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sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Vinditas

Pedro de Souza Freire

Pesquisa de Guilherme Velame Wenzinger


Pedro de Souza Freire, filho de Martinho de Souza Freire e Maria Angélica do Rosário. Pai de Maria Evanilza de Souza (Eva Souza). Após o assassinato de Martinho de Souza pelo cangaceiro "Zé Baiano", [em 10 de março de 1934] Pedro, juntamente com seus irmãos Filinto, José, Filomeno e Alcino e mais cinco primos, integraram uma volante, que teve dois combates com os cangaceiros e, num deles, o bando de "Mariano" foi exterminado.

A volante dos filhos de Martinho
- Acervo Lampião Aceso -

Depois disso, morou em alguns municípios sergipanos como Aracaju, Arauá e Estância. 

Faleceu em 6 de novembro de 1975 (conforme consta no livreto Momentos de Minha Vida, de Antônio Conrado de Souza), em Itamaraju/BA.

Foto e informações transmitidas por sua filha Eva Souza a Marcos de Souza.


Créditos: João Hélio

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Cabrochas sergipanas

As moças da Maranduba

Por Sálvio Siqueira
Foto com as cangaceiras Àurea e Rosinha (Irmã de Adelaide).
                                                    
Na fazenda Maranduba, fincada no município de Poço Redondo, Estado sergipano, morava o casal Lé e Pureza. Lé, como tantos outros homens da época, era vaqueiro, assim como seus dois irmãos, Josias e Luiz. Pureza era filha do agricultor João Januário, que manipulava sua enxada nos barros da localidade Curralinho.
 
 Umbuzeiro da Fazenda Maranduba - grupo LCN
                     
O casal, cumprindo a “Lei’ escrita no livro Maior, fez com que crescesse e multiplicasse sua prole. Tiveram seis filhos amados. Criados como todos da região, com muita dificuldade e sacrifício. Segundo a obra literária do ilustre Alcino Alves Costa, “LAMPIÃO ALÉM DA VERSÃO – MENTIRAS E MISTÉRIOS DE ANGICO”, na página 137, ‘Ele’ nos relata que os nomes dos amados filhos do casal Lé e Pureza, eram Adelaide, Rosinha, Cidália, Arabela e seu único filho homem, Zequinha.

                                                   
Zequinha, como tantos, só via-se como adulto, quando 'lá' chegasse, um bom vaqueiro, imitando seu velho pai e tios, pois todos eram afamados vaqueiros em toda aquela região.


As meninas, também como tantas da época, tinham em seus sonhos seus ‘príncipes, encantados, seria querer de mais, mesmo, simplesmente um príncipe, já estava de bom tamanho. A vida era dura para os meninos que logo, logo, tinham que exercerem funções de adultos sem nem mesmo passarem, ou melhor, viverem suas adolescência. Para as meninas a coisa era mais dura ainda. Não podiam, muitas das vezes, nem se quer estudaram, para não ficarem sabidas, pois mulher ‘sabida’ era um perigo.

                                                               Cangaceira Rosinha

Naquele tempo, por aquelas bandas, começaram a circularem em volta da casa de Lé dois cangaceiros. Mariano e Criança. O Primeiro, após perder Otília, apaixona-se por Rosinha. O segundo, há muito estava loucamente apaixonado por Adelaide, irmã de Rosinha.

Sendo, na época quem dava as ‘cartas’ por aquelas terras, os dois cangaceiros não tiveram dificuldades de levarem para as tristes fileiras do cangaço as irmãs. Ficaram distantes por os dois atuarem em grupos e áreas diferentes. Mariano vivia e praticava seus crimes pras bandas de Porto da folha. Já Criança, atuava nas redondezas de Poço Redondo.


E o esperado acontece. Adelaide engravida. Sua gravidez, como de todas as outras mulheres que fizeram parte do cangaço, não foi moleza. Levanta daqui, corre pra li, debaixo de sol e chuva, durante o dia ou mesmo a noite, eram uma constante em suas vidas.
                                                                                   Cangaceiro Mariano
                                                     
Segundo a obra citada, Criança tem grande amor e carinho por Adelaide, resultando firmeza e lealdade para com a sua companheira.

Quando aproxima-se o momento da sua companheira parir, Criança, conversa com Mané Moreno, e vão para um coito, distante, conhecido e aconchegante, se podermos dizer que haviam coitos assim, para que Adelaide ‘ganhasse seu filho.
                                                                 Cangaceiro Criança
As horas passam, as contrações há muito iniciaram-se e, com o passar do tempo, seu retorno começa a ficar quase sem intervalos. Não tem jeito. A criança do Criança não vem ao mundo, e sua companheira já tem bastante tempo que sofre.

Mandam buscar uma parteira que morava nas imediações, e esta, já prevendo complicações, já trás outra para lhe ajudar. Tudo em vão. O sofrimento da cangaceira aumenta com o passar das horas e a criança resolveu não vir ao mundo.


Em uma rede, a transportam para uma localidade que tivesse algum recurso como ajuda, nada. Não tem como parir a companheira de Criança.

Valendo-se novamente da rede, os cangaceiros procuram outro lugar para que Adelaide desse a luz... Um local que tivesse uma pessoa para ajudar, terminando assim com tão longo sofrimento. No caminho, alguém verifica e diz que o feto já está morto... Adelaide, de tanto sofrer, talvez não tenha escutado que seu filho estava sem vida em seu ventre. 

Embaixo de uma frondosa árvore, Adelaide, dentro da rede começa a perder suas, já tão fracas, forças... Criança, percebendo que irá perder sua amada fica louco. Grita, chora, fala, urra palavrões na tentativa de amenizar a angústia que lhe invade... Seu ‘compadre’, Mané Moreno, vendo que o amigo estava em estado complexo, sem noção do que fazia, tenta evitar uma catástrofe maior, retirando o ferrolho do mosquetão do amigo, assim como retira também, o carregador da sua pistola.

 Sua amada dá seu último suspiro. Sem despedir-se do companheiro, parte para o outro ‘lado’, onde, talvez, seu filho a esperasse. Fazem seu enterro. A dor, ainda visível no semblante do cangaceiro, não quer ir-se. Naquela vida não havia tempo pra isso... Guardar dores e sentimentos por alguém que tenha morrido.
                                                         Cangaceiro Mané Moreno

Seu compadre, Mané Moreno, compra várias garrafas de aguardente e diz que ele precisa beber até embriagar-se, para esquecer o que aconteceu.


Assim faz Criança. Após o enterro de Adelaide, ele toma um dos maiores porres de sua vida e, de certo tempo pra frente, junto aos companheiros, começam a dançar e cantar até que o dia raiasse... Nas quebradas do Sertão.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Padre Manoel Firmino

Dois momentos deste sacerdote na saga lampiônica

Na história do cangaço figuram diversos padres que tiveram um envolvimento direto ou indireto na saga lampiônica. Vide José Kherle, Arthur Passos, Padre Lima entre outros.

De acordo com o escritor Daniel Lins, na pág. 08 do seu livro ‘Lampião: o homem que amava as mulheres’, o padre Manoel Firmino Pinheiro foi pároco da histórica São José do Belmonte, PE entre 1914 e 1916, que nesta época pertencia a diocese de Floresta, teria sido o padrinho de Crisma do menino Virgolino em 1912.

 Padre Manoel Firmino Pinheiro
12/12/1870, Penedo – AL
23/ 06/1954, Itaporanga - PB

Pouco mais de duas décadas depois, este sacerdote teria nova participação quando o cangaceiro Mariano teria entregue o seu filho recém-nascido aos seus cuidados.

Eis o conteúdo do bilhete

“SR. PADRE FIRMINO“
Mando essi minino para o senhor criar.
Pode criálo que ele não é culpado dos mal-feitos do pai.
Nasceu no dia 21 de abril, ás 8 horas da noite. 
Filho de MARIANO LAURINDO GRANJA E OTÍLIA MARIA.
Peço ao senhor para ser o padrinho e Nossa Senhora a madrinha.



(Fonte: Livro: Almas do Nordeste de C. Nery Camello.

 Mariano Laurindo Granja, sua companheira Otília e o filho do casal.

Marcou época quando de sua passagem pela Paróquia de Belmonte. Portando sempre uma "pistola Parabellum na cintura", definia-se ele próprio através de uns versos que gostava de recitar:
 
Me chamo Mané Firmino
Fui vigário em Viçosa
Visto batina custosa
Do ornamento mais fino
Para tudo tenho um destino
Dou provas nesta cidade
Na igreja ao pé da grade
Fazendo a lei de Cristo
Conforme a roupa que visto
Na batina sou um Padre
Sou chefe municipal
Sou homem particular
Gosto da sociedade
Sou amante da vaidade
E quero que cresça o meu nome
Para que ninguém o tome
Sou protetor de assassino
Sou Padre Mané Firmino
E na batina sou bom Padre.
Nos panos sou forte homem
Na pena faço figura
Na farda sou bom soldado
Na justiça magistrado
Nas armas faço bravura
Gosto também da fartura
Ando garboso e faceiro
Sou galo do meu terreiro
Isto herdei do meu avô
Morro, mato, apanho e dou
Nas armas sou cangaceiro.

 


Político e polêmico

O padre Manoel Firmino gostava tanto de política que ao chegar em Mata Grande, sertão de Alagoas, se aliou  a família  Malta e depois se tornou um ferrenho adversário, principalmente do então Coronel Zé Malta. O padre já havia sido exercido um mandato de Deputado Estadual provavelmente antes de ir para aquela cidade,  ser pároco e prefeito do aludido município.

O religioso residia na Rua de Cima e promovia festas noturnas com o intuito de tirar o sossego daqueles que não eram correligionários e não podiam frequentar o ambiente. 

Criava um casal de cachorros  e o  macho ele denominou de “Vosmicê”. Quando alguém perguntava o nome do cão ele respondia Vosmicê e logicamente quem estava presente dava muitas gargalhadas. O padre, brincalhão, também gostava disso e sorria bastante.

Certo dia de domingo aconteceu justamente com um matuto que, desconfiado das gargalhadas ficou bastante acanhado. Instantes depois passou a cadela e o matuto inocentemente perguntou: Padre aquela é a mãe de vosmicê?

Quando o Coronel Zé Malta voltou ao poder o padre teve que sair de Mata Grande.

Contam  que ao sair contra a vontade rogou uma praga no adversário, dizendo que ele tinha que morrer sofrendo muito, e que seus descendentes haveriam de brigar entre si até a quinta geração e que a cidade ainda ia ser coberta por melões de São Caetano.


Segundo conta o paraibano Antonio Caíca, nascido na cidade  de Santana dos Garrotes, o Padre Manoel Firmino,  da carreira que deu de Mata Grande, foi parar na paróquia de  Misericórdia no Estado da Paraíba onde assumiria em 1º de dezembro de 1935. Como tinha o sangue político correndo e fervente em suas veias chegando em Misericórdia se candidatou a Prefeito e ganhou dos políticos locais, que se reuniram e na eleição  seguinte retomaram o poder.

Reza a lenda que, como o nome Misericórdia era nome da igreja os políticos mudaram o nome  deste município para Itaporanga e quem chamasse a cidade de  Misericórdia era preso e levava umas palmadas.

Tanto que certo dia um matuto foi se confessar com o Padre e como tinha muitos pecados foi obrigado a rezar ali mesmo, no confessionário , um Pai Nosso , uma Ave Maria e uma , Salve Rainha. O matuto se saiu bem, porém na vez da Salve Rainha disse: Salve Rainha, Mãe de "Itaporanga", vida doçura...”

Foi o Padre Manoel Firmino quem  mandou erguer o o atual Cruzeiro no Monte Santo em Itaporanga, substituindo o antigo.

Com informações dos pesquisadores Valdir José Nogueira 
Ivanildo Silveira e de Germano Mendonça Alves  blog Matagrandense

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A casa caiu, senhoritas!

Cangaceiras aprisionadas
 Manchete de 18 de maio de 1935, no jornal “Diário de Noticias” BA

As meninas Anna e Otilia

A presença de cangaceiras aprisionadas foi uma das marcas do momento. Anna Maria da Conceição, nascida em Jeremoabo, era companheira do cangaceiro "Jurema". Caminhava com Jurema, Juremeira, Beija-Flor e Nevoeiro, quando a volante do sargento Vicente caiu sobre o subgrupo. Foi alvejada com dois tiros de fuzil, que lhe atingiram os braços, sendo capturada.

Já o seu parceiro e companheiros não tiveram a mesma sorte...


Jurema, Jureminha e Nevoeiro
Foto não compoe a matéria original
Cortesia do amigo Sergio Dantas

Otilia Teixeira Lima, de Poços, era companheira de "Mariano". Adentrou o Cangaço em 1931, depondo que constituíam o bando, naquele momento em que adentrou, Lampeão, Mariano, Zé Bahiano, Pó Corante, Gato, Bananeira, Volta Secca, Maçarico, Cajueiro, Balisa, Cabo Velho, Nevoeiro, Luis Pedro, Virgínio, Suspeita e Medalha, além de Maria Bonita e algumas mulheres que não indicou os nomes.

Deslocava-se, em 1935, junto com Mariano, Criança, Pai Velho e Pau Ferro, quando foi o subgrupo cercado pela volante do sargento Rufino. Cerrada brigada, foi cercada, não conseguindo Mariano romper o seu cerco para libertá-la. Acabou entregando-se.

“Lampeão” não quer negocios com a policia da Bahia

Dois minutos de interessante palestra com as mulheres de Mariano e “Jurema”, chegadas, hontem, presas .. .A vida, para o banditismo, “no outro lado”, está melhor... 

O DIARIO DE NOTICIAS offerece, hoje, aos seus innumeros leitores, a opprtunidade de uma entrevista com as mulheres de Mariano e “Jurema”, dois dos peores scelerados que teem palmilhado a zona escaldante e longinqua do nordéste bahiano.

São ellas Anna Maria da Conceição, com 23 annos de idade, mestiça, nascida nas Baixas, no município de Geremoabo, e Otilia Teixeira Lima, parda, de 25 annos, estatura média, procedente das caatingas de Poços, distante 15 leguas daquella cidade.

Fomos encontra–las, hontem, na delegacia Auxiliar. Momentos antes, haviam chegado do nordéste, pelo trem do horario, devidamente escoltadas por seis praças da Policia Militar.

Como foi presa a primeira

Anna foi presa nas caatingas do logar denominado São José, tendo, nessa occasião, recebido dois tiros de fuzil, que lhe perfuraram os braços. Estava ella em companhia de “Jurema”, “Beija–Flôr”, “Nevoeiro” e “Juremeira”, quando surgiu, inesperadamente, a força volante do sargento Vicente, que, de ha muito, vinha sequindo as pégadas do bando sinistro. Logo que viu os policiaes, “Jurema” rompeu cerrado tiroteio contra os mesmos, que, reagindo valentemente, puseram em fuga os cangaceiros. No embate, que durou poucos minutos, caiu ferida Anna Maria. “Jurema” quis, ainda, soccorre–la, mas, acossado pelas balas, teve que fugir, deixando a companheira nas mãos dos seus perseguidores.

A outra “descansava”...

Otilia estava com o bando de Mariano, na Fazenda “Mucambo”, junto com “Páo Ferro”, “Criança” e “Pai Velho”. Minutos após a chegada do grupo, dois cáibras fôram escalados para arranjar montadas na vizinhança. Foi quando appareceu, de surpresa, o contingente do sargento José Rufino, que, com 15 praças, vinha procurar pousada na alludida fazenda.

Reconhecendo os bandidos, a força entrou a tiroteiar contra os mesmos, pondo–os em fuga, depois de cerca de duas horas de fogo. Otilia estava descansando na casa da fazenda, quando começou a fuzilaria.
Receiosa de ser attingida pelos projectis, alli deixou–se ficar, sendo finalmente presa e conduzida para esta Capital, onde se encontra. Mariano, seu velho companheiro conseguiu, habilmente, cortar a rectaguarda da força, fugindo á chuva de balas que se despejava sobre elles.

Contando a sua vida...

– E ainda dois graças a Deus, de estar aqui! Pensei que a força me fuzilasse, no momento em que fui presa. Ha cerca de quatro annos, ingressei no bando de “Lampeão”. Por essa occasião, o “Capitão” andava lá pelo Raso da Catharina, acompanhado de José Bahiano, “Gato”, Pó Corante”, Mariano, “Bananeira”, “Volta Secca”, “Maçarico”, “Cajueiro”, “Balisa”, “Cabo Velho”, “Nevoeiro”, Luis Pedro, Virginio, “Suspeito” e “Medalha”. Viajava para Poços, com meus dois irmãos, quando deparei o bando do “Cégo”.
Mariano botou os olhos em cima de mim e me ordenou que o acompanhasse. Não tive outro jeito senão seguir. Juntei–me ás outras mulheres e comecei a andar pelo matto, sem pouso, passando fome e sêde, até o dia em que fui presa.

Como ciganos

– E como vivem os bandidos?
Pelos mattos, dormindo hoje aqui, amanhã alli, comendo carne do sol e ás vezes, um pouco de farinha. Agua arranja–se nas raizes de umbú. Á noite, todos se deitam no chão e embrulham–se com as suas cobertas. Quem tem mulher dorme separado, debaixo de algum pé de paó... É uma vida desgraçada... – concluiu Otilia.

Anna Maria assistia á conversa, com o corpo descansando sobre os calcanhares.

Uma historia de amôr...

Vivia com a minha familia nas Baixas, cerca de onze leguas de Geremoabo. Um dia, a força do tenente Macedo appareceu por lá e, sabendo aque alli moravam os parentes de “Jurema”, queimou tudo. Até as roças de feijão! Eu era noiva de um irmão de Jurema, que estava no bando de Lampeão, e tinha o mesmo appellido. Vendo–o, a força prendeu–o. E já iam longe, quando o meu noivo, conseguindo intimidar os dois soldados que o escoltavam, fugiu. No caminho, convidou–me para fugir com elle. Aceitei. Dias depois, estávamos no meio do bando de Lampeão. Quis voltar. Não tive mais jeito. Ordem era ordem. Tinha que acompanhar obando. Assisti a innumeros combates, durante estes tres ultimos annos.

... E o peor tiroteio

O peor, porém, – continúa – foi o de Maranduba, onde morreram “Sabonete”, “Quina–Quina” e “Catingueira”. Foi um tiroteio que durou varias horas. Quase fiquei surda. Eramos seis mulheres e estavamos separadas do bando. Dois caibras ficavam de sentinella comnosco, sempre que havia um combate. Depois, com os córtes da rectaguarda, Lampeão abria caminho e assim podiamos fugir.

Lampeão luta como uma féra!

– E Lampeão vai tambem para a frente?
Sim, senhor. Lampeão é uma féra. Não tem mêdo de nada. É o primeiro que atira e vai ba frente. Quando eu entrei no bando, Lampeão estava com duas marcas de bala. Uma, no pé, e outra no braço. Foi nessa occasião que “Gato” foi ferido tambem...

Falando sobre o “Capitão”...

Queremos alguns informes sobre Lampeão...
O Capitão é de estatura média, bem moreno e cabello castanho. Usa oculos amarellos, pois é cégo de um olho. Traja sempre uma roupa mescla, chapéo de couro e alpercatas. Carrega um mosquetão, uma “parabellum” e tres cartucheiras, além de varios bornaes cheios de bala. Atravessado na cintura, um grande punhal.

Não quer nada com a nossa Policia

Deixei elle agora do outro lado, com varios cáibras, pois a coisa está preta no nordéste.
E onde é o outro lado?
Lá, em Alagôas e Sergipe. As coisas lá não são como aqui. Vive–se mais tranquillo e mnos perseguido. Estávamos satisfeitos.

A verdade, ainda uma vez...

Effectivamente, a situação do nordéste é outra, hoje. O bandido não tem para onde se mexer. Difficilmente, desloca–se de um ponto para outro. A sua acção tornou–se quase nulla. Vive, agora, passando uma vida de miserias...

As novas directrizes traçadas pelo Cap. João Facó e executadas pelos seus auxiliares, na campanha contra o banditismo, lograram, felizmente, verdadeiro exito. Hoje, já se respira nas caatingas. Não ha mais aquelle pavor de outr’ora, quando pairava nas caatingas o espectro sinistro da morte.


Cap João Facó
Cortesia de Ivanildo Silveira


Pescado no  Açude do confrade Rubens
Que mais uma vez promove um belo trabalho de resgate de fatos e fotos históricas na web. Ao transcrever não deixe de citar que, foi o C.S.I. Rubens Antonio quem fuçou! Leia aqui o tutorial.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Baixas

A terrível morte do cangaceiro "Mariano"  
O cangaceiro Mariano (vide foto abaixo) nasceu no município de Afogados da Ingazeira,PE, no ano de 1898. Seu nome completo era Mariano Laurindo Granja, sendo filho de fazendeiro, de algum conceito.
Entrou para o cangaço, no ano de 1924. Era negro, muito forte, andando sempre com uma palmatória de baraúna dependurada na cintura, com a qual surrava suas vítimas. Acompanhou Lampião por muito tempo, sendo uns dos poucos que cruzaram o Rio São Francisco, em agosto de 1928 com destino a Bahia.

Ele esteve com Lampião na visita a Juazeiro do Norte; participou do massacre na cidade de Queimadas, onde foram mortos 07 soldados. Participou do massacre a Mirandela, distrito de Pombal/BA. Participou do do ataque a Aquidabã, SE, em outubro de 1930. Depois, passou a chefiar o seu próprio grupo.

O tenente José Rufino arranca do Raso da Catarina, numa das batidas mais célebres de que se tem lembrança na campanha de repressão ao banditismo, e após cobrir centenas de quilômetros, ao longo do sertão baiano, chega às cidades de Porto da Folha e Gararu, no Estado de Sergipe.

É aí que se encontra com o árabe Abraão Benjamim, cineasta amador, possuído da mania de filmar um combate real e autêntico, entre as volantes e o grupo de Lampião.

Não movia ao árabe o desejo louvável de realizar um documentário histórico, mas a ambição comercial de ganhar dinheiro coma exibição do filme nos cinemas de todas as cidades.

No seu linguajar estropiado e difícil, pede ao tenente José Rufino que lhe facilite a filmagem, admitindo-o, na sua tropa.

A resposta do comandante da volante foi ríspida e dura:
Dentro de pouco tempo vou brigar com os cangaceiros, mas não sei o lugar e nem a hora e, para ser melhor entendido, nem o senhor e nem ninguém me acompanhará.

Voltou-lhe as costas, bruscamente e, à frente dos seus homens, atirou-se no aberto das caatingas à procura do rastro dos bandidos na terra de ninguém.

Nos meandros da vereda a tropa move-se no passo silencioso dos felinos.
A noite aninha-se devagar no seio da caatinga e pousa sobre a areia, ainda quente, dos despovoados.
O tenente José Rufino encurva em anel a sua tropa e cerca a casa do afamado coiteiro, Mané Véio.

Aqui abro uns parênteses na narrativa de Joaquim Góis (escritor) para um esclarecimento ao leitor.
Como se vê não eram somente cangaceiros, contratados ou soldados que tinham apelidos ou nomes de guerra. Havia na força de Alagoas, nesse tempo, um soldado natural da região de Santa Brígida, aparentado até com Maria Bonita, o nosso amigo Euclydes Marques da Silva, também chamado por Antônio Jacó, e no seio dos seus camaradas conhecido como "Mané Véio".

Foi esse soldado um dos participantes da tropa que o tenente João Bezerra utilizou no combate em que Lampião morreu e foi minuciosamente descrito no livro "Assim Morreu Lampião". Pois esse Mané Véio de que trata Joaquim Góis nada tem a ver com o outro, a não ser a coincidência do apelido.

Prossigamos com a narrativa:

"O oficial sabia de cor e salteado, a história inteira do perigoso delator, a crônica do coiteiro mais astuto e manhoso de Lampião.

Ninguém melhor do que ele possuía a arte da simulação, no modo como guiava os volantes para os lugares e esconderijos de que seu terrível patrão estava sempre ausente.

E o fazia com a simplicidade convincente de quem dizia a verdade, de quem conhecia o roteiro transitado pela horda de malfeitores, cuja pista ele disfarçava na informação errada, na indicação, propositadamente, contrária, rumando para os pontos opostos aqueles em que se ocultavam os bandoleiros.

Os homens do tenente José Rufino vigiam, pacientemente, a casa do esperto coiteiro Mané Véio.
Ninguém entra e ninguém sai. Gritam pelo coiteiro e os seus gritos envolvem tudo. Mané Véio estava ausente, despistando mais uma vítima da sua manobra traiçoeira. Sargento da polícia sergipana, Odon Matias, para a fazenda Barriguda, local apontado por ele e em que Lampião estaria no descanso das longas jornadas.

José Rufino acampa num velho curral, sem perder dos olhos a casa do coiteiro, já agora, ocupada por dois dos seus soldados. Escuta os rumores que correm dentro da noite escura e misteriosa do sertão.

Escuta e espera.Os galos cantavam quando Mané Véio volta à casa. Preso e apresentado a José Rufino, este o interroga a seu modo. Não ameaça, não amedronta e nem espanca. Conversa, argumenta, convence.

Mané Véio já o conhecia pelos pedaços de informações que os outros coiteiros lhe transmitiram. Mentir era inútil e tentar enganá-lo era perder tempo.

Volante de Zé Rufino, sendo ele, na fila da frente, o primeiro da esq. para a direita.

Defrontaram-se, dentro daquele velho curral dois sertanejos formados na ciência dos subterfúgios, na arte das vinganças, no jogo psicológico dos truques entre a verdade e a mentira.

José Rufino bate em cheio no que quer saber e o que diz ao coiteiro é mais uma afirmativa do que uma pergunta:

— Por que você guiou o sargento Odon Matias para a Barriguda, sabendo que os cangaceiros não estavam lá?
— Pra num sê morto pru eles, seu tenente.
— E onde estão os bandidos?
— Tão no Cangalêcho. O sinhô quê eu vô li bota in riba dêles.


Na resposta ao oferecimento do coiteiro é que se reflete e se revela a prudência do tenente Zé Rufino; o cuidado que ele tinha pela vida dos desgraçados, colocados entre as balas dos cangaceiros se os delatassem e o fuzil da polícia se lhe mentissem.

— Não, Mané Véio, você não vai. Preciso de você vivo. Se os bandidos souberem que você fez isso, eles o matarão. Basta que você me diga se existe casa aqui por perto.

— Inziste inhô sim, a coisa dum quarto de légua, vosmicê vai incontrá uma. E pode preguntá qui o dono sabe adonde é o Cangalêcho.

A manhã se retirava das caatingas quando José Rufino encobria-se com a sua tropa, na mataria falha de um chão eriçado de pedras miúdas, contorcido em curvas e aberto em ralos vazios e rentes. Seguir os rastros dos bandidos foi sempre uma tarefa árdua, um quebra-cabeça intrincado, pois, esses filhos do sertão conheciam todos os disfarces do terreno e todos os passes de mágica com que iludiam os menos avisados.

Marginavam caminhos andando sobre as pedras, sobre a face dura do chão, arrastando feixes de matos que lhes apagavam as pegadas. Veredas, entradas, saídas, desvios, cruzamentos, rodeios, curvas, atalhos, todo um emaranhado de acidentes que eles gravavam na memória, mapas vivos desenhados pela experiência de todos os dias.

O sol estava naquelas alturas quando José Rufino dá entrada na fazenda Cangalêcho.

Em torno de uns dos tanques (buracos nas pedras que acumulam água), para espanto seu, a rastaria dos bandidos bate nos olhos de todos, às claras de mais, como feitas de propósito. Mas só na terra que circundava o tanque, pois além poucos metros, o chão estava limpo, sem o menor vestígio de pés humanos na sua superfície. Era tão absurdo o que os olhos de todos viam que deu lugar a que a ignorância do contratado "Capão", alvitrasse esta explicação ridícula:
— Seu tenente! Num será qui os homes tão dentro do tanque!
Os rastros existentes ali, ficavam ali mesmo, nem saíam nem entravam. O tenente José Rufino, homem afeito a todas as surpresas nas coisas e nos acontecimentos do sertão, não atinou com uma explicação para aquilo.

Ele mesmo foi rastejar, procurando ler e adivinhar na página naquele pedaço de terra o significado do que via sem poder compreender. Mandou que dois dos seus homens ficassem de sentinela nas duas entradas dos caminhos, que se dirigiam para o tanque. Um sol de asfixia parava no meio do céu, quando o rastejados Gervásio indica à tropa os sinais da pista por ele descoberta.

Ao mesmo tempo, dois contratados trazem para o tenente um menino de doze anos, conduzindo entre as mãos um embrulho enrolado num lenço vermelho, cheirando a perfume de feira. O conteúdo do embrulho: um quilo de café moído. Os bandidos estavam perto e ninguém duvidava mais que em pouco tempo haveria tiroteio. Interrogado o garoto, nada se pode saber diante da barreira do seu silêncio obstinado.

Nem agrados, nem promessas, nem insinuações, nem presentes, nada conseguiu romper a teimosia daquela criança fechada numa resistência de espantar. José Rufino recorre à medida extrema, advertindo ameaçador ao menino:
— Já que você não quer dizer onde estão os bandidos, vai ser sangrado.
E voltando-se para o contratado "Capão", ordena seca e fingidamente enfurecido:
— Sangre este corninho na goela.
A lâmina do punhal de "Capão" escorrega da bainha, suja de nódoas de ferrugem, mortal como uma serpente, já mordendo a carne tenra da garganta da criança, pára, numa pausa cheia de expectativa."Capão" grita, rouco de raiva:
— Diga aonde tão os bandido seu pestinha ou eu li arranco a muéla pulas costa.
O garoto parece talhado no miolo da aroeira ou da baraúna, rijo, impenetrável, rebelde.
Era bem um símbolo do meio saturado de descrença, indiferente ao medo, fatalista e resignado.

Mudo, inacessível diante das investidas selvagens do contratado "Capão", para tudo e para todos só oferecia uma resposta:
— Num sei de nada, quê matá, mate.
Devia existir um motivo poderoso para a atitude corajosa daquela criança. E havia.

No coito em que se refugiavam os bandidos estava também o coiteiro João do Pão, pai do garoto. Comove a resistência desse pirralho e a gente sente vontade de tê-lo apertado ao peito para beijá-lo pela coragem do seu gesto.

O tenente José Rufino, sertanejo para quem a alma de sua gente é clara e aberta como o sol que incendeia a terra bravia, sabe que aquele rebento novo de uma raça de mártires, resume no seu comportamento toda a história amarga da região oprimida, da parte agreste do Nordeste, onde a vida é uma adivinhação sem esperança de ser explicada. Desiludido de que do mutismo daquele menino não lograria nenhum indício revelador do coito dos criminosos, José Rufino segue o rastejador que a pouco descobrira a pista dos perseguidos.

De súbito, José Rufino sente nas costas a pancada de uma pequena pedra, certeiramente jogada pelo contratado Genésio. Olha para trás, por sobre o ombro e recebe em gestos o sinal do seu comandado, apontando para o lado esquerdo. À sua vista, surgiam, armadas, grotescamente, as barracas dos bandidos, todos absorvidos no jogo, seu vício e passatempo nas horas de folga, passadas na segurança dos coitos".

Vamos reviver a luta e seu desideratum, baseados no que nos contaram o soldado "Bem-te-vi" e o cangaceiro "Criança" que estavam presentes, como já dissemos:
— Nóis tava jogando, no coito, que a gente quando tava discansano u que mais fazia era jogá. Era o Vinti-um, Trinta i-um, Suéca i si passava o tempo jogano. Tinha um na imboscada (de sentinela) i de repente foi tiro. 
— Demorou muito o combate? — perguntei a Criança.
— Olha, num sei, mais num passô di meia hora. E, não foi mais di meia hora. A volante chegô di surpresa, atirando i logo acertaro cumpadre Mariano, i Pavão ou Zepelim não sei bem, vi ferido Pae Véio. Nóis ainda tentamo tira eli, qui tava baliado, mais tornaro acerta eli i mataro, i nóis deixamo nu chão prá podê corre.
Perguntei ao cangaceiro "Criança" (baseado no que Joaquim Góis escreveu e nas conversas que mantivemos por várias vezes na sua casa, em Aracaju):
— Mas dizem que Pae Véio estava vivo quando a polícia entrou no coito e Mariano também.
— Não sinhó, nóis num dexava nunca um baliado, prá num dá o gosto da polícia matá. Quando nóis vimo qui tava morto mesmo foi qui nóis deixamo. Agora, di cumpadri Mariano num sei, nóis tava brigando assim um pouco longe. Quando nóis vimo qui num dava mais prá briga, qui nóis só ia até tê prejuizu maiô, aí nóis corremo.
Novamente ocorreu-me perguntar a "Criança" sobre os que estavam presentes. Pois o livro "Lampião, o último cangaceiro" afirmava a presença de "Deus-Te-Guie" nesse grupo, e no mês de janeiro de 1970, em Paripe, fomos recebidos em sua casa. Levados pela mão amiga de Dadá, estabelecemos conversa e perguntamos se o mesmo estivera presente no fogo do Cangalêcho.
— Não, nunca estive ali. Prá falar a verdade nem mesmo cheguei a conhecer Mariano. Quando entrei pro cangaço foi no grupo de Ângelo Roque, o Labareda, e que já tinha acontecido a morte de Mariano tempos atrás.
Cel. Zé Rufino e soldado "Bem-Te-Vi"
"Criança" respondeu-nos:
— Dali nóis saímos, eu, Santa Cruz, num sei se Pavão ou Zepilim, um dos dois morreu i outro saiu com nóis, Rosinha a mulher de Mariano, i parece que tinha mais um, num sei.
Baseados nas informações de Joaquim, dissemos:
— Não seria o cangaceiro "Diferente"?
— Num sei. Mais acho qui não, "Diferente" era aparentado cum "Zé Sereno" i costumava a andá mais eli. Não mi lembro.
Deixemos os cangaceiros e vamos ouvir o policial, "Bem-te-vi":
"Quando o tenente tirou a pista dos cabras, eli feiz sinal cum a mão prá gente i avançanu cum cuidado, sem fazê baruio. Mais elis tinha um cangaceiro emboscado, qui deu u alarma. 
O tiroteio cerrou-se pur poco tempo, nóis peguemo elis de surpresa i cum coisa di u'a meia hora já tava acabado. Aí fomo terá arguma pista dus qui fugiro, prá vê si tinha argum baliado. Argum sangue qui deixasse, nu chão, nas fofa di mato. Num tinha. Vortemos pru coito onde tava as barraca qui elis; tinha armado. Tinha trêis pessoa caída. U coiteiro qui tava jogano cum elis i foi baliado i tava morto, dois cangacero ferido quase morreno i otro qui elis quizero arrastá cum elis quandu fugiro tinha caído mais longe um poco i nóis cortemo a cabeça i trotemo prá li.
O tenente Zé Rufino discubriu qui um dos baliado era o chefe delis, Mariano". 
Aqui vamos abrir novamente um parênteses e voltar ao nosso escritor Joaquim Góis, que nos conta a cena do fim de Mariano.

"Aproximando-se novamente de Mariano, José Rufino chama 'Bem-Te-Vi' e, mostrando-o ao inferior, explica-lhe:
— Este é o assassino do seu pai. Você pode saciar a sua vingança. Ele ainda está vivo.
" Bem-Te-Vi "', como um louco, saca do punhal escanchase no quase cadáver de Mariano e sua mão sobe e desce em golpes. brutais. Apunhala com tanta fúria o corpo do bandoleiro, que se ouve aquele ranger estridente e áspero da ponta da arma branca atravessando as carnes e os nervos da vítima, furando e mordendo a terra seca ". Jamais um homem matou com tanta alegria, com tanta volúpia, com tanto sadismo.

Era a vingança do filho estraçalhando o corpo daquele que abatera, friamente, o autor da sua vida. Era a lei, a terrível e inflexível lei das caatingas." Voltemos à conversa com o soldado, "Bem-te-vi", cujo nome real é Severiano:
Nóis peguemos as armas dos cangacero, us anéis, u dinheiro, us borná, punha, cartuchera, u qui tinha ali se pegô. Já tinham cortado a cabeça de Pae Véio i do otro cangacero i nóis vortemos prá dondi tinha ficado Mariano ...

Recorremos novamente à pena vibrante do escritor Joaquim Góis. "O que vê estarrece e assombra.

O cangaceiro a quem o punhal vingativo de ' Bem-te-vi ' e balas de José Rufino haviam prostrado como morto, vivia ainda e num esforço que se poderia chamar de o milagre do desespero, ensaiava levantar-se.

Os dedos enorme e crispados tentavam afastar dos olhos enevoados a pasta dos cabelos empapados de sangue, a cabeleira escorrendo uma espécie de mingau feito de suor e sangue. Ele todo era uma sangria, um corpo todo aberto em talhos profundos de punhal, de pedaços de aço incandescentes que as descargas da polícia despejaram sobre ele.

Uma visão para não se esquecer.

`Bem-te-vi' ao ver Mariano vivo contra todas as probabilidades do possível, face ao número absurdo de punhaladas que ele sofreu das suas próprias mãos e dos balaços recebidos, desembainha a Colt e encostando-a no peito do assassino de seu pai, prepara-se para o tiro de misericórdia.

Corta o ar a advertência de José Rufino:
— Tenha cuidado com a cabeça que eu preciso dela.
Detonações ensurdecedoras, à queima-roupa, perfuram o corpo já todo esburacado de Mariano e a resistência física do bandido pára na imobilidade da morte". Bem, esse foi o fim desse chefe de grupo, do qual todos os companheiros, com quem tenho conversado, gostavam. Aliás, até mesmo alguns paisanos falam favoravelmente a Mariano.

Dizem que era um dos que tinha mais humanidade e benevolência. Afirmam até que era incapaz de uma crueldade. Teria sido mesmo ele o autor da morte do pai de "Bem-te-vi"? Segundo os companheiros, é impossível!

 Findaram caboclos, em 10 de outubro de 1936

Ué, dois Zeppelins?


No último Seminário Cariri Cangaço a maioria dos pesquisadores presentes, analisando fatos posteriores concordaram que esse último seria o cangaceiro "Pavão" e não Zepellim como identificado na legenda. Atualizada em 07 de Outubro de 2010

Bem, esse foi o fim desse chefe de grupo, do qual todos os companheiros, com quem tenho conversado, gostavam. Aliás, até mesmo alguns paisanos falam favoravelmente a Mariano.

Dizem que era um dos que tinha mais humanidade e benevolência. Afirmam até que era incapaz de uma crueldade. Teria sido mesmo ele o autor da morte do pai de "Bem-te-vi"?
Segundo os companheiros, é impossível!

 E Rosinha?

Mas vejamos o fim de sua companheira Rosinha. Ela e sua irmã Adelaide (que também estava em adiantado estado de gravidez, como já o dissemos), escaparam com vida e acompanharam os sobreviventes.

Estabeleceram um coito num pé de serra e aguardaram a hora do nascimento das crianças.
Chegou por fim o dia e mais uma desgraça abateu-se sobre o grupelho. Adelaide morreu do parto e o bebê também. A criança de Rosinha foi enviada a um padre.

Pouco depois encontraram-se com outros grupos. Murmúrios. Confabulam os chefes de grupo, os maiorais do cangaço opinam. Uns acham que a "viúva" pode e deve continuar no grupo de qualquer maneira. Outros são de opinião que deve ser mandada para casa de parentes e calar a boca.

Luiz Pedro se faz porta-voz de um grupo que conseguira convencer com sua argumentação. Achava, esse grupo, que toda mulher cujo companheiro morresse, e a mesma não achasse um substituto nos bandos, deveria ser eliminada para que o segredo dos "pontos", dos coiteiros não fossem revelados, colocando em perigo a segurança dos fornecedores e protetores.

Corisco foi contra essa tese. Dizia que encontraria outros "pontos", outros abastecedores de armas e munição. Foi voto vencido.

Rosinha teve o azar de não despertar o desejo do concubinato em nenhum dos companheiros. Luis Pedro fez valer seu parecer, sua sentença. As últimas frágeis resistências foram facilmente vencidas.

Enviaram Santa Cruz, Criança e outros elementos que tinham pertencido ao grupo de Mariano buscar munição em um "ponto" distante Removido esse primeiro obstáculo, disseram à Rosinha que ela seria mandada para a casa dos pais. Apronta-se para viajar.

Seu companheiro de jornada seria Pó Corante, o segundo, pois o primeiro com esse apelido foi morto juntamente com Nevoeiro e Jurema lá para os lados de Macururé, já levando ordens precisas dos chefes de como deveria agir.

Pó Corante ao retornar prestou contas a quem lhe incumbira de executar tão traiçoeira missão.

Rosinha fora morta a punhal e enterrada em cova rasa no meio de uma caatinga brava. Outra versão diz que Pó Corante eliminou-a durante a travessia do Rio São Francisco, quando a canoa em que viajavam estava próxima da margem alagoana, e o cadáver atirado às águas.


FONTES BIBLIOGRÁFICAS :

1º) Lampião as mulheres e o Cangaço - Antonio Amaury Correia de Araújo;

2º) Lampião - O último Cangaceiro - Autor: Joaquim Góis

3º) Lampião e o Estado Maior do Cangaço - Hilário Lucetti

4º) O cangaceirismo no Nordeste. Bismarck Martins de Oliveira.

5º) Lampião na Bahia - Autor: Oleone Coelho Fontes.


Um abraço a todos.
IVANILDO ALVES SILVEIRA
Colecionador do cangaço.