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terça-feira, 23 de julho de 2019

Simão Dias na história

Candeeiro e a cidade que não queria deixar os cangaceiros passarem

Manoel Dantas Loyola o "Candeeiro" narrou para Aderbal Nogueira sua prisão, da escolta de Zé Rufino e de uma cidade no Centro-Sul de Sergipe que não queria estar no trajeto dos condenados.

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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O Estado de Sergipe, 25 de Maio de 1934

Uma excursão à Anápolis
Uma entrevista bizarra com o célebre sargento José Rufino, comandante da volante que exterminou o grupo de 'Azulão'.


 Transcrição de Antônio Corrêa Sobrinho

Afazeres profissionais nos levaram sábado último à linda cidade sertaneja de Anápolis.

Dezesseis horas, aboletados no estreito banco de uma “marinete” rumamos aos solavancos, numa “prize” desabalada, estrada afora, em busca de Itaporanga, etapa que foi vencida numa bela “performance”, por uma bela estrada de esteira empiçarrada e ampla, que se nos abria, interminável, o horizonte à frente.

Salgado às 18 horas, Lagarto às 19 e às 20, afinal, avistávamos as primeiras luzes da “cidade sorriso”.

O domingo em Anápolis, surgiu preguiçoso e friorento, no marasmo amolecido das cidades sertanejas.

Um café confortante e saímos a prosear com amigos do comércio que, a despeito dos raros transeuntes, trazem, àquela hora, abertas as suas portas.

O assunto é sempre o mesmo: - falta de chuvas, política, e... Lampião. A cidade acabava de passar por mais um susto pregado por Lampião. Ao apelo de seus habitantes, ameaçados pelo bandido, o governo de Sergipe havia mandado estacionar na cidade uma volante da nossa polícia que fazia, nas imediações, a caça ao bandido. Soldados baianos da célebre volante do sargento José Rufino que desciam na pista do grupo sinistro, vagavam pela cidade na sua indumentária típica. A dez do corrente haviam tiroteado Lampião na fazenda Jitaí, no sertão baiano e refaziam-se, no momento, das grandes caminhadas.

O sargento José Rufino celebrizara-se no encontro com o grupo de Azulão a 14 de outubro próximo passado, aonde morreu o chefe Azulão e mais três comparsas.

José Rufino

Era o assunto forçado nas palestras aos poucos, talvez pela falta de outros, íamos nos interessando pelos seus detalhes, quando um sertanejo agigantado, abeirando-se do balcão em passadas largas e pesadas, pede ao caixeiro um par de sapatos número 44 que, infelizmente, não é encontrado.
Ombros largos, pescoço hercúleo, bronzeado, cartucheira ampla, pendida ao peso das balas alinhadas, o olhar frio, inexpressivo, traços fisionômicos fortes, o sertanejo dá de ombros e vai sair quando alguém lhe perguntou, quebrando o silêncio feito no momento:
- O senhor pertence à volante José Rufino?
- Sou eu o próprio José Rufino, respondeu com ênfase o sertanejo.
Uma entrevista

Zé Rufino é o primeiro em pé à esquerda.
(A foto não compõe a matéria original)

Assaltou-nos a ideia de uma entrevista com o chefe da volante mais afamada de quantos andam, neste momento, na pista dos bandidos. Notando o meu interesse o homem iluminou o olhar duro, se avizinhando da minha cadeira.
- Há quanto tempo anda o senhor na caça de bandidos? Perguntamos.
- Há três anos que entrei como “Provisório” na força baiana. Estive no encontro da Maranduba onde perdi um primo meu e um irmão do meu companheiro de agora, sargento Vicente Marques. Depois do fogo de 14 de outubro aonde acabei com o grupo de Azulão fui efetivado no posto de sargento.
 Meteu vagarosamente a mão no bolso do casaco, sacou de lá a fotografia sinistra de quatro cabeças decepadas e nos foi fazendo com o indicador, a apresentação mais estranha que temos tido:
- Aqui é Azulão. Este é Canjica, aqui é Maria e este o caboclo Zabelê. Deus me ajudou (em itálico). Foi uma boa caçada. A fotografia não está boa porque foi tirada em Monte Alegre (sertão baiano) depois de termos viajado um dia inteiro com as cabeças deles dentro de um surrão...
 Tudo isto nos ia sendo relatado com uma serenidade impressionante e trágica.
- Quantos homens perdeu neste combate?
- Dois só. Um ligeiramente ferido por três balas de raspão no rosto. Era meu rastejador. Quando se abaixava para examinar um rastro, recebeu uma descarga na cara. Já está bom.
- A sua tropa tem montadas?
- Soldado meu nunca montou. Soldado montado faz muito barulho e só anda na estrada. Na estrada, bandido não anda. Soldado meu não fuma de noite nem fala hora nenhuma. A gente faz tudo por sinal. O tenente Santinho é o que mais me recomenda: - longe de rua e de estrada se quiser encontrar com os bandidos.
- Quantos encontros já teve?
- Oito, contando com o do dia dez, na fazenda Jitaí.
- Por que não teve resultados neste último encontro?
- E eu sei?... Foi a sorte deles.
Nós demos na pista no dia 9 e saímos rastejando. De noitinha, o rastro baralhou-se num intrincado de macambira que a gente perdia de vista. Do fundo, aonde a macambira era mais alta, ouvimos vozes. Lá estava a caça. Meu pessoal se arrepiou e eu cochichei com o sargento Vicente Marques: - se avançarmos mais eles ouvem o barulho e se danam no mundo. Vamos dormir aqui. O sargento Vicente Marques que é um bicho certo no ponto (boa pontaria), esperou um tempão vendo se aparecia alguma cabeça para ele vazar. Mas, nada... De manhãzinha distribuí meu pessoal e lá vai bala. Eles gritaram de lá: - aqui também tem homem, macaco!... Gritaram assim nos xingando, mas arribaram no mundo que nós, sem podermos correr no intrincado da macambira, não encontramos mais ninguém quando chegamos no coito. Vimos lá muito sangue. Parece que ferimos algum dos 22 que estavam acoitados. Deixaram lá muita coisa que carreguei para Coité. Como vê vosmicê, é uma questão de sorte.
- E para onde deram os bandidos?
- Eles estão pra ir pra serra do Capitão.
- Estarão em Sergipe?
- Não creio. Quase que lhe posso garantir que Lampião não está em Sergipe.
"Sanharó"

Passou neste momento um soldado sergipano que, ao dar com o sargento, abraçou-o efusivamente.
- É o rastejador melhor que há neste sertão. Trabalhou comigo muito tempo. Bicho bom. Explicou José Rufino.
O soldado mirou-o com admiração, aparvalhado. Magricela, alto, pescoço fino e comprido, ligeiramente encurvado pra frente, seu corpo mirrava-se ainda mais, apertado à farda que vestia; rosto encarquilhado e vinculado por mil rugas, era o rastejador, o popular Sanharó, da polícia sergipana.

Outro tipo comum de sertanejo forte. Parece incapaz de uma agilidade. Resiste e age, entretanto, com uma capacidade assombrosa. Ao se abraçarem, pareceu-me um tronco de braúna que abraçasse uma vara de candeia. Braúna e candeia, o gigante e o pigmeu, resistem da mesma sorte às inclemências do meio em que vivem.

Estava satisfeita a nossa curiosidade e José Rufino e Sanharó lá se foram pela rua afora a procura dos sapatos número 44 tão difícil de encontrar como os bandidos que eles dão caça.

terça-feira, 26 de julho de 2011

O mais próximo que ele chegou de Lagarto...

Lampeão em Simão Dias, SE

Por: José de Carvalho Déda*

Do seu livro Simão Dias, fragmentos de sua história, 2ª Edição 2008. Capitulo XVIII "Bandidos e cangaceiros": págs 138,141.

A não ser por fatos isolados, Simão dias não conhecia façanhas de valentões e cangaceiros, senão pela leitura de livretos com historietas populares em versos, vendidos nas feiras, cuja s ações e façanhas tinham por cenários os longínquos sertões do Ceará, Paraíba e Pernambuco, onde se celebrizaram Antônio Silvino, Lampião e outros.

A cidade e seu município viviam na mais completa tranquilidade, sem noticias de bandidos. No ano de 1928, surgiu no nordeste baiano, o famigerado bando de Lampião, assaltando fazendas e povoações, matando , roubando, violentando mulheres, e impedindo o desenvolvimento da produção em todos os setores.

Um sistema de espionagem, desconhecido, inteligente e impressionante, surgiu de um momento para o outro em toda região. Era o chamado “Coiteirismo”, enchendo de pavor as populações rurais.  As fazendas, roças, sítios, foram abandonados pelos indefesos camponeses.
As correrias do temível bando iam, cada dia mais se a aproximando de Simão Dias. A população da cidade, de índole pacifica, desconhecendo lutas dessa ordem vivia sobressaltada, mas de algum modo confiada no destacamento policial, preventivamente reforçado.

A Anápolis assombrada por Lampião
Fonte:  http://www.outraversao.blog.br


O desassossego cresceu quando o destacamento foi recolhido, mobilizando em face revolução desencadeada no país, na madrugada de 3 de Outubro de 1930.

Desguarnecida, Simão Dias seria presa fácil para Lampião e seus sequazes. Na manhã do dia 17 de outubro de 1930, a cidade foi sacudida por um telegrama recebido pelo Cel. Felisberto Prata, alto comerciante da praça, comunicando a tentativa de assalto  a  cidade de Capela, pelo bando, e a partida do mesmo em direção deste município.

Começou o êxodo, a princípio ordenado, apenas para os que dispunham de transportes motorizados; logo mais, com a chegada de noticias do assalto à Vila de Pinhão, distante quatro léguas, estabelecendo-se verdadeiro pânico. As famílias desordenadamente partiam para os matos, com suas improvisadas trouxas.

Cerca das 15 horas, os bandidos se aproximavam da cidade. As vitimas começavam a chegar, infundindo maior terror.

Às 16 horas, foi improvisada uma resistência. O Dr. Marcos Ferreira (foto); ex aluno da escola militar, Antônio Carmelo e o autor deste trabalho, chefiavam o movimento, constituindo o seu “Estado Maior”.

A mobilização foi rápida sem atropelos. Os mais diversos tipos de armas, obsoletas em sua grande maioria, apareceram num instante: revolveres de diversas marcas, pistolas, garruchas, espingardas de caça dos mais variados feitios e calibres, velhos trabucos, bacamartes de festejos juninos etc.

Uma notável disciplina, entre os voluntários, enchia de entusiasmo e confiança os três homens do Estado Maior. Reunindo este, consertando os planos para a defesa da cidade, eis que chega o primeiro ultimato de Lampião. Era portador da mal escrita mensagem, o agricultor Fausto José da Conceição, conhecido por Fausto "Dodô", homem morigerado, que trazia no semblante a aflição por ter deixado um seu filho menor, o jovem João Conceição Neto, prisioneiro, como refém dos bandidos. Simão Dias deveria cotizar-se e mandar o dinheiro exigido, sob pena de ser assaltada imediatamente.

A intimação, ao invés de desanimar os locais encorajou-os para a luta, que seria desigual dada a inexperiência dos defensores.

Uma segunda intimação vinha de mais perto, da “Ladeira de pedras”, onde o bando se encontrava, olhando para a cidade.

Esta nova intimação levou os defensores a ocupar seus lugares. As platibandas das casas residenciais, ou comerciais, as esquinas, os becos, os montes de pedras ou material de construção, tudo servia de trincheira aos da resistência. Em dado momento o silencio foi quebrado. Ouviu-se um tiro, que pareceu ter sido disparado lá para os lados da “Ladeira de pedras”, onde se encontravam os bandidos.

Nisso o corajoso Manuel Oliveira, vulgarmente conhecido por Manuel dos motores, que chefiava um pequeno grupo, foi levado a uma temeridade providencial.  À frente dos seus rapazes, tomou a ofensiva, marchando direto para o lugar onde os bandidos e achavam.

Precipitadamente, o grupo fez fogo ante de atingir distancia para o alcance de suas armas. Foi o estopim. De todos os pontos da cidade, dos telhados, das esquinas, de todos os lados, enfim, partiam tiros e tiros num “pipoquear” formidável dos mais diversos tipos de armas, disparadas a esmo. Verdadeiro desperdício de munição. Mas esta imprudência levou o bando assaltante a acautelar-se. Lampião não contava com coiteiros que lhe expusessem a verdadeira situação da resistência, e não quis atrever-se a entranhar-se nas estreitas ruas, perigoso labirinto que desconhecia.

Houve a retirada para o interior, a tudo levando de roldão, num requinte de perversidade. Ao passar pelo sitio “Olhos D água”, o bando infrene espantou famílias ali escondidas, que correram de volta.

A meia-noite em ponto, o lúgubre silêncio da cidade escura foi quebrado por um disparo partido de um mata-burro, na estrada de rodagem, que servia de linha avançada dos defensores.

Atordoadas, as famílias fugitivas não compreenderam a senha que se pedia da trincheira, avançando precipitadamente de encontro à mesma. Uma infeliz senhora, em adiantado estado de gravidez, foi fulminada por uma bala que partira da resistência, num evidente erro de fato.

Também o disparo casal de uma arma conduzida por um dos rapazes de Manoel dos motores fulminou outra mulher.

Com a retirada dos bandidos para o interior, mesmo assim a intranquilidade permaneceu, pois conforme se sabia, a retaguarda do “Capitão” era sempre coberta pelo seu lugar-tenente, o temível  Corisco a frente de bando menor, mas igualmente destro e perverso.

Corisco, porem não viria pois que fora também obrigado a acautelar-se, com  a experiência de seu ataque ao sitio de Porfírio Chagas, no povoado Caraíba. Porfírio, setuagenário valente, sozinho em sua residência, com um rifle “papo amarelo” recebeu o grupo de Corisco à bala, com bastante animo para resistir.

Fugiram os assaltantes. Deixaram marcas de sangue nas estradas.

Os bandoleiros, anos a fio mantiveram a intranquilidade em todo o município, obstando o desenvolvimento da produção. O comercio de Simão Dias sofreu as desastrosas consequencias do “ciclo lampiônico”.

Com a vitoria da revolução de 1930, nomeado Interventor Federal em Sergipe o bravo militar revolucionário Augusto Maynard Gomes, todas as s garantias foram dadas às populações, até o completo extermínio do cangaceirismo na região.


Adendo: 

Algumas biografias recentes ainda atribuem a esta cidade do centro Sul sergipano sua antiga denominação Anápolis.

O jornalista José de Carvalho Déda (1898-1968), também conhecido como Zeca Déda, exerceu advocacia como provisionado por mais de quatro décadas foi vereador, prefeito e representou o povo por três legislaturas consecutivas na Assembléia Legislativa estadual (1947-1950; 1951- 1954; 1955-1958). Escreveu o Regimento Interno da Casa e participou de vários congressos parlamentares, sempre com a apresentação de teses. Foi o autor do projeto que resultou a emancipação política do município de Poço Verde. fundou e dirigiu o jornal ´A Semana´, no município de Simão Dias, do ano de 1946 até a sua morte. Foi também diretor e um dos redatores do Correio de Aracaju, um dos mais antigos jornais da capital sergipana. Além disso, marcou época atuando no rádio ao lado do ex-governador Seixas Dória nos programas ‘Resenha Política' e ‘Problemas em Debates'.  avô do governador de Sergipe Marcelo Déda.  


Pesquei em:  Infonet