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segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Fogo da Abóbora - 90 anos

Policiais mortos em combate a Lampião e seu bando são homenageados pela PM 

A Policia Militar do Estado da Bahia, através do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças - CFAP, do 3º Batalhão de Ensino Instrução e Capacitação de Juazeiro, realizaram na manhã desta sexta feira (15/11), feriado da Proclamação da República, no distrito de Abóbora, zona rural de Juazeiro, um evento em homenagem aos 90 anos da morte de dois policiais militares componentes de uma volante que travaram uma troca de tiros naquele distrito no dia 7 de janeiro de 1929, no combate um cangaceiro do bando de Lampião também morreu.



O evento que iniciou pontualmente as 9h, com a entoação da canção Força Invicta - Hino Oficial da PMBA, executada pela Banda de Música Maestro Wanderley da PM Juazeiro, em seguida o historiador e Major da PM Raimundo José Rocha Marins, realizou uma explanação do episodio ocorrido no distrito, contou ao público presente que na data acima citada, Virgulino Ferreira da Silva, vulgo "Lampião", Maria Bonita, outras mulheres de cangaceiros e seu grupo, em fuga do estado de Pernambuco, chegou a Bahia, faminto, cansado, porém com muito dinheiro na mochila, invadiram o distrito de Abóbora.

O embate ocorreu quando a volante chegou e os cangaceiros dançavam em uma casa, num forró, a causa do forró, na verdade, era alheia ao bando, eles participavam da festa em beneficio da construção de um Galpão na Praça da feira, quando chegou a "Força Volante de Juazeiro" e começou o tiroteio, ao cessar a troca de tiros morreram os soldados José Rodrigues e Manoel Nascimento e o cangaceiro Antonio Juvenal da Silva, vulgo "Mergulhão II".

O Mergulhão II, quando posou para Alcides Fraga, 
em 17/12/ 1928, em Ribeira do Pombal/BA.
Acervo Lampião Aceso

Dando continuidade ao evento a aluna a Soldado do CFAP, Fabrícia Souza conduziu uma coroa de flores em memoria aos dois policiais que deram seu sangue no "Combate de Abóbora", e entregou ao Comandante do 3º BEIC o Ten. Cel. José Carlos Soares Mariano e ao Diretor do CFAP o Cel. Carlos Alberto Neves da Silva, na sequência o corneteiro da Banda de Música Maestro Wanderley executou o toque de silêncio, posteriormente a turma de alunos a Soldado desfilaram na Rua principal do distrito. O evento foi finalizado com descerramento de uma placa na praça defronte a Igreja para materializar o ato em homenagem aos policiais mortos, e ao som da Banda da PM e fogos.

Na oportunidade o Diretor do CFAP o Coronel Carlos Alberto Neves da Silva falou a reportagem do Portal Jaguarari, sobre o evento, e aproveitou para abraçar a população de Jaguarari, bem como toda a região norte e destacando o papel do policial e que a população continue confiando nesta instituição.


"Estamos hoje aqui em Abóbora para rememorar, para homenagear os policiais que bravamente defenderam a sociedade e a paz social no combate ao banditismo de Lampião, então a Policia Militar com a justa homenagem através do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças o CFAP, está rendendo essa homenagem aos policiais, e também para que as novas gerações, os novos policiais  tenham a mesma noção e missão que é servir e proteger, e na nossa formatura o juramento é defender a sociedade com risco da própria vida e foi isso que eles fizeram a 90 anos, estamos aqui rememorando, todo esse evento, toda a passagem histórica de Lampião, então o Comandante Geral da Policia Militar o Coronel Anselmo Brandão e todos que compõe a nossa corporação temos a honra e a satisfação de estar aqui hoje em Abóbora para fazer essa justa homenagem aos policiais que tombaram no combate ao bando de Lampião.

Mando aqui um abraço a toda população de Jaguarari, eu que sou natural de Senhor do Bonfim, sou da região, e dizer que a população continue confiando na Policia Militar, que nos temos essa missão de servir e proteger a sociedade, então hoje estamos aqui homenageando esses policiais por isso, para que mostre também a comunidade, a população da importância da nossa Policia Militar, na defesa do cidadão, na defesa das leis e das instituições, então um abraço a todos os policiais que compõe o Comando Regional Norte, que Jaguarari também está inserido deixo aqui meu abraço, felicidades, e espero que esse evento continue que no próximo ano, que a prefeitura juntamente com a Policia Militar que retorne a Abóbora  para que se faça esta homenagem aos nossos guerreiros policias, abraço a todos e felicidades", disse o Coronel Neves do CFAP.


Segundo o vaqueiro Raimundo Bonfim de 87 anos, que relatou ao PJ, quando garoto contavam a ele sobre o "Combate de Abóbora". "Os policiais chegaram e Lampião e seu bando dançavam forró quando começou o tiroteio, e o cangaceiro Mergulhão mesmo ferido, todo baleado e ainda 'tava' com o pulso cortado e sangrando muito, continuou indo pra cima e atirando contra os policiais e acabou morrendo, o resto do bando fugiu e a população enterrou ele (Mergulhão) no meio do mato, e os policiais foram enterrados no antigo cemitério", disse.

Ainda segundo o Sr. Raimundo o distrito foi crescendo e removeram o cemitério do centro de Abóbora que hoje serve de posto policial e construíram outro a uns 2 km do distrito, e os corpos dos policias foram exumados e levados para um outro local desconhecido.

Assista ao vídeo com um compacto do evento produzido pelo Canal de João Carvalho



Fonte: Portal Jaguarari
Fotos: Jair Paulo, Werick Lima

domingo, 24 de abril de 2011

Fogo da Abóbora - 82 anos

A Morte de Mergulhão 

Por Rubens Antonio

A 7 de Janeiro de 1929 travou-se o combate de Abóbora, povoado de Juazeiro, BA, lembrado pela morte de Mergulhão, (foto) cujo nome real era Antônio Juvenal da Silva, mas que aparece citado também, na literatura sobre o Cangaço como Antônio Rosa. Da visita ao local pode colher alguns depoimentos e bater algumas fotos.

Antecipando algo do material, observo que a povoação está muito mudada, em relação ao contexto de então, mas há muitos elementos reconhecíveis e outros identificáveis através de testemunha ainda viva dos eventos.

Sabemos que o fogo se deu quando a volante chegou e os cangaceiros dançavam em uma casa, num forró.

A causa do forró, na verdade, era alheia aos cangaceiros. Era festejo local pela construção de uma nova "armação" para a feira do povoado, que, na verdade, não passava de uma arranjo descontínuo e desordenado de casas mais esparsas. O cemitério local foi o sítio de maior destaque, onde morreram os dois policiais, soldados José Rodrigues e Manoel Nascimento.

Segundo a autópsia:
"José Rodrigues, com um ferimento com orifício de entrada na região dorsal superior e orifício de saída sobre o mamillo direito; Manoel Nascimento com três tiros; um que penetrava entre a 6ª e a 7ª lombar, com destruição das anças intestinais e orifício de saida sobre a crista illiaca com fractura; outro na região anterior direita do thorax e outro na região cervical esquerda."


Tira-gostos:
"BUM! PÁ! PÁ! Foi papoco pá peste! E isso de que a puliça abriu a cova do cangacêru é mintira! Só tiraram os mininu da puliça mesmu e trabaiaru e colocaru di vorta... O cangacêru mexeram nele não! Ficou a cova lá fechadinha!"
"Aquele Calais! Êta cabra faladô! Mas nas ora dos papôco, mais dispois, ô cabra pra corrê! Faladô prezepêru... mas covarde que nem só ele mesmu!"
"E no tiroteio que teve lá adipsois? Na curva? Foi anos depois... Eu ainda lembro da curva... O Azulão era uma peste muito bom de pontaria... Acertô bem na testa da burra... ô pontaria do cão!"
"Sabe o que eu achei ingraçado? Adispois de muitos anos, aqui, pra fazê esta rua nova, sabe quem trabaiô? o Bem-ti-vi... que foi também cangacêru... Trabaiô pra fazer a terraplenagi... Era muito sorridente... Simpático... Foi até lá.. Oiô a sepultura do Merguião... Falou nada não... Só ficou quietu oiano..."

Os detalhes do evento consegui lá mesmo em Abóboras a partir do relatório do tenente Othoniel.
Sobre as descrições dos cadáveres, a partir do exame do legista Anísio Teixeira.


Edilson dos Santos, proprietário do terreno, aponta a localização da sepultura do cangaceiro Mergulhão.

O esquema que fiz acima é uma indicação relativamente precisa...Posteriormente publicaremos outros depoimentos; Tomei dois, porque agregavam praticamente tudo o que os outros diziam...
São o do senhor "Joãozinho", que presenciou o fogo... está quase cego, mas enxergando o suficiente para, acompanhado do filho, me conduzir e indicar o sítio do cemitério... e o Manoel, que é um jovem que herdou o terreno onde foi sepultado Mergulhão...


 Rochedo em que Lampião e Ezequiel se apadrinharam para disparar contra a volante, que se encontrava no Povoado de Abóboras.  A posição da volante era aproximadamente a da caixa d'água vista ao longe, entrincheirada no antigo cemitério.
 

João Alves Guimarães apontando localização da entrada do antigo cemitério. As pedras diante dos seus pés são do antigo portal.

A terraplenagem e a pavimentação foi feita somente com a retirada das lápides. Portanto, o restos dos sepultos ainda estão aí. Próximo à quina branca que se vê à esquerda estão sepultados os restos de um dos soldados mortos no tiroteio. Seguindo-se em frente, em direção à rua, encontram-se os restos do outro soldado.


 Monumento em praça de Abóbora



 Detalhe da placa


Uma coisa é interessante nas abordagens de campo..

Olhando Abóboras... e andando... localizando os pontos em que se abrigaram os cangaceiros e a volante... percebi o seguinte... A distância entre o cemitério.. e onde Ponto Fino e Lampião estavam, disparando contra eles, é de cerca de 150 a 180 metros... Acertar alguém desta distância é braba...

Luiz Pedro estava disparando deitado em um descampado a cerca de 100 a 120 metros ... Era o que estava menos protegido.

Os outros dois cangaceiros envolvidos, Mergulhão e Corisco, partiram de cerca de 150 metros, em movimento diagonal, até chegarem ao cemitério. Ali, na quina, Mergulhão recebeu o tiro que o derrubou. O tiro seccionou seu húmero e rasgou as veias e artérias do braço, causando a hemorragia que o matou.
Os dois policiais vitimados fatalmente, conforme o depoimento do seu João, foram atingidos quando tentavam pular o muro do cemitério e usá-lo como entrincheiramento... por disparos vindos de Lampião e/ou Ezequiel, daquela distância toda... 150 a 180 metros... Imaginem só... O cemitério tinha muro de madeirado, só tendo em pedra o portal.

Praticamente todos os volantes... além dos dois mortos... mais seis praças, um sargento e o tenente, foram baleados. Entraram em fuga.

O estudo de campo mostra que Mergulhão foi morrer a cerca de 180 a 200 metros de onde foi alvejado...
Foi enterrado praticamente no local em que tombou.

Ele chegou a ser ajudado por dois cangaceiros que o carregaram, e foi assim que os habitantes o viram ser levado e adentrar a caatinga... mas, como visto na distância, não conseguiram ir muito longe...

Quem o encontrou, ainda agonizando, foi um viajante que vinha chegando a Abóboras. O cangaceiro parece ter tentado se esconder atrás de um amontoado de xique-xiques... Olhou o viajante e disse:
- Quem está falando aqui é homem...
Tirou do bolso um canivete e estendeu para o viajante... e expirou.

Abraços!
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Rubens Antonio é Professor e palestrante sobre História Geológica da Bahia, Antropologia, Geologia, Epistemologia, Metodologia do Trabalho Científico, História da Ciência.


CRÉDITOS:
Artigo pescado na comunidade "Cangaço, Discussão Técnica" de compadre Ronnyeri.

*Foto de Mergulhão foi cortesia de Ivanildo Silveira.