando fuligem,
estalido e fumaçada, pra espantar mais cedo a morte daquele que ainda trasantontem era gabado por ter o
corpo fechado (DANTAS, 1993, p. 12). 

Em Cabo Josino Viloso, a dimensão desta crença popular na existência do “corpo fechado” de Lampião, por conta de suas rezas fortes presentes no seu embornal, é mencionada pela coragem do personagem em enfrentar à população de Alvide: “[...] Ou é doido varrido... ou anda munido de oração forte contra faca, chumbo e pancada” (DANTAS, 2005, p. 48).

Esta crença do “corpo fechado” de Lampião foi encontrada nas recentes viagens pelo sertão nordestino por parte de Camelo Filho, identificando na literatura de cordel versos que aludem à ideia de corpo fechado, que é uma marca registrada do imaginário do sertanejo. De um modo geral, Padre Cícero e Nossa Senhora das Dores aparecem na maioria das orações rezadas pelos cangaceiros, aparecendo como “protetores divinos” do grupo (CAMELO FILHO, 2001, p. 130 e 135).

No mesmo sentido, Max Silva D’Oliveira reiterou a devoção de Lampião a santos da Igreja Católica, mas também a Padre Cícero Romão Batista, de Juazeiro do Norte/CE. Com base nas afirmações de Piragibe de Lucena, o autor também comenta que Lampião sempre trazia consigo orações de corpo-fechado, bem como orações de São Gabriel, São Paulo, São Pedro, São Jorge, Santa Luzia, São Thiago e a Virgem Maria. Além das orações, D’Oliveira também afirma que assumiu como obrigação dar “esmolas para os necessitados, o respeito aos padres e aos velhos, demonstrando através do pedido de benção por parte do cangaceiro” (D’OLIVEIRA, 1999).

A personagem Josino Viloso também compartilhava, como os cangaceiros, da fé em São Gabriel, que era invocado sempre que a ocasião beirava ao perigo: [...] “beija o escapulário e outros amuletos pendurados no pescoço, balbucia jaculatórias, pedaços de salmo, ladainhas, chama por São Gabrié. Tange as mãos aos esconjuros” (DANTAS, 2005, p. 30).

A menção indireta à figura de Lampião na narrativa novelesca de Cabo Josino Viloso demonstra que o banditismo e pela violência endêmica das lutas entre famílias e clãs caracterizavam o sertão baiano à época e que o estado de guerra permanente fazia com que a manutenção da ordem fosse baseada no exercício da força. A ausência de agências de representação do poder público tornava a cidade de Alvide, lugar marcado pela violência, onde somente “acolhe cria de cobras, de lacraias e de onças. Não há lugar para um cristão” (DANTAS, 2005, p. 35).

Em sua menção à Lampião, o escritor expõe a presença do medo que o bandoleiro impunha nos sertões baianos daquele momento, quando afirma que daquele “armamento tão monstro nem Lampião escapava!”. “Se topa comigo... tava lascado” (DANTAS, 2005, p. 82).

Por ser objeto e a razão do mito nacional, o sertão tem sido preservado no imaginário e na vivência concreta dos brasileiros, ao longo da história do Brasil, como pode ser percebido nas narrativas literárias de Francisco J. C. Dantas. Deste modo, o diálogo entre literatura, história e memória pode ser lido tanto ao nível das relações familiares, nos gestos desempenhados no cotidiano, nos hábitos enraizados, quanto em sua complexa mistura de supressão e de recriação do passado que, apesar do seu caráter fundamentalmente transformativo, permite conservar o essencial da recordação sobre o passado sertanejo.

Portanto, estes dois livros analisados constituem-se em material precioso para o debate histórico e
sociológico do Nordeste na primeira metade do século XX, na medida em que, ao se propor ao “desafio
de compor as vozes da cultura popular em acordes próprios de escritor culto”, como afirmou Alfredo Bosi
(Apud DANTAS, 1993), o autor lança novas luzes sobre a temática do cangaço, fundindo, numa perspectiva pós-moderna, a história e a ficção, no sentido de expor a ambiguidade da trajetória de Lampião
no imaginário social nordestino. Aqui a ficcionalização do cangaceiro serve como ponto de partida para
a revisão da própria história brasileira, ao trazer à baila sua dimensão humana (SOUZA, 2007, p. 98).

Entretanto, para compreendermos tais livros não podemos tratá-los apenas como documentos históricos, sociológicos ou antropológicos, mas como “obras de arte literárias”, pois estabelecem um diálogo crítico com a tradição literária sobre o cangaço no Brasil, elaborando uma rica “reflexão sobre a literatura e o fazer literário, em suas dimensões cultas e populares” (PIRES, 2005, p. 64).

Referências 

ALBUQUERQUE, Durval M. de. A Invenção do Nordeste e outras artes. Campinas/SP; Recife/PE: Cortez/Fundação Joaquim Nabuco, 1999. 

ALVES, Francisco José. Os Sertões como obra historiográfica. In: Cadernos UFS: História. São Cristóvão/SE, v. 3, n. 4, jan./ jul. 1997 (Canudos 100 anos). 

Revista Mosaico, v.3, n.1, p.103-109, jan./jun. 2010 109 

AMADO, Janaína. Construindo mitos: a conquista do oeste no Brasil e nos EUA. In: PIMENTEL, S. V. &  

AMADO, J. (orgs.). Passando dos limites. Goiânia: Editora da UFG, 1995. 

CAMELO FILHO, José Vieira. Lampião: O sertão e sua gente. Campo Grande/MS: Editora da UFMS, 2001. 

CARDIM, Pedro (org.). Cursos da Arrábida: A História: Entre Memória e Invenção. Lisboa: Publicações Europa-América/ Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1998. 

D’OLIVEIRA, Max Silva. O cangaço e a religiosidade de Lampião. In: Caos: Revista Eletrônica de Ciências Sociais. João Pessoa,Universidade Federal da Paraíba, n. 0, dezembro de 1999 (endereço eletrônico: . Acesso em: 11.02.2009. 

DANTAS, Francisco J. C. – A Lição Rosiana. In: SCRIPTA. Belo Horizonte, v. 5, n. 10, p. 386-392, 1o semestre 2002. 

DANTAS, Francisco J. C. – Os Desvalidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. 

DANTAS, Francisco J. C. Cabo Josino Viloso. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2005. 

DAVALLON, Jean. A Imagem, uma Arte da Memória. In: ANCHARD, Pierre [et. al.]. Papel da Memória. Campinas/SP: Pontes, 1999. 

EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006. 

MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do Sol: Violência e Banditismo no Nordeste do Brasil. 2. edição. São Paulo: A Girafa, 2004. 

PIRES, Antônio Donizeti. Coivaras, Palimpsestos & Novas Lavouras. In: Terra Roxa e outras terras – Revista de Estudos Literários. Vol. 5 (2005), p. 62-76 [p. 64]. Capturado no endereço eletrônico: . Disponível em: 11.02.2009.  

QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. História do Cangaço. 4. edição. São Paulo: Global, 1991 (Coleção História Popular, n. 11). 

QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Notas Sociológicas sobre o Cangaço. In: Ciência e Cultura. 27 (5), maio de 1975, p. 495-516. 

SILVA, Patrícia Sampaio. Le symbole et sés diverses résonances: analyse de l’historiographie du Cangaço. Revue Histoire et Société de l’ Amerique Latine. Paris, Amérique Latine: Expériences et Problématiques d’Historiens (A.L.E.P.H.)/Université de Paris 7, n. 4, maio 1996. 

SOUZA, Wagner de. Entre a fé cega e a faca amolada: representações ficcionais do cangaço. Curitiba: Curso de Pós-Graduação em Letras/UFPR, 2007 (Tese de Doutorado).
  
Fonte:  Revista Mosaico

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Conhecedores da nossa história

Programa 2: Bosco André, Padre Cíço e Lampeão

Saudações amigos do Lampião Aceso

Segue o 2º capítulo da série "Conhecedores da nossa História", com depoimento do amigo Bosco André. O assunto é o mesmo, a polemica patente concedida ao Rei do cangaço em Juazeiro do Norte, CE. 

Vamos comparando o que cada um dos entrevistados está dizendo. 


Ainda vem muita "bomba" pela frente. Aguardem os nossos próximos convidados: Renato Casimiro; Luitgarde Barros...

Att.
Aderbal Nogueira

terça-feira, 8 de maio de 2012

Xilo

Game brasileiro que é cabra da peste


Fico muito feliz em saber que estamos desenvolvendo jogos criativos e bem divertidos no Brasil. Além disso, projetos como o do game “Xilo” dão um gás nos ânimos de quem não levava muita fé na produção nacional de jogos independentes.

É por isso que o Girls of War faz questão de apoiar a galera indie brazuca e, sempre que rola algum jogo legal no cenário brasileiro, procuramos falar com o pessoal por trás da produção. Isso além de ajudar a divulgar o suado trabalho da equipe fazendo valer toda a dedicação, também pode servir como inspiração para quem quer começar a fazer jogos e não sabe como dar início a um projeto, ou mesmo que já está fazendo um pode tirar dúvidas.

Recentemente conversei com a galera lá da Paraíba (terrinha de meu papai psycho, que um dia ainda vou visitar), responsável pelo desenvolvimento do jogo “Xilo”, que como o próprio nome já deixa implícito, é todo baseado na arte popularizada no Nordeste do Cordel e da Xilogravura.

Bom, vou deixar o pessoal de Campina Grande contar esse “causo” melhor para vocês. A voz da equipe na entrevista foi Rodrigo Motta – responsável pelo Game Design, Direção de Arte, Personagens e Level Design do jogo:

1) Gostaria que me contasse um pouco sobre como se formou a equipe do jogo e de onde partiu a inspiração para o desenvolvimento de Xilo?

Rodrigo Motta - Todos nós somos de Campina Grande, Paraíba, uma região muito rica em termos de histórias de fantasia e folclore. Desde sempre me interessei pelas histórias que os mais velhos contavam e sempre pesquisei sobre essas lendas. Então, a inspiração para o Xilo já estava enraizada e só esperando o momento para nascer. Durante um bom tempo fiz um registro pessoal dessas lendas, além de imagens de referência e variações estéticas que poderiam fazer parte do jogo. E a Xilogravura (técnica de usar desenhos em madeira e depois carimbar em papel, muito popular na região) sempre se destacou e foi a escolha pra marcar o visual do jogo.

Três dos quatro membros da equipe do Xilo já se conheciam: eu, Trigueiro Junior e André Torres somos amigos de longa data, mas estávamos meio distantes devido ao corre-corre da vida. Daí nos reencontramos no Curso de Jogos Digitais da Facisa, eu como professor e eles como alunos. Conhecemos então o Diego Galiza e o grupo fechou. Com a possibilidade de participar do SBGames, faltando exatos 20 dias para a entrega do protótipo, apresentei a ideia e trabalhamos feito loucos durante estes 20 dias. Ah, é importante deixar claro que o Xilo tem a colaboração de outras pessoas: Banda Cabruêra, Vandré Paulo, Suênia Leôncio e Almyr Gabriel.


2) Percebe-se, claramente, que vocês quiseram dar um ar bem Cordel ao jogo – tanto no próprio nome “Xilo”, de xilogravura, até na arte do jogo. Qual foi a complexidade de adotar esse estilo? A equipe teve a ajuda de algum artista especializado nessa arte tipicamente nordestina?

Rodrigo - A resposta para esta pergunta pode ser: tenho Xilogravuras penduradas nas paredes da minha casa. :-) É uma arte que admiramos bastante. Faz parte da nossa cultura e tem uma carga estética muito forte: é simples e ao mesmo tempo muito dramática. Por acaso, tanto eu quanto o Trigueiro, que trabalhamos com design e publicidade, já havíamos feitos trabalhos envolvendo esta estética – o que facilitou bastante, mas passamos um bocado de tempo analisando o estilo, criando pincéis para Photoshop e utilizando efeitos para tentar simular a técnica. Analisamos algumas outras obras que utilizavam essa técnica e tentamos criar algo só nosso, adicionando um pouco de cor e alguns elementos no traço para facilitar a visualização dos personagens e animações do jogo.



3) Uma coisa que não ficou muito clara, pelo vídeo de divulgação, foi para qual ou quais plataformas o jogo está sendo desenvolvido. Onde e quando os jogadores poderão testar Xilo? Ele será gratuito ou pago?

Rodrigo - Uma coisa que gostaria muito de colocar no vídeo seria “disponível para todas as plataformas”. Mas existem algumas que são bem complicadas para lançamento de jogos independentes e precisaríamos de um publisher. De início, Xilo será um jogo para desktops Windows e MacOS, esse é o objetivo primordial e o foco da equipe principal.

No entanto, tenho trabalhado junto com mais duas pessoas para o desenvolvimento de Xilo para iPad e iPhone/iPod. A dificuldade maior para o porte para iOS não é nem técnica e sim conceitual. Não nos sentimos à vontade de lançar o Xilo para um aparelho multi-touch sem que ele tenha uma jogabilidade adequada a este tipo de gadget. A coisa tem que ser feita do jeito certo. Fora isso, provavelmente deve rolar uma versão web mais simples e existe grande possibilidade de fecharmos com outro estúdio para a produção de uma versão pra Xbox Live.

Já existem algumas pessoas jogando o protótipo de Xilo. E quem estiver no SBGames de 7 a 9 de novembro (em Salvador) também poderá jogar. Fora isso, decidimos não liberar para o público, pois nem todo mundo consegue separar o que é um projeto em andamento de um produto finalizado, então melhor que o público tenha contado com algo mais acabado, que pode ser uma versão demo em alguns meses.

Apesar de começar como um trabalho acadêmico, Xilo é um projeto comercial. Nossa intenção realmente é que ele traga retorno financeiro, mas o modelo de negócio ainda não está definido. Já recebemos cantadas de empresas com interesse em “comprar” o jogo e distribuí-lo de graça e pra nós isso seria ótimo. Queremos que todo mundo jogue Xilo. Essa parte de grana é complicada e depende muito de estratégias para cada plataforma.


4) Quais foram suas inspirações e fontes de pesquisa para compor o game design do jogo? Alguma influência de Limbo (pela atmosfera mais escura e com poucas variações de cores)?

Rodrigo - Em termos de ambientação, como já disse, foi a própria cultura nordestina e o folclore brasileiro como um todo. O roteiro tem alguns aspectos clássicos e algumas peculiaridades com base nas histórias contadas no interior do Nordeste. Muitas destas lendas brasileiras são caricaturizadas e tentamos nos aprofundar mais em cada uma delas, buscando aspectos que não são normalmente transmitidos ao grande público. E a história do Biliu, nosso herói, será uma grande aventura, cercada de muita ação e drama, como são as histórias no Nordeste. O vídeo, que todos tiveram acesso, não foi capaz de transmitir isso e todos irão se surpreender.

Mario, Limbo e Braid foram grandes inspirações pra nós. Mario, pois podemos dizer que é a grande referência de jogos 2D de plataforma. Mas quando vimos Braid e Limbo, pensamos “É isso!”. Não comparo Xilo com Braid pelo seguinte: considero a mecânica de volta/controle do tempo de Braid extremamente revolucionária. É um tapa na cara de quem “não respeita” jogos 2D/plataforma. Em Xilo queremos mecânicas divertidas sim, mas nada deste tipo. Teremos novos movimentos, armas, itens em cada level para dar dinâmica e ação ao jogo, mas dentro de uma linha mais tradicional.

O que também chamou atenção em Braid foi ver uma história “séria” ser contada através de imagens que não são realistas. No caso de Limbo, ele foi uma grande inspiração, mas não no sentido que todos falam “porque tem poucas cores”. Não é isso. Quem entende de arte vê que Limbo tem todo um lance de iluminação, de silhueta, partículas, etc. Não temos isso em Xilo. Temos a estética da Xilogravura “estilizada”. A grande inspiração pra nós com Limbo foi ver o jogo e pensar “caramba, olha só, é possível criar uma estética diferenciada e com ela trazer um conjunto de sentimentos, uma experiência, uma imersão neste tema que queremos transmitir”. Essa é a grande lição que tiramos de Limbo.



5) Acredito que a maioria dos jogos desenvolvidos no Brasil dificilmente usam a própria cultura do país como referência. Quais os principais desafios e barreiras que tiveram (ou ainda têm) que transpor para “convencer” as pessoas de que o Brasil também pode dar jogo e que pode sim ser legal?

Rodrigo - Se uma pessoa precisa ser “convencida” que a cultura do seu país é legal, temo em dizer que essa pessoa tem muito mais problemas pra resolver na vida. Principalmente num país-continente-multicultural como o Brasil. Se o desenvolvedor de jogos, ou o jogador, quiser desenvolver ou jogar o que estamos acostumados do exterior, não vejo problema nenhum com isso. E não posso dizer com certeza que temas nacionais sempre irão funcionar. Não existe um caso em que eu possa me basear. Mas eu acredito. É simples assim. Acredito porque sei que tudo o que é bom e feito com seriedade dá certo. Você acredita? Com o pouco do que mostramos com o Xilo, pude notar que muita gente acredita também. Temos o nosso objetivo e queremos alcançá-lo com honestidade, é simples.

A maior barreira, pelo que pude analisar, não é nem em relação à cultura brasileira… E sim o poder da cultura americana no mercado de jogos e nas nossas vidas. Sem notar, as pessoas se apegam aquele modo de agir, de pensar, aquela estética e o “estranho” passa a ser a nossa cultura. E não estou criticando o que vem de fora não, eu também gosto. E, por isso, quero ver minha cultura inserida nesse mercado. Lembro de um fato engraçado durante a produção do protótipo do Xilo: surgiu um conceito da Mula-sem-cabeça onde ela parecia um Colossi de Shadow of Colossus.

Nesse momento paramos tudo e conversamos… O que estamos fazendo aqui afinal? Chegamos à conclusão que é nos agarrando ao nosso conceito primordial, a nossa cultura, que poderemos entregar um produto honesto. Deste dia para frente o time trabalhou feito relógio suíço. E vou dizer: temos ideias para mais uns três jogos utilizando temas nacionais que todo mundo conhece, mas que, quando contamos da roupagem que queremos dar, as pessoas arregalam os olhos e se tremem todas.

Gostaria de agradecer a vocês meninas pela oportunidade aqui, dizer que acho bem legal o blog e tenho certeza que vocês estarão nessa com a gente.


-  Girls of War responde: com certeza Rodrigo. Estamos 100% juntos com o pessoal determinado a produzir jogos no Brasil e podem sempre contar com a gente. Sucesso para vocês!

 - Veja o trailer de Xilo, enviado para o SBGames 2011:



Conheça a equipe de Xilo:



 Quem é quem da esquerda para direita: José Trigueiro JR, 30 anos (Animação, Personagens e Cenários); - Rodrigo Motta, 30 anos (Game Design, Direção de Arte, Personagens e Level Design); - André Torres, 30 anos (Mixagem e Efeitos Sonoros); - Diego Galiza, 26 anos (Programação).

Xilo deverá ser lançado durante as festividades do São João de 2012, para computadores e aparelhos móveis.

Pescado em: Girls of War

sábado, 5 de maio de 2012

Em Feira e Salvador, BA


Confira a Programação do 'I Encontro de Estudos das Culturas dos Sertões'


Como parte da Celebração das Culturas dos Sertões, Encontro pretende reunir pesquisadores das artes e histórias dos sertões

As cantorias dos sertões, os versos do cordel, os cangaceiros e a guerra de Canudos integram a programação do I Encontro de Estudos das Culturas dos Sertões. O professor da Universidade Estadual da Bahia (Uneb), Roberto Dantas, coordena as mesas “Fatos e casos no Cangaço”, “Conversando sobre Canudos” e “Arte sertaneja: múltiplas linguagens”. O encontro acontece nos dias 07 e 08 de maio, no Centro de Cultura Amélio Amorim, em Feira de Santana, como parte da Celebração das Culturas dos Sertões.



O professor Roberto Dantas vê no encontro a possibilidade de divulgar as culturas, estórias e polêmicas que envolvem os sertões. “A retomada por parte do governo estadual de uma ação tão nobre, que busca reconhecer outras culturas da Bahia que não são valorizadas pela mídia, é importante, pois demonstra respeito a esta cultura e dá visibilidade a produção cultural dos sertões, possibilitando que se discuta políticas culturais para a cultura sertaneja popular das Bahia”, diz Dantas.

Além da sessão de convidados, o evento está com inscrições abertas até o dia 30 de março para as mesas de apresentação de trabalhos, que terão como temas “Os sertões no cinema”, “Identidades e modos de vida dos sertões” e “Os sertões pelas letras”. Para se inscrever, é necessário enviar um resumo expandido de no máximo duas páginas, com formatação conforme normas da ABNT, contendo título, nome do autor e palavras-chave, além de titulação, profissão e identificação dos vínculos do autor(es) com o tema em nota de rodapé. As inscrições deverão ser enviadas para o email culturadosertao2012@gmail.com.

PROGRAMAÇÃO

Salvador (05 de maio)
Celebração Musical das Culturas dos Sertões, “Baião de Nóis”, com direção artística de João Omar, constituída de atrações musicais diversas, eruditas e populares, profissionais e amadoras, culminando com uma homenagem aos 100 anos de Luiz Gonzaga, no Teatro Castro Alves, às 20h.
Feira de Santana (06 de maio – tarde e noite)
§ Desfile de vaqueiros com aboiadores pelas ruas da cidade, às 9h.

§ Abertura da exposição “Imagens dos Vaqueiros da Bahia” no foyer do Centro Cultural Amélio Amorim.

§ Abertura da Feira de Artesanato Saberes e Sabores dos Sertões na área externa do Centro Cultural Amélio Amorim, às 14h.

§ Encontro de Repentistas na área externa do Centro Cultural Amélio Amorim, às 15h.

§ Aula/Espetáculo de abertura na área externa do Centro Cultural Amélio Amorim, às 18h. Convidado: Ariano Suassuna.
Feira de Santana (dia 07 de maio)
§  Encontro de Estudos sobre Culturas dos Sertões, coordenado pelos professores Alberto Freire e Roberto Dantas. O encontro tem início no dia 07 de maio pela manhã com uma mesa-redonda dedicada ao tema “Universo Cultural dos Sertões”. Convidados para a mesa de abertura: o poeta fluminense Alexei Bueno; o escritor, poeta e compositor Bráulio Tavares, a escritora e professora de Cultura Brasileira da USP Jerusa Pires Ferreira. O encontro prossegue nos dias 07 e 08 de maio (09h às 12h e 14h às 17h), em duas salas, com apresentação de estudos sobre as culturas dos sertões.

§  Circuito Popular de Cinema e Vídeo, com exibição do filme “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, na Sala Principal do Centro Cultural Amélio Amorim, às 15h.

§  Projeção de slides de David Glat na área externa do Centro Cultural Amélio Amorim, às 18h.

§  Apresentação de Maviel Melo na Sala Principal do Centro Cultural Amélio Amorim, às 19h.

§  Apresentação do grupo Sertanília na Sala Principal do Centro Cultural Amélio Amorim, às 20h.
Feira de Santana (dia 08 de maio)
§  Encontro de Estudos sobre Culturas dos Sertões, das 09h às 12h e 14h às 17h.

§  Circuito Popular de Cinema e Vídeo, com exibição do filme “Boi Aruá”, na Sala Principal do Centro Cultural Amélio Amorim, às 15h.

§  Lançamento de livros, discos e outros materiais culturais, às 18h. Coordenação: Nonato Freire.

§  Lançamento do filme “Ritos de Passagem” na Sala Principal do Centro Cultural Amélio Amorim, às 19h.

§  Apresentação de Quininho de Valente na Sala Principal do Centro Cultural Amélio Amorim, às 20h.
Feira de Santana (dia 09 de maio)
Palestras e rodas de conversas com a coordenação da professora Cláudia Vasconcelos em duas salas do Centro Cultural, sempre antecedidas de aberturas musicais (manhã, tarde e noite) na sala principal do Centro Cultural Amélio Amorim, com curadoria dos músicos Fábio Paez e Cássio Nobre. Alguns dos temas das palestras e rodas de conversa: Identidades Sertanejas; Um Outro Sertão Possível; Culturas Tradicionais dos Sertões; entre outros.

Apresentação do espetáculo “Baião de Nóis” na Sala Principal do Centro Cultural Amélio Amorim, às 20h.

Confiram a programação completa AQUI

Serviço:
O que: Celebração das Culturas dos Sertões
Quando: De 05 a 09 de maio de 2012
Onde: Salvador, dia 05, Teatro Castro Alves e Feira de Santana, de 06 a 09, no Centro Cultural Amélio Amorim

Pescado em: Jornal Grande Bahia e Portal SECULT Bahia

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Inclusão

Marcos Passos imortaliza obras do cangaço em Braille

por João de Sousa Lima

Marcos Passos e sua equipe da AMAC - Associação Macaense de Apoio aos cegos, deixam para a posteridade mais uma obra do cangaço em Braille. "Moreno e Durvinha, sangue, amor e fuga no cangaço" é o segundo livro do gênero impresso pela AMAC. O primeiro foi "A trajetória guerreira de Maria Bonita" reveja a matéria Clique aqui

Quem é este vaqueiro fluminense?



O que é a AMAC?




Em setembro de 2011 Marcos Passos e seu filho Felipe "Gitirana" Marques estiveram conhecendo em Paulo Afonso, a região onde os cangaceiros passaram por diversas vezes. E estiveram também participando do 3º Cariri Cangaço, evento realizando nas cidades cearenses de Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha, Missão Velha, Aurora e Barro.

Me dignifica muito ter minhas obras como parcela concreta de acesso a leitura especial e como parte de inclusão social e fico muito honrado em ter Marcos e Felipe como amigos.


O livro foi impresso e encadernado de forma simples.
É o primeiro passo do Marcos, uma grande editora bem que poderia investir na ideia.


As obras estão a disposição para os leitores especiais que tiverem interesse em conhecer mais um capitulo histórico do Brasil. Se você deseja ter um exemplar entre em contato com a AMAC:



O blog Lampião Aceso aplaude e agradece o gesto do nosso vaqueiro fluminense Marcos Passos, e que venham outros títulos.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Evento em Serra Talhada

"Escurinho" vence o 2º Festival de músicas do Cangaço


O cantor e compositor pernambucano, radicado há várias décadas na Paraíba, Jonas Neto Escurinho foi o grande vencedor do II Festival de Músicas do Cangaço, realizado na noite de 28 de Abril, na Estação do Forró – Vila Ferroviária, em Serra Talhada/PE, capital do xaxado e terra natal de Lampião, o Rei do Cangaço.

Quando Escurinho chegou à tarde, para “passar o som” de “Nas Estradas de Bom Nome”, melhor música do festival, encontrou-se no museu do cangaço, com seu amigo Epitácio Andrade, contemporâneo da Universidade Federal da Paraíba, nos anos oitenta do século passado.

Momento da premiação

A performance de Escurinho defendendo a música vencedora foi  irretocável, valendo-lhe também o prêmio de melhor intérprete. Para o médico psiquiatra e pesquisador social Epitácio Andrade, a letra de “Nas Estradas de Bom Nome” é um convite ao engajamento político para o enfrentamento das questões sociais.

A segunda edição do festival musical do cangaço foi organizada pelo ponto de cultura “Cabras de Lampião”, patrocinada pela secretaria de cultura de Pernambuco, tendo mais de 90 composições inscritas, oriundas de todo país, e foram selecionadas vinte para a etapa final.

Na manhã seguinte à vitória de Escurinho, Epitácio Andrade foi parabenizá-lo na Pousada Lampião, onde estava hospedado, e lhe presentear com um exemplar de seu livro “A Saga dos Limões – Negritude no Enfrentamento ao Cangaço de Jesuíno Brilhante”.
 
Resultado Geral

2º lugar: "Em versos quebrados, mulher no cangaço"
Autor: João Sereno e Maviael Melo
Intérprete: Carlinhos Pajeú de Juazeiro/BA

3º lugar: "Flores do Cangaço"
Autor: Tavinho Limma e Sandro Livarck
Intérpretes: Tavinho Limma e Sandro Livarck de Ilha Solteira/SP

4º lugar: "O Brasil, o Cangaço e Lampião"
Autor: Rui Grudi
Intérprete: Rui Grudi de Serra Talhada/PE

5º lugar: "Um Cangaceiro e um cão"
Autor: Artur Silva
Intérprete: Laerson Alves Cidade de Guarabira/PB

# Melhor Intérprete: Escurinho





Com informações da assessoria do Dr Epitácio Andrade e do Portal Belmonte

segunda-feira, 30 de abril de 2012

História dos Volantes

Luiz Romão

Pesquisando na internet encontrei um blog "Língua Grande Cultural" do amigo "Beijaminm Almeida" que também posta artigos sobre a cultura e o cangaço brasileiro. No dia 26/04 encontrei  eu seu blog uma postagem muito  interessante de um homem que fora policial em Pernambuco conhecido por "Luiz Romão", seu nome na polícia era "Luiz Ferreira" e lutou  contra o cangaço  de Lampião. Ao término do cangaço, continuou na corporação, mas... Vamos ao texto de  Edson Luiz Ferreira Barros [ Edson Romão]
 

 Luiz Romão, com aproximadamente 34 anos de idade

"Sou um soldado da polícia Pernambucana. Sentei “praça” para perseguir “Lampião” e defender minha corporação, mais por ter defendido um companheiro  da “morte” hoje vivo lutando contra a prisão. Mas sempre sou o soldado Luiz Ferreira, conhecido por “Luiz Romão”

Luiz Ferreira do Nascimento, que mais tarde seria reconhecido e imortalizado como “Luiz Romão”, nascido na cidade de Flores -PE, em 15 de Outubro 1916, filho de José Ferreira do Nascimento ( José Romão ) e Jacinta Gomes de Oliveira. Tendo em seu pai “José Romão”,  que já fazia parte da Força Volante da cidade de Flores -PE, seu maior exemplo, Luiz Ferreira do Nascimento  ingressou também na Força Volante aos “ 17 anos de idade” travando vários combates com “facções” do Bando de Lampião. Sendo extremamente corajoso e habilidoso quanto ao manuseio de armas e táticas da “Caatinga”, com o fim do  “Cangaço” no Sertão, foi escolhido como Ordenança direto do Coronel Manoel Neto.


 Luiz Romão em traje de policial volante e civis.

Sentou praça em algumas cidades do Sertão como Flores, Ibimirim, Serra Talhada, Arcoverde, entre outras. Em todas as cidades em que “Luiz Romão” trabalhou como  Ordenança direto do Coronel Manoel Neto , fez imperar a Lei e a Ordem, pois não havia missão impossível para o mesmo.

Por um lamentável episódio ocorrido em Arcoverde/PE, quando lá destacava, estava de folga nesse dia, quando escuta alguém “gritar” por seu nome; tratava-se de uma mulher que em desespero falava que “havia alguns homens tentando matar um soldado...” Sem pensar duas vezes ele se dirige rapidamente para a cena do crime e se depara do que ele chamava de “linchamento”, o soldado estava sendo “golpeado” a faca e pauladas, por vários homens; outro soldado observava como que pasmo, pois não esboçava nenhuma reação.

Luiz Romão de arma em punho grita; “- Solta o soldado, solta o soldado!!! -”, é quando dois homens enfurecidos vêem  ao seu encontro de “ peixeira” em punho e tenta esfaqueá-lo sem dar-lhe  chance de defesa, rápido e habilidoso como era “Luiz Romão” desfere um disparo que atinge um dos homens no pescoço, o outro, com um segundo disparo é atingido no coração, onde tiveram, os agressores, morte instantânea... Sendo “Luiz Romão” impelido pela “turba” a continuar os disparos, tombam mais dois homens mortos. O restante dos agressores fogem.

O soldado que estava sendo “linchado” escapa gravemente ferido. Por a justiça, na época não entender os detalhes do “fato” ocorrido, “Luiz Romão” se tornou foragido. Foi perseguido , cercado várias vezes, mesmo policial, teve que trocar “tiros“ com a polícia, pois preferia  a “morte” a ser preso.

Mudou de cidade várias vezes, mudou de nome, mais por fim, foi inocentado.

“Luiz Romão fixou residência na cidade de Serra Talhada/PE, terra de “Lampião”, onde seus pais e alguns de seus irmãos já residia, adotando assim, Serra Talhada, como sua cidade, onde viveu por mais de quarenta anos, tendo falecido no dia 7 de Abril de 2003. Toda a sua “história” será contada em um livro... Detalhes do seu convívio com o Cel. Manoel Neto, seus cercos, suas fuga, seus amigos e parentes; as mortes de seus irmãos e sua vingança sua luta para manter-se vivo e conseguir provar sua “inocência”. Com isso “honrando” seu “nome” de geração após geração.

O “livro” será lançado em 2012 e terá como tema: “Luiz Romão, para mim, mais valente que “Lampião”.

Açude: Blog Língua grande cultural

Abraço a todos
Ivanildo Silveira
Colecionador do cangaço
Membro da SBEC / CARIRI-CANGAÇO
Natal/RN

De volta a praça

Antônio Amaury relança seus últimos livros

Você acompanhou Aqui a matéria sobre o lançamento destas duas obras. 

As primeiras edições se esgotaram em dias, foram distribuídas gratuitamente graças a uma iniciativa da Assembléia Legislativa da Bahia. Porem muita gente ficou sem o seu inclusive "este blogueiro". 

Mas agora temos a oportunidade de ter mais estes dois rebentos do mestre Amaury. A Graftech empresa gráfica do confrade Luiz Ruben reeditou os livros e agora eles estão ao alcance dos pesquisadores e colecionadores. 

Garanta os seus.

Maria Bonita
Graftech 279 páginas R$ 45,00 (Quarenta e cinco reais) 
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Gente de Lampião: Dadá e Corisco  
Graftech, 330 páginas, R$ 50,00 (Cinquenta reais) 
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Os pedidos serão feitos diretamente ao autor:

Antônio Amaury Corrêa de Araújo
Rua Guajurus, 156 – Jardim São Paulo
São Paulo – SP / CEP: 02.045-070


E-mail: aamaurycangaceiro@gmail.com
Tel.: (11) 2972  4824 

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Descoberta em Jeremoabo, BA

Joana Matilde Conceição, irmã do cangaceiro "Criança"
Por João de Sousa Lima*

Jeremoabo é uma cidade histórica e muito antiga, durante a Guerra de Canudos a cidade serviu de base para uma das companhias do Exército que atacaram o Conselheiro e os Conselheiristas. Em 1739 o Garcia D´Ávila doou uma grande extensão de terras para a construção da Matriz. A povoação tem em suas origens as tribos de Índios Massacará, Cahimbés e Cariris. Abastecida pela cristalina água que jorra da fonte da Pedra Furada e banhada pelo Vaza Barris.

Jeremoabo também foi palco da repressão ao cangaço, formando em suas comunidades volantes policiais que perseguiam sem tréguas os cangaceiros, sendo uma das mais famosas a volante comandada por Zé Rufino, um dos maiores matadores de cangaceiros. A cidade serviu de repressão ao mesmo tempo em que foi uma base de proteção através de um dos grandes coronéis daquela época, o famoso coronel e político João Sá.

Jeremoabo foi uma das cidades onde mais se entregaram cangaceiros depois da morte de Lampião, várias fotografias mostram esses cangaceiros na companhia de padres e policiais. Um dos grupos que se entregou em Jeremoabo foi o grupo do cangaceiro Criança. Criança aparece em fotografia ao lado de sua companheira Dulce (ainda viva e residindo em Campinas, São Paulo), Balão e Zé Sereno.

 Criança está sentado a esquerda de Dulce 
a única cabrocha na imagem.

Criança depois que foi liberado seguiu para o estado mineiro e posteriormente até o estado de São Paulo. Pouca coisa ficou gravada sobre esse cangaceiro e seguindo seu rastro fui encontrar em Jeremoabo, justamente na cidade de repressão ao cangaceirismo, residindo uma Irmã sua.

João de Sousa Lima e Joana Matilde da Conceição.

Com 89 anos de vida, encontra-se lúcida e relembra emotiva dos tempos árduos quando com apenas 10 anos de idade viu o irmão João entrar para o cangaço.

Manuel Lourenço Xavier e Maria Matilde da Conceição, pais de dona Joana, residiam no sítio Poço Grande, em Macururé, no alto Sertão baiano. Com as perseguições policiais e os maltrato sofridos, a família teve que fugir e atravessaram o Rio São Francisco, saindo da Barra próxima a Curral dos Bois chegando a Belém do São Francisco, Pernambuco, indo por fim se arrancharem em Santa Maria, povoação entre Belém e Floresta.

Na fuga para o estado pernambucano a família deixou as criações e em um dia de sábado João* e os primos Pedro e Feliciano retornaram para tentar reunir e alimentar os animais. Os três jovens não retornaram no prazo determinado. Maria Matilde ficou apreensiva com a falta de noticias dos rapazes.

Em um dia de feira na cidade de Belém, Maria e a família se encontrou com Vicente Baldo da Silva, que era irmão da matriarca e tio de João. Vicente deu a péssima notícia: João e os primos haviam entrado para o cangaço. Maria chorou copiosamente, a família se abraçou e a pequenininha Joana, com seus dez anos de idade não compreendia a situação. Vicente só não contou que foi ele quem ajeitou a entrada dos jovens para o cangaço.

João ganhou no cangaço o apelido de Criança por ser o mais jovem dos três rapazes, o primo Pedro ficou sendo conhecido como "Canjica" e Feliciano foi apelidado de "Zabelê".

Dona Maria estava com os filhos Joana, Luiz Lourenço Xavier, Januário e Rosendo estavam na Fazenda Pinhão, próximo a Cabrobró e ficaram sabendo das mortes dos primos Canjica e Zabelê e atravessaram o Rio para Macururé para confirmarem a notícia. Em Macururé as cabeças dos dois cangaceiros foram expostas e a pequena Joana foi proibida de olhar os Troféus Macabros . Confirmado a morte dos dois familiares só restou a Maria rezar para a proteção do filho João que ainda estava na vida cangaceira.

Com a morte de Lampião Criança se entregou em Jeremoabo junto com mais alguns companheiros. Na cadeia o padre Magalhães aproveitou para realizar o casamento de Criança e Dulce, o matrimônio sagrada unia sob as grades da prisão dois bandoleiros das caatingas nordestinas.

 "Criança" em fotolito do documentário "O ultimo dia de Lampião"

Em 1968 Joana seguiu com o filho Dudu até São Paulo para visitarem João, o ex-cangaceiro Criança.

No reencontro João se emocionou ao avistar a irmã que havia deixado ainda criança. O momento serviu para aliviar a saudade que por tanto tempo afligiu aquela menina-mulher, que em um dia de feira viu sua querida mãe verter lágrimas pela ausência de um filho amado que seguiu para as hostes do cangaço e na imensidão das caatingas viu a morte passar próximo e o sangue manchar a terra seca.
"Dona Joana, mulher forte, baraúna sertaneja, flor de cacto que aflora mesmo diante das intempéries, anjo-mulher, que tuas dores sejam aliviadas pelo simples dom de ser uma mulher que aprendeu a amar a vida sem temer as adversidades. Tenho muito orgulho de tê-la conhecido, de ter rastreado suas histórias de vida, de ter conhecido teus segredos tão bem guardados no cofre da memória".

 Jeremoabo/ Paulo Afonso, dias 23, 24 e 25 de abril de 2012.

*Historiador/Pesquisador e Escritor. Membro da SBEC- Sociedade Brasileira de estudos do Cangaço.
Membro da ALPA- Academia de Letras de Paulo Afonso, cadeira nº 06.


**Assim como outros companheiros de cangaço João mudou seu primeiro nome passou a se Chamar "Vitor Rodrigues"

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Velhas novidades

Raimundo Nonato de volta à praça


O Sebo Vermelho relança o livro do historiador Raimundo Nonato. 

Falecido em 1993, Nonato construiu sua obra a partir da análise de documentos e pesquisas em publicações da época.  Foi patrono da cadeira 38 da Academia Mossoroense de Letras, lançou 96 livros, dentre os quais também escreveu sobre "A Revolução de Trinta em Serra Negra" (1955) e o cangaceiro de Patu "Jesuíno Brilhante - o cangaceiro romântico" (1970).

Originalmente publicado em 1955, o título traz preciosidades como o depoimento do cangaceiro Jararaca, capturado pela polícia mossoroense e morto na prisão, publicado no jornal O Mossoroense; e a transcrição do diário do coronel Antônio Gurgel, que registrou a experiência de ter sido refém do bando de Lampião por 16 dias. Também reproduz o suposto bilhete enviado por Lampião ao prefeito de Mossoró em junho de 1927; e traz uma fotografia da milícia formada para defender a cidade.

"Tudo aconteceu no dia 13 de junho, fim de tarde de uma segunda-feira chuvosa, quando Lampião entrou em Mossoró, perdeu dois cangaceiros e colecionou sua maior derrota", diz a obra, que ainda aponta como culpado o jagunço potiguar Massilon, "que fez a cachola de Virgolino, dizendo ser negócio atacar a terra de Santa Luzia".

"Lampião em Mossoró" traz narrativa cronológica, imagens históricas, poemas da época sobre o episódio, transcrição de documentos e referência de processos atribuídos ao bando de Virgolino Lampião Ferreira.

A edição apresentada pelo Sebo Vermelho é um fac-símile da segunda versão do livro de Nonato, de 1956. tem 325 páginas, e custa R$ 40,00 (Quarenta reais) mais frete.  Contatos com Abimael Silva, através dos emails sebovermelho@yahoo.com.br ou argumento@supercabo.com.br.

Maiores informações:  Blog Sebo Vermelho

terça-feira, 24 de abril de 2012

Vaqueirama amiga

Lampião e o padim 

Estou compartilhando vocês o primeiro vídeo CONHECEDORES DA NOSSA HISTÓRIA.
Trata-se de um projeto que quero levar para a rede todo mês com os mais diversos assuntos
de nossa história. Nem sempre vou trazer algo ligado ao tema cangaço, mas vou procurar
sempre trazer algo interessante

Para começar, um tema bastante polêmico para nós que pesquisamos o cangaço: 
'O relacionamento Padre Cicero - Lampião' 

Teremos os depoimentos de 4 renomados pesquisadores do tema. Cada qual de uma escola diferente
e com opiniões bem definidas

Nosso primeiro depoente é Ângelo Osmiro Barreto, Prof. de história, ex-presidente da SBEC e
atual Presidente do GECC.


Os próximos entrevistados serão: Bosco André, Profª Luitgarde Barros e Prof. Renato Casimiro.
Espero que, com esses conhecedores da nossa história, possamos aprender algo mais e tirar
nossas conclusões, ou então nos confundir mais ainda em um tema tão delicado.


Abraços.

Aderbal Nogueira

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Tá chegando a hora!

II Festival de Músicas do Cangaço



O II FESTIVAL DE MÚSICAS DO CANGAÇO, que acontecerá em Serra Talhada/PE, no dia 28 de abril de 2012,  é um momento de reafirmação e reforço na identidade cultural do homem nordestino, tendo como ponto de partida a música e a história. Poucos momentos são tão especiais como este, portanto, venha brindar conosco, curtindo excelentes músicas, com compositores e intérpretes de alto nível, com a participação d’OS PARICEIROS e ANCHIETA DALI, em shows emocionantes,  com uma platéia calorosa e aconchegante.

É assim a Terra de Lampião e Capital do Xaxado. No espaço do evento, na ESTAÇÃO DO FORRÓ, antiga Estação Ferroviária, não faltará  o artesanato, comidas regionais, uma boa poesia cordelesca, barracas com bebidas, regado a uma paixão infinda pela cultura do sertão.

PROGRAMAÇÃO COMPLETA: www.pontodeculturacabrasdelampiao.blogspot.com.br

Para mergulhar na cultura, se divertirem, se hospedar e comer bem, é só chegar aqui na Terra de Lampião. Segue algumas dicas:

Descanso?

Pousada Lampião – (87) 3831 1402
Pousada Maria Bonita – (87) 3831 1223
Frontal da Serra – (87) 3831 8060
Hotel das Palmeiras – (87) 3831 1625
Hotel São Cristovão – (87) 3831 1093
Cactos Hotel – (87)  3831 1560
Pousada Império da Serra – (87) 3831 5216

Comer?
Pizzaria Luar do Sertão
Churrascaria Plínio
Vianey Churrascaria
Serra China
Trivial
Pizzaria Bis
Oficina do Sabor
Restaurante Gabriela
Pizzaria Arri Égua
Sabor da Gente Restaurante

O visitante poderá ainda comer bode assado e cozido, arroz vermelho, rubacão e muito mais, na ÁREA DE ALIMENTAÇÃO DA FEIRA LIVRE.

O portal de entrada pra história de Serra Talhada é o MUSEU DO CANGAÇO, na Estação do Forró, antiga Estação Ferroviária.

O II FESTIVAL tem patrocínio do FUNCULTURA / FUNDARPE / SECRETARIA DE CULTURA / GOVERNO DE PERNAMBUCO, com o apoio da PREFEITURA DE SERRA TALHADA / SESC/PE e a KM Produções.


MUSEU DO CANGAÇO
Ponto de Cultura Cabras de Lampião
Vila Ferroviária, S/Nº - Centro
CEP: 56.903-170
Serra Talhada - Pernambuco
Tel: (87) 3831 3860 / 9938 6035
E-mail: cabrasdelampiao@gmail.com
www.pontodeculturacabrasdelampiao.blogspot.com