Derrota de Lampião em Mossoró é revisitada em novo livro de Sérgio Dantas
Por Lampião Aceso
Lampião em Mossoró - Anatomia de uma derrota é uma obra que representa um aprofundamento das pesquisas iniciadas pelo autor há duas décadas, quando publicou Lampião no Rio Grande do Norte - A História da Grande Jornada. Não se trata de continuação nem de uma simples reedição, mas de um livro inteiramente novo, que dialoga e se complementa com o trabalho anterior.
Enquanto o primeiro livro narra os acontecimentos históricos, nesta nova obra o autor se dedica a analisar criticamente diversos aspectos do episódio, confrontando interpretações, curiosidades e versões que surgiram ao longo dos anos sobre o famoso ataque de Lampião à cidade de Mossoró, em 1927.
Baseado em extensa pesquisa, o trabalho reúne documentos públicos, notícias de jornais da época, bibliografia especializada e depoimentos colhidos em campo, muitos deles obtidos em entrevistas realizadas após a publicação do primeiro livro. A investigação também revisita narrativas da tradição oral, avaliando sua consistência histórica.
O resultado é um estudo criterioso, escrito com objetividade e equilíbrio, que busca examinar os fatos à luz das evidências disponíveis, evitando suposições sem base documental ou interpretações fantasiosas.
A obra surge, em grande parte, como resposta aos inúmeros pedidos de estudiosos e interessados no tema do cangaço, especialmente aqueles que desejavam uma análise crítica das hipóteses que surgiram nos últimos anos sobre o episódio do ataque de Lampião à próspera cidade de Mossoró.
Embora trate dos acontecimentos ocorridos no Rio Grande do Norte em 1927, o livro não é uma continuação de Lampião no Rio Grande do Norte – A História da Grande Jornada. As duas obras apenas se complementam: na primeira se conta a história; nesta, o autor examina e confronta diferentes interpretações sobre esse mesmo episódio histórico.
É o novo trabalho do pesquisador Sérgio Dantas e será publicado em breve. A previsão é início do mês de julho de 2025.
Trata-se do aperfeiçoamento do seu primeiro livro, lançado há exatos vinte anos. Não é, porém, uma continuação deste e também não é uma nova edição. Trata-se de um livro inteiramente novo.
Como o leitor perceberá, as duas obras se complementam; se harmonizam. Na primeira se conta uma história; na segunda, são analisados alguns aspectos desta mesma história, porém cotejados com pontos que foram reputados pelo autor como curiosos, ou até mesmo questionáveis, ou ainda, pitorescos e que foram colocados no enredo de algumas interpretações surgidas em períodos posteriores ao LAMPIÃO NO RIO GRANDE DO NORTE – A HISTÓRA DA GRANDE JORNADA.
Este novo livro faz uma análise crítica do que aconteceu no Estado do Rio Grande do Norte naqueles idos de 1927. Tudo bem fundamentado, referenciado e submetido à crítica histórica. Tudo escrito às claras - sem se recorrer a indagações sem fim, a malabarismos históricos, a suposições sem lastro fático, a ‘verdades’ criadas. Trata-se de um texto que é resultado da comparação e análise sistemática das provas disponíveis, além de um estudo profundo da bibliografia pertinente, da tradição oral (muitas vezes questionável), documentos públicos e de centenas de notícias de jornal sobre os episódios ocorridos aqui no Rio Grande do Norte entre os meses de maio e junho de 1927.
Algumas lacunas históricas são supridas neste trabalho. É ele, em grande parte, o resultado de novas pesquisas feitas pelo autor - estas já iniciadas nos meses seguintes à publicação do primeiro livro em 2005 (Em “campo” foram repetidas algumas entrevistas e colhidos mais de uma dezena de depoimentos de outras pessoas às quais não estavam acessíveis em outras ocasiões).
O texto é racional, direito e revela o equilíbrio de quem não tem qualquer interesse político, familiar ou pessoal no enredo.
O livro será publicado sem "pré-vendas" e oportunamente será informado o valor do exemplar e onde adquirir.
Ahistória do esconderijo da Caverna da Carrapateira
Rostand Medeiros – IHGRN
A zona rural do município de Felipe Guerra impressiona tanto os
espeleólogos como os habitantes locais. No tocante a quantidade e a
qualidade das cavernas. Há tempos que esse município se mostra como uma
das mais promissoras áreas no estado do Rio Grande do Norte e com ótimas
possibilidades para o desenvolvimento do turismo espeleológico.
Entrda da caverna da Carrapateira, zona rural de Felipe Guerra, Rio Grande do Norte – Foto – Solón Rodrigues Almeida Netto.
Mas além do seu conjunto de belas cavidades naturais, a região de
Felipe Guerra mantém, mesmo passados quase 95 anos, as memórias e as
lembranças das agruras sofridas com a passagem do bando do cangaceiro
Lampião, em seu ataque a cidade de Mossoró.
Dessas lembranças ficou o registro do medo e as mudanças que os mais
antigos sofreram em suas vidas, com os acontecimentos ocorridos em junho
de 1927. Uma época em que o trabuco falava mais alto que a força da
justiça. Até hoje a tradição oral é transmitida dos que ouviram dos seus
familiares, trazendo para os mais jovens os acontecimentos de um
momento triste da história do sertão potiguar e o interessante em Felipe
Guerra é que muitos possuem uma ou mais história sobre esses
acontecimentos.
E a maioria da sua população sabe da existência destas cavernas
através dos acontecimentos da época do cangaço, pois foi em uma destas
cavidades que alguns habitantes conseguiram um abrigo prático para os
terríveis eventos que ocorriam nas proximidades das suas casas e deixou
na lembrança das pessoas do lugar um respeito muito grande por este tipo
de ambientes natural.
Esta é a história daqueles dias incertos e da caverna que ajudou os moradores do lugar.
A Pedra de Abelha
Em 1927 Felipe Guerra era um pequeno arruado conhecido como Pedra de
Abelha, fincado às margens do Rio Apodi, onde a vida seguia tranquila,
para seus pouco menos de 1.000 habitantes. Eles sobreviviam da cera de
carnaúba, da pequena agricultura e da pecuária. Na época dos invernos
mais fortes, a pequena vila sofria as enchentes provocadas pelo Rio
Apodi, como foi o caso das cheias de 1912, 1917 e a de 1924.
Por esta época Pedra de Abelha era um ponto de passagem de viajantes,
tropas de burros, vendedores, vaqueiros e outros andarilhos que seguiam
a estrada entre a pulsante e rica cidade de Mossoró e a progressista
Apodi.
Foto – Solón Rodrigues Almeida Netto.
Havia uma pequena feira que crescia a cada ano, sempre em ordem e em
paz, pronunciando uma tendência de progresso para o pequeno lugar. Outra
lembrança de boas perspectivas foi a passagem de alguns homens, de
língua enrolada, que se diziam engenheiros, faziam medições e coletavam
pedras no lajedo do Rosário, na região da Passagem Funda, um lugarejo a
oito quilômetros de Pedra de Abelha. Logo se espalhou a notícia que o
lugar seria transformado em uma grande barragem, que haveria muitos
empregos, que seria maior que a barragem de Pau dos Ferros e que a vida
em Pedra de Abelha iria mudar para melhor. Mas a barragem não veio e a
vida seguiu tranquila.
Junto com os primeiros dias de maio de 1927 chegaram notícias de que a
região oeste do estado do Rio Grande do Norte iria conhecer e sofrer.
Foto – Solón Rodrigues Almeida Netto.
No dia 10, pela madrugada, o cangaceiro paraibano Massilon Leite e
mais vinte bandidos atacaram Apodi, depois seguiram para Gavião (atual
Umarizal) e na sequência, pilharam a pequena vila de Itaú. Os relatos
comentavam que apenas um cangaceiro foi preso próximo à cidade serrana
de Martins.
Para a ordeira população de Pedra de Abelha, ficou o pensamento de
que, se os cangaceiros haviam atacado Itaú, uma vila praticamente do
mesmo tamanho do seu lugar, por que não atacariam o pequeno povoado à
beira do Rio Apodi?
Passou então a existir no seio da população uma forte intranquilidade.
Não que os moradores de Pedra de Abelha não soubessem o que era
violência. Já haviam ocorrido casos de criminosos assaltando viajantes,
pistoleiros contratados por coronéis para impor suas ordens, a
realização de tocaias e o flagelo da vingança. Um dever sagrado entre os
sertanejos. Um dever que filhos de qualquer pai assassinado herdaram. E
seria vergonhoso, seria desonra inominável em uma família enlutada pelo
homicídio, se não aparecesse um vingador um “cabra macho” para cumprir a
sina.
Realmente violência não era novidade naquele recanto perdido do
sertão, mas um grande grupo de cangaceiros era um problema novo por
aqueles lados.
Lampião – Fonte – lounge.obviousmag.org
No Cangaço
Os nomes de cangaceiros antigos como Lucas da Feira e Jesuíno
Brilhante, e de facínoras mais novos (para 1927) como Antônio Silvino,
Sinhô Pereira e Luís Padre, eram muito comentados pelos habitantes mais
idosos e pelos viajantes que procediam da Paraíba, Ceará e Pernambuco.
Mas nos últimos tempos o nome mais comentado, temido e respeitado era o
do famoso Lampião.
O Pernambucano natural de Vila Bela, atual Serra Talhada, com pouco
menos de 30 anos em 1927, já era uma lenda e o seu nome impunha respeito
e terror em grande parte do Nordeste.
Foto – Solón Rodrigues Almeida Netto.
Nascido em 4 de junho de 1898, Virgulino Ferreira da Silva vinha de
uma família humilde, mais proprietária de uma pequena fazenda. Seu pai,
José Ferreira, trabalhava como condutor de tropas de burros que
transportavam mercadorias pelos sertões de Pernambuco e Alagoas. Nessas
viagens, Virgulino e seus irmãos passaram a conhecer aqueles caminhos e
mantiveram contatos que seriam preciosos no futuro.
Em 1915, inicia-se um problema com o vizinho José Saturnino,
envolvendo o desaparecimento de animais de criação. Estas desavenças
dariam início à metamorfose de Virgulino em Lampião.
Devido a perseguições, em um prazo de três anos, a família Ferreira
vê-se na contingência de realizar várias mudanças, sendo obrigados a
vender as suas terras e a viver como empregados pelas pressões sofridas.
Devido aos fatos, a mãe de Virgulino acabou falecendo, aparentemente de
um ataque cardíaco. Já seu pai foi assassinado por uma tropa da polícia
alagoana que perseguia os irmãos Ferreira.
Lampião
É impossível não observar que uma das razões da entrada dos irmãos
Ferreira no cangaço, foi à falta de justiça pelas contínuas perseguições
sofridas, criando uma reação armada que abalou o Nordeste do Brasil ao
longo de vinte anos.
No início, a atuação de Lampião foi em outros bandos, finalmente
assumiu o comando de seus “cabras” em 1922, nesse mesmo ano assaltaram o
casarão da Baronesa de Água Branca, em Alagoas, fazendo aumentar a sua
terrível fama. Em 1924, seus cangaceiros, em conjunto com o paraibano
Francisco Pereira Dantas, o conhecido Chico Pereira, atacam a
progressista cidade de Sousa, no oeste da Paraíba. Em 25 de maio de 1925
Lampião e seu bando
Lampião
Lampião era um guerrilheiro nato, produto de um meio quase selvagem e
atrasado. Possuía a capacidade de articular ataques, fugas
mirabolantes, alianças escusas e uma perícia na manivela e no gatilho do
rifle que parecia “alumiar” à noite, daí o seu famoso apelido.
Em 1926 uma coluna de homens que percorriam o país com a intenção de
derrubar o governo do presidente Arthur Bernardes, comandados por Miguel
Costa e Luís Carlos Prestes, se aproximou e entrou em território
cearense, Para fazer frente a essa situação foi criada uma frente de
defesa contra os chamados Revoltosos na cidade de Juazeiro do Norte,
onde o principal líder político e religioso do lugar, o Padre Cícero,
mandou convocar o chefe cangaceiro que aterrorizava o sertão nordestino
para combater aquele grupo, que entraria para a História do Brasil
conhecido como Coluna Prestes.
Foto
dos líderes do grupo insurgente conhecido como Coluna Prestes. Esse
grupo foi liderado pelo coronel da Polícia do Estado de São Paulo Miguel
Costa e pelo capitão do Exército brasileiro Luís Carlos Prestes, que
lutou contra a estrutura de governo que existia no Brasil na segunda
metade da década de 1920 – Fonte – http://rotadosolce.blogspot.com.br
No dia 5 de março, Lampião, à frente de 50 cangaceiros, entra em
Juazeiro. Ele se encontra com o Padre Cícero, recebe uniformes,
armamentos modernos e a sua propalada patente de capitão dos Batalhões
Patrióticos. Ao sair de Juazeiro e seguir para Pernambuco, Lampião é
perseguido pela polícia local. Desapontado, aparentemente decide voltar
para Juazeiro para falar com o Padre Cícero, mas este não o recebe e
Lampião encerra a sua breve carreira de defensor público.
Passagem dos Cangaceiros
Voltando à pacata Pedra de Abelha na metade de 1927.
Os habitantes do singelo lugar ficaram bem apavorados quando chega a
notícia que em 10 de junho, incentivado por Massilon Leite, Lampião
cruzou a fronteira da Paraíba e entrou no estado Potiguar com cerca de
60 cangaceiros (número que gera muita polêmica até hoje) montados em
cavalos e burros, todos seguindo em direção a Mossoró.
Foto – Solón Rodrigues Almeida Netto.
Avançando para o norte, promoveram um verdadeiro bacanal de
destruição, rapinagem e terror. Roubaram, tocaram fogo em diversas
fazendas, assassinaram os que reagiam, entraram em confronto com a
polícia e fizeram alguns prisioneiros, do qual só libertaram mediante
resgate. Lampião e seus cangaceiros realizam os primeiros sequestros
conhecidos no Rio Grande do Norte. A passagem de Lampião e seu bando
durou apenas cinco dias, mas a região oeste potiguar nunca esqueceu este
episódio.
O bando passou ao lado da povoação de Gavião (atual Umarizal) e
continuou depredando as propriedades como Campos, Arção, Xique-Xique e
Apanha Peixe e nesta última propriedade, para a sorte da população de
Pedra de Abelha, o bando foi dividido.
Às sete da noite de 12 de junho de 1927 seguiu o cangaceiro Massilon
Leite para assaltar pela segunda vez a cidade de Apodi, enquanto Lampião
seguia para Mossoró. Em Apodi houve resistência da população, obrigando
Massilon a fugir. Devido a esta divisão, Lampião seguiu adiante por
outra estrada, passando paralelo ao povoado de Pedra de Abelha.
Realmente foi por pouco que a pequena comunidade não foi invadida.
Na
zona rural do município de Umarizal visitamos uma das mais belas e bem
preservadas propriedades rurais existentes no trajeto da passagem do
bando de Lampião no Rio Grande do Norte, a Fazenda Campos, que foi
invadida na manhã de 12 de junho de 1927 – Foto – Rostand Medeiros.
Mas se não foi invadida, esse caminho fez o bando cruzar com o
comerciante e fazendeiro Antônio Gurgel do Amaral, proprietário de uma
moderna fazenda em Pedra de Abelha, às margens do Rio Apodi, no atual
Distrito do Brejo. Nesta propriedade foram empregadas muitas pessoas.
Até recentemente o local possuía uma estrutura muito moderna para a
época, inclusive com eletricidade e mecanização. Antônio Gurgel havia
acabado de chegar de uma viagem da Europa, onde buscava trazer matrizes
de novas raças bovinas para desenvolverem-se na sua região.
Assim que soube do avanço dos cangaceiros, seguiu de Mossoró para a
sua fazenda e proteger seus familiares e seus bens. No meio do caminho,
na localidade chamada Santana, foi preso por membros do bando. Era o dia
12 de junho e somente no dia 25, Gurgel seria libertado no Ceará,
juntamente com outra refém. Por ser Gurgel um homem inteligente, de boa
conversa, índole calma e que sempre procurou a tranquilidade junto aos
bandidos, ele nada sofreu.
Durante sua convivência forçada, escreveu um diário que é tido como o
mais completo documento sobre a vida e o dia a dia entre estes
cangaceiros. Lampião lhe deu duas moedas de ouro para serem presenteadas
a sua neta e, como pagamento de uma promessa feita pela sua liberdade,
sua mulher construiu uma capela na Fazenda Santana, que infelizmente foi
demolida, bem como a sede de sua fazenda em Felipe Guerra.
Antes até da prisão do coronel Gurgel, com a chegada das notícias
cada vez mais assustadoras, a população de Pedra de Abelha tratou de
procurar refúgio onde houvesse condições. Muitos seguiram para a
fronteira do Ceará, outros foram para propriedades de parentes mais
distantes e outros que conheciam melhor a região, buscaram o abrigo das
cavernas.
É bem verdade que a população do sertão possui um medo respeitoso em
relação às cavernas, mais naquele momento, este medo foi deixado de lado
e a escuridão da caverna passou a ser um abrigo mais acolhedor do que a
incerteza da luz do dia e a presença de cangaceiros na região.
A caverna da Carrapateira fica localizada no Lajedo do Rosário,
próximo ao atual distrito de Passagem Funda e a pouco mais de mil metros
da margem esquerda do Rio Apodi. Entre as várias cavernas deste lajedo,
essa é a que apresenta a maior facilidade de penetração.
Foto – Solón Rodrigues Almeida Netto.
Sua entrada tem formato oval, com quatro metros de altura e possui
desenvolvimento horizontal, no seu início encontram-se alguns blocos
caídos e deslocados, também presentes localmente no interior da caverna.
Chama a atenção a forma como a natureza moldou o túnel principal,
sendo muito largo e alto para os padrões das cavernas nas proximidades.
Sua sinuosidade apresenta contornos de fluxo d’água, marcados nas
paredes bastante lisas, lavradas, de rocha calcária limpa e de cor
amarelada, com níveis de sedimentação à mostra. Os espeleotemas, as
famosas formações rochosas que ocorrem tipicamente no interior de
cavernas como resultado da sedimentação e cristalização de minerais
dissolvidos na água, criando muitas vezes materiais de rara beleza, são
encontrados nessa cavidade. São escorrimentos de calcita, cortinas,
algumas estalactites e estalagmites. Na parte posterior do corredor
principal, aparecem outros tipos de espeleotema muito comum nas
cavidades da região: o couve-flor.
Conforme adentramos a caverna da Carrapateira, o chão vai
apresentando uma menor continuidade, mostrando reentrâncias, blocos
rolados, até desembocar em uma bifurcação, de onde a caverna segue para
salões mais apertados, seguindo por condutos menores. Neste setor,
tem-se uma clarabóia de poucos metros de altura, aproximadamente três
metros. Por ela pode-se sair do interior com facilidade.
Foto – Solón Rodrigues Almeida Netto.
Pelas dimensões do seu interior, pela proximidade com o rio e como na
região encontram-se diversas provas da passagem de grupos de caçadores e
de coletores, entre 5.000 e 2.000 anos atrás, essa caverna é a que
melhor poderia sugerir a possibilidade de algum indício arqueológico.
Contudo, não foram vistos pinturas ou evidências nesse sentido. Sua
litologia é o calcário e até anos recentes não apresenta nenhuma
depredação.
Durante nossas visitas à caverna da Carrapateira não foram
encontrados vestígios da ocupação dos habitantes de Pedra de Abelha na
caverna.
Quando das nossas visitas à região, ouvimos repetidas vezes relatos
de pessoas cujos avós e outros familiares buscaram abrigo nesse local.
Entretanto o tempo, o Senhor de tudo e de todos, chegou à nossa frente,
pois aqueles que buscaram esse local como abrigo já não estavam mais
nesse plano. Mas percebi que o número de pessoas que buscaram esse
abrigo foi pequeno. Além disso, foi possível observar que,
diferentemente de outras pessoas que guardam na memória relatos daqueles
que tiveram experiências com cangaceiros na região, os poucos parentes
daqueles que buscaram abrigo na caverna da Carrapateira, pouco tem a
comentar.
Foto – Solón Rodrigues Almeida Netto.
Como, para a sorte dos refugiados escondidos na caverna da
Carrapateira, não houve nenhum tipo de contato com os cangaceiros e
quase certamente os que buscaram esse abrigo em 1927 foram poucos, ao
longo do tempo esse tema caiu no esquecimento. Pois no final das contas,
sobreviver naquela região é parte da rotina diária.
Fim Do Ato
Lampião seguiu seu caminho.
Foto – Solón Rodrigues Almeida Netto.
Na Segunda-feira, 13 de junho de 1927, dia de São Francisco, às 16:30
da tarde, com o céu nublado, os cangaceiros, divididos em três colunas,
atacaram a maior cidade do interior do Rio Grande do Norte. O seu
Prefeito, Rodolfo Fernandes, sem ajuda do governo do estado, conseguiu
reunir desde advogados, dentistas, comerciantes, padres e pessoas
comuns, entrincheirando-os em vários locais.
Os cangaceiros foram derrotados depois de uma hora de combate, não
mataram ninguém e perderam um cangaceiro na hora e outro, o temível
Jararaca, foi ferido e capturado no outro dia. Acabou assassinado pela
polícia local no dia 20 de junho e o mais incrível é que seu túmulo se
tornou um local de peregrinação religiosa popular.
Lampião sofreu a sua mais terrível derrota, comentou que “Cidade com
mais de quatro torres de igreja não é para cangaceiro”. Sem conhecer o
seu tamanho e a sua capacidade de defesa, acabou enganado pela promessa
de Massilon de pouca resistência e muito dinheiro.
O seu ataque a Mossoró causou repercussão em todo país, sendo
noticiado em muitos jornais. Foi um verdadeiro choque, que impulsionou
ainda mais a sua fama. Foi a partir deste episódio que o seu nome ficou
muito conhecido no sul do país.
Após fugir do Rio Grande do Norte, para onde nunca mais voltou, o
bando seguiu para o Ceará, onde pensavam que estariam protegidos e foram
implacavelmente perseguidos. O mesmo ocorreu na Paraíba e em
Pernambuco. Em 1928 cruzou o Rio São Francisco e conseguiu uma sobrevida
de mais dez anos, praticando atrocidades na Bahia, Alagoas e Sergipe,
onde foi morto, com a sua companheira Maria Bonita, na Grota do Angico.
Para a população de Pedra de Abelha, sempre que as notícias sobre
Lampião surgiam, voltava as lembranças dos medos e aflições de junho de
1927. Com a sua morte (1938) e o desbaratamento do cangaço (1940), passa
a existir um alívio. Com o passar dos anos, ocorre o natural
desaparecimento das vítimas sobreviventes dos atos cruéis dos
cangaceiros e muitos dos descendentes destas vítimas deixam a região,
emigrando para grandes centros. Falar sobre os fatos da época do cangaço
deixou de ser um tabu.
A partir dos anos 1960, o mito deste cangaceiro o torna um dos
personagens históricos mais famosos da cultura popular brasileira, onde
em muitos lugares do país a figura de Lampião é encarada como símbolo de
nacionalidade e o Cangaço como um expoente da luta da cultura e do povo
nordestino.
FERNANDES, Raul, A MARCHA DE LAMPIÃO, ASSALTO A MOSSORÓ. 3 ed. Natal, Editora Universitária, 1985.
O ataque de Lampião e seu bando de cangaceiros a Fazenda Morada Nova, Pau dos Ferros, RN
Por Rostand Medeiros
No ano de 2010 soube do desenvolvimento do “Projeto Território Sertão
do Apodi – Nas Pegadas de Lampião”, pelo Serviço Brasileiro de Apoio às
Pequenas e Micro e Pequenas Empresas do Rio Grande do Norte –
SEBRAE/RN, do qual a gestora era a competente consultora Kátia Lopes.
Fui ao seu encontro soube que Kátia planejava criar um grupo para
percorrer o mesmo caminho palmilhado por Lampião e seus cangaceiros,
como parte de um amplo reconhecimento histórico. Ali estava uma
oportunidade imperdível de conhecer esse caminho e o que restava de sua
memória.
Foi realmente um momento muito especial e um trabalho maravilhoso.
Depois de 2010 eu tive a oportunidade de percorrer esse caminho em mais
outras quatro ocasiões. As duas primeiras oportunidades, em 2012 e 2014,
foram com pessoas que me contrataram para conhecer trechos no Rio
Grande do Norte, com foco nas áreas da Serra de Martins e de Mossoró. Já
em 2015 estive percorrendo esse antigo caminho dos cangaceiros durante
dezessete dias.
Desta vez partindo da cidade cearense de Aurora, adentrando depois em
território paraibano, percorrendo na sequência todo trecho potiguar e
encerrando na cidade cearense de Limoeiro do Norte. O objetivo da
jornada de 2015 foi à realização da película Chapéu Estrelado, um
documentário de longa metragem da Locomotiva Produções Cinematográficas,
do Rio de Janeiro, sendo dirigido pelo mineiro Silvio Coutinho, com
roteiro de Iaperi Araújo e produção de Valério Andrade e o autor desse
texto, esses últimos potiguares. Apesar de filmado com esmero em sistema
4K, com interessantes depoimentos, esse documentário nunca esteve no
circuito de festivais e, afora algumas exibições em rede nacional
através da TV Brasil, ele foi pouco visto pelo grande público. A razão
principal foi o falecimento precoce do diretor Sílvio Coutinho, ocorrido
no ano de 2018, em decorrência de um ataque cardíaco fulminante,
ocorrido no Rio de Janeiro.
Trajeto
dos cangaceiros em 1927, em um mapa do Exército Brasileiro, em escada
de 1:100.00, com as propriedades invadidas marcadas. Existe um erro no
mapa, pois um dos locais atacados foi denominado como “Carícia”, quando o
certo é “Caricé”.
A última oportunidade se deu em 2017, quando uma grande parte do
trajeto com o artista plástico e fotógrafo Sérgio Azol. Potiguar de
nascimento, mas radicado há muitos anos na capital paulista, Azol me
chamou para percorremos esse caminho visando o desenvolvimento de uma
exposição fotográfica a ser realizada em São Paulo. Ele clicou as
paisagens, as vivendas e as pessoas de forma magistral. Aquela era a
segunda oportunidade que percorria o sertão nordestino com Sérgio Azol,
tendo tido oportunidade em 2016 de visitar importantes locais ligados a
história do Cangaço na Paraíba, Pernambuco e Alagoas.
Essa memória se inicia em um sábado, dia 11 de junho de 1927, o segundo dia de Lampião e seus cangaceiros em solo potiguar.
Antiga casa do Sítio Cascavel, zona rural de Pilões – Foto – Rostand Medeiros
Em meio a um grande lajedo ao norte da atual cidade potiguar de
Marcelino Vieira, os cangaceiros vão acordando e se preparando para
seguir a sua jornada em direção a Mossoró. Após acordarem parte em
direção aos Sítios Cascavel e São Bento, cujas terras em dias atuais são
parte do município potiguar de Pilões. Depois atacam os Sítios Poço
Verde, Poço de Pedra e a Fazenda Caricé, do prestigiado pecuarista
Marcelino Vieira da Costa. Sobre o assalto ao Caricé vejam esse texto
que escrevi, onde trago alguns detalhes do episódio – https://tokdehistoria.com.br/2019/02/10/marcos-de-religiosidade-no-caminho-de-lampiao-no-rio-grande-do-norte/
Punhal de um cangaceiro deixado no Sítio Poço de Pedra, zona rural de Pilões-RN – Foto – Rostand Medeiros
A partir da velha Fazenda Caricé, mesmo a distância, já é possível
visualizar o grande maciço rochoso que formam as Serras de Martins e de
Portalegre, onde se encontram alguns dos pontos de maior altitude do Rio
Grande do Norte, com locais que ultrapassam os 800 metros. Essas duas
grandes elevações se interpunham diante daqueles viajantes que seguiam
em direção a Mossoró vindos do extremo oeste da Paraíba. Para os
cangaceiros continuarem em busca do seu alvo principal, vários caminhos
se colocavam a disposição. O matreiro Lampião, certamente secundado por
Massilon, o mais experiente de todos aqueles bandoleiros em relação aos
caminhos potiguares, perceberam que teriam de optar por um desses
caminhos.
O primeiro trajeto poderia ser: subir a Serra de Martins, passar pela
cidade homônima e descer do outro lado da elevação. Bastava seguir pelo
antigo caminho que ligava essa cidade até a Vila de Alexandria. Segundo
as pessoas da região, partes do antigo trecho dessa estrada ainda
existem, fazendo parte da atual rodovia estadual RN-075.
Aspecto dos caminhos dessa região– Foto – Rostand Medeiros.
O segundo caminho, caso o grupo desejasse seguir em direção a Mossoró
sem passar pela cidade de Martins, poderia ser feito do seguinte modo:
cavalgar até a extremidade oeste do grande maciço rochoso. Nesse caso,
os cangaceiros fatalmente chegariam próximo de Pau dos Ferros. Então,
depois de passar ao lado da serra, eles percorreriam a antiga estrada
que seguia pela cidade de Apodi e, depois de vários quilômetros,
chegariam a Mossoró.
Teoricamente, esses dois caminhos não trariam maiores problemas para
um viajante comum. Entretanto, aquele estranho grupo de homens armados
poderia ser classificado de tudo, menos de “viajantes comuns”.
Desde a saída do bando no Ceará, os celerados deixaram de lado a
discrição, passando para a prática aberta de toda sorte de delitos,
chamando a atenção das autoridades potiguares. Inclusive, essas
autoridades já tinham entrado em contato e combatido o grupo na Caiçara.
Mesmo com a derrota da polícia estadual naquele entrevero, Lampião
sabia que a qualquer momento as forças do governo potiguar poderiam dar o
devido revide. Se decidissem subir a serra, poderiam facilmente
esbarrar em um piquete de homens armados, já previamente alertados. Como
o bando tinha poucos recursos humanos e bélicos para realizar combates
contínuos, esse possível confronto poderia infringir sérios problemas
aos cangaceiros na tentativa de galgar a grande serra.
Rostand Medeiros diante da capela da Fazenda Caricé, zona rural de Marcelino Vieira – RN em 2015 – Foto – Silvio Coutinho.
Se o bando seguisse próximo da cidade de Pau dos Ferros, a maior e a
mais policiada da região, para depois trotarem em direção a Apodi (uma
cidade invadida por Massilon apenas um mês antes), fatalmente homens
armados poderiam estar aguardando o grupo em um desses locais, ou nos
dois. Aí os resultados desses novos tiroteios poderiam ser extremamente
negativos. Deve-se levar em consideração que, além da polícia potiguar,
Lampião se preocupava igualmente com a polícia de outros estados no seu
encalço, principalmente a paraibana.
Lampião na Fazenda Morada Nova
Havia outra alternativa: era possível contornar o grande maciço
através da extremidade mais a leste dessas elevações, passando por um
caminho que os levariam para a Vila de Boa Esperança, atual município de
Antônio Martins.
O grupo de bandoleiros então se afastaria de áreas onde
presumivelmente haveria mais atividade policial, poderiam então alcançar
zonas teoricamente mais desprotegidas e possivelmente ainda não
alertadas da presença deles na região. Esse caminho se mostrava mais
promissor!
Casa da Fazenda Morada Nova, zona rural de Pau dos Ferros – RN – Foto – Rostand Medeiros.
Contudo, aparentemente, essa decisão não deve ter ocorrido antes ou
durante a passagem pela Fazenda Caricé, pois, logo depois da saída da
propriedade do fazendeiro Marcelino Vieira, os cangaceiros seguiram
primeiramente na direção sudoeste, apontando para a cidade de Pau dos
Ferros. Após rápida cavalgada, surgiu o próximo alvo daquela jornada
insana – A Fazenda Morada Nova.
Quando visitei essa propriedade pela primeira vez em 2010, ali
encontrei a senhora Firmina Aquino de Oliveira, então com 95 anos de
idade, e sua nora Maria Ivaneide de Aquino. Ivaneide era neta de Antônio
Januário de Aquino, antigo dono do lugar, que teve a difícil missão de
receber Lampião em 11 de junho de 1927.
Lampião
Elas me informaram que não tinham conhecimento se o parente já
falecido possuía laços de amizade, ou de inimizade, com o cangaceiro
Massilon. Igualmente não souberam comentar se a chegada do bando se deu a
uma indicação desse celerado, ou se a casa dos seus antepassados foi
atacada simplesmente por ter sido um alvo que surgiu à frente do grupo.
Entretanto, essas senhoras relataram que antes do bando chegar à casa
de Aquino, que não mais existia em 2010, eles arrombaram uma residência
onde vivia um trabalhador da propriedade, que juntamente com sua
família fugiu para o mato. Logo os bandidos pararam diante da casa
grande da Fazenda Morada Nova.
Além do proprietário, na casa estavam sua mulher Raimunda Nonato de
Aquino, seu filho Cosme e suas três belas e jovens filhas, Raimunda,
Arcanja e Maria. Segundo Sérgio Augusto de Souza Dantas (Lampião no Rio Grande do Norte – A História da Grande Jornada,
1ª edição, págs. 119 e 120), foi exigido alimentos e dinheiro ao dono
da Fazenda. Antônio Aquino era um produtor próspero, sendo apontado
inclusive como dono de um engenho de açúcar e aguardente.
Diante da beleza das moças, alguns cangaceiros logo se mostraram
interessados nas meninas. Sérgio Dantas relatou que Aquino pediu
proteção a Lampião, que prontamente refreou os ânimos da cabroeira e o
próprio chefe chegou a pedir desculpas ao pai das jovens pela falta
cometida pelos seus homens. Após varejarem toda a casa e retirarem o que
os interessava, a malta de bandidos seguiu viagem.
A Foto
As senhoras Firmina e Maria Ivaneide comentaram que a passagem do
bando causou extrema comoção entre os membros da família Aquino.
Todavia, Antônio Januário se sentiu até mesmo com “sorte”, pois, apesar
de ter havido perda material com o saque praticado, o fato das suas
filhas não haverem sofrido qualquer tipo de violência, principalmente
sexual, foi considerado um resultado extremamente fortuito diante da
extrema gravidade do problema.
No dia 11 de novembro de 1928, um domingo, quase um ano e meio depois
da passagem dos cangaceiros, Antônio Januário reuniu sua família em um
estúdio fotográfico de Pau dos Ferros para a realização de um
interessante instantâneo. Essa fotografia, que trago com exclusividade e
conseguida a partir do material original, possui no verso a seguinte
frase “Uma pequena lembrança que ficará para sempre”.
Bando de Lampião, após o ataque a cidade de Mossoró em 1927.
Nela é possível ver Antônio e sua esposa Raimunda sentados em um
pequeno sofá de madeira e vime, em uma posse de tranquilo comando de
suas vidas e de sua prole familiar, que se encontravam todos presentes.
De pé, logo atrás do móvel é possível ver Cosme, tendo a sua direita
suas irmãs Maria e Arcanja e ao seu lado esquerdo Raimunda. Essa última e
Arcanja trazem dois objetos que escaparam das mãos dos cangaceiros –
são dois belos crucifixos com corrente e pedras.
Depois de observar milhares de fotos antigas, ao longo de vários anos
de pesquisas, posso comentar que, a exceção de Dona Firmina, todos os
outros participantes do instantâneo se vestem com roupas modernas para
os padrões sertanejos do interior potiguar da década de 1920. Inclusive
suas filhas, onde é possível ver Maria e Arcanja utilizando saias acima
do joelho, apesar de estarem com meias. Antônio e Cosme igualmente
seguem um padrão de vestimenta masculina bem moderna para a época. Ao
olhar detidamente essa foto, vejo o registro de uma família que
aparentemente superou o susto causado pelo bando de Lampião.
Violeiros Cantam a História do Assalto
A senhora Ivaneide me comentou em 2010 que nessa propriedade era
comum a apresentação de cantadores de viola afamados da região e até de
outros estados. Mesmo com o crescimento das bandas de forró eletrônicas,
da televisão e outros meios de entretenimento, na época essas cantorias
de viola possuíam público cativo na comunidade.
Casa
da Fazenda Morada Nova em 2010. Reparem os bancos feitos de troncos de
carnaúba, utilizados para a comunidade assistir duelo de cantadores de
viola. Ao fundo o maçiço da Serra de Martins – Foto – Rostand Medeiros.
Ela narrou que era praxe as pessoas do lugar transmitirem para os
violeiros visitantes os acontecimentos testemunhados pela família Aquino
em 1927 e o que eles sabiam do ataque do grupo de cangaceiros a
Mossoró. Com isso, solicitava-se que esses artistas transformassem as
histórias ouvidas em uma cantoria tipicamente nordestina.
Já as estradas existentes entre as propriedades Caricé e a Fazenda
Morada Nova foram sem nenhuma dúvida o pior trecho percorrido para a
realização deste trabalho. As maiores dificuldades se encontravam na já
rotineira falta de sinalização, mas principalmente no péssimo estado de
conservação desses caminhos.
A Fazenda Morada Nova está localizada em um ponto extremamente
afastado de áreas urbanas. A cidade de Pau dos Ferros fica a cerca de 24
quilômetros de distância, já a zona urbana de Pilões se encontra a 16
quilômetros e a cidade de Antônio Martins a 19. Entretanto, o melhor
acesso utilizado é a partir de Antônio Martins, onde o motorista
percorre oito quilômetros de asfalto da rodovia federal BR-226 e depois
segue por mais 11 quilômetros de estradas vicinais. Contudo, nesse caso,
existe a imprescindível necessidade de contar com a ajuda de uma pessoa
da região que conheça o trajeto. Nesse caso eu contei com o apoio do
amigo Chagas Cristóvão, da cidade de Antônio Martins.
Junto a Chagas Cristóvão, da cidade de Antônio Martins, na Fazenda Morada Nova.
Atualmente, Pau dos Ferros é a principal cidade da Região do Alto
Oeste Potiguar, com uma população acima de 30.000 habitantes, estando a
389 quilômetros de distância de Natal, ocupando uma área de
aproximadamente 260 km² e possuindo uma história bem antiga.
Acredita-se que a toponímia Pau dos Ferros foi criada a partir de uma
determinada árvore. Essa árvore certamente devia ser um excelente local
para repouso e com ótima sombra, onde vaqueiros viajantes, utilizando
ferro em brasa, deixavam marcado no seu tronco as marcas do gado sob sua
responsabilidade. Em uma época onde as fazendas não tinham arames
farpados e o gado era criado solto, essa prática serviu para esses
trabalhadores conhecerem as marcas de outras propriedades. Isso tornava
mais fácil a identificação dos animais perdidos nos pastos e a
realização de troca das reses encontradas. Não é difícil imaginar como
essa árvore ficou bem conhecida na região. Logo ao seu redor se fixaram
pessoas e isso deu início a uma pequena comunidade. Já sobre a questão
da posse da terra, consta que no ano de 1733, por ocasião da morte do
Coronel Antônio da Rocha Pita, foi doada a sesmaria de Pau dos Ferros a
seus filhos e herdeiros. Um deles, Francisco Marçal, foi a pessoa que
mobilizou os que ali viviam para erguer uma capela em 1738. Somente
através da Resolução Provincial nº 344, de 4 de setembro de 1856, Pau
dos Ferros tornou-se um município, sendo desmembrada da cidade serrana
de Portalegre.
Foto – Rostand Medeiros.
Na trajetória do bando em direção a Mossoró, ao se aproximar dos
contrafortes da Serra de Martins, o caminho percorrido por Lampião
passou onde atualmente estão localizadas as áreas territoriais das
cidades de Serrinha dos Pintos, Antônio Martins, Frutuoso Gomes,
Lucrécia e Umarizal.
Há 91 anos Umarizal foi saqueada por um bando de cangaceiros
Por Rivanildo Alexandrino
11 de maio de 1927, aos primeiros raios do sol escaldante, um grupo de cangaceiros aproximava-se sorrateiramente do pequeno vilarejo de Gavião¹. O bando era formado por cerca de vinte homens, e o seu chefe era nada menos que o famoso cangaceiro Massilon Benevides Leite, que no dia anterior havia atacado a cidade de Apodi, e um mês depois, estaria integrado ao bando de Lampião no famoso ataque à cidade de Mossoró.
Próximo ao povoado, o chefe interrogou uma mulher que lavava roupas numa casa um pouco afastada de Gavião:
- Ali na rua tem “macaco”² do governo? - O que é macaco do governo? – inquiriu a mulher! - É polícia! - Tem não senhor! Só esses que estão chegando agora! ( pensava que os cangaceiros eram soldados ). - Esses não são macacos! São meus cabras! - E quem é o senhor? - Sou “Lampião”! ( mentiu ).
A mulher, que ao ouvir o nome de Lampião, ficou trêmula de medo, logo foi tranquilizada pelo chefe dos bandidos que disse que não a fariam mal.
Depois de saciarem a sede, os cangaceiros preparam-se pra invadirem o lugarejo. Para isso, Massilon usou inteligente estratagema, mandou que dois dos seus homens tirassem seus apetrechos característicos do cangaço e adentrassem no arruado, um corria a pé na frente, e o outro, montado em um burro em perseguição ao mesmo, gritava:
- Pega ladrão! Pega ladrão!!
E assim, chegaram em frente a matriz, onde os moradores aglomeraram-se para assistir a estranha cena. Aproveitando a situação, os cangaceiros entram de súbito em Gavião, cercaram e renderam todos que estavam no centro do lugar.
Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus
O autor em visita as ruínas de um lindo casarão do século 19. O mesmo fica no município de Umarizal, que na época chamava-se "Gavião".
Rendidos os habitantes, começaram a onda de saque. O comerciante José Abílio de Souza Martins foi um dos mais prejudicados. Teve seu estabelecimento comercial invadido e saqueado pelos cangaceiros que subtraíram grande quantidade de mercadorias e certa soma em dinheiro.
O coronel Cristino Leite, chefe político local, foi da mesma forma, preso e obrigado a pagar por sua liberdade. No entanto, pediu ao chefe que não molestassem os moradores, que o mesmo faria uma cota com a população pra arrecadar dinheiro e lhe entregar.
O chefe da horda assassina, exigiu 10 contos de réis, valor exorbitante para os padrões do lugar naquela época. Mas depois de feita a arrecadação, tudo que conseguiu-se foi a quantia de 2 contos e algumas armas. O próprio Massilon sabia que o valor que tinha pedido era muito elevado, sendo assim, aceitou de imediato a quantia que conseguiram.
Os cangaceiros ainda organizaram alegre baile no grupo escolar, mas como o chefe deu a palavra ao coronel Cristino Leite que respeitaria os moradores, as mulheres não foram obrigadas a participar, e os cabras dançaram uns com os outros ao som de um fole e sob efeito de bebidas alcoólicas.
Já na parte da tarde os cangaceiros deixavam Gavião e seguiram em direção ao povoado de Itaú, que da mesma forma foi saqueada.
NOTAS e REFERÊNCIAS (1) Nome primitivo da cidade de Umarizal, que depois foi chamada de Divinópolis e posteriormente, recebeu a denominação atual.
(2) Os cangaceiros chamavam os soldados de macacos.
Obs: A minha pesquisa baseia-se nas obras dos doutores: Sergio Dantas, Raul Fernandes e do professor Raimundo Nonato.
Novo documentário sobre o ataque de Lampião e seu bando de cangaceiros ao Rio Grande do Norte está em fase de finalização no Rio de Janeiro
Por Rostand Medeiros
É com extrema honra e muita felicidade que trago a todos os amigos, leitores do nosso blog TOK DE HISTÓRIA e, principalmente, a todos aqueles que tornaram possível a realização deste maravilhoso sonho, a notícia que o em longa-metragem CHAPÉU ESTRELADO está em fase de finalização no Rio de Janeiro.
Filmado em abril de 2015 no sertão do Rio Grande do Norte, Paraíba e Ceará, o CHAPÉU ESTRELADO seguiu a mesma rota percorrida por Lampião e seu bando em junho de 1927, quando este buscou atacar a cidade de Mossoró.
Silvio Coutinho, o diretor deste documentário, captou uma maravilhosa sucessão de imagens dos locais históricos, dos depoimentos das pessoas que guardam a memória daqueles dias intensos e apresenta o quanto esta história é importante para aqueles que vivem ao logo do caminho percorrido pelos cangaceiros.
A finalização do CHAPÉU ESTRELADO esta sendo realizada com extremo esmero, visando aproveitar ao máximo a alta definição proporcionada pelo sistema de filmagem 4K. O documentário é uma produção da Locomotiva Cinema de Arte, do Rio de Janeiro.
Silvio Coutinho está na expectativa que o documentário CHAPÉU ESTRELADO seja exibido em um circuito de festivais internacionais e nacionais de cinema e está sendo agendada uma pré-estreia em Natal, para acontecer no primeiro semestre de 2017. Vale ressaltar que em 2017 serão comemorados os 90 anos da invasão de Lampião e seu bando de cangaceiros ao Rio Grande do Norte e o famoso ataque a Mossoró.
CHAPÉU ESTRELADO é quase um “Road Movie” com muita poesia, muita ação, bem moderno, dinâmico e com muitas imagens dos locais e dos caminhos reais percorridos pelos cangaceiros de Lampião em 1927.
Além do diretor Silvio Coutinho a equipe de produção do documentário CHAPÉU ESTRELADO contou com Valério Andrade na produção executiva, Iaperi Araújo como roteirista e Rostand Medeiros na pesquisa.
Silvio Coutinho – Diretor
Valério Andrade – Produção Executiva
Iaperi Araújo – Roteiro
Rostand Medeiros – Pesquisa
O documentário CHAPÉU ESTRELADO também conta com o excelente trabalho do compositor carioca Mário Vivas na criação da trilha sonora original. Durante o Festival das Rádios MEC e Nacional Rio 450, Mário Vivas foi vencedor na categoria de melhor canção com a música intitulada “Quero Ver Amar Assim em Madureira”, cujo vídeo clip teve a direção de Silvio Coutinho.
CHAPÉU ESTRELADO trás para as telas uma memória que se mantém forte nos sertões.