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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Fotos

O nazareno, Lulu Flor

Por Helton Araújo



Na imagem, vemos o ex-integrante das forças volantes e nazareno Luís Nogueira de Souza, mais conhecido como Lulu Flor, filho do afamado Odilon Flor, abraçado à sua tia-avó, Sérgia de Souza Ferraz, conhecida como Sérgia Flor.

Sérgia era irmã de João Flor e tia dos bravos irmãos nazarenos Euclides, Manoel, Odilon, Luís, Idelfonso, Américo e Hildebrando Flor, além de outros destacados combatentes de Nazaré, como Manoel Neto, Lero Chico, João Domingos, Antônio Capistrano, Izaias Ferraz, entre tantos outros. Além de João Flor, ela também era irmã de Gregório, Francisco, Nicodemos, Pacífica, Felismina, Izidora e Margarida Flor. Isso ajuda a explicar por que grande parte dos integrantes das forças volantes de Nazaré possuía laços de parentesco, sendo, em sua maioria, primos.

Sérgia Flor faleceu na década de 1960 e está sepultada no cemitério de Nazaré do Pico. Já Lulu Flor faleceu em 1998 e foi sepultado na cidade de Vitória, no Espírito Santo.

Data do registro fotográfico: início da década de 1950.

Local: Vila de Nazaré do Pico.

Crédito da fotografia: José Nogueira de Souza (Zezinho de Emília), sobrinho-neto de Sérgia Flor e primo legítimo de Lulu Flor.

Agradecimentos: Página Forças Volantes de Nazaré. (Netinho).

domingo, 13 de outubro de 2013

Crônica de uma expedição

Na rota dos primeiros passos de Lampião

Por: (*) Sérgio Dantas

Dia 20 de setembro de 2013. Chego ao Terminal Rodoviário de Serra Talhada por volta as 21:50h e ali já encontro os amigos Kiko Monteiro, Geziel Moura e seu filho Felipe. Os dois últimos, nortistas de Belém do Pará, fazendo uma das suas primeiras incursões pelo mega calor do sertão nordestino. Kiko, do ‘Lampião Aceso’, cabra já por demais calejado nas andanças pela caatinga, ansioso por rever velhos coitos e conhecer uns poucos novos.

Fizemos nosso “Quartel General” em Triunfo, pouso de clima mais ameno, cidade a pairar soberana sobre o horizonte de Pernambuco. “O ponto mais alto do Estado” – garantem os nativos e a Geografia nos confirma o dito. Estamos no Pajeú, próximos à divisa com a Paraíba, em meio a palcos de acontecimentos diversos na sangrenta epopeia do cangaço.


Kiko Monteiro, Sérgio Dantas e Geziel Moura traçam o mapa.
(Foto: Felipe Mauler)

O nosso objetivo imediato seria o de visitar a maior quantidade possível de lugares relacionados ao início da ‘carreira’ de Lampião. Entre os dias 20 e 24 de setembro deste ano, caímos na estrada e tentamos levar a cabo a meta estabelecida.

Como é gratificante reencontrar amigos; ver a história de perto; criar imagens – mesmo que mentais - sobre os eventos que ocorreram neste ou naquele lugar. E lá fomos nós, decididos a fatiar o Pajeú; a aprender a ler as suas entranhas; a relembrar episódios que aprendemos através de livros sobre o tema. 

Na manhã do dia 21, logo cedo, após lauto café-da-manhã, descemos a Serra da Baixa Verde e fomos ao nosso alvo: a casa de Luiz Gonzaga de Souza Ferraz, na agradável Terra das Pedras do Reino; São José do Belmonte. Viagem tranquila, sem sobressaltos. A Serra do Catolé um tanto à frente; bem mais à direita. Prosa boa, uma anedota aqui e ali, o amigo Kiko fazendo imitações de ‘personagens famosos’.

Em pouco estávamos diante do imponente casarão. Linhas originais conservadas, paredes de exagerada largura, o sótão com sua escadaria antiga – testemunha silenciosa daquele dia 20 de outubro de 1922. Recebidos pela professora Pergentina, atual proprietária do imóvel, podemos ver em detalhes toda a sua estrutura. Depois da inspeção ao velho sótão, de onde Gonzaga caiu para a morte nas mãos de Livino Ferreira e "Cajueiro", varejamos cada detalhe da construção centenária. A pequena câmera Sony H90 nas mãos de Kiko, registrando detalhes, imagens e falas.


Fachada do casarão de Luiz Gonzaga de Souza Ferraz
 (Foto: Kiko Monteiro)

Interior do casarão de Gonzaga
(Foto: Kiko Monteiro)

Sótão que Gonzaga tentou em vão usar como esconderijo.
 (Foto: Kiko Monteiro)

De volta à Serra Talhada, parada no ‘Coringa’ para almoço. Depois, Cemitério, para visita ao túmulo de David Jurubeba. Daí, a viagem continua até a Pedreira de Zé Saturnino. Nesta, encontramos João Alves de Barros, filho do primeiro grande inimigo do rei do cangaço. Um pouco de prosa, e ele nos mostra, ao longe, o local da primeira tocaia, onde Antônio Ferreira saíra ferido. –“Ali na Serra Vermelha, e não naquelas pedras em cima da outra aí na beira da estrada, como tem uns mentirosos que contam”. Não soubemos identificar a quem o Sr. José Alves se referia, mas o fato é que ele estava certo. O combate foi na base da Serra Vermelha, onde, mais de trinta anos depois, foram encontrados um resto de punhal, uma espora e outras coisas de menor importância. As peças maiores nos foram mostradas. Tudo fotograficamente registrado.


Registrando a visita e agradecendo pelo depoimento do Sr. João Alves.
 (Foto: Geziel Moura)

As pedras no sopé da Serra Vermelha. 
Primeira refrega entre os Ferreira e José Saturnino.
(Foto: Kiko Monteiro)


Ferragem de um punhal encontrado no local acima há trinta anos.
(Foto: Kiko Monteiro)

 Ruínas da Maniçoba da Pedreira (casa de Zé Saturnino).
 (Foto: Kiko Monteiro)

Ainda na Pedreira, vimos, ao longe, o velho ‘Lero’, 94 anos, também filho de Zé Saturnino. ‘Lero’ não mais tange gado. Não consegue mais se por de pé sem a ajuda de um ‘andador’. Hoje o tempo lhe obrigada a apenas tanger a vida..

Mais adiante - depois de quase ‘150 porteiras’ a abrir e fechar -, chegamos à verdadeira fazenda Passagem das Pedras, margens do riacho de São Domingos. O veio d’água seco, areial puro, em virtude da prolongada estiagem. O cruzamos de carro e chegamos até a residência de Camilo Nogueira, que nos recebe com a simpatia de costume. Um ‘gentleman’ em pleno sertão. Ali do lado, os restos da casa onde nascera Virgolino Ferreira, o ‘Lampião’.  Geziel não cabe em si de tanta felicidade ao pisar no solo onde seu principal ídolo abrira os olhos a primeira vez. Sensação única para o ‘cabra do Norte’.

Riacho de São Domingos: há anos sem correr água!
(Foto: Kiko Monteiro)

Na casa que havia neste local nascera Virgolino.  
Apenas o velho mandacaru...

...e alguns restos de telhas e tijolos atestam o local exato da casa dos Ferreira.
 (Foto: Kiko Monteiro)

Olha a cara do paraense! Geziel todo prosa, sentado num velho tronco de cumeeira, contempla o lugar que deu origem ao brasileiro mais estudado de todos os tempos.
(Foto: Sergio Dantas)
Nosso estimado Camilo Nogueira apresenta duas peças de um torno de madeira 
que pertenciam a José Ferreira, pai de Lampião.
(Foto: Kiko Monteiro)

Antes de encerrar o dia de visitas, uma parada nas ruínas da casa de Dona Xanda, mãe de Saturnino. As paredes – antes marcadas por tiros – já praticamente caíram. Restos das brigas entre o cangaceiro famoso e José Alves de Barros, o Zé Saturnino. Já na saída do local, Geziel lembra-se de apanhar um pedacinho de tijolo para presentear um amigo: “entregue isto ao Dr. Ivanildo” – ele me pede. E completa: “já que ele nunca veio aqui, diga a ele que eu envio essa lembrança!”. Em Natal, dias depois, cumpri a missão a mim confiada.


Fazenda Pedreira. Ruínas da casa de dona Xanda.
(Foto: Kiko Monteiro)


Encomenda para Ivanildo Silveira. Camilo detalha o fabrico dos tijolos.
(Foto: Sérgio Dantas)

No dia seguinte, mais viagens e visitas. Sítio dos Nunes e Serra Grande, primeiros pontos do roteiro. Trilha de barro a partir de Varzinha, até chegarmos ao pé da velha trilha para Betânia, onde foi deflagrado o primeiro tiro do grande combate de 26 de novembro de 1926. Serra Grande; quase 18 km de extensão. Combate na chã mais baixa, onde as duas partes altas do maciço se encontram e criam uma espécie de passagem natural para o lado sul. Já tinha estado lá uma vez. Na época, o acesso era mais fácil, pois ainda não existiam os trilhos da futura “Transnordestina”. Agora, a viagem até a serra, a partir da BR 232, tem que ser feita em grande parte a pé, debaixo de sol escaldante. Os trilhos cortaram a passagem que antes era praticamente livre: apenas uma cancela! Hoje chegar lá se tornou bem mais difícil. Afinal, como diria alguém, “o progresso tem que abrir mão da História”.


Perto da Serra Grande. Agora, com um obstáculo a mais a transpor: 
os trilhos da Transnordestina.
 (Foto: Felipe Mauler)

Na encosta da Serra Grande.

A tarde, mais lugares a ver. Paramos em Nazaré, solo dos mais devotados e ferrenhos perseguidores de Lampião. Rubelvan Lira – filho do saudoso tenente João Gomes de Lira – nos recebe. Pouco depois, vem ao nosso encontro o Sr. Ulisses, filho do valente Euclides ‘Flor’. E nos reclama: “deveriam ter avisado, para que a gente preparasse um almoço bom!”. A prova do bom e desinteressado hábito sertanejo de bem receber as visitas. Improvisou-se almoço. Comida excelente!

Com Ulisses Ferraz 
 mais que satisfeitos com o convite para o comes... e bebes também.
(Foto: Felipe Mauler)

Uma visita ao cemitério velho. Fotos das lápides de Manoel Neto, Euclides Flor, Manoel Flor e Hildebrando Ferraz. O amigo da Terra do Açaí quase não quer sair do ‘campo santo’. Ali estão os restos de outros referenciais seus, notadamente Manoel Neto, o “Mané Fumaça”. E ainda havia mais a ver: os monumentos, a igrejinha, as relíquias fotográficas e materiais guardadas na casa de Zezinho. Emoção única ver e tocar na túnica militar de Odilon Flor, com suas divisas de sargento. Tudo registrado para a posteridade.

Cemitério de Nazaré do Pico.
 O túmulo em destaque é onde repousam os restos mortais do lendário Manoel de Souza Neto e Hildebrando Ferraz.
(Foto: Sérgio Dantas)

Reencontro com o casal de amigos Iraci e Zezinho de Emília.
(Foto: Felipe Mauler)

Blusão militar ou gandola do Sargento Odilon Flor.
 (Foto: Sérgio Dantas)

Nos despedimos do povo bom de Nazaré e tocamos a viagem até Caraíbas, palco de grande combatede 15 de fevereiro de 1926. Uma cerca de arame farpado nos impede de ir até o pé do serrote onde houve o confronto. Queríamos pelo menos um cartucho antigo, para presentear um amigo nosso. Mas nos contentamos em ver o local a algumas dezenas de metros.

Depois, fazenda Tapera, de Manoel Gilo. Ali fomos muito bem recepcionados por Djalmir, neto de Cassimiro de Gilo, único sobrevivente do tiroteio que ali ocorrera em 26 de agosto de 1926. Djalmir, que trabalhava como motorista do sanfoneiro Dominguinhos, nos mostra tudo. Dos restos da casa às trincheiras naturais existentes nos barrancos de riacho próximo. De cartuchos encontrados entre os escombros da casa ao cemitério onde se sepultaram os corpos de Manoel Gilo e de outros mortos daquele violento dia de agosto. Depois do lanche, deixamos a fazenda já cumprimentando a noite.


 O anfitrião Djalmir conta a tragédia que se abateu sobre a Família Gilo.
(Foto: Kiko Monteiro)

Em busca de vestígios, no local onde antes foi a casa da família Gilo.
(Foto: Kiko Monteiro)

Vestígios de 87 anos: 
Cápsulas de balas de calibres diferentes.
(Foto: Kiko Monteiro)

A margem do Capim Grosso, riacho que corta a propriedade, serviu
como proteção para Lampião e os cabras. Assim como o São Domingos o Capim Grosso é mais um areal resultado da terrível seca.
(Foto: Sérgio Dantas)

Num pequeno cemitério dentro da propriedade jazem 11 vitimas de Lampião.
(Foto: Kiko Monteiro)

Faltava Floresta do Navio. De última hora, resolvemos entrar na cidade e fazer uma visita a seu Neco - Manoel Cavalcanti de Souza-, último ‘nazareno’ vivo. ‘Neco de Pautília’. Apesar da saúde fragilizada, o velho combatente ainda relatou detalhes do combate de Maranduba, do qual participara sob as ordens do Coronel Liberato de Carvalho. “Morreram três cangaceiros: Sabonete, Catingueira e Quina-Quina” – relembra com alguma dificuldade. Saímos de Floresta com a triste impressão de que não veríamos o guerreiro mais uma vez. A vida e seu curso inexorável rumo ao desconhecido.

[OBS. Por conta do estado de saúde e principalmente por questão de ética não exibiremos a foto do amigo e velho guerreiro Neco. Apesar de termos tido autorização da família para registrar a visita.]

No dia 23, pela manhã, uma passadinha na Fazenda Abóboras, local de nascimento do famoso cangaceiro Sabino Gomes. Instalações amplas; bom exemplar da arquitetura do início do Século XX. A casa grande, embora reformada, guarda traços de sua grandiosidade original. Tudo fechado; um perdigueiro montando guarda. A nossa esquerda, a serra do Xique Xique, ao lado da Serra Talhada. Ali teve combate em 1925 e também estava em nossa relação de lugares a visitar.


Chegando às Abóboras de Sabino
(Foto: Kiko Monteiro)

A casa-grande da fazenda Abóboras.
(Foto: Felipe Mauler)

Depois de uma passagem rápida pelo Museu do Cangaço de Serra Talhada, nos despedimos do amigo Kiko. Infelizmente o cabra não pode permanecer conosco até o final, sob pena de perder sua carona de retorno ao Sergipe.

Fim de linha pra Kiko Monteiro. Visita ao acervo do museu do Cangaço 
mantido pela Fundação Cabras de Lampião, na terra do Xaxado.
(Foto: Felipe Mauler)

A viagem continuou sem a animação do cabra ‘Gitirana’. Fomos a Xique Xique e podemos bem entender toda a dinâmica do combate ali havido em novembro de 1925. Um açude cobre parte do local, mas ainda é possível ver pedras da cerca natural e o paredão da serra. Ali morrera Ildefonso Flor, garoto imberbe, em seus 16 anos de vida. A serra ao lado, testemunha de tudo, em seu silêncio milenar.


 Geziel Moura pega um bronze 
as margens do açude do Saco, em Xique-Xique. .
(Foto: Sérgio Dantas)

O dia se completa com a ida à Baixa do Juá, próximo ao Tenório, onde fora baleado Livino Ferreira, irmão de Lampião, na data de 5 de julho de 1925. Aqui também a Transnordestina criou algum obstáculo para acesso. Mas cremos que valeu ir até o local, hoje tão esquecido pelos livros. Nos pareceu ainda virgem, intocado, caatinga bruta.

Baixa do Juá (ou Tenório), 
local do combate onde Livino foi ferido de morte.

Para coroar a viagem, uma breve entrada na Paraíba. Terras de Princesa Isabel, feudo dos Pereira e dos Diniz. Uma passada em Patos do Irerê, onde reinou absoluto o Coronel Marcolino Diniz, sombria figura detentora do poder naquelas plagas. Na povoação, esquecida pelos homens e pelo tempo, a igrejinha singela – onde se conta ter acontecido o casamento do cangaceiro Meia-Noite. Um pouco fora do arruado, o casarão velho dos Patos que, se não cuidado a tempo, em breve será apenas um monte de entulho.

Igrejinha de Patos de Irerê: infinitas histórias!
 (Foto :Sérgio Dantas)

Dentro desta capela encontra-se o túmulo do Cel. 
Marcolino Diniz e de sua esposa "Xandu".
 (Foto: Sérgio Dantas)

Casa de Marcolino Diniz
  (Foto: Felipe Mauler)

 Casarão dos Patos de Irerê.
(Foto: Felipe Mauler)

Muitos lugares, histórias várias. Porém, todos entrelaçadas pela presença constante de Lampião e seus cangaceiros. Bom visitar, conhecer, apreender as particularidades de cada sítio histórico, em particular. Em breve, outras viagens virão. Esperamos com as boas companhias desta. O alvo nos indica, a priori, o nordeste da Bahia. Encontraremos o momento certo para a incursão.

Sérgio Augusto de Souza Dantas
Natal, RN

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*Bacharel em Direito, pesquisador independente e autor dos livros “Lampião e o Rio Grande do Norte” (2005), “Antônio Silvino: O Cangaceiro, O Homem, O Mito” (2006) e “Lampião: Entre a Espada e a Lei” (2008). Clique Aqui e confira uma entrevista com SD

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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Baixas

As cruzes de Mariquinha , Sofreu e Pé-de-Peba

Por João de Sousa Lima     


Dia 16 de setembro de 2013, eu e Felipe Marques saímos de Paulo Afonso em direção a Jeremoabo e de lá, já na companhia de Antonio Fernandes, nos dirigimos até a cidade de Coronel João Sá, onde nos encontramos com o professor Enoque Cardoso e Antonio Vieira, dois amigos que nos auxiliaram em uma pesquisa sobre o cangaço apresentando pessoas e lugares que tiveram ligações com a história. Dentre as várias entrevistas estivemos com Laurinda  da Cruz de Jesus e podemos ouvir dela o relato da morte dos cangaceiros Mariquinha, Pé de Peba e Xofreu ( ou também chamado de Chofreu e Sofreu).

As cabeças dos cangaceiros foram levadas do local da morte no lombo de uma jumenta que pertencia a Maria da Cruz Gouveia, que era mãe de Laurinda. A jumenta estava com poucos dias de parida. A cangaceira Mariquinha foi uma das primeiras mulheres a entrar no grupo de cangaceiros. Ela era prima de Maria Bonita, irmã de Zé de Nenê. Mariquinha seguiu com o cangaceiro Ângelo Roque, o famoso Labareda.
    
 A equipe: Antônio Vieira, Prof. Enoque, João de Sousa
e Felipe Marques.
Os cangaceiros foram cercados ao anoitecer pela volante do nazareno Odilon Flor. Um dos soldados que estava presente nesse combate ainda encontra-se vivo em Paulo Afonso, é o cabo Gérson Pionório. A seguir o relato que ele fez do combate:
Gerson Pionório Freire
- Eu destaquei em Jeremoabo, Canindé, Canudos (fui delegado), Pilão Arcado, Sento Sé, Remanso, Sobradinho, Casa Nova, Senhor do Bonfim, Juazeiro, Napele, Tucano, Calda de Cipó, Urucí, Itabuna, Canavieiras, Canacá, Jacareci (fui delegado), Euclides da Cunha (fui comandante), e Cocorobó (fui delegado).Gérson passou pelas volantes de Pedro Aprígio, Aníbal Vicente, Zé Rufino e Odilon Flor.
Quando serviu com Odilon Flor, participou do combate onde foram mortos os cangaceiros Pé-de-Peba, Xofreu e Mariquinha. O combate aconteceu no Riacho do Negro, em Sergipe.
A volante seguiu com o coiteiro nos rastros dos cangaceiros indo encontrá-los às 23hs. O combate noturno travado entre 15 policiais e 8 cangaceiros foi ferrenho. Odilon Flor saiu baleado nas nádegas, os cangaceiros tiveram uma baixa de tres componentes do grupo. Os policiais cortaram as cabeças e ainda à noite as colocaram em um carro de boi e levaram pra Paripiranga. Na cidade, a população pode ver as cabeças de Pé-de-Peba, Xofreu e Mariquinha. 
Da residência de dona Laurinda da Cruz, depois de saborearmos um doce de leite, partimos para conhecer o local das mortes dos cangaceiros. Com o sol já se pondo fizemos uma viagem contra o tempo. O local da morte dos cangaceiros fica na localidade conhecida por Serrote e pertence ao município de Sítio do Quinto, BA. Atravessamos muitas porteiras até encontrarmos com  o fazendeiro Gervásio de Carvalho Filho, que vinha montado em seu cavalo. Conversamos um pouco com Gervásio e seguimos o trajeto, tendo ainda que abrir várias porteiras e o sol cada vez mais sumindo no horizonte.

Enoque, João, Laurinda Cruz, Toinho e Vieira.

Chegamos até a última casa da região, propriedade de José Alves da Costa, conhecido por Zé de Loló. Sem ele não teríamos conseguido chegar até as cruzes. Convidamos Zé e ele seguiu no carro com a equipe enquanto Enoque e  Vieira seguiram andando. Deixamos o carro em um ponto e subimos o “Serrote”.


Casa do lavrador Zé de Loló.

Eu, Antonio de Juvininho, Felipe Marques e Zé de Loló chegamos até o local. Transpusemos uma cerca de arame farpado e Zé de Loló saiu abrindo uma trincheira, quebrando mato, desfazendo um emaranhado de cipós secos que fechava o caminho. Aos poucos fomos chegando, o sol baixando. Conseguimos fotografar o local e as cruzes. Mais um mistério estava desvendado, as cruzes de Mariquinha, Xofreu e Pé de Peba surgiram para a história.


O vaqueiro Gervásio indica o lugar das cruzes.

Nos preparamos para retornar pois a noite não demoraria a chegar. Pulamos a cerca de volta e descemos a serra. Ao longe ouvimos as vozes de Enoque e Vieira. Dirigimo-nos até o carro. Encontramos Enoque com uma vara na mão, pois acabara de ser atacado por uma raposa e a "arma" encontrada no chão serviu de defesa.


Eis aí as cruzes do povo de Ângelo Roque.
Notem  o erro na identificação do cabra Pé-de-Peba

Colocamos Enoque na mala do  veículo e retornamos. Deixamos Zé de Loló em sua casa onde ele vive solitário e pegamos a estrada de volta. Várias cancelas depois chegamos até o povoado mais próximo. Nesse povoado fomos ver a capela onde estão sepultados alguns sertanejos que foram mortos por Ângelo Roque como vingança as mortes dos seus companheiros cangaceiros. Estão enterrados na capela os senhores: Olegário, Antonio e Constâncio. Seguindo essa vingança o Ângelo Roque ainda matou a senhora Jovina que estava grávida de gêmeos. Jovina residia na localidade Logradouro e era prima do cangaceiro "Saracura".

Naquele intrincado e longínquo pedaço de chão baiano, a história deixou marcas profundas, marcas de um tempo que o povo ainda tenta entender. Tempo que tem sua compreensão fundamentada nas cruzes erigidas em lembrança de alguns cangaceiros e de sertanejos que viram suas vidas envolvidas na história do cangaço.

João de Sousa Lima
Historiador e escritor
Membro da ALPA – Academia de Letras de Paulo Afonso.
Membro de GECC – Grupo de Estudos do Cangaço do Ceará.
Paulo Afonso, 27 de setembro de 2013.
                   
Veja mais em www.joaodesousalima.com

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Fotos que ainda chocam

O que sobrou de Manuel Moreno, sua esposa Áurea e o cabra Gorgulho
 

Subgrupo de Lampião eliminado enquanto festejavam  na Fazenda Poço da Volta, em Porto da Folha/SE. Foram executados pela volante baiana do Sargento Odilon Flor, a 23 de junho de 1937, durante as festas de São João.

Fonte: Livro Guerreiros do Sol, Frederico Pernambucano de Mello.

Créditos:
Ivanildo Alves  da  Silveira
Colecionador do cangaço
Membro da SBEC e do CARIRI-CANGAÇO
Natal / RN

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Sertão afiado

A riqueza da cutelaria brasileira: coleção Alberto Orsini 

Colaboração de Ernane Cunha  

Depois de rastejar por longo tempo pela sequidão do imenso sertão chamado Google, encontrei finalmente um pequeno porém significativo oásis mantido pelo advogado paulistano Alberto Orsini Neto. Este senhor, juntamente com 5 pesquisadores, especialistas nas diferentes facas brasileiras, reuniu em um catálogo luxuoso sua “modesta” coleção de facas que representam a glória da antiga cutelaria legitimamente nacional, ou seja, as facas Sorocabanas, Mineiras, Franqueiras, Gaúchas e claro as Nordestinas, que compõem parte de seu acervo de 350 peças.


Coordenado pelo engenheiro e museólogo Manuel Julio Vera Del Carpio, esse catálogo muito pouco divulgado e que teve uma tiragem limitada, e que hoje pode ser adquirido por um valor não inferior a R$300,00 em alguns sebos, claro, chamou muito minha atenção, especialmente devido à belíssima coleção de punhais e facas nordestinas que apresenta e pelas quais tenho admiração especial. Bom para minha sorte e para a dos demais interessados este senhor, que deveria servir de exemplo para os colecionadores particulares, institutos históricos e mesmo museus de nosso país que com raras exceções, ainda vive a época de egoísmo, disponibilizou o conteúdo do referido catálogo impresso integralmente na internet. 

Tenho certeza de não ser o único interessado no assunto. Apesar do esforço, quase heróico daqueles que se dedicam a resgatar a história não só do cangaço, mas do nordeste como um todo e da vastidão que compõe a bibliografia cangaceira, a escrita da história da cutelaria nordestina e daqueles que a forjaram nas incontáveis tendas do sertão de outrora ainda espera por ser feita de um modo mais detalhado e apresentada ao mundo em todo o seu esplendor. 

Exemplares para ilustrar essa história sei que não faltam, estão por aí nas muitas gavetas e prateleiras desse Brasil, aguardando serem libertadas por alguma alma ilustrada. Segue o primeiro dos principais textos do site em questão para deleite especial dos "cangaceirólogos":

Att. Ernane R. C. Cunha
Cachoeira de Minas - Sul de Minas Gerais

Facas do Nordeste: Conhecidas como facas de pontas

Por Mário dos Santos Carvalho (*)
As inserção das imagens foi por conta e risco do Lampião Aceso.

Embora muito antigo em nosso país, o termo faca de ponta tornou-se  a designação genérica de vários tipos de  lâminas produzidas e usadas especificamente na região Nordeste do Brasil. A área de  produção e uso das antigas facas de ponta iniciava-se no Sul da Bahia,  abrangia  toda a região Nordeste e chegava até os  Estados do Norte, os quais nunca tiveram uma cutelaria de estilo próprio.  Assim, ao lado dos clássicos facões de mato, as facas de ponta foram, sem qualquer dúvida, as mais utilizadas lâminas brasileiras, tanto por parte de simples  trabalhadores que participaram dos ciclos da cana-de-açúcar, do gado, do cacau e da borracha quanto pelos senhores que os comandavam.

Dois exemplos de faca de ponta e um punhal da mesma manufatura .
In: Knifenetwork

Entretanto, não devemos não devemos nos esquecer  que este também  foi o primeiro nome de facas brasileiras destinadas à defesa, sendo ainda interessante notar que o nome faca de ponta iniciou-se, pelo menos de forma documental, em lei (bando) de 1722,  da então Capitania de São Paulo, mas – a exceção do Rio Grande do Sul -  foi voz corrente em todas as outras regiões do Brasil  e, pelo menos até a década de 1920, sendo utilizado inclusive no sertão paulistano, conforme nos cientifica este trecho do conto "Pedro Pichorra", publicado em 1919 no livro "Cidades Mortas" de Monteiro Lobato: "...realizara o sonho de toda criança da roça, a faca de ponta. Dera-lhe o pai, como diploma de virilidade: - Menino, doravante és homem..."

Do livro "Apontamentos sobre a faca de ponta" de Oswaldo Lamartine. 

Segundo registros escritos de 1817, as facas de ponta do Nordeste teriam nascido na antiga Aldeia de Pasmado, atual cidade de Abreu e Lima, no Estado de Pernambuco, embora a atividade cuteleira na região fosse bem conhecida desde 1780. Essas antigas crônicas dizem que o viajante ao aproximar-se da aldeia já ouvia  intenso e marcante som de lâminas sendo forjadas, tamanho era  o número de cutelarias que lá existia.

Naquelas regiões, as oficinas que produziam, entre outros,  itens de cutelaria eram conhecidas como tendas de ferreiro, ou simplesmente  tendas, e quando a faca era requintada costumava-se chamá-la de “faca-jóia”.

De acordo com o famoso autor Gustavo Barroso (no conto "O Patuá", em "Praias e Várzeas", de 1915), também  no Ceará do século XIX alguns cuteleiros já eram famosos: "...tinha um verdadeiro arsenal. Andava... com uma faca feita pelos Fernandes do Crato, os ferreiros mais afamados do Ceará."

Ainda nas primeiras décadas do século XIX também ficaram muito famosas as facas de ponta e punhais produzidos no Vale do Pajeú de Flores, em Pernambuco, especialmente aquelas oriundas de povoados da Serra de  Baixa Verde e tão grande foi essa fama que a essas lâminas se emprestou os nomes ora de “Pajeú”, ora de  “Baixa Verde” . Conforme alguns autores regionais e estudiosos, nessas localidades teria sido criado o característico estilo da empunhadura “embuá”, um verdadeiro ícone na configuração das facas nordestinas.


Um exemplo de punhal "Baixa Verde" parte do acervo do Museu do Ceará.
Indicação de Dênis Artur Carvalho (foto Fátima Garcia) in Ceará em Fotos

É também especialmente curioso o fato de que algumas cutelarias de Flores (PE) produziam lâminas de extrema flexibilidade, especialmente para punhais, os quais, segundo alguns autores nordestinos, “retiniam como um sino quando nelas se batia” e  apresentavam “...a técnica do enverga-mas-não-quebra, dos cortes e da perfuração sem fazer força”.

TIPOS

Algumas das mais requintadas facas de ponta têm a empunhadura em prata, ou alpaca, e estas são, geralmente, na forma de estruturas bulbosas, os metais sendo intercalados com vários materiais tais como madeiras regionais, chifres bovinos, ossos, cascas  duras de frutas, moedas, botões de madrepérola, etc. Igualmente, algumas podem ter a lâmina enterçada, podendo ou não serem originárias  de antigas espadas.

Dois punhais de mesma lavra do usado por Lampião Essas peças testemunham a exclusividade de Virgolino. A da esquerda 67 Cm de lâmina, idem a peça que está em exposição no Instituto Histórico de Alagoas.

Os tipos mais básicos destas antigas lâminas são:

- a faca de ponta propriamente dita, com um só fio e de dorso caído, também lembrando muito o clássico formato das facas mediterrâneas. Habitualmente, seu ricasso tem algum trabalho, desde simples entalhes de lima até a inclusão de tiras de prata, alpaca ou latão, com ou sem lavrações. A partir de 1900 e seguramente até 1930,  algumas cutelarias européias, principalmente as alemãs, passaram a produzir e exportar modelos similares de facas de ponta, alguns deles com inscrições regionais nas lâminas, tais como  “Pernambucana”, “Cearense”, “Salve Pátria”, “Livra Vida”, etc e outras alusivas a personagens de destaque da vida política brasileira do período;


"Um exemplar de Livra vida"
Acervo de Alberto Orsini, foto do catálogo. 

- punhais, claramente inspirados em seus correspondentes mediterrâneos do século XVIII, especialmente os de origem espanhola e italiana, destes últimos tendo herdado o costume de ter o ricasso com algum trabalho de lima e, por vezes, também a aplicação das tiras de metal, lisas ou com trabalho de lavração. Os mais antigos têm suas lâminas de perfil oblongo, ou meia-cana, igualmente como os mediterrâneos. Também estes punhais nordestinos foram copiados por cutelarias européias no mesmo já mencionado período das facas  e igualmente alguns deles podem conter lavrações similares em suas lâminas;
 
- “Parnaibas” ou “facas de arrasto” constituem um dos mais imponentes tipos da região Nordeste do Brasil, sendo designações populares da variante da  faca de ponta quando com lâmina exageradamente longa e de pouca largura. Esse nome refere-se à cidade de Parnaíba, no Piauí, onde o tipo teria surgido no final do século XVIII. A designação de “faca de arrasto” teria se originado no fato de que por terem lâminas muito longas levavam mais tempo para serem sacadas, ou "arrastadas", da bainha.

 Faca Parnaiba ou de Arrasto com guarda em "D".
foto in: Mercado Livre

Uma outra versão para a origem do nome é de que, por serem muito longas, essas facas se arrastavam no chão. Podem ou não ter a guarda em “D”. É um tipo atualmente bastante raro, mas foi muito retratado em ilustrações do Brasil Colônia, normalmente com lâmina de mais de 45 cm e guarda em "D" e  citado na literatura brasileira do século XIX e começo do XX. Uma interessante variante de “Parnaíba” sem guarda em “D” tinha o pomo abrindo-se (para melhor travar a mão) em formato similar ao rabo de um peixe e 3 exemplares vistos nessa configuração, todos comprovadamente oriundos do Nordeste, são muito semelhantes apresentando  ricassos ricamente trabalhados com a aplicação de 7  listras de prata/alpaca, empunhaduras em talas de chifre bovino e decoradas com muitos pinos pequenos dos mesmos metais, fazendo supor que foram produzidos por um mesmo cuteleiro ou numa mesma oficina;

- com empunhadura de embuá, este é o nome regional do piolho-de-cobra, pequeno animal invertebrado da classe Diplopoda, mas sendo  também a designação popular  de um estilo de empunhadura de facas e punhais das regiões Norte e Nordeste do Brasil onde finos discos de materiais diversos (principalmente chifre bovino escuro, mas também osso, madeiras, fibras ou em raros casos até marfim) são intercalados com outros de metais (latão, prata,  , alpaca, zinco, alumínio, etc), oferecendo um contraste visual agradável. Essa denominação popular ganhou tanto prestígio que lâminas com essa variante de empunhadura são atualmente classificadas como um tipo;


 Facas de empunhadura Embuá.  
Coleção de Dênis Artur Carvalho in Knifenetwork

- facas e punhais de Santa Luzia (PB), as primeiras normalmente apresentando maior largura mas espessura menor do que as facas de ponta comuns. Muitas vezes as facas da região de Santa Luzia eram chamadas localmente de “Lambideiras" (ou “Lambedeiras”)  e essa designação popular já era conhecida de forma escrita em 1848 , tendo nascido do fato de que, por terem lâminas bem largas, deviam ser  “lambidas” na pedra para serem afiadas. Existiram ainda as  ditas “lambidas dos dois lados”, que eram aquelas afiadas também no dorso ou alguns punhais afiados que eram igualmente tratados dessa forma;

- “língua de (tatú) peba", designação popular de raríssimos punhais com lâmina de formato triangular (ou "de três quinas", como também eram chamadas na região Nordeste). Esse tipo de punhal é citado em algumas crônicas da Guerra de Canudos (1897), na Bahia;

- facões  “Canindé”, também denominação popular da região Nordeste originada  na cidade cearense de Canindé, que desde o início do século XIX atraía grandes romarias de devotos de São Francisco, com isso tendo desenvolvido muito alguns artesanatos regionais, entre eles toscos facões curtos, normalmente com lâminas largas de 15 a 18 polegadas de comprimento e com empunhaduras em talas de madeiras ou chifre bovino. Segundo estudiosos locais, esses facões foram usados apenas por populações rurais da região, mas como eram de excelente têmpera, sua fama se estendeu até Fortaleza e em algumas outras cidades do Ceará. De acordo com as mesmas fontes, já por volta de 1940 não eram mais produzidos;

- “quicé”, tratando-se da menor faca nordestina e nada mais sendo do que uma utilitária de pequeninas dimensões, para pequenos trabalhos no campo, similar e equivalente da gaúcha “cherenga”.

 Exemplo de Faca "Cherenga" ou "Quicé"

É importante notar que a primeira leva de nordestinos que se dirigiu aos seringais da região Norte em 1877 levava consigo suas lâminas, as quais foram usados em larga escala por todo o Ciclo da Borracha (1877-1945). Quando dos conflitos no Acre, há registros escritos de que os combatentes bolivianos tinham grande temor dos cearenses justamente por sua habilidade no manejo dos facões, isto tendo, criado um dito popular entre a soldadesca do país vizinho que dizia “os cearenses nascem pequenos e com uma pequena faca, mas conforme vão crescendo o tamanho da faca aumenta”!

A partir do início do século XX, produtores industriais de lâminas da região Sudeste passaram a produzir cópias dos modelos artesanais de facas utilitárias do Nordeste e a abastecer aquele mercado. Tais facas industriais ficaram conhecidas localmente como “peixeiras” (ou “pexeras”) e muitas tornaram-se também instrumentos de defesa por parte dos sertanejos.

LÂMINAS DOS CANGACEIROS

Entre as mais caras possessões dos cangaceiros estavam seus punhais, facas e facões, e isto – este apreço por lâminas – existia tanto por questões culturais da região  Nordeste da época (onde a honra  masculina determinava que as questões entre  homens devessem ser resolvidas na ponta e no corte de uma lâmina) quanto pelo terror que o ritual da sangria infligia aos  inimigos. Como sabemos, a maior parte das  execuções sumárias feitas  pelos cangaceiros se dava através  da chamada sangria, a qual era a técnica de desferir um único golpe de punhal longo na clávicula esquerda (na região popularmente conhecida por “saboneteira”), que atingia coração e pulmão e causava  morte lenta e agonizante.


Do livro "Estrelas de Couro -  A estética do cangaço"
de Frederico Pernambucano de Mello.

É fato bem conhecido entre os estudiosos do cangaço que os integrantes do bando de Lampião (e o próprio) tinham especiall predileção por lâminas produzidas pela família Pereira, da cidade de Jardim, no Ceará, a qual atuou nessa área por três gerações a partir dos anos iniciais do século XX. Quando, a partir dos anos de 1960, , publicaram-se diversos livros sobre o famoso bando, essa família chegou a ficar conhecida, pelo menos regionalmente, como “os cuteleiros de Lampião”.

As criações atribuídas a essa família são de boa qualidade e  embora não tenham acabamento superlativo, grande  parte delas apresenta empunhaduras do clássico tipo “embuá”, de forma total ou parcial, sendo que as lâminas de tamanhos mais habituais também costumam apresentar as iniciais dos cuteleiros que as produziram preenchidas com latão. Devido a serem mais trabalhosas, as empunhaduras com “embuá” total eram as mais caras dentre as oferecidas por essa família.

Como até a edição desta obra não foi possível um contato com o Sr. Paulo Pereira (último cuteleiro da famosa família e atualmente residindo em endereço incerto em Juazeiro do Norte, Bahia), nos é licito presumir que, por detalhes construtivos, as lâminas timbradas “JP” seriam as mais antigas, pela lógica então pertencendo ao patriarca, aquele que iniciou o oficio; depois e pelo mesmo motivo, viriam as timbradas “MP”, que seriam de seu filho ou irmão e, finalmente, as cunhadas “PP” , estas seguramente referindo-se a Paulo Pereira, que – segundo informações fidedignas – estaria atualmente com mais de 85 anos e no final da década de 1990 teria se mudado para a Bahia.

Entretanto, deve ser especialmente notado que 99% dos punhais longos destinados a combate e/ou sangria (habitualmente com mais de 45 cm de lâmina) produzidos por integrantes  dessa família NÃO apresentam as iniciais de seus produtores, esta ausência servindo para não demonstrar ligação ou envolvimento dos cuteleiros com os cangaceiros ou com as  mortes por eles praticadas, uma vez que lâminas de grande comprimento sempre foram destinadas especificamente aos bandoleiros e com esse único fim.

O fato de Lampião e alguns outros integrantes de seu bando terem sido fotografados  quase sempre portando punhais cujas lâminas tinham mais de 60 cm de comprimento, não significa que o uso de versões extremamente longas fosse uma constante absoluta por parte de todos os cangaceiros. Outras fotos de seu bando e também de integrantes das volantes (principalmente a de "nazarenos") mostram que o tipo de punhal mais habitualmente portado tinha lâmina entre 30 e 40 cm de comprimento.

Volante comandada pelo célebre nazareno "Odilon Flor" (1º à esquerda na fila inferior).
Foto de Benjamim Abrahão, 1936.

Pela cuidadosa análise de antigas fotos do bando de Lampião, é possível observar que – de maneira comprovada e além dele – somente  outros 2 lideres de seu grupo portavam habitualmente  punhais extremamente longos, os cangaceiros Juriti e Corisco. É também  especialmente digno de nota o fato de que numa das fotos em que figuram Lampião e Juriti, o longo punhal deste último parece ser idêntico àquele portado pelo primeiro numa outra imagem. Alguns autores especializados ainda citam que o líder cangaceiro Azulão também costumava portar um longo punhal.


Lampião e Juriti, in foto de Benjamim Abrahão, 1936.
Acervo ABA Film.

Estas constatações levam à hipótese provável de que os punhais de lâminas extra-longas também servissem como uma espécie de  símbolo de “status” e de  liderança dentro  dos bandos, não sendo entretanto os de maior uso, pois – do estrito ponto de vista da praticidade - portar uma lâmina com mais de 60 cm de comprimento não devia ser algo  confortável nas andanças pela caatinga...

Faca de ponta de manufatura bastante primitiva, curiosidade que na área do ricasso encontra-se incrustado em metal amarelo (latão) as iniciais JB. José Bahiano. 
Foto: Ivanildo Silveira

Com a morte de Lampião em 1938 e o consequente fim do cangaço, os punhais de lâminas muito longas foram perdendo sua aura de arma famosa e a demanda diminuiu muito. Especialistas acreditam que já na década de 1950 sua produção normal teria sido interrompida pela maioria dos artesãos.

Entretanto, os cangaceiros não apreciavam, ou usavam, somente punhais e, novamente, as mesmas fotos comprovam isso: diversos usavam facas de ponta e facões curtos; Catingueira, do bando de Gato, portava uma baioneta no peito, além de um punhal médio na cintura; de maneira geral, as mulheres do cangaço portavam punhais menores e Inacinha, companheira de Gato, é vista com o que parece ser um pequenino Caroca.


Inacinha in foto de Benjamim Abrahão, 1936.

Uma citação encontrada na página 160 do livro “De Virgolino a Lampião” nos traz curioso relato sobre uma faca de ponta encomendada  pelo cangaceiro Sabino do bando de Lampião a Julio Pereira (sem ligação com a familia de cuteleiros homônimos), de Juazeiro,  e que juntamente com armas de fogo e munições deveria ser trazida por Antonio da Piçarra:
“...de Sabino tinha recebido quinhentos mil réis para mandar fazer um faca com cabo de prata, um anel de ouro no meio da lâmina, a bainha e o entrançado também de prata...”

Julio Pereira teria respondido a Antônio: “Não tem encomenda nenhuma. Tive de enterrá-la num terreno, choveu muito, e as águas levaram tudo. A faca de Sabino, a ferrugem comeu. Pode dizer isso a Lampião.”

A FAMÍLIA CAROCA

A partir dos anos iniciais do século XX, as criações de toda uma família nordestina de cuteleiros se tornariam conhecidas como as mais requintadas facas de ponta já produzidas. Suas facas  e punhais ficaram famosas pelo nome genérico de “Carocas”, designação emprestada do apelido do patriarca  de uma  família da Paraiba, José Torquato dos Santos (27/09/1898 – 15/12/1978), conhecido como “Zé Caroca”  por apreciar muito corridas de cabriolas (espécie de charrete) conhecida localmente como caroca).

Vindo do Rio Grande do Norte por volta de 1915, “Zé Caroca”  mudou-se para Santa Luzia, na Paraíba, e em diversas cidades desse Estado seus sete filhos dedicaram-se às artes da Cutelaria. Em Santa Luzia, o 2º filho mais velho, Francisco, tornou-se extremamente famoso nesse ofício e ficou conhecido como Mestre Chicó, tendo sido o responsável por transmitir sua técnica aos irmãos  e, segundo alguns estudiosos regionais,  dominando segredos de excelente têmpera em suas lâminas.

Bem no início da década de 1930, o filho mais velho, Fortunato, estabeleceu-se em  Juazeiro do Norte, no Ceará, e não obstante as mais de 200 cutelarias da época que atendiam as constantes romarias, suas criações eram disputadíssimas. No mesmo período, o filho mais moço, José, mudou-se para Campina Grande, na Paraíba, onde também suas criações tornaram-se extremamente famosas e prosseguiram, com os descendentes, até a década de 1960.

Faca de ponta "Caroca" Ancestral 43 Cm. ponta de espada.
Segundo anuncio do: Mercado Livre

Enquanto Mestre Chicó usou aço de trilhos ferroviários para suas lâminas, algumas das mais requintadas facas e punhais  iniciais de Fortunato e de José utilizaram pontas de espadas  e as mais antigas deste último apresentavam lâminas gravadas a ácido com  o têrmo “Campina Gr.” (“Gr.” foi uma antiga forma de abreviar a palavra Grande) inserido num retângulo.

Consta que em Campina Grande a produção de José aumentou tanto que ele chegou a ser dono de 30 cutelarias da cidade, já não mais timbrando suas criações até meados da década de 1940, quando teria decidido timbrar as  mais populares com o nome Caroca, este gravado com as então recém- lançadas canetas elétricas de gravação de pontinhos.

Tanto Fortunato em Juazeiro do Padre Cícero quanto José em Campina Grande foram os pioneiros em utilizar marfim de antigas bolas de bilhar na empunhadura  de algumas de suas mais requintadas criações.

De maneira geral, tão importantes e famosas foram as criações de ambos que elas tornaram-se um quase estilo de faca, muitas vezes produtos similares de boa qualidade mas produzidos por outros cuteleiros da região sendo tratadas genericamente de “Carocas”.

REBENQUES - ESTOQUE

São versões do clássico chicote curto nordestino de tocar mulas que apresentam pequena lâmina de punhal oculta em seu corpo. A maioria dos exemplares vistos se caracteriza por apresentar empunhadura constituida da pata do pequeno veado campeiro (ou veado catingueiro), alguns ainda tendo  lindos trabalhos de cestaria  típicos daquela região.

Embora seja impossível estimar-se a origem e o advento de tais rebenques-estoque, o apogeu de sua produção e  comercialização se deu na cidade cearense  de Juazeiro do Norte a partir das romarias que lá ocorreram promovidas pelo famoso Padre Cícero a partir de 1890.

Assim como sucedeu com pequenos punhais produzidos por grande número de cutelarias da cidade e da região, também os rebenques-estoque do Nordeste eram adquiridos como lembranças  da participação em romarias e festas santificadas e  alguns podem ter sido feitos pela família Caroca.

A partir do início da década de 1950, a produção desses rebenques-estoque cessou e hoje esses itens são raros, tendo ficado na lembrança dos mais velhos como mais um tipo de artesanato dentre os muitos que as romarias  do Padre Cícero incentivaram naquela região.

Só como exemplo: Um dos mais raros exemplares da clássica cutelaria gaúcha do Brasil. Produzido por "prateiro" do Rio Grande do Sul entre 1900 e 1920, este rebenque tem suas furnituras em prata e lâmina da famosa marca Scholberg, belga, de 12 polegadas de comprimento. In Knifeco

CRIAÇÕES DO SUL DA BAHIA

Um tipo bem mais requintado de faca de ponta e de punhal  é aquele particular a região do Estado da Bahia que faz fronteira com Minas Gerais e  ficou conhecido entre os colecionadores pelo nome de facas do Sul da Bahia. Certamente muitas dessas facas baianas foram criações das mesmas oficinas de ourives que produziram requintados balangandãs e figas de prata e, no geral, elas  podem ser classificadas como todo um ramo das facas de pontas, de vez que existem distintas variações do tipo.

As criações do Sul da Bahia iniciam sua trajetória sendo, básica e inicialmente, cópias das mineiras, principalmente nos tipos mais simples, normalmente de função mais utilitária. Entretanto, , rapidamente ganharam estilo e elegância particulares, já no final do século XVIII surgindo exemplares de facas e punhais baianos com bastante requinte, apresentando lâminas mais esguias. Logo em seguida, por volta dos anos 1800, começam a surgir as primeiras variantes com empunhadura e bainha em prata, em 3 (tres) modelos básicos: com lâmina de um só fio, de duplo fio (adaga) e punhais (sem fio, apenas para perfurar).

Mas, de maneira geral, a confecção de cutelaria artesanal  no Sul da Bahia apenas pode ser considerada atividade organizada  por volta de 1820 e na região do Rio das Contas, a qual ganhou muita prosperidade graças a este e outros tipos de artesanatos afamados.

A partir da metade do século XIX, as criações do Sul da Bahia ganhariam uma personalidade própria no formato da empunhadura e teriam seu apogeu no chamado Ciclo do Cacau, cuja cultura (que foi a maior riqueza da Amazônia no início do período colonial) fixou-se naquela região baiana a partir de 1880, quando sua exportação tomou impulso. Na época, os ricos fazendeiros que se dedicaram a essa cultura na região ficaram conhecidos como barões do cacau devido a vida opulenta que levavam. As principais cidades do sul da Bahia a beneficiar-se do ciclo do cacau foram Itabuna, Eunápolis, Itacaré, Itambé (já na época também um grande centro de criação de gado), Ibiaú, Olivença, Una,  Valença e Ilhéus, esta última com o porto que escoava toda a produção da região.

Esses modelos apresentam empunhaduras de forte influência mourisca, normalmente com o material de empunhadura no formato de gomos e, quando com bainha de prata, o batente da ponteira é sempre menor, de proporções mais delicadas, do que aquele visto em criações mineiras.

As facas mais sofisticadas do Sul da Bahia foram as que mais utilizaram pedaços de espadas como lâminas e na região aquelas assim constituídas são até hoje conhecidas como “lâmina ponta de espada”. É também neste tipo regional de antiga faca brasileira que mais se observam as curiosas bainhas de prata com dobradiças, artificio empregado, principalmente nas mais longas, com o objetivo de  evitar que essa parte se entorte ou amasse quando o possuidor subia no cavalo ou tinha outra atividade que lhe exigisse grandes movimentos corporais. Essas  bainhas com dobradiça(s) tinham couro em seu interior (assim, era uma dentro da outra) e existem exemplares longos o suficiente para ter 2 ou até 3 dobradiças nessa parte.

Habitualmente, o trabalho de lavração na bainha e empunhadura na prata das facas do Sul da Bahia é algo tão ou mais  elaborado do que aquele das “franqueiras”, mineiras e gaúchas, embora nesse tipo de faca brasileira do passado a ocorrência de ouro nas mencionadas partes seja mais raro.

É curioso notar que algumas das mais refinadas facas do Sul da Bahia apresentam a lâmina com o timbre “Saldanha & Cia – Rua do Hospício”, isto referindo-se a uma grande empresa importadora, das muitas que existiam nessa célebre rua de Recife (PE). A julgar-se pelas características construtivas de algumas antigas facas do Sul da Bahia, essa empresa parece ter atuado (ou iniciado atividades) nos anos de 1860.

O HOMEM DO FACÃO GRANDE

No passado brasileiro, houve um curioso e raro tipo de faca de ponta executado a partir de espadas e espadins das Guardas Nacionais, hoje extremamente desejado por colecionadores.

Em realidade, a maioria dessas criações originou-se de espadas e espadins importados da célebre cidade alemã de Solingen e tido como "oficiais", embora  adquiridos privadamente por muitos dos chamados coronéis das regiões Norte e Nordeste.

As Guardas Nacionais brasileiras foram criadas e organizadas em 1831 pelo Regente Diogo Antônio Feijó e duraram até a derrubada da primeira república brasileira em 1930. Nas mencionadas regiões brasileiras, desde os tempos do império, era comum qualquer homem de destaque político obter o oficialato das Guardas Nacionais e o título de coronel passou a ser sinônimo de fazendeiro, ricaço ou político renomado.

Como era comum um coronel de verdade ter uma espada ou espadim de oficial, rapidamente surgiram  tipos comerciais que imitavam os originais, sendo comum a substituição das habituais empunhaduras de madeira por outras de chifres bovinos, mais ao gosto e imitando a configuração das já clássicas facas de ponta.

É por este costume de portar uma espada ou espadim, modificado ou não, que no antigo sertão Norte-Nordeste chamavam o chefe político de "homem do facão grande"


(*) Mário dos Santos Carvalho, 51, de São Paulo (SP), é advogado e antiquário e atua no mercado de arte e antiguidades há 23 anos. Sua família é oriunda do sertão pernambucano e desde 1972 ele viaja frequentemente ao Nordeste pesquisando lâminas e outros aspectos culturais da região.

Disponível em: Coleção Orsini