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quarta-feira, 30 de maio de 2018

Um capítulo do cangaço no RN

91 anos Umarizal foi saqueada por um bando de cangaceiros

Por Rivanildo Alexandrino


11 de maio de 1927, aos primeiros raios do sol escaldante, um grupo de cangaceiros aproximava-se sorrateiramente do pequeno vilarejo de Gavião¹. O bando era formado por cerca de vinte homens, e o seu chefe era nada menos que o famoso cangaceiro Massilon Benevides Leite, que no dia anterior havia atacado a cidade de Apodi, e um mês depois, estaria integrado ao bando de Lampião no famoso ataque à cidade de Mossoró.

Próximo ao povoado, o chefe interrogou uma mulher que lavava roupas numa casa um pouco afastada de Gavião:

- Ali na rua tem “macaco”² do governo?
- O que é macaco do governo?
– inquiriu a mulher!
- É polícia!
- Tem não senhor! Só esses que estão chegando agora! ( pensava que os cangaceiros eram soldados ).
- Esses não são macacos! São meus cabras!
- E quem é o senhor?
- Sou “Lampião”!
( mentiu ).

A mulher, que ao ouvir o nome de Lampião, ficou trêmula de medo, logo foi tranquilizada pelo chefe dos bandidos que disse que não a fariam mal.

Depois de saciarem a sede, os cangaceiros preparam-se pra invadirem o lugarejo. Para isso, Massilon usou inteligente estratagema, mandou que dois dos seus homens tirassem seus apetrechos característicos do cangaço e adentrassem no arruado, um corria a pé na frente, e o outro, montado em um burro em perseguição ao mesmo, gritava:

- Pega ladrão! Pega ladrão!!

E assim, chegaram em frente a matriz, onde os moradores aglomeraram-se para assistir a estranha cena. Aproveitando a situação, os cangaceiros entram de súbito em Gavião, cercaram e renderam todos que estavam no centro do lugar.

 Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus




 O autor em visita as ruínas de um lindo casarão do século 19. O mesmo fica no município de Umarizal, que na época chamava-se "Gavião".

Rendidos os habitantes, começaram a onda de saque. O comerciante José Abílio de Souza Martins foi um dos mais prejudicados. Teve seu estabelecimento comercial invadido e saqueado pelos cangaceiros que subtraíram grande quantidade de mercadorias e certa soma em dinheiro.

O coronel Cristino Leite, chefe político local, foi da mesma forma, preso e obrigado a pagar por sua liberdade. No entanto, pediu ao chefe que não molestassem os moradores, que o mesmo faria uma cota com a população pra arrecadar dinheiro e lhe entregar.

O chefe da horda assassina, exigiu 10 contos de réis, valor exorbitante para os padrões do lugar naquela época. Mas depois de feita a arrecadação, tudo que conseguiu-se foi a quantia de 2 contos e algumas armas. O próprio Massilon sabia que o valor que tinha pedido era muito elevado, sendo assim, aceitou de imediato a quantia que conseguiram.

Os cangaceiros ainda organizaram alegre baile no grupo escolar, mas como o chefe deu a palavra ao coronel Cristino Leite que respeitaria os moradores, as mulheres não foram obrigadas a participar, e os cabras dançaram uns com os outros ao som de um fole e sob efeito de bebidas alcoólicas.

Já na parte da tarde os cangaceiros deixavam Gavião e seguiram em direção ao povoado de Itaú, que da mesma forma foi saqueada.

 NOTAS e REFERÊNCIAS
(1) Nome primitivo da cidade de Umarizal, que depois foi chamada de Divinópolis e posteriormente, recebeu a denominação atual.
 

(2) Os cangaceiros chamavam os soldados de macacos.

Obs: A minha pesquisa baseia-se nas obras dos doutores: Sergio Dantas, Raul Fernandes e do professor Raimundo Nonato.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Lampião em Mossoró

Quarta teoria: O ataque resultou de um plano político [Conclusão]

Honório de Medeiros

Júlio Porto

É aqui que entra em cena o misterioso Júlio Porto, de Aurora, no Ceará, mesma cidade onde nascera e exercia enorme influência política o Coronel Isaías Arruda.

Em 1927 Júlio Porto tem vinte e três anos de idade. Júlio Porto não era Porto. Seu verdadeiro nome era Júlio Sant’anna de Mello. O “Porto” viera de sua estreita ligação com Martiniano Porto, por sua vez fidalgote nas terras do Apodi, e inimigo sangue-a-fogo do Coronel Francisco Pinto.

Martiniano Porto era relacionado por laços de interesse recíprocos com Tylon Gurgel e Benedito Saldanha [1] - futuro Prefeito daquela cidade -, todos ferrenhos opositores do Coronel Francisco Pinto. Tylon Gurgel era sogro de Décio Hollanda, e, Benedito Saldanha, protetor de Massilon Leite no Ceará, fronteira com Apodi, que se considerava “afilhado” de seu irmão, o Coronel Quincas Saldanha.

Júlio Porto [2] deve ter sido o elo de ligação entre os inimigos políticos dos Coronéis Francisco Pinto e Rodolpho Fernandes, e o Coronel Isaías Arruda [3], pelo fato de ser de Aurora [4]. Ele está presente em todos os momentos cruciais ligados à invasão de Apodi e Mossoró.

Sendo de Aurora, Ceará, com certeza conhecia José Cardoso, proprietário da Fazenda “Ipueiras”, parente e aliado do Coronel Isaías Arruda. A ele apresentou Décio Hollanda, genro de Tylon Gurgel, amigo e correligionário de Martiniano Porto e Benedito Saldanha. Dissera a Décio Hollanda, representante do consórcio político contrário aos Coronéis Francisco Pinto e Rodolpho Fernandes, talvez, que José Cardoso era o homem certo para se chegar ao Coronel Isaías Arruda e, através dele, a cangaceiros e jagunços a serem comandados por Massilon.

Temos, então, finalmente: Brejo do Cruz; Apodi; Aurora; Mossoró. A malha se fechou, mas se expandiu. Reforçou-se.

Outro indício do projeto oculto de matar o Coronel Rodolpho Fernandes quando da invasão de Mossoró é não ter sido o Coronel Isaías Arruda o idealizador do ataque à cidade e a Apodi, como já visto. Ele planejou, obviamente, e deu apoio logístico, mas a idéia lhe veio trazida de fora, trazida por Décio Hollanda, assim como a ele foi levado Massilon, a quem entregariam o comando do ataque, em decorrência da sua ligação com os Coronéis Quincas e Benedito Saldanha, líderes e mentores do consórcio político oposicionista.

Foi Décio Hollanda o emissário e era um dos beneficiários, na medida em que o ataque a Apodi, para ele, supostamente [5], eliminaria o Coronel Francisco Pinto, inimigo pessoal e político seu e do seu sogro.

Uma vez que o ataque a Apodi deu certo, o Coronel Isaías Arruda foi convencido facilmente por Massilon a atacar Mossoró. Também já foi dito, aqui, que com a mentalidade rapace da qual era possuidor, percebeu o Coronel Isaías que sairia ganhando de qualquer forma com o episódio: aceitou planejar a empreitada, aproveitar a presença e CONVENCER LAMPIÃO, fornecer armas e munição, posto que com isso nada tinha a perder.

Relembrando, a partir de Sérgio Dantas [6]:

Em dias de abril daquele ano [7], o sinistro caudilho [8] recebera importante solicitação. Décio Holanda – destacado fazendeiro do município de Pereiro, no Ceará – pediu-lhe que colocasse a “cabroeira” particular a seu serviço, posto que planejava tomar de assalto a cidade de Apodi, no Estado vizinho.



Massilon X Coronel Rodolpho Fernandes: 
a história os uniu...em lados opostos.

Terá sido assim que tudo aconteceu? Concretamente não se sabe. Os indícios, entretanto, estão aí, para quem quiser analisá-los, relacioná-los e descobrir o que eles formam.

São fortes esses indícios. São como pontos de uma malha, intersecções de uma rede, elementos possivelmente conectados formando uma unidade, aguardando que alguém consiga tirá-los da sombra e trazê-los para a luz do sol, revelando a verdade que o tempo cada vez mais condena ao esquecimento.

Os personagens são todos fartamente citados na literatura acerca do assunto. Uns mais, outros menos: o Coronel Rodolpho Fernandes; o Coronel Francisco Pinto; o jagunço/cangaceiro Massilon Leite; Lampião, o rei do cangaço; o Coronel Isaías Arruda; os coronéis apodienses; os coronéis paraibanos; o Governador José Augusto Bezerra de Medeiros.


José Augusto de Medeiros Bezerra
In: www.ozildoroseliafazendohistoriahotmail.blogspot.com.br

É difícil acreditar que todas as questões levantadas e não respondidas teriam respostas circunscritas à própria causa específica que as fez surgir, sem que houvesse qualquer relação entre as mesmas que suscitasse uma conexão, uma unidade de propósitos.

Essa teoria, evidentemente, ainda está sob o domínio da especulação: talvez jamais venha a ser descartada ou encampada definitivamente, se não surgir algum fato novo, como alguma correspondência, algum diário, relato, guardada em baús, armários ou armazéns, em propriedades rurais ou imóveis urbanos, coberta pelo pó do tempo.

Há muito que pode ser dito para negar essa teoria, a de que o ataque de Lampião a Mossoró foi resultado de um complô político que visava assassinar o Cel. Rodolpho Fernandes. Tal complô, se houve, foi um dos últimos espasmos [9] do coronelismo que sob a forma pela qual ficou conhecido, ditou os rumos do Sertão nordestino, o Sertão de Lampião e Pe. Cícero, dos cantadores de viola, dos jagunços, das volantes, do final do ciclo do couro, até a chegada de Getúlio Vargas e do Estado Novo.

Esse coronelismo sucumbiu à presença do Estado. O coronelismo, não.

Então resta dizer, à guisa de conclusão, que as coisas podem não ter acontecido como descrito até agora. Mas que poderia ter sido assim, isso poderia...

1] Do pesquisador Marcos Pinto, acerca de Décio Hollanda, Benedito Saldanha, e Tylon Gurgel, recebi a seguinte correspondência eletrônica: historiador Marcos Pinto recebi, em 23 de janeiro de 2012, a seguinte correspondência eletrônica: Encontrei um fato por demais interessante no inquérito/processo que apurou o “FOGO DE PEDRA DE ABELHAS”. Consta por testemunha firme e valiosa que DÉCIO HOLLANDA comprou, no começo do ano de 1925, duas mil balas de rifle e mandou esconder em local que o Capitão Jacintho não conseguiu localizar. Agora, veja a coincidência: dois anos (1927) depois consta que Lampião recebeu um suprimento de duas mil balas de rifle quando se preparava para atacar Mossoró. Ora, se esta munição não foi gasta nem apreendida pelo Capitão Jacintho, é a mesma que Décio conduziu, em caixões muito bem disfarçados, “escanchados” em lombos de burro, segundo octogenários que ainda hoje comentam o episódio em Felipe Guerra. Estou alinhavando um novo artigo que terá o seguinte título: “CANGAÇO NO OESTE POTIGUAR – DO FIO DA NAVALHA AO FIO DA MEADA. Vou provar por A mais B a proteção dada ao cangaceirismo por parte dos desembargadores FELIPE GUERRA e HORÁCIO BARRETO e do Juiz de Direito JOÃO FRANCISCO DANTAS SALES, que recebia abertamente, em sua casa em Apodi, Décio Holanda, Tylon Gurgel e Benedito Saldanha. JOÃO DANTAS SALES foi transferido, “a pedido”, para Acari, em 25 de maio de 1925, por instâncias do Governador José Augusto, que convenceu o então Presidente do Superior Tribunal de Justiça Estadual, atual TJE. Acrescente-se que HORÁCIO BARRETO era sobrinho de JUVÊNCIO BARRETO, que veio de Martins para Apodi em 1915, à convite de MARTINIANO DE QUEIRÓZ PORTO, para fixar residência e cerrar fileira na oposição à família PINTO comandada por Tylon Gurgel e seu genro Décio Hollanda. O Dr. José Fernandes Vieira também traficou influência em favor do seu sogro Martiniano Porto, sendo certo que, em 1925, o aconselhou a ir residir em Pau dos Ferros. Observo que os dois mil cartuchos que foram comprados por Décio Hollanda, o foram em Mossoró, em 1925. Lembrei-me de outra particularidade: o Desembargador Horácio Barrêto era sobrinho da esposa (Alexandrina Barrêto) do Governador do Rio Grande do Norte, Joaquim Ferreira Chaves, que deu apoio oficial à perseguição policial a Joaquim Correia e aos Ayres em Pau dos Ferros, em 1919. Horácio e Felipe Guerra foram indicados e nomeados desembargadores por Ferreira Chaves em 1919.
Felipe Guerra foi candidato e eleito Deputado Estadual em 1934 na chapa dos “Pelabucho” na qual constava, ainda, Benedito Saldanha.
 [2] Júlio Porto conhecia Mossoró como ninguém. Raul Fernandes nos relata o seguinte, em “A MARCHA DE LAMPIÃO”; 4ª. Edição; Nota 9 ao Segundo Capítulo: Joanna Bezerra da Silva, conhecida por Doca, deu-nos uma entrevista interessante: Morava em Mossoró. Empregada doméstica da casa de José de Oliveira Costa (Costinha Fernandes), comerciante, sócio da firma Tertuliano Fernandes & Cia. Disse que Júlio Porto fora por último chofer de caminhão da referida firma. Meses antes do assalto a Apodi, desaparecera de Mossoró. Vez por outra aparecia à noite, muito apressado. Entrava pelo portão do fundo do quintal da casa, pedia café à Doca e sumia. Aconteceu chegar vestido à moda de cangaceiros. Dizia ser o traje onde trabalhava. Agora basta relacionarmos essa informação com a carta de Argemiro Liberato e a manchete do jornal “O Mossoroense” anunciando o futuro ataque à cidade.
[3] Quando invadiram Apodi os cangaceiros deixaram claro que iriam invadir Mossoró, afirma “O Mossoroense”. Citar nota do jornal.
[4] Em seu depoimento Bronzeado corrobora essa versão, ao afirmar que: “trabalhava com o senhor José Cardoso, que mora em uma fazenda do senhor Izaias Arruda chefe de Missão Velha e do qual o Cardoso é primo. Estava ali trabalhando quando chegou a ordem do senhor Izaías de seguirem para Apody, afim de fazerem o ataque já conhecido, a convite do senhor Décio Hollanda, morador em Pereiro. Ele e outros não queriam seguir, mas foram obrigados. O portador da carta de Décio fora o conhecido ‘chauffeur’ Júlio Porto, também bandido, que aqui morou” (PIMENTA, Antônio Filemon Rodrigues; “O CANGAÇO NA IMPRENSA MOSSOROENSE”; Tomo II; Coleção Mossoroense; Série “C”; nº 1.104; 1999; Mossoró).
[5] Décio Hollanda não sabia que Massilon fora instruído, pelos Saldanha, a não matar o Coronel Chico Pinto quando do ataque a Apodi. O objetivo oculto de Massilon era desmoralizar e amedrontar o Coronel.
[6] “LAMPIÃO E O RIO GRANDE DO NORTE”; Cartgraf Gráfica Editora; 2005; 1ª edição; Natal, RN.
[7] 1927.
[8] Isaías Arruda.
[9] O último mesmo, até onde se sabe, foi o assassinato do Cel. Chico Pinto, de Apodi, na famosa campanha do Partido Popular contra o Interventor Mário Câmara.

Tá tudo lá no:  www.honoriodemedeiros.blogspot.com.br

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Terceira teoria acerca da invasão

O ataque a Mossoró resultou unicamente da cobiça de Massilon
Por Honório de Medeiros


Restos da casa dos pais de Massilon em Luis Gomes, Rn
Quanto às teorias, esta é a mais simples. Sua simplicidade resiste à crítica? Mais uma vez recorramos a Sérgio Dantas [1]:

Aurora, Ceará. Há dois dias Massilon já retornara ao esconderijo. Ao mentor Isaías Arruda, prestou contas do assalto. O apurado foi dividido meio a meio, como anteriormente combinado entre cangaceiro e Coronel (O CEARÁ, 1928).

A incursão, claro, fora de indizível sucesso. Uma cidade, duas povoações, meia dúzia de sítios tomados sem dificuldade. Fez-se grande, o cangaceiro aprendiz.

Tornara-se bandido de sucesso.

Desejou, muito provável, alçar voos mais altos. Aconselhou-se com Arruda. Traçou planos. Pensou unir-se a Lampião e por em prática escusos projetos.

(...)

Lampião, naqueles dias, rumava célere a recôndito coito de Aurora.

Ainda:


 Pesquisador e escritor Sérgio Augusto Souza Dantas
Aurora, penúltima semana de maio. Há dias Lampião já retornara da fracassada incursão à Paraíba. (...) Finalmente alcançara o indevassável coito da Serra do Diamante, de Isaías Arruda.

Em dias subsequentes, Lampião recebeu a visita de José Cardoso, parente do Coronel. Deslocara-se o fazendeiro para apresentar-lhe o cangaceiro Massilon Leite.

Deve ter sido por esse período, a se crer nessa versão, que Massilon apresentou ao Coronel Isaías Arruda a ideia do ataque a Mossoró.

Era a grande oportunidade de sua vida, e ele a agarrou com unhas e dentes. Não foi difícil convencer o Coronel Isaías, como anteriormente dito, por que este nada tinha a perder, e muito a ganhar: venderia armas a Lampião, receberia seu percentual nos saques, sequestros e roubos ou livrar-se-ia do grande cangaceiro, cuja amizade muitos incômodos políticos estava lhe trazendo.
O Coronel Isaías Arruda também agarrou a oportunidade com unhas e dentes, como nos conta Sérgio Dantas [2]:
Lampião tentava demover o régulo cearense da imprudente empresa. Refutava com veemência a proposta de invasão do Estado e, principalmente, a sugestão de assalto a Mossoró. Temia – por vasta experiência – a “grandeza” da cidade salineira. Compreendia difícil subjugá-la.

O cangaceiro Jararaca, testemunha da conversa, lembrou com fidelidade, dias mais tarde, a resistência de Lampião ao assédio ferino do Coronel Arruda:

“Lampião nunca tencionara penetrar nesse Estado porque não tinha aqui nenhum inimigo e se por acaso, para evitar qualquer encontro com forças de outros Estados, tivesse que passar por qualquer ponto do Rio Grande do Norte, o faria sem roubar ou ofender qualquer pessoa, desde que não o perseguissem.”

(...)

Massilon, sentado bem perto, chancelava cada argumento defendido pelo sagaz chefe político.
E, assim, a se crer nessa versão, repitamos, por pura cobiça e oportunismo de Massilon, sacramentou-se o destino de Mossoró. Seus projetos grandiosos de ataque à cidade que ele conhecia muito bem, conversados pelo Sertão paraibano, os mesmos projetos que através de Argemiro Liberato chegaram aos ouvidos de Rodolpho Fernandes, finalmente iriam se concretizar.

Em relação a Argemiro Liberato, e sua correspondência para Rodolpho Fernandes, é conveniente registrar o comentário de Raul Fernandes em “A MARCHA DE LAMPIÃO [3]”:
Afonso Freire de Andrade e inúmeras outras pessoas conheceram a carta. Mossoró (RN), 23.12.1971. – Informações prestadas ao autor. Obs.: Ouvi de meu pai referências à missiva.
 Acerca dessa carta, comenta Kydelmir Dantas:
Esta carta foi levada ao conhecimento dos amigos de confiança do prefeito, por este, que estavam preparando a estratégia para a formação das trincheiras nos pontos principais da resistência. Dentre estes, Joaquim Felício de Moura, Afonso Freire de Andrade e outras pessoas mais chegadas confirmaram tê-la visto nas mãos do ‘coronel Rodolfo’. Para a família, dias após o ataque, Rodolfo Fernandes fez referências sobre esta missiva do amigo paraibano de Pombal. Outra confirmação do envio desta carta está no artigo: “Major” Argemiro Liberato de Alencar: o amigo de Rodolfo Fernandes, escrito pelo seu neto Geraldo Alves de Alencar, hoje residente em São Luiz do Maranhão, que cita o seguinte sobre o avô: “Era fazendeiro, proprietário da Fazenda “Estrelo”, situada em sua cidade natal. Exercia também a profissão de comerciante, trazendo da Paraíba algodão transportado em costas de burros e vendido em Mossoró, estado do Rio Grande do Norte. 

O principal comprador era a firma cujo maior acionista era seu amigo e compadre o Cel. Rodolfo Fernandes. Em suas viagens como almocreve retornava a Pombal com sal e outros gêneros. Mesmo tendo um sobrinho nas hostes do cangaço, o qual atendia pelo nome de Ulisses Liberato de Alencar, Argemiro era profundamente contra o banditismo rural, chegando inclusive a avisar ao Cel. Rodolfo Fernandes, quando este era prefeito de Mossoró em 1927, que o cangaceiro tencionava atacar a cidade considerada capital do oeste potiguar. Declaradamente anti-Lampiônico, Argemiro Liberato de Alencar nunca chegou a ser perseguido pelo “rei do cangaço” porque Lampião sabia da amizade existente entre ele e o Padre Cícero.” Evidentemente o aviso não era acerca de um futuro ataque de Lampião, mas, sim, de um futuro ataque de cangaceiros. 

Afora estas cartas, há o registro dos famosos bilhetes trocados antes do ataque, um escrito pelo Coronel Antônio Gurgel, refém de Lampião, e escrito a primeira negativa por Abel Freire Coelho, a pedido de Rodolpho, e o famoso de Lampião, escrito de próprio punho, com a resposta à altura e escrita, desta vez, por Rodolpho.

 Professor Abel Freire Coelho
Esta documentação foi, à época, publicada no jornal Correio do Povo, do jornalista José Octávio Pereira de Lima, como um Suplemento especial. Afinal, quem era o coiteiro de Lampião no Rio Grande do Norte? A dúvida continua após mais de 80 anos da resistência.” Fontes de Pesquisas: ALENCAR, Elidete. 
Informações sobre Argemiro Liberato de Alencar. Natal/RN: Mimeo.(inéd.), 2003. 2 p; FERNANDES, Raul. A Marcha de Lampião. Coleção Mossoroense. 6ª edição. 2005; MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do Sol: O banditismo no Nordeste do Brasil. Recife/PE: Ed. A Girafa, 2004 (texto sublinhado pelo Autor).

Raul Fernandes, ainda, logo na Parte 2 [4], do Capítulo1º, de seu livro “A MARCHA DE LAMPIÃO” nos conta, com a autoridade de quem é filho do Coronel Rodolpho Fernandes, o seguinte:


Foto Gentilmente cedida por Orlando Martins

Em dezembro de 1926, Joaquim Felício de Moura, sócio da firma Monte & Primo, em Mossoró, viajava pelo interior da Paraíba. Na cidade de Misericórdia, encontrou-se com o destacado comerciante e fazendeiro, Antônio Pereira de Lima, que lhe falou da acirrada perseguição do bandido Virgulino Ferreira a sua família. Sem maiores rodeios, contou-lhe o plano de Jararaca, Sabino, Massilon e Lampião de assaltarem com quatrocentos homens. Adiantou ser impossível reunirem tanta gente. Advertiu-o, porém, sobre o costume de mandarem espiões disfarçados de feirantes, mendigos e cantadores, aos lugares previamente escolhidos. Conversou sobre a possibilidade de defesa da cidade e pediu-lhe levar esses fatos ao conhecimento do Prefeito Rodolfo Fernandes.

 Joaquim Felício de Moura
Daí por diante, os boatos se sucederam. Na última quinzena de abril, de 1927, a notícia veio a luz de modo concreto. Argemiro Liberato, de Pombal, escreve ao compadre Rodolfo Fernandes sobre a pretensão dos chefes de bandidos.
Joaquim Felício estava errado quanto a José Leite de Santana, o Jararaca.

Como nos assevera Frederico Pernambucano de Mello [5], a área de atuação do cangaceiro eram as ribeiras do Moxotó e Pajeú, em Pernambuco. E o próprio Jararaca [6], declarou, quando preso em Mossoró, que Lampião nunca pensara em atacar esta cidade.

Quanto à Sabino Gomes de Góis, embora atuasse nos arredores do município de Cajazeiras, Paraíba, já estava integrado ao bando de Lampião desde o ataque à Souza, no mesmo Estado, do qual não se separará até sua morte, em fevereiro de 1928, após o conhecido tiroteio de Piçarra, em Porteiras, Ceará.

Ora, e se Sabino tinha intenção de atacar Mossoró, e não havia razão para tal, é evidente que Lampião seria o primeiro a sabê-lo. Repita-se, entretanto: Lampião nunca teve a intenção de invadir o Rio Grande do Norte, como já sabemos.

Não é de se duvidar, se for verdadeira essa teoria, repita-se mais uma vez, que Massilon tivesse pensado, realmente, desde há muito, em se unir ao maior de todos os cangaceiros.


Túmulo dos pais de Massilon em Luis Gomes, RN
Apodi servira, para ele, de “teste”, para firmar seu “currículo”. O episódio de Brejo do Cruz, relatado adiante, não poderia ser considerado mais do que uma jagunçada. Apodi, não. Uma vez conquistada a cidade norte-rio-grandense Massilon podia, com razão, atribuir a si a denominação de “chefe cangaceiro”.

Por pura sorte – ou azar – aconteceu, sem que ele procurasse, seu encontro com Lampião. E Mossoró, aquela cidade rica, por onde ele andou tantas vezes, como almocreve, na qual ele poderia conquistar sua independência financeira definitivamente, estava finalmente ao seu alcance.

Teria realmente acontecido dessa forma?

Contra essa versão há, entretanto, um sério óbice: o fato de na invasão de Apodi, por Massilon, o projeto de atacar Mossoró já existir, como noticiou o jornal “O Mossoroense”, em 15 de maio de 1927 [7], insinuando, sem rodeios, que a invasão à cidade, a ocorrer em dias vindouros, integrava empreitada [8] (grifo do Autor) de grande vulto, e dele dera conhecimento, ao Coronel Rodolpho Fernandes, a carta de Argemiro Liberato.

Observemos que essa edição de “O Mossoroense”, jornal dirigido por Rafael Fernandes, primo e correligionário de Rodolpho Fernandes, veio à lume cinco dias após a invasão de Apodi por Massilon.  Façamos, então, a necessária conexão entre essa matéria do jornal e a anterior correspondência de Argemiro Liberato encaminhada ao Prefeito.

Não foi, portanto, resultado da cobiça de Massilon tal projeto, ao saber da presença de Lampião em Aurora. Foi oportunismo. Ele tinha uma “empreitada” a realizar em Mossoró. Caso contrário não se explica o ataque. Afinal, porque Mossoró, se o móvel do crime era pura cobiça? Porque não Souza? Cajazeiras? Patos? Catolé do Rocha? Caicó? Campina Grande? Massilon conhecia todas essas cidades.

Outra questão: se a causa foi cobiça, porque o bando não atacou o Banco do Brasil ou o comércio de Mossoró, que se alcançavam seguindo o leito do rio, como sabia Massilon, preferindo atacar a residência do Coronel Rodolpho Fernandes? Que estratégia foi essa?

Não faz sentido que esse ataque tenha resultado meramente da cobiça de Massilon. Muito pelo contrário, como veremos a seguir. Tudo leva a crer que havia uma “empreitada”, cujo “teste” foi o ataque a Apodi, e a questão passa a ser a seguinte: que projeto foi esse de invadir Mossoró cuja face visível é Massilon, mas teria uma face oculta, haja vista a impossibilidade deste cangaceiro desconhecido, de voo curto, empreender, sozinho, algo tão ousado e grandioso quanto à invasão da segunda maior cidade do Rio Grande do Norte?

[1] “LAMPIÃO E O RIO GRANDE DO NORTE”; DANTAS, Sérgio Augusto de Souza; Cartgraf – Gráfica Editora; 2005; Natal; RN.

[2] Idem

[3] Nota 5, p. 40, Coleção Mossoroense, 6ª edição, 2005.

[4] 2ª edição; Editora Universitária – UFRN; 1981; Natal, RN.

[5] “GUERREIROS DO SOL”; 2a. edição; A Girafa; 2004; São Paulo, SP.

[6] No “Auto de Perguntas” feitas a Jararaca consta, também, a seguinte declaração sua: “que saíram em dias do mês de maio findo, do Pajeú, estado de Pernambuco, e que acompanhava Lampião há pouco mais de um ano”. Antes de Lampião Jararaca, ainda segundo seu depoimento, estava no Primeiro Regimento de Cavalaria Divisionária, tomando parte na revolta de São Paulo a favor da legalidade, com a Coluna Potiguara (“LAMPIÃO EM MOSSORÓ”; NONATO, Raimundo; sexta edição; Coleção Mossoroense; 2005; Mossoró).

[7] Sérgio Dantas, em “LAMPIÃO E O RIO GRANDE DO NORTE”, obra citada

[8] O termo utilizado foi exatamente esse.
Continua...

Tá tudo alí ó, no Blog do confrade Honório

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O ATAQUE DE LAMPIÃO A MOSSORÓ

Segunda teoria acerca da invasão

Por Honório de Medeiros

Antes de começarmos a esboçar a segunda teoria acerca da invasão de Mossoró por Lampião, temos que apresentar um rápido perfil biográfico de Massilon.

Afinal, quem foi Massilon [1]?

Massilon
Ainda hoje, algum tempo depois, quilômetros rodados, ligações e entrevistas realizadas, livros, revistas e jornais pesquisados, não é o bastante. Assim como ele surgiu, desapareceu. Seu tempo de vida bandida foi curto: quatro anos. Nasceu, provavelmente, em Timbaúba dos Mocós, Pernambuco. Seus pais migraram sucessivamente para Patos e Pombal, na Paraíba, e, depois, Luis Gomes, no Rio Grande do Norte, onde faleceram.

Totalmente sem fundamento é a informação dada por Fenelon Almeida [2] de que Massilon já tinha, na época do ataque a Apodi, “29 mortes no costado”.

Quais são suas fontes para afirmar isso? Em que ele se baseou para fazer tal afirmação? Se Massilon entrou no crime em 1924, e o ataque a Apodi ocorreu em 1927, parece muito pouco crível essa história.

Massilon não gostou do Sítio Japão, em Luis Gomes, para onde o pai emigrou em 1924, e voltou para a Paraíba [3]. Provavelmente um pouco antes dessa volta assassinou um oficial da Polícia em Belém do Brejo do Cruz e mergulhou, de vez, na clandestinidade.

A seguir, seus principais episódios conhecidos:

1) 1923: deixa de ser almocreve e se associa com Manoel Forte, de Brejo do Cruz, na compra e venda de gado (fonte [4]: José Gomes Filho, o Zé Leite, irmão de Massilon).

2) 1923/1924 [5]: versão 1: assassina, em Belém do Brejo do Cruz, em dia de feira, um soldado que fora mandado pelo pretendente ricaço de uma moça que se enamorara por Massilon, para lhe tomar a arma e desmoralizá-lo (fonte: Dna. Aurora Leite de Araújo, irmã de Massilon); versão 2: mata um fiscal de feira em Belém do Brejo do Cruz, que lhe queria tomar a arma (fonte: Zé Leite, irmão, e Pedro Dantas Filho, natural de São José do Brejo do Cruz, falecido em 2002 aos 88 anos, em entrevista a Alexandro Gurgel para o jornal “A Gazeta do Oeste”, Mossoró, Rn); versão 3: mata um sargento ou cabo da Polícia de Belém de Brejo do Cruz, para a cidade enviado por seu líder político, no intuito de moralizá-la (fonte: Manoel Monteiro, filho de Chico Canuto, amigo de Massilon, em depoimento ao Autor).

3) 1923/1924: passa, após o crime, a protegido dos Saldanha (Quincas e Benedito [6]). Possivelmente residirá em Alto Santo, CE, onde Benedito Saldanha tinha uma propriedade, para fugir da perseguição policial (fonte: Dna. Tercia Leite de Oliveira, irmã de Massilon; Capitão Viana, em entrevista ao Autor, e a Denúncia oferecida pelo Promotor Público da Comarca de Souza, Paraíba, servindo “Ad-Hoc” em Brejo do Cruz, Paraíba, Dr. Emílio Pires Ferreira, em 10 de fevereiro de 1927, transcrita no Jornal “União”, da Paraíba, número 82, em 9 de abril de 1927, Sábado).

4) 4 de Fevereiro de 1926: ataca São Miguel de Pau dos Ferros, no Rio Grande do Norte, sob a desculpa de combater a Coluna Prestes (fonte: Zenaide Almeida da Costa [7]):
Eram quatro horas da tarde do dia 2 de fevereiro, quando João Grosso chegou correndo, esbaforido. Vinha de cima da serra, na estrada da vila, de onde avistara o mar de gente que se aproximava.
Na vila os Revoltosos abriram algumas portas de casas comerciais, tirando delas apenas os mantimentos necessários à sua alimentação naquele dia. Saíram à tarde, deixando somente o medo e alguns cavalos estropiados, trocados por cavalos sadios que, apesar de escondidos nas matas dos sítios, com os focinhos amarrados e de cabaça para cima, foram encontrados e surrupiados. Baixaram as águas, mas como sói acontecer, a epidemia chegou no dia seguinte muito cedo e sem aviso!
Um marginal, alcunhado de ‘Sargento Preto’, embriagado, desgarrado da Coluna e em companhia de indivíduos da mesma estirpe, arrombou casas comerciais, distribuindo mercadorias com pessoas que estavam regressando à vila, despejando gêneros, tecidos, miudezas e bebidas no meio da rua. Saiu de porta em porta chamando quem ainda não tinha se apresentado (por timidez ou honestidade) para receber seus ‘donativos’. Abriu o cartório e em frente ao prédio, fez uma pilha de todos os livros e documentos, despejou querosene por cima, ateou fogo. Desapareceu depois do saque. Dois dias após [8] chegou outro grupo vestido de mescla azul, com bonés do mesmo pano, dizendo-se ‘patriotas’. Novo saque em todas as casas comerciais e de residência. Tomaram armas, munições, animais, o que sobrou de víveres, provocaram brigas nas ruas.
Era o grupo de Massilon, semelhante ao de Lampião, que imperava naquelas quebradas de serra e nos sertões, armado, fardado, e segundo eles próprios afirmavam, autorizados pelo Padre Cícero Romão Batista, do Juazeiro, a combater a coluna prestes. Saíram deixando a desolação, o pânico, tudo depredado, arrasado!

5) 25 de Abril de 1926: ataca Brejo do Cruz, na Paraíba. Mata Manuel Paulino de Moraes, Dr. Augusto Resende (Juiz Municipal), fere Dr. Minervino de Almeida, o “Joca Dutra” Prefeito Municipal), e Severino Elias do Amaral (Telegrafista).

Autores intelectuais (supostamente): Deputado João Agripino de Vasconcelos Maia, residente no Sítio “Olho D’Água”, Catolé do Rocha, PB; Joaquim Saldanha (Quincas Saldanha), residente na fazenda “Amazonas”, Brejo do Cruz, PB; Odilon Benício Maia, residente na fazenda “Pedra Lisa”, Brejo do Cruz, PB; Plínio Dantas Saldanha, vulgo “Marinheiro Saldanha”, residente em Jardim de Piranhas, Caicó, Rio Grande do Norte, como mandantes [9].

Executores: Massilon Leite [10], José Pedro[11] (vulgo Coqueiro), Peitada, João Domingos, João Boquinha e João Cândido – vulgo Negro Cândido.

Fonte: Denúncia oferecida pelo Promotor Público da Comarca de Souza, Paraíba, servindo “Ad-Hoc” em Brejo do Cruz, Paraíba, Dr. Emílio Pires Ferreira, em 10 de fevereiro de 1927, transcrita no Jornal “União”, da Paraíba, número 82, em 9 de abril de 1927, sábado.

Assim foi o fato: como todos os finais-de-tarde em Brejo do Cruz, no Sertão paraibano, formou-se uma roda na frente da casa de Antônio Dutra de Almeida, no começo daquele fatídico ano de 1926. Dr. Joca Dutra (João Minervino de Almeida), Manoel Paulino Dutra de Morais, José Targino, Dr. Francisco Augusto de Resende (Juiz da Cidade) eram os presentes. As cadeiras, dispostas dia-a-dia nos mesmos lugares, eram, pelo hábito, marcadas: recebiam sempre os mesmos ocupantes.

Em certo momento José Targino e Dr. Antônio Dutra de Almeida se levantam e vão tomar água no interior da casa. Nas cadeiras nas quais eles estavam sentados, inexplicavelmente se sentam Manoel Paulino Dutra de Morais e Dr. Francisco Augusto de Resende.
Escurece.

Um atirador tomou posição a alguma distância e, de rifle, atirou nos ocupantes das duas cadeiras que lhe tinham sido previamente assinaladas.
Dr. Francisco Augusto de Resende tombou morto. Manoel Paulino Dutra de Morais, ferido, fez menção de se levantar. Os outros tinham fugido.

O atirador aproximou-se e desfechou várias peixeiradas em Manoel Paulino Dutra de Morais. Ao terminar observou atentamente o semblante do outro morto e gritou: “matei um inocente”.
Recolheu as armas, montou o cavalo, picou na espora e sumiu na escuridão da noite. Fora Massilon.          


 Ruínas do Casarão de Benício Maia, século XVII ou XVIII, 
Belém do Brejo do Cruz

O escritor Rodrigues de Carvalho conta-nos, acerca de Massilon, que:
No ano de 1927, Lampião deixou-se influenciar pelas insistentes e tentadoras sugestões de um dos seus sequazes, para uma aventura criminosa bem difícil. Um assalto a Mossoró. No grupo era ainda um novato [12], sem grande tirocínio e até bem pouco tempo inteiramente desconhecido e estranho às lides do cangaço. 
Contudo, a despeito do curto ‘estágio’ ou ‘noviciado’, esse bandido vinha portando-se como um experimentado veterano. É que antes dessa apresentação, ele já havia cometido vários assassinatos, alugando o braço homicida a outros facínoras encapuzados. Daí o seu desembaraço na prática do crime. Entre as suas primeiras vítimas como pistoleiro está o Dr. Augusto Rezende, Juiz de Direito de Brejo da Cruz, na Paraíba, morto de emboscada [13].
 

Cabra inteligente e temerariamente audacioso agia com desassombro e pleno de ambições rapinantes. Os seus planos de salteador eram ousados, com promessa de voar a grande altura. O que era também forte prenúncio de cedo encontrar quem lhe quebrasse as asas...
 

Em outro qualquer setor da atividade humana os seus predicados seriam, decerto, além de inaproveitados, reprovados com desprezo. Para o meio em que se integrava, todavia, tinha ele qualidades inapreciáveis; aquelas que o credenciavam para um refinado facínora. Orgulhava-se de ser potiguar [14], natural da Serra do Martins ou de Luiz Gomes. Chamava-se Massilon Leite, Antônio Leite ou Benevides Leite. Coisas de bandido.
Dizia-se profundo conhecedor de três ou quatro Estados do Nordeste, cujas estradas talara em todas as direções durante anos consecutivos. Gabava-se de conhecer palmo a palmo não apenas seu Estado natal, mas também a Paraíba, o Ceará e parte de Pernambuco, graças ao desempenho das suas funções de motorista de caminhão. Trabalhava no volante quando resolvera trocar de profissão. A profissão de cangaceiro lhe pareceu muito mais lucrativa, além de livre como o vento. Pensou também que fosse mais leve do que a de motorista de caminhão, porém mais tarde confessava haver se enganado redondamente. Mas era tarde [15].
Raimundo Nonato [16] lembra que Jararaca [17] dissera ter Massilon Leite informado serem suas as mortes de Brejo do Cruz, o que corrobora o relato feito acima. Sérgio Dantas [18] nos disse que Massilon foi almocreve. É verdade.

Entretanto, quando da morte do policial em Belém do Brejo do Cruz já era comprador/vendedor de gado.
É o que nos relatam seus irmãos Tercia e Zé Leite, em entrevista que o escritor gentilmente nos cedeu, bem como o Capitão Viana.

Quando chegamos à residência do Capitão Viana – Francisco Viana – em Macaíba, RN, encontramos um velhinho seco de carne e temperamento, vestido com um pijama azul claro à antiga, daqueles cujas camisas são de manga comprida, sentado em uma cadeira de balanço e lendo a Bíblia. Recebeu-nos muito bem e logo mandou servir café.

O Capitão Viana tinha, na data da entrevista, noventa e três anos muito bem vividos. Longa prole, alguns poucos bens, saúde saltando à vista, memória fantástica. Durante a entrevista em nenhum momento titubeou quanto às informações prestadas.

Ao tentarmos falar acerca de sua atuação como policial em alguns casos mais escabrosos fechou a cara e disse, abruptamente:
"Isso é segredo de polícia, não posso dizer nada". 
Foi delegado, entre outras cidades, de Apodi, Macau, Açu, Caraúbas, Nova Cruz, São Tomé, e Areia Branca. Pois bem, o Capitão Viana, quando menino lá em Alto Santo, então distrito de Limoeiro do Norte, onde nasceu em 1913, conheceu Massilon – embora de longe, só de vista, como se diz no Sertão, mas fornece vários dados importantes acerca do cangaceiro:
Massilon, depois do ataque a Apodi, nunca mais voltou lá.
 

Em 1940, quando fui Delegado de Apodi, já não se falava mais nele.

A história de João Quincó é a seguinte: João Paulo Nogueira Maia, como se assinava João Balduíno Freire 
– o João Quincó, era Delegado em Alto Santo e prendeu um amigo de Massilon – marchante como ele – chamado Pedro Rogério, mas conhecido por Pedro Cascudo. Maltratou muito Pedro Cascudo.

Massilon jurou vingança e foi lhe dar uma surra. Coqueiro terminou matando João Quincó e seu filho.
 

Massilon era jagunço de Décio Hollanda, lá de Pereiro, e foi jagunço de Benedito Saldanha. Antes de Apodi Massilon morava com Décio Hollanda, no Pereiro, Fazenda Bálsamo.
 

Ele vivia de comerciar gado, era marchante, não tem cabimento essa história de sapateiro que o cangaceiro "Bronzeado" que você falou conta. Eu sou testemunha de tudo isso por que morei em Alto Santo até os quinze anos, quando fui para São João do Jaguaribe.
Na época da invasão de Apodi eu estava em Taboleiro do Norte. De lá fui para São Paulo. Em 1934 voltei para o Rio Grande do Norte e sentei praça na polícia.
[1] Para maiores informações ler, do autor, “MASSILON (NAS VEREDAS DO CANGAÇO E OUTROS TEMAS AFINS)”; Sarau das Letras; 1ª edição; 2012; Natal.

[2] “JARARACA: O CANGACEIRO QUE VIROU SANTO”; ALMEIDA, Fenelon; Editora Guararapes; 1981; Pernambuco; Recife.

[3] Depoimento de Valdecir Pereira Leite, filho de Dona Aurora, irmã de Massilon, ao Autor, em 17 de dezembro de 2005.

[4] Entrevista gravada com Zé Leite, o filho, gentilmente cedida pelo pesquisador Sérgio Dantas.

[5] Essa morte teria sido até 1924. Sua família foi para Luis Gomes em 1924, e Massilon os visitou ainda em Pombal depois de ter feito o crime, segundo depoimento de Dna. Aurora.

[6] Benedito Saldanha foi Prefeito de Apodi, Rn, em 1933, durante 6 meses e 14 dias. Consta que teria sido morto envenenado por uma mulher com quem vivia após se separar de sua esposa, Dna. Etelvina, que também era da família Saldanha.

[7] “A VIDA EM CLAVE DE DÓ”; 2ª. Edição; Editora Sebo Vermelho; Natal, Rn.

[8] Dia 4 de fevereiro de 1926.

[9] Até onde se sabe, todos os autores intelectuais foram inocentados das acusações que lhes foram feitas.  Vale a pena mencionar que durante três anos tentei, de todas as formas, conseguir os autos do Processo-Crime de onde essas informações foram extraídas. Tentei em Brejo do Cruz e Catolé do Rocha. Nada consegui. Quase venceram a má-vontade dos servidores dos cartórios e, até mesmo, dos juízes. Cheguei até a entrar com um pedido formal para obter vistas dos autos. Foi em vão. Finalmente, em um golpe de sorte e graças à ajuda de um grande amigo, consegui a cópia do Jornal “União”, onde a Denúncia do Promotor fora transcrita. Consta que quando chegou a notícia da absolvição, o Coronel Quincas Saldanha comemorou em Caraúbas, RN, com uma grande festa. Ver “MASSILON (NAS VEREDAS DO CANGAÇO E OUTROS TEMAS AFINS)”, deste autor.

[10] Já vivendo no Ceará, em Alto Santo, sob a proteção de Benedito Saldanha, conforme Denúncia já citada e depoimento do Capitão Viana (detalhes da entrevista um pouco à frente), em entrevista ao Autor.

[11] Raul Fernandes diz que seu verdadeiro nome era José Cesário, conhecido em Caraúbas. Esteve no ataque a Mossoró. Em entrevista ao Autor, José Cosme da Silva, o “Zé de Chota”, nascido em 22 de fevereiro de 1923 na Fazenda “Floresta”, Brejo do Cruz, PB, de propriedade do Coronel Quincas Saldanha, e nela tendo vivido até os 18 anos de idade, lembrou que conheceu José Pedro e Peitada, ambos “cabras” do Coronel. Peitada, disse-me ele, morreu no Amazonas, anos depois. E José Pedro, homem de inteira confiança do Coronel, morreu em Quixadá, CE, para onde fugira sob a proteção de Quincas Saldanha, após matar um desafeto.

[12] Informação sem qualquer fundamento. Massilon somente conheceu Lampião especificamente para o ataque a Mossoró e através de Isaías Arruda.

[13] Rodrigues de Carvalho dá como fonte Severino Procópio em sua obra “MEU DEPOIMENTO”, à página 54. Quem danado foi Severino Procópio?

[14] Outra informação sem fundamento.

[15] “LAMPIÃO E A SOCIOLOGIA DO CANGAÇO”; Rio de Janeiro, RJ; Gráfica Editora do Livro Ltda.

[16] “LAMPIÃO EM MOSSORÓ”; 4a. edição; Coleção Mossoroense; Série C; Volume CDVIII; 1989.

[17] Depoimento de Jararaca ao jornal mossoroense “Correio do Povo”.

[18] “LAMPIÃO E O RIO GRANDE DO NORTE”; Cartgraf Editora; Natal; 2005.

Continuando a Saga de Massilon
 

6) Início de janeiro de 1927: Lampião retorna a Pernambuco; cruza Salgueiro, Leopoldina e Floresta.
 

7) 19 de Janeiro de 1927: Lampião enfrenta, no lugar “Lagoa Queimada”, o Tenente Pedro Rodrigues.
 

8) Começo de Fevereiro de 1927: Lampião enfrenta, no lugar “Umbuzeiro”, Termo de Lagoa do Monteiro, Pernambuco, os Tenentes João da Costa e Silva e Antônio Francisco.
 

9) Abril de 1927: Décio Hollanda procura o Coronel Isaías Arruda para lhe pedir ajuda no ataque a Apodi, e lhe apresenta Massilon (fonte: depoimento de Mormaço e Bronzeado).
 

10) 10 de Maio de 1927: Massilon ataca Apodi, Gavião e Itaú, no Rio Grande do Norte.
De Apodi os cangaceiros se retiraram pela manhã do mesmo dia 10, entre as nove e dez horas, rumo ao distrito de Itaú, RN.
 

Ali saquearam os estabelecimentos comerciais dos cidadãos Manuel Moreira Maia, Pedro Maia Pinheiro, João Alves Maia e as residências dos Senhores João Batista Maia e Paulino Pereira do Carmo (fontes: Raimundo Nonato da Silva, Raul Fernandes, Sérgio Dantas, Wálter Guerra, Marcos Pinto). Autores Intelectuais: Martiniano Porto, Décio Holanda, Benedito Saldanha, Quincas Saldanha, Tylon Gurgel. Executores: Massilon, Cajueiro, Cajazeiras, Calango, Lua Branca , Asa Branca, Rouxinol, Juriti, Limão, Júlio Porto , Miúdo, Gregório, João Pinheiro, Bronzeado , Luiz e Vicente Brilhante, José Coco, José Roque, José Pequeno e outros.
 

Tylon Gurgel, lider político em Pedra de Abelha, atual Felipe Guerra, e adversário do Coronel Chico Pinto, na época da invasão de Apodi por Massilon. Pedra de Abelha era distrito de Apodi.

11) Dia 12 de maio de 1927:– Lampião, que estava acampado em Porteiras, Ceará, segue viagem até a Serra do Diamante, terras do Coronel Isaías Arruda de Figueiredo.
 

12) Depois de 13 de Maio de 1927: Massilon conhece Lampião.
 

Sérgio Dantas, em obra citada:
 

Em 11 de maio de 1927 Lampião penetrou no município de Jardim, Ceará, a légua e meia da vila de Porteiras. No dia 12 de maio segue viagem até a Serra do Diamante, terras do Coronel Isaías Arruda de Figueiredo, chefe político de Aurora e Missão Velha, no Ceará. Buscava refúgio e municiar-se. É o que nos contou o cangaceiro “Mormaço” quando interrogado em Pau dos Ferros, RN; Martins, RN; Mossoró, RN; e Crato, CE.
 

Em 10 de maio de 1927 Massilon tinha atacado Apodi, Gavião e Itaú. Como a empreitada fora toda orquestrada por Isaías Arruda, a pedido de Décio Hollanda, uma vez cumprido seu desiderato toma o rumo de Aurora, Ceará, aonde chega pelo dia 13 de maio para prestar contas de sua empreitada.

 Cel. Chico Pinto, líder político e Prefeito de Apodi 
quando do ataque à cidade comandado por Massilon, 
a quem tinha sido encomendada sua morte.

Aurora, penúltima semana de maio. Há dias Lampião já retornara da fracassada incursão à Paraíba. Finalmente – após longo périplo pontilhado de inúmeros percalços – alcançara o indevassável coito da Serra do Diamante, de Isaías Arruda. Em dias subsequentes, Lampião recebeu a visita de José Cardoso, parente do Coronel. Deslocara-se o fazendeiro até o valhacouto para apresentar-lhe o cangaceiro Massilon Leite.
 

O encontro de Lampião com Massilon deu-se em dias de maio, após o assalto a Apodi. Até aí, Lampião desconhecia completamente o novel bandoleiro. O cangaceiro Mormaço, em interrogatórios consignados nos processo-crime instaurados nas Comarcas de Martins e Pau dos Ferros, ambos em 1927, deixam claro esse particular. Também, nesse sentido, depoimento prestado por Jararaca à Polícia no mesmo ano. Todos são unânimes quanto à época do encontro.
 

13) 13 DE JUNHO DE 1927: Massilon ataca Mossoró, no Rio Grande do Norte. Em 10 de junho de 1927, pelas primeiras horas da manhã, Massilon entrou no Rio Grande do Norte junto com Lampião. Dessa data até sua saída do Estado, em 14 de junho, à boca da noite, invadiu, junto com o bando, mais de vinte fazendas, quinze sítios, o Povoado Boa Esperança (hoje Município de Antônio Martins), o Povoado São Sebastião (hoje Município de Governador Dix-Sept Rosado), e o Município de Mossoró.
 

Em 12 de junho de 1927, passam ao lado de Caraúbas e Lampião é advertido : Por Caraúbas, não, Capitão. Lá se encontra o Gato Vermelho. Dizem ter sido Massilon, velho conhecido de Quincas Saldanha , o Gato Vermelho, quem deu o aviso.
 


Casa Grande da fazendo do coronel Quincas Saldanha, o Gato Vermelho.
Créditos impressos na imagem

14) JULHO DE 1927: Comete homicídio em Aurora, Ceará. Episódio relatado pelo escritor Amarílio Gonçalves em “Aurora história e Folclore”.
 

15) 11 DE AGOSTO DE 1927: Ataca cercanias de Alto Santo, Ceará.
 

16) MARÇO DE 1928: Morre Massilon em Caxias, Maranhão .

O ataque a Mossoró resultou da paixão de Massilon por Julieta, filha do coronel Rodolpho Fernandes

Pois bem, Massilon teria uma paixão por Julieta, filha do Coronel Rodolpho Fernandes. Temos, aqui, um entreato: 

Amarílio Gonçalves [1]:

Em virtude da amizade com o ‘coronel’ Isaias Arruda, na verdade um dos grandes coiteiros de Lampião no Ceará, o Rei do Cangaço, como era chamado, esteve, mais de uma vez, no município de Aurora. Em suas incursões pelo município sul-cearense, o bandoleiro se acoitava na fazenda Ipueiras, de José Cardoso, sobrinho de Isaias.

Uma dessas vezes foi nos primeiros dias de Junho de 1927. Na fazenda Ipueiras, onde já se encontrava Massilon Leite, que chefiava pequeno grupo de cangaceiros, Lampião foi incentivado a atacar a cidade norte-rio-grandense de Mossoró – um plano que o bandoleiro poria em prática no dia 13 do citado mês. Em razão do incentivo, Lampião adquiriu do ‘coronel’ um alentado lote de munição de fuzil que, de mão beijada, Isaías havia recebido do Governo Federal (Artur Bernardes), quando este promoveu farta distribuição de armas a ‘coronéis’ ‘para alimentar o combate dos batalhões patrióticos à coluna Prestes’.

Presente àquela negociação, que rendeu ao ‘coronel’ Isaías a considerável quantia de trinta e cinco contos de réis, esteve o cangaceiro Massilon, que teve valiosa influência junto a Lampião, no sentido de atacar Mossoró, cujos preparativos tiveram lugar na fazenda Ipueiras. Consta que Massilon Leite – associado a Lampião no sinistro empreendimento – tinha em mente assaltar a agência local do Banco do Brasil e seqüestrar uma filha do cel. Rodolfo Fernandes .

Alexandro Gurgel conta que Pedro Dantas Filho, natural de São José do Brejo do Cruz e morto em 2002, aos 88 anos, conheceu Massilon, que comerciava gado na cidade, e este lhe informou que o cangaceiro nutria uma paixão platônica pela filha de Rodolpho Fernandes e via no ataque a Mossoró uma oportunidade de raptar a moça.

Calazans Fernandes [2], no seu livro histórico “O Guerreiro do Yaco”, a vida romanceada do Coronel Childerico Fernandes, nos conta o seguinte:

Do Alto da Conceição, na entrada de Mossoró, Lampião avaliou o tamanho da cidade que via pela frente. Ao contar as igrejas, sua reação imediata foi segurar Massilon pelo cangote:
“Cidade de quatro torres é demais para cangaceiro atacar. Você ainda me paga”.
Vinha contabilizando os insucessos da carreira do bandido e ainda ignorava completamente que, devido a ele, Mossoró recebia sinais de alerta através de Esther Fernandes, uma das filhas de Rufino, da Maniçoba, mulher de Ezequiel Fernandes de Souza, sócio de Alfredo Fernandes e Cia., da família de Rodolfo Fernandes. Ela fazia a ponte entre o irmão Zé Rufino, de Vitória, e o prefeito de Mossoró.

Ao mesmo tempo em que Zé Rufino, então com 26 anos, conhecera Massilon, havia conhecido o jovem Virgulino, de 20. Tropeiros nos mesmos caminhos, os dois se cruzavam ao abrigo das oiticicas na travessia do rio nas cercanias de Apodi. Num desses encontros, nos tempos perversos de 1918, Zé Rufino assistiu a Virgulino surrar de chicote uma velha que roubava farinha para alimentar a penca de filhos. Desentenderam-se, trocaram advertências, mas o episódio encerrou-se aí.

Nas mesmas sombras e lazer, desde essa época Massilon e Zé Rufino encontravam-se na lide dos comboios de algodão, de peles de oiticica, dos sertões para Mossoró, de onde, dos armazéns de Alfredo Fernandes & Cia., tiravam o sal para os varejos da Tromba do Elefante, as charqueadas do Cariri no Ceará e do Gurguéia no Piauí, de rotas mais curtas do que as de antigamente para o São Francisco e as Minas Gerais, porém mais freqüentes naqueles anos de expansão da carne de sol.

Das estradas, a parceria dos dois chegou à mesa do café da manhã dos Fernandes, que Massilon associava a milhões e a mulheres perfumadas. Na casa de Esther, na intimidade da família, o cabra de olhar trigueiro deslumbrou-se no luxo do mobiliário e no jeito fortuito das moças orgulhosas nos seus vestidos de seda.
Mesmo nas suas suspeitas, Lampião só desconfiou de que a obstinação de Massilon em atacar Mossoró escondia uma paixão quando já era tarde. Pelo resto da vida, aliás, ele nunca saberia que seu cabra alimentava a intenção única de se valer do chefe e seu bando como escudos, para raptar a irmã [3] do prefeito Rodolfo:
“... que fiquem com todo o dinheiro. Eu só quero a minha Julieta”...

Como se diz no Sertão:
“é tudo “foquilore”!


Ou será verdade? Agreguemos aos depoimentos de Amarílio, Alexandro e Calazans o fato, que pode ter outra conotação, como será analisado mais adiante, de Massilon ter assumido para si a responsabilidade de atacar a casa do Coronel Rodolpho Fernandes enquanto Jararaca e seus parceiros distraia os defensores pela frente.

Por qual razão houve o ataque à residência do Intendente e, não, ao comércio? Por qual razão Massilon comandou o ataque? Por qual razão os cangaceiros, comandados por Jararaca, antes de se posicionarem para o ataque à residência do Intendente invadiram a residência de Joaquim Perdigão, seu genro, mas não atacaram seu vizinho?



[1] “Aurora História e Folclore”; TAVARES, Amarílio Gonçalves; 2ª. Edição; Ceará.

[2] “O Guerreiro do Yaco”; Fundação José Augusto; 2002; Natal, RN.

[3] Aqui o autor equivocou-se: é a filha do Coronel.
Continua...

Tá tudo no Blog do Confrade Honório

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Novo livro na praça

O Massilon de Honório Medeiros 

Por Kydelmir Dantas (*)


Quando da realização do XI Fórum do Cangaço, promovido pela SBEC (Mossoró – 2008) o Professor Doutor Honório de Medeiros já nos abrilhantava com uma palestra sobre este personagem, importante na história do ataque de Lampião e seus cabras a Mossoró, sob o título: Quem foi Massilon?

Neste ínterim já se referia a uma ‘nova onda do cangaço’, surgida a partir do momento em que os focos dos pesquisadores deixaram de ser apenas o cangaceiro Lampião, mas viraram-se para os demais componentes e/ou participantes deste fenômeno sócio cultural do Nordeste brasileiro, o Cangaço.

Algumas pessoas desavisadas, quando se fala no tema, acham que cangaço é apenas a imagem do que foi Lampião – herói, pra seus amigos, e bandido, para seus inimigos e vítimas – e o que é – o mito criado e pesquisado na atualidade. Esquecem que o cangaço foi uma moeda de duas faces: De um lado, os cangaceiros, coronéis e coiteiros; d’outro, as forças legais, representadas pelas Polícias estaduais, as volantes e, também, os coronéis.

Em verdade, Honório de Medeiros não foi o primeiro a desviar sua pesquisa para um personagem secundário (?) da história do cangaço - outros nomes já foram estudados e apresentados - mas foi, com certeza, o que mais aprofundou-se na vida de Massilon Leite, considerado um dos mentores do assalto a Mossoró, juntamente com o Coronel Isaías Arruda, de Aurora – CE.

Em seu livro, “Massilon (Nas veredas do Cangaço e outros temas afins)”, Honório apresenta o resultado de uma pesquisa séria e de longo percurso, com mais de seis anos, nas pegadas deste homem. Antes, porém, imprime suas pegadas memoriais no início do século XX, vislumbrando o Rio Grande do Norte, Mossoró e o Sertão daqueles tempos. A partir deste viés, passa a acompanhar os passos do vaqueiro, comprador e vendedor de reses, desde o seu nascimento, ‘provavelmente em Timbaúba dos Mocós – PE’, segundo o autor, até sua morte, em Caxias – MA, no ano de 1928.

Além disto, que é o tema principal do mesmo, o livro traz dados, datas, fatos e informações sobre personagens e temas correlatos à ‘Resistência de Mossoró’ ao ataque dos cangaceiros comandados pelo ‘capitão Virgolino Lampião’, como este se assinou no bilhete escrito de próprio punho e enviado ao Prefeito Rodolpho Fernandes, naquele dia fatídico para Lampião e seus bandidos, 13 de junho, e vitorioso para Mossoró e seus dignos cidadãos e heróis da resistência, naquela tarde de uma segunda-feira de 1927.

Com mais este trabalho, a bibliografia cangaceira ganha um livro de peso, de um pesquisador que dignifica e faz parte da ‘Nova Onda do Cangaço’, que é mostrar e deixar para as novas e futuras gerações o registro sério de nossa História. Que outro(a)s apareçam e façam o mesmo. Com as nossas saudações Sbequianas!


(*) Kydelmir Dantas é Poeta, pesquisador e escritor de temas ligados ao Nordeste brasileiro; de Nova Floresta – PB, radicado em Mossoró – RN. Sócio-fundador da SBEC. 

Serviço:



Não vai ao 2º Cariri Cangaço, mas deseja adquirir o livro:
Livraria Poty
Rua Felipe Camarão, 609 - Centro - Natal (RN)
(84) 3203-2626 

Pesquei no Blog da: SBEC