segunda-feira, 16 de setembro de 2019
Opinião
Por Wilson Martins
"Lampião é também um mito mental, a julgar por haver dominado a imaginação brasileira mesmo fora do seu território nativo, mas também por haver inspirado obras de literatura e de grande literatura como muitas das que se encontram neste volume e que dão ao personagem as dimensões míticas dos heróis."
"Assim como Roland é o herói paradigmático das canções de gesta medievais, Lampião é a sua figura simétrica e correspondente na gesta nordestina do cangaço. Se o paralelo parecer incongruente ou arbitrário, lembremos o que diz Santa Rita Durão nos versos do Caramuru, isto é, que o "valente Romano" e o "sábio Argivo" em nada foram melhores que o "rude Americano" das florestas: "Nós que zombamos desse Povo insano / Se bem cavarmos no solar nativo / Dos antigos Heróis dentro ás imagens, / não acharemos mais, que outros Selvagens".
No caso, a passagem do tempo idealizou as figuras, acrescentando-lhes as lendas e fantasias indispensáveis para torná-las super-humanas: entre Lampião e Napoleão há apenas uma diferença de escala. Acrescente-se a intromissão das ideologias: como cangaceiro, Lampião era um revolucionário de esquerda, militando contra uma sociedade de direita, até que as coisas se tornaram tão claras que até a esquerda institucionalizada percebesse o partido que podia tirar da situação, ajudada pelas circunstâncias: "A palavra cangaço só aparece uma única vez ao longo de todo o romance O Cabeleira, de Franklin Távora [...] significando, como o próprio autor afirma na nota ao fim do livro, "complexo de armas que costumam trazer os malfeitores", conceito que, ao tempo de Lampião, já designava o bando e as atividades dos bandidos.
Vieram em seguida as interpretações que Carlos Newton Júnior qualifica de "mais à esquerda": "A visão de Carlos Dias Fernandez e, principalmente, a de Rubem Braga [...] antecipam, portanto, uma interpretação do cangaço mais à esquerda, que começam a proliferar na segunda metade da década de 1940 para se tornar voz corrente a partir da década de 1960, com os estudos ligados ao novo marxismo; estes, por sua vez, funcionaram como contrapeso necessário para o surgimento, nos anos de 1980, de estudos mais abrangentes e mais imparciais, não dogmáticos, mais ricos e cheios de sugestões, mais abertos às múltiplas interpretações da realidade social estudos dentre os quais se destaca, de modo inegável, a obra do historiador e ensaísta pernambucano Frederico Pernambucano de Mello.
Lampião é também um mito mental, a julgar por haver dominado a imaginação brasileira mesmo fora do seu território nativo, mas também por haver inspirado obras de literatura e de grande literatura como muitas das que se encontram neste volume e que dão ao personagem as dimensões míticas dos heróis. O leitor encontra aqui, diz o autor, "desde poemas escritos por contemporâneos de Virgulino Ferreira da Silva até poemas de uma geração para quem Lampião é um personagem tão histórico quanto Napoleão ou Alexandre, o Grande.
No caso de poetas rigorosamente contemporâneos de Lampião, homens da mesma geração do cangaceiro, podemos imaginar que não era tão simples fechar os olhos para aquilo que se mostrava com tanta evidência, ou seja, a imensa crueldade do facínora, os atos de barbárie perpretados por ele próprio ou seus comandados, tudo aquilo que fez com que Lampião, mesmo na poesia popular, quase sempre figurasse como um cangaceiro mais temido do que propriamente admirado, de modo distinto do que vai ocorrer com outros cangaceiros famosos, a exemplo de um Jesuíno Brilhante ou um Antônio Silvino.
Justificam-se assim poemas como "O rei do cangaço", do pernambucano Jayme Griz, e principalmente "Nordeste de Lampião", do cearense Jáder de Carvalho, poema que narra um ataque de cangaceiros a uma casa de pessoas simples, durante uma festa de casamento, sob o comando de um dos tenentes de Lampião".
Numa introdução por todos os títulos admirável, Carlos Newton Júnior acrescenta o capítulo que faltava na história de literatura brasileira e da nossa crítica. Lampião não morreu, mas vive agora como testemunho de um ciclo civilizatório.
(O Cangaço na Poesia Brasileira. Uma antologia. Sel. e pref. de Carlos Newton Júnior. São Paulo: Escrituras, 2009)."
Pescado em Gazeta do Povo
quarta-feira, 24 de julho de 2019
Opinião
Transcrito por Guilherme Velame Wenzinger
Citação do termo "cangaço" no livro "O cativeiro", de Dunshee de Abranches [1867-1941]. Há a transcrição de parte de uma carta redigida pela avó do autor, por volta de 1841, onde ela fala sobre o término da Balaiada, com a prisão de Cosme Bento, o Negro Cosme.
"Mais influiu, porém, para a pacificação, foi sem dúvida a declaração da maioridade do jovem monarca. Lima prometeu logo perdoar os que depusessem incondicionalmente as armas. Mas o fez só em parte [...] quanto ao negro Cosme, como bem previ e te anunciei, foi metido a ferros na cadeia, aqui, na capital. Garantem os cabanos que seguirá em breve para o Itapicuru onde será solenemente enforcado em presença de numerosos escravos da região para que o seu suplício sirva de exemplo aos que ainda sonham fugir das fazendas para os quilombos. Bela anistia, meu caro Censor! E dizerem por aí que ela foi a morte do cangaço! Do cangaço? Não: da Balaiada...
O cangaço é a alma bravia dos sertões. E as almas bravias não se dominam pela força; domam-se só pelos influxos do ensino e da fé!"
quarta-feira, 26 de junho de 2019
Palavra de um inimigo
Transcrição fiel à época, de Rubens Stone de trechos do texto introdutório ao livro "Lampeão - Memórias de um Oficial Ex-Comandante de Fôrças Volantes" (3ª edição - São Paulo - 1953), do Major da Polícia Militar de Pernambuco, Optato Gueiros.
*
Podemos considerar Lampeão enquadrado no rol das vítimas da política do seu tempo.
... Política dos "coronéis" armados que se degladiavam de quando em vez sob as vistas complacentes dos aulicos do tempo que interferiam quase sempre não para fazer justiça, mas para tirarem partido que falassem mais alto às conveniências pessoais.
Colocou-se Virgulino Ferreira ao lado da antiga família Pereira, do Pageú, que contendia, pelas armas, com a não menos tradicional família Carvalho.
Surgiram as primeiras desavenças entre a autoridade local e o futuro Lampeão que, vocacionado para as armas, crescia em meio aos bandos armados. Mui cedo deu provas de admirável capacidade tática e estratégica que assombravam os inimigos.
Todos os "coronéis-barões" foram humilhados por Lampeão e, quase todos, com o mesmo, firmaram acordos ditados pelo cangaceiro. Para que tivessem as suas propriedades em segurança, sujeitaram-se ao triste papel de moços-de-recados de Virgulino.
Podemos dizer também, sem errar: Lampeão foi um instrumento nas mãos de Deus para executar uma justiça que nem a polícia nem os juízes poderiam fazê-lo. Centenas de facínoras foram expulsos da terra natal por Lampeão, enquanto igual número era atraído para as fileiras lampeonescas, onde encontravam a morte ou a prisão. E assim é que, somente em Pernambuco, foram mortos e prêsos mais de mil cangaceiros pertencentes às hordas de Virgulino.
E, por esta forma, a destruição dos tarados existentes no Nordeste foi total. Lampeão matou mais indivíduos maus que já deveriam ter desaparecido do cenário dos vivos desde há muito, do que mesmo inocentes. Por outro lado, as fôrças-volantes abatiam impiedosamente elementos que se incorporavam aos grupos do rei do cangaço.
Somente os que perseguiram Lampeão podem dizer algo a respeito da refinada astúcia, inteligência, resistência física e bravura do mesmo. Pressentia a aproximação das fôrças como um cão de caça. Muitas tropas, ansiosas por um encontro, passavam às vezes, mais de um ano sem poderem fazer contato com o bando por Lampeão comandado.
O seu grupo oscilava de 60 a 100 bandoleiros, fracionado em pequenos bandos de 8 a 12 homens que agiam num raio de 50 léguas (...)
Lampeão era homem de uma índole cruel, verdadeiramente tigrina. Assassinou para mais de 1.000 pessoas, incendiou umas 500 propriedades, matou mais de 5.000 rezes; violentou mais de 200 mulheres e tomou parte em mais de 200 combates, aqui no Pernambuco e nos seis Estados nordestinos. Foi ferido seis vezes em Pernambuco. Em 1928, atravessou para a Bahia.
Com seis homens sòmente, chegou à Bahia extenuado e descarnado.(...)
Foram muitos os atos de bravura que praticou, assim como inúmeros também os feitos de covardia e os de revoltantes vilezas e crueldades inomináveis. Revelava-se admirável no comando e com rara energia dominava as feras humanas que compunham os seus bandos, como se fossem tenros cordeiros.
Fisicamente era Lampeão insuperável. Esgotou centenas de perseguidores enquanto que ele aparecia, ao fim de cada jornada, sempre mais disposto.
Desvendou os segredos das caatingas desabitadas de seis Estados, a pé, e procurou devassar o imenso Raso da catarina, na Bahia, e por pouco não morreu de sêde com os seus cabras nesse Saara baiano.
Na intimidade da sua gente, nada tinha que se parecesse com a fera descoraçoada e bravia, tal como se apresentava em suas eternas rázias em busca de mais e mais dinheiro, que acumulava em suas bolsas e bornais.
Para Lampeão, a vida de um homem nada significava. Fez, entretanto, muitos prisioneiros - soldados, cabos e até mesmo um coronel da Polícia Militar de Pernambuco - e os soltou, deixando-os ir em paz.
Era Lampeão um mundo de contrastes, um complexo enigmático e um gênio ao repontar na vida.
Major Optato Gueiros, 1953.
segunda-feira, 6 de maio de 2019
Opiniões
Por Filipe Bezerra*
Poucos personagens históricos são tão simétricos quanto o Capitão João Bezerra e o Xerife americano Wyatt Earp. Ambos – heróis do mundo real – foram os policiais responsáveis pelo combate ao que seria o primeiro caso de crime organizado em seus países.
Wyatt Earp enfrentou a sanguinária gangue dos chamados “Cowboys” que provocava pânico, destruição e assassinatos nas cidades do velho oeste americano. João Bezerra foi o homem que se embrenhou no sertão nordestino e escolheu como missão de vida acabar com o flagelo do Cangaço. Em ambos os casos o assombro da criminalidade desenfreada, regida pelo desprezo à vida e ao patrimônio alheios como também movida pela ação de bandidos violentos, mostrou a incapacidade do estado da época de proteger seus cidadãos das ações destes bandos armados.
Foi a coragem pessoal destes dois homens, que enfrentaram à época estas quadrilhas à bala – e com enorme risco pessoal -que permitiu que a paz voltasse a reinar aos lares de gente humilde do interior.
Mas enquanto os americanos celebram até hoje Wyatt Earp como uma lenda digna de produções hollywoodianas, João Bezerra foi relegado ao mais absoluto ostracismo histórico no Brasil. Mesmo os integrantes das forças de segurança pública sequer ouviram falar deste homem cuja biografia seria motivo de orgulho e celebração de qualquer mentalidade nacional sadia. Todos ouviram falar do bandido Lampeão, mas quase ninguém conhece a história dos vários anos de caça aos cangaceiros nos secos e espinhosos sertões nordestinos promovidos por aquele legítimo herói brasileiro, e a épica operação anfíbia capitaneada por ele que deu cabo ao mais perigoso bandido da história do Brasil.
A opção flagrante da classe falante nacional pelo banditismo, sobretudo na mídia e na academia, é um produto direto do marxismo cultural. A polícia, tenha ou não razão, sempre foi vista historicamente como uma instituição burguesa que existe apenas para reprimir os “excluídos da sociedade” e manter o status quo demandado pelas “elites”. Já para os bandidos, do facínora Lampeão ao menor estuprador e assassino cruel Champinha, toda a complacência é pouca!
A promoção desta esquizofrênica mentalidade que inverte os papéis dos mocinhos e dos bandidos, demonizando os primeiros e canonizando os últimos não veio de hoje e o cangaço, celebrado nos filmes de Glauber Rocha, é apenas mais um exemplo disso. Não é de se estranhar que o bandido tenha virado ícone histórico e o grande herói dessa história se mantenha deliberadamente esquecido, ao contrário do seu congênere americano.

Na semana em que o presidente argentino Maurício Macri foi ao hospital visitar um policial baleado( mostrando involuntariamente aos brasileiros que ainda existe bom senso na vizinhança) nos resta trabalhar para que a normalidade da mentalidade nacional seja restaurada, o que pode ser iniciado inclusive ao fazer, neste momento, uma singela manifestação de justiça histórica(ainda que tardia):
Que Deus guarde bem a alma do bravo e valente Capitão João Bezerra, herói brasileiro!
*Filipe Bezerra é Policial Rodoviário Federal, Bacharel em Direito pela UFRN, Pós-Graduado em Ciências Penais pela Universidade Anhanguera-UNIDERP, Bacharelando em Administração Pública pela UFRN e membro da Ordem dos Policiais do Brasil.
Pescado em Ótica Policial
segunda-feira, 25 de março de 2019
"O amanhã" edição de 07/01/1927
Transcrito por Antonio Correia Sobrinho
Amigos, leiam a entrevista do jornalista cearense Júlio de Matos Ibiapina, concedida ao jornal "O Amanhã" do Rio de Janeiro, sobre o banditismo nos sertões nordestinos, publicada na edição de 07/01/1927, quer dizer, mais de onze anos antes da morte do rei do cangaço Lampião, no momento, por um lado, em que este já considerado o novo rei do cangaço agia mais confiante e serelepe pelos adustos territórios de Alagoas ao Ceará, carregando no ombro a patente de capitão do exército, fortalecido de armas, munições, além de fardamento do batalhão patriótico, dádivas recebidas do governo federal, ainda que de forma ilegal e indireta, pois pelas vias do poderoso chefe religioso e político do Ceará, Padre Cícero Romão, para os fins de combater no Nordeste os rebeldes comunistas chefiados por Luís Carlos Prestes.
Por outro lado, num momento de forte censura contra o prestigioso tratamento dado pelo governo ao sanguinário cangaceiro do Pajeú, na imprensa e nas casas do Congresso Nacional, isso associado à mudança nos comandos dos governos federal e estaduais; Washington Luís substitui Artur Bernardes e as unidades federativas ganham novos governadores, sem mencionar o convênio celebrado entre Estados nordestinos no sentido de as forças militares destes combaterem o banditismo de forma conjugada e com a possibilidade de as volantes atuarem além fronteiras.
Os Governos nordestinos coligam-se para combater o banditismo sertanejo - Falta de camaradagem
Desde anteontem acha-se nesta capital o Sr. J. de Matos Ibiapina, nosso colega da imprensa do Ceará, onde dirijo um jornal independente, o mais importante do Estado, pela sua ampla circulação e pelo seu bem orientado programa de combate aos partidos políticos e ao governo.
Como se ache, atualmente, em foco, no Nordeste, a questão de repressão do banditismo profissional, agitada pelo Sr. Estácio Coimbra, resolvemos ouvir a opinião do Sr. Matos Ibiapina sobre o assunto.
Começamos por perguntar-lhe se acreditava na eficiência dos governos estaduais para exterminar o bandoleirismo.
Assim nos respondeu o ilustre jornalista:
- Combate-se uma epidemia sem eliminar as suas causas?
E acrescentou:
- Todos os governos novos, a fim de impressionar bem aos seus governados e aos dirigentes da nação, tomam a iniciativa de guerrear os bandidos dos sertões. Não é a primeira tentativa que se faz nesse sentido. Mais de um entendimento tem sido promovido entre os diferentes estados do Nordeste. Tudo tem sido debalde.
Por quê?
Simplesmente porque as causas geradoras do banditismo persistem em vários Estados.
Não haveria cangaceiros se por toda parte houvesse o respeito à lei. São os administradores que inoculam no espírito do caboclo do sertão essa revolta contra os fundamentos jurídicos da sociedade.
Não compreende ele que o governo de um povo consista no espezinhamento dos direitos alheios, justamente por parte dos que têm a responsabilidade de sua defesa.
É o exemplo das arbitrariedades policiais que transforma o pacífico e obediente homem do sertão na fera que é o chefe de bando.
Os elementos destinados à garantia da ordem assumem o papel no hinterland nordestino, de instrumentos de perseguição manejados pelos amigos políticos dos governos.
São eles que arrastam às prisões, por mero capricho dos reguletes locais, os adversários políticos e seus apaniguados.
São eles que lhes tomam as propriedades, que deixam impunes os atentados à honra das famílias.
São eles, em uma palavra, que incutem na alma dos sertanejos a convicção de que ou se devem deixar escravizar ou reagir pelos mesmos processos de que são vítimas constantes.
Um dos atuais chefes de bandoleiros do Nordeste era um cidadão pacífico, que exerceu o cargo de prefeito de uma vila cearense. Teve de recorrer ao cangaço indignado com a polícia que lhe incendiou as propriedades.
- Mas Lampião, por exemplo, não está nesse caso. É um criminoso perverso.
- Os bandidos dividem-se em duas grandes categorias: a dos revoltados contra as injustiças dos poderosos e os lançados na carreira pelos mandões, que os perseguem quando não mais precisam dos seus serviços.
No primeiro caso, está Santa Cruz; no segundo, Lampião.
Aquele, que é um bacharel em direito, depois de assistir as mais torpes violências contra a sua família, reagiu, e, de queda em queda, teve, por força das circunstâncias, de chefiar um grupo, em que se alistaram criminosos da pior espécie.
Este serviu, durante muito tempo, às ambições de políticos da Paraíba e vivia na intimidade de elementos de destaque da política cearense.
Quando, no meu Estado, cogitaram de organizar os célebres batalhões patrióticos, Lampião foi convidado pelo “general” legalista para assumir uma posição de comando nas hostes governistas.
Essa declaração foi feita pelo padre Cícero, do Juazeiro, ao meu jornal e pelo próprio Lampião, em entrevista que nos concedeu.
Só ultimamente, é que se verificou o rompimento de relações entre esse famoso bandido e conhecido cangaceiro político da Paraíba. Essa desinteligência foi até registrada pelos vates do sertão.
Lampião, como vê, está ligado à história pátria como um dos baluartes da legalidade. Por mero acaso, ele não é hoje um herói nacional, depois de ter sido, durante muito tempo, um colaborador dos políticos do sertão.
Nessas condições, é evidente que, enquanto perdurar essas semelhanças entre os políticos e os bandidos, os governos que prestigiam àqueles não podem dar combate a estes.
No meu Estado, os amigos do governo – aliás chefiado por um desembargador – para ganharem uma eleição de prefeitos, mandaram a polícia prender um juiz de direito e um promotor.
Não é de admirar que Lampião recorra ao saque para alimentar os seus homens e ao assassinato para se defender dos seus inimigos. O banditismo de Lampião é muito justificável do que o dos políticos governistas.
- Não acredita, pois, na extinção da praga que, de tempos imemoriais, vem infestando o interior nordestino?
- Absolutamente, não.
Acho até que essa iniciativa dos governos é uma falta de camaradagem.
É mais uma classe desunida.
______________
Júlio de Matos Ibiapina (Aquiraz, 22 de setembro de 1890 - Rio de Janeiro, 1947).
quarta-feira, 20 de março de 2019
O POVO, Edição de 22 de novembro de 1948
Primeira reportagem da série "As Façanhas do Rei do Cangaço", publicada no Jornal O POVO em 22 de novembro de 1948.
A partir do dia 22 de novembro de 1948, o Jornal O POVO passou a publicar uma série de 11 reportagens sobre a vida criminosa de Virgulino Ferreira, conhecido como Lampeão e seu bando de cançaceiros.
A primeira reportagem teve o título "Revelação de uma irmã do rei do cangaço:
Lampeão não foi morto pela polícia" que foi escrita pelo jornalista e farmacêutico José Geraldo da Cruz.
"Na verdade, ninguém está em melhores condições do que José Geraldo para fazer a crônica emocionante da capital do fanatismo e do cangaço, a única terra que Lampeão respeitou e amou. O chefe da UND, antecipa-nos alguns itens da sua narrativa sensacional. A respeito do Rei do Cangaço, de cuja trajetória sangrenta o Nordeste ainda está cheio de marcas, afirma-nos que o célebre bandido não foi morto pela polícia.
E, antes que externássemos nossa surpresa e incredulidade, acrescentou:
- A fonte onde obtive esta informação é a melhor possível: uma irmã do próprio Lampeão, que residiu em Juazeiro e morreu recentemente.
Era conhecida aqui por todo o mundo. Pena é que você não a tenha encontrado viva. Mas eu lhe posso dar todos os detalhes sobre o assunto, e qualquer juazeirense os confirmará. Chamava-se Virtuosa Ferreira e morava à rua Santa Rosa. Sou padrinho de um filho dela. Virtuosa se correspondia com seu mano, Lampeão (Virgolino Ferreira), de quem, mensalmente recebia dinheiro.
Quando foram estampados nos jornais as cabeças dos cangaceiros trucidados pela polícia de Alagoas, ela ria-se diante daquela que era atribuída a Lampeão, exclamando que seu irmão não era aquele, pois morrera num recanto do interior da Bahia.
Tinha bilhetes comprovando tudo isso."
Créditos para José João de Souza
segunda-feira, 13 de agosto de 2018
Leandro Cardoso em entrevista
Por: Luana Sena
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| Foto: Mauricio Pokemon |
A paixão de Leandro pelo tema começou aos 12 anos, quando ganhou de presente do avô o livro “Lampião, cangaço, nordeste”. As marcas na dobradura dão pistas sobre o tempo, mas ele não é o mais antigo – nem seria o primeiro – livro daquela coleção. De lá para cá, Leandro seguiu lendo e pesquisando tudo o que diz respeito ao cangaço.
Leandro trabalhou por dez anos em São Paulo, “a capital mais nordestina de todas”, diz o médico. No consultório, conversa vai, conversa vem, vez por outra ele encontrava descentendes de cangaceiros – primos, irmãos, filhos – ou mesmo dos volantes (Força Volante era a tropa do governo montada para combater os cangaceiros nos anos 1930). “Eu fui médico da dona Mocinha, irmã de Lampião”, relembra. Cada personagem descoberto era como uma peça que faltava no quebra-cabeça do pesquisador.
Em maio de 2002, Leandro recebeu uma ligação inesperada de Aracaju. A voz do outro lado da linha disse sem cerimônia:
– A cabeça do vovô está aqui em casa, você gostaria de ver?
Era Vera Ferreira, neta de Lampião. Pegou o primeiro avião. Tornou-se o segundo médico a confirmar que Lampião não era “lombroso” – a expressão remete ao médico italiano, Cesare Lombroso, criador da teoria de que traços físicos podem denunciar um perfil criminoso. “Orelha de abano, fronte fugidia, caninos possantes, eram algumas das características de um lombroso”, explica o médico. A teoria caiu em desuso, mas a curiosidade dos pesquisadores sobre Lampião permaneceu porque ninguém nunca tinha tido a oportunidade de examinar tão profundamente essas características.
Lampião e mais nove integrantes de seu bando foram mortos em 1938 por tropas da polícia na Gruta do Angico, sertão sergipano. As cabeças foram decepadas e permanceram por anos no Instituto Nina Rodrigues, na Bahia, até a família de Virgulino conseguir na justiça o direito de enterrá-la, no cemitério Quinta dos Lázaros, em Salvador. Mas, o início dos anos 2000 trouxe fortes chuvas a região, e a defesa civil obrigou a retirada das urnas do local. Elas foram entregues novamente as famílias. “Como eu sou amigo da Vera e ela sabia que eu estava escrevendo um livro, me ligou com essa proposta e eu nem pensei duas vezes”.
O exame resultou no livro “Lampião: a medicina e o cangaço – aspectos médicos do cangaceirismo”, escrito por Lendro em parceria com Antônio Amaury Corrêa de Araújo, umas das maiores referências em cangaço no Brasil. “Eu pude examinar o occipital dele por dentro e Lampião não era um lombrosiano nato”, diz o médico. O livro traz ainda outros diagnósticos sobre a figura do cangaceiro mais famoso da história, como a cegueira no olho direito. “Se você pegar a literatura, cada um diz uma coisa: catarata, glaucoma, mas tudo da boca pra fora”, afirma o pesquisador. “Durante um combate com uma volante, em 1925, uma bala pegou num espinheiro que estava perto de Lampião e ele foi atingido”, explica Leandro. “A causa mais comum de cegueira no sertão é trauma”, continua. “Se ele tivesse feito um transplante de córnea, provavelmente voltaria a enxergar, mas naquela época não existia”. Lampião virou um cego funcional e teve que aprender a ser canhoto quase aos 30 anos de idade.
Na prateleira, o livro escrito por Leandro divide espaço com mais de 100 títulos. Há ainda uma videoteca com filmes como “O cangaceiro”, de Lima Barreto (1953), “Nordeste sangrento”, com o estreante ator Paulo Goulart (1963) e “Baile perfumado”, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira (1996). Entretanto, o filme mais precioso ali é um DVD um tanto caseiro com 11 minutos de imagens de Lampião e seu bando, registrados pelo sírio-libanês Benjamin Abraão na década de 1930. “Lampião aceitou que o libanês os filmasse porque ele era secretário de Padre Cícero”, explica Leandro. O filme ficou por anos preso no porões da ditadura Vargas e só se conhecia, afinal, seis minutos de gravação. “Benjamin passou meses lá com os cangaceiros, é provável que existissem horas e horas de gravação, mas boa parte do filme foi perdida ou danificada”. Foi Leandro e o cineasta Wolney Oliveira que encontraram, na cinemateca brasileira em São Paulo, mais cinco minutos inéditos de imagens.
Além do acervo literário e visual, o médico também guarda peças originais do vestuário dos cangaceiros: chapéu, bornais floridos, cartucheiras, alpargatas e punhais – um deles foi presente de Moreno, considerado um dos cangaceiros mais valentes do bando de Lampião. “Parando minha recordação, eu ainda matei 21”, diz Moreno, aos 99 anos, no documentário “Os últimos cangaceiros”, lançado este ano no Brasil. Leandro conheceu Moreno e a mulher, Durvinha, cujas histórias de vida daria um filme. E deu! (Leia abaixo!)
Leandro fala de cada detalhe da indumentária do cangaço com um misto de admiração e extase. Ele sabe de cor as falas de Lampião no filme mudo. Tem na mente as datas dos combates, faz viagens frequentes para regiões que foram marco do “banditismo social” brasileiro e refuta pesquisadores. Para ele, um dos maiores equívocos é confundir o cangaceiro com a figura de um bandido. “O código penal da época era surra, bala e punhal”, explica. “Tratar o cangaceiro como bandido é um erro porque esse era o modus operandi daquela época”, defende. “A polícia agia assim e o coronel também”.
O médico vê o cangaço como uma manifestação contra a colonização, “um irredentismo brasileiro”, diz, citando a teoria de Frederico Pernambucano de Mello. “Cada vez mais eles foram empurrados pro sertão porque queriam viver sem lei nem rei”, afirma. O que os diferencia do bandido comum? “O bandido tende a se ocultar, viver na surdina. O cangaceiro não. Ele não se acha bandido porque tem um código de ética muito próprio. Você acha que um cara que se veste daquele jeito quer ficar oculto?”
O estilo cangaço também é outro ponto de equívoco sobre o que se prega a respeito de Lampião. Ao contrário do que vemos nas imagens da época, todas sem cores, as roupas não eram cinza, muito menos de estampa camuflada. “Parecia alegoria de carnaval”, brinca o pesquisador. “A roupa é espalhafatosa, mas nada daquilo é supérfluo”, explica enquanto mostra a forma correta de se abotoar um bornal. “Eles usavam quatro bornais em volta do ombro. O cara carregava mais de 30 quilos e podia rolar no chão que não saia nada do corpo”. Muitos desses detalhes estão no livro “A estética do cangaço” (Frederico Pernambucano de Mello), que traz ainda curiosidades sobre lenços, perfume francês, óculos alemão e outros delírios de consumo do vaidoso Lampião. “Era tudo muito bem feito, costurado em máquina, tinha uma preocupação visual”, diz o médico. “O faroeste americano não chega nem perto”.
Em outubro deste ano, algumas dessas peças vão estar expostas no 4º Congresso Nacional do Cangaço que acontece pela primeira vez no Piauí, na cidade de São Raimundo Nonato. Organizado pela SBEC (Sociedade Brasileira de Estudos Sobre o Cangaço), o evento vai reunir (de 27 a 31) os maiores pesquisadores brasileiros sobre o tema – Vera Ferreira, neta de Lampião, confirmou presença para uma palestra. Leandro, que coordena o evento, também vai ministrar palestra e lançar nova edição de seu livro – serão cinco dias entregue a histórias de sangue e sertão pra faroeste americano nenhum botar defeito. “A gente não acredita no que a gente tem”, diz o pesquisador intrigado com o fato de Hollywood vender há anos Billy the Kid como o maior fora-da-lei de todos os tempos. “Ele matou três pessoas! Três! Agora veja Lampião”, propõe. “Se Tarantino visse um negócio desse ficaria louco!”.
Os últimos cangaceiros
Ninguém podia imaginar que o pacato casal Jovina Maria da Conceição e José Antonio Souto, ambos com mais de 90 anos, tinham um passado tão misterioso quanto impressionante. Por quase cinquenta anos eles esconderam dos filhos um segredo revelado somente no século XXI: eles foram cangaceiros integrantes do bando de Lampião.
Os pesquisadores nunca chegavam a um consenso sobre o paradeiro daqueles que escaparam ao confronto sangrento em Angico, no Sergipe – alguns apontavam Ceará e Maranhão como possíveis destinos dos cangaceiros. Outros afirmavam que eles haviam morrido. Porém, escondidos atrás dos nomes falsos sobre os quais refizeram suas vidas em Belo Horizonte, estavam, na verdade, Antônio Ignácio da Silva, o Moreno, e Durvalina Gomes de Sá, a Durvinha.
Ele, cearense, e ela, pernambucana, estavam no interior do Ceará quando souberam da morte de Lampião e dos demais companheiros, em 1938. Disfarçados de retirantes, seguiram rumo ao sul, mudaram de nome e fizeram um pacto de nunca contar a ninguém o segredo.
A história teria mesmo ido ao túmulo, não fosse o fato de, pelo caminho, os cangaceiros terem deixado um filho, aos três meses de vida, aos cuidado de um padre em Tacaratu, no interior de Pernambuco. Acometido por uma doença em 2006, Moreno resolveu revelar a família o desejo que tinha de reencontrar o primogênito. Os filhos puseram-se a procurar o irmão, em Tacaratu, quando se depararam com a surpresa: “Ah, o filho dos cangaceiros?”
Com a revelação, pesquisadores de todos os cantos voaram para colher de perto os novos relatos e as recordações de Moreno e Durvinha – sabe-se que ela foi, num primeiro momento, mulher de Virgínio, cunhado de Lampião. Com a morte dele, Moreno assumiu Durvinha – era proibido mulher sozinha no bando.
A história virou enredo do documentário “Os últimos cangaceiros”, produzido por Wolney Oliveira. É o primeiro longametragem documental sobre o cangaço e, no seu lançamento mundial, em 2014, foi premiado em festivais de cinema no México, Havana e Bolívia. Moreno e Durvinha não chegaram a ver o filme pronto – ela morreu em 2008, ele, centenário, dois anos depois.
Além de relatos dos ex-cangaceiros, filhos, parentes (e o reencontro com Ignácio, o filho mais velho, deixado no Pernambuco), o longa traz cenas inéditas das gravações feita pelo libanês Benjamin, nos anos 1930 (aquelas, recuperadas por Leandro e Wolney na cinemateca). A produção conseguiu colorir frame a frame algumas imagens, que, além de modernizar, dão uma ideia mais realista da estética do cangaço. Outro trunfo são as legendas nas falas de Lampião e seu bando: uma equipe especialista foi contratada para decifrar o que os cangaceiros falavam no filme mudo. Wolney colocou Moreno e Durvinha para se reverem nessas imagens – o resultado, emocionante, está no documentário.
Pesquei em www.revistarevestres.com.br
terça-feira, 3 de julho de 2018
Há 41 anos
Lampião, o rei do cangaço está vivo e cego de um olho. Tem 86 anos e mora escondido em uma fazenda no interior de Minas Gerais. Quem garante é "Zé Paraíba", famoso tocador de sanfona conhecido em todo o sertão paraibano e de Alagoas e amigo do cantor Waldick Soriano (1933-2008).
Zé Paraíba, nome artístico de José Salete, diz que nasceu no dia 7 de agosto de 1932 e que foi sanfoneiro de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Foi o próprio sanfoneiro quem contou a sua história, publicada no jornal "Notícias Populares" em 17 de novembro de 1977.
Lampião e seu bando costumavam se hospedar em fazendas durante suas viagens pelo sertão. O pai de Zé Paraíba, José Leite, era proprietário da fazenda Lage Vermelha, no alto sertão da Paraíba.
Lá o grupo de Lampião se hospedava frequentemente. "Meu pai, José Leite, tocava oito baixos (sanfona) na fazenda Lage Vermelha, e eu segui o seu caminho. Foi nela que o velho conheceu Lampião. O Virgulino costumava passar na fazenda do meu pai, que era uma das mais conhecidas do sertão paraibano e ali se 'arranchava', pedia pousada constantemente."
"Com o tempo foi nascendo uma amizade entre meu pai e o rei do cangaço."
Zé Paraíba continua sua narrativa, contando a experiência de ter vivido com Lampião e seu lendário bando. Maria Bonita, Corisco, Dadá, Pilão, Gavião, Volta Seca. O bando todo se arranchava na fazenda.
Aos nove anos, o músico estava tocando uma pequena sanfona na fazenda Belo Jardim, vizinha da de seu pai. Foi quando ele viu a tropa de Lampião se aproximar.
"Os cabras gostaram das músicas de forró que eu tocava e me raptaram. No começo do rapto eles me maltrataram um pouco porque não sabiam que eu era filho de José Leite. Depois que Lampião ficou sabendo quem eu era ele recomendou aos cabras que não me maltratassem e mandou avisar o meu pai na fazenda", disse Zé Paraíba.Depois que Lampião soube quem era o menino as coisas começaram a melhorar. O sanfoneiro ficou mais tranquilo e passou a tocar músicas para Maria Bonita. Os homens do bando pediam a música da mulher de Lampião. Então ele tocava "Mulher Rendeira". Todos gostavam e dançavam.
Zé Paraíba revelou porque o rei do cangaço se tornara um bandido e um contraventor das leis e da justiça:
"O Lampião me falou que nunca teve ideia de sair por aí 'cangaceando' e fazendo mal para os outros até que viu o pai dele morrendo com 37 facadas. Ele ficou louco durante três dias e depois partiu para a vida do cangaço. Mesmo assim ele não atacava os coitados, ele só atacava quem não gostava dele".O músico se lembra de um episódio que aconteceu num povoado do sertão baiano chamado "Queimados".
O bando estava arranchado em uma fazenda próxima. Lampião mandou avisar que entraria na cidade às oito horas do dia seguinte e que era para os macacos (policiais) se prepararem.
Quando ele chegou à cidade só havia seis soldados. Então a tropa tomou conta do lugar e Lampião ordenou ao povo que dançasse nu na praça. Todo mundo tirou a roupa e dançou pelado na praça. O bando todo ficava olhando e com arma apontada. Quem desrespeitasse a moça que era seu par corria o risco de ser castrado. Zé Paraíba tocou forró para o povo dançar pelado durante três horas. Depois disso Lampião mandou todo mundo se vestir e ir para casa.
Homens mais próximos de Lampião, José Leite e seu compadre, estiveram com o rei do cangaço no começo de 1977 e disseram que ele estava vivendo em uma fazenda no interior de Minas Gerais e com o nome trocado.
"Aquele negócio das cabeças que andaram mostrando por aí eu não acredito porque meu pai e seu compadre foram ver e disseram que não era a dele", disse Zé Paraíba.
O sanfoneiro não concorda com o que muitos dizem que Lampião fosse um homem mau.
"Eu discordo de muita coisa que se diz por aí. Ele não era um cabra sanguinário. Antes de atacar uma fazenda, ele mandava alguém para sondar se o fazendeiro gostava ou não dele. Se o fazendeiro falasse que não gostava, aí ele atacava. Senão ele ficava ali mesmo e não agredia ninguém.""Ele tinha o coração bom e me salvou da morte. Logo que me raptaram, Volta Seca e mais alguns queriam me jogar pro alto e me aparar na ponta de um punhal porque eu não sabia tocar uma música. Aí chegaram ele e Maria Bonita e não deixaram".
Zé Paraíba ficou com o bando durante seis meses. Ele se lembra do que Lampião disse ao lhe devolver para seu pai:
"Zé Leite, vou lhe entregar seu filho, mas é com muita saudade que eu faço isso porque ele toca muito bem e faz tudo o que a gente pede."
O sanfoneiro afirma que este foi seu primeiro contato com a vida musical no cangaço, o que fez dele o famoso tocador de forró, com discos vendidos em todo o Nordeste.
Transcrito da Folha de São Paulo
Adendo Lampião Aceso
Antes que algum leitor dê o indevido crédito a esta matéria, que tem o intuito apenas de divulgar o que era noticiado sobre o Rei do Cangaço, lembramos que o jornal Notícias Populares que era também conhecido simplesmente como NP, foi um jornal que circulou em São Paulo entre 15 de outubro de 1963 e 20 de janeiro de 2001e era conhecido por suas manchetes violentas e sexuais. É considerado até hoje "sinônimo de crime, sexo e violência. Seu slogan era "Nada mais que a verdade".
O jornal era publicado pelo Grupo Folha, mesma empresa que publica os jornais Folha de S. Paulo e Agora São Paulo e publicava o jornal Folha da Tarde.
O que já denota as várias bizarrices contidas matéria acima é que, de acordo com o histórico deste impresso, o jornal Notícias Populares atraiu muitos desafetos dentro do meio jornalístico, que acusavam o veículo de exagerar nos noticiários e até inventar notícias. Para os leitores os fatos sugeridos pela redação do periódico eram apresentados como se fossem verídicos.
Nós poderíamos apontar as várias mentiras e erros na narrativa de Zé Paraíba, fazendo um simples confronto com a cronologia do cangaço. Mas vamos nos ater somente no segundo parágrafo, que é suficiente para dar-lhe o total descrédito. O sanfoneiro diz ter nascido em 1932, e que fora sequestrado pelo bando aos 9 anos, portanto em 1941, quando o cangaço lampiônico já havia sido extinto por completo. Sem mais, meritíssimo.
segunda-feira, 18 de junho de 2018
Opiniões
por Paulo Goethe
Em abril de 1937, o repórter Fernandes de Barros foi enviado pelo Diário de Pernambuco para mostrar como as chuvas haviam mudado o cenário no interior do Nordeste. O seu relato, publicado no dia 24, com direito a quatro fotos feitas por ele, apresentava uma realidade que poderia escandalizar os leitores do litoral. Pior que a estiagem, quem vivia no semiárido sofria mais era com o banditismo, agravado por extorsões e saques praticados pelas volantes, que deveriam manter a ordem e o direito.
A reportagem de Fernandes de Barros apresentou uma abordagem que vem ganhando força entre os pesquisadores do fenômeno do cangaço nas últimas décadas. Entre 1919 e 1927, agiam no interior nordestino pelo menos 54 bandos armados. Essa movimentação gerava uma instabilidade econômica em uma região que já apresentava um desenvolvimento inferior em relação ao Centro-Sul do país. Todos os setores produtivos da sociedade sertaneja sentiam-se ameaçados. Além dos saques nas pequenas cidades e ataques a fazendas, Lampião – o mais famoso dos cangaceiros, que só saiu de cena em julho de 1938 – instituiu uma nova modalidade criminosa: o sequestro.
Os fazendeiros não estão dispostos a arriscar a vida morando em sua propriedade. Há o êxodo para as cidades. Agora, não mais pelo flagelo da seca: por uma questão social. Se ficarem trabalhando, no fim da safra Lampião iria buscar o dinheiro da venda do algodão e do gado que levara para Rio Branco (atual Arcoverde). O pobre que passou os doze meses do ano embrenhado na fazenda plantando e criando para sustentar a família é obrigado a dar tudo aos bandidos e ainda fica preso para resgate. Tem de escrever aos comerciantes seus amigos pedindo dinheiro, como muitas vezes já tem acontecido.
Quando o cangaceiro sai, vem a polícia. Acusa-o de coiteiro e lá é o homem preso de novo e será feliz se não for bater com os quartos na cadeia, e não levar uma surra, como sucede sempre e como se deu ano passado nos arredores de Alagoa de Baixo, conforme as reportagens publicadas a respeito nesta folha.
Resultado: para resolver essa grave situação, os fazendeiros prejudicados não trabalham e vivem na cidade esperando que os bois e os cabritos cresçam em abandono, para terem com que se manter.
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| Imagem: Blog do Crato |
Ela calcula que, a partir de 1930, quando Lampião dividiu os cangaceiros em subgrupos, foram realizados cerca de 10 saques que rendiam 5 contos de réis por dia. Em 15 anos, a extorsão de pequenos e médios produtores sertanejos teria rendido a fortuna de 273 mil contos de réis, dinheiro suficiente para manter postos de pronto-socorro em cinco estados, além de uma Escola Normal e uma Profissional em cada um.
Enquanto os governos do Sudeste conseguiam subsídios para investir em produção e pesquisa, no Nordeste boa parte do dinheiro público era destinado ao combate à criminalidade. De acordo com Luitgarde, somente a Bahia recebeu 400 mil contos de réis para ação de combate ao cangaço, isso sem representar melhoria das estradas ou aparelhamento da polícia.
José Anderson Nascimento, em Cangaceiros, coiteiros e volantes, ressalta que o banditismo causou ainda uma grande queda de arrecadação nos estados nordestinos. Os cangaceiros assaltavam coletorias, incendiavam documentos, destruíam equipamentos. “Os fiscais não podiam viajar”, acrescenta. Luiz Bernardo Pericás, em seu livro Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica, ratifica a tese de que a criminalidade fez a diferença negativa no Nordeste.
De acordo com o jornalista Moacir Assunção, cujo livro Os homens que mataram o facínora: a história dos grandes inimigos de Lampião abordava os principais perseguidores do mais famoso cangaceiro, Virgulino Ferreira da Silva precisava manter a região que dominava bem longe do progresso: “Sagaz, ele percebia que o desenvolvimento do sertão conspirava contra o seu domínio.
Afinal de contas estradas, telégrafo, melhores comunicações e crescimento das vilas trariam, com certeza, mais soldados e proteção às pequenas povoações do interior. O seu tempo, como notava, passaria quando o sertão estivesse em melhores condições”.
No início da década de 1930, o caminhão passaria a ser mais usado como meio de transporte de tropas, constituindo uma poderosa vantagem para os inimigos do bandoleiro, em pleno governo Getúlio Vargas. Lampião chegaria a ameaçar alguns donos de caminhão que cediam seus veículos ao transporte de “macacos”. Menos de quatro anos depois, era a vez de entrar em cena as metralhadoras, que decretaram o fim dos cangaceiros.
Pescado no Diário de Pernambuco
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Tributo
Por Carlos Megale
Quando eu e o Sabino Bassetti iniciamos as pesquisas para o livro LAMPIÃO: Sua morte passada a limpo, tivemos a grata satisfação de conhecer o Sr.Manoel Dantas Laoyola, o ex-cangaceiro Candeeiro, ou simplesmente “Seu Né” para os mais chegados. Pessoa agradável com quem conversamos por diversas vezes sobre o cangaço, Lampião e a tragédia de Angico. Tantas e tantas vezes o visitei em sua casa na Vila de São Domingos que nasceu entre nós, uma grande amizade.
Aprendi a admirar aquele homem simples, quase centenário, com historias de vida dignas de um Gulliver. Durante nossas longas conversas, viajei no túnel do tempo e, coloquei-me entre os cangaceiros em suas intermináveis caminhadas, entre eles quando lutavam contra as volantes policiais e sentia frio na espinha quando me via no meio do combate de Angico. Menino pobre nasceu e se criou no município de Buíque em Pernambuco, de onde partiu um dia para as terras de Alagoas e, trabalhando duramente de sol a sol no roçado para ganhar o seu sustento, conheceu em 1936, um bando de homens com vestimentas esquisitas, chapelões enormes e armas nas mãos.
O grupo do cangaceiro Virgínio vinha com uma volante policial em seu encalço, quando passou pela fazenda onde morava o jovem Manoel que não sabia que seu patrão era um coiteiro. Tomado de pânico e sem saber muito bem o que fazer ou para onde correr, acabou acompanhando aqueles homens. Passou então a se vestir e a viver como eles e, sem querer, sem um motivo aparente, virou um cangaceiro. Depois de mais de três meses na nova vida, depois de perambular pela caatinga com os cangaceiros Português e Jararaca, depois de ser ferido a bala em um tiroteio, conheceu Lampião e acabou ficando em seu grupo.
Homem sério, jamais mentia sobre os fatos que narrava, limitando-se a contar somente aquilo que vivera ou tinha presenciado. Talvez por isso, por não compactuar com mentiras, diferente de muitos cangaceiros que durante a vida preferiram dar depoimentos distorcidos para agradarem determinados escritores, tenha muitas vezes sido ironizado e ridicularizado como “babá de cachorros”ou “fazedor de guizado”. Ele não foi nada disso e sua importância na historia do cangaço é significativa, já que foi um dos homens de confiança de Lampião.
Viveu os dois últimos anos de vida do cangaço presenciando muitos acontecimentos, narrando-os sempre com um brilho nos olhos e, sem esconder uma grande admiração pelo seu antigo chefe. Após deixar o cangaço e acertar contas com a justiça, saiu pelo mundo à procura de novos desafios, sendo soldado da borracha no norte do país e depois trabalhando como Candango na construção de Brasília, a nova Capital Federal que surgia no planalto central pelas mãos de Juscelino Kubitschek.
Carlos César de Miranda Megale.
Pesquisador e escritor do cangaço.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Opinião
O pesquisador e confrade Luiz Ruben compartilhou um recorte em que o jornalista e meu conterrâneo Ancelmo Gois, em sua coluna do Jornal do Commércio de Recife, edição de 16 de Dezembro de 2012, publicou a seguinte "nota":
Um conceito demasiado. Faltou especificar, completar o adjetivo com o termo "Funcional". Virgolino, mesmo limitado, sabia ler, "escrever" e contar. E não são as imagens que nos fazem duvidar ou acreditar em tal habilidade. São testemunhos de ex companheiros e até mesmo dos seus oponentes, disponíveis na literatura.
Vejamos o que localizei no livro de memórias do tenente João Gomes de Lira, conterrâneo e inimigo de Lampião que tem um capitulo sobre o aludido assunto:
Apesar de sertanejo inculto, vivendo em meio atrasado, José Ferreira procurou dar aos filhos a educação básica. O menino Virgolino Ferreira, assim como os seus irmãos Antonio e Livino receberam os primeiros conhecimentos no ano de 1907.
Os pesquisadores Antonio Amaury e Vera Ferreira em sua obra "De Virgolino a Lampião" ainda indicaram um outro professor chamado Justino de Nenéu 2.Residindo no Riacho São Domingos distrito do município de Vila Bella (Serra Talhada), enviou os três filhos mais velhos à casa do senhor Raimundo Gago, em Pitombeira, próxima a cidade de Vila Bella, afim de que os meninos frequentassem a escola pública do professor Auxêncio da Silva Viana... 1.
Um outro autor bastante consultado, o pernambucano Frederico Bezerra Maciel, também dedicou um capitulo sobre este período.
Os métodos pedagógicos que fizeram época foram de inegáveis resultados positivos: O sertanejo que se interessou, aprendeu a ler soletrando e cantando as 26 lições da famosa "Carta do ABC" de Landelino Rocha, que continha apenas 16 páginas. E da tabuada cantada ritmicamente em comum pela classe, com palmatória.
O professor Justino de Nenéu viera ensinar Virgolino e seus irmãos na casa da Fazenda Serra Vermelha, de Manuuel Ferreira de Lima bem perto da fazenda deles, a Ingazeira.3
Voltando as memórias de Gomes de Lira:
Entenda-se a escola aqui não como um espaço físico. As aulas eram dadas ao ar livre embaixo de Juazeiros e Quixabeiras.Naquela ocasião, tinha Antonio Ferreira, doze anos, Livino, 11 anos e Virgolino, 9 anos de idade. Em 1910, estudaram na "Escola" particular do Professor Domingos Soriano, na Serra Vermelha.
Hoje a escola Municipal de ensino fundamental e médio Domingos Soriano é um dos primeiros prédios públicos avistados pelos visitantes ao chegarem à Vila de Nazaré do Pico, distrito de Floresta em Pernambuco....Os alunos traziam de casa os banquinhos em que se sentavam para assistir às aulas à sombra das árvores. “O esforçado mestre não se furtava aos pedidos de pais residentes em outras fazendas das ribeiras adjacentes, os quais receberiam a rara oportunidade de poder proporcionar instrução aos filhos.
Outra referencial: Lampião – Cangaço e Nordeste de Aglae Lima de Oliveira nos traz mais informações.
Que o tempo de assistência com Domingos Soriano foi de apenas "90 dias". (Período em acordo com todos os depoentes). Que a mensalidade deste curso era de "dez tostões". Que o 'cabrinha' nunca havia levado os temidos bôlos ao ser testado em conhecimento de Tabuada e de algarismos romanos. E ainda sugere que o primeiro livro do qual Virgolino tenha explorado por completo foi o "Primeiro livro de leitura" de Felisberto de Carvalho. 4
O objeto da foto comentada por Ancelmo não era mero enfeite, nem instrumento de abano. Pelo método de soletração de Landelino ou de Felisberto é fato que Virgolino aprendeu a ler. Mais tarde aplicaria seu conhecimento ao se deleitar com os jornais e revistas que chegaram até ele.
Especialmente os que traziam manchetes sobre seus feitos. E, ainda que sem devida concordância, mas com uma caligrafia regular escreveu cartas. Hoje, documentos históricos preservados em museus e coleções particulares. Reproduções de alguns de seus escritos estão disponíveis em diversos livros e sites.
Como esta carta abaixo, endereçada a um fazendeiro de nome Cantidiano Valgueiro dos Santos Barros, dono da propriedade Tabuleiro Comprido no município de Floresta, PE. Na carta, escrita na peculiar maneira de Lampião se expressar, ele pede a Cantidiano dois contos de réis, de forma extorsiva, a fim de serem evitados “prejuízos”.
Segundo o pesquisador Artur Carvalho, que utilizou os conhecimentos profissionais de um especialista em paleografia , a “tradução” é a seguinte;
“Ilmo. Sr Cantidiano Valgueiro,
Eu (ou “le”) faço esta para “vc” mandar-me dois “conto dereis”, isto sem falta, não tem menos, para “vc” saber se assinar em telegrama contra mim como “vc” se assinou em um com “Gome” Jurubeba. Eu ví e ainda hoje tenho ele. Sem mais, resposte logo para “envitar” muito prejuízo. Sem mais assunto.
O pesquisador e colaborador Ivanildo Silveira teceu comentário em uma discussão anterior sobre este mesmo assunto:Cap. Virgulino ferreira Lampião. [sic]” 5.
"O Rei Vesgo dominava, a grosso modo, o idioma pátrio, comunicando-se, de forma clara, precisa, apesar dos erros gramaticais que cometia. Inclusive, ás vezes, empregava pronomes de tratamentos de forma correta. A grafia de seus famosos bilhetes, era perfeitamente entendível".
"Estude meu fio, estude pra não ser que nem sua avó, que não sabe nem pegar numa caneta, que dirá assinar o nome, não faço um "O" com um copo".
Fontes:
[1] Lira. João Gomes de, Lampião, Memórias de um Soldado de Volantes 2006 (vol. 2) Companhia Editora de Pernambuco – CEPE. Recife/PE, 2007. PÁG. 20
[2] Vera Ferreira /Antonio Amaury. De Virgolino a Lampião, 1ª edição, Ideia Visual, São Paulo, 1999. PÁG. 52
[3] Maciel, Frederico Bezerra. - Lampião, seu tempo e seu reinado, | I : As origens : Por que Virgulino se tornou Lampião? 3ª Edição. Petrópolis, RJ : Vozes, 1992. PÁG. 90
[4] Oliveira, Aglae Lima de. Lampião – Cangaço e Nordeste. 3ª edição, O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 1970. PÁG 22.
[5] Rostand Medeiros - Uma carta de Lampião e a história do soldado volante que se tornou ambientalista. Disponível em: http://tokdehistoria.wordpress.com/2011/10/12/a-carta-de-lampiao-e-a-historia-do-soldado-volante-que-se-tornou-ambientalista/Att Kiko Monteiro
sábado, 4 de agosto de 2012
Carta de repúdio
Por: Paulo Britto
O que dizer? Será a irreverência dos tempos atuais? Será a liberalidade desmedida e irresponsável, respaldada na impunidade? E o que pensar?
Em terra de cego quem tem um olho é rei? Não, em terra de cegos fura-se o próprio olho para comungar com eles.
Os cães ladram e a caravana passa? Não, os cães ladram, atacam e mordem, e a caravana passa molestada e desmerecida. Vemo-nos agora submetidos à anticultura que confunde e desnorteia os menos informados que anseiam conhecer a verdade histórica e não têm o conhecimento necessário para excretar esses dejetos pseudo-literários.
Abre-se espaço para as improbabilidades grotescas e desmedidas. Fomenta-se a irreverência, a ficção, a criatividade irresponsável, calcada em elucubrações, e devaneios de uma verdade insípida e renitente.
Deparamo-nos com escritos como: “Lampião, o invencível. Duas Vidas, duas mortes – O outro lado da Moeda” cheio de fundamentações infundadas, chegando ao absurdo de asseverar que o Lampião, morto na Grota do Angico, era um sósia: “arranjar o dublê de Lampião – um ladrão de cavalo preso em Alagoas adequado ao papel pela cegueira do olho direito”. Enquanto Maria Bonita, sua companheira, era “representada por um jovem (um homem, portanto), cujas feições lembravam as de quem ia tomar o lugar”. A despeito de todas as identificações feitas, não se conseguira descobrir que Maria Bonita era um homem.
Um outro escrito ainda recente mexeu com o mito Lampião, causando grande rebuliço no ceio dos cangaceirólogos, coloca Virgulino Ferreira da Silva como homossexual, conivente com um romance entre a sua companheira e o seu mais fiel cangaceiro (Luiz Pedro do Retiro) de inúmeros combates. A verdade é que por mais que se antagonize o Rei do Cangaço, se chegar a alegações dessa natureza, choca os reais escritores e revolta os familiares.
Agora, recentemente, nos vemos diante de mais um escrito, “A OUTRA FACE DO CANGAÇO - VIDA E MORTE DE UM PRAÇA”, que ao invés de procurar ressaltar a vida militar e morte do praça, ocorrida durante o combate de Angico, muda o foco, e de forma primária se expõe ao lançar calúnias e controverter os fatos, seguindo a linha dos antecessores citados. Embora trafegando, com as suas pesquisas recentes, nos mesmos caminhos que tantos já percorreram – distando mais de 70 (setenta) anos do ocorrido – esse autor descobriu fatos que pesquisadores que buscaram informações no momento próximo ao ocorrido e ao longo desses anos todos não descobriram.
O pesquisador, data vênia os demais pesquisadores, em entrevistas inéditas com participantes do combate, que nas suas existências longevas, não se cansaram em atender o intrépido autor que, em tempestuosos pensamentos contraditórios e formulando perguntas capciosas de sua conveniência para que o entrevistado, em resposta, num gesto de olho ou canto de boca confirme fatos que os demais deixaram escapar.
No escrito, (I) o comandante da volante (João Bezerra) mata o seu desafeto (o Soldado Adrião) de outra volante, que com ele disputava o amor de uma prostituta; (II) se vê obrigado a matar seu companheiro (Lampião) de noitadas de carteado; e (III) que 02 dias anteriores ao combate de Angico, com este estava carteando na fazenda do seu sogro (Francisco Corrêa). Por aí segue na mácula, no total desvario e com o pleno desconhecimento das personalidades de Francisco Corrêa de Britto e do próprio João Bezerra.
A censura é incabível, antipática e reprovável, mas a liberalidade desmedida e caluniadora desvirtua os valores morais. O que teremos para oferecer aos nossos descendentes e almejar para o futuro? Em sua folha de serviços prestados à corporação, segue abaixo um resumo da vida do Coronel João Bezerra da Silva, comandante das volantes por hierarquia e por se fazer líder irretocável dos que ali estavam tomando parte no combate de 28 de julho de 1938, em Angico/SE:
No combate de Angico, como Primeiro Tenente, já havia; participado de 03 (três) expedições de guerra fora do Estado de Alagoas, nas revoluções de 1925, 1930 e 1932; nomeado 09 (nove) vezes delegado; recebido 09 (nove) elogios e louvores em boletins da corporação; exercido o cargo de Prefeito Interventor na Cidade de Piranhas/AL; cumprido várias missões especiais; e travado vários combates com cangaceiros, inclusive Lampião.
Ao longo dos seus 35 (trinta e cinco) anos de carreira militar, consta nos seus apontamentos:
12 (doze) nomeações como delegado; 02 (duas) vezes como subdelegado; 02 (duas) vezes subcomandante da corporação; 12 (doze) vezes comandante de unidades da corporação; 17 (dezessete) vezes citados em elogios e louvores em boletins; 03 (três) expedições de guerra da história do Brasil; e 11 (onze) combates com grupos de cangaceiros liderados por Luiz Pedro do Retiro, Corisco, Gato, Zé Baiano, Português, Manoel Moreno, Moita Brava e o próprio Lampião.Homem que dentro dos padrões éticos de liberdade, igualdade e fraternidade, alcançou o grau 18 do filosofismo, dentro daquela que é conhecida como a consciência oculta da humanidade, a maçonaria. Para esse homem não pedimos acalentos e salamaleques, mas se não temos afinidade com o que é justo e correto, e não tivermos provas irrefutáveis, pela total falta de veracidade das informações, não conturbemos o trabalho daqueles que empenharam anos de estudos num esforço sobre-humano para preservar a história como ela realmente se desenvolveu.
E agora? Diante da perplexidade... Qual é a regra dos tempos atuais? A regra é não ter regra? Como sempre, me coloco à disposição e um forte abraço a todos os amigos desse conceituado blog.
Paulo Britto .'.
Filho do Tenente João Bezerra
Recife-PE
domingo, 1 de julho de 2012
Para quem não viu!
Por ser contada quase sempre pelos vencedores, a história do brasil costuma menosprezar seus heróis populares. No caso do cangaço, no entanto, a coisa foi um pouco diferente... Lampião, ícone do movimento dos cangaceiros, soube tirar proveito de uma das mais importantes invenções do início do século passado, para tirar o cangaço do sertão profundo e levá-lo ao conhecimento da população das grandes cidades.
Foi através da fotografia, dos registros fotográficos, que o cangaço ganhou as páginas dos jornais e excitou a imaginação popular. Fez de Lampião herói nacional e inimigo público número um do estado. Estado, que também soube usar o poder da imagem quando não hesitou em divulgar as imagens das cabeças decepadas de lampião e seu bando... Imagens que chocaram o mundo. Tudo isso, e muito mais, está registrado numa das mais importantes publicações brasileiras sobre o cangaço que está sendo entregue esta semana ao público brasileiro e é o tema do Grande Debate! Apresentação e moderação do jornalista Ruy Lima.
Na última quarta-feira 20/06 tivemos a grata oportunidade de participar ao lado dos confrades de GECC-Cariri Cangaço; Ângelo Osmiro, Ricardo Albuquerque e Aderbal Nogueira; do Programa Grande Debate, veiculado pela TV O Povo e que tem como âncora o jornalista Ruy Lima. O debate teve como ponto principal o livro "Iconografia do Cangaço", orgnizado por Ricardo Albuquerque e que traz um conjunto de imagens da época em que o fenômeno do cangaço imperava pelos sertões nordestinos.
Por mais de uma hora foi possível discorrer sobre vários aspectos ligados a esta mesma iconografia, quando nos detemos por exemplo, sobre a percepção que Lampião possuia "de sua própria imagem" e o quanto o rei do cangaço acabou utilizando-se da mesma, quando compreendeu o magnetismo que exercia sobre a população do sertão; outros aspectos foram abordados, como a presença das mulheres a partir de Maria Bonita, seu papel dentro do bando, o amor, a paixão, a vaidade, enfim.
Ricardo Albuquerque, o responsável pelo "Iconografia do Cangaço" , nos apresentou todo o cenário que antescedeu a grande saga do mascate Benjamin Abrahão em busca da fama por ser o primeiro a filmar o bando de Virgulino; a presença de avô de Ricardo, Ademar Albuquerque como grande financiador e incentivador da empreitada e todo o rosário durante mais de 15 anos, pelo qual foi submetido o espetacular material colhido pelo secrerário do Padre Cícero.
Ainda com a qualificada participação dos confrades Ângelo Osmiro e Aderbal Nogueira, foi possível discutir sobre as muitas imagens contidas no obra organizada por Ricardo Albuquerque que ainda traz um DVD com os 15 preciosos minutos do que restou das filmagens originais de Abrahão com o bando de Lampião; 4 desses minutos, totalmente inéditos.
A noite foi extremamente agradável, não só pela atmosfera do Programa e talento do grande apresentador Ruy Lima, mas e principalmente pelo oportunidade de levar mais uma vez ao grande público telespectador, um pouco dessa intrigante e sensacional história do cangaço no nordeste. O Grande Debate é veiculado na Tv O Povo de Fortaleza e será reprisado durante a semana em curso.
Manoel Severo
Sócio da SBEC, Diretor do GECC
Curador do Cariri Cangaço
O Grande Debate você assiste ao vivo de segunda a sexta às 19h na TV O POVO/Fortaleza (Canal 48 | Net 23 | TV Show 11 ou pelo Site
Pesquei na: TVOPovo/YouTube
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Por Narciso Dias
Sargento da PMPB
Conselheiro consultivo do Cariri Cangaço
Moderador deste "Sítio"


















