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terça-feira, 21 de maio de 2024

José Kehrle

O padre alemão que fez história em Serra Talhada

 


O “Viagem ao Passado” resgata para os leitores um pouco da história Padre José Kehrle, um dos primeiros da família alemã a desembarcar no Brasil e a fincar raízes em Serra Talhada. O jovem padre chegou à cidade com 21 anos de idade e só foi em embora por perseguição política, as vésperas da decretação do Estado Novo, em 1936, aos 35 anos.

A foto em destaque foi doada à Paróquia de Nossa Senhora da Penha por uma de suas sobrinhas que reside em Serra Talhada, a Professora Emma Kehrle. Dona Emma que também doou um óculos de uso pessoal do padre, uma imagem do Menino Jesus que ficava em seu altar particular e uma lembrancinha do seu Jubileu de ordenação sacerdotal.

As relíquias foram conduzidas pelo jovem estudante de medicina, Matheus Magalhães, até o atual administrador da Paróquia. Ainda não se sabe onde as peças serão colocadas para serem expostas ao público. Vale registrar que o Padre José Kehrle foi o responsável pelo inicio das obras da atual Igreja Matriz da Penha.

A VIDA E A OBRA DE UM HISTÓRICO SACERDOTE

Os relatos abaixo resumem uma cronologia elaborada pelo próprio Pe. José Kehrle em carta datilografada para um sobrinho no ano de 1975. Nascido em 19 de maio de 1891, em Rheinstetten – Alemanha, o Padre José Kehrle chegou a cursar medicina na Universidade de Munique tendo desistido da carreira no último ano de faculdade para ingressar no seminário e tornar-se sacerdote.

Veio para o Brasil em 1909 e ordenou-se em 14 de março de 1914, em Olinda-PE tendo sido transferido no ano seguinte para Quixadá-CE onde chegou a ter contato com Pe. Cícero em Juazeiro. No ano seguinte, foi encarregado de assumir a secretaria do bispado de Floresta, onde ficou por quatro anos até, em 1919, se tornar o primeiro pároco de Rio Branco, atual Arcoverde. Nesta última cidade chegou a criar uma pequena banda e um “jornal falado”, com o intuído de gerar meios de distração para a população local.

Ainda em 1919 recebeu a ordem de retornar a Floresta junto a seu irmão, o também padre, Luiz Kehrle, onde foram incumbidos de construir uma nova catedral na cidade. Levantou-se uma discussão sobre o melhor local para erguer a construção e o padre José, por sugerir um plebiscito para a tomada da decisão, acabou sendo ameaçado pelo prefeito e seus jagunços tendo que se retirar da cidade no mesmo dia.

Nesta época, Pe. José Kehrle começou a sofrer diversas perseguições políticas tendo sido acusado de ser inimigo do Brasil (por ser Alemão) e de ser protetor de Lampião. Chegou inclusive a ser ameaçado de morte pelo chefe de polícia de Recife.

Em 1922 assume a paróquia de Nossa Senhora da Penha em Vila Bela (atual Serra Talhada) ficando também responsável pela paróquia de São José do Belmonte. Em Vila Bela deixou seu marco quando resolveu demolir a antiga igreja de duas torres (construção de traços muito rústicos e desarmoniosos para dar início à construção da atual Igreja matriz.

A construção seguiu até o ano de 1936 quando, por questões políticas, Pe. José foi transferido de volta ao secretariado da Diocese em Pesqueira. Na sede da diocese começou a presenciar diversas aparições de Nossa Senhora das Graças que lhe avisava de muitos fatos futuros de sua vida pessoal e sacerdotal (os relatos dessas aparições constam no livro: “Eu sou a Graça”, de Dom Rafael Maria Francisco da Silva).

Ainda em sua missão pelo Sertão pernambucano, o padre alemão passou pelas cidades de Venturosa, Afogados da Ingazeira, Brejo da Madre de Deus e Moxotó. Por fim, chegou em Buíque no ano de 1947, onde construiu sua casa e a Capela de Nossa Senhora das Graças, criou uma escola de educação agrícola e uma maternidade com recursos vindos da Alemanha, escreveu livros que foram censurados e atendia muitos pobres que vinham buscar remédios, esmolas e conforto espiritual.

José Kehrle faleceu em Buíque no ano de 1978, aos 87 anos. Sua grandiosa contribuição para a história do interior de Pernambuco ainda é pouco divulgada, mas seu pioneirismo e suas ideias inovadoras foram fundamentais para o crescimento e propagação da fé cristã pelo sertão do estado.

 

O Padre José Kehrle, o quarto da direita para esquerda, na farmácia do Dr. Lima Pachêco, na então cidade de Villa Bella, em agosto de 1928

 

O Padre José Kehrle, ao centro, na antiga Igreja de N. S. da Penha, construída em 1872 e demolida e 1925, o prédio ficava localizado no centro da Praça Sérgio Magalhães, no ponto onde atualmente fica o pé de catingueira metálico



 

Relíquias do Padre José Kehrle doadas pela sobrinha Emma Kehrle

Pescado em O Farol de notícias

 

Bônus: 

 

Imagem do Padre Kehrle e sua família, inédita na literatura


Em dois momentos com o célebre Frei Damião


 *Créditos das imagens Ana Ligia Lira

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Série: O cangaço e eu

Clidinho e Netinho 

Euclides de Souza Ferraz Neto - "Clidinho" e Hildebrando de Souza Nogueira Neto - "Netinho", descendentes diretos dos nazarenos, falam um pouco de suas raízes e de seus antepassados que participaram da campanha contra o cangaço.



Pescado no canal de Aderbal Nogueira

domingo, 16 de junho de 2019

Demarcando mais um sitio histórico

O combate das Caraíbas, 1926

Por Cristiano Ferraz

No último domingo, dia 09 de junho cumpri um compromisso assumido com o amigo Louro Teles em maio de 2017 quando visitamos o local do combate de Serra Grande em serra Talhada. O combinado era visitarmos juntos o local onde aconteceu o combate das Caraíbas em fevereiro de 1926 entre Floresta-PE e Betânia-PE.

Nos encontramos na manhã de domingo em Floresta, eu, Louro Teles que veio de Calumbi-PE com Sálvio Siqueira (vindo de São José do Egito-PE) e Richard Torres Pereira de Serra Talhada-PE.

Seguindo para o destino pouco depois onde chegamos por volta de dez horas da manhã na residência de seu Antônio Odilon dos Santos, 84 anos de idade e que há quatro anos atrás havia me mostrado o local quando o visitei com meu primo Manoel serafim durante os preparativos para o Cariri Cangaço em Floresta em 2016.

Aquela visita foi um dos fatos que motivaram a escrita do nosso livro As Cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta-PE, lançado durante na abertura do primeiro evento Cariri Cangaço em nossa cidade no dia 26/05/2016.
 


Após conversarmos um pouco com seu Antônio, sua esposa e alguns familiares (uma filha e uma neta), nos dirigimos ao local onde foram sepultados os volantes mortos no combate que fica a cerca de um e meio a dois quilômetros da casa. Não sem antes tomarmos um cafezinho com queijo de coalho, como é “de praxe” na casa de todo bom sertanejo.

Chegando ao local percebi a diferença de quatro anos atrás. O local havia sido desmatado e a cruz de madeira que não mais existia em 2016 havia sido refeita de forma improvisada e colocada no local. Rapidamente cavamos o solo e colocamos uma cruz de metal feita pelo amigo Louro Teles. Aproveitamos o momento para fazer alguns vídeos e fotografias registrando o fato.




Em seguida fomos ao serrote onde aconteceu o combate, que fica a dois quilômetros da sepultur junto ao leito do riacho da Maravilha. Hoje o local também está bastante modificado em relação à época do combate, pois antes não havia o açude que hoje forma uma represa no leito do riacho.

Seu Antônio, apesar da idade avançada nos acompanhou, tendo ficado numa sombra aguardando nosso retorno. O acesso ao local do combate no serrote, estava muito tomado pelo mato e ele preferiu ficar descansando. Com poucos minutos no local fizemos alguns vídeos e passamos a procurar vestígios do combate com o detector de metais manuseado por Louro Teles.

Rapidamente localizamos um projétil de rifle calibre .44 enterrado no solo por trás do serrote. Pouco tempo depois, foi encontrado um projétil de calibre .22 próximo ao local do primeiro. Com o rápido passar do tempo decidimos retornar para deixar seu Antônio em casa pois a hora do seu almoço já havia passado. Eram duas horas da tarde e acabamos demorando nos deslocamentos a pé indo e voltando para onde deixamos o carro.

Com os vestígios encontrados ficou a certeza de que aquele é mesmo o “palco” dos acontecimentos. Mesmo não tendo tempo para aprofundarmos as pesquisas no serrote e do lado oposto do riacho onde se encontravam as volantes, deduzimos que ainda ainda existem resquícios do acontecido e retornamos satisfeitos com o resultado. Firmamos assim o compromisso de retornarmos em breve para descobrir mais detalhes da dinâmica do combate.

O combate das Caraíbas, em Floresta foi travado entre Lampião e as forças volantes na quinta-feira dia 04 de fevereiro de 1926 às margens do riacho da maravilha, afluente do riacho do navio - nas divisas entre os municípios de Floresta e Betânia .

Participaram as volantes comandadas pelo Tenente Higino José Belarmino e Optato Gueiros contra o grupo de Lampião. Junto com Lampião encontrava-se entre outros o conhecido Manoel Pequeno (da fazenda Saco – na ribeira do riacho do navio) e seu grupo. Os cangaceiros se entrincheiraram no leito do riacho, em um serrote à margem deste e próximo a estrada por onde vieram os soldados, emboscando a força em campo aberto.

O confronto teve a participação da força de Nazaré composta por, Afonso de Sá Nogueira , Altino Gomes de Sá, Antônio Joaquim dos Santos (o famoso rastejador Batoque), Aureliano de Souza Nogueira (Lero), Aureliano Francisco de Souza (Lero Chico), Constantino Marcolino de Souza, David Gomes Jurubeba , Euclides de Souza Ferraz (Euclides Flor) , João Cavalcanti, João Domingos Ferraz, João Gomes Jurubeba, João Jurubeba de Sá Nogueira (João Gato), Joaquim Ferraz de Souza (Quinca Néo), Joaquim Francisco de Souza (Quinca Chico), Manoel de Souza Ferraz (Manoel Flor), Manoel Neto (Anspeçada), Pedro Gomes de Lira (irmão de João Gomes de Lira), Pedro Marcolino e Pedro Tomaz de Souza Nogueira.

O tiroteio durou até o final da tarde quando Lampião se retirou do local levando seus mortos (acredita-se que em número de cinco) sepultando-os na caatinga entre o local do combate e o poço do ferro (ou na fazenda São Brás, que fica a oeste do local) e deixando entre os volantes um saldo de pelo menos três baixas fatais, os soldados Aristides Panta da Silva (Este de Floresta), Benedito Bezerra de Vasconcelos e Antônio Benedito Mendes.

Os soldados mortos foram sepultados na margem esquerda do riacho da maravilha próximo ao local onde o riacho do Jacaré se une a este . O riacho da maravilha é a divisa entre os municípios de Floresta e Betânia.

No combate saíram feridos o Tenente Higino no braço, Manoel Neto no braço direito, Antônio Joaquim dos Santos (Batoque) na perna, João Cavalcanti, Altino Gomes de Sá (na “maçã” do rosto), João Pereira de Souza e João Pinheiro Costa.
 
 Tenente Higino Belarmino de Souza
Acervo Lampião Aceso

Na visita ao local tomamos conhecimento que durante o combate o fazendeiro/boiadeiro florestano Joaquim de Alencar Jardim (Quinca Jardim) retornava a Floresta após a venda de uma boiada. Antônio Ferreira, que brigava no serrote no momento, sabendo da passagem deste pelo local o esperou com mais dois cangaceiros na sombra de um umbuzeiro (conhecido como umbuzeiro do Marçá – ou Marçal) abordando-o para lhe pedir dinheiro.

Quinca Jardim naquele momento se acompanhava de Joaquim Serafim (conhecido como Joaquim Grande do Rancho dos Homens) e mais duas ou três pessoas. Joaquim Grande então disse a Antônio Ferreira que Quinca Jardim não tinha a quantia pedida pois vendera a boiada mas não recebera o pagamento. Antônio Ferreira se contentou com a resposta sem saber que o dinheiro do pagamento da boiada estava no bornal que Joaquim Grande carregava a tiracolo.

Dois dos outros acompanhantes de Quinca Jardim disseram a Antônio Ferreira que um dos cangaceiros que o acompanhava tomara o pouco dinheiro que estes carregavam. Antônio Ferreira então perguntou quem pegara o dinheiro e o mandou devolver. O cangaceiro o fez embora queixando-se do trabalho ingrato onde era obrigado a devolver o dinheiro ganho.

Menos de um ano após, no final do ano de 1926 Lampião mataria 129 reses de Quinca Jardim na Barra do Juá por não ter recebido dinheiro após um pedido (acredita-se que um bilhete). Isso, provavelmente aconteceu ao descobrir que fora enganado cerca de dez meses antes. Comenta-se que apenas uma rês escapou porque este fato se deu no dia da morte de Antônio Ferreira no Poço do Ferro. Na ocasião lampião se encontrava na região (Poço do Ferro – Pipocas – Rancho dos Homens) preparando-se para dar uma brigada com Ildefonso Ferraz do Curral Novo. Com a morte de Antônio Ferreira Lampião teve que ir às pressas ao Poço do Ferro para sepultar o irmão, morto pelo companheiro Luiz Pedro (do retiro) em um disparo acidental.

Há controvérsias quanto à quantidade exata de bois mortos por Lampião e seu grupo naquele dia. O certo é que no total a boiada era de 100 a 130 animais. Desses apenas uma rês escapou, sendo tratada por Pedro Ferreira, da fazenda Rancho dos Homens, tio de Antônio Odilon dos Santos, que nos mostrou o local do combate, a sepultura dos soldados e nos contou vários detalhes do que aconteceu ali naquela época.

Seu Antonio Odilon é neto de Antônio Pedro dos Santos, que foi inspetor de quarteirão na região onde poucos anos mais tarde viria a surgir a vila de Nazaré. Conta-se que por volta de 1910 em perseguição a Zé de Souza houve um tiroteio onde morreu uma criança. Os familiares da criança diziam que a morte deste só seria vingada com a morte de Pedro Ferreira, o filho primogênito de Antônio Pedro. Com isso Antônio Ferraz de Souza, padrinho de Pedro Ferreira o trouxe para Floresta na garupa de seu cavalo e procurou amenizar a questão tirando a família de Antônio Pedro para a região da Barra do Juá.

Estes então vieram para a Fazenda Rancho os Homens onde se estabeleceram e vivem até hoje, muitos dos seus descendentes morando na região entre Floresta, Betânia e Ibimirim. Entre os filhos de Antônio Pedro um deles se tornou muito conhecido por sua grande habilidade como vaqueiro. Chamava-se Joaquim Pedro dos Santos, o Quinca Pedro, da fazenda Urubu, vizinha ao Rancho dos Homens.

Maiores detalhes dessa história podem ser lidos em vários livros sobre o cangaço Lampiônico, entre os quais podemos indicar:

1) As Cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta-PE, de Cristiano Luiz Feitosa Ferraz e Marcos Antônio de Sá;

2) O Canto do Acauã, de Marilourdes Ferraz;

3) Lampião – Memórias de um soldado de volante, de João Gomes de Lira;

4) David Jurubeba Um herói nazareno, de José Malta de Sá Neto;


5) Lampião Seu Tempo e Seu Reinado, do padre Frederico Bezerra Maciel.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Testemunhas

Dona Luzia viu a volante matar seu pai


Dona Luzia Carmina
Foto Ricardo Beliel


Pelos lados do Riacho do Mundé, distrito de Floresta, PE vive, há quase cem anos, Dona Luzia Carmina, num punhado de braças de terra, na mesma propriedade em que presenciou a morte de seu pai  Antônio José de Souza, o caboclo Garapu, em 24 de Junho de 1927.

Em meio à sequidão, cria cabras e cultiva uma pequena horta de subsistência na companhia do filho, Zé Caboclo. Sua mãe era prima de três cangaceiros de Lampeão, os irmãos Marinheiro, e quando o bando passava por essas terras tinham o apoio que necessitavam. As roupas esfarrapadas, depois de curtidas por longos períodos na agrura da catingueira, eram trocadas por novas, feitas por sua mãe.

Certo dia, o primo Zé Marinheiro e outro cangaceiro, Sabiá, resolveram não acompanhar mais as andanças quilométricas e diárias do chefe Lampião, preferindo agir em dupla nos rincões do Capim Grosso e do Mundé.

Por um ano viveram amoitados nos espinhaços das caatingas para atacar e extorquir os que lá moravam. Certo dia atacaram as fazendas Panela D´Água e Tapera e estupraram sem piedade Marcolina e Lucia, que também costuravam, com a mãe de Luzia, as roupas encomendadas por Lampião.

Bêbados e sabedores do mal cometido, foram buscar refúgio com a prima de Zé Marinheiro. Carmina de Garapu implorou não poder ajudá-los, mas o tempo para as palavras foi de súbito substituído pelo medo da morte. Nesse momento, doze soldados da volante de Floresta já cercavam a casa. Zé Marinheiro iniciou o confronto com um tiro certeiro na cabeça de um soldado que avançava a poucos metros. Sabiá, da janela dos fundos, liquidou outro inimigo e logo em seguida também acabou com a vida do praça Sinhozinho, que comandava o grupo.

Em meio ao tiroteio, o soldado Zé Freire mal teve tempo de perceber Zé Marinheiro pulando através da porta com o fuzil engatilhado em sua direção. Sorte de um, azar do outro. A bala inimiga "bateu coco", falhou, e Zé Freire como um raio disparou um balaço explodindo o cérebro do cangaceiro.

Zé Freire


Sabiá, um dos cangaceiros mais perversos de então, manteve o fogo contra Zé Freire e o soldado Zé Tinteiro até cair baleado no terreiro em frente à casa. Com fratura exposta na perna e as vísceras escorrendo para fora da barriga, destroçadas por balas volantes, morreu rodopiando na terra como um pião. Grunhindo como um porco sacrificado com o fuzil nas mãos a cuspir balas em todas as direções.

Dona Luzia nos conta que seu pai, o Caboclo Garapu, pressentindo sua morte, anunciada aos berros, findo o combate, pelo soldado Zé Freire em frente à casa, se despediu da mulher e dos sete filhos, caminhou em direção à porta e enfrentou o soldado rival.

Tentou um primeiro golpe com uma faca, mas em resposta levou um tiro fatal na cabeça. Luzia, com idade de sete anos, seus seis irmãos e a mãe morreram um pouco também naquele dia. Marcadas pela tragédia, continuaram na mesma casa por toda a vida, onde hoje Luzia nos recebe para compartilhar sua história. Com as feições enrugadas de uma pura índia Tuxá, confidencia com a voz afogada por um profundo desconsolo "nós fiquemos sem pai pra sofrer..."

Com informações de Ricardo Beliel, Luciana Nabuco, Marcos De Carmelita

Adendo de Joel Reis (Grupo Lampião, Cangaço e Nordeste)

Sabiá I - Morreu em Mata Grande - AL em 1922.

Sabiá II - citado no texto, Manoel, entrou no cangaço em 1923, participou do ataque à Fazenda Tapera, Combate da Serra Grande, do ataque a Mossoró... Morreu em 29 de junho de 1927 pela Força de Floresta. Encontraram no bornal dele as orelhas do Ten. Francisco Oliveira que havia sido sangrado no combate do Serrote Preto. (Esse é o Sabiá do Texto).

Sabiá III - Era da Família Engrácia

Sabiá IV - João Alves dos Santos (João Preto) de Poço Redondo - SE, morreu em combate na Fazenda Barra Salgada, Canhoba - SE, no final de 1937.

sexta-feira, 3 de março de 2017

O cangaço em Floresta,PE

A rua dos Coiteiros

Por Sálvio Siqueira, "Grupo Ofício das Espingardas"

Naquele tempo, para sobreviver às inúmeras perseguições das volantes, Lampião arquitetou uma enorme e eficiente ‘malha’, rede, de colaboradores. Essa rede se fazia necessário para aquisição de material bélico, alimentação, vestimentas e, o mais importante, informações. Que, vira e mexe, O “Rei dos Cangaceiros” usava os ‘informantes’ para passarem a ‘desinformação’. Uma espécie de espionagem e contra espionagem na caatinga sertaneja.

O roceiro tinha que ser coiteiro, não simplesmente por ser. Havia o medo do que poderia lhe ocorrer, assim como a sua família, se se recusa ser colaborador. Tinha lá suas vantagens em ser colaborador do ‘Capitão’. A vida não era, e não é fácil para quem vive exclusivamente dos produtos retirados das pequenas propriedades. Pior ainda, quando o mesmo com sua família, era morador de uma fazenda. Às vezes o dono sabia, consentia e mandava seu ‘morador’ acolher e alimentar os grupos quando por suas terras passavam. Outra era só o colaborador quem sabia da passagem e estada deles naquelas brenhas.

A partir do momento em que ele matava a sede e a fome de algum cangaceiro, leva ou trazia algum recado, passava a ser colaborador, mesmo que nunca mais se repetisse esses atos. Aí vinha a dureza imposta por aqueles que os perseguiam, por ele ter dado água aos cangaceiros, eram, quando descobertos, presos, maltratados e até assassinados. No entanto, haviam aqueles que colaboravam por recompensas em dinheiro, favores e proteção, dependendo da sua colocação na pirâmide de colaboradores, se estavam na base, no meio ou no topo da mesma.

Certa feita, uma volante comandada pelo Anspeçada Sinhozinho, Manoel Gomes de Sá, rastreava os sinais deixados por dois cangaceiros, que tinham estuprado uma mulher em uma fazenda da região, no leito e margens de um riacho temporário no sertão do Pajeú. Próximo às margens dos riachos e rios, era o local preferido onde os sertanejos procuravam levantarem suas taperas para morarem.

Entretidos em decifrar e seguir o que os sinais ‘diziam’, os homens da volante nem percebem que estavam bem perto de uma casa.

Na casa, os dois foragidos, cangaceiros Zé Marinheiro e Sabiá, tinham matado sua sede e estavam a prosear embaixo de uma latada, quando, de repente, o dono da casa e sua esposa avisam aos dois da aproximação de soldados. Acredito que os cangaceiros que ali estavam, pensaram serem poucos os homens em seus rastros, pois um deles, Zé Marinho, faz pontaria e abre fogo contra aquele que estava na linha de tiro.



O som do disparo, repentino àquelas horas e naquele silêncio da mata, não deixa os soldados atinarem o ponto correto de onde tinha partido o mesmo. O tiro teve endereço certo. Acertou o ouvido do militar e esse morre mesmo antes de chocar-se contra o solo seco do sertão. Demorados alguns instantes, a volante, já consciente do que ocorrera, manda bala em direção oposta de onde viera o disparo.

Embaixo da latada onde estavam os cangaceiros, havia um pilão de madeira, e após matar o soldado, é exatamente onde o cangaceiro Zé Marinheiro se protege dos disparos dos soldados, os quais retiram lascas da madeira e fazem o cabra escutar o zunido do projétil tomando outra direção, ou mesmo aquelas que penetram e se alojam no velho objeto de pilar milho e outras culturas.

Vendo o companheiro tombado, seus companheiros procuram cercar o local o mais fechado e rápido que poderiam. Aquele que matara seu companheiro não podia escapar da sua sentença. E acocham cada vez mais o círculo da morte. Vendo que estavam cercados, os dois cabras pulam para dentro da casa do roceiro, e, de lá, dão combate a volante.

 Essa casa era d’um caboclo trabalhador, conhecido como Garapu. Casado com dona Carmina, geraram oito herdeiros. Quando os cangaceiros adentram na casa, sua companheira procura proteger sete, de seus filhos, colocando-os em lugar seguro. O caboclo tinha algum dinheiro, provavelmente ganho dos cangaceiros, pega seu ‘tesouro’ e o coloca entre uma telha e outra. Essa ação não passa despercebida por sua esposa, que naquela hora, lembra-se de seu primogênito que tinha ido fazer compras na vizinhança. O filho mais velho daquele casal estava mais perto do que ela, sua mãe, imaginava.

Viajando montado em uma burra, já na volta de sua viagem, escuta o tiroteio vindo das bandas de sua casa. Salta do animal e procura uma moita como esconderijo, vendo o que se passava com sua família. Soldados atacam, cangaceiros se defendem. Num momento infeliz, o comandante da volante passa diante de uma das janelas da casa, e, nessa estava o cangaceiro Sabiá, que sem demora, faz mira e abre fogo contra ele. O tiro e certeiro, levando a mais uma baixa na volante. Após a morte do comandante, vários de seus comandados não conseguem segurar o fogo. Dentre eles, estava o soldado Zé Tinteiro, valente e destemido, segura seu fuzil e combate os inimigos com maior afinco.

Outro volante, Zé Freire, homem de um Santo Protetor fora do comum, estava tiroteando contra Zé Marinheiro. Esse, salta por sobre a porta de baixo, as portas da maioria das casas do sertão rural e mesmo nas cidades, naquela época, eram em duas partes e de madeira, e avança, ficando a centímetros de Zé Freire. Aponta a arma e aperta o gatilho. À bala impina, a espoleta não ‘quebra’, a arma não dispara. Zé Freire, quase que encosta a boca do fuzil na cabeça do cabra e faz fogo, estourando o crânio de Zé Marinheiro.


Seu companheiro, o cangaceiro Sabiá, continua a combater os soldados, virado numa fera ferida. Numa tentativa de louco, salta para fora da casa e nesse momento e atingido na barriga e em uma das pernas. Continuando a combater os soldados bolando pelo terreiro da casa. Até que os dois valentes volantes se aproximam e matam o terrível cangaceiro.

Após abater os cangaceiros, a tropa aproxima-se da casa e o soldado Zé Freire grita para que o dono saia para o terreiro... para morrer.

“(...) o soldado Zé Freire, revoltado com a morte do Aspençada Sinhozinho Gomes e dos outros dois companheiros, gritou para Garapu, dizendo: – Saia pra fora, Garapu. Você tá sabendo que vai morrer (...).”

(“AS CRUZES DO CANGAÇO – Os fatos e personagens de Floresta-PE” – SÁ, Marcos Antônio de. e FERRAZ, Cristiano Luiz Feitosa. Floresta, PE. 2016)

O coiteiro sabia sim sua sentença. Sabia que por ajudar bandidos seria condenado a morte certa. Estando dentro de um quarto, com sua esposa e os sete filhos, Garapu despede-se deles, saca de uma faca peixeira e parte de encontro a morte. Desfere um golpe em direção ao soldado que havia lhe inquirido, errando o alvo. O soldado Zé Feire, afasta-se para um lado e mata a tiros de revólver o coiteiro.

“(...) Com a morte de Garapu, Carmina teve que lutar sozinha para criar os filhos, lavando roupas de vizinhos, costurando e cuidando da lavoura(...).” (Ob. Ct.)

Dona Carmina, na época do tiroteio em sua casa, estava grávida. Alguns meses depois, pariu uma menina a qual deu o nome de Nair Carmina da Silva. Logicamente, essa, nunca soube o que é ter um pai, seus afagos e conselhos.

Os corpos dos militares mortos são levados pelo restante da tropa para seu QG. O corpo do caboclo Garapu e dos dois cangaceiros, Zé Marinheiro e Sabiá, são enterrados em uma vala comum bem próximo a casa.

As notícias voam com o vento. E aquela história da morte do caboclo Garapu se espalhou por toda a região do vale do Pajeú. Outros coiteiros, temendo a mesma sina, arrumam suas tralhas em cima de carro de bois, no lombo de animais e dão no pé. Na cidade de Floresta, PE, na rua Theófhanes Ferraz Torres, os fazendeiros “Manoel Januário, Rosendo Januário e Elói Januário", colaboradores de Lampião, estabelecem residência. A partir daí, essa rua passa a ser conhecida como “A Rua dos Coiteiros”, até os dias de hoje.




Fonte (“AS CRUZES DO CANGAÇO – Os fatos e personagens de Floresta-PE” – SÁ, Marcos Antônio de Sá - Marcos De Carmelita e FERRAZ, Cristiano Luiz Feitosa -Cristiano Ferraz. Floresta, PE. 2016). Foto Ob. Ct.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

NOVO LIVRO NA PRAÇA

“As cruzes do cangaço – Os fatos e personagens de Floresta-PE”
Confira o prefácio de Frederico Pernambucano de Mello para o livro.

Por Rostand Medeiros

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Em um momento pouco produtivo no cenário de lançamentos de obras sobre o Cangaço, eis que surge um trabalho diferenciado e que merece esta chancela.

Texto inicial de Rostand Medeiros

Recentemente eu tive a oportunidade de retornar aos sertões de Pernambuco e Alagoas, onde segui os antigos rastros dos cangaceiros nos municípios de São José de Belmonte, Serra Talhada, Floresta (PE) e Piranhas (AL). Nesta jornada eu tive a grata companhia do artista plástico Sérgio Azol, potiguar radicado em São Paulo, que realiza um interessante e diferenciado trabalho artístico utilizando o Cangaço como tema.

Na bela cidade de Floresta fomos recebidos pelos escritores e pesquisadores Marcos Antonio de Sá, conhecido como “Marcos De Carmelita”, e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, ambos autores do livro “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE”, recentemente lançado.

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Os autores Cristiano Luiz Feitosa Ferraz (E) e Marcos Antonio de Sá (D), conhecido como “Marcos De Carmelita”.

Em um clima de extrema fidalguia, cordialidade e parceria, estes dois pesquisadores procuraram mostrar vários aspectos da bela cidade de Floresta e dos fatos relativos ao Cangaço na região. Além deste maravilhoso exemplo de cordialidade sertaneja, através do contato com Marcos e Cristiano eu pude adquirir o resultado de um interessante e valoroso trabalho de pesquisa sobre o Cangaço.

O livro eu recomendo sem nenhuma ressalva aos amigos e amigas que gostam deste tema, pois antes de tudo é resultado de muita pesquisa de campo e de muitas horas de diálogos com os guardiões da memória na região. Tudo conduzido de maneira séria e objetiva.

Em minha opinião as páginas de “As cruzes do Cangaço” possuem várias virtudes. Mas a que mais me chamou atenção foi a deste livro não se perder em uma abrangência geográfica e histórica desnecessária, de focar a história do Cangaço em uma área específica – Floresta. Os autores competentemente dissecaram interessantes pormenores ali ocorridos, que por sua vez se ligam a inúmeros outros episódios da história do Cangaço em outras partes do Nordeste. 

A obra é tão dinâmica e envolvente que me fez refletir que talvez tivéssemos conhecido a história do Cangaço de uma forma muito diferente se existissem mais pesquisadores como Marcos e Cristiano. Fiquei imaginando o que ganharíamos em termos de conhecimentos se, em um passado nem tão distante assim, quando inúmeras testemunhas daqueles dias difíceis ainda estavam neste plano, existissem mais pessoas focadas e dispostas a correr atrás da história como estes dois florestanos.

Não é a toa que “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE” recebeu uma deferência rara nos dias atuais – O prefácio de Frederico Pernambucano de Mello.

Acredito que o respeito por quem palmilha o solo duro e poeirento do sertão atrás da história, além do resultado de uma pesquisa séria e objetiva, foram alguns dos fatores que fizeram um intelectual do porte de Frederico Pernambucano de Mello realizar o prefácio deste livro.

A meu ver Frederico é um homem muito consciente da sua história acadêmica, da sua obra e do peso do seu nome. Ele não chancela qualquer trabalho sobre este tema, usa de muitos critérios e neste aspecto ele está certo.

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Os autores entregando um exemplar do seu trabalho aos descendentes da família Gilo, na fazenda Tapera dos Gilo, local do maior massacre da história do cangaço, fato extensamente narrado no livro. 

Até mesmo porque atualmente sobram muitas obras sobre o Cangaço são realizadas sem nenhuma pesquisa ao sertão. Muitos destes trabalhos são produzidos no conforto de cadeiras reclináveis, em ambientes extremamente assépticos, refrigerados por potentes aparelhos de ar condicionado e com objetivos muitas vezes distintos do resultado de uma pesquisa histórica e focados em alvos bem escusos.

Mesmo assim, não posso negar que algumas destas obras me despertam certo interesse. Mas eu conto nos dedos os exemplos positivos!

Talvez eu não seja a pessoa mais correta para comentar sobre estes “doutos” autores que realizam o que denomino “Livros de Cangaço de Gabinete”. Mesmo sendo autor de quatro livros, nenhum deles foi sobre o tema. Mas eu não vou me escusar de comentar, pois já produzi e democraticamente já divulguei muita coisa sobre o Cangaço aqui no TOK DE HISTÓRIA.

Seria interessante que estes autores de gabinete copiassem o belo exemplo de Marcos Antonio de Sá e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz em relação à obra “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE” – Deveriam tentar realizar mais seus trabalhos sentindo o que é realmente o sertão!

Talvez isso não ocorra atualmente com tanta frequência porque, mesmo com todas as facilidades logísticas, aparentemente são poucos os que desejam realizar seus trabalhos escritos após encararem as estradas pedregosas do sertão, a poeira, os quase sempre normais 40 graus positivos na canícula e outras situações desconfortáveis.

Mas ao passar por estes possíveis desconfortos, estes autores teriam então a oportunidade de conhecer em profundidade uma região ímpar no território brasileiro. Uma área cheia de contrastes interessantes, comida saborosa, natureza diferenciada e, principalmente, pessoas incríveis e maravilhosas.

Além disso, poderiam receber algo muito interessante e diferenciado dos que realmente gostam e estudam este tema da história nordestina – Respeito.

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Ao centro vemos Frederico Pernambucano de Mello, tendo a sua direita Cristiano Luiz Feitosa Ferraz e a sua esquerda Marcos Antonio de Sá, conhecido como “Marcos De Carmelita”. Marcos e Cristiano são os autores do livro “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE”, cujo prefácio é de autoria de Frederico. 

AS CRUZES DO CANGAÇO – Os fatos e personagens de Floresta-PE, por Frederico Pernambucano de Mello. Uma verdadeira aula de História, por quem entende de História e sociologia:

Floresta: bravura e talento

Floresta, velho município pernambucano de território outrora imenso, encravado no vale do Pajeú, a 433 km do Recife, tem o privilégio de aliar dois primores bem acima da média: o das armas e o da pena. Seus homens de guerra, de um lado e do outro da lei, notabilizaram-se pela valentia desde o período colonial, cultivada ao longo de toda a madrugada de sangue da conquista da terra ao tapuia guerreiro, no afã de assentar os currais de gado civilizadores, vindo a dar vida a uma crônica de passagens épicas não raro inacreditáveis, não contassem os fatos por si com o abono de documentação copiosa.

É nesse ponto que se encarta o segundo dos primores a que aludimos, que tem por fonte a produção intelectual dos filhos da terra, entregues ao empenho de colocar a pena a serviço da per-petuação dos acontecimentos mais quentes da ribeira do riacho do Navio. E nos dando, do mesmo modo, as ocorrências amenas daquele cotidiano que sedimenta a história, a partir dos assentos sociais, econômicos, políticos, religiosos ou apenas ligados à natureza do lugar, de chãs imensas, ipueiras generosas e serras férteis.

Sem se deter por aí, a pena florestana vai além das coisas pas-sadas no universo da caatinga, ofertando estudos de interesse nacional relevante. Quantas vezes não ouvimos de Gilberto Freyre, nosso mestre por quinze anos, elogios ao trabalho de investigação antropológica conduzido por Álvaro Ferraz, médico da então Brigada Militar de Pernambuco, e por seu assistente, Andrade Lima Júnior, intitulado A Morfologia do Homem do Nordeste. Estudo que Gilberto tratou de editar em livro de 1939, convertendo-o em marco da disputada Coleção Documentos Brasileiros, da Livraria José Olympio, de que era diretor com carta branca. Vitória florestana por excelência. Como vitória igualmente notável nos vem da contribuição do militar e professor Carlos Antônio de Souza Ferraz, com o seu Floresta do Navio: Capítulo da História Sertaneja, de 1992, timbrando na mesma tecla a que já se dedicara, em outro livro, o admirável Doutor Álvaro.

Como esquecer nesse arrolamento o estudo de história política denominado Liberais & liberais, da professora Maria do Socorro Ferraz Barbosa, da Universidade Federal de Pernambuco, vindo à luz em 1996, ponto alto de bibliografia concebida, toda ela, com rigor digno de nota. Ou a contribuição de Leonardo Ferraz Gominho, com o seu Floresta: uma Terra, um Povo, também de 1996. Ou ainda os estudos da professora Bartira Barbosa acerca do rio São Francisco, desde quando possuía apenas o nome indígena de Opara.

No plano do memorialismo, oriundo de vivência direta ou de recolha da história oral que se refugia em nichos de família, seria imperdoável deixar de mencionar os livros de Marilourdes Ferraz, O Canto do Acauã, de 1978, com várias reedições, hino de amor de uma filha ao pai guerreiro, que foi o coronel Manuel de Souza Ferraz, o Manuel Flor, da nossa Polícia Militar, a se bater contra o chamado banditismo rural por muitos anos, em todo o Nordeste. Mesmo tema no qual despontou, já com os primeiros cabelos brancos a circundar a calva, o tenente João Gomes de Lira, filho do lendário Antônio Gomes Jurubeba, um dos braços fortes da resistência heroica de Nazaré – vilazinha perdida em meio ao oceano de caatingas que se estendia até o beiço do rio São Francisco – contra o império de terror implantado pelo maior de todos os cangaceiros, o lendário Capitão Lampião. E ele próprio, o então juveníssimo soldado Joãozinho, a passar a cartucheira na cintura, cingir o punhal, embarbelar o chapelão e acompanhar a força volante do parente Manuel de Souza Neto pelos carrascais de Pernambuco e da Bahia.

Foi por lá, às voltas com águas de presença incerta nos anos de seca, que todos esses memorialistas se fizeram testemunhas dos fatos do lugar, tomando contato com a crônica dos homens de sangue no olho que se entregavam à “vida da espingarda”, sem deixar de ter as vistas abertas para a ação duramente civilizadora dos coronéis chefes políticos sertanejos, comandantes de terras e de homens por todo o Brasil Colônia. Com trânsito pelo Império, chegando à República e ultrapassando até mesmo o regime temperado ao calor das brasas da Revolução de 1930. Coronéis que lançavam luz, a seu modo, sobre o universo rural brasileiro, para o que não se eximiam do emprego do baraço e do cutelo, assim lhes ditasse a circunstância. Protagonistas no processo social desdobrado em nossa terra, em qualquer caso. Afinal, Gilberto Freyre já proclamou que o Brasil não foi colonizado pela Coroa ou pelo Altar, mas pela família patriarcal.

A base humana do coronel foi essencialmente o patriarca, às voltas com a agricultura e a pecuária em suas terras sem-fim, raramente se abrindo o espaço social para a figura da matriarca, a exemplo de Fideralina Augusto Lima, das Lavras da Manga-beira, Ceará; ou para um religioso, caso do Padre Cícero, do Juazeiro, no mesmo estado; ou para um autocrata modernizador, como se viu com o industrial Delmiro Gouveia, na Vila da Pedra, Alagoas, ou com Veremundo Soares, em Salgueiro, Pernambuco.

Já tivemos ocasião de dizer que a civilização dos campos do Nordeste recaiu sobre os chamados homens bons da linguagem de época, os principais da terra, capitães e sargentos-mores de Ordenanças, corporação de origem portuguesa datada de 1569 e introduzida no Brasil em 1575, que se converterá em Guarda Nacional a partir de 1831. A existência legal da nova corporação se estendendo até 1918, quando vem a ser extinta por decreto presidencial.

Os integrantes das corporações de Ordenanças ou da Guar-da Nacional, metidos nas fardas vistosas que saíam do guarda-roupa nas eleições e nas solenidades, nada mais eram que os indivíduos mais bem sucedidos no empreendimento colonial por sua face privada, cedo cooptados em instâncias de poder público local – a um tempo, militar e político – pela habilidade de uma Coroa que se reconhecia pobre de capitais e de agentes, mas certamente não de astúcia. Não daquele pragmatismo eficiente que tantos proclamam ter permeado os dois primeiros séculos da colonização.

Vitoriosamente hábil, essa Coroa com os pés no chão, sobretudo no modo de desbravar um território gigantesco como o nosso e de se fazer presente em todos os rincões que o integram. Eis aí conquistas difíceis de explicar pelo intérprete da história ainda hoje.

O passar dos anos, aprimorando a administração pública, vai permitir ao estado ir mostrando o rosto nos mais diferentes lugares, da pancada do mar ao grotão mais arredado. A morte do coronel da Guarda Nacional estaria fadada a ocorrer, pela perda natural da utilidade, ainda no final do Império. Morte por inanição. Lenta. Inexorável.
Não foi que aconteceu. A partir de 1898, o que se vê é o presidente da República, à época Campos Sales, delegar poder político quase absoluto aos governantes estaduais, estes, aos chefetes municipais, quase todos graduados da Guarda Nacional, nas patentes de alferes a coronel. Compromisso sagrado, dessa que ficou conhecida como Política dos Governadores: votar com o presidente. Sem perguntas. E a República Velha vira pasto dos chefes políticos militarizados pela Guarda Nacional, a se espalharem, livres de canga e corda, até 1930, quando sentem o primeiro golpe com o movimento revolucionário que toma conta do país naquele ano. Aguentam. Adaptam-se. Fingem-se de mortos, em alguns casos. Trocam o couro, imitando as cobras. E lá estão de volta com a Constituição de 1934, que põe fim ao Governo Provisório de Getúlio Vargas com uma das mãos, e o devolve ao poder, com a outra, ungindo-o presidente constitucional por mais quatro anos.

Mandato que o gaúcho de São Borja findaria por espichar em quinze anos de reinado absoluto, graças às mil astúcias de que era capaz, conhecedor profundo da alma humana como sempre se mostrou ser, especialmente das fraquezas que a sombreiam.

O paraíso do coronel do interior era aquele Brasil anterior a 1930: um país de 35 milhões de habitantes, 70% morando no campo, 60% de analfabetos, em que o presidente da República era eleito por menos de 3% dos eleitores. Em que o voto não era secreto nem feminino. E as eleições, uma farsa.

Eis aí o caldo de cultura que permitiu a disseminação do fenômeno do cangaço por todos os rincões do Nordeste rural, bafejado pela indevassabilidade da fronteira entre os estados e pela inviolabilidade da fazenda-feudo do coronel que estivesse de cima na política.

Fenômeno que não se detinha diante da fronteira estadual, reprimido ironicamente por polícias que não possuíam ação regional. É claro que, com o tempo, foram surgindo encontros entre governadores ou seus chefes de polícia, no intuito de subtrair o trunfo aos bandidos. Mas o prejuízo já estava feito. O cangaço se espalhava por todas as ribeiras da região, subindo de endêmico a epidêmico nos períodos de seca. Na de 1879, porventura a maior de que se tem notícia, um dos mais antigos cantadores-repentistas do Nordeste, Joaquim Jaqueira, talento que alguns dão como cearense, outros, como alagoano, nobilitado, em qualquer caso, por cantar na Pitombeira, para o barão do Pajeú, traçava o quadro da geografia do punhal em início de expansão:

Aí foi que os cangaceiros
Caíram no gado sem dó:
Calango, no Cariri,
Sereno, no Piancó,
Barbosa, lá no Navio,
Antõi Grande, em Moxotó.

Nos sertões do Nordeste, palco do livro que se vai ler, intitulado As Cruzes do Cangaço, escrito, em coautoria harmoniosa, por Marcos Antonio de Sá e por Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, jovens florestanos que não mediram esforços no afã de levantar e detalhar ao máximo os acontecimentos verificados no território atual da província de berço, o poder do cangaço atingiu níveis alarmantes, desapropriando, de facto, áreas inteiras do município de Floresta. Tempo de inversão de papéis, em que o soldado se escondia do cangaceiro, como disse o sargento volante Optato Gueiros, em rasgo de sinceridade acerca do ano de 1919.

A partir dos Anos 1910, foi comum que bons jornais recifenses, como o Jornal Pequeno e o Jornal do Recife, para não falar de A Província, de O Pernambuco e do Diário de Pernambuco, trouxessem seções fixas sob as manchetes “Questão da Vila Bela” e “Questão de Floresta”, tratando dos lances quase diários da disputa sangrenta entre as famílias Pereira e Carvalho, e do ajuste de contas entre os cangaceiros Cassimiro Honório e Zé de Souza, respectivamente. Toda uma geração abriu os olhos nas ribeiras do Pajeú e do Navio vendo a terra de seus pais pegar fogo, em meio às correrias do cangaço. E precisou adestrar-se no uso das armas brancas e de fogo, como requisito de sobrevivência.
 
Marcos e Cristiano não inauguram a crônica da guerra social florestana, é certo, que já dispunham das contribuições re-levantes de Marilourdes e de João Gomes, entre outros, mas vão além no detalhamento, por vezes correção, de episódios emblemáticos ocorridos em seu chão de berço, a exemplo da formação do povoado de Nazaré, das primeiras lutas do futuro Lampião e de sua família, da tragédia incrível da fazenda Tapera, da questão entre Horácio Novaes e Tibúrcio Gomes, do fogo do Tigre, do grande combate da Favela, do choque de parentes no riacho do Mundé, da Revolução de 1930 na cidade, do desforço cruel da fazenda Gravatá, do ataque à fazenda Barra da Forquilha pelo bando de Moreno, em meio à crônica de sangue da passagem desse carrasco de Lampião pelo município, todo o sumário servido com o molho dos diálogos refertos de regionalismos, das pabulagens, dos chamados ditos de mofa, dos pregões de valentia.

Como resultado do esforço que sabemos ter sido grande, os jovens autores nos permitem saborear o êthos e o páthos de uma ribeira pernambucana de imensa riqueza cultural, dando-nos, do mesmo passo, a satisfação de uma leitura aliciante, com o risco do leitor somente se deter para as refeições, como foi o caso deste prefaciador.

A Marcos Antonio de Sá e a Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, sem esquecer o revisor Leonardo Gominho e o consultor em genealogia Nivaldo Carvalho, os cumprimentos de quem, padrinho da obra, já se investe do privilégio de cobrar novos estudos à dupla de primos, ampliados a fim de abranger todas as ocorrências da Grande Floresta de outrora.

Frederico Pernambucano de Mello
Historiador da Academia Pernambucana de Letras

Como adquirir
Valor do livro – R$ 50,00, (mais frete).
Contato Cristiano Ferraz(87) 99918 - 1728 (WhatsApp)
cristiano-ferraz@hotmail.com

Pescado no essencial Tok de História

segunda-feira, 2 de maio de 2016

"Cariri Cangaço Floresta"

Confira a Programação do evento



Dia 26 de Maio  (Quinta-feira)
Floresta, PE


19:30h Câmara Municipal de Floresta
Solenidade de Abertura
Formação da mesa solene e autoridades
Apresentação do Cariri Cangaço
Entrega de diplomas e homenagens
Lançamento - "Manifesto de restauração do Batalhão de Floresta"
Mesa da Conferencia de Abertura: Manoel Severo, Ivanildo Silveira, João de Sousa Lima e Leonardo Ferraz Gominho.

Lançamento do livro “As Cruzes do Cangaço - Os fatos e personagens de Floresta ”
Marcos de Carmelita e Cristiano Ferraz
Apresentação da Obra: João de Sousa Lima
Apresentação dos Autores: Leonardo Ferraz Gominho

Conferência de Abertura: “As Cruzes do Cangaço - Os fatos e personagens de Floresta” por Marcos de Carmelita e Cristiano Ferraz.



Dia 27 de Maio  (Sexta-feira)
Nazaré


8:00h Saída para Nazaré do Pico
Concentração em frente à Câmara Municipal de Floresta

9:00h Hasteamento do Pavilhão Nacional e Municipal em Nazaré

9:30h Fazenda Jenipapo: Netinho Flor e Mabel Nogueira

10:20h Fogo do Enforcado: Zinho Flor

11:20h Fazenda Ema: Coronel Antenor Araújo Sobrinho

13:00h Nazaré do Pico
Almoço

14:30h Visitas em Nazaré do Pico
Campo Santo de Nazaré
Baraúna dos Revoltosos
Poço do Negro
Bustos dos Heróis de Nazaré

16:00h Clube de Nazaré
Formação da Mesa e entrega de diplomas
Homenagem aos Valorosos Nazarenos

Mesa da Conferencia
Juliana Pereira, Manoel Severo, Aderbal Nogueira e Jose Tavares.

Conferências
"João Gomes de Lira - O Soldado e o Pai" por Rubelvan Lira
"Genealogia dos Flor" por Netinho Flor

18:00 h Lanche Sertanejo e apresentações artísticas na Praça
"Orquestra Sanfônica de Carnaíba" e "Xaxado de Serra Talhada"



Dia 28 de Maio (Sábado)
Floresta


8:30h Saída para a Fazenda Poço do Ferro pertencente ao cel. “Anjo da Gia”  Local onde morreu Antônio Ferreira, irmão de Lampião
Anfitrião: Washington Lima (Bisneto de Anjo da Gia)

Concentração em frente à Câmara Municipal de Floresta

10:30h  Fogo da Varjota pelo cangaceiro Moreno

12:00h Almoço em Floresta

14:30 h  Saída para  Fazenda Tapera: Local da Chacina dos Gilo.

17:30h Foto Histórica no Batalhão de Floresta

19:30 h Câmara Municipal de Floresta

Mesa das Conferencias
Manoel Severo, Archimedes Marques, Narciso Dias.

Conferências
"A História de Floresta"
por Leonardo Ferraz Gominho
"Os Punhais do Cangaço"
por Denis Carvalho
"Theophanes Ferraz Torres"
por Geraldo Ferraz

Dia 29 de Maio (Domingo)
Floresta


8:30 h Café com Sanfona
Floresta Hotel

Lançamento do GFEC Grupo Florestano de Estudos do Cangaço
Marcos de Carmelita

Discussão sobre o projeto da "Editora Cangaço"
Manoel Severo, Raul Meneleu, Professor Francisco Pereira e Ângelo Osmiro.




sábado, 15 de dezembro de 2012

Convite!!!

Lançamento do livro "Lembrar e Escrever, não é só querer..." de autoria de Manoel Cavalcanti de Souza o ex-volante"Neco de Pautilia".





Finalmente o sonho se realiza. O evento ocorrerá no dia 21 de dezembro de 2012, as 18 hs, no Espaço Cultural João Boiadeiro, Floresta-PE. Para maiores informações e aquisição de exemplares, falar com Alaíde Cavalcanti (filha de Seu Neco) , Contatos (87) 9927 5853. ou pelo email: alaidecavalcanti@hotmail.com

Créditos da informação: Arthur Denis Carvalho

terça-feira, 19 de junho de 2012

A força do coronel

Documento que conferia prerrogativas especiais aos ex-integrantes da Guarda Nacional:

Por Dênis Artur Carvalho

Eis a carta-patente que pertenceu ao Cel. João Militão da Silva Barros.




Tradução:

Junta Militar do Município de Floresta, 23 de Agosto de 1937.

Honras e garantias aos oficiais da Guarda Nacional.

A lei n° 602 de 19 de setembro de 1850, conferiu aos senhores Oficiais da Guarda Nacional as mesmas honras e garantias que competem aos Oficiais do Exército e Armada Nacional (Artigo 60 e 66), tendo o Decreto n° 13.040, de dezembro de 1918, que extingue a aludida guarda, lhes assegurando, como não podia deixar de fazê-lo, tais prerrogativas, assim dispondo no número um do parágrafo 1° do artigo 22, os oficiais da Guarda Nacional continuam nos gozos de seus direitos de acordo com a lei em vigor, não podendo serem recolhidos a prezídios [sic] destinados a réus de crimes comum. Parecer n° 85 de 7 de setembro de 1936 do Supremo Tribunal Federal e Justiça Militar do Boletim diário n° 79 de 23 de setembro de 1936. (Assignado)

Antonio Luiz Cavalcante d’Albuquerque.
O major à quem foi conferido esse documento foi preso e mandado à cadeia pública do Recife pela símples acusação de acoitar cangaceiros (o que realmente aconteceu, mas quem seria o louco de expulsar 93 homens armados de seu "terreiro", vindos do combate da Tapera?).


Cel. João Militão da Silva Barros  

Essa famosa questão da "injustiça social e miséria" não está apenas relacionado ao coronelismo. E cangaceiro também não é o "herói" que assaltava as fazendas e distribuía os saques com os "flagelados" da seca, como muitos acreditam.

Não defendo a tese do "banditismo social" e nem puxo a toalha para nem um dos lados, mas colocar os "coronéis"  como únicos responsáveis pelo surgimento do banditismo e considerá-los pior de que estes é uma tremenda injustiça.

Sinhô Pereira era descendente de barão, membro de uma das famílias dominantes da região, muitas vezes até chamado de "coroné" e mesmo assim era cangaceiro. Então, não combina essa questão de "os oprimidos rebelaram-se contra seus opressores".

Um abraço e desculpa as entrelinhas.

Dênis Artur Carvalho.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Imprensa e Cangaço

Entrevista com o confradre Geraldo
  
Caríssimos,
Saudações fraternais!


Divido com vocês este presente que ganhei, no final do corrente ano, que vem a ser a entrevista realizada pelo escritor Antônio Filho Neto, bravo sertanejo de Serra Talhada, terra do meu inesquecível pai, sobre tema tão importante para a Cultural Nordestina. Para o Jornal Correio do Pajeú.

Recebam meu abraço e o meu carinho.

Atenciosamente,
Geraldo Ferraz

O Major Theophanes Ferraz Torres foi um bravo militar que prestou grande serviço a Pernambuco. Esteve à frente de importantes missões no sentido de impor a ordem pública em nosso Estado. Você pode citar de forma sucinta algumas dessas missões e quais delas pontuaram de forma significativa a trajetória militar do Major Theophanes Ferraz? 

Para início de conversa, peço vênia para destacar que o bravo sertanejo, Theophanes Ferraz Torres, natural da cidade de Floresta-PE, alistou-se na Brigada Militar de Pernambuco, em janeiro de 1912, com 17 anos. No primeiro ano de incorporado, graças a sua vocação e denodo pessoal, foi notado e prestigiado pelos seus superiores, passando de soldado para anspeçada (antigo posto militar que corresponde ao atual 2º tenente), galgando, com isto, sete postos militares.
No tocante as missões mais espinhosas que foram atribuídas para Theophanes, gostaria de destacar, em resumo, as mais importantes ações:

Ano de 1913 - Em agosto, com 18 anos, foi nomeado delegado de Villa Bella, atual Serra Talhada. Seguiu para aquela cidade com o objetivo primordial de impor a ordem pública e dar combate aos grupos de cangaceiros que agiam naquela região, tendo como foco principal da missão a ação contra o grupo liderado por Né Pereira. Theophanes, naquela oportunidade, teve seu batismo de fogo contra os bandoleiros que infestavam os nossos sertões.
 Ano de 1914 - Em julho, por conta das ações dos bandoleiros, foi nomeado, mais uma vez, delegado de Villa Bella. No mês de setembro, em cumprimento ao Acordo de Fronteiras contra o banditismo, firmado entre os Estados de Pernambuco e da Paraíba, no dia 25 de novembro de 1911, foi nomeado delegado de Taquaritinga. No dia 28 de novembro, prende, após tiroteio verificado na Lagoa da Laje – Vertentes, o cangaceiro Antônio Silvino, pondo fim a um reinado de mais de 15 anos de terror.
 Ano de 1917 – Com o assassinato do Deputado Estadual Júlio Brasileiro, no Recife, em 14 de janeiro, Theophanes foi enviado para assumir a delegacia de Garanhuns. Durante a tragédia que se abateu naquela cidade, fato este que passou para a história como a Hecatombe de Garanhuns, conseguiu impor a ordem pública e pelo seu ato, foi promovido ao posto de capitão, contando, apenas, com 22 anos. Em 12 de junho, pelo recrudescimento dos ataques dos cangaceiros liderados por Sinhô Pereira e Luiz Padre, foi nomeado delegado de Villa Bella e comandante das 2ª e 3ª Regiões Policiais do Estado. 
 Ano de 1918 – Em 25 de agosto, seguiu para o Sertão, comandando força volante e ficou encarregado de fiscalizar as 7ª, 8ª, 9ª e 10ª Regiões Policiais do Estado. Em setembro, combateu cangaceiros que ocupavam a Fazenda 28, no município de Villa Bella.
 Ano de 1919 – A população sertaneja estava atravessando uma seca inclemente, seca esta que muito contribuiria para o aumento do banditismo nos sertões. Grupos de cangaceiros liderados por Sinhô Pereira, Luiz Padre, Praxedes, entre outros, atacavam, sem dó, as propriedades do município de Villa Bella. Em 16 de abril, Theophanes seguiu para aquela cidade, comandando uma força de 60 soldados com a finalidade de combater os cangaceiros e impor a ordem pública. Theophanes ficaria no Sertão até dezembro daquele ano. Ao recolher-se, sem tempo para qualquer descanso, foi destacado para a cidade de Palmares a fim de evitar uma possível nova hecatombe em nosso Estado.
 Ano de 1920 – Em 02 de novembro, seguiu para o interior do Estado, com ponto de apoio em Floresta, com a missão de desbaratar grupo de bandoleiros que agia na Serra do Umã, Vila Conceição e no município de Salgueiro. No combate da Serra do Umã, primeira vez que uma força militar adentrava naquela elevação, Theophanes foi ferido e só não foi morto graças à bravura dos seus leais soldados.
Ano de 1922 – Em 17 de março seguiu em diligência para Villa Bella e Floresta, com o objetivo de combater o banditismo então reinante. Em 18 de agosto, com 27 anos, é promovido ao posto de major.
Ano de 1923 – Em 16 de abril é nomeado delegado de Correntes. Com a morte do Prefeito, Cel. Joaquim Leão, temia-se que sucedesse uma nova hecatombe em Pernambuco. Theophanes daria voz de prisão ao assassino do inditoso coronel. Como consequência ao novo acordo de fronteiras, assinado em 15 de novembro de 1922, pelos Estados de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande Norte, Theophanes foi nomeado delegado de Jatobá de Tacaratú e comandante do destacamento local. 
 Ano de 1924 – Em 01 de janeiro, Theophanes seguiu em diligência para Boa Vista, fronteira com a Bahia, para defender a região contra ações do cangaceiro Dom Villa Bella (Dativo), esta ação durou até o início de março de 1924. Com a intensificação das ações de Lampião, Theophanes é nomeado, em 07 de março, Comandante Geral das Forças Volantes nas Zonas Sertanejas. Os bandos mais atuantes, que agiam no Sertão de PE, naquela época, eram os de Virgulino Ferreira da Silva, vulgo “Lampião”, Meia-Noite, Antônio Rosa, Cícero Costa, Sabino Gomes, Beneditos, Cypaubas e Gabriel Alicrim. Em 23 de março, formando uma super Volante, Theophanes promove duro combate contra Lampião, na Lagoa Vieira, município de Vila Bela. Lampião foi ferido e sua vida esteve por um fio. Em 02 de abril, Theophanes combate Lampião, mais uma vez, na Serra da Panela. Depois de cerrado tiroteio foram mortos os cangaceiros Lavadeira e Cícero Costa e ferido Antônio Ferreira. O resto do bando correu em completa debandada. No mês de junho, Theophanes foi nomeado para promover sindicância na cidade de Salgueiro e efetuar diligências pessoais no município de São José do Belmonte, com o objetivo de combater as ações do grupo dos Cypaubas. Em 31 de julho, Theopanes combateu Sabino Gomes na Fazenda Aboboras, município de Villa Bella, proximidades com a Paraíba. Em 22 de novembro, o governo de Pernambuco, necessitando de oficial tarimbado para esquadrinhar as ações e os avanços da Coluna Prestes, que já se encontrava em território próximo aos limites com nosso Estado, nomeou Theophanes como delegado de Petrolina. 
 Ano de 1926 – Em 14 de janeiro, sob o comando de João Nunes, Theophanes, incorporado as forças de Pernambuco, atacaram e repeliram os rebeldes da Coluna Prestes, na cidade de Valença, Piauí. Em 20 de setembro, Theophanes é indicado comandante das tropas contra o banditismo reinante no alto Sertão de Pernambuco, tendo a cidade de Salgueiro como sede provisória do comando. Na medida em que ia promovendo uma limpeza geral contra os fora-da-lei, seguiu para a cidade de Floresta, que, agora, se torna sede provisória do comando, em 01 de outubro. Em 09 de novembro, Theophanes é convocado para comparecer no Recife, a fim de acertar medidas enérgicas contra as ações dos bandoleiros. Em 11 de novembro, Theophanes assume, pela segunda vez, o comando das forças volantes contra o banditismo.
 Ano de 1928 – No mês de janeiro, Theophanes e Eurico de Souza Leão, Chefe de Polícia de Pernambuco, realizaram um raid vitorioso por terras sertanejas, para demonstrar o sucesso do seu vitorioso trabalho. No mês de abril, circulavam boatos no Recife que iriam acontecer graves problemas, fato este que colocou as Forças do Exército e da Polícia de Pernambuco em prontidão máxima. Tal acontecimento, apressou o recolhimento de Theophanes à capital. Em 30 de maio, Theophanes, com 33 anos, é promovido ao posto Tenente-Coronel e comandante do 1º Batalhão da Força Pública.
 Ano de 1930 – Em 02 de julho, Theophanes e o major Nelson Leobaldo, apuraram denúncia de infiltração comunista na Força Pública e prenderam vários sargentos. Em 03 de outubro, rebenta a Revolução em vários pontos do País. Theophanes, com sua peculiar bravura, enfrenta os revoltosos. O Cel. Wolmer, não querendo passar o comando para Theophanes, entrega o Quartel do Derby aos Revoltosos. Inconformado, Theophanes forma coluna independente e ruma para o Sertão do Estado. Em 13 de outubro, sob falsas garantias da facção vencedora, Theophanes regressa à Capital, sendo preso e submetido a humilhações.
 Ano de 1933 – Falece, na cidade de Villa Bella, em 11 de setembro, o bravo militar que, com seu árduo trabalho, possibilitou a paz social nos sertões de nosso Estado.

Theophanes Ferraz Torres

O que é ser neto do Major Theophanes – um cidadão de reputação ilibada, um militar corajoso cumpridor de seu dever – um exemplo de homem público? 
Em primeiro lugar gostaria de destacar, com muito orgulho, que é uma imensa honra ser neto desta figura exemplar e lendária da luta titânica contra o cangaço, nas três primeiras décadas do século passado. Em seguida, gostaria de acrescentar, que, para mim e para alguns estudiosos da temática do Ciclo do Cangaço, tendo em vista que a coragem demonstrada por Theophanes é um atributo nato dos heróis, eis ai, portanto, um verdadeiro herói para se cultuar.


Os seus livros “Theophanes Ferraz Torres um Herói Militar na Cavalaria Pernambucana” e “Pernambuco no Tempo do Cangaço” foram elaborados dentro dos critérios técnicos da pesquisa científica – tudo fundamentado em fatos concretos registrados em arquivos públicos da época o que torna sua obra muito mais valiosa. Quantos anos foram necessários na realização dessa pesquisa e que o motivou a encarar esse desafio? Você tem algum projeto em andamento para outra obra do gênero? 
Levei cerca de quinze anos de intensa pesquisa para concluir “Pernambuco no Tempo do Cangaço”. Um Herói na Cavalaria, por sua vez, me tomou cerca de dois anos. Os trabalhos citados versaram sobre o resgate da memória de nossa história contemporânea, a qual trata dos fatos notáveis ocorridos no Brasil e, em particular, no Estado de Pernambuco, durante a época do banditismo que campeava no início do século XX, com ênfase toda especial ao trabalho desenvolvido pelas nossas instituições de defesa social – Militar e Civil -, em prol de uma sociedade melhor e mais justa. Os trabalhos, em questão, tratam, também, da biografia de Theophanes Ferraz Torres, um grande homem, notável militar e um exemplo para a sua época, bem como, para as gerações presentes e futuras. Atendendo sugestão do mestre Frederico Pernambucano, que assim se expressou: “Convém que Geraldo, cumprido o dever que se assinou no tocante à vida do avô, ponha seu instrumental investigativo a serviço do levantamento do triênio de ouro da ação policial em Pernambuco,...”, estou tentando, junto aos familiares do então Chefe de Polícia, Eurico de Souza Leão e do militar João Leite Serrano de Andrade, dar prosseguimento as minhas pesquisas, já iniciadas, concretizando, assim, mais duas importantes biografias de época. 


O Major Theophanes foi comandante geral das “Volantes” no combate aos cangaceiros no Sertão de Pernambuco. Você pode informar quantas volantes ficavam sobre o seu comando e se todos os membros das volantes eram militares ou voluntários? Em números, qual o efetivo militar, da época, que cobria todo Sertão de Pernambuco? 
O efetivo médio de uma força volante era formado por cerca de vinte praças, que, na maioria das vezes, agregava: paisanos armados, chamados por “cachimbos”; guia; rastejador e pessoas que indicavam os coiteiros, essas, conhecidas por “ponteiros”. Não consegui, infelizmente, localizar registros detalhados sobre tais estatísticas. Posso destacar, contudo, que quando Theophanes foi nomeado Comandante Geral das Forças Volantes, no ano de 1924, estiveram agindo em nossos sertões: uma super-volante, comandada pelo próprio Theophanes, e, sob suas orientações, as lideradas pelos tenentes: Amadeu, Malta, Alencar e Ibrahim; Sargentos Alípio Pereira de Souza, Hygino José Belarmino e a de Clementino Quelé. Nos anos de 1926/1928, quando de sua ação como Chefe Militar Geral, pela segunda vez, teve os seguintes comandantes de volantes: capitão João Luiz de Carvalho; os 1º e 2º tenentes: Euclides de Souza Ferraz (Euclides Flor), Sidrack de Oliveira Correia, Damião João Leite Serrano de Andrade, Euclydes de Araujo Lemos, Francisco Flavio Ibrahim de Lyra, Eduardo José de Siqueira, Alfredo Cavalcante de Miranda, Amadeu de Araujo Guimarães, Arthur Guedes Alcoforado, Optato Gueiros, Augusto de Lyra Guedes, Aurelio de Araujo, Hygino José Bellarmino, Antonio Francisco dos Santos, Solon de Oliveira Jardim e Alipio Pereira de Sousa; sargentos Arlindo Rocha, Carlos Affonso de Mello, Petronillo, João Alves e Maurício Vieira de Barros; cabos Manoel de Souza Neto (Mané Fumaça) e Francisco Liberato; e os anspeçadas Manoel Gomes de Sá, Hercílio Nogueira e Aureliano de Souza Nogueira, vulgo Lero.


Lampião passou 20 anos de sua vida pintando, bordando, casando e batizando como se não existisse lei no sertão nordestino. A que você atribui todo esse poder de Lampião por tanto tempo? Quem era beneficiado pelas ações do Rei do Cangaço? 
Nem no Império e nem, tão pouco, no início da Nova República, houve, por parte dos governantes, preocupação de se estabelecer uma política séria, para com os nossos sofridos sertões, principalmente no que toca ao capítulo da segurança pública e da sobrevivência daquela gente honesta e laboriosa. Tudo era dificultado (estradas, ensino, alimentação, saúde, entre outros). Realmente, a ausência dos braços da Lei era sentida nos nossos Sertões. Os maiores beneficiados, sem a menor sombra de dúvida, foram alguns chefes políticos que se locupletaram com as ações de Lampião. Só com a intensificação do emprego das denominadas "Forças Volantes", que, na sua grande maioria, prestaram relevantes serviços à sociedade, sem possibilitar qualquer trégua ao banditismo, é que o comandante Theophanes, através de um saneamento moral, conseguiu promover a tão sonhada paz social no Sertão pernambucano. 


Sendo um historiador que trabalha sempre com dados verdadeiros, onde mata a cobra e mostra o pau, responda-me quem fornecia armas para os cangaceiros do Sertão, especialmente, para o grupo de Lampião? Por que essas armas chegavam, facilmente, nas mãos dos cangaceiros?
Somos sabedores que Lampião era abastecido, principalmente, por poderosos chefes políticos do Cariri Cearense. Em Pernambuco, em minhas pesquisas, não foi possível estabelecer quais os verdadeiros fornecedores de armas e munições, muito embora, destaco que Theophanes promoveu sérias denúncias sobre tal fato, porém, os nomes não foram declinados nos telegramas e correspondências entre aquela autoridade, o Chefe de Polícia e o Comandante da Força Pública. Acredito que, por se tratar de assunto de extremo sigilo, este não poderia, infelizmente, ser devidamente registrado na papelada oficial.


A que você credita o fracasso das volantes nas ações contra o grupo de Lampião? As volantes eram despreparadas ou Lampião era muito esperto? Quase sempre Lampião lograva êxito – como ele dizia “Armo a arapuca, boto bananas e chamo os macacos pra comerem e eles vêem ligeirinho”. 
Nem todas as volantes eram devidamente preparadas, principalmente aquelas formadas por incorporados (cachimbos), que, na maioria das vezes, não tinha a disciplina da caserna. A prepotência de alguns comandantes e a pressa de outros, também, foram fatores negativos quando do combate. Lampião era um grande estrategista, para mim um autêntico gênio militar. Desconfiasse, a propósito, que algum desertor do Exército ou mesmo da Força Pública o orientava, fato este que não correspondia à verdade. Lampião deixou, muitas vezes, muitos soldados “se estragando uns contra os outros”, como gostava de dizer.


O Major Theophanes – um sertanejo que honrou o sertão, por isso entende que merece ser homenageado. Você sabe dizer se existe alguma cidade do sertão de Pernambuco que o tenha homenageado? 
Com exceção da sua cidade natal, Floresta, que lhe deu nome à uma rua e a uma praça, além da cidade de Petrolina, que o destacou no museu da cidade, desconheço a existência de outro local que tenha se preocupado com tal fato. Por incrível que pareça, Theophanes, que deu seu sangue, seu suor e o melhor da sua vida profissional na luta contra o banditismo urbano, principalmente na cidade do Recife, para nossa surpresa, não existe, sequer, um prédio, uma rua, nada que o homenageie. A Polícia Militar de Pernambuco, também, encontra-se em débito para com esta figura lendária. Até hoje, não se tem um Quartel, um Batalhão, ou qualquer outro local, até mesmo na Arma de Cavalaria (lembremo-nos que foi ele quem modernizou a Cavalaria de Pernambuco, no tempo do governador Manoel Borba), que lhe preste tal tributo. Para finalizar, lembro, aos desavisados, que Theophanes é o precursor do que, hoje, é a Companhia Independente de Operações e Sobrevivência em Área de Caatinga (Ciosac), basta verificar sua história no ano de 1924. 

Emblema da CIOSAC. Fonte: GTU Assú

Para tal questão, caro entrevistador, faço das minhas palavras as do pesquisador Alfredo Bonessi; “Penso que o Cel. Theophanes merece algo mais que lembranças. Ele merece nome de bairros, nomes de quartéis militares, estátuas em praças, dia em calendário, museu, uma linda capela, um lugar em que possamos nos ajoelhar perante a sua estátua, chorarmos um pouco, olharmos para ele, agradecermos pelo seu trabalho, pelo seu exemplo, pela sua honestidade e ficarmos felizes em saber que ele está presente em espírito ao nosso lado e que mais hoje, mais amanhã, estaremos todos juntos em outras histórias, nos preparando para escrevermos mais histórias”.


Você acredita na versão de que Lampião foi morto em Angico em 1938? Justifique a sua resposta de modo que comprove ou não essa versão?
Embora minhas pesquisas se estendam até a expulsão de Lampião e seu reduzido grupo para o Estado da Bahia, em agosto de 1928, posso afirmar, pelo que já li e pude apurar sobre a matéria, inclusive através de conversas com nazarenos, como foi o caso de Luiz Flor e Herculano Nogueira, além de outros sertanejos, que, mesmo com o desgosto dos nazarenos de não puderem ter dado cabo do seu tão odiado inimigo, em luta travada em campo raso, eu acredito, piamente, na morte daquele bandoleiro na grota do Angico.


Entre os historiadores do Cangaço há divergências do local e data onde os pais de Lampião morrem e em que circunstâncias. O que sabe você a respeito desse assunto?
Através das minhas pesquisas pude verificar que no dia 22 de maio de 1921, José Ferreira, para evitar mais confusões, decidiu retirar-se da cidade de Matinha para Mata Grande, também localizada no Estado de Alagoas. No caminho, na localidade conhecida como Engenho, pediram rancho ao Sr. Fragoso, no que foram atendidos. Naquele mesmo dia, a matriarca da família Ferreira, Dona Maria Lopes, falecia de um infarto fulminante. O Tenente José Lucena, da Força Pública de Alagoas, acompanhado pelo Delegado Amarílio, em diligência contra as ações dos cangaceiros, chegou ao local Engenho, no dia 09 de junho, logo no início daquela manhã, tendo se verificado, em seguida, um tiroteio que culminou com a morte do desafortunado pai dos Ferreiras, que, infelizmente, se encontrava em local e em hora errada. 


Na sua visão de historiador e estudioso do cangaço, Lampião foi bandido, herói ou justiceiro? 
Diferente de outros bandoleiros que se utilizaram do “Escudo Ético”, tão bem informado pelo pesquisador Frederico Pernambucano de Melo, como foi o caso de Antônio Silvino, muito embora, estes, assim que consumavam sua vingança, não abandonavam aquele fantástico modus operandi e faciendi, para mim, Lampião, à luz do Código Penal vigente à época e, no da atualidade, foi um legítimo quadrilheiro, com um diferencial que o destacava dos demais bandoleiros, era sua genialidade. Do mal, posso afirmar, mas o cidadão era um gênio. Quero reforçar, contudo, que classifico este líder carismático, que se utilizava do seu poder de atração e magnetismo pessoal, como um ícone do mau comportamento. Através de suas terríveis ações psicológicas, extorsões, assassinatos, sequestros, uso de violência gratuita, implantou o reino do terror, provocando o pavor das populações ameaçadas, bem como, daqueles que o combatiam, o que facilitava, é claro, sua atuação. 


Há quem diga que Lampião entrou no Cangaço para vingar a morte de seu pai. Você acredita nessa versão? Dê sua opinião.  
Claro que ele não entrou, pura e simplesmente, para vingar a morte do seu pai. Assim vejamos: Lampião, Antônio e Livino Ferreira, já se envolviam em lutas desde o ano de 1917. Em 1920, o trio junta-se ao seu tio Antônio Matilde (irmão de José Ferreira), para agirem nos arredores de Matinha, Mata Grande e Água Branca, no Estado de Alagoas. Destaco, para melhor compreensão, que a morte do Sr. José Ferreira, pai dos Ferreiras, só veio a ocorrer no ano de 1921, mais precisamente, no dia 09 de junho. Acredito que, a partir daquela data, o coração já enegrecido de Lampião tornou-se, definitivamente negro, tornando-o uma pessoa cheia de mágoa e extremo ódio. 


Zé Saturnino foi o 1º amigo também o 1º inimigo de Lampião. Alguns historiadores o apontam como responsável pela entrada de Lampião no Cangaço. Qual sua opinião nesse contexto?  
Neste caso, tenho a informar que as desavenças entre ambos ajudaram, muito, para que o Lampião tomasse rumo na vida do cangaço. Só não tenho elementos concretos para opinar que tal fato tenha sido o start, bizarro, daquele que se tornaria o famoso condottiere que foi.


Existem, atualmente, algumas entidades de estudos e pesquisas sobre o Cangaço. Quais as razões que justificam o interesse por esse assunto e quais os aspectos positivos desse trabalho? 
O fenômeno do Ciclo do Cangaço se configura, sem a menor sombra de dúvidas, como um dos mais intrigantes e intranqüilos da história do povo nordestino. O objetivo de resgatar a historiografia do cangaço na região nordeste, uma história tão nossa, é a temática exclusiva dos estudiosos do Cariri Cangaço (que se reúnem na região do Cariri Cearense), da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (com sede em Mossoró/RN), Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará – GECC, entre outras entidades que não me recordo, neste momento. 


O tema Lampião é uma fonte perene para pesquisadores e historiadores. Muitas obras já foram escritas nessa temática e todos os dias novas obras são publicadas. O que você atribui a esse fenômeno?
A riqueza da saga histórica do nosso povo. O Ciclo do Cangaço, como gosto de avocar, é uma poderosa mina de ouro, sempre aberta às pesquisas, daí estarmos, sempre, tomando conhecimento de fatos novos e relevantes da nossa rica história, em busca do cobiçado filão dourado. Veja o exemplo do fantástico projeto Cariri Cangaço, do qual tenho a honra de ser Conselheiro. A cada edição que participamos, descortinam-se fatos novos e somos surpreendidos por uma avalanche de informações. Precisamos, com a máxima brevidade, atravessarmos o além-mar e destacarmos ao mundo, também, nossa tão rica cultura histórica. 


Há mais de dez versões sobre a origem do nome “Lampião”. Qual delas você acredita ser a verdadeira?
Sem poder confirmar qual versão é a verdadeira, prefiro aquela que informa ter Virgulino Ferreira da Silva, quando no grupo de Sinhô Pereira, usado um lenço no rifle, que servia de correia, transformando-o numa arma de alta repetição, e, conseqüentemente, emitia um grande clarão, que segundo os companheiros, se parecia um "LAMPIÃO".