Mostrando postagens com marcador Antônio de Amélia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Antônio de Amélia. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 26 de junho de 2025

O cangaço nas Alagoas

Os quatro de Matta Grande

Por Jaozin Jaaozinn

Nos anos de 1935, a campanha contra o banditismo fervilhava por todos os sertões. Não só contra eles, mas também contra aqueles que mais lhe apoiavam: os coiteiros. Em Alagoas, na fazenda Aroeirinha, das imediações da cidade de Mata Grande/AL, vivia Félix Alves Rocha, coiteiro de cangaceiros. Por sinal, era o senhor o qual Lampião tinha mais apreço nas redondezas, tanto pela lealdade quanto pela amizade que este tinha com seus “meninos”. Mas esta fama ia longe e, como um pássaro, notícias de seus trabalhos para bandidos voou até aos ouvidos do tenente José Joaquim Grande, onde deu o ultimato para o fazendeiro. 

Se não entregasse e cooperasse para a apreensão ou morte dos cangaceiros, seria ele quem arcaria com as consequências. Quem também sofria com esta angústia era o coiteiro Antônio Manoel Filho, conhecido Antônio de Amélia, do sítio Promissão, em que recebeu a mesma mensagem pelo dito militar. Afirmavam que Antônio se juntava com os cangaceiros e saía com eles para fazer estripulias, porém, em depoimento dele para a revista Região (1980) e ao Diário de Pernambuco (1935), disse que penetrou no bando entre os dias 16 e 17 de setembro, junto com o primo Sebastião Alves e o amigo Antônio Tiago — falaram que liquidaram um soldado para que os cangaceiros os aceitassem —, para vingar o compadre Antônio Mizael, sangrado por Corisco, e outras desavenças. Nessa tramoia, antes mesmo de entrar no grupo, combinou com Félix e seus filhos (Sebastião, João, Benedicto, e José Alves, o Zeca) e seus sobrinhos (Alfredo e José Alves da Silva, o Zuza) que iriam dar cabo dos bandidos, livrando, assim, dos crimes de “acoitagem”. 

No dia 18 de setembro, Virgolino deu os afazeres para os sub-grupos e outros pequenos bandos. O bandoleiro Suspeita foi incumbido de pegar algumas encomendas que estavam na fazenda Aroeirinha, de Félix, e depois matar os homens de nome Alfredo Curim, Zé Horácio da Ipueira e 6 ou 7 da família Bento. Para a missão, Suspeita chama os cabras Medalha, Fortaleza e o valente Limoeiro, além de Antônio de Amélia e cia. Com a certa desculpa de que iria preparar tudo, Antônio Manoel partiu primeiro para a casa do compadre, com toda certeza que iria avisar sobre a chegada dos homens. 

O grupo finalmente se arrancha no local. Faz as prévias saudações e ficam no terreiro da casa. O dia vai caindo e a noite vai se levantando; preparam então uma fogueira para se esquentarem. Alfredo e José Alves, o Zeca, já estavam postos; Zeca traz consigo uma rabeca para divertir mais ainda os cangaceiros, pois já estavam bebendo, comendo e jogando cartas descontraidamente. Estavam eles contando causos e relembrando alguns combates. Medalha estava em pé, "encorado" em uma catingueira; Fortaleza tinha colocado o seu embornal em um toco e escorou nele, ficando voltado ao fogo; Limoeiro ao lado de Tiago, ouvindo os assuntos; e Suspeita longe, conversando com Sebastião. Quando bem bêbados, os Alves botam o plano em ação.  

O de Amélia combinou que o primeiro a morrer seria Fortaleza, matado por ele, e que depois seria os demais. Aproveitou o cochilo do bandido e, com o fuzil em mãos, foi por trás, mira na cabeça e o tiro falha. Rapidamente, coloca o fuzil nas costas e passa por debaixo do galho, para despistar. Limoeiro, apreensivo, pergunta o que foi aquilo. Antônio de Amélia diz que a arma detonou na hora que passou pelos galhos. Assim, o cangaceiro voltou a repousar. Descarta a bala e coloca outra, deixando o fuzil preparado. Já estava amanhecendo, umas 04 horas da manhã; o proprietário da fazenda Promissão vai na fogueira e prepara o café. Antônio novamente pega o fuzil, vai até as costas do cabra, mira na sua cabeça e o armamento não nega fogo. Morre o primeiro. O bando acorda e se levanta rapidamente, mas não dão conta.

Tiago já havia se pegado em Limoeiro, enquanto Sebastião se atracou com Suspeita e Alfredo com Medalha.  

Sebastião enrola-se com Suspeita, e vendo que o cangaceiro iria puxar o seu longo punhal, pede para que alguém matasse o bicho, senão morreria rapidamente. Antônio de Amélia, então, dá uma coronhada na boca do bandoleiro, onde conseguem dominar e matar o rapaz. Morre o segundo. Correm até onde estava Tiago com Limoeiro que, mesmo ferido a bala, lutava feito uma fera. Sebastião pega nos cabelos do bandoleiro, afirma que foi ele quem matou Antônio Mizael, e atira contra o primo de Dadá. Morre o terceiro. Todos se juntam para onde Alfredo estava com Medalha, impedindo que o parente matasse o cangaceiro, com o objetivo de tirarem dele alguma informação. 

Em breve diálogo dele (Medalha) com Sebastião, pergunta: “como é que você faz uma coisa dessas; chamar seus parceiros para vir matar a gente?”. Tião responde: “vocês já estão acostumados a matar com facilidade, nós também podemos matar vocês com facilidade”. Porém, no meio da discussão, reparam que havia outro corpo inerte no chão. Era de Félix, pai de Alfredo e dos demais, que morreu ao se aproximar do local. Louco e sedento de sangue, Alfredo saca a pistola do bandido Limoeiro e atira bem na cabeça de Medalha. Morre o quarto.



Os mortos são levados em cima de animais até Inhapy — pertencente à Mata Grande/AL —, apresentando o resultado do combate e da perda lastimosa de Félix Alves para o tenente Joaquim Grande. Encomendam um caixão para o fazendeiro, enquanto simples mourões eram colocados para que fossem amarrados os cangaceiros. Chamam José Uchôa — o mesmo que fotografou o corpo do cangaceiro Cirillo de Engrácia no mesmo lugar e ano —, para imortalizar o momento com suas chapas iconográficas. Primeiro dos quatro sozinhos e depois os seus batedores.  Depois desta, os corpos foram enterrados no cemitério municipal do local: o de Félix certamente em cova familiar; os dos bandoleiros, em cova coletiva. Uma quantia de 4:070$000 foi achada em posse dos sequazes; o dinheiro foi dividido com todos.

Festa total com os moradores, e todos queriam ver a famosa foto. Os Alves ficaram conhecidos como “os matadores de cangaceiros”; alguns até pensaram em se alistar na volante. Porém, a tempestade maior viria. Corisco não deixaria isso passar impune, tampouco Lampião que foi traído por seu coiteiro. O corretivo chegaria, e seria feio. 

𝐹𝑂𝑁𝑇𝐸𝑆: 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐷𝑖𝑎́𝑟𝑖𝑜 𝑑𝑒 𝑃𝑒𝑟𝑛𝑎𝑚𝑏𝑢𝑐𝑜, 1935; 𝑟𝑒𝑣𝑖𝑠𝑡𝑎 𝐴 𝑁𝑜𝑖𝑡𝑒 𝐼𝑙𝑙𝑢𝑠𝑡𝑟𝑎𝑑𝑎/𝑅𝐽, 1935; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐴 𝑇𝑟𝑖𝑏𝑢𝑛𝑎/𝑆𝑃, 1935; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝐶𝑜𝑟𝑟𝑒𝑖𝑜 𝑃𝑎𝑢𝑙𝑖𝑠𝑡𝑎𝑛𝑜, 1935; 𝐽𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝑅𝑒𝑔𝑖𝑎̃𝑜/𝐶𝐸, 1980; 𝐿𝑎𝑚𝑝𝑖𝑎̃𝑜, 𝐴 𝑅𝑎𝑝𝑜𝑠𝑎 𝑑𝑎𝑠 𝐶𝑎𝑎𝑡𝑖𝑛𝑔𝑎𝑠 — 𝐽𝑜𝑠𝑒́ 𝐵𝑒𝑧𝑒𝑟𝑟𝑎 𝐿𝑖𝑚𝑎 𝐼𝑟𝑚𝑎̃𝑜; 𝑆𝑟. 𝐺𝑢𝑒𝑟𝑟𝑎; 𝐶𝑎𝑛𝑔𝑎𝑐̧𝑜 𝐸𝑡𝑒𝑟𝑛𝑜 — 𝑐𝑎𝑛𝑎𝑙 𝑑𝑜 𝑌𝑜𝑢𝑡𝑢𝑏𝑒; 𝑁𝑎𝑠 𝑃𝑒𝑔𝑎𝑑𝑎𝑠 𝑑𝑎 𝐻𝑖𝑠𝑡𝑜́𝑟𝑖𝑎 — 𝑐𝑎𝑛𝑎𝑙 𝑑𝑜 𝑌𝑜𝑢𝑡𝑢𝑏𝑒.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Revista "Região" de Crato/CE.

A vingança do Tenente Antônio

Reportagem de Osvaldo Alves

Jornalista Osvaldo Alves de Souza
Dizendo chamar-se legitimamente Antônio Manuel Filho, o tenente Antônio de Amélia, famoso por haver vingado a morte de um sócio, matando três cabras de Lampião, recebeu o repórter na sua Fazenda Piau, a cinco quilômetros da cidade de Ouricuri. Naquela visita fizemo-nos acompanhar do Dr. Edilton Luna, Promotor de Justiça de Bodocó e do jornalista Francisco Rocha, correspondente de "Região" no estado de Pernambuco.

A historia do tenente Antônio é longa e cheia de lances perigosos. Nascido em Alagoas, na cidade de Mata Grande, AL pertenceu a Policia pernambucana, na época de Lampião. Hoje é tranquilo fazendeiro em Ouricuri, somente molestado pela insistente curiosidade de algum repórter da revista Região, pois fomos os únicos, até agora, a localizar, no seu retiro, o valente oficial reformado da Policia pernambucana, muitos anos depois de sua arriscada aventura.

Trajando calça escura e camisa branca, óculos de grau a ponta do nariz, foi assim que encontramos Antônio de Amélia no alpendre da Casa Grande da Fazenda Piau. Inicialmente meio arredio, mas logo se derramou em cordialidade e falou com toda franqueza contando sua historia, suas proezas, suas aventuras, finalmente o desfecho com a morte de quatro elementos do grupo de Lampião. Foi bate-papo longo, aqui e acolá entremeado de risos do nosso entrevistado, quando recordava um episódio cômico ocorrido em meio a mais terrível expectativa, nas horas de maior perigo.

Corisco sangra Mizael e desfecha-lhe dois tiros na cabeça.


Primeiro veio a noticia: mataram Antônio Mizael. Corisco - Conta-nos o Tenente Antônio - Tocaiou o meu sócio Mizael. Ele tinha uma propriedade - O sitio Catinga. Deu feira em Inhapi, e depois foi empreitar umas terras para plantação de feijão.

Em lá chegando deparou com Corisco, cabra do grupo de Lampião. Com a ajuda de outros três bandidos Corisco amarrou o meu sócio, em seguida sangraram-no e depois deu dois tiros na cabeça. Recebi telegrama em Caruaru comunicando o fato.

Meio tonto com a noticia fui a Inhapi e comuniquei ao Prefeito Antônio Mota que iria fazer uma tragédia com a morte de Mizael. Só Deus evitaria de matar um dos cangaceiros. Mizael será vingado, custe o que custar. E preparei o plano.

Familiares do Tenente eram amigos de Lampião. 

Após um cafezinho servido as visitas, Antônio de Amélia prossegue no seu relato: "Estando, certo dia, em uma firma comercial, em Inhapi, em companhia do meu amigo corretor Pedro Paulo, expliquei para ele o meu desgosto por ter sabido da grande amizade de pessoas de minha família com Lampião e seus cangaceiros. Sendo eu da família, prefiro ir embora a ver acontecer alguma coisa desagradável com eles. A uma perguntas de Antônio Paulo, que o maior relacionamento de Lampião era com o meu parente Sebastião. Soube até que ele tem um rifle do bandido para consertar, além de um cantil que eles mandaram fazer de zinco e tem ainda umas cartucheiras enfeitadas de metal, também para conserto.

 O encontro com Sebastião

Sem mencionar o sobrenome de Sebastião, Antônio de Amélia conta as providências tomadas na articulação de seu plano para vingar a morte do sócio Mizael. Protestando, de inicio, suas ligações com o grupo de Lampião, Sebastião findou concordando com Antônio de Amélia. No momento travou-se este dialogo, entre os dois:
- Sebastião, vamos liquidar esses cabras?
- Não, porque ninguém pode. Eles são muito desconfiados e valentes como cobras venenosas.
- Confie no meu plano. Garanto que dará certo.
- Estou até esperando por alguns deles, para entregar umas encomendas.
 A longa espera

Atendendo a uma sugestão de Sebastião, Antônio de Amélia conta que, em companhia de pessoa indicada por Sebastião, se dirigiu para o local não muito distante do sitio onde o seu parente teria encontro com os cabras de Virgolino. Ali aguardaria as noticias de Sebastião ou a ordem para se apresentar na casa onde estavam os bandidos. Antônio de Amélia conta que, durante oito horas, escondido no mato, ficou a espera de Sebastião, que só apareceu as dez da noite, esclarecendo que teve que realizar algumas compras em Inhapi e, de volta, demorou numa festinha de casamento.

- Pensei - disse Antônio de Amélia - que você tivesse denunciado o plano e nós é que iriamos morrer: A seguir Sebastião meio pessimista quanto ao bom resultado do plano do seu parente:

- Não vai dar jeito para vocês, apesar de Lampião não ter vindo com os cabras que já estão aqui. Quem veio comandando os cangaceiros foi Luiz Pedro, agora, tem muita gente. Estão distante daqui, uma légua.


Fingiram haver morto um soldado para gozar da confiança dos cangaceiros. 

Distante uma légua do sitio onde se encontravam Antônio de Amélia, seu primo Sebastião e Antônio Tiago, compadre do primeiro e amigo para enfrentar as mais difíceis situações, estava acampado um dos grupos do famoso bandoleiro do Pajeú. Foi neste local, conta Antônio de Amélia, que Sebastião, conhecido do grupo, pois para eles trabalhava em serviço de consertos de armas, costura de embornais e outras atividades de sua profissão, apresentou-me a mim e ao compadre Antônio Tiago: - Aqui é gente minha - esclareceu na hora da apresentação, adiantando: - Eles mataram um soldado e estão refugiados na Casa de João Aires. A policia os anda perseguindo, embora não saiba onde eles se encontram.

A historia da "morte" do soldado, ardilosamente criada por Antônio de Amélia, foi o bastante para que os estranhos passassem a gozar da simpatia e confiança do grupo. Para eles, cabras de Lampião era herói quem assassinasse um soldado e duas vezes herói quem matasse um oficial.

Integrados ao grupo, Antônio e seus companheiros passaram a dar os últimos retoques no plano. Pelo menos já haviam conseguido penetrar no bando, o que muito facilitaria a execução de tudo quanto imaginaram perpetrar para vingar a morte do sócio Mizael. Naquele mesmo dia, a sombra das árvores, comeram, beberam e dançaram, homem com homem.


Antônio de Amélia é o 4º à direita.

Interessante observação nos fez o Tenente Antônio de Amélia, a nos explicasse que mesmo sendo em pequeno grupo, os cabras de Lampião jamais dormiram todos agrupados num mesmo local. Na hora de dormir se espalhavam a fim de garantir uma reação no caso de serem surpreendidos por uma visita desagradável dos volantes policiais.

Encontro com Lampião. 

Reunidos ao grupo chefiado por Luiz Pedro, prossegue Antônio de Amélia na sua narração - Fomos a Fazenda de Pedro Ferreira, um amigo de Lampião.

Ali recebidos com muito queijo e carne seca de bode. Neste local os cabras demoraram pouco tempo. Daí seguiram ao encontro do chefe. A apresentação da mais nova aquisição do bando foi feita por Luiz Pedro.

- É gente de Sebastião - explicou o apresentador sob o olhar meio desconfiado de Lampião. Dada a grande confiança que gozava Sebastião junto a Lampião e seus cabras, os visitantes logo puderam ficar a vontade.

Grupo se divide para confundir as volantes

Contou-nos Antônio de Amélia: Todos os elementos do grupo estavam reunidos. Lampião, tendo ao seu lado a companheira inseparável Maria Bonita, começou a distribuir ordens. Precisava demorar, por muito tempo, naquele acampamento, para repouso, depois de longas caminhadas e reiterados encontros com as volantes policiais e de ataques a indefesas cidades nordestinas. Chamando Suspeita, um dos seus fiéis comandados, ordenou que fosse a cidade de Mata Grande. E prosseguiu o Rei do cangaço:
- Receba umas encomendas de Sebastião e depois, da Mata Grande mate Alfredo Curim, Zé Horácio da Ipueira e faça 6 ou 7 mortes na família dos Bentos que é para ficarmos aqui despreocupados. De lá viaje para onde quiser, que passe fora uns 15 dias a um mês. 

Alegando Suspeita, que os cangaceiros do seu grupo precisavam arrumar certas coisas, Lampião autorizou que retirasse elementos de outros grupos. Foi aí que Fortaleza, que era do grupo de Luiz Pedro, Medalha, que sempre acompanhava o chefe, e Limoeiro, que pertencia a outro, passaram a compor o pessoal de Suspeita para o cumprimento daquelas ordens. Ao mesmo grupo nos incorporamos. Isto é, eu, Sebastião e Antônio Tiago. Mais tarde, quando estávamos de passagem pelo município de Santana, Zeca, irmão de Sebastião e Alfredo, seu primo, se reuniram a nós, após as necessárias apresentações.

Em diferentes direções outros grupos saíram.

Seguindo as ordens do capitão Virgolino, diversos grupos seguiram em diferentes direções, com o mesmo objetivo de desviar a atenção das volantes e facilitar a permanência de Lampião, naquele local: Um deles, disse-nos Antônio de Amélia, se dirigiu a Matinha de Agua Branca, terra da famosa baronesa, cujas joias foram roubadas por Lampião, no inicio de sua carreira.

Cangaceiros deram para desconfiar.

Acampados no meio da mata, Suspeita e sua gente aproveitaram a presença de Zeca, primo de Sebastião, que era bom rabequista, para, ao lado de uma fogueira, dançarem e beberem durante toda a noite.

Antônio de Amélia prossegue na sua narração: Aproveitando os cabras entretidos na dança, chamei Sebastião e disse para ele: vamos ter um pouquinho de cuidado com os cabras. Parece que eles estão um pouquinho desconfiados. Chamei depois o meu compadre Antônio Tiago e combinamos:
- O primeiro tiro será dado por mim em "Fortaleza". Compadre Antônio cuida de "Limoeiro" e Sebastião de "Suspeita".
Aguardaremos, com cuidado a melhor oportunidade. Neste momento pude observar que Suspeita e Fortaleza se isolaram do grupo e, todos equipados, se dirigiam a um riacho nas proximidades do lugar de nosso acampamento.

Foi aí que Sebastião se dirigiu até o local onde os dois se achavam e perguntou:
- O que está havendo com você, Suspeita, que está triste e capiongo? 
Ao que Suspeita exclamou:
- Nada não, companheiro. Quem anda nessa vida precisa ter todo cuidado. Precisa confiar desconfiando. 
Sebastião retrucou:
- Então está desconfiando de mim que tudo tenho feito por vocês e gosto de você e do Capitão? Neste caso não mande mais me chamar para coisa nenhuma. E saiu para perto da fogueira. 
Diante da reação de Sebastião tudo voltou ao normal no acampamento, mesmo porque advertir, - disse Antônio de Amélia - para cessar a dança e o barulho da rabeca, pois dada a pequena distancia daquele local para a estrada, poderiam ser surpreendidos por alguma volante.



Tentativa frustrada.

Prosseguindo na entrevista, comenta Antônio de Amélia: todos reunidos ao pé da fogueira contavam anedotas ou relembravam fatos pitorescos ocorridos em outras ocasiões. Medalha levanta-se e se encontra a um pé de catingueira, enquanto Fortaleza se ampara em um toco escorou o embornal e ficou voltado para o fogo. Limoeiro, ao lado de Antônio Tiago, ouvia as historias que outros contavam. Foi neste momento que, ao me aproximar cautelosamente de Fortaleza, baixei o mosquetão em cima dele mas pinou a bala. Foi quando procurei despistar colocando rápido o rifle as costas e fui passando debaixo dos galhos das árvores.

Nisto gritou Limoeiro:
 - O que foi? 
- Foi o galho que pegou aqui na mira do rifle. 
Passando o episódio, frustrada a primeira tentativa de liquidar os bandidos, pude distanciar-me um pouco e sacudi a bala fora, colocando outra na agulha. Antes, justifiquei o caso afirmando inexperiência no uso de armas daquele tipo.

A hora da vingança.

O momento da vingança chegou: disse o tenente Antônio, de volta após mudada a bala que falhou e colocada outra na agulha, desci o mosquetão e o primeiro tiro pegou na cara do bandido Fortaleza, que enterrou os pés e caiu em seguida por sobre os paus. Dei o segundo tiro que o atingiu no ombro. Nisto ouvi disparo: Era compadre Antônio Tiago havia atirado em Limoeiro, enquanto numa sequência rápida, Sebastião pegou Suspeita pelo meio.

Alfredo ataca Medalha e saíram aos trancos e barrancos numa luta corporal danada. Corri para lá e encontrei suspeita com Sebastião imprensado na ribanceira do riacho tentando puxar o punhal que, por ser grande demais, não dava para arrancar da cintura. Sebastião então grita para mim: chegue se não este cabra me mata. Bati com a boca do mosquetão no pé do ouvido do cabra que o sangue acompanhou. Nisso Sebastião pode dominar Suspeita e joga-lo no chão. Quis usar novamente o mosquetão, mas Sebastião gritou:
- Não atire que você pode errar e me atingir, e mesmo o bandido já está morrendo.
Em seguida corremos para o lugar onde António Tiago e Limoeiro se engalfinhavam numa luta de gigantes. Eram dois negros enrolados numa luta feroz.

Nisso Sebastião pegou nos cabelos de Limoeiro e exclamou: foi este bandido que sangrou o o finado Mizael. Fui mandado, disse Limoeiro.
- Pelo amor de Deus não me sangrem. Atirem na minha cabeça, mas não me sangrem. 
Um tiro reboou na mata. Caia morto o terceiro bandido. Estava vingada a morte do amigo de Antônio de Amélia. Partimos para o lugar onde Alfredo, pegado com medalha, tentava mata-lo. Alfredo é desses cabras vermelhos de cabelo ruim que quando pegam um não soltam. Ao nos ver disse:  
- Decá uma faca. Deixem eu matar este peste. 
Não permiti que matasse, explicando que deveria levá-lo para ser entregue as autoridades.

O diálogo entre Sebastião e Medalha

Outro episodio que nunca foi citado nos livros e reportagens sobre o rei do cangaço foi o que passamos a enfocar: já amarrado, pés e mãos, Medalha exclamou para Sebastião a que passou a tratar de Tião:
- Como é que você faz dessas... chamar seus parceiros para vir matar a gente?
Ao que Tião responde:
- Vocês estão acostumados a matar com facilidade, nós também podemos matar vocês na facilidade.
- Eu não sou homem para ser preso, me atirem na cabeça... me sangrem que eu fico satisfeito.
- Você está preso e garantido, explicou Tião.
No meio da luta uma segunda vingança

Praticamente encerrado o impasse entre matar ou prender, entra em cena novamente Alfredo, de arma em punho. Com revolver colocado por cima dos ombros de Tião, desfechou um tiro certeiro na cabeça de medalha. Tombou o quarto bandido. É o próprio Tenente Antônio de Amélia, explica a interferência de Alfredo no caso Medalha:

No meio da luta o velho Félix, pai de Alfredo, ao se aproximar do local do acampamento foi atingido por uma bala no peito esquerdo e foi fulminado na hora. O filho, como um louco, viu o pai cair morto e não teve outra alternativa a não ser a de matar, com a pistola de Limoeiro, mais um bandido do grupo sinistro de Lampião.

Exposição macabra dos bandoleiros e no caixão Félix Alves,
pai de Alfredo.



 O enterro coletivo dos quatro cangaceiros no cemitério de Mata Grande.
Noite Ilustrada, Edição 319 de 12 de outubro de 1935. Página 10
 Cortesia do scanner: Robério Santos

Créditos: Roberto de Carvalho
Transcrição Antonio Moraes para o Blog do Sanharol
Correções e adição de imagens: Lampião Aceso

-----------------------------------------------------------------------------------------------------
Adendo Lampião Aceso

A literatura nos diz que este grupo foi orientado pelo tenente Joaquim "Grande", mas em nenhum momento este ou outro oficial é citado por Antônio de Amélia. De acordo com a legenda das duas primeiras fotografias o fato ocorreu entre 18 e 19 de setembro de 1935 em Mata Grande Alagoas.