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segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Pedro Carolino de Sousa

De refém a sargento de volante

Por Luis Bento


O então distrito de Macapá, hoje Jati, por se localizar na região sul do cariri cearense, fronteira do Estado com o Pernambuco, sempre viveu conturbados dias de conflitos por cangaceiros que assolavam na região.


Jati - CE


No início do ano de 1938, aconteceu no sítio Oitis no então distrito Macapá, um episódio envolvendo Pedro Carolino e o cangaceiro Moreno. 


Pedro, ficou refém do grupo por determinadas horas, sobre ameaças de morte, enquanto seu cunhado Noia Gomes foi imbuído a uma missão, de ir ao distrito efetuar compras de alimentos e munição para o bando necessitado.

 

Pedro Carolino de Sousa

"Vivi momentos de angústia, todo instante era ameaçado de morte, caso meu cunhado falhasse as exigências do grupo,  por pouco não morri, acredito que agente só morre quando chega o dia".  Assim comentou Pedro Carolino ".

            

Dias após o acontecido, Pedro Carolino e seu cunhado Noia Gomes, procuraram o Quartel General da Cidade de Juazeiro do Norte e foram dar combate ao  grupo cangaceiro que atuava na região.

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Personagens terciários

Quem é este senhor, e o que ele tem haver com a história do cangaço?

 


Crato, ano de 1935 - Pedro Maia (1892-1981) com o seu Ford 1934, placa "CE 20 8-A", estacionado numa das laterais da Praça Siqueira Campos, na Rua Dr. João Pessoa, esquina em que funcionou o Banco do Cariry, fundado em 1924.
 

Chofer de praça e fotógrafo (além de outras profissões), foi Pedro Maia quem acompanhou o médico e jornalista Otacílio Macedo na célebre entrevista com o cangaceiro Lampião, realizada em Juazeiro do Norte no dia 06 de março de 1926, ocasião em que o bandido e seus familiares foram fotografados pelo profissional cratense.

**Foto: Júlio Saraiva / Acervo: Linard. Créditos do post: Nélio Falcão

Adendo Lampião Aceso:

Duas das fotografias de Lampião e sua família, feitas por Pedro Maia em 1926.





    Já as fotos a seguir foram batidas por Lauro Cabral de Oliveira...



 


quarta-feira, 26 de agosto de 2020

A Santa Cruz do Deserto:

Revisitando o Caldeirão – Beato José Lourenço é o último “Conselheiro”

Por Tarcísio Marcos Alves (1940 – 2016) – Professor – Autor do livro A Santa Cruz do Deserto: a comunidade igualitária do Caldeirão: 1920-1937.

Fonte – Suplemento Cultural. Estado de Pernambuco. Ano XII. Outubro/Novembro 1997, págs 24 e 25. Imagens – Tok de História

Em 1897, quando as tropas federais destruíram Canudos, o beato José Lourenço Gomes da Silva iniciava, no Sítio Baixa D’Anta, no Juazeiro do Norte — Ceará, a organização de uma comunidade camponesa igualitária que, após, alguns anos, realizara no Sítio Caldeirão, no Crato — Ceará. A experiência realizada pelo beato José Lourenço representou a última tentativa de um beato e seus seguidores de organizar uma comunidade camponesa de cunho religioso nos sertões nordestinos.
Beato José Lourenço.
Isto porque a política modernizante-autoritária do Estado Novo, aliada às facções fascistas da Igreja Católica, destruíram sistematicamente os movimentos populares — de beatos e cangaceiros — filhos do século XIX; Caldeirão foi devastado em 1937, e, um ano depois, Lampião e seus sequazes foram assassinados pelo capitão João Bezerra, seguido, meses depois, pela dizimação dos restos de beatos que viviam em Pau de Colher, na Bahia, pelo implacável caçador de beatos e cangaceiros Optato Gueiros…
O Estado Novo encerrou assim, para sempre, um ciclo de revoltas populares características do século XIX, que desde então estarão historicamente ultrapassadas.

José Lourenço chegou ao Juazeiro do Norte na época dos “milagres” (1889), quando a aldeia fervilhava de romeiros que afluíam de todas as regiões sertanejas para a terra do Padre Cícero Romão Batista. Duas coisas importantes os atraíam: as terras férteis do Vale do Cariri e a certeza de alcançarem a salvação na cidade do santo milagreiro. O próprio Padre Cícero constatou o fato, ao afirmar que “Juazeiro tem sido um refúgio dos náufragos da vida”. É que para lá iam multidões de miseráveis, refugiados das regiões castigadas pelas secas…
Outra imagem do Beato José Lourenço.
O beato José Lourenço logo se integrou na aldeia e tornou-se penitente. Morou alguns anos no Juazeiro e depois foi com a família viver no sítio Baixa D’Anta. Lá começaram a desenvolver uma experiência de trabalho coletivo com base no mutirão, o que levou a um esboço de organização de uma comunidade camponesa de cunho cooperativista. Mas o que mais marcou a sua vida no sítio e o tornou conhecido na região foi o episódio do boi “Mansinho”. Tratava-se de um garrote que o Padre Cícero ganhara de presente e dera ao beato para criar. Como era um animal pertencente ao Padre Cícero, toda a comunidade dedicava um tratamento especial ao boi. Em pouco tempo surgiram boatos de que o boi “Mansinho” estava fazendo milagres…
Região do Caldeirão – Foto – Rostand Medeiros.
Por essa época (cerca de 1920), além das perseguições religiosas contra o Padre Cícero, a imprensa fazia uma feroz campanha contra Floro Bartolomeu. Este passou a ser acusado pelo Deputado Federal Morais e Barros como o “Deputado de bandidos e fanáticos”. Sob pressão, Floro Bartolomeu foi obrigado a agir: mandou prender o beato José Lourenço e matar o boi “santo”.
Padre Cícero em sua mesa de trabalho.
Solto e humilhado, com fama de “fanático” José Lourenço voltou para o sítio Baixa D’Anta, onde viveu mais alguns anos, quando o proprietário da terra vendeu a propriedade e expulsou-o de lá. O beato passou algum tempo em Juazeiro, onde, pelas suas práticas religiosas, adquiriu fama de “homem santo” e passou a ser tratado como “beato”. Em 1926 retirou-se com algumas famílias para o sítio Caldeirão dos Jesuítas, terra pertencente ao Padre Cícero. O Padre entregou as terras ao beato quando o seu testamento já estava pronto, no qual doara todas as suas propriedades aos Salesianos, inclusive o sítio Caldeirão. Encerrava-se a história do boi “Mansinho” e começava a do beato José Lourenço, que em breve tornar-se-á o beato mais célebre da região do Cariri e liderança indiscutível de uma comunidade camponesa contando com alguns milhares de trabalhadores pobres.
Igreja do Sítio Caldeirão – Foto – Rostand Medeiros
Na comunidade, a experiência vivida expressou-se em uma experimentação concreta da fé, a materialização de uma nova forma de vida: o trabalho tornou-se um meio para a salvação da alma. A principal testemunha dos acontecimentos do Caldeirão, o senhor Henrique Ferreira, recentemente falecido, assim descreve o trabalho como penitência na comunidade do Caldeirão: “É os penitentes, é os pobres penitentes, que todo pobre é penitente. O trabalhador é um pobre penitente! Tá na penitência do trabalho!” Nestas condições, a pobreza da vida tornou-se suportável e até prazerosa. Foi a partir desta perspectiva religiosa – o trabalho como penitência —, que a comunidade camponesa do Caldeirão se organizou.
Formação rochosa que acumulava água na época de seca, conhecida como “Caldeirão”, que batiza a localidade histórica. Esse tipo de local foi essencial para o sucesso inicial da comunidade do Beato José Lourenço – Foto – Rostand Medeiros.
O sítio era uma pequena propriedade abandonada, com cerca de 900 hectares, do outro lado da Serra do Araripe, distante vinte quilômetros do Crato. Encravado entre serras e morros, de acesso extremamente difícil, era lugar ideal para o isolamento. Lá instalados, o beato e seus seguidores deram início aos trabalhos de limpeza dos matos e construções e reparos de cercas. Construíram a casa do beato e as primeiras e pequenas casas de taipa e, como a terra era seca, iniciaram também a construção de pequenas barragens nos grotões e socavões dos morros, garantindo assim razoável abastecimento de água para as épocas de secas. Nas terras altas deu-se início a plantação de algodão, milho e feijão. Nas terras baixas, irrigadas por processos primitivos, plantou-se cana-de-açúcar e arroz. Pequena engenhoca levantada nas imediações do pequeno povoado passou a produzir rapadura, batidas e melaço suficientes para o sustento da comunidade. Construíram ainda a casa de farinha e produziam sabão, a partir de uma planta nativa da região, conhecida por “pingui”. Em pouco tempo, o que era uma terra deserta e abandonada transformou-se em um pequeno arraial.
Área do antigo Sítio Caldeirão na atualidade 
Foto – Rostand Medeiros.
Nessa fase inicial, a comunidade trabalhava basicamente na agricultura e na construção de casas em mutirão para os novos moradores. Cada nova família que lá chegava era bem recebida, e os que já viviam no sítio construíam logo a nova moradia; alastraram-se as casinhas a partir do sopé dos morros, formando, gradativamente, um cinturão em redor da pequena planície onde floresciam as primeiras plantações. A divisão do trabalho era simples: os homens trabalhavam na limpeza dos terrenos, na construção de casas, de caminhos, cercas e na agricultura, enquanto as mulheres, além dos trabalhos caseiros, carregavam água para molhar as plantas, ajudadas pelas crianças maiores. O problema da água será resolvido definitivamente através da construção de dois açudes.
A educação na sua comunidade era uma grande preocupação 
do Beato José Lourenço.
O beato estava sempre à frente de todos os trabalhos e tudo era feito sob a sua orientação. Trabalhava-se das seis da manhã às seis da noite, sob o ritmo dos benditos, puxados pelo beato… A incrível capacidade de trabalho e liderança do beato é atestada por todos, inclusive por aqueles que não nutriam simpatia por ele, como é o caso do tenente Góis de Barros – que comandou a invasão e destruição do sítio em 1936 —, que afirmou espantado em seu Relatório: “Aliás, faça-se justiça, o espetáculo de organização e rendimento do trabalho, com que nos deparamos ali, era verdadeiramente edificante”. Toda a produção e consumo eram controlados por Isaías, espécie de “ministro do planejamento e da economia” da comunidade. Os produtos eram armazenados em celeiros e redistribuídos de acordo com as necessidades de cada família.
A igreja local na década de 1930.
Não circulava dinheiro na comunidade e a organização social era rígida, dentro de padrões de uma religiosidade quase ascética. Outras pessoas ajudavam o beato José Lourenço na administração da vida da comunidade, destacando-se o papel exercido por Severino Tavares, que, apesar não viver no sítio, exercia o papel de “aliciador” de romeiros para visitar a comunidade. Seu trabalho como divulgador da vida no Caldeirão muito contribuiu para o aumento da população do sítio, pois muitas pessoas que iam apenas conhecer o beato lá permaneciam…
Foto – Rostand Medeiros.
Com o crescimento populacional do sítio diversificaram-se as atividades produtivas. No meio de tantos trabalhadores que chegavam ao Caldeirão, encontravam-se profissionais das mais diversas especialidades. Organizaram-se então as primeiras oficinas, passando-se a fabricar os mais diversos instrumentos de trabalho e utensílios domésticos. Em pouco tempo a comunidade produzia praticamente tudo o que necessitava para a sua sobrevivência. Apenas o sal e o querosene, assim como remédios, eram comprados pelo beato, com o dinheiro que arrecadava com a venda de rapadura e algodão.

Paralelamente desenvolveu-se a criação de animais, bovinos, caprinos e suínos, além das mais diversas espécies de galináceos. Através deste quadro sintético da organização econômica e social da comunidade do sítio Caldeirão, fácil é perceber que ela formava um vivo contraste em relação à situação dos trabalhadores dos latifúndios do Sertão. Ali reinava a fartura, fruto do trabalho intenso de milhares de pessoas em mutirão – a população do sítio alcançou na fase mais populosa, cerca de duas mil pessoas —, o que duplicava a produtividade do trabalho, fazendo com que os celeiros estivessem sempre cheios. Foi esta fantástica organização do trabalho visando a plena satisfação das necessidades fundamentais da comunidade — que se tornou praticamente autossuficientes —, que caracterizou a experiência realizada no sítio Caldeirão pelo beato José Lourenço, e que o transformou em uma ilha de fartura em meio à miséria reinante no Sertão da época. Era uma comunidade pobre, evidentemente, mas bem alimentada material e espiritualmente. A religiosidade popular, que perpassava todos os atos cotidianos da comunidade, tornava suportável a penitência do trabalho e fácil a vida…
Uma das casas remanescentes do antigo Sítio Caldeirão,
 sendo preservada na atualidade – Foto – Rostand Medeiros.
As reservas de víveres permitiram que a comunidade sobrevivesse à grande seca de 1932, apesar de o número de habitantes do sítio ter sido acrescido de cerca de 500 pessoas no período. É que o beato abriu as portas do sítio para receber todos os flagelados da seca que lá quisessem entrar e permanecer!

Após a morte do Padre Cícero, em 1934 — época em que os habitantes do Caldeirão passaram a se vestir todos de preto, em luto perpétuo pelo “santo” do Juazeiro —, grande parte dos romeiros que iam a Juazeiro visitar o túmulo do Patriarca fazia questão de ir ao Caldeirão pedir a bênção ao beato José Lourenço. Isto se devia ao fato de José Lourenço representar o único sobrevivente dos “santos” do Juazeiro.
Os romeiros ao visitarem a comunidade contribuíam com o desenvolvimento econômico do sítio, pois levavam valiosos presentes, que iam desde cargas de alimentos, animais a até objetos preciosos. Entretanto, a morte de Padre Cícero – amigo e protetor do beato -, anunciava também as tempestades que se avizinhavam. O crescimento constante da popularidade do beato, aliado à prosperidade crescente do sítio, despertou a atenção das elites políticas e religiosas do Crato.

Os jornais iniciaram a campanha contra o beato e sua comunidade. O artigo intitulado “Os fanáticos do Caldeirão”, publicado no jornal “O Povo”, afirmava, entre outras coisas: “Dois malandros do Ceará, José Lourenço e Severino Tavares, andam explorando no Vale do Cariri a memória do Padre Cícero.”’ Para a hierarquia católica, o Caldeirão parecia representar uma ameaça: o beato poderia tornar-se um novo “santo” como o Padre Cícero… E, nesse caso, com o agravante de estar fora do controle da Igreja: seria um novo Antônio Conselheiro!…
Assim, alarmados, os proprietários vizinhos e as elites políticas e religiosas atacavam sistematicamente o beato e sua comunidade: “Setores conservadores ligados à política regional, insuflados pelos proprietários de terras e do clero, encarregam-se de espalhar boatos sobre o beato José Lourenço e os habitantes do Caldeirão. Diziam que o beato oficiava sacramentos reservados ao clero de forma bárbara e sacrílega, que vivia em concubinato com as beatas, possuindo harém de 16 mulheres, que explorava a ignorância e o fanatismo dos camponeses, usando a sua força de trabalho para enriquecer”.

Era, enfim, a orquestração de uma formidável avalanche de inverdades — como a de que o beato, então com 65 anos, tivesse capacidade sexual de manter um harém com 16 concubinas! —, com o objetivo de destruir a experiência comunitária do Caldeirão, que, além de atrair trabalhadores de todas as partes, “as relações de produção e consumo tendiam abertamente para o comunismo”, na expressão do Tenente Góis de Barros…
Os padres salesianos, herdeiros das terras do Padre Cícero, decidem tomar o sítio sem indenizar o beato pelos benefícios lá realizados. Para isto, contratam o advogado Norões Milfont, deputado da Liga Eleitoral Católica — LEC (de cunho fascista), que passa a defender a causa dos mesmos. O advogado passa a divulgar que o Caldeirão era uma nova Canudos, que o beato José Lourenço possuía armas escondidas e que a comunidade representava uma séria ameaça ao Estado, por ser de franca tendência comunista…
O então tenente Alfredo Dias foi um dos oficiais da polícia cearense que combateu os membros do Caldeirão. Entrou na corporação como soldado e se aposentou como coronel, tendo chegado a combater cangaceiros do bando de Lampião.
A hierarquia católica confirma: “Nos sermões, os padres falam do perigo do ajuntamento de fanáticos e da infiltração de agentes vermelhos a serviço do totalitarismo ateu. Os boatos chegam aos ouvidos das autoridades estaduais.”’ Era, enfim, a união da Igreja, do Estado e das elites políticas e latifundiárias contra a comunidade camponesa igualitária do sítio Caldeirão… O advogado dos salesianos, Norões Milfont, não se limitou a espalhar boatos denegrindo a comunidade; para provar suas denúncias e incriminar ainda mais o beato e seus seguidores, enviou um espião ao Caldeirão. A escolha feita, por si só, revela as intenções subjacentes ao ato: decidiu-se enviar “um dos maiores bandidos-autoridade de que se teve notícias no Ceará”, na expressão de Optato Gueiros.
Era o Capitão José Gonçalves Bezerra, conhecido na região como um implacável caçador de cangaceiros, sendo, na verdade, um deles, só que escondido por trás da farda policial. Escolhido o espião, as autoridades iniciaram as investigações. O tenente José Góis de Campos Barros encarregou-se de comandar a destruição, que descreveu depois no seu “Relatório”. Nele afirma que o número de habitantes do Caldeirão havia tomado tamanho vulto que as autoridades locais alertaram o Capitão Cordeiro Neto, Chefe de Polícia, de “certos fatos singulares, que ali estavam passando”.

Para esclarecer os “fatos”, foi ao sítio o Capitão José Bezerra, disfarçado em industrial interessado nas possibilidades econômicas da região, em relação à indústria de oiticica. Admitido na residência do beato, o Capitão Bezerra tudo observou, especialmente as riquezas acumuladas no sítio, fruto do trabalho sistemático da comunidade, o que logo lhe despertou o interesse…
Os mortos do Caldeirão foram identificados pela imprensa como “São Anastácio”, “São Pedro” e “São Cosmo”.
No seu relatório, refere-se à existência de “uma nova Canudos, coito de fanáticos e do terrível perigo comunista,”’ e conclui solicitando urgente intervenção.

Depois das investigações realizadas pelo Capitão José Bezerra, o interventor e Governador do Estado, Menezes Pimentel, reuniu o advogado dos salesianos Norões Milfont, O Bispo do Crato, Dom Francisco de Assis Pires, Andrade Furtado, Martins Rodrigues, O Capitão Cordeiro Neto, Chefe de Polícia e o Delegado do DEOPS, o tenente José Góis de Campos Barros. Com exceção dos dois militares, todos os outros pertenciam à LEC. Decidiu-se pela intervenção. O Tenente José Góis de Campos Barros comandou a expedição, no mês de setembro de 1936.
O beato José Lourenço conseguiu fugir, escondendo-se na Serra do Araripe, acompanhado de algumas famílias. Em meio a todo tipo de violência, inclusive estupros, os militares atearam fogo em todas as casas, expulsaram os moradores, destruíram e saquearam o sítio…
Segundo um levantamento realizado pelo então delegado de Ordem Política e Social do Ceará, o tenente do Exército José de Goes de Campos Barros (que chegou ao generalato), cerca de 75% dos participantes do Caldeirão eram oriundos do Rio Grande do Norte, 20% divididos entre Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Maranhão e Piauí e apenas 5% do próprio Ceará.
O Tenente José Góis, em seu relato, diz que após juntar todos os habitantes, explicou a eles para que viera: acabar com a comunidade, porque “o Estado não podia permitir aquele ajuntamento perigoso”. As ordens eram que cada família juntasse seus pertences e voltasse para os seus locais de origem. Ofereceu passagens de trem e de navio, que foram unanimemente rejeitadas: “E, fato singular, ninguém tinha bens a conduzir. Tudo o que ali estava, diziam, era de todos, mas não tinha dono”.

O beato José Lourenço continuou por algum tempo refugiado na Serra do Araripe. Severino Tavares e seu filho Eleutério foram presos em Fortaleza. A imprensa da época calculou que, após a destruição do sítio, pelo menos mil pessoas foram juntar-se ao beato José Lourenço, na Serra. Entrementes, Severino Tavares e seu filho foram soltos da prisão e dirigiram-se para Serra do Araripe. Enquanto o beato José Lourenço ganhava tempo para iniciar negociações visando voltar para o sítio, Severino Tavares planejava vinganças… (Afirma-se que uma das moças estupradas pelo Capitão Bezerra era sua filha…)
Sobreviventes do ataque ao Caldeirão.
Os jornais começam a publicar notícias alarmantes, informando que os beatos ameaçavam invadir fazendas e a feira do Crato. Segue uma patrulha comandada pelo Capitão José Bezerra para debelar os “fanáticos”. Severino Tavares montou uma emboscada com alguns seguidores e, em luta corpo a corpo com a patrulha, morreram o Capitão, um filho seu e o próprio Severino Tavares, além de outros soldados e camponeses.
O TOK DE HISTÓRIA apresenta o texto do professor Tarcísio Marcos Alves (1940 - 2016), com a história de uma comunidade religiosa que viveu no seco sertão nordestino, liderada pelo beato José Lourenço, que não perturbavam ninguém, dividia entre seus moradores a produção local e seus lucros. Mas em meio a uma época de grandes conflitos políticos no Brasil, foram acusados de comunistas e massacrados pelas forças militares cearenses.
Seguiu-se o bombardeio na Serra, quando três aviões, comandados pelo Capitão José Macedo, autorizado pelo Ministro da Guerra, General Eurico Gaspar Dutra, conduzindo bombas, metralhadoras e grande quantidade de munições, metralharam e bombardearam os agrupamentos de camponeses oriundos do Caldeirão…
Por terra, atacavam as forças policiais. O Capitão Cordeiro Neto avaliou a chacina em cerca de duzentos mortos, enquanto outras fontes orais afirmam que o número de mortes teria atingido uma cifra bem maior: entre setecentas a mil pessoas…

O beato José Lourenço escapou do bombardeio na Serra. Após muitas negociações, conseguiu voltar ao sítio Caldeirão, em 1938. Lá passou mais dois anos, trabalhando e reconstruindo o sítio, junto com poucas famílias de camponeses — o acordo não permitia mais “ajuntamentos”.
Em 1938, quando já reorganizara a produção no sítio, foi novamente expulso pelos salesianos. Na ocasião, o Sr. Júlio Macedo conseguiu junto ao Juiz de Direito do Crato a devolução do dinheiro que fora entregue ao Juizado por ocasião do leilão do que restara dos bens do sítio após a destruição e saque do mesmo.

De posse de pequena quantia, o beato ainda conseguiu adquirir uma pequena propriedade no município de Exu, em Pernambuco. Lá, no sítio que denominou de União, o beato, acompanhado de umas poucas famílias, viveu em paz durante oito anos. Morreu no dia 12 de fevereiro de 1946, vitimado pela peste bubônica…

Seu corpo foi transportado através da Chapada do Araripe pelos seus fiéis seguidores, até o Juazeiro…
O que o beato não sabia era a recepção que o seu corpo teria da Igreja: levado para uma capela onde seria realizada a missa de corpo presente, o padre, na última condenação da Igreja ao beato, negou-se a cumprir o ritual…
Foto – Rostand Medeiros.
NOTAS 
1 — CAVA, Ralph Della. Milagre em Juazeiro. Rio de Janeiro-RJ, Paz e Terra, 1976, pág. 122
2 — Henrique Ferreira, entrevista ao autor, 12/07/1983
3 — CARIRY, Rosemberg. O Beato José Lourenço e o Caldeirão de Santa Cruz. In Revista Itaytera, Crato – CE, n°26, pp. 189-199-1982
4 — BARROS, Ten. José Góis de Campos, A Ordem dos Penitentes. Imprensa Oficial, Fortaleza – CE, 1937, pág. 31.
5 – Jomal “O Povo” – Fortaleza – CE, 02/03/1935
6 — Jornal “O Povo” — Fortaleza — CE, 02/03/1935
7 — CARIRY, Rosemberg, in op. cit., pág. 195
8 — GUEIROS, Optato. Lampeão: Memória de um oficial ex-comandante de forças volantes. Recife – PE, 1952, pág. 252.
9 – ANSELMO, Otacílio. “Tragédia de Guaribas”. In. Revista Itaytera., n° 25,1972, pág. 13. 10 – BARROS, Ten. José Góis de Campos. In op. cit., pág. 30.

Pescado no Tok de História

domingo, 1 de dezembro de 2019

Arlindo Rocha

Uma entrevista com o matador do cangaceiro Sabino Gomes

Por:José Tavares de Araújo Neto

Retrato artístico de Arlindo Rocha
Acervo Denis Carvalho

Arlindo Rocha, (nascido em 23 de março de 1883 e falecido em 07 de outubro de 1956), na condição de delegado da cidade de Salgueiro, Pernambuco, tinha sob sua guarda o indivíduo conhecido por Antonio Padre, suspeito de ter cometido um crime na região. Inocentado, Antonio Padre roga um emprego ao delegado, que o leva para trabalhar em uma de suas fazendas de nome Barrocas, onde reside com sua família. Nessa relação próxima à família, nasce em Antonio Padre uma forte paixão por uma das filhas de patrão, que chega a propor que a jovem fuja com ele. Ao ter conhecimento da intenção do seu empregado, Arlindo o expulsa imediatamente de sua propriedade.

Injuriado pela humilhação a que foi submetido, Antonio Padre declara guerra ao seu ex-patrão, e vai em busca de proteção junto ao coiteiro Francisco Pereira de Lucena, o temível e poderoso Chico Chicote, proprietário da fazenda Guaribas, no município Brejo dos Santos (hoje Brejo Santo), localizado no cariri cearense, na divisa com Pernambuco e Paraíba.

Antonio Padre, vez por outra, enviava bilhetes extorsivos e recado ameaçadores dizendo que além de roubar a filha, iria “partir a MELANCIA, aterrar as BARROCAS e derrubar as CAEIRAS”, referências as três propriedades de Arlindo Rocha. Diante dessas ameaças, Arlindo Rocha forma um grupo armado, com pessoas de sua extrema confiança, constituído por parentes e agregados, pois sabia da alta periculosidade do seu antigo empregado, agora um afamado bandoleiro do bando do famigerado Lampião.

Em meados de 1924, Arlindo articula uma bem-sucedida emboscada contra o subgrupo de Antonio Padre, ocorrendo uma forte troca de tiros, no episódio que ficou conhecido como o “Fogo de Pilões”, que resultou nas mortes de Antonio Padre e Gavião. Em 26 de novembro de 1926, já promovido tenente, Arlindo Rocha participa da sangrenta Batalha de Serra Grande, considerada a mais importante vitória de Lampião sob as forças volantes.

Nesta batalha, que havia dito que os cangaceiros iriam comer bala, foi acertado por disparo na boca que quase lhe destruiu a mandíbula, que lhe trouxe problemas de mastigação e cicatriz pelo resto da vida, sendo então chamado pelos cangaceiros pelo apelido pejorativo de “Queixo de prata”. Em fevereiro de 1927, Arlindo comanda uma as das volantes no histórico cerco a Fazenda de Chico Chicote, evento que ficou conhecido como o “Fogo de Guaribas”, no qual é morto o temível fazendeiro e coiteiro cearense.

Em 13 de março de 1928, três forças volantes, comandadas pelos tenentes Arlindo e Eurico Rocha e o bravo sargento nazareno Manoel Neto, intensificam o cerco ao bando de Lampião no cariri cearense, precisamente no município de Macapá, atual Jati, na fazenda Jati, do fazendeiro Antonio Teixeira Leite, o celebre coiteiro Antonio da Piçarra. Já era tarde da noite, sob forte chuva, o céu entrecortado por raios e trovões, que um dos soldados da volante de Arlindo Rocha deflagrou um tiro certeiro no vulto de uma pessoa que atravessava um passadiço, pondo fim a vida do célebre Sabino Gomes, o mais importante cangaceiro do bando de Lampião, que, em entrevista em Juazeiro/CE, já o havia apontado como seu potencial sucessor.

 Capitão Arlindo Rocha e seu filho Edmar
Cortesia de Otavio Cardoso

Após a malfadada tentativa de Lampião de atacar a cidade de Mossoró, no oeste potiguar, ocorrida em 13 de junho de 1927, os governos do Estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará e Pernambuco, uniram esforços no intento de eliminar definitivamente o cangaço dos seus territórios. A bem-sucedida “Campanha de 1927”, comandada pelo oficial cearense major Moisés de Figueiredo, em solo cearense, mas que também contava com contingentes policiais militares advindos do Rio Grande do Norte e da Paraíba, promoveu baixas, forçou deserções e fugas de cangaceiros rumo ao Estado Pernambuco. Em 21 de agosto de 1928, Lampião e seu bando, reduzido a apenas seis componentes (Ele; Ezequiel, seu irmão; Virgínio, seu cunhado; Luiz Pedro; Mariano e Mergulhão), em fuga, atravessam o Rio São Francisco e vão se homiziar na Bahia.

Em 20 de outubro de 1929, o Jornal Pequeno, de Recife/PE, veiculou uma entrevista concedida pelo tenente Arlindo Rocha, que reveste-se de importante documento para se entender melhor o mundo do cangaço.

Segue abaixo a transcrição integral da entrevista:

O tenente Arlindo Rocha, anteontem chamado ao Recife, é atualmente o comandante da forças pernambucanas no sertão.

Vimo-lo ontem, à noite, na chefatura, conferenciando demoradamente com o dr. Eurico de Sousa Leão. As indicações que se prestava, no mapa todo assinalado da Repartição Central da Polícia, e o justo renome que usufrui aquele policial em todo o sertão nordestino, levaram-nos a procurá-lo no intuito de conseguirmos um testemunho seguro da situação do cangaceirismo, afora o prazer natural de ouvir um homem que, anos a fio, dia e noite, tem batido cerrados e caatingas numa luta de vida e morte contra os mais ferozes bandoleiros. O tenente Arlindo Rocha é um homem moreno, alto e magro, muito tímido e que não fala nunca; tem que ser provocado então. Na face esquerda ostenta uma cicatriz profunda: uma bala de rifle em pleno rosto, às duas e meia da tarde, no dia 26 de novembro de 1926, no combate de Serra Grande.

 

 Arlindo no centro, sentados Theophanes Torres e 
Eurico de Souza Leão.
S. José do Belmonte, 1928.

Onde foi esse combate? Perguntamos logo, com nossa curiosidade despertada!

_ Serra Grande fica perto de Custódia. Comandava as forças o bravo tenente Hygino José Belarmino. Foi o início da campanha do atual governo estando no poder o saudoso Júlio de Melo contra Lampião. Este tinha, ao tempo, sob seu comando 125 homens. Estavam todos entrincheirados no alto da serra. A brigada começou as 8 da manhã e terminou as 6 horas da tarde. Nós tínhamos duas metralhadoras que Antonio Ferreira, irmão de Lampião, procurou cercar três vezes e gritava: _ Hoje tomo uma costureira dessa.

E tomou?

_ Não. Parece que tomou foi uma bala, pois morreu três dias depois do tiroteio. Os bandidos fugiram e desde então começou a debandada. O grupo fragmentou-se em quadrilhas que operavam em zonas diferentes. Ferido, nesta luta, acrescentou o tenente Arlindo, só escapei devido a meu irmão que me amparou. Os cangaceiros me alvejaram a pouco passos de distância, no momento em que eu chamava por Manoel Neto, ocupado em botar uma retaguarda.

Mas foi esse, tenente, o seu primeiro encontro com Lampião?

O tenente Arlindo riu e respondeu, a voz pausada:
_ Não. Eu já tinha brigado há tempos. Desde em que era subdelegado em Salgueiro, quando fui atacado e procurei tomar desforra. Mas isso no tempo em que, no sertão, cada qual se defendia por si mesmo. Eu e meus parentes demos uma brigada em Pilões. Brigada boa, aquela. Morreram de Lampião dois cangaceiros dispostos: Gavião e Antonio Padre. De lá p´ra cá tem sido essa marcha. Mas, de verdade, só melhorou a coisa com os drs. Estácio de Coimbra e Eurico de Sousa Leão. Foram eles quem me ajudaram, fizeram minha carreira militar; e é pór isso também que venho combatendo satisfeito sempre.

_ O sr. pode alto e bom som, disse o tenente Arlindo Rocha, que o sertão do Pernambuco está livre de cangaceiros. Pode acrescentar mais: os crimes de sangue e os assaltos a fortuna alheia se acabaram de vez.

E Lampião, tenente?
_ Lampião é, agora apenas, uma lembrança dos outros tempos. Dos tempos em que fora o rei do cangaço, dominando de Vila Bela a Salgueiro, do Ceará às margens do São Francisco. Avalie que eu mesmo, de uma feita, ao sair de Vila Bela com 12 homens, fui atacado na estrada pelos cangaceiros. Eram 26. Foi uma emboscada que me deu trabalho. Agora, no atual governo, jamais se viu Lampião procurar as forças para lutar.

Sempre na emboscada?

_ Nunca. É a fuga pela caatinga. O trabalho dos contingentes é todo para alcançá-lo e dar-lhe combate. Agora devemos argumentar com deficiência de comunicações, de aviso, de transporte e de víveres, etc. Entra-se pela caatinga adentro cinco, dez dias, um mês inteiro sem descanso. A comida é fruta e garapa de açúcar. E a cama é de pedra – um pedaço de jurema ou angico como travesseiro.

Mas onde anda Lampião? Inventam tantas coisas, às vezes ...

_ Bem sei, dr. Mas há muita mentira. O sr. argumente pelo pelos fatos da capital. Dá-se um conflito ali na esquina e na outra rua os mortos e feridos já estão triplicados. Basta notar o seguinte: seis meses atrás, Lampião com seis homens, pretendeu atravessar Pernambuco com direção ao Ceará. Não o pode fazer. Perseguimos o reduzido grupo um mês em Alagoas com o concurso esforçado e leal das forças daquele Estado. Encurralado, o bandido fez uma coisa que sempre se arreceara:

Atravessou o São Francisco, rumo à Bahia. As nossas fronteiras, de acordo com o plano traçado pelo dr. Chefe de Polícia, se acham inteiramente resguardadas de um impossível retorno dos bandoleiros. O próprio Lampião, por onde passa, diz que em nosso Estado não poderia mais viver. Na Bahia mesmo, a perseguição lhe foi terrível. Nossas forças como as daquele Estado, lhe moveram uma guerra tenaz. Na última corrida que lhe demos fomos pelo alto sertão baiano botá-lo a uma distância de mais de 100 léguas além de Juazeiro.

_ Quando Estive em Juazeiro da Bahia, contou-nos o tenente Arlindo, o prefeito perguntou-me porque sendo eu um homem doente e Lampião já em completa fuga, não mandava eu os meus homens em perseguição do bandoleiro e me arriscava aos percalços da caatinga. Respondi-lhe: É um entusiasmo que tenho pelo meu governo; quero ajudá-lo, assim de perto, cumprindo o meu dever. Lampião só tem cinco cangaceiros, segundo corre pelos sertões baianos, o seu objetivo é alcançar Goiás. E diz que não se entregou às nossas forças porque não tinha certeza se o trataríamos bem.

 

 Arlindo Rocha (esq.) e sua volante

Sabe quais os cangaceiros que vão com ele?
_ Sei. Ezequiel Ferreira, seu irmão; Virgínio Fortunato, seu cunhado; Mariano; Menino Oliveira e Luiz Pedro do Retiro.

E o famigerado Sabino?
_ Afirmam que morreu em Piçarra, no Ceará, num combate com minhas forças. O choque foi a meia noite. Debaixo de muita chuva e muita trovoada. Era um velho inimigo meu, o terrível Sabino. Lembro-me que num tiroteio ele gritava pra mim: “Arlindo das Barrocas, já te arranquei um queixo, quero levar o resto”.

Mas não levou, tenente ...
_ Não. Nem se cumpriram as promessas de Lampião, que me mandava dizer nos seus tempos folgados:

_ ”Quando passar na tua casa só deixo o chão molhado.”

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Novidades na Praça

"Vida e morte de Isaías Arruda - Sangue dos Paulinos, abrigo de Lampião"

O historiador, pesquisador e professor cearense de Aurora, João Tavares Calixto Júnior, está lançando no próximo dia 29/11 o seu mais novo livro "Vida e morte de Isaías Arruda - Sangue dos Paulinos, abrigo de Lampião".



Trata-se de um trabalho de cinco anos de pesquisa, resultante da compilação de informações extraídas de entrevistas, revisão de bibliografia, textos de jornais, fotografias raras e processos originais.

O livro tem 421 páginas, que traz na capa e no corpo do texto 12 ilustrações do artista goiano Ronald Guimarães, e é composta por duas partes, sendo nove capítulos distribuídos na primeira, que fala da vida de Isaías Arruda e outros três capítulos na segunda parte sobre a morte do chefe da ribeira do Salgado.

Ainda de acordo com João Calixto Jr., será uma boa oportunidade para quem deseja conhecer um pouco mais sobre a história social da região do Cariri cearense, sobretudo do cangaceirismo e coronelismo na década de 1920, época de atuação deste marcante personagem sertanejo, tão comentado, mas até então, não estudado.


Interessado? 

Você não precisa esperar pelo lançamento, peça o seu agora, através do professor Pereira! Via e-mail franpelima@bol.com.br ou WhatsApp (83) 99911-8286

Valor? R$ 60.00 (Sessenta reais) com frete incluso para qualquer canto do país.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Vem ai 'Lampião, o Governador do Sertão'

Filmagens do documentário desbravam o Cariri cearense

Por *Antonio Laudenir

Novo filme de Wolney Oliveira investiga a influência do cangaço na cultura brasileira e internacional. Além da Região Sul do Estado, equipe vai percorrer Paulo Afonso (BA), Piranhas (AL), Bezerros (PE) e Recife (PE)

Assis, Alex, Rogério, Wolney, Boni e Léo: artesanato, poesia e som
Rogério Rezende

Encontro Wolney Oliveira no Aeroporto Pinto Martins. Voo rápido rumo a Juazeiro do Norte. Guardo lembranças de ter ido ainda criança. Espiava naqueles monóculos fotos da família no Horto. Gente feliz. Padim Ciço. Parecia um pequeno filme. Tecnicamente é a primeira vez no Cariri.

O intuito é acompanhar, com exclusividade, quatro dias de filmagem do documentário "Lampião, o Governador do Sertão". A empreitada é ambição antiga do cineasta cearense. Explica-se. Por volta de 2006, o filme estava engatilhado e já contava com um bom número de entrevistas gravadas.

A pólvora explodiu no telefonema do amigo e pesquisador João de Sousa Lima. Direto de Paulo Afonso (BA), o contato afirmava que dois remanescentes do famoso bando de Lampião (1898-1938) foram identificados. "Wolney, achei Durvinha e Moreno", alertou a fonte.

Eram as alcunhas de Antônio Ignácio da Silva e Durvalina Gomes de Sá. O trabalho ganhou rumos. "Precisava contar a história de quem estava vivo. Quem estava morto podia esperar um pouco mais", resgata o diretor. O contato com os ex-cangaceiros durou felizes quatro anos. Nascia, assim, "Os últimos Cangaceiros" (2011).

Entre outros projetos, como o recente "Os Soldados da Borracha" (2019), Wolney percebeu a necessidade de voltar ao encalço de Lampião. Tudo começou com uma carta. Corria 1926 e a missiva endereçada ao então mandatário de Pernambuco, Júlio de Melo, evocava assunto dos mais urgentes.

"Eu que sou capitão Virgulino Ferreira Lampião, Governador do Sertão, fico governando esta zona de cá por inteiro, até as pontas dos trilhos em Rio Branco". As linhas de Virgulino continuavam: "E o senhor, do seu lado, governa do Rio Branco até a pancada do mar no Recife".

Atrevimento ou desejo de paz, de certo, as palavras do Capitão seguem reverberando 90 anos depois. A missão do documentário é decifrar as influências do cangaço na produção cultural brasileira e mundial. No avião, o diretor da Casa Amarela Eusélio Oliveira e do Cine Ceará encara a janela e suspira. "Cara, imagina. Lampião reinou 20 anos e naquela época, andava isso tudo, às vezes carregando 40 quilos em arma, joia, o caramba".

Além das raízes familiares e do apreço pelo caldeirão artístico do Cariri, o território foi palco do primeiro longa de Wolney, "Milagre em Juazeiro" (1999). Nos anos 1990, nas muitas idas, um carro deu o "prego" no caminho. "Levamos 24 horas pra chegar", resgata.

Dos cinco filmes guiados por Wolney, três iluminam a região. "Filmei 11 romarias. Não digo que fiz um filme. Me tornei um devoto", brinca. Em 2018, o "Português" (alcunha dada por Durvinha) voltou à trilha investigativa interrompida anos antes. O intervalo rendeu novos personagens e cenários. Explicar o fenômeno de Virgulino e Maria Bonita (1911-1938) passa pelo mergulho no artesanato, culinária, moda, literatura e obviamente o cinema. Nesse último, a obra "O Cangaceiro" (1953), de Lima Barreto (1906-82), tratou de unir dois continentes.

Após rodar cenas na Grota de Angicos, em Sergipe, durante missa pelos 80 anos da morte do Capitão, em 2018, Wolney foi a Paris colher o depoimento de dois críticos de cinema. Eles assistiram, na infância, ao clássico de Lima Barreto (1906-1982), vencedor do prêmio de "Melhor filme de aventura" e "Melhor trilha sonora" no Festival de Cannes.

Sob os auspícios do Padim, os muitos relatos de uma gente brava e cheia de fé.
Antonio Laudenir

Agora, entre o fim de outubro e novembro, o realizador lidera um grupo comprometido a percorrer estradas que atravessam o Ceará, Bahia, Alagoas e Pernambuco. As primeiras visitas contemplam Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha. O time é formado por Alex Meira (assistente de câmera), Assis Ceará (eletricista), Dayane Oliveira (produtora), Evair Moura (motorista), Léo Oliveira (som direto), Raimundo Neto (motorista) e Rogério Rezende (diretor de fotografia).

Inicialmente, a reconstrução do passado exige o entendimento de vozes do presente. Nas rádios locais, Wolney convoca alunos de escolas públicas a escreverem textos que abordem o cangaço. Jovens de 12 a 17 anos podem participar do filme e serão agraciados com um cachê simbólico.

Som, câmera...

À tarde de quinta-feira (31) marcou o encontro com a arte de Lusyennir Lacerda e Demóstenes Fidélis. No bairro Santo Antônio, em Juazeiro, o casal desenvolve delicados tabuleiros de xadrez, nos quais são reproduzidos cenários e expressões populares. As temáticas Canudos, cangaço e reisado são recriadas em massa feita à base de fécula de mandioca. O colorido entrega poesia ao cenário de guerra entre volantes e cangaceiros.

Embate sertanejo na delicada criação de Demóstenes e Lusyennir
Rogério Rezende

A arte da dupla agora divide espaço com fios, lâmpadas, câmeras e toda uma parafernália quase alienígena. Aos poucos, o convívio no set improvisado vai deixando Demóstenes e Lusyennir à vontade. O tempo auxilia a abordagem pretendida. O casal confecciona as peças. O apelo da cena revela a silenciosa cumplicidade envolvida entre os dois artistas.

Chega o novembro

José Bonieck é historiador, artesão e sanfoneiro. A lida envolve o entalhe da imburana. Desde pequeno as cores do cangaço lhe despertavam interesse. Padre Cícero e Lampião foram as primeiras produções. Da manipulação da madeira, cria representações de figuras populares. Cita Mestre Noza (1897-1983) com profunda reverência e brilho nos olhos.

A assinatura Boni também demanda os esforços da companheira Débora Raquel. Se o jovem artista é hábil no processo de moldar peças simpáticas e repletas de cor, a parceira atua na área da divulgação e venda. Além do coração, dividem o afeto pela leitura e música. A oficina se mistura com a pequena casa. Ferramentas dividem espaço com fotografias e outras obras experimentais.

O espaço para os visitantes montarem o equipamento é ainda mais compacto e exige atenção das lentes comandadas por Rogério Rezende e Alex Meira. Por sua vez, Wolney é só alegria com a fala embasada e respeitosa de Boni. É quando o realizador interage com um sinal de positivo nas mãos. Ouvir é o segredo.

Dali o destino é o lar do pesquisador Margébio de Lucena. Cuidadoso nas respostas e firme nos dados apontados, o oftalmologista divide uma verdadeira aula com os presentes. Durante uma tarde inteira, resgata as muitas conversas feitas com ex-cangaceiros e o contato fiel com registros históricos.

Tarde de causos e pesquisas histórias do Cangaço com Margébio de Lucena
Antonio Laudenir

Bandido ou herói, Lampião e seus asseclas deixaram marca indelével. A participação do estudioso contribui para as muitas perspectivas do tema a serem enfrentadas por Wolney. É momento de descansar. O Dia de Finados, no sábado, exigiria ainda mais da equipe.

A colina do Horto é tomada por romeiros de diferentes estados nordestinos. O volume de visitantes inspirou a produção a criar um totem com as imagens de Lampião e Maria Bonita. O traço do cartunista Klévisson Viana amplia o tom idílico da intervenção.A proposta é simples. Quem quiser pode chegar e tirar uma foto. A única exigência é fitar a câmera e falar do cangaço. Naturalmente os participantes se aproximam, e o bom humor invade a filmagem.


Formação do time no Horto: Em pé (Wolney, Assis e Léo). Agachados Kaika Silva (produtor cultural do Crato), Evair, Dayane e Alex. O fotógrafo Rogério Rezende filmava tomadas áreas e não participou do retrato.
Antonio Laudenir

Ao meio-dia o destino é a Missa do Chapéu, no Centro. Cinema é uma rotina exaustiva, braçal e somente possível com ação em equipe. O respeito ao cronograma é fundamental para que o trabalho se desenvolva. A produtora Dayane Oliveira é total atenção ao entorno do set. Sempre atenta a qualquer ruído que atrapalhe a captação das imagens. Cuida da alimentação ao uso do protetor solar.

É perceptível a interação dos envolvidos. Quando uma boa conversa é registrada, todos desfilam um largo sorriso. Pouco importa as condições da locação. "Para trabalhar com cinema, deve fazer porque gosta", observa o motorista Evair.

Nas poucas horas vagas, geralmente no intervalo entre as cidades e nas paradas de alimentação, os assuntos mais puxados envolvem o mercado de cinema. O assunto família é outra manifestação recorrente. Alguns trabalham juntos por mais de 20 anos.

Conhecem muitos palmos de chão cearense e os bastidores do criar cinema no Estado. A política Federal de censura e os cortes no setor cinematográfico preocupam. A proposta de redação do Enem, que fala de democratização do acesso ao cinema no Brasil, movimentou debates.

O domingo trouxe Barbalha e a arte de Wilton Santos. Areia, arame e papelão alicerçam as esculturas. É capaz de recriar episódios violentos, a exemplo da cena das cabeças cortadas de Lampião e seu bando. Em paralelo, é suave na composição de divindades e personagens folclóricos.

Uma das peças desenvolvidas pelo artesão Wilton Silva
Rogério Rezende

A última noite na companhia da equipe faz refletir a experiência. Impossível não questionar o ano de 2019. Período dado ao extermínio e descrença da cultura e ciência. Felizmente, no mesmo gomo temos outros sabores. Bem mais felizes.

Foi ano de "Pacarrete". Allan, Marcélia e Gramado. Rosemberg e "Notícias do Fim do Mundo". "Greta", de Armando Praça. "Clube dos Canibais" assinado por Guto Parente. "Bate Coração". "Soldados da Borracha". "Marie" produzido por Arthur Leite. Cannes. Karim. "A Vida Invisível". "Bacurau" com Fabíola Liper, Uirá dos Reis e o "Velho Menino" Rodger Rogério. Lembro de Fernanda Montenegro lendo a carta na abertura do Cine Ceará.

Quem enxergava aquela terra apenas pela recordação do monóculo, agora guarda outras leituras. Encarei beleza. Inocência. Contradições. Bondade. Empatia. Desejo por dias melhores. Testemunhos das muitas crenças. Injustiças, violência e resignação.

Vi trabalhadores dedicados ao ofício. O fazer cinema é sinônimo de sobrevivência para inúmeras famílias. Todos ganham quando um filme é produzido. O grupo seguirá as pegadas do cangaço por Nova Olinda (CE), Paulo Afonso (BA), Piranhas (AL), Bezerros (PE) e Recife (PE). Isso, se novas descobertas não mudarem os destinos da saga.

ENTREVISTA: Garimpeiro de histórias

Para o longa, Wolney e equipe registraram os encantos do Raso da Catarina (BA)
Léo Oliveira

Verso: Quais as suas motivações pessoais para contar a história de "Lampião, Governador do Sertão"?

Wolney Oliveira: Lampião sempre foi um assunto que me apaixonou. Meu pai, Eusélio Oliveira me influenciou no tema. Era um apaixonado pela história e o primeiro livro que li sobre cangaço foi presente dele. Escrito por Paulo Gil Soares, sobre cangaço, provavelmente tinha a ver com o filme "Memória do Cangaço" que é um clássico do Cinema Novo guiado por Soares. Quando li "Milagre em Joaseiro", de Ralph Della Cava, um dos livros mais importantes sobre o Padre Cícero ao lado da obra de Lira Neto. Existem mais de 220 livros sobre Cícero e mais de 300 sobre Lampião.

O texto de Ralph Della Cava fala da passagem de Lampião em 1926 por Juazeiro e isso ficou na minha memória. É uma coisa que está impregnada na cultura do Sertão e do Nordeste. Eu tenho essa mania, defeito ou vantagem que eu prefiro que sobre do que falte material. Eu filmei 180 horas entre 2006 e praticamente 2011, ano da estreia de "Os Últimos Cangaceiros". Entrevistei vários cangaceiros que não entraram no filme, volantes e ex-coiteiros. Por meio do tema, conheci muitos estados do Nordeste. Vários pontos belíssimos como Piranhas e o Raso da Catarina. Nosso País é muito grande e não conhecemos parte dele.

V: Como você explica a paixão pelo documentário?

W:Tive grandes influências. Eusélio Oliveira, meu pai e primeiro professor de cinema, era apaixonado pelo documentário. A outra grande motivação foi a escola de cinema de Cuba. Lá conheci grandes realizadores do gênero como Santiago Álvarez, Fernando Pérez, Gerardo Tirrona. Os dois últimos foram meus professores. Outra força é o meu querido mestre Eduardo Coutinho, que Deus ilumine e proteja. Vi praticamente tudo dele.

Em 1981, fui fazer um curso de cinema direto em Paris, fiquei três meses tendo aulas com discípulos de Jean Rouch. Entre as técnicas dele, envolve se aproximar do personagem, ficar amigo. Claro, nem sempre você pode fazer isso. É uma maneira de conseguir tirar o máximo de informação e sentimento dessas pessoas.

V: Seus trabalhos abordam vivências marginalizadas. Nesse sentido, qual é o compromisso do documentário?

W: Quem tem mais a ver com isso é o 'Soldados da Borracha'. Até hoje é um tema desconhecido por muita gente. Eu mesmo só fui saber quando tinha 40 anos. Inclusive, o maior acervo dos soldados está no Mauc da UFC. É uma história de pessoas marginalizadas, esquecidas, soterradas e menosprezadas. São histórias que o Brasil não quer ver, contar e sentir. Isso é um motivo a mais para fazer cinema documentário.

No "Milagre em Juazeiro", parto da beata que foi torturada e perseguida pela Igreja. Imagina um milagre acontecer na boca de uma negra 'pobre', 'feia', 'analfabeta', segundo os depoimentos de padres da época; e no interior do Ceará? Juazeiro do Norte? Se fosse em Paris a Igreja teria acatado. Como foi aqui não aceitou e até hoje não oficializou ainda. Não beatificou Padre Cícero.

Cercado da arte de Boni, trilha do cineasta mostra cangaço unindo continentes, causos e vivências
Rogério Rezende

V: O Cine Ceará chega a 30 edições em 2020 e o que você projeta para o próximo ano?

W: Superar a 29ª edição é a mesma tarefa de tentar ir além de "Os Últimos Cangaceiros". É um dos meus filmes prediletos. É o mais maduro. Já estamos trabalhando no festival. Vamos lançar um livro sobre os 30 anos do Cine Ceará. Vamos fazer em setembro de 2020. Ninguém sabe como vai estar a situação política e econômica do País. Posso dizer que das 29 edições das quais produzi e dirigi, 27 não teve nenhuma fácil. 2019 foi a mais difícil, mas também a de maior sucesso em relação a todas as outras. A 30ª edição também é um desafio.

V: Já pensou na aposentadoria ou é algo que não passa por sua cabeça? Quais trabalhos você imagina se dedicar nos próximos anos?

W: Nunca pensei em me aposentar. Óbvio, penso em relação à Casa Amarela é à Universidade. Parar enquanto cineasta, não. Meu espelho e objetivo é Luiz Carlos Barreto, um dos grandes nomes do cinema brasileiro e nordestino. Barretão é de Sobral e no auge dos seus 91 aninhos estava numa audiência pública no Supremo. Enquanto eu tiver forças, vou continuar filmando. A projeção é que em quatro anos, eu me aposente da UFC e da Casa. Daí vou fazer meus filmes que é o maior prazer da minha sina cinematográfica.

Além do "Lampião, o Governador do Sertão", estamos finalizando "Vozão, Coração do meu Povão", sobre o time do Ceará. Dirijo com o Joe Pimentel e deve sair em 2020. Estou filmando "Memórias da Chuva", longa documentário sobre Jaguaribara, que foi coberta pela água do Castanhão, maior açude da América Latina. Tem a cidade de Guassussê que foi coberta pelas águas do Orós. Outro filme sobre futebol é "Clássico Rei", que além do Joe inclui o Valdo Siqueira. Vai contar os 100 anos do confronto entre os rivais.

V: Se não fosse o cinema, o que existiria para você?

W: Quando eu tinha por volta de 20 anos, minha avó, por parte de mãe, colocou na minha cabeça que eu tinha que ser bancário. Até embarquei na onda dela, mas vi que não tinha nada a ver. Minha paixão era cinema. Nessa época eu era fotógrafo de still. Comecei fotografando casamento, batizado, aniversário e depois mais na área do fotojornalismo e vídeo. Não me imagino em nenhuma outra ocupação que não seja o cinema. Acho que minha vida não seria essa aventura que é fazer cinema.

*O repórter viajou a convite da produção do filme "Lampião, o Governador do Sertão"


Publicado originalmente no Diário do Nordeste