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terça-feira, 26 de maio de 2026

Jornais de época

O Imparcial, 31 de dezembro de 1938

Por: Helton Araújo (Cangaço Eterno)

O periódico O Imparcial, apresentava uma manchete destacando o trabalho do interventor de Sergipe, o sr. Eronides de Carvalho. “UM GOVERNO FECUNDO E HONESTO” era o destaque do texto, mostrando que, na época, o estado de Sergipe era tratado como exemplo administrativo.



A agricultura, o porto de Sergipe e a exportação do estado eram algumas das pautas elogiadas na matéria. Porém, um fato não pode passar despercebido. A publicação, datada de 31/12/1938, evidencia um momento de mudança política, necessidade e ascensão de imagem pública.

Em julho daquele mesmo ano, Lampião — aquele com quem Eronides tinha ligação direta, sendo apontado como protetor do famigerado cangaceiro, morria em solo sergipano. Isso mostrava bem como alguns poderosos se favoreciam de criminosos e, quando a pressão política aumentava, a imagem pública precisava ser preservada. Daí em diante, surgia um afastamento gradual.

Existem matérias bem sucintas mostrando Eronides dando informações sobre gastos e avanços no combate ao cangaceirismo. Porém, por muito tempo, debaixo dos panos, continuavam existindo vínculos diretos. Após a pressão natural do governo Vargas, o apoio vai ficando escasso, o afastamento se torna necessário e passa a valer aquilo que o poder central queria e o que a população precisava enxergar.

Não era mais apenas o sertão sergipano em evidência. Era o estado de Sergipe, era Aracaju e outras grandes cidades. O interventor precisava dar respostas à população.

No fim, é o de sempre: matérias exaltando governos, desvínculos com um passado negro maquiado por discursos de combate incansável ao “crime” que eles mesmos ajudavam a financiar. Sempre foi assim e continua sendo até hoje. Está cheio de políticos  “preocupados” com o povo, mas que fortalecem seu poder através de criminosos e alianças obscuras.

O cangaço de Lampião não duraria quase duas décadas sem o apoio de poderosos coronéis, políticos influentes e até membros das forças policiais. Direta ou indiretamente, eles ajudaram a construir o alicerce do reinado de terror de Lampião.

E se você acredita que Lampião lutava contra os coronéis em prol do povo, talvez seja necessário rever seus estudos sobre o tema.


sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O coito da Fazenda Quiribas...

 ... E a morte do cangaceiro Pau Ferro


Por Manoel Belarmino

Fiz a foto abaixo exatamente no local onde existiu o casarão da Fazenda Quiribas do Manoel do Brejinho, nas margens do Riacho Novo (extensão do Quatarvo), e também onde foi local de coitos de cangaceiros no tempo do Cangaço. Nas proximidades da fazenda, também foi morto o cangaceiro Pau Ferro, irmão do cangaceiro Colchete que morreu em Angico, em 1938.



Um grupo de cangaceiros, liderado por Corisco, Zé Sereno, Mariano e Mané Moreno, estava acoitado nas terras da fazenda Quiribas de Manoel do Brejinho, nas margens do Riacho Novo, próximo ao então povoado Poço Redondo, em 30 de janeiro de 1936. No grupo, além dos cangaceiros filhos de Poço Redondo e seus chefes, estavam também os perigosos Mormaço, Moita Braba e Juriti. O coito foi avistado pelo soldado Miguel Feitosa que passava por ali, em uma de suas idas para a Fazenda Badia dos Britto. Numa carreira só, o soldado fez meia volta e foi avisar ao comandante do destacamento, sargento Ernane, no quartel em Poço Redondo.

O comandante imediatamente chamou oito soldados para atacarem o coito dos cangaceiros. Vendo que havia muitos cangaceiros ali, mais de quinze, ainda à distância, dois soldados, Pedro e João Santana, dispararam contra os cangaceiros. Um tiro acertou o cangaceiro Pau Ferro que foi a óbito no local. Os soldados deram dois tiros e uma carreira, ou carreiras de todos, pois os cangaceiros reagiram rapidamente botando os soldados do comandante Ernane pra correr. Os cangaceiros não conseguiram alcançá-los.

Antes de deixarem o coito das Quiribas, os cangaceiros enterraram, ali mesmo embaixo de uma quixabeira, o corpo do cangaceiro Pau Ferro.

Depois que os cangaceiros deixaram o coito das Quiribas, os soldados retornaram ao local do coito e encontraram a cova de Pau Ferro. Desenterraram-no e obrigaram um rapaz de Poço Redondo, chamado Tonho Bioto, a cortar a cabeça do cangaceiro. O próprio Tonho Bioto colocou a cabeça de Pau Ferro, já em deformação, em uma lata de querosene e levou-a para o quartel em Poço Redondo.

O resto do corpo de Pau Ferro permaneceu enterrado ali na Fazenda Quiribas, nas margens do Riacho Novo (local hoje submerso na Barragem das Quiribas) e a sua cabeça, depois de exibida ao público, foi enterrada pelos soldados nas proximidades do quartel, onde era o casarão de China, na Praça da Igreja, hoje Praça da Matriz, no centro de Poço Redondo.

Depois da morte de Pau Ferro, os cangaceiros prometeram invadir Poço Redondo e destruir o quartel. A população do Poço e os soldados tremiam de medo. O medo era tão grande que numa certa noite um barulho do trotar dos burros de Julião Nascimento na Praça da Igreja fez os soldados e toda a população correrem da cidade e se esconderem no mato.

Ainda como vingança à morte de Pau Ferro, o grupo de Corisco e Dadá matou os soldados Cici e Antônio Vicente numa emboscada na estrada do Curralinho.

Assim se deu mais um pedaço da história do cangaço em Poço Redondo.

Poucos sabem que nas Quiribas, numa das margens do Riacho Novo, está enterrado o corpo do cangaceiro Pau Ferro e a sua cabeça, no centro da cidade, nas proximidades de onde era o quartel, na atual Praça da Matriz

sexta-feira, 7 de março de 2025

RANGEL ALVES NO RASTRO DO CANGAÇO...

... Despedida

O tema Cangaço é instigante de qualquer jeito, seja em roda de conversa, em palestras e seminários, em leituras e até nas imaginações mais irreais ou ilusórias. Contudo, nada igual ao conhecimento de perto dos cenários e paisagens daquela brutal e perversa realidade. Não para engrandecer ou glorificar os feitos cangaceiros, mas pelo conhecimento, pelo confrontamento do que se imagina com a realidade das caatingas, dos coitos, dos locais de combate, com suas causas e consequências. 

Uma cruz esquecida no meio do tempo, um tronco de velha árvore ainda marcada por disparos, uma casinha de oração, uma sepultura já quase desfeita pela voracidade do tempo, uma casinha com seu barro caído e cheio de escritos da história. Tudo isso precisa ser conhecido, de modo a juntar o que se sabe e o que se imagina, com o que resta daqueles medonhos cotidianos nos sertões nordestinos. Após cada contato com o que restou do cangaço, então dizer: Meninos, eu vi! E talvez o visitante ou pesquisador diga que o encontrado e o avistado são mais importantes do que todos os livros já lidos sobre a saga cangaceira.

Meu pai Alcino vivia no rastro dessa história, vivia rastejando cada passo cangaceiro nos sertões de Poço Redondo e mais além. Ouviu testemunhos dos personagens da saga, duvidou do que o livro dizia perante o que encontrou, e, pela própria percepção e sabedoria matuta, foi construindo suas próprias histórias, e tão reais que ainda é possível avistar em meio às caatingas o que ele escreveu. Eu não tenho essa maestria do meu pai, não tenho o dom de traduzir em letras o que meu pai tão bem descreveu, ainda que tivesse apenas o estudo primário. 

Mas eu, filho de Alcino, já fiz o que podia. Já visitei coitos, marcos históricos, locais de combates. Já visitei muitas cruzes, muitas casinhas de oração, locais de ex-votos pelos inocentes mortos pelos cangaceiros, locais onde o sangue espargiu pela violência dos bandoleiros e volantes. Na minha imaginação, eu vi Lídia amarrada ao umbuzeiro, e sabendo que logo seria morta por Zé Baiano. Eu vi Zé Bonitinho ser degolado e o sangue se espalhar pelo batente. Eu vi Adelaide dando seus suspiros finais embaixo do umbuzeiro. Eu vi o menino Galdino e seu avô Monteiro sendo covardemente mortos pela sanha assassina de Gato. Eu vi o ex-cangaceiro Juriti morrendo ateado em fogo. Eu vi Clemente, Doroteu e João transformados apernas em túmulos e em cruzes da memória. E vi muito, muito mais. Meninos, eu vi!


Mesmo num misto de dor, de prazer pelo conhecimento absorvido, e de revolta ante aquele mundo sem lei e sem dono, tudo isso eu vi e registrei. Hoje conto apenas o que sei pelo que conheci. Mas não mais farei isso. A Expedição Rota do Cangaço Poço Redondo 2025, comandada pelo amigo Aderbal Nogueira e marcada para acontecer dia 21 de julho nos sertões de Poço Redondo, será a última que acompanharei os visitantes e estudiosos do tema Cangaço. Em nenhum outro evento estarei presente, nem como acompanhante nem como palestrante ou mesmo mero participante. 

Sei o que sei. Sei o que já aprendi. E já tá bom demais. Nem no Memorial nem na Casa de Pedra receberei turistas ou interessados em informações sobre o Cangaço ou sobre o mundo sertanejo. Não queria que fosse assim, mas sou forçado a me recolher de toda a vida cultural, histórica e turística de Poço Redondo.

At.te Rangel Alves da Costa

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Vinditas

Pedro de Souza Freire

Pesquisa de Guilherme Velame Wenzinger


Pedro de Souza Freire, filho de Martinho de Souza Freire e Maria Angélica do Rosário. Pai de Maria Evanilza de Souza (Eva Souza). Após o assassinato de Martinho de Souza pelo cangaceiro "Zé Baiano", [em 10 de março de 1934] Pedro, juntamente com seus irmãos Filinto, José, Filomeno e Alcino e mais cinco primos, integraram uma volante, que teve dois combates com os cangaceiros e, num deles, o bando de "Mariano" foi exterminado.

A volante dos filhos de Martinho
- Acervo Lampião Aceso -

Depois disso, morou em alguns municípios sergipanos como Aracaju, Arauá e Estância. 

Faleceu em 6 de novembro de 1975 (conforme consta no livreto Momentos de Minha Vida, de Antônio Conrado de Souza), em Itamaraju/BA.

Foto e informações transmitidas por sua filha Eva Souza a Marcos de Souza.


Créditos: João Hélio

domingo, 12 de janeiro de 2025

Sergipano que foi cangaceiro e caçador destes

"Cajarana", o homem de duas faces

Por Rangel Alves da Costa. 

“Cajarana é nome de fruto que é cajá e que é manga ao mesmo tempo, de casca lisa e fina”, denominação mais que apropriada ao sertanejo que recebeu tal apelido, pois esteve dos dois lados da mesma moeda no tempo do cangaço. Quer dizer, foi cangaceiro e depois caçador de bandoleiros nas caatingas, que tanto conhecia no passo a passo de que lado estivesse.

Seu nome de batismo era Francisco Inácio da Silva, mas comumente conhecido como Chico Inácio. Nasceu enraizado numa afamada e portentosa família do então distrito de Poço Redondo: a Família Vito, trazendo no sangue também laços dos Clemente, família esta de presença constante na história do cangaço em Poço Redondo. Era irmão de João Inácio e outros.

Seu pai era Inácio Vito (irmão de Pedro Vito das Pedras Grandes, de Zefa de Clemente, de Badu e de Canuta de Zé Vicente, dentre outros. A família de Chico Inácio vivia estabelecida na região da atual povoação poço-redondense de Santa Rosa do Ermírio (nas proximidades do Couro e Lagoa Escondida), mas espalhada também além da divisa, principalmente na Ponta da Serra, já adentrando nas terras da baiana Serra Negra (a mesma Serra Negra do Coronel João Maria de Carvalho e do posto de comando da tropa de Zé Rufino).

Pela configuração geográfica, o moço Chico Inácio muito convivia com a presença dos cangaceiros na região da divisa de Sergipe e Bahia, local de passagem costumeira de Lampião e seu bando. E também de soldados das forças volantes. Uma região, pois, insegura e ameaçadora. De qual lado ficar? Muito indagava Chico Inácio. Mas o cangaço era uma demonstração de força e até de proteção, também dizia a si mesmo. Um dia resolveu enveredar no cangaço, e assim fez. Foi aceito e logo recebeu a alcunha de "Cajarana".

Mas a vida no Cangaço era mais difícil do que ele imaginava. Segundo relato de Antônio Neto Aboiador (importante membro da família Clemente), um antigo problema numa perna começou a importunar o já cangaceiro Cajarana, principalmente pelo peso dos apetrechos que tinha de carregar. Ficava cada vez mais insuportável conviver nas durezas da caatinga naquela situação. Pensou e pensou no que fazer para sair daquele meio aterrorizante e doloroso.

Como conhecia a fama e o poder do Coronel João Maria de Carvalho e sua influência perante Lampião, não teve dúvidas de que o Coronel da Serra Negra seria sua tábua de salvação. E assim aconteceu, mas não antes que resolvesse fugir. Sua desesperada e agonizante fuga foi de cena cinematográfica. Segundo o referido Antônio Neto, Cajarana se afastou um pouco dizendo que precisava urinar. Uma vez no mato, ficou observando se a "cangaceirama" se afastava. Ao perceber que já iam muito adiante, então resolveu correr, mesmo com o dolorido na perna.

Quanto mais corria mais olhava pra trás, quando de repente percebeu um cachorro vindo em correria em seu encalço. Lembrou que trazia um pedaço de carne no embornal, então foi cortando o alimento e jogando em direção ao cachorro, que parava para comer, e assim foi se afastando cada vez mais até não se sentir mais perseguido. Em seguida, na mesma correria, foi bater à porta do casebre de um parente que morava na região.

Imaginou que logo os cangaceiros estariam vasculhando por ali à sua procura, mas assim não ocorreu. Já se sentindo em segurança, logo tratou de mandar um recado a seu pai, pedindo que fosse urgentemente procurar o Coronel João Maria para dizer que precisava se entregar. 

O Coronel da Serra Negra assegurou que nada lhe aconteceria se fosse se entregar, mas que dali em diante passaria a servir a Zé Rufino. Quer dizer, um ex-cangaceiro indo pro outro lado. Sendo Zé Rufino também comandado por João Maria, nenhuma objeção foi imposta ao ex-cangaceiro, tão somente que ao invés de volante, de caçador de cangaceiro, ele seria informante, em virtude do problema na perna.

Coronel João Maria de Carvalho

E assim Chico Inácio, o ex-cangaceiro Cajarana, foi vivendo os seus dias. Não sabia, contudo, que o episódio de sua fuga jamais seria esquecido por Lampião. E assim porque, ao fugir, o então cangaceiro levou consigo as armas e tudo do cangaço que carregava, fato jamais perdoado pelo rei cangaceiro. E Lampião esbravejava: “Ainda quero ver Cajarana como ‘taba’ de pirulito, todo furadinho”.

Assim, pode-se dizer que Chico Inácio teve vida dupla no contexto do Cangaço, vez que primeiro foi cangaceiro e depois se tornou informante da volante. Na vida pessoal, arrumou casamento, mas enviuvou anos após. Casou novamente, e desta feita com Elzira, com quem teve outros filhos, dentre os quais Zé Acrísio, Nélson e Zelino. Com a nova família, Cajarana fixou residência nas proximidades da sede de Serra Negra, na localidade conhecida como Malhada da Onça.

Na Malhada da Onça, o ex-cangaceiro viveu durante cerca de quarenta anos, e onde faleceu. A casa ainda existe e é cuidada por seu sobrinho Augusto Inácio. Nas fotos abaixo, o próprio ex-cangaceiro e o local onde está sepultado no cemitério da Ponta da Serra, na antiga Serra Negra da Bahia. Ao lado da sepultura avista-se o seu filho Nélson e Antônio Neto Aboiador (de camisa escura).




sexta-feira, 22 de novembro de 2024

A chacina do Couro

Entre a ficção e um dolorosa realidade

Por Rangel Alves da Costa 

"Abri a porteira e caminhei por uma estradinha de chão. Logo adiante avistei uma moradia de fazenda e um curral logo ao lado. Tanto a casa como o curral em silêncio absoluto, ouvindo-se apenas o murmurejar do vento e do balançar de folhagens. Pelas portas e janelas fechadas, pela quietude do lugar e também pela ausência de qualquer vestígio de presença humana, então resolvi observar se havia pegada recente de animais pelo curral, mas apenas o barro duro e o estrume de canto a outro. Segui adiante. Somente após abrir o primeiro colchete é que tudo começou a mudar. 

Aquele silencio e aquela mansidão de mais atrás, de repente começaram a totalmente se transformar. Após o segundo colchete, então o mato pareceu se agitar, a ter olhos, a guardar segredos perante seus tufos, a dialogar com alguma presença humana. Não há que se negar que tal situação causa espanto e medo em qualquer um. 

Mas eu tinha de prosseguir, pois sabia muito bem o que queria encontrar. Pelas histórias muitas vezes ouvidas, logo nas proximidades daquele local, no ano 32, havia começado um dos mais terríveis episódios da história do Cangaço, ou uma das maiores covardias já perpetradas por cangaceiros liderados por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Caminhei um pouco mais até me deparar com uma lagoa seca em meio aos descampados. 

Lancei o olhar de canto a outro e foi como estivesse na presença de terríveis e sanguinários cangaceiros, depois um sopro voraz de ventania me contou que aqueles desumanos bandoleiros eram Gato, Azulão, Suspeita, Medalha e Cajueiro, todos liderados pelo primeiro. Eu já nem sabia em que mundo, tempo ou realidade estava. E mais estranho ainda quando comecei a ouvir uma voz que começou a relatar todo o acontecido naquelas distâncias dos sertões de Poço Redondo.

 

Gato


Com sotaque de velho sertanejo, mas sem aparecer fisicamente, então contou-me: ‘O ano era 32. Montados em cavalos, Lampião e seus cabras chagaram na região do Couro, já na divisa de Sergipe e Bahia. Umas selas e uns arreios dos cangaceiros foram enterrados, mas depois encontrados por um rapazote que por ali residia. 


Como os apetrechos haviam sumido, então a fúria tomou conta de Lampião, que logo resolveu culpar aquele mundo sertanejo pelo sumiço dos couros. 

E deu ordens para que Gato e seus comandados fizessem uma investida pela região e passassem a punhal e a mosquetão o que encontrassem. E assim a fúria perversa e sangrenta começou a agir. Mataram logo dois e depois seguiram matando, mais três e mais dois. Sete ao todo. Morreram os inocentes Antônio Monteiro, o menino Galdino, de apenas sete anos, Alfredo, Clemente e seus filhos Doroteu e João, ainda um doidinho chamado Zé Bonitinho

- E o que você está procurando está logo ali, depois daquele embrenhado de mato. Não é a capelinha que você está procurando, a capelinha levantada em memória dos dois primeiros mortos da Chacina do Couro, que foram Antônio Monteiro e o menino Galdino? Tá tudo já caindo, mas vá até lá e reze por aquelas pobres almas. Vá rezar, vá orar por mim, pois sou uma daquelas almas ali esquecidas no tempo’

E depois apenas o silêncio. 

E a minha entristecida presença ao lado dos restos dos restos, do que amanhã talvez nada reste, senão as memórias de um tempo de dor e de sofrimento”.



terça-feira, 30 de julho de 2024

Ruínas da Fazenda Capoeiras

Antiga morada do pai das cangaceiras Rosinha e Adelaide

Por Manoel Belarmino

Registro de 28 de julho de 2024

Nas margens do São Francisco, nas proximidades do Povoado Curralinho, em Poço Redondo (SE) está a Fazenda Capoeiras que, no tempo do cangaço, pertenceu ao pai das cangaceiras Adelaide e Rosinha.

    Rosinha

Lé Soares era filho de Maria da Invenção do Maranduba e casado com Pureza (dos Camburanga) de Curralinho. Duas filhas do vaqueiro Lé Soares foram para o Cangaço. Rosinha seguiu o cangaceiro "Mariano" e Adelaide acompanhou o cangaceiro "Criança".

Rosinha ficou viúva quando o seu companheiro Mariano foi morto em um combate com as volantes. Ela tentou deixar o subgrupo, mas foi morta pelos próprios cangaceiros nas Pias das Panelas, também em território de Poço Redondo. 

Adelaide morreu por complicações no parto, nas proximidades de Curituba.

Lé Soares, depois que as suas duas filhas entraram para o Cangaço deixou as suas terras da fazenda Sítio, no Maranduba, e mudou-se com esposa e filho(a)s para a sua fazenda Capoeiras.

Antes de morrer, Rosinha teria se demorado uns 15 dias com os seus pais nas Capoeiras.

sexta-feira, 19 de julho de 2024

"Ele estava em Angico"

Soldado Otávio Alves da Mota
 

Por Helton Araújo (Canal Cangaço Eterno)
 

Hoje falarei sobre mais um personagem que ficou  oculto em meio a história desse fenômeno social que até hoje mexe com nosso imaginário.
 

Otávio Alves da Mota, nasceu em Itabi-SE, no dia 14 de setembro de 1914 e antes de se aventurar na luta contra os cangaceiros era um simples lavrador, que vivia do suor de seu digno trabalho. Assim como outros tantos, as circunstâncias que os sertanejos da época eram submetidos o fez ter de escolher um lado na guerra entre cangaceiros e volantes.
 


Os motivos que levaram este homem a decidir encarar um desafio tão árduo não foram poucos. Lampião e seu bando atearam fogo no armazém da família da sua então noiva, além do mais, o bando de Mariano extorquiu o pai de Otávio, o mesmo foi molestado e humilhado pelo bando do feroz cangaceiro, além de seus familiares terem animais mortos pelo bando desse mesmo cangaceiro.
 

No ano de 1932, Otávio entrou para volante como soldado contratado, além de também ter trabalhado como rastejador. Atuou de início com o Cabo Nicolau (que seria assassinado anos depois), em seguida com o tenente Zé Rufino e por último com o tenente João Bezerra.
 


Em suas lutas e sofrimentos em perseguição aos cangaceiros, o destino cuidou de colocar em seu caminho um antigo desafeto, o afamado cangaceiro Mariano. Como bem sabemos na região do Cangaleixo em 10 de outubro de 1936, Mariano, Pai Velho e Pavão foram mortos e decapitados pela volante de Zé Rufino, onde em tal ocasião trabalhava o soldado Otávio.
 

Além desse fato, Otávio esteve presente nas mortes dos cangaceiros Serra Branca, Eleonara e Ameaço. Onde integrava a volante de João Bezerra, ele também aparece na foto das entregas dos cangaceiros, onde se fazem presentes junto com os volantes, Pancada, Maria Jovina, Cobra Verde, Vinte e Cinco, entre outros cangaceiros.
 


Já o ápice de sua luta contra o cangaceirismo, foi na famosa ação na grota do Angico em 28 de julho de 1938, onde foram mortos Lampião, Maria Bonita e mais 9 cangaceiros, sendo uma testemunha ocular de um dos fatos mais famosos da história do cangaço. Neste mesmo ano de 1938, o soldado Otávio encerrou suas atividades como volante.
 

Um fato curioso sobre o soldado Otávio é que ele era muito amigo de Antônio de Jacó, o "Mané Véio" e também de Pedro de Cândido, famoso coiteiro de Lampião.


Com o dinheiro que recebeu por seus atos naquele fatídico dia, rumou com sua esposa Eutália Gomes da Mota para o interior de São Paulo onde comprou uma chácara e passou a trabalhar com suínos. Depois disso se mudou para Xambrê no estado do Paraná, onde trabalhava como administrador de uma grande fazenda.
 

Já idoso e acometido por alguns problemas de saúde, um de seus filhos o levou para morar consigo na capital de São Paulo, onde o mesmo veio a falecer meses depois, aos 96 anos por falência múltipla de órgãos, no ano de 2010.
 

O soldado Otávio foi mais um entre tantos que viveu e presenciou as terríveis situações que o cangaço oferecia naquela época. Deixou boas informações para seus familiares, que em breve vos apresentarei em postagens e em uma  live com seu neto Osmar. 







 Agradeço pelas fotos e informações ao amigo Osmar Pedroso , neto do soldado Otávio Alves da Mota.

terça-feira, 2 de julho de 2024

Lampião em Sergipe

A proteção dos Britto´s

Transcrição de Jaozin Jaaozinn

Dos maiores protetores de Virgolino nas regiões de Sergipe, destacam-se duas famílias: Família Carvalho, de Eronides, e seu pai Antônio Caixeiro; e a Família Britto, de Francisco Porfírio e seus filhos.
 


Enquanto trabalhava como almocreve e com couro, Virgolino mantivera contato com a família Britto por muitos anos, cerca de doze ou mais; onde, não só conseguiu um bom dinheiro como também uma grande amizade e um grande futuro protetor das regiões de Sergipe e Alagoas.


Delphina de Lima Britto, Dona Fina, e Francisco Porfírio de Britto, o Chico Porfírio, eram os pais de Hercílio Britto e Antônio de Lima Britto, o Totoinho Britto, os seus principais coiteiros do cangaceiro Lampião. O clã era espalhado por toda a região de Sergipe e Alagoas, eram donos de inúmeras fazendas e terras, como, por exemplo, as fazendas Cuiabá, Canindé, Telha, Patos, Félix Deserto, Pedra D'água, Planta Milho, e tantas outras.
 

João Ferreira, quando se instalou em Propriá/SE, teve contato com Hercílio e sua família, ficando amigos por muito tempo. Em outubro de 1930, da passagem do bando para o estado de Sergipe, Lampião ficou hospedado na fazenda Jundiaí, de Hercílio Britto, onde, à noite, foi levado para a morada do seu irmão (de Lampião), conseguindo ainda assistir a passagem da tropa revolucionária de Juarez Távora, no momento sendo comandada pelo Tenente Juracy Magalhães.
 

Além da proteção garantida, O Cego recebia também armamentos e munições da família do Baixo São Francisco. Desde a prisão de Volta Seca e sua entrevista para os jornais que o jovem bandoleiro afirmava como sendo os Britto's principais fornecedores de armas para o bando; inclusive, entre esse ano, ocorreu uma varredura nas fazendas do Clã, conseguindo encontrar cerca de oito rifles e fartas caixas de munições.
 

Fato interessante de citar é de João Bezerra ser um "aparentado" dessa família. João acaba se casando com Crya Gomes de Britto, filha de Francisco Correa de Britto e de Emiliana Gomes de Britto, neta do Coronel Antônio Britto, o Antônio Menino (filho de Porfírio Romão de Britto Chaves) - Antônio Menino era irmão de Chico Porfírio -.
 

Crya nasceu no interior de Alagoas, no município de Piranhas, em 12 de março de 1915, e brincou entre a fazenda Gerimum e sua casa, juntamente com seus 14 irmãos. Casou-se com João em 1935, prometida por seu avô. Aos 21 anos de idade, incentivou as campanhas de seu marido contra os cangaceiros. Quando chegava seu esposo com sua volante, transformava a sua casa em uma improvisada enfermaria e hospedaria, ajudando quem quer que fosse.
 

Na morte de Virgolino, pelas forças volantes comandadas por Bezerra e demais, a fazenda Cuiabá, de Chico Porfírio, foi a principal que abriu as portas para os sub-grupos decidirem se continuariam ou iriam se entregar para as forças policiais. E, através desse contato do Tenente com os Britto, além também de Joca se safar da morte, o vaqueiro Domingos Ventura, da fazenda Patos, de Antônio Menino, acaba sendo cruelmente morto junto com seis membros de sua família, em uma falhada vingança do Diabo Loiro.
 

 

 

Nesse breve resumo, podemos ver as influências que essa família teve com o cangaço, principalmente com o reinado Lampiõnico, favorecendo ou desfavorecendo o afamado Capitão. 

Com as palavras de Archimedes: “pelos Britto ele sobreviveu, mas pelos Britto ele também morreu."
 

𝐹𝑂𝑁𝑇𝐸𝑆: 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜 𝑒 𝑜 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 𝑛𝑎 𝐻𝑖𝑠𝑡𝑜𝑟𝑖𝑜𝑔𝑟𝑎𝑓𝑖𝑎 𝑑𝑒 𝑆𝑒𝑟𝑔𝑖𝑝𝑒 - 𝐴𝑟𝑐𝒉𝑖𝑚𝑒𝑑𝑒𝑠 𝑀𝑎𝑟𝑞𝑢𝑒𝑠; 𝐹𝑎𝑚𝑖𝑙𝑦𝑆𝑒𝑎𝑟𝑐𝒉

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Foto inédita na literatura

 Sargento Deluz

Por Eduardo Marcelo Silva Rocha *

Tratar das Volantes sergipanas no combate ao cangaço não é tarefa das mais fáceis.

Os relatos sobre a profunda proteção que os cangaceiros tiveram em nosso Estado tendem a ser um óbice. Outro fator a favorecer o bandoleiro e seu grupo foram os movimentos iniciados com a Revolução de 30 que, exigindo concentração de esforços militares no início daquela década, momentaneamente diminuiu o foco de atenções ao banditismo nordestino.

O fato é que em nosso Estado a Força Pública não se furtou ao combate ao banditismo e empregou tanto seu efetivo ordinário, quanto gerenciou contratados da vida civil para tal mister.
 

Nesse contexto, podemos citar alguns comandantes de Volantes militares, como os Tenentes Stanley Fernandes da Silveira e Agnaldo Alves Celestino. Outros nomes poderiam ser citados, mas deixemos para uma ocasião futura, certamente mais oportuna do que essa.

Muitos encontros entre cangaceiros e volantes se deram em nossas terras, é verdade, mas nem sempre em tais ocorrências, as volantes eram comandadas/oriundas da nossa Polícia, uma vez que havia o acordo entre Estados e, por isso, volantes de outros estados atuavam em solo sergipano. É o caso do maior fogo ocorrido em nosso Estado, o da fazenda Maranduba, que era constituído por volantes baianas, pernambucanas…

Um dos grandes eventos registrados envolvendo a polícia sergipana foi a invasão à Canindé do São Francisco, cidade que sediava a Volante do Tenente José Vieira de Matos (oriundo do 28 BC) que seria auxiliada pelas volantes do Ten. Manoel Ramos (sergipana) e a do Sgt. Miranda (esta da Bahia). Sobre essa invasão, dois aspectos interessantes sobressaem aos interessados pelo estudo do tema.
 

Um trata-se da participação do Sarg. Deluz em uma das volantes que se encontravam na região quando deu-se a ação criminosa. Deluz, então Cabo de Esquadra sob o nº 174, integrava a força policial do Ten. Manoel Ramos.

Outro, os prejuízos infligidos ao destacamento, que perdeu peças diversas de fardamento – perneiras, sapatos, além de sabres modelo 1908, todas destruídas pelos cangaceiros que conseguiram atear fogo na sede policial.

Após a citada invasão, a volante do Ten. Manoel Ramos seria destituída e a do Ten. Matos seria reforçada, assim como a do Ten. Hermento Feitosa, futuro comandante da PMSE. Nessa ocasião, era que o então Cabo Deluz passaria a integrar a volante do Ten. Matos, antes de galgar postos mais altos em sua carreira e no vilarejo de Canindé.

Mas, debrucemo-nos mais acerca de tal figura.

Retrato Artístico do sargento Deluz (Fonte: Alcino A. Costa)

Amâncio Ferreira da Silva era, provavelmente, de um lugar chamado São Bento do Una em Pernambuco. Devido ao sobrenome e à origem, alguns já levantaram a possibilidade de Deluz ter algum tipo de parentesco com Virgulino Ferreira da Silva, pernambucano de Serra Talhada. Sendo que, até hoje não encontramos indícios que comprovem tal situação. Além disso, não existem registros sobre nenhum combate dele contra Lampião. Apesar do pai de Deluz, inclusive, chamar-se José Ferreira da Silva. Sigamos.

Fato é que nascido em 1904 provavelmente, ou 05, como dizem alguns, pouco se sabe de sua vida até o ano de 1931, quando efetivamente senta praça nas fileiras da Força Pública de Sergipe. É verdade que sua carreira na corporação é notável, uma vez que, como vimos, em um ano já era Cabo e logo seria Sargento.

No início dos anos 1940, Deluz já galgara mais uma promoção e, como Sargento, também era Delegado de Polícia em Canindé. Os relatos disponíveis dão conta de bastante truculência e arbitrariedade praticadas pela força volante de Canindé. De toda sorte, há quem diga ter sido Amâncio tão temido quanto Zé Baiano.
 

Do que se sabe, Deluz chegaria à patente de 2º Sargento, quando da sua morte em 1952. Sua exclusão das fileiras, da já então chamada Polícia Militar do Estado de Sergipe, dar-se-ia em 01 de Outubro 1952, por falecimento, conforme veremos mais adiante.

Do pouco que se sabe, Deluz seguiu sua carreira no sertão sergipano, na região do Município de Porto da Folha e nos vilarejos de Poço Redondo e Canindé. Poço Redondo, este, que ao ser emancipado selaria mortalmente o destino do ex-cangaceiro Zé de Julião, conhecido como Cajazeira, assunto para outro momento.



Captura do grupo de Pancada (Reprodução de Lampião entre a espada e a Lei - Sergio Augusto Souza Dantas)

Antes de prosseguirmos vamos contar a história sendo contada pela história – a história do cangaço em movimento.
 

Em fins da década passada, o Professor Robério Santos produziu um filme sobre o ex-cangaceiro Manoel Pereira de Azevedo, conhecido no cangaço como Jurity. Relatando a vida de Manoel, iniciando dos eventos fatídicos da grota do Angico, em 1938.
 

Sobre Manoel, o filme mostra que entregou-se após a morte de Lampião e redimido/anistiado, retomou sua vida na Bahia, tendo trabalhado como vigilante até que decidiu – ainda em início da década de 1940 – voltar ao sertão de Sergipe para reaver dinheiro e bens que deixara por lá, inclusive cobrar dívidas decorrentes da agiotagem que praticava com o saldo das participações em saques e extorsões do período de cangaço.

Fazemos outro parêntesis, observando as relações do cangaço com a agiotagem, que coincidentemente reservou à história contar duas mortes famosas no cangaço: Zé Baiano e Juriti. Mas, como dantes, isto é assunto para outro momento, fica pontuado. Além da relação bélica entre o próprio Lampião e um Coronel baiano famoso, de quem o cangaceiro cobrou dívidas queimando algumas fazendas.

Sargento Deluz

No filme, Manoel, então, volta aos rincões caatingueiros de Sergipe para acertar suas contas, para reaver seu dinheiro e outros prováveis bens que amealhara e deixara com amigos e/ou clientes. Por conta dessa viagem, Manoel/Juriti, teria a presença delatada à autoridade policial do arruado de Canindé do São Francisco, que vai encontrá-lo na fazenda de Rosalvo Marinho, onde se arranchara. Sem nenhuma condição de reação, até por já ser um homem livre, Manoel é capturado e conduzido à local ermo – chamado de “Roça da Velhinha”, amarrado em uma corda. Manoel teria sido jogado em uma espécie de coivara, onde morreria queimado.

O relato do filme, embora possa ser considerado ou não ficcional, baseou-se em obras de pesquisadores que debruçaram-se sobre o tema cangaço, em diversos momentos, inclusive ouvindo relatos de pessoas remanescentes que viram ou ouviram sobre o fatos.

Pois bem, apesar disto, o filme do professor Robério Santos foi objeto de processo judicial em nosso Estado (tombado sob o número 0044386-18.2018.8.25.0001), que, ao final, reconheceu o seu direito de exibição devido à sua natureza e relevância histórica.

Voltando a Amâncio e seu desfecho, Alcino Alves Costa, em sua obra, relata que este seria vítima de uma emboscada ocorrida, provavelmente, em 30/09/52 ou 01/10/52.

O fato é que pouco se sabe sobre a vida do militar. Na verdade, pouco sabemos sobre a vida de vários policiais volantes daquele tempo de combate ao banditismo. Nesse sentido, como curiosidade, nunca vi alguém observar que o Ten. José Lucena, que estava na ocorrência na qual foi morto o pai de Lampião, já como Capitão em 1924 serviu integrando as tropas federais legalistas aqui em Sergipe contra a insurreição do 13 de julho.

Seja qual for a verdade, fato é que a vida naqueles tempos era difícil para todos, sem exceção às forças volantes. A dureza da terra semiárida, a distância do litoral e da capital dificultava a vida e a sobrevivência de todos. Não haviam facilidades. Não podemos julgar ninguém que viveu naquele tempo com os olhos de hoje, isso é uma falha básica de avaliação que chamamos anacronismo. O máximo que podemos fazer, sem errar, é ajustar as condutas à Lei em vigor no período. Mais que isso tende a incorrer em achismo.

lista de oficiais da Polícia Militar de Alagoas empregados na força legalista no combate ao 13 de Julho em Sergipe

Por fim, sobre Deluz, não existia registro fotográfico incontroverso. Tínhamos uma foto pintura dele e uma fotografia de uma volante mista, na qual, desconsiderando uma marcação errada, supúnhamos ser ele.

Nessa última imagem, agora, temos Deluz em uma provável fotografia 3 x 4, com uniforme militar cáqui. Notemos que há uma real aparência entre os traços de Deluz com o militar da imagem anterior, destacada na fotografia da Volante completa, tirada logo após a captura do grupo do cangaceiro Pancada. Além disso, na terceira imagem, ostenta em seus braços divisas e, apesar de estar marcado com o número “XI” e na legenda constar número “IX”, nesta última há a seguinte identificação: “Sargento Diluz, comandante da volante sergipana”.

A grafia Diluz nos remete à questão dos efeitos da precariedade dos registros, uma vez que muita coisa sequer foi registrada ou se perdeu no meio do tempo até o hoje. Como não sabemos a origem do apelido Deluz, bem como não fazemos muita ideia do que seria o Brasil dos anos 30, questões de grafia não devem nos assustar, ao tempo em que pouco se podia verificar informações, estas que demoravam dias ou semanas para circular, pois muitas vezes andavam em lombos de animais ou nas pernas de mensageiros/transportadores.

Assim, já vimos registros dando conta do nome de ser Amâncio Ferreira da Luz. Uma possibilidade dessa grafia ser originada de um incauto, por não saber o nome completo ter, por convicção própria oralmente ou por escrito, informado o nome com a aquisição do “da Luz”, não por má intenção, mas por ser a referência que conhecera. Mas vamos em frente.

Deluz, com excelente relações de confiança com ao menos uma família importante da região – homem de confiança de um poderoso Coronel – somado à sua graduação militar, estava em confortável posição naqueles sertões do nosso Estado – ou mesmo de qualquer outro.

Sargento Deluz com a farda da Força Pública de Sergipe
Imagem inédita na literatura do tema.


Assim, não por acaso, casara-se com uma moça, filha de honrada e importante figura local, extremamente respeitada naquelas bandas de então Porto da Folha.

Mas o casamento não daria certo logo nos primeiros dias, uma vez que a esposa era dotada de forte personalidade, não tendo receio em demonstrar desagrados ao áspero marido. Segundo o escritor José Mendes Pereira, as brigas levaram Deluz à intimar formalmente um dos seus cunhados e até a sua sogra, algo rechaçado por sogro que teria ido ao destacamento policial pessoalmente com os filhos e entrado em luta corporal com o pernambucano. A relação familiar estaria, então destruída após esse episódio.

Nesse interregno, sobre Deluz se abate uma tragédia, a morte de sua genitora e um irmão. Por conta do fato, o 2º Sargento necessita viajar à Pernambuco, para ir atrás dos responsáveis pela morte dos seus entes queridos. É nesse momento em que se inicia o planejamento de sua morte. O que se sabe sobre este evento fatal é que ao sair em destino a Pernambuco – segundo Alcino Alves Costa – Deluz foi atocaiado e morto a tiros na ainda na estrada da sua Fazenda Araticum, sem possibilidade alguma de reação.

Terminava em 30 de setembro de 1952, a jornada do Sargento pernambucano no Estado de Sergipe, que marcou seu nome na região do então Município de Porto da Folha.

 NOTAS:

 – As informações constantes aqui, são oriundas basicamente das pesquisas de Alcino Alves Costa e José Mendes Pereira, disponíveis em fontes abertas como sites de internet e livros.

            – Créditos das imagens: 1 Alcino Alves da Costa; 2 Sérgio Dantas, 3 – Revista Noite Ilustrada de 08/11/38; 4 e 5 – acervo do autor;


É tenente coronel da PM/SE e membro da Academia Brasileira de Letras e Artes do cangaço. (eduardomarcelosilvarocha@yahoo.com.br)

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

O cangaço em Sergipe

A Pia das Panelas

*Por Eduardo Marcelo Silva Rocha
 

 



Sergipe foi um dos locais mais destacados na metade final da história do cangaço lampiônico. Uma vez que nessas paragens o valente de Vila Bela encontrou pouso e proteção de destacados coronéis da região do São Francisco. Ele pôde se estabelecer, recrutando diversos do povo para encorpar suas hostes.
 

Lampião ao se radicar na região de SE/BA/AL, alterou o funcionamento de seu grupo, que foi dividido em vários (sub) grupos menores, com áreas territoriais de atuação definida, em um processo de delegação de funções, nomeando chefes de bando em diversas localidades, sendo o mais famoso destes, o cangaceiro Zé Baiano, que atuou na região agreste do Estado, tomando Frei Paulo como uma dessas referências.
Essa tranquilidade, somada ao consórcio com “coronéis” da região, permitiu-lhe diminuir seu ritmo de ação, transformando-se em uma espécie de gestor dos seus delegados: Zé Sereno, Labareda, etc. É óbvio que existiam outros aspectos, como o cansaço daquela vida dura, e mesmo, a admissão de mulheres ao bando.
 

Enfim, Lampião construíra em Sergipe um sólido “modelo de negócio” que lhe deu a oportunidade de desfrutar momentos de tranquilidade como nunca dantes. Depoimentos de pessoas da época dão conta de visitas a cidades, como Propriá e Laranjeiras, em busca de tratamento médico, por exemplo. Além de incursões como a de Capela, onde Lampião chegara a assistir ao filme “Anjo da rua” (Street angel), estrelado por Janet Gaynor.
 

O fato é que a região era, no geral, um bom coito para Lampião e seu bando, como vimos acima. Mas não apenas isso. Em um dos locais de pouso estabelecido na região catingueira do nosso Estado, Lampião estabeleceu uma espécie de quartel, onde podia reunir-se e tratar de outros assuntos diferentes da rotina de lutas.
 

Trata-se da Pia das Panelas, no atual município de Poço Redondo. Escondido por grandes propriedades, o citado coito era tão bem localizado no que tange à segurança, que os relatos dão conta de que nunca houve ataque por partes das volantes ao referido local.
 

Diante dos fatos é possível inferir que em um local seguro deste, não era incomum a presença de coiteiros responsáveis pelo fornecimento de víveres e demais produtos. Em conversas com Manoel Belarmino, morador da região e pesquisador independente, consideramos a possibilidade, de devido à segurança do coito, os cangaceiros receberem visitantes, acompanhados de crianças, ao menos em companhia de coiteiros.
 

O nome “pia” não era fantasia, consistindo em uma espécie de lajedo de pedra, seus buracos eram capazes de armazenar água por muito mais tempo que os riachos que secam logo após o inverno. No caso da Pia das Panelas, existem vários buracos onde se armazena água, tanto que os moradores da região, hoje, enchem os buracos de pedras, como forma de prevenção a acidentes com animais que ainda buscam o refúgio para a sede naquele antigo coito.
 

Além disso, o local consiste também em uma pequena elevação que somada às características da vegetação mais baixa, fornecia vantagem estratégica aos que ali repousam.
 

Alguns acontecimentos convergem para a ideia de que ali se tratavam assuntos de ordem “administrativa” do bando. Nesse sentido, exemplo maior é a morte de Lídia – dizem ter sido a mais bela – companheira do cangaceiro Zé Baiano – ao que se sabe, no mesmo dia da morte do Padre Cícero.
 

Após ter sido delatada pelo cangaceiro Coqueiro, que a teria visto deitar com o cangaceiro Bem Te Vi, Lídia fora arrastada para o famoso umbuzeiro que, ainda existe, no entorno do lajedo, onde esperaria amarrada pela morte a pauladas na manhã seguinte.
 



 

"Coqueiro", não se salvaria vivo, pois a delação era uma forma de traição, mesmo aquela, tão específica. Bem Te Vi, o conquistador, este salvou-se da morte, seja por proteção ou por haver fugido assim que soube do intento de Coqueiro – pois há quem defenda as duas versões.
                  

Existe alguma divergência sobre como se deram os fatos com o conquistador, mas seja como foi, sabe-se que em algum momento ele fugiu, livrando-se de qualquer ato de violência física. O conquistador não sofreu nada.
 

Mas não foi somente esse assunto que terminou em morte naquele local: ali ainda morreram outras pessoas sob o manto das decisões gerenciais do cangaço. Uma, foi Rosinha, que após a morte do cangaceiro Mariano, viúva, declarou querer sair do cangaço e, a mando de Lampião, foi resgatada da casa dos pais e morta próximo ao Riacho do Quatarvo - imediações do coito.
 

Outro foi o sertanejo Zé Vaqueiro, que encontrou o cangaceiro Novo Tempo, que se arrastara ferido até a Fazenda Paus Pretos (de propriedade do Coronel Antônio Caixeiro, pai do Interventor Eronides de Carvalho, local onde fica a Pia das Panelas).
 

Sabendo do tiroteio que acontecera dias antes, o vaqueiro decidiu executar o cangaceiro, que conhecia muito bem, para ficar com os seus bens, afinal, o fogo da lajinha ocorreu em local diverso ao da Pia das Panelas, onde estavam eles, naquele momento.
 

O plano do vaqueiro deu errado, o cangaceiro não somente sobreviveu ao disparo feito por Zé Vaqueiro, como conseguiu fugir. Dias depois, Novo Tempo já recuperado e com o bando, pegaram Zé Vaqueiro e o executaram às margens do riacho, queimado, após o seviciarem até sua exaustão.
 

Outra morte registrada no local, foi a de Preta de Maria das Virgens, que teve a cabeça esmagada pelo namorado Zé Paulo, que não queria assumir a responsabilidade da gravidez da moça.
 

Os cinco casos relatados têm a traição em diversas perspectivas como ponto comum. Coqueiro, Lídia e Zé Vaqueiro morrem porque traem. Rosinha morre pelo medo que a sua “deserção” causa, dada a possibilidade de traição que rondaria sua reintegração à vida normal, sendo ela conhecedora de coitos e coiteiros. E Preta de Maria das Virgens morre à traição, esta encetada pelo próprio namorado, pai do filho que esperava em seu ventre.
 

É característica da traição marcar a terra com sangue.
 

Sobre cemitérios, conta-se que o local que circunda a Pia das Panelas era antes um Campo Santo/Cemitério indígena. O local sob o Umbuzeiro onde supõe-se estar enterrado o corpo de Lídia de Zé Baiano é recoberto por pedras, que lhe facilitam identificá-lo e o fizeram famoso.
 

Mas sob um olhar mais atento, é possível observar que existem ainda muitas formações de pedras que sugerem ser demarcadoras de local de enterramentos humanos. É fato que, o local já foi remexido para exploração agrícola e, certamente, muitos vestígios arqueológicos já se perderam.
Por outro lado, certamente por questões culturais, alguns espaços como o entorno próximo da Pia e o umbuzeiro com o pretenso túmulo de Lídia ainda resistem.

EPÍLOGO

Ao visitarmos locais como esse, de sofrimento e dor – que representam histórias com muito sangue, ao menos para quem crê em vida além da vida – devemos considerar o peso que esses eventos carregam, nesses lugares, de energias ligadas as emoções de quem viveu tais situações. Se não quisermos pensar em energias (se está cético, se pergunte sobre o que se capta do corpo humano em um eletroencefalograma, por exemplo) pensemos no seguinte: quem gosta de reviver momentos ruins? Ou de ouvir pessoas recontando nossas péssimas experiências?

 

Longe de querer limitar ou ser contra as visitações aos sítios históricos, mas sim deixar aqui uma reflexão sobre como nos portamos nesses locais e como, respeitosamente, devemos nos portar neles.
Por fim, o local da Pia das Panelas, além de um sítio de interesse histórico, possivelmente, também se trata de um sítio de interesse arqueológico – cemitério indígena, a  despeito de já haver sido bem modificado pela ação da atividade agropecuária nas últimas As décadas. Muitas das pedras, se foram usadas para demarcar sepultamentos, hoje certamente já estão fora do seu local de origem.
 

Mas ainda há um pequeno espaço central – exatamente onde fica o lajedo da Pia das Panelas – preservado, inclusive em seu entorno próximo, assim como o umbuzeiro onde se supõe estar Lídia enterrada, onde encontramos um pequeno ajuntamento de pedras, em padrão que vemos em covas rasas.
 

Agora é a vez do IPHAN. 

 

* É tenente coronel da PM/SE e membro da Academia Brasileira de Letras e Artes do cangaço. (eduardomarcelosilvarocha@yahoo.com.br)
 

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Pias das Panelas

Um dos cenários mais tristes da saga lampiônica

Texto e fotos Kiko Monteiro

Guiados pelo confrade Manoel Belarmino, No ultimo domingo, 22  de outubro de 2023, eu, junto com o companheiro de expedições Marcelo Rocha, pudemos finalmente conhecer as “Pias das Panelas”. Um pequeno lajedo às margens do Riacho do Quatarvo, antigo território da histórica Fazenda Paus Pretos de Antônio Caixeiro na zona rural de Poço Redondo, Alto Sertão Sergipano.
 
 

Nos anos 30 este local passou a ser um dos muitos coitos de Lampião 
e seus subgrupos naquela região. 
 

 
 
Como bem preveniu o saudoso mestre Alcino Costa, um lugar fúnebre, lúgubre, pois fora palco de tragédias e virou morada eterna de pelo menos 5 almas identificadas. Uma coincidência macabra entre as vítimas que jazem ali é que todas foram mortas pelos seus próprios “parceiros”.
 
 

Esta formação de pedras, embaixo de um velho umbuzeiro, marca a sepultura da cangaceira Lídia. Acusada de adultério, foi morta pelo seu marido, “Zé Baiano” em julho de 1934.
 
Após o veredito de Lampião, Zé deixou-a amarrada naquela mesma árvore durante toda a madrugada. Ao amanhecer, aquela que foi considerada a mais bela das cangaceiras, foi morta a pauladas.
 

 
O delator da traição, o cangaceiro “Coqueiro II”, pensou que teria a gratidão do bando, mas tombou sob a mira do colega “Gato” e por ali mesmo foi enterrado.
 
A história não esquece de Preta de Maria das Virgens. Nativa daquela mesma região que foi assassinada pelo seu namorado, Zé Paulo. Este, após descobrir que engravidara a moça, para não ser obrigado a casar com a pobre sertaneja, aplaca seu tormento com uma pedra, esmagando a sua cabeça e deixando-a ali. Localizada, é enterrada às margens do Riacho.
 
Também em um ponto atualmente impreciso, em 1937, foi morta e sepultada a cangaceira Rosinha, viúva do cangaceiro “Mariano”. Executada pelo seu colega “Pó-Corante” a mando de Lampião, só porque desejava voltar pra casa dos pais… Mas no cangaço, como em qualquer outra organização criminosa, aquilo era considerado uma deserção. Ela sabia demais e assim foi efetuada a queima de arquivo. 
 

 
E a sentença do vaqueiro e coiteiro “Zé dos Paus Pretos”
 
Aquele que em finais de 1937 acreditou ter matado o cangaceiro “Novo Tempo”, depois de encontrá-lo moribundo nas matas ao redor da Fazenda que devia ser rancho seguro dos cabras de Lampião. Mesmo baleado na cabeça “Novo Tempo” conseguiu fugir. Recuperado, relatou a traição do colaborador. Zé foi queimado vivo em uma coivara. Dias depois os vaqueiros da região encontram o corpo já em estado avançado de decomposição e o enterram-no ali mesmo nas proximidades das Pias das Panelas.
 

 
Gratidão pela atenção e companhia deste confrade que é grande conhecedor dos fatos que envolvem o Cangaço em Poço Redondo e em toda aquela região.
 
Manoel Belarmino, Marcelo Rocha e o autor.
 

 
ATENÇÃO: É expressamente proibida a reprodução deste conteúdo sem a autorização prévia.

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

"CHINA DO POÇO"

 Lampião e os segredos do casarão

 Por Rangel Alves da Costa

 

Teotônio Alves China, meu avô materno, pois pai de minha mãe Dona Peta (Maria do Perpétuo Alves), nas páginas da história é muito mais conhecido como "China do Poço", como referência e homenagem a Poço Redondo. Casado com Marieta Alves de Sá (Mãeta), este sertanejo possuía como residência um belo casarão numa esquina da atual Praça da Matriz de Poço Redondo, que um dia foi derrubado para dar lugar a uma moderna construção. 

 

Na foto abaixo, ainda que não seja possível identificar toda a sua beleza arquitetônica, avista-se uma suntuosidade até contraditória para a época, pois fincada numa povoação ainda nascente, de poucas casas e logradouros, onde rareavam moradias mais abastadas. 

 


Pois bem. Foi aí na porta do Casarão de China do Poço que no dia 19 de abril de 29 um inesperado visitante chegou. Tal visitante era nada mais nada menos que Virgulino Ferreira da Silva, o Capitão Lampião (já havia sido patenteado por Padre Cícero do Juazeiro em 26). Acompanhado de cerca de oito cangaceiros (que permaneceram vigilantes nos arredores), Lampião ali chegava não como simples caminhante dos sertões e ali fazendo parada para matar a sede e a fome, pois já trazia consigo nome e endereço certos e, por isso mesmo, foi à porta de China que anunciou sua presença e o desejo de uma conversa mais reservada. Mas o que Lampião queria tratar de modo específico com China do Poço, pois estando ali pela primeira vez e já trazendo o nome do sertanejo escrito na memória? 

 

A arqueologia cangaceira ainda não fuçou bem tais aspectos, ainda não adentrou bem nos segredos escondidos por trás dessa visita a Poço Redondo em 29. Creio, contudo, que muito mais que China do Poço, o Capitão Lampião buscava encontrar outro ilustre personagem, que, coincidentemente (ou não) estava exatamente no casarão naquela hora e dia: Padre Artur Passos. Vigário da paróquia de Porto da Folha (da qual fazia parte a povoação de Poço Redondo), o Padre Artur Passos somente duas vezes ao ano se dirigia ao local para celebrar missa, e sempre ficava hospedado na casa de China do Poço. 

 

Teria Lampião interesse em encontrar o sacerdote, e por quê? Segredos e mistérios, mas, analisando seu histórico de atuação e de influência, atualmente sabemos que Padre Artur Passos possuía muito mais autoridade e mando do que imagina nossa vã filosofia. Ademais, mesmo que sua ida ao povoado fosse apenas duas vezes ao ano, o vigário percorria toda aquela região sertaneja, e com constante presença na região da baiana Serra Negra e tendo celebrado batizados e casamentos onde os padrinhos eram verdadeiros potentados, como aqueles da família de Pedro Alexandre da Serra Negra. As celebrações eram do lado sergipano, mas as propriedades geralmente eram dos poderosos do outro lado da fronteira, como muitas vezes ocorreu na igrejinha do São Clemente. 

 

Ora, Serra Negra era localidade estratégica e primordial nos objetivos de tomada dos sertões pelo bando de Lampião. 

 

E Padre Artur Passos possuía amizade e influência perante todo aquele coronelato baiano. Desse modo, cremos que muito mais há que ser revelado acerca daquela “inusitada” visita de Lampião ao Casarão de China do Poço, e, neste, o seu encontro com Padre Artur Passos. Dizem que Lampião até ouviu impropérios da boca do vigário, pois este não admitia estar na presença de um bandoleiro sanguinário. O líder cangaceiro, contudo, não reagiu um instante sequer. Será que tal celeuma já não estava programada? Mesmo tendo esbravejado tanto, depois o vigário dialogou reservadamente com o cangaceiro, sentou à mesma mesa para o regabofe, e até permitiu que o bando assistisse missa. Estranho, muito estranho. 

 

Padre Arthur Passos

Não foi só um almoço e uma missa, pois muito mais continua escondido no embornal do Capitão e na batina do Padre. Que a arqueologia cangaceira escavoque tudo isso.