Em livro, sociólogo apresenta uma nova data para o nascimento de dona Maria
O sociólogo Voldi Ribeiro lançou o livro “Lampião e o Nascimento de Maria Bonita”, sugerindo uma data correta para o nascimento da Rainha do Cangaço, que é 17 de...
O livro contém 196 páginas e com figuras de Maria Bonita e de Lampião que encontram colorizadas. A obra contém o prefácio e artigo de Frederico Pernambucano de Mello, referência na pesquisa do Cangaço. A pesquisa trata da área onde ela nasceu, Malhada da Caiçara que pertencia a Glória, atualmente pertence a Paulo Afonso–BA.
Na obra, o sociólogo discute o surgimento da data incorreta do nascimento de Maria Bonita que outros autores tinham como 8 de março de 1911. E apresenta ainda a composição da família dela, bem como alguns registros de irmãs suas.
Além disso aborda, finalmente, o encontro de Lampião com Maria Bonita, sua convivência de 1931 até 28 de julho de 1938, data das suas mortes, na grota do Angico, Sergipe.
Voldi de Moura Ribeiro é um pesquisador que reside em Paulo Afonso, Bahia. Ele estuda este tema há mais de 15 anos, também está produzindo um novo livro sobre a participação da mulher no Cangaço.
Valor: R$ 60 com frete incluso
Para adquirir entre em contato com o autor pelo zap (75) 99108-0409 ou pelo e-mail voldimribeiro@gmail.com
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sexta-feira, 20 de março de 2020
terça-feira, 3 de março de 2020
Ten. João Bezerra
O maçom que deu cabo de Lampião
Biografia do Ten. João Bezerra, de autoria do 3º BPM – Alagoas:
“O Batalhão Tenente João Bezerra da
Silva – 3º BPM, relata a passagem de um dos homens que mais marcaram a
briosa Polícia Militar do Estado de Alagoas, rendendo-lhe esta justa
homenagem, provocada por seu grandioso feito histórico.
Trajetória
Nasceu no dia 24 de junho de 1898, na
Serra da Colônia, Município de Afogados da Ingazeira – Estado de
Pernambuco. Seus pais: Henrique Bezerra da Silva e Marcolina Bezerra da
Silva, eram pequenos fazendeiros e tiveram sete filhos: João, Cícero,
Amaro, Manuel, José, Vitalina e Maria.
Com vontade de aprender a ler, trazia
consigo sempre, uma “carta de ABC” (cartilha) e um “ponteiro” (lápis).
Aos oito anos, já ajudava seu pai na agricultura e na criação de
animais.
Ironicamente, teria aprendido a atirar com Manoel Batista de Morais, popularmente conhecido como Antônio Silvino, “O Rifle de Ouro”, também de Afogados da Ingazeira/PE, que era primo de João Bezerra em segundo grau, tornando-se em um exímio atirador.
Antonio Silvino foi conhecido no sertão
como um dos homens mais valentes do Nordeste antes de Lampião, tendo
sido ainda testemunha do assassinato do jornalista João Dantas na
penitenciária de Recife, que era o assassino do ilustre paraibano João
Pessoa, contrariando a versão oficial da época de que dizia ter sido
suicídio.
Aos quatorze anos, Bezerra fugiu de casa
após ter sido surrado pelo pai, por ter desobedecido à proibição de
namorar uma moça, fugindo para o Recife/PE. Já demonstrava uma
personalidade marcante, corajosa e propensa à aventura. Um menino
sertanejo, desbravando a Capital. A partir daí, foi carregador de carvão
de pedra no cais do porto; ajudante de soldado; assentador de dormentes
em linha férrea; trabalhador de pedreira e de lavoura. Após um ano,
voltou para casa e montou um comércio (uma pequena bodega), onde vendia
de tudo.
No tempo em que passou com a família na
sua cidade natal, realizou o incrível feito de matar uma onça, que de
tão grande assustava a todos do lugar e dizimava as criações das
fazendas, o que o tornou já famoso nas imediações onde morava, fazendo-o
receber muitos presentes dos proprietários de terra da região.
Tempos depois, foi forçado a sair do
seio familiar; indo trabalhar com um dos maiores inimigos de Lampião, o
famoso Coronel José Pereira, em Princesa/PB, de onde partiu para Maceió,
no Estado das Alagoas para “sentar praça”. Iniciou sua carreira em
1919, na Policia Militar de Alagoas, como policial contratado para
integrar as “volantes”, sendo incorporando definitivamente, em 29 de
março de 1922, onde permaneceu por 35 anos e 07 meses.
Prestou serviço no 2º Batalhão de
Infantaria, deslocado para Santana do Ipanema/AL, para combater o
banditismo que assolava a região sertaneja, de onde saiu para o combate
de angicos, hoje 3º Batalhão de Polícia Militar, sediado em
Arapiraca/AL.
Foi 2º Sargento em 29 de março de 1922, e
1º Tenente por merecimento em 30 de setembro de 1936. Teve vários
encontros com os bandidos, tendo de uma feita, morto três dos comparsas
de Lampião. Sendo considerado oficial valoroso da Polícia Alagoana e de
imediata confiança do governo.
Casou-se com Cyra Gomes de Britto, em
Piranhas/AL, no ano de 1935, que em entrevista ao Jornal do Bandepe em
1985, confirma a natureza valente e perspicaz de seu marido, que chegava
a passar meses no encalço dos cangaceiros, vindo inclusive a ignorar o
nascimento de sua primeira filha, por estar em missão na caatinga, tendo
em vista ter empenhado sua palavra de capturar Lampião.
Foi Maçom, alcançando o 18° grau na instituição em que participava.
Assentamentos Militares
Foram 19 Nomeações de comando, incluindo
o de Comandante da Corporação (Apesar de não estar incluído no
histórico de comandantes da Polícia Militar de Alagoas, devendo ter
assumido o Comando Geral em algum espaço entre nomeações deixados por
algum comandante entre 1950 e 1954);
12 Nomeações para delegado em diversas cidades de Alagoas, designações concedidas após o combate em angicos.
Participação como “Chefe de Volante” por
um período de 12 anos, travando 11 combates com os grupos de
cangaceiros, entre eles, os chefiados por Luiz Pedro do Retiro, Corisco,
Gato, Zé Baiano, Português, Manoel Moreno, Moita Brava e por último com
o famoso Lampião, o mais importante desses combates, que foi travado na
Grota de Angicos, atual Município de Poço Redondo, estado de Sergipe,
no qual ocorreu a morte de Virgulino Ferreira da Silva (Lampião), sua
companheira Maria Gomes de Oliveira (Maria Bonita), e dos cangaceiros:
Luiz Pedro, Quinta-feira, Elétrico, Mergulhão, Enedina, Moeda, Alecrim,
Colchete e Macela.
Participação em diversas missões fora do
Estado, com os contingentes alagoanos, entre elas: Combate à Coluna
Prestes, em 1925; Deposição do governo Washington Luís, em 1930 e
Revolução Constitucionalista em 1932.
Nomeação como Prefeito Interventor da cidade de Piranhas/AL, no ano de 1933.
Durante a sua vida militar, recebeu
diversos elogios por seu desempenho nas missões em que participou,
conforme foram publicados nos boletins da Policia Militar de Alagoas.
Entre eles:
Elogio do Comandante do 2º Batalhão;
– Louvor do Coronel Lucena comandante do II Batalhão, transcrito no III item do Boletim nº 285, do II Btl., de 17 de dezembro de 1938.
“Tendo o Sr. Capitão João Bezerra da Silva, sido desligado deste Batalhão, a fim de assumir a função na sede do Regimento. Louvo-o pelo modo brilhante com que soube espontaneamente cumprir as árduas missões de que foi incumbido, quando neste batalhão, mormente na campanha contra a horda de facínoras, perturbadores da paz sertaneja que há tanto tempo vinham sofrendo as agruras consequentes da ação do banditismo. Este oficial, demonstrou os nobres predicados de que é possuidor; trabalhador incansável que nunca ousou dar tréguas a tal corja, combatendo-a bravamente até o momento máximo em que assediou com a sua fôrça o conjunto chefiado pelo célebre
“Lampeão” que não podendo vazar tal assédio, caiu sem vida, quando para os supersticiosos já era tido como imortal“.
Elogio do Comandante da Corporação;
“Pelos bons serviços prestados à Polícia Militar de Alagoas e a todo o nordeste, não há tributo que pague ao Coronel Bezerra, pelo que ele realizou. O Coronel Bezerra era um militar cônscio de suas responsabilidades e tratava a todos os seus comandados com igualdade de condições. Devido esse comportamento, diante das tropas, que comandava no Quartel é que ele granjeou a simpatia de todos e consequentemente foi conquistando as promoções, todas elas por relevantes serviços prestados à nossa Polícia, ao Estado e à Nação”.
Coronel EB Carlos Eugênio Pires de Azevedo – Comandante da Polícia Militar de Alagoas em 6/12/1970, quando da ocasião de seu sepultamento em Maceió.
Elogio do Interventor Federal;
Elogio do Governador do Estado;
Elogio do General de Exército;
Elogio do Presidente da República.
Elogio do Governador do Estado;
Elogio do General de Exército;
Elogio do Presidente da República.
Tendo sido inclusive recebido no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, no ano de 1938, pelo então Presidente Getúlio Dorneles Vargas, que nutria grande interesse pela campanha contra o cangaço, em virtude do sucesso da missão em Angicos.
Elogio da população de Piranhas/AL
Entre os prêmios recebidos por João Bezerra, a sua família guarda, zelosa e orgulhosamente, a espada que ele recebeu do povo de Piranhas em 1938, expressão de gratidão pela morte de Lampião, em cuja “Copa” está escrito: “Ao Capitão João Bezerra pela sua bravura e heroísmo. Oferece o povo de Piranhas. ”
Foi para a reserva da Polícia Militar de
Alagoas em 04 de novembro de 1955, quando passou a dedicar-se à
agricultura e à pecuária.
Faleceu na cidade de Garanhuns/PE, no
dia 04 de dezembro de 1970, vitimado por um acidente vascular cerebral,
recebendo alusões honrosas pela Câmara Municipal daquela cidade.
Seu corpo foi velado no quartel do
Comando Geral da Polícia Militar de Alagoas, e em seguida sepultado com
honras militares no mausoléu da maçonaria em Maceió, como última
homenagem da Corporação em satisfazer o pedido do próprio João Bezerra
de ser sepultado em solo alagoano. Anos mais tarde seu corpo foi
transladado para o Estado de Pernambuco, a pedido de sua família.
João Bezerra foi um perseguidor
empenhado em não dar trégua aos cangaceiros, reconhecido pelos seus
pares e superiores, ao ponto de ganhar de Lampião o apelido de “Cão
Coxo”, coxo em decorrência da redução de 04 centímetros em uma das
pernas, causada por um ferimento em combate, e cão, pela valentia e
destemor que apresentava nos combates. Em entrevista dada pelo então
Capitão Manuel Neto, outro grande oficial das volantes, após a morte de
Lampião, referia-se a Bezerra dizendo: – “O Tenente João Bezerra a quem
conheço pessoalmente, é um official disposto, disciplinado e muito bem
quisto no seio da Polícia Alagoana e dos Estados vizinhos”.
Era homem obstinado, desbravador e
estrategista. Cidadão honrado, decidido, extremamente observador,
perspicaz e de muita fé. Seus passos foram cuidadosamente planejados,
prevalecendo sempre a sensatez e a dignidade. Incansável na luta contra o
banditismo. Seus contemporâneos sabiam do seu empenho, da sua
responsabilidade e do seu valor: Nada em sua vida parecia ter sido por
acaso.
Frases de João Bezerra
“Soldado não briga deitado. O que eu
encontrar deitado, ou outro qualquer encontrar deitado, atire e mate que
esse é covarde. Quando vocês me verem deitado atirem em mim também.”
(Frase proferida antes do confronto em Angicos).
“Para vencer os ímprobos que nos impunha
um vaivém penoso, só Deus sabe o quanto tivemos que lutar! Descrever
esses sofrimentos seria dedicar centenas de páginas ao nosso grande
martírio que jaz no anonimato, morto nos segredos das caatingas!” (Livro
Como dei cabo de Lampião, de 1940).
“Soldados do Brasil! Eu vos admiro!
Permiti que eu seja sangue do vosso sangue guerreiro, para felicidade da
minha vida toda voltada à Pátria na honrosa carreira das armas”. (Livro
Como dei cabo de Lampião, de 1940).
O portal MN parabeniza a todos os
militares integrantes do 3º BPM pelos serviços prestados a cidade de
Arapiraca e região. Que os bravos e honrosos militares sejam vistos pela
sociedade não apenas pelas fardas e patentes, mas como seres humanos
que ariscam suas vidas para proteger a cada cidadão, e junto a
população, construir uma sociedade mais harmônica.”.
Por Genival Silva. Fonte: Ascom/3º BPM e http://3batalhao.blogspot.com.br/
Cap. João Bezerra era maçom – Grau 18° do R.E.A.A.
Segundo preliminares informações na
internet, provas documentais e depoimento do Irmão Paulo Britto, filho
de João Bezerra, o Capitão João Bezerra da Silva foi maçom, sendo Grau
18 do R.E.A.A., iniciado em 25 de junho 1949, com 51 anos de idade, na
Loja Maçônica Virtude e Bondade N° 0146 – GOB-AL e, inclusive, enterrado
no Mausoléu Maçônico Segredo 33, como seu último pedido,
posteriormente, a pedido da família, seu corpo foi trasladado para
Pernambuco. Este detalhe acena para o crivo legalista do homem militar,
que deu cabo a Lampião e seu bando, em 28 de julho de 1938, e do homem
maçom, 11 anos após o Combate de Angicos, na luta porfiada nessa
história de combates quase “intermináveis”, bárbaros e cruéis, entre
volantes e cangaceiros na caatinga nordestina pela ordem e legalidade.

REGISTROS FORNECIDOS, FRATERNALMENTE, PELO GRANDE ORIENTE DO BRASIL DE ALAGOAS – GOB-AL


O Marco do Fim do Cangaço – A Morte de Lampião
O cangaço, segundo Moacir Assunção, é um
fenômeno social característico da sociedade rural brasileira. No
nordeste, existiu desde o século XVIII, quando José Gomes, o Cabeleira
aterrorizava populações rurais de Pernambuco. O movimento atravessou o
século XIX, só terminando em 25 de maio 1940, com a morte de Corisco
(1907 – 1940), sucessor de Lampião e seu principal lugar-tenente, pela
volante de Zé Rufino (Diário de Pernambuco, 1º de junho de 1940, na
sexta coluna).
‘Os homens do cangaço espalhavam fama,
violência e aplicavam um conceito muito particular de justiça em sete
estados do Nordeste. Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco,
Alagoas, Sergipe e Bahia sofriam não apenas nas mãos desses grupos
nômades, mas também com a seca, com a fome e com uma sociedade desigual e
injusta, que perpetuava um modelo pérfido de exploração do trabalho.’
(Ângelo Osmiro Barreto in Iconografia do Cangaço, 2012)
Em 28 de julho de 1938, na grota de
Angico, em Sergipe, perto da divisa com o estado de Alagoas, o bando de
Lampião foi cercado por uma força volante comandada pelo tenente João
Bezerra da Silva (1898 – 1970), pelo aspirante Ferreira Mello e pelo
sargento Aniceto da Silva. Além de Lampião, foram mortos sua mulher,
Maria Gomes de Oliveira (c. 1911 – 1938), conhecida como Maria Bonita, e
os cangaceiros Alecrim, Colchete, Elétrico, Enedina, Luiz Pedro,
Macela, Mergulhão, Moeda e Quinta-feira. Estes foram todos decapitados.
No combate, foi morto o soldado Adrião Pedro de Souza. João Bezerra e
outro militar ficaram feridos (Jornal do Brasil, 30 de julho de 1938, na
primeira coluna, Diário de Pernambuco, 30 de julho de 1938). Eram 49
homens da volante e 36 cangaceiros. Os outros 25 cangaceiros presentes
naquele dia, no local Grota de Angicos, saíram vivos e conseguiram
fugir, mais tarde alguns sendo mortos e outros entregando-se à polícia.
Foi o fim do cangaço no sertão, muito embora alguns pesquisadores ainda
considerem o fim do cangaço com a captura do cangaceiros Corisco
(Cristino Gomes da Silva Cleto, (Água Branca, 10 de agosto de 1907 –
Barra do Mendes, 25 de maio de 1940).




Considerações finais
Correspondências enviadas ao
Ir. Paulo Britto, filho do Cel. João Bezerra, extraídas de Citações
sobre João Bezerra Parte II, por Paulo Britto.

Correspondência enviada ao Irmão Paulo Britto, em 06.07.2002 pelo escritor e pesquisador Antônio Amaury Correa de Araújo:
“… Não é novidade para os pesquisadores
que seu pai foi amplamente injuriado, invejado e que teve sua imagem
denegrida por comentários oriundos de mentes tacanhas pelo fato de haver
sido o comandante que eliminou Lampião e parte do seu bando cangaceiro,
… Isso causou-lhes profundo ressentimento e usaram então dos mais
baixos argumentos para achincalhar o episódio da Fazenda Angico.
… Pelo que pude observar nesses 53 anos
de pesquisas e com seis mil entrevistas realizadas qualquer pessoa, em
qualquer época usando de qualquer método para eliminar Lampião, … …
seria questionado e destratado e sua atuação estaria sempre em dúvida na
visão daqueles que não conseguiram o mesmo desideratum. A imaginação
humana não tem limites e até mesmo episódios claros como cristal são
colocados sob suspeita…. Para terminar, a polêmica não tem fim. É
traição, veneno, tiro e Lampião ainda vivo até a década de 1990. Viva a
fantasia, a ficção, a criatividade de alguns pesquisadores menos
cuidadosos e pouco honestos para com a história…
PS. Faça o uso que quiser destas, pois é
a expressão do meu pensamento e da verdade que obtive de cangaceiros,
soldados, coiteiros e outras pessoas envolvidas no episódio de Angico.
”.
Gazeta de Alagoas – 06.12.1970 – 1º Caderno, página 3:
“Matador de Lampião sepultado em Maceió
com honras militares…O Coronel (de Exército) Carlos Eugênio Pires de
Azevedo, comandante da Polícia Militar, conheceu pessoalmente o Coronel
Bezerra há 02 anos em Garanhuns. Lamentou a sua morte. Como última
homenagem a corporação da qual é comandante, satisfazia o pedido de João
Bezerra de ser sepultado em solo alagoano.
Pelos bons serviços prestados à Polícia
Militar de Alagoas e a todo o Nordeste, não há tributo que pague ao
Coronel Bezerra, pelo que ele realizou, disse o comandante da Polícia
Militar de Alagoas.”
… “O Coronel Bezerra era um militar
cônscio de suas responsabilidades e tratava a todos os seus comandados
com igualdade de condições. Devido esse comportamento, diante das
tropas, que comandava no Quartel é que ele granjeou a simpatia de todos e
consequentemente foi conquistando as promoções, todas elas por
relevantes serviços prestados à nossa Polícia, ao Estado e à Nação”.

Ir∴ Paulo Britto, filho do Cel.
João Bezerra, em
http://lampiaoaceso.blogspot.com/2011/11/citacoes-sobre-joao-bezerra-por-paulo.html:
“Espero que estas citações consigam
demonstrar, um pouco, de quem foi o homem, o policial militar, o maçom
grau 18 que, em todas as suas ações e missões, só fez enaltecer o nome
da instituição a que pertenceu, e que, graças a Deus, teve o privilégio
do reconhecimento e do respeito dos familiares, amigos, superiores e
subordinados…”. Coronel Lucena
Louvor do Coronel José
Lucena de Albuquerque Maranhão comandante do II Batalhão, transcrito no
III item do Boletim nº 285, do II Btl, de 17 de dezembro de 1938. (Grafia original):
“Tendo o Sr. Capitão João Bezerra da
Silva, sido desligado deste Batalhão, a fim de assumir a função na sede
do Regimento. Louvo-o pelo modo brilhante com que soube espontâneamente
cumprir as árduas missões de que foi incumbido, quando neste batalhão,
mormente na campanha contra o orda de facínoras, perturbadores da paz
sertaneja que há tanto tempo vinha sofrendo as agruras consequentes da
ação do banditismo.

Este oficial, demonstrou os nobres
predicados de que é possuidor; trabalhador incansável que nunca ousou
dar tréguas a tal corja, combatendo-a bravamente até o momento máximo em
que assediou com a sua fôrça o conjunto chefiado pelo célebre “Lampeão”
que não podendo vazar tal assédio, caiu sem vida, quando para os
supersticiosos já era tido como imortal.”
Fontes:
http://etalasquera.ueuo.com/cangaco/cangtb.htm
http://sociedadeolhodehorus.blogspot.com/2013/03/lampiao-o-fora-da-lei.html
http://3batalhao.blogspot.com/p/historico.html
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Bezerra_da_Silva
Como dei cabo de Lampião, do Ten. João Bezerra da Silva. 1940
https://canoadetolda.org.br/wp-content/uploads/2018/11/Brasil-Canga%C3%A7o-2011
http://cariricangaco.blogspot.com/2011/10/citacoes-sobre-joao-bezerra-parte-ii.html
http://3batalhao.blogspot.com/p/ten-joao-bezerra.html
http://lampiaoaceso.blogspot.com/2018/07/joao-bezerra-falou-ao-o-globo-em-26-de.html
http://www.minutonordeste.com.br/noticia/34-aniversario-do-3-bpm-de-arapiraca-encerra-com-homenagens/2930/imprimir
http://brasilianafotografica.bn.br/?p=9527
http://lampiaoaceso.blogspot.com/2009/06/angicos-aspectos-geograficos-e.html?m=1
http://cariricangaco.blogspot.com/2012/07/um-olhar-mais-apurado-porpaulo-britto.html
Sobre o autor
Alexandre Lopes Fortes é M∴ I∴, membro da ARLS Irmão Cícero Veloso n°4543 (GOB-PI). Grau 33 do REAA, grau 33 do Rito Adonhiramita, grau 9 do Rito Moderno e companheiro do Sagrado Arco Real.
terça-feira, 30 de abril de 2019
Entrevista do cangaceiro “Cobra verde”
Entrou no cangaço para ganhar uns “cobres", e, na madrugada do tiroteio em angico, foi buscar o leite....!
Fonte: A Noite ( edição ..14/11/ 1938 ) Transcrição de Ivanildo Silveira
Cobra Verde tem apenas 21 anos de idade , segundo nos declarou. Há dois anos e 10 meses que é cangaceiro. Natural de Piranhas-AL, fazia parte do grupo de ‘Moreno’. O primeiro combate que teve foi no povoado Navio, com a força do sargento ‘Negrinho’.
Perguntamos a ele por que abandonou a vida pacata da cidade para viver como bicho na caatinga, ao que ele respondeu, em sua própria linguagem : “
Conta que nunca maltratou alguém, e que vivia no cangaço só para arranjar “ uns cobres “. Disse que fez diversos saques, alguns com Luiz Pedro. No último apresentou aos bandidos, apenas nove contos de réis, escondendo o resto. O chefe era muito bom , mas era muito sabido.
Declarou-nos, ainda, que esteve no Combate de Angico (quando morreu Lampião ). Não dentro do cerco, mas fora porque fora buscar leite muito cedo para a tropa, a mandado do Capitão. Quando foi chegando no coito viu a bagaceira (tiroteio ) de longe, saiu correndo para a Fazenda Cuiabá onde encontrou Balão e outros que, igualmente, haviam fugido do tiroteio.
O Grupo – continua - era composto de 42 homens e 7 mulheres. Com a morte de Lampião esfacelou-se o cangaceirismo no nordeste , porque era o “ chefe” que fornecia e dava ordens a todos os grupos de cangaceiros.
O desejo de Cobra Verde é trabalhar honestamente. Não quer voltar para o sertão.
OBS: Foto de Cobra Verde (autor desconhecido) por ocasião das entregas dos cangaceiros à polícia. Ano: 1938 no Quartel da polícia em Santana do Ipanema-AL.
Fonte: A Noite ( edição ..14/11/ 1938 ) Transcrição de Ivanildo Silveira
Cobra Verde tem apenas 21 anos de idade , segundo nos declarou. Há dois anos e 10 meses que é cangaceiro. Natural de Piranhas-AL, fazia parte do grupo de ‘Moreno’. O primeiro combate que teve foi no povoado Navio, com a força do sargento ‘Negrinho’.
Perguntamos a ele por que abandonou a vida pacata da cidade para viver como bicho na caatinga, ao que ele respondeu, em sua própria linguagem : “
"Eu era operário da Fábrica da Pedra [Delmiro Gouveia, AL] e ganhava de dez a quatorze mil réis por semana . Era um aperreio para mim, rapaz novo e que queria viver limpo como os outros . Era muito injustiçado na vida. Por isso resolvi ser bandido para ver se arranja uns cobres. Achei boa a vida. Cheguei a possuir dois contos de réis, fora o 'ouro'".
Conta que nunca maltratou alguém, e que vivia no cangaço só para arranjar “ uns cobres “. Disse que fez diversos saques, alguns com Luiz Pedro. No último apresentou aos bandidos, apenas nove contos de réis, escondendo o resto. O chefe era muito bom , mas era muito sabido.
Declarou-nos, ainda, que esteve no Combate de Angico (quando morreu Lampião ). Não dentro do cerco, mas fora porque fora buscar leite muito cedo para a tropa, a mandado do Capitão. Quando foi chegando no coito viu a bagaceira (tiroteio ) de longe, saiu correndo para a Fazenda Cuiabá onde encontrou Balão e outros que, igualmente, haviam fugido do tiroteio.
O Grupo – continua - era composto de 42 homens e 7 mulheres. Com a morte de Lampião esfacelou-se o cangaceirismo no nordeste , porque era o “ chefe” que fornecia e dava ordens a todos os grupos de cangaceiros.
O desejo de Cobra Verde é trabalhar honestamente. Não quer voltar para o sertão.
Certificado de reservista do exército de Cobra Verde.
Créditos Ciro Barbosa , grupo Viva Piranhas (Facebook).
OBS: Foto de Cobra Verde (autor desconhecido) por ocasião das entregas dos cangaceiros à polícia. Ano: 1938 no Quartel da polícia em Santana do Ipanema-AL.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
Para impressão ou apreciação
Processo contra Lampião e aliados em Pau dos Ferros/RN de 23 de Novembro de 1931
Depois da iniciativa do TJ Sergipe, - Leia aqui - agora é vez é o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte. O órgão digitalizou e disponibilizou em seu site toda a peça de um processo movido contra "Lampião", Sabino Gomes, Massilon e "Mormaço" por ações criminosas naquele estado no ano de 1927.
O documento histórico foi examinado e digitalizado por Iris Alvares Dantas e editado Arthur Luís de Oliveira Torquato
Clique Aqui
Crédito e agradecimento ao nosso amigo, pesquisador e escritor Sergio Augusto de Souza Dantas.
Depois da iniciativa do TJ Sergipe, - Leia aqui - agora é vez é o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte. O órgão digitalizou e disponibilizou em seu site toda a peça de um processo movido contra "Lampião", Sabino Gomes, Massilon e "Mormaço" por ações criminosas naquele estado no ano de 1927.O documento histórico foi examinado e digitalizado por Iris Alvares Dantas e editado Arthur Luís de Oliveira Torquato
Clique Aqui
Crédito e agradecimento ao nosso amigo, pesquisador e escritor Sergio Augusto de Souza Dantas.
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
"Zé Rufino": Algumas referencias
Por Rubens Antonio
José Osório Farias, o "Zé Rufino", nasceu em 20 de fevereiro de 1906, em Pernambuco.Comandante de volante que mais liquidou cangaceiros, adentrou
a Força Pública do Estado da Bahia, assentando praça em 2 de janeiro de 1934.
Passou a compor as Forças em Operações no Nordeste - F.O.N.E. Chegou a segundo tenente em 1939. Entre aqueles cangaceiros que eliminou, Zé Rufino destacou, em entrevista, Azulão, Barra Nova, Canjica, Catingueira, Corisco, Maria Dórea, Mariano, Meia-Noite, Pai Velho, Pavão, Sabonete, Zabelê e Zepellin.
À direita na foto acima, reformado como coronel junto a ex-integrantes de sua volante.
Abaixo, sua assinatura:
Em relação ao seu falecimento, anotação no Boletim Geral
Ostensivo da Polícia Militar do Estado da Bahia:
E outra anotação no Boletim Geral Ostensivo da Polícia
Militar do Estado da Bahia da solicitação de pensão por parte da sua
viúva, Maria de Lourdes Vieira Farias, com citação também da sua filha,
Zélia Maria de Farias:
Pescado ali ó: Cangaço na Bahia
terça-feira, 19 de junho de 2012
A força do coronel
Documento que conferia prerrogativas especiais aos ex-integrantes da Guarda Nacional:
Por Dênis Artur Carvalho
Eis a carta-patente que pertenceu ao Cel. João Militão da Silva Barros.
Tradução:
Junta Militar do Município de Floresta, 23 de Agosto de 1937.O major à quem foi conferido esse documento foi preso e mandado à cadeia pública do Recife pela símples acusação de acoitar cangaceiros (o que realmente aconteceu, mas quem seria o louco de expulsar 93 homens armados de seu "terreiro", vindos do combate da Tapera?).
Honras e garantias aos oficiais da Guarda Nacional.
A lei n° 602 de 19 de setembro de 1850, conferiu aos senhores Oficiais da Guarda Nacional as mesmas honras e garantias que competem aos Oficiais do Exército e Armada Nacional (Artigo 60 e 66), tendo o Decreto n° 13.040, de dezembro de 1918, que extingue a aludida guarda, lhes assegurando, como não podia deixar de fazê-lo, tais prerrogativas, assim dispondo no número um do parágrafo 1° do artigo 22, os oficiais da Guarda Nacional continuam nos gozos de seus direitos de acordo com a lei em vigor, não podendo serem recolhidos a prezídios [sic] destinados a réus de crimes comum. Parecer n° 85 de 7 de setembro de 1936 do Supremo Tribunal Federal e Justiça Militar do Boletim diário n° 79 de 23 de setembro de 1936. (Assignado)
Antonio Luiz Cavalcante d’Albuquerque.
Cel. João Militão da Silva Barros
Pescada em Geanealogia Pernambucana
Essa famosa questão da "injustiça social e miséria" não está apenas relacionado ao coronelismo. E cangaceiro também não é o "herói" que assaltava as fazendas e distribuía os saques com os "flagelados" da seca, como muitos acreditam.
Não defendo a tese do "banditismo social" e nem puxo a toalha para nem um dos lados, mas colocar os "coronéis" como únicos responsáveis pelo surgimento do banditismo e considerá-los pior de que estes é uma tremenda injustiça.
Sinhô Pereira era descendente de barão, membro de uma das famílias dominantes da região, muitas vezes até chamado de "coroné" e mesmo assim era cangaceiro. Então, não combina essa questão de "os oprimidos rebelaram-se contra seus opressores".
Um abraço e desculpa as entrelinhas.
Dênis Artur Carvalho.
quinta-feira, 29 de março de 2012
Parentes
Octacília... Uma provável filha do irmão de Lampeão
Descoberto e comunicado por Orlins Santana.
Este explica, em seu relato:
"Encontrada uma criança de Nome Octacília, e que como de praxe, a Santa Casa de Misericórdia colocava o sobrenome "Mattos" em todas as recebidas na roda dos expostos.
Otacília, no dia 31 de agosto ano de 1929, foi batizada em Miguel Calmon. Nascida a 26 de dezembro de 1929, filha legítima de João Ferreira da Silva e Anna Francisca Ferreira da Silva, incluída no livro do ano de 1927, em agosto de 1930, à folha 109, "Livro de batizados", no Arquivo paroquial de Santo Antonio de Jacobina, sendo padrinhos Porfirio Brandão Filho e D. Julina Fraga Brandão.
Padre Manoel Magalhães Araújo. As custas foram dispensadas devido os pais serem nimiamente pobres.
Otacília foi retirada pela mãe no dia 30 de Abril de 1949. Era uma menina parda, que foi colocada "na roda" com 5 anos de idade, às 19:30 da noite, em maio de 1933, em bom estado de saúde, com camisola estampada, calçola de morim, capotinho de tricoline com bordados, camisa de morim usada. Com um colar de contas brancas e vermelhas, com um pedido do vigário de Jacobina.
Obs: A família Brandão, também tinha membros em Serra Talhada.
Para acrescentar aos arquivos dos amantes do cangaço... Vera Ferreira viu este documento hoje segunda feira 19 de Março pela manhã. Segundo Vera Ferreira, o tio que conheceram, tinha uma esposa com outro nome. Relatou que Expedita falou que ele, João, era mulherengo, e que tem sentido a matéria.
A menina ficou moça e saiu do orfanato com 21 anos, quando a mãe veio buscar. Foi a única que saiu com vida. Espero que esteja ainda com vida, aqui em Salvador, pensei em sondar.
Ela é prima da filha de Lampião, então deduzo que, o envio de crianças, já era orientado pela familia Ferreira da Silva. Agradeço a Deus, ter me iluminado, e fazer vir à tona para vocês.
O que me surpreende, é ter posto as mãos, nas primeiras buscas, logo neste livro, no meio de mais de 20 mil.
Deve ter um grupo, que é só energia, e não mais possue corpo, me guiaram, após ter sintonizado a capacidade e a dedicação.
O achado é impossível...
É por isso que se deve fazer o bem, amar as pessoas, não trair, não mentir. Pois lhe asseguro, que em toda minha vida duvidei, destes acompanhamentos, nunca acreditei. E por isto foi muito chocante, mas, rezo por êles. Muitos estão mergulhados num oceano de arrependimentos. Apesar da atualidade estar mil vezes pior, onde os grupos de cangaceiros, coiteiros e volantes eram uma bobagem. Agora é que se vê ampliado tudo aquilo. Te prepara viu nêgo, êles também estão te acompanhando. Trilhe sobre documentos e não dê asas à imaginação nem invencionice.
Nem tudo que existe, é o que você toca e vê. Se você foi sintonizado e sua energia é da mesma frequencia, aguarde. Deus nos proteja."
O documento:
Transcrição:
O Açude é Cangaço na Bahia
Descoberto e comunicado por Orlins Santana.
Este explica, em seu relato:
"Encontrada uma criança de Nome Octacília, e que como de praxe, a Santa Casa de Misericórdia colocava o sobrenome "Mattos" em todas as recebidas na roda dos expostos.
Otacília, no dia 31 de agosto ano de 1929, foi batizada em Miguel Calmon. Nascida a 26 de dezembro de 1929, filha legítima de João Ferreira da Silva e Anna Francisca Ferreira da Silva, incluída no livro do ano de 1927, em agosto de 1930, à folha 109, "Livro de batizados", no Arquivo paroquial de Santo Antonio de Jacobina, sendo padrinhos Porfirio Brandão Filho e D. Julina Fraga Brandão.
Sir João Ferreira
Dos homens, foi o único que não tornou-se cangaceiro.
Dos homens, foi o único que não tornou-se cangaceiro.
Padre Manoel Magalhães Araújo. As custas foram dispensadas devido os pais serem nimiamente pobres.
Otacília foi retirada pela mãe no dia 30 de Abril de 1949. Era uma menina parda, que foi colocada "na roda" com 5 anos de idade, às 19:30 da noite, em maio de 1933, em bom estado de saúde, com camisola estampada, calçola de morim, capotinho de tricoline com bordados, camisa de morim usada. Com um colar de contas brancas e vermelhas, com um pedido do vigário de Jacobina.
Obs: A família Brandão, também tinha membros em Serra Talhada.
Para acrescentar aos arquivos dos amantes do cangaço... Vera Ferreira viu este documento hoje segunda feira 19 de Março pela manhã. Segundo Vera Ferreira, o tio que conheceram, tinha uma esposa com outro nome. Relatou que Expedita falou que ele, João, era mulherengo, e que tem sentido a matéria.
A menina ficou moça e saiu do orfanato com 21 anos, quando a mãe veio buscar. Foi a única que saiu com vida. Espero que esteja ainda com vida, aqui em Salvador, pensei em sondar.
Ela é prima da filha de Lampião, então deduzo que, o envio de crianças, já era orientado pela familia Ferreira da Silva. Agradeço a Deus, ter me iluminado, e fazer vir à tona para vocês.
O que me surpreende, é ter posto as mãos, nas primeiras buscas, logo neste livro, no meio de mais de 20 mil.
Deve ter um grupo, que é só energia, e não mais possue corpo, me guiaram, após ter sintonizado a capacidade e a dedicação.
O achado é impossível...
É por isso que se deve fazer o bem, amar as pessoas, não trair, não mentir. Pois lhe asseguro, que em toda minha vida duvidei, destes acompanhamentos, nunca acreditei. E por isto foi muito chocante, mas, rezo por êles. Muitos estão mergulhados num oceano de arrependimentos. Apesar da atualidade estar mil vezes pior, onde os grupos de cangaceiros, coiteiros e volantes eram uma bobagem. Agora é que se vê ampliado tudo aquilo. Te prepara viu nêgo, êles também estão te acompanhando. Trilhe sobre documentos e não dê asas à imaginação nem invencionice.
Nem tudo que existe, é o que você toca e vê. Se você foi sintonizado e sua energia é da mesma frequencia, aguarde. Deus nos proteja."
O documento:
Transcrição:
"Anno 1933 – Mês Maio – Dia 8
Pelas 19 horas 1/2 foi posta no Asylo de N.S. da Misericórdia uma menina parda com 5 annos 1/2 de idade, em bom estado de saude.
Trouxe os seguintes objectos:
1 – Camisola de tuquim estampado
2 – Sombra de morim com renda de bilro
3 – Calçola de morim (usada)
4 – Camisa de morim usada
5 – Capotinho de tricoline com bordado de linha de côr (usado)
6 – Collar de contas brancas e vermelhas.
Com o seguinte attestado:
1 – Pedido /// Rvmo: Snr Vigario de Jacobina
Abaixo assignada Madrinha de Otacilia Ferreira, filha de João Ferreira da Silva e Anna Ferreira da Silva, carece para fins de caridade, da certidão de teôr do assentamento do seu baptismo, realizado na freguezia de Jacobina no anno 1929, pelo que vou pedil–a a V. Rvma mui respeitosamente
Nestes termos
P. deferimento
Julina Fraga Brandão
Bahia, 27 de Janeiro de 1933
Certidico que revendo os livros do Archivo parochial desta freguezia de Santo Antonio de Jacobina, de um dos livros, já findos, que serviu nos annos de 1927 ao mês de Agosto de (1930) mil novecentos e trinta para lançamento dos baptisamentos desta mesma parochia, delle consta a fls 109 o registro de teôr seguinte: “As trinta e um de agosto de mil novecentos e vinte nove o reveredissimo Vigario baptisou solemnemente em Miguel Calmon a Octacilia, nascida a vinte e seis de Dezembro de mil novecentos e vinte sete, filha legitima de João Ferreira da Silva e Anna Francisca Ferreira da Silva, sendo padrinhos Porfirio Brandão Filho e Justina digo Julina Fraga Brandão. Do que para constar lavrei o presente termo que assigno O Vigario P. Magalhães”
Nada mais continha o termo acima, ao que fielmente copiei e concertei. Ita pi fide parochi Jacobina matriz de Santo Antonio em 15 de Fevereiro de 1932. O Vigario
Pe. Maneol Magalhães Araujo
Dispensada de emolumento por ser miniamente pobre e nada poder por si nem por sua mão
Jacobina 15 de Fevereiro de 1933
Pe. Magalhaes
Observações
Sahiu no dia 30 de Abril de 1949 em companhia da genitora."
O Açude é Cangaço na Bahia
quinta-feira, 15 de março de 2012
Ecos de combates...
Da "Fazenda Maranduba"
Por Rubens Antonio
Um dos combates referenciais do Cangaço foi o Fogo da Maranduba. Os militares e jagunços aliados foram duramente fustigados. Aqui, a demanda de um dos soldados sobreviventes, de vinculação dos seus ferimentos àquele combate, em um documento que repousa, atualmente, no Arquivo Público da Bahia.
Da "Fazenda Cajazeira"
Pouco conhecido e comentado, em termos de estudos do Cangaço, foi o Fogo da Fazenda Cajazeira, no Município de Cipó, BA. Aqui, a demanda de um dos soldados sobreviventes, de vinculação dos seus ferimentos àquele combate, em um documento que repousa, atualmente, no Arquivo Público da Bahia.
Pescado na fartura do Sítio do Cumpadi Rubens
Por Rubens Antonio
Um dos combates referenciais do Cangaço foi o Fogo da Maranduba. Os militares e jagunços aliados foram duramente fustigados. Aqui, a demanda de um dos soldados sobreviventes, de vinculação dos seus ferimentos àquele combate, em um documento que repousa, atualmente, no Arquivo Público da Bahia.
Transcrição:
TESOURO DO ESTADO DA BAHIA
P.M.E.B
Quartel em Paripiranga, 8 de Março de 1940.
Do soldado 2898 ANTONIO TEODORO CHAVES
Ao sr. Cel. Comandante da PM
ASSUNTO: – requer I.S.O.
Tendo sido baleado no combate contra o grupo de “Lampeão”, no dia 9 de Janeiro de 1932, quando fazia parte da “Col.Ten. Liberato” comandada pelo Sr. Cap. do E.N. Liberato de Carvalho, na fazenda “Maranduba”, Municipio de Poço Redondo, Estado de Sergipe, venho de solicitar–vos um Inquerito Sanitario de Origem, a bem dos meus direitos. Nestes têrmos, pede deferimento.
Sargento Antonio Teodoro Chaves
(Foto inédita na literatura. Cortesia de sua bisneta Gabriella Costa, para o Acervo Lampião Aceso)
É permitida a reprodução desde que cite-nos
como referência primária.
Da "Fazenda Cajazeira"
Pouco conhecido e comentado, em termos de estudos do Cangaço, foi o Fogo da Fazenda Cajazeira, no Município de Cipó, BA. Aqui, a demanda de um dos soldados sobreviventes, de vinculação dos seus ferimentos àquele combate, em um documento que repousa, atualmente, no Arquivo Público da Bahia.
Transcrição:
TESOURO DO ESTADO DA BAHIA
P.M.E.B
Quartel em Paripiranga, 11 de Março de 1940.
Do soldado ANTONIO TEIXEIRA DA SILVA
Ao sr. Cel. Comandante da PM
ASSUNTO: – requer I.S.O.
ANTONIO TEIXEIRA DA SILVA, soldado do 4º B.C., adido ao D–NE., tendo sido acidentado no combate contra o grupo de “Lampeão”, havido na Fazenda Cajazeira, Município de Cipó, Estado da Bahia, no dia 11 de Agosto de 1932, quando fazia parte da “Coluna Tenente Ladislau”, que operava no Nordéste do Estado, vem, mui respeitosamente, a bem dos seus interesses, solicitar–vos um Inquerito Sanitario de Origem.
Termos em que espera e PEDE DEFERIMENTO.
Pescado na fartura do Sítio do Cumpadi Rubens
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Volante em ação
O estudo de fontes documentais é básico, para os que contemplam a história.
Por Rubens Antonio
Transcrição
De Bomfim, 10-12 de Março de 1929.
Dr. Madureira de Pinho Chefe Policia Bahia. Confirmando telegramma dirigi hontem vossencia foram presos João Agostinho Silva conhecido Nonato e irmão Saturnino Roberto da Silva vulgo Juca, o primeiro na fazenda Morro Branco, pelo Sargento Flavio, o segundo em Carrapichel, pelo 1o Sargento Octacilio Alves Senna, os quaes estão aqui presos pt Estes individuos são os mesmo conhecidos como gente de Lampeão que anno passado ordenado vossencia apresentei-os com tres Irmão delegado regional Petrolina donde fugiram pt. Baldados cerco casa e batidas Matto Catuny para captura bandido criminoso Faustino ou Fausto Gomes, vulgo Banzé, informando mulher mesmo elle e filhos apareceram e voltaram logo dizendo virem pegar em armas pt. Este vcriminoso é pae bandido Hortencio Silva, vulgo arvoredo, pertencente grupo Lampeão e meu conhecimento por José Lima, em Jaguarary, quando anno passad alli estive, continúo xxx em outras observações. Saudações.
(a) Capitão José GaldinoFalando nisso...
Bernardino Madureira de Pinho
Nasceu a 30 de agosto de 1879, filho de Virgílio Tourinho de Pinho e Mariana de Senna Madureira. Em fevereiro de 1893, ainda menino, discursou, no Teatro Politheama, em Salvador, pedindo a Ruy Barbosa para realizar uma conferência no Theatro São João, em benefício de 50 órfãs do Asilo de Nossa Senhora de Lurdes de Feira de Santana.
Apreciador da Antiguidade Clássica, deu aos seus filhos os nomes de Demósthenes, Péricles e Demades. Bacharel em Direito, fez campanha presidencial para o mesmo Ruy Barbosa. Participou com Ruy Barbosa do seu périplo pelo sertão baiano, em 1919. Quando este esteve em Senhor do Bonfim, em 5 de dezembro de 1919, acompanhou-o, aparecendo na foto à entrada do palacete em que se hospedaram, pertencente, então, ao coronel Antonio Felix Martins.
Madureira de Pinho é o calvo de bigode, à direita.
Acompanham-no nesta fotografia também, além de Ruy Barbosa, Antonio Felix Martins, Salustiano Figueiredo, Cordeiro de Miranda e Francisco Esteves da Silva Bernardino.
Foi nomeado Secretário da Polícia e segurança Pública, pelo Governador Góes Calmon, em outubro de 1925, permanecendo no governo Vital Soares. Foi o nomeador e grande apoiador dos comandantes militares na estratégia baiana de confronto ao Cangaço.
Nelson Pinto, em palestra sobre sua Biografia, no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, quando do centenário do seu nascimento, a modo de “Elogio”, lançou:
“Lampeão era um fruto do Nordeste brasileiro e, no seu tempo, tudo no sertão era seu aliado: a topografia, a distância, a caatinga, o pavor das populações, a falta de estradas e de transportes etc., etc. Basta que se registre que Madureira “não poupou sacrificios, numa luta que não dependia da eficiência das autoridades policiais”. Igualmente, foram “notórias as qualidades de resistência, de arguta inteligência e de bravura do soldado baiano”.”O avanço dos eventos da Revolução de 1930, fez com que se exonerasse, “a pedido”, em 8 de outubro de 1930, sendo subistituído pelo bacharel em Direito Francisco Prisco de Souza Paraíso. Preso e processado pelos vitoriosos, após liberto, reintegrou-se apenas moderadamente na vida social e política baiana.
Desestimulado a permanecer na Bahia, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde já viviam seus filhos.
Faleceu a 15 de maio de 1950.
Mais um achado do CSI Rubens Antonio disponibilizado em seu Cangaço na Bahia
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
As voltas que o mundo "lampionico" dá
Maria já era centenária desde 2010, e não nasceu no dia internacional da Mulher
Comemorando 3 anos de atividade, apresentamos o primeiro resultado de uma minuciosa pesquisa gentilmente cedida pelo seu autor, nosso amigo e confrade Voldi, na ocasião do ultimo Cariri Cangaço.
Resultado de pesquisa documental e oral, operada a partir de abril de 2011, quando da realização do III Seminário do Centenário de Maria Bonita, promovido pela Prefeitura de Paulo Afonso-BA e, principalmente, realização da exposição Maria Bonita em Nós, promovida pela empresa Cria Ação Comunicação e Arte Ltda., sob a curatela e criação do padre Celso Anunciação, que contou também com a nossa assessoria técnica.
Uma questão muito emblemática para todos, incluindo muitos pesquisadores e historiadores, era a exata confirmação da data de nascimento de Maria Bonita. As imprecisões começavam quando comparávamos: para Virgulino Ferreira da Silva, o capitão Lampião, se encontrou o assentamento do batismo católico e o registro civil de nascimento – é mister que se esclareça – desencontrados em datas, meses e anos. Contudo todos os estudiosos consensam ser o ano de 1898 com o do seu nascimento.
A pergunta que não calava era: por que para Maria Bonita só nos restaram imprecisões de anos ou a única indicação de data, mês e ano - 08 de março de 1911 – sem que se tenha apresentada qualquer evidência documental?
1. Os Registros Históricos do Nascimento de Maria Bonita na Voz dos Autores.
O quadro a seguir sintetiza de modo rápido as diversas indicações quanto à data de nascimento de Maria Bonita:
A primeira indicação da data somente foi encontrada na 9a referência, contida no livro “O Espinho do Quipá – Lampião, a História”, publicado em 1997, 87 anos após seu nascimento e, coincidentemente, 60 anos após sua morte, contudo sem prova documental. Esta constatação, portanto, é o que despertou e moveu nosso interesse em desvendar tão logo e grande mistério da historiografia do Cangaço.
Com o apoio e direta colaboração de Celso Anunciação, com o qual tivemos acesso aos registros eclesiásticos da Paróquia de São João Batista de Jeremoabo e também da Paróquia de Santo Antônio da Glória, cujos livros se encontram arquivados na Cúria Diocesana da atual Diocese de Paulo Afonso-BA.
Justiça seja feita. Com relação a Celso Anunciação, por mais insistência que tenha sido feita à co-autoria da presente Nota Prévia e do futuro livro a ser concluído em brevíssimo tempo, respeitando sua vontade não posso deixar de afirma que sem sua direta colaboração, possivelmente perderíamos a chance de encontrar o assentamento de batismo de Maria Bonita. Os livros consultados se encontram por demais comprometidos tanto na conservação quanto no factível dando físico se forem manuseados.
Também não posso suprimir a providencial orientação e anuência prévia do resultado desta pesquisa, obtida com o grande historiador e amigo pessoal Frederico Pernambucano de Mello.
2. A Missiva de 1971 ao Bispado de Bonfim
A terceira referência que faz referência ao ano do nascimento de Maria Bonita se encontra no registro do pesquisador Antônio Amaury Corrêa de Araújo, quando no ano de 1971, uma missiva foi remetida à sede do Bispado de Bonfim no estado da Bahia, endereçada ao padre Vicente O. Coutinho, referido como secretário do citado Bispado (Diocese). Esta missiva é de particular importância no presente estudo. Os termos da mesma demonstram a busca pelas informações do pesquisador referido.
Não é de se estranhar que após 40 anos, em 2011, se tenha encontrado a carta datada de 16 de março de 1971, aparentemente sem resposta daquele Bispado, com os seguintes dizeres conforme fac-símile a seguir:
Frente
Verso
È explicável o motivo pelo qual não tenha havido resposta à missiva de Antônio Amaury por parte do Bispado de Senhor do Bonfim/BA, senão vejamos: há a imprecisa indicação dos nomes próprios do pai e da mãe e de Maria Bonita. Nada de mensurar criticamente o pesquisador. Na época, é de se imaginar com os dados disponíveis, que qualquer um poderia cometer tais equívocos. Vale, no entanto a intenção positiva do pesquisador hoje já consagrado.
3. Registros das Paróquias de Santo Antônio da Glória e de São João Batista de Jeremoabo e dos Cartórios do Registro Civil de Santo Antônio da Glória e de Jeremoabo/BA.
Dado o precário estado de conservação em que se encontram os livros consultados a pesquisa, além de difícil requereu a adoção de cuidados especiais para que os registros não fossem danificados.
Os registros paroquiais consultados foram os seguintes: assentamentos de batismos do período compreendido entre os anos de 1901 a 1922 e para os assentamentos de casamentos do período compreendido entre os anos de 1907 a 1940.
Os registros cartoriais e civis consultados foram os seguintes: termos de nascimentos do período de 1902 a 1937 e para os termos de casamento do período de 1900 a 1940.
4. O assentamento de Batismo.
Nas primeiras consultas foi identificado o que veio no final da pesquisa a ser confirmado como o Assentamento de Batismo de Maria Bonita, encontrado na Paróquia de São João Batista de Jeremoabo no Livro do período de 1909 a 1915, de número 04 e na folha 30 verso, conforme se encontram a seguir a imagem em substrato da folha fotografada e a Certidão emitida em 22 de agosto de 2011:
Imagem fotografada em substrato da folha pelo autor.
Transcrição
Na consulta ficou evidenciada a utilização dos termos “filha (o) legítima (o)” somente quando compareciam à cerimônia do batismo o pai e a mãe respectivamente.
Quando ocorria de comparecer à cerimônia apenas a mãe os termos utilizados eram “filha (o) natural”. Não foi encontrado nenhum assentamento de batismo com o comparecimento somente do pai.
Estes formatos de registros nos assentamentos de batismos são comuns nos livros consultados com distintos párocos e períodos.
Imagem da certidão escaneada na íntegra.
As confirmações encontradas podem ser assim relacionadas:
a. A coincidência do nome civil da mãe, Dona Déa – Maria Joaquina da Conceição”;
b. A celebração da festa religiosa anual consagrada a Nossa Senhora das Dores realizada no arruado de Santa Brígida, no mês de setembro, quando o vigário da paróquia de Santo Antônio de Jeremoabo, em período denominado “desobriga” atendia às celebrações religiosas de missas, batismos e casamentos. Confirmação obtida com entrevista realizada com Ozéas Gomes de Oliveira (irmão mais novo de Maria Bonita) e sua esposa Dona Abelízia, quando em visita realizada na sua residência na Malhada da Caiçara;
c. Confirmação obtida com a Sra. Abelízia, esposa de Ozéas, da existência passada de um cidadão denominado “AGRIPINO”, morador do Sítio do Taráe, localidade vizinha à Malhada da Caiçara;
d. A não identificação nos assentamentos de batismos pesquisados nas Paróquias de Santo Antônio da Glória e São João Batista de Jeremoabo, de nenhum registro que indicasse qualquer semelhança com o registro encontrado e fotografado e a certidão emitida e assinada pelo Padre José Ramos Neves;
e. A não identificação dos registros civis dos termos de nascimentos dos cartórios de dos municípios de Santo Antônio da Glória-BA e Jeremoabo-BA, de nenhum registro que indicasse qualquer semelhança com o registro encontrado e fotografado e a certidão emitida e assinada pelo Padre José Ramos Neves.
5. Breve Conclusão.
Dada a evidência do Registro e da Certidão extraída e das confirmações relacionadas, bem como de se ter também encontrado o assentamento do casamento de Edvaldo Ferreira Dias e Joanna Maria d’Oliveira (irmã de Maria Bonita), realizado não na Matriz, no dia 18 de abril de 1936, pelo Vigário e Padre José Magalhães e Souza da Paróquia de São João Batista de Jeremoabo, se pode afirmar com segurança que MARIA BONITA NASCEU AOS 17 DE JANEIRO DE 1910.
As conclusões e outras possíveis novidades estarão impressas no nosso trabalho que se encontra no prelo, aproveitamos para apresentar a capa deste.
Crato, Ceará, 22 de setembro de 2011.
Voldi de Moura Ribeiro
Sociólogo e Pesquisador
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Lampião, nasceu em que dia mês e ano finalmente?
... Continuaremos no mesmo dilema?
Por Ivanildo Silveira
A data do nascimento de Lampião é muito polêmica, pois segundo a literatura cangaceira, não há harmonia de pensamento dos pesquisadores a esse respeito. Vejamos.
No estudo da data correta, duas se sobressaem:
"07 de julho de 1897" data indicada na sua certidão de Nascimento fornecida pelo Cartório de Registro Civil do 3º Distrito de Tauapiranga, do Município de Serra Talhada/PE e "04 de junho de 1898" Indicada no batistério emitido pela diocese de Floresta/PE .
(Billy Chandler; Hilário Lucetti; Aglae de Lima; Rodrigues de Carvalho defendem a data de 07 de julho.
Já Antonio Amaury; Frederico B. Maciel,; Frederico Pernambucano; Nertan Macedo e Estácio de Lima defendem a data de 04 de junho)
Outra data citada pelos estudiosos, tem como nascimento o dia: "12 de fevereiro de 1900" . (Leonardo Mota, Ranulfo Prata; Câmara Cascudo; Melchiades da Rocha etc.).
VIDE, ABAIXO, CÓPIAS DA CERTIDÃO DE BATISMO E DO REGISTRO CIVIL DE VIRGULINO:
Filho de José Ferreira dos Santos e de Maria Sulena da Purificação, sendo seus avós paternos Antônio Ferreira de Barros e Maria Francisca da Chaga, e avós maternos Manoel Pedro Lopes e Jacoza Vieira da Solidade. Observe a reprodução da Certidão de Nascimento acima. Clique para ampliar.
Em face dessas divergências de datas existentes no Batistério e Registro do Rei do Cangaço, fica difícil uma conclusão. Vejam que grandes historiadores/pesquisadores do cangaço não comungam da mesma opinião, imaginem nós, que somos simples mortais, e curiosos no estudo do tema.
Em minha modesta opinião, entendo que a data do batistério é a correta, uma vez que, é um ato que antecede o Registro de Nascimento, e que o sertanejo (hoje e naquela época), privilegia a feitura do primeiro (batistério), em detrimento do segundo (registro nascimento).
Ademais, é comum não só no sertão, mas no interior de todos os Estados, haver divergência de datas entre o Batismo e o Registro de nascimento. Tal fato, já aconteceu com minha família ( 09 filhos ), e o meu pai ao fazer o registro, trocava as datas de nascimento (RISOS), imagine no tempo de Lampião, com deficiências de cartórios/Igrejas.
Essas são as nossas impressões, respeitando as opiniões em contrário.
1ª Imagem: Iconografia do livro "De Virgolino à Lampião", de Antonio Amaury e Vera Ferreira
2ª imagem: E outras informações foram pescadas no blog do Newton Thaumaturgo.
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Clique e conheça a história de Brejo da Madre de Deus e de outras cidades do Agreste Pernambucano : Newtom Thaumaturgo
Por Ivanildo Silveira
A data do nascimento de Lampião é muito polêmica, pois segundo a literatura cangaceira, não há harmonia de pensamento dos pesquisadores a esse respeito. Vejamos.
No estudo da data correta, duas se sobressaem:
"07 de julho de 1897" data indicada na sua certidão de Nascimento fornecida pelo Cartório de Registro Civil do 3º Distrito de Tauapiranga, do Município de Serra Talhada/PE e "04 de junho de 1898" Indicada no batistério emitido pela diocese de Floresta/PE .
(Billy Chandler; Hilário Lucetti; Aglae de Lima; Rodrigues de Carvalho defendem a data de 07 de julho.
Já Antonio Amaury; Frederico B. Maciel,; Frederico Pernambucano; Nertan Macedo e Estácio de Lima defendem a data de 04 de junho)
Outra data citada pelos estudiosos, tem como nascimento o dia: "12 de fevereiro de 1900" . (Leonardo Mota, Ranulfo Prata; Câmara Cascudo; Melchiades da Rocha etc.).
VIDE, ABAIXO, CÓPIAS DA CERTIDÃO DE BATISMO E DO REGISTRO CIVIL DE VIRGULINO:
Sete de Julho de 1897
Filho de José Ferreira dos Santos e de Maria Sulena da Purificação, sendo seus avós paternos Antônio Ferreira de Barros e Maria Francisca da Chaga, e avós maternos Manoel Pedro Lopes e Jacoza Vieira da Solidade. Observe a reprodução da Certidão de Nascimento acima. Clique para ampliar.
Em face dessas divergências de datas existentes no Batistério e Registro do Rei do Cangaço, fica difícil uma conclusão. Vejam que grandes historiadores/pesquisadores do cangaço não comungam da mesma opinião, imaginem nós, que somos simples mortais, e curiosos no estudo do tema.
Em minha modesta opinião, entendo que a data do batistério é a correta, uma vez que, é um ato que antecede o Registro de Nascimento, e que o sertanejo (hoje e naquela época), privilegia a feitura do primeiro (batistério), em detrimento do segundo (registro nascimento).
Ademais, é comum não só no sertão, mas no interior de todos os Estados, haver divergência de datas entre o Batismo e o Registro de nascimento. Tal fato, já aconteceu com minha família ( 09 filhos ), e o meu pai ao fazer o registro, trocava as datas de nascimento (RISOS), imagine no tempo de Lampião, com deficiências de cartórios/Igrejas.
Essas são as nossas impressões, respeitando as opiniões em contrário.
1ª Imagem: Iconografia do livro "De Virgolino à Lampião", de Antonio Amaury e Vera Ferreira
2ª imagem: E outras informações foram pescadas no blog do Newton Thaumaturgo.
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quinta-feira, 10 de junho de 2010
Da certidão de óbito ao nascimento do mito:
Corisco e o cangaço na cena cultural e cinematográfica do Brasil
Por Cláudio C. Novaes
Analisamos o atestado de óbito de Cristino Gomes da Silva (Corisco) como um lugar de produção de imagens culturais que tensionam o discurso oficial sobre a performance do mito popular do cangaceiro no imaginário social e do cinema, fazendo um contrapondo entre filmes do cinema novo como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), de Glauber Rocha ; e Corisco e Dadá (1994), de Rosemberg Cariry, com o retorno do mito de Corisco na ficção cinematográfica do Brasil.
Este texto nasceu do encontro com a Certidão de Óbito de Cristino Gomes da Silva, durante pesquisa sobre a representação do Nordeste na Literatura e no Cinema, ao percorrermos as trilhas do Cangaço e do Messianismo brasileiros nas páginas, nas telas e nos documento oficiais. A linguagem do documento nos deu as pistas para lermos o discurso legal sobre a morte do último personagem da epopéia trágica do cangaço no Brasil, mas deu também pistas para lermos as “rasuras” no discurso nacionalista moderno sobre o mito da violência agrária do país. Apoiaremos a nossa análise da ficção cinematográfica brasileira de cangaço na tensão entre o discurso do perito na Certidão de Óbito de Cristino Gomes e as lendas locais, os discursos históricos e antropológicos sobre o mesmo tema do cangaço.
Assim, problematizamos a ética e a estética da mitificação do cangaceiro no cenário da política cultural brasileira dos anos 1950/1960, período no qual começa a internacionalização do cinema brasileiro, com o primeiro modelo clássico no filme O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto. A tese principal que defendemos aqui é de que o aspecto documental e ficcional das narrativas naturalistas brasileiras, principalmente o hibridismo estilístico cinemanovista e contemporâneo, tem a fonte nos discursos dos documentos oficiais jurídicos e jornalísticos sobre o cangaço, pois estas linguagens jurídicas e jornalísticas são contaminadas pela informalidade que desrecalca as imagens populares dos mitos que rasuram os limites entre a verdade histórica e a verossimilhança ficcional.
O mito de Corisco aparece da força performática na narrativa documental e ficcional produzida por jornalistas, fotógrafos e cineastas e policiais da época. Desde o cinema primitivo e o cinema clássico, de 1920 a 1950, estas imagens ganham força no projeto cultural literário nacional-popular inaugurado no regionalismo de 1930 e no cotidiano da imprensa moderna, popularizando-se nos romances e telas de cinema, como é o caso da extraordinária aventura do mascate libanês Benjamin Abrahão, registrando, no ano de 1936, as mais conhecidas imagens de Lampião e seu grupo, inclusive fotografando Corisco no ambiente real da luta dos cangaceiros no interior do Nordeste brasileiro.
Imagens estas já foram reutilizadas em filmes documentais do cinemanovismo, como Memórias do Cangaço (1963), de Paulo Gil Soares; e em filmes de ficção da retomada do cinema brasileiro, como Baile Perfumado (1997), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas. Enquanto personagem principal do ciclo cinematográfico brasileiro de cangaço, Corisco tem várias representações, algumas mais históricas da ação do cangaço; outras mais marcantes na estética inovadora. A performance dramática deste personagem nofilme Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), de Glauber Rocha, por exemplo, tem conseqüências políticas e estéticas definitivas para compreendermos a alteridade do discurso nacionalista no Brasil, tornando-se uma das obras inaugurais da ficção revolucionária do cinemanovismo; já a performance épica do filme de aventura Corisco, o Diabo Loiro (1969), de Carlos Coimbra, marca a permanência da linguagem melodramática clássica do cinema sem maiores repercussões políticas fora da tela, durante o período de censura do cinema nacional; e mais recentemente, o filme Corisco e Dadá (1996), de Rosemberg Cariry, marca a heterogeneidade do tema do cangaço na perspectiva crítica da contemporaneidade, buscando na performance do mito do cangaceiro uma representação da imagem da nação estilhaçada no espelho fragmentado.
A narrativa deste filme é trágica-dramática-lírica, sendo, ao mesmo tempo, enredo de aventura para a indústria cultural e também uma reflexão sobre a identidade fragmentária do mito agrário no mundo urbanizado, traço que caracteriza grande parte dos filmes da retomada pós-1990, quando os diretores articulam as teorias da cultura e da semiologia, revisitando as fontes literárias modernistas e dos cinemanovistas; e lendo com outros olhares os discursos dos documentos oficiais sobre o cangaço.
A Certidão de Óbito de Cristino Gomes da Silva de 27 de Maio de 1940 é um exemplo marcante, pois registra a morte do cangaceiro juridicamente, mas possibilita uma leitura que recompõe a tensão do discurso informal no jogo entre o documental e o ficcional, estratégia que consolidou o cinema moderno brasileiro sobre a temática histórica e social do cangaço. O poder do discurso oficial no documento procura desmistificar o discurso popular que engendra o mito do cangaço na memória nacional, mas a tensão entre os discursos pode ser flagrada na leitura em contraponto, articulando o texto reativo da escrita oficial sobre as condições da morte do cangaceiro com a escritura performática e ficcional que ativa a vida / morte do personagem Corisco na mitologia cinematográfica. Entre os vários filmes desta temática, selecionamos aqui dois deles, para estabelecermos este contraponto entre a política cultural da cinematografia brasileira e a política oficial do discurso do documento de óbito de Cristino Gomes. São os filmes: Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), de Glauber Rocha, do cinema novo; e Corisco e Dadá (1994), de Rosemberg Cariry; da retomada do novo cinema brasileiro contemporâneo.
A Certidão de Óbito original transcrita pelo oficial Evandro Cardoso de Andrade, da comarca de Miguel Calmon, Bahia, lavra a morte do cangaceiro nos seguintes termos: “Certifico que, em data de 27 de maio de 1940, no Livro n0 C 12, à fls 7 verso. sob o n0 1.567, foi feito o registro de Óbito de CRISTINO GOMES DA SILVA (vulgo Curisco)”. Neste primeiro traço narrativo da certidão, o morto tem a sua identidade apresentada com o destaque em vermelho e CAIXA ALTA do nome civil; e os (parênteses) utilizados para aprisionar o nome do cangaceiro grafado em letra regular e em vermelho, com o fonema kü grafado na forma mais popular Curisco e não Corisco, conforme a sintaxe culta mais aceita. O vermelho; a citação do vulgo entre (parênteses) e a grafia mais popular do fonema kü sugerem o ruído lingüístico de elementos populares recalcados na CAIXA ALTA e inércia do nome cartorial Cristino Gomes da Silva, que apaga a agilidade do raio significativo do nome vulgar atribuído ao mito do cangaceiro.
Os nomes – oficial e popular – são grafados no documento seguindo uma hierarquia da superioridade do primeiro em relação à inferioridade do segundo, conforme as marcas lingüísticas e gráficas da caixa alta do primeiro e da forma regular e do distintivo “vulgo” no segundo. Mas a reversão da leitura do significado pelas marcas discursivas da cor vermelha destrói a hierarquia e acende as nuances da cor vermelho / sangue, que banha a imagem da violência do cangaceiro. Esta imagem do vermelho / sangue é a marca problemática da fala do personagem Corisco de Glauber Rocha, em Deus e o Diabo, quando coloca a violência do cangaço na crise social e existencial do herói vencido na seqüência das mais emblemáticas do filme, quando Corisco baila em transe e promete matar o responsável pela traição e morte de Lampião.
Na seqüência ele contracena com o vaqueiro Manuel, com Rosa e com Dada, que não entendem a razão de tanto sangue, mas compreendem o transe do cangaceiro na autofagia da sua luta sem poder escapar da violência. Entretanto, a imagem da violência no filme de Glauber Rocha não é mais a cilada do naturalismo literário e cinematográfico tradicionais, pois a representação é construída revolucionariamente do hibridismo ideológico de traços “primitivos” do irracionalismo do cangaço, mas também vislumbra os traços de outra racionalidade dialética do cinema novo, que ativa nova compreensão sobre o cenário da violência agrária no Nordeste brasileiro. A fala de Corisco na cena desloca a categoria naturalista tradicional da violência do cangaço para um lugar político radical na história do cinema brasileiro:
Corisco – Tira os fantasma da cabeça que eu num agüento mais ver você no sofrimento... já faz três dia, é muito tempo pra quem viveu na guerra. O corpo de Maria Bonita inchou, apodreceu, os bicho agora tão comendo os olhos bonito dela... morreu Maria mas Lampião está vivo. Virgulino acabou na carne mas o espírito está vivo. O espírito está aqui no meu corpo que agora juntou os dois... Cangaceiro de duas cabeça, uma por fora e outra por dentro, uma matando e outra pensando! Agora é que eu quero ver se esse homem de duas cabeça pode consertar esse sertão. É o gigante da maldade comendo o povo pra engordar o Governo da República! Mas São Jorge me emprestou a lança dele pra matar o gigante da maldade. Ta aqui! Ta aqui o meu fuzil pra num deixar pobre morrer de fome! (ROCHA, p 274)
A transcrição da Certidão de Óbito continua desdobrando os traços “ficcionais” das informações sobre o morto: “... falecido em 25 de maio de 1940, às 17: 00 horas, nesta cidade de Djalma Dultra, comarca de Jacobina-Bahia.” Neste trecho, surgem situações discursivas relevantes, como a dos dois dias de decurso entre a constatação da morte e o seu registro oficial, o que permite inferências quanto à escolha do textodiscurso para oficializar a morte do cangaceiro, após as devidas autorizações legais, conforme requer um caso de Estado como o do cangaço, numa região praticamente sem a presença estatal, a não ser através da cobrança de impostos e da força policial.
O decurso do tempo entre a morte e o documento também pode indicar as condições de localização da luta e a deficiência de transporte na região. Mas um traço importante são mudanças estruturais da nação brasileira, configuradas nos elementos textuais e paratextuais referentes ao território do país em conformação, como na mudança do nome do distrito de Jacobina – Djalma Dultra, que após a emancipação passa a ser a comarca de Miguel Calmon. Na transcrição atual o documento é atualizado e o registro substitui a comarca sede na época da morte do cangaceiro - Jacobina, pela comarca atual de Miguel Calmon. O que parece irrelevante para a discussão identitária, assume um sentido importante, pois a reivindicação do título de sede do cartório onde está o registro da morte do famoso e mitológico cangaceiro Corisco, configura uma mudança na política cultural brasileira, pois, para a antiga comarca o importante era ter registrado em seu cartório o documento de extermínio do último cangaceiro, mas para a comarca atual o valor do documento é a preservação da memória do mito do cangaceiro. Esta mudança configura a nova política cultural brasileira contemporânea de resgate da história cultural do país.
Isto repercute com intensidade na ética e na estética cinematográfica do cangaço, que chegou a ser, durante a República Velha e o Estado Novo, no auge do cinema primitivo e do surgimento do cinema clássico, caso de polícia e de política, que repercute também na censura da ditadura militar contra a veiculação de filmes violentos que maculavam a integridade moral do país no exterior; repercute ainda hoje, quando as imagens do cangaço estimulam o público a compreender metonimicamente e metaforicamente a realidade nacional, através dos filmes que abalam a Identidade Nacional oficial, como é o caso do filme Corisco e Dadá.
Na Certidão de Óbito de Corisco surgem outros traços discursivos que dialogam mais fortemente com o mito do cangaço nocinema, causando mais fissuras no discurso do documento oficial sobre a desmistificação do “bandido social”. Vejamos os termos do documento: “sexo masculino” de “cor branca”, “profissão bandido”, “natural do Estado de Alagoas”, mas domicílio e residência “nômade”, contando “33 anos de idade” e “estado de civil solteiro”, “filho de Manoel Anacleto e Firmina Maia”, estes “residentes e domiciliados no Estado de Alagoas”. O sexo da violência no cangaço é o masculino, conforme a cultura patriarcal do Nordeste brasileiro. Mas Lampião introduziu a mulher no cangaço, passando ela a viver as mesmas experiências ativas e passivas da violência; no entanto a memória patriarcal ainda reluta em aceitar o novo papel feminino nas mesmas condições do homem.
Nos filmes de cangaço, mesmo do cinema moderno, as mulheres são geralmente vítimas do destino patrocinado pelo homem condutor da família, que não respeita as tentativas das companheiras para abandonar a violência. No filme Deus e o Diabo, uma das cenas enfoca a tensão do gênero, quando Corisco prepara os seus planos de vingança e, ao fundo da tomada, Rosa e Dadá alheiam-se à violência “masculina” e trocam carícias “femininas”. O discurso, que parece reproduzir a cultura convencional desvia-se quando a resistência de Rosa aos projetos de Manuel culmina com o assassinado do beato por ela, para livrar Manuel do inferno sebastianista que prometia o céu. A percepção política de Glauber Rocha desloca o discurso patriarcal da exclusividade masculina sobre a violência para a ação de Rosa ao matar ao beato, tendo esta violência um aspecto de liberação redentora, ao mobilizar no filme as dobras do discurso de Frantz Fanon na forma revolucionária do cinema novo, com a reversão da violência para despertar ao opressor o oprimido no ato violento assimilado e sublimado pelos dominados contra os projetos autoritários dos dominantes.
Para Frantz Fanon, “le colonialisme impliquait un univers manichéen oú l’inferiorité permanente du colonisé était tenue pour établie”. (FANON, 1991, 23) No filme Corisco e Dadá, a mulher acompanha a ações do homem, articulando a dialética do amor / dor na condição do papel feminino da donzela roubada da família, ou a mulher consciente da violência ao assumir a luta com companheiro na mesma condição, ressaltando outra racionalidade da personagem, em contraponto ao paradoxo da razão “instintiva” que associa a violência ao homem, ou masculiniza a mulher.
Na Certidão de Óbito, a questão identitária da cor “branca” atribuída a Corisco é o reflexo da memória vulgar que o populariza como o “diabo loiro”; a raça branca colada ao sertanejo encena uma contradição da teoria de miscigenação clássica, que via no branqueamento a melhora do mestiço. Mesmo “branco / loiro” atribuído a Corisco um estereótipo sem conotação étnica é importante discutirmos este discurso no documento, seguindo as recorrentes questões de raças no Brasil até hoje. Já a profissão de “bandido” instaura uma situação discursiva mais problemática ainda, devido ao inusitado uso do termo no documento oficial de óbito. O “bandido primitivo” no documento desvela o ressentimento social da escrita que desqualifica a vida social e econômica de Corisco.
Mas a história econômica do Nordeste cruza inevitavelmente com o cangaço, conforme a vasta documentação de teses como a de Rui Faço e Frederico Pernambucano de Mello, quanto à condição desprivilegiada de grande parte da população, que conduzia os jovens aos grupos de cangaceiros, grupos estes que movimentavam somas de pilhagens em negócios com mercadorias e armas, que enriqueciam muitos comerciantes, os quais diversificavam seus empreendimentos para “lavar” o dinheiro acumulado no comércio com os criminosos, sendo esta estratégia econômica da diversificação uma das condições primordiais do capitalismo moderno no Nordeste, apesar do combalido estágio econômico da região. Além do comércio nos negócios do cangaço, os cangaceiros também prestavam serviços ao latifúndio na rede de influências das disputas entre os senhores de terra na região. Ou seja, a “profissão de bandido”, conforme registra o documento, para justificar e desqualificar a morte do cangaceiro acaba por afirmar uma condição econômica fundamental da economia do sertão nordestino. Para Pernambucano de Mello:
Surpreendentemente é possível afirmar-se hoje, imagem literária à parte, que os maiores cangaceiros, entendidos estes como os chefes de grupos de maior expressão, gostavam da vida no cangaço. Num sertão profundamente conturbado pelas disputas entre chefes políticos, lutas de famílias, ausência de manifestações rígidas e eficazes de um poder público longinquamente litorâneo; sertão povoado pó um tipo especial de homem, individualista, sobranceiro, autônomo, desacostumado a prestar contas de seus atos, influenciados pelos exemplos de bravura dos cavaleiros medievais; sertão que tinha no épico o seu gênero maior, fazendo vivas páginas de um Carlos Magno e os Doze Pares de França, de um Roberto do Diabo, de um Donzela Teodora, de um João de Calais; num sertão assim anormal a olhos urbanos, o cangaço representava, na verdade, uma ocupação aventureira, um ofício epicamente movimentado, um meio de vida, ou até mesmo um amadorismo divertido de jovens socialmente bem situados, carentes de afirmação. (MELLO, 2004, 117)
Quanto aos termos da Certidão de Óbito sobre à origem do cangaceiro morto, do “Estado de Alagoas”; e ao seu domicílio “nômade”, ficam patentes outros traços circunstanciais do discurso de uma região informal na aparente formalidade do texto, circunstâncias que representam situações sociais e antropológicas fundamentais para o discurso da nacionalidade no Brasil. O deslocamento do cangaceiro entre o seu nascimento em Alagoas e sua morte na Bahia, reconstrói a divisão geopolítica da região cultural nordestina, que não se caracteriza nas fronteiras fixadas.
A gênese do nomadismo das memórias do cangaço percorre um longo corredor geográfico, atravessando as fronteiras geo-políticas do Ceará à Bahia, passando pelos territórios da Paraíba, do Piauí, de Sergipe, de Pernambuco, ou seja, por 7 (sete) Estados da Federação, dos 9 que compõem a região Nordeste do Brasil. Esta condição nômade repercute jurídica e militarmente sobre a condição federativa, levando a política de segurança do governo às estratégias de agrupamentos policiais que transitavam entre as fronteiras dos Estados, conhecidas pelo nome popular de forças militares “volantes”.
Quanto ao termo nômade utilizado na Certidão de Óbito, por certo o escrivão não levou em conta os problemas filológicos, sociais e antropológicos, muito menos, a tensão filosófica do conceito de nomadismo em relação ao termo migrante, qualificador mais comum deste personagem nordestino, tanto na nomenclatura oficial, quanto na arte regionalista tradicional. Para Gilles Deleuze (1997, 13), o nômade não é binário, mas “antes como a multiplicidade pura e sem medida, a malta, irrupção do efêmero e potência da metamorfose”, como o cangaceiro, o nômade “desata o liame assim como trai o pacto”, segundo Gilles Deleuze, (op. cit.) o nômade:
Faz valer um furor contra a medida, uma celeridade contra a gravidade, um segredo contra o público, uma potência contra a soberania, uma máquina contra o aparelho. Testemunha de uma outra justiça, às vezes de uma crueldade incompreensível, mas por vezes também de uma piedade desconhecida.
No qualificativo de nômade o escrivão flagrou a condição de Corisco e a memória coletiva do Nordeste, sendo esta a memória ativada na narrativa cinematográfica alegórica do cinema novo ao cinema contemporâneo de cangaço.
Os filmes Deus e o Diabo na Terra do Sol e Corisco e Dadá refletem nas imagens da nação a preocupação ética através da estética, impulsionando a recepção do cinema moderno brasileiro para o “entre-lugar” do espetáculo de ação e a reflexão identitária. Para realizar o contraponto ético e estético é importante percebermos os elementos articulados na linguagem do cinema, através da escolha da luz e da angulação das tomadas, mecanismos que produzem os sentidos epifânicos das personagens; é também necessário observarmos o diálogo entre a ficção e os discursos sociais, antropológicos e históricos oficiais sobre o tema do cangaço. A leitura deve atentar para os traços discursivos dialógicos entre obras de arte ficcionais e documentais e os textos oficiais, como a Certidão de Óbito de Corisco, para flagrarmos os sentidos que atravessam as descrições de Cristino Gomes da Silva, como, tinha “33 anos de idade”; era “solteiro” e filho de Manoel Anacleto e Firmina Maia.
Os 33 anos de idade atribuídos a Corisco realçam a juventude etária do líder cangaceiro, mas destaca também a precocidade da morte no violento sertão brasileiro da época, paradoxalmente uma longevidade aos 33 anos de idade, pois já se consagrava o mito. A figuração mítica da idade do cangaceiro pode ainda ser um oposto simétrico do Cristo, o cangaceiro ocidental da “não-violência”. A reversão entre violência / não-violência associada à percepção da performance social e mítica do Corisco versus Cristo, ou de Deus versus Diabo, deixa marcas fortes nas narrativas cinematográficas, como o São Jorge guerreiro enfrentando o Dragão da Maldade na obra de Glauber Rocha e em toda a tradição cinematográfica de cangaço.
Já a classificação civil de “solteiro” para o cangaceiro é mais uma marca da convenção social no documento, pois sabemos que Corisco convivia com Dadá com quem teve filhos e viveu segundo as normas da Igreja Católica, informalmente, por não poderem contrair o sacramento oficialmente, pelas óbvias razões do nomadismo. Seus pais sim, estes tinham os nomes firmados e domiciliados fixamente, portanto não tinham a necessidade de serem nomeados pelos nomes vulgos, apesar de ser esta uma norma social da região Nordeste, que sempre associa a pessoa a um nome popular.
Finalmente, a Certidão de Óbito de Cristino Gomes da Silva lavrada no cartório da Comarca de Miguel Calmon diz que as informações do documento tiveram como declarante o “Sargento José Fernandes da Silva”; e quanto à atestação do óbito, o texto explicita que “não teve assistência médica”; apontando como causa da morte “tiros de metralhadora no abdomem ”, e que o corpo foi sepultado no “cemitério da consolação, desta cidade.”
O declarante militar e a ausência de atendimento médico definem as condições da morte do cangaceiro, segundo uma lógica estatal do extermínio, o que caracteriza a luta do cangaço para além do rebelde primitivo de Eric Hobsbaw, atribuindo ao combate militar um aspecto de guerrilha com repercussão social e política, transformando o cangaço em mito no meio intelectual. Já os “tiros de metralhadora no abdomem” explicitam a guerra fratricida que não dá chances de vida ao “cabra marcado para morrer”. Apesar dos tiros fora de zonas mortais, a belicosidade moderna da metralhadora canta mais alto do que o grito de Corisco em Deus e o Diabo: “mais forte são os poderes do povo”. O ato de cortar as cabeças dos cangaceiros confirma esta descrição da morte marcada.
A cabeça cortada no plano real da luta entre o cangaceiro e o Estado é a imagem repetição do discurso ideológico oficial dos documentos sobre as trágicas epopéias populares da história social do país. Contudo, os mitos têm muitas cabeças, como diz o Corisco de Glauber, e uma delas é a memória popular que atravessa a linguagem oficial por dentro transformando as narrativas artísticas em releituras da nação oficial.
Bibliografia:
* Cláudio C. Novaes é Professor da Graduação dos Programas de Pós-Graduação do Departamento de Letras e Artes da Uefs contato cledson@uefs.br
Açude cult UFBA
Por Cláudio C. Novaes
Dadá, Corisco e Abrahão
Este texto nasceu do encontro com a Certidão de Óbito de Cristino Gomes da Silva, durante pesquisa sobre a representação do Nordeste na Literatura e no Cinema, ao percorrermos as trilhas do Cangaço e do Messianismo brasileiros nas páginas, nas telas e nos documento oficiais. A linguagem do documento nos deu as pistas para lermos o discurso legal sobre a morte do último personagem da epopéia trágica do cangaço no Brasil, mas deu também pistas para lermos as “rasuras” no discurso nacionalista moderno sobre o mito da violência agrária do país. Apoiaremos a nossa análise da ficção cinematográfica brasileira de cangaço na tensão entre o discurso do perito na Certidão de Óbito de Cristino Gomes e as lendas locais, os discursos históricos e antropológicos sobre o mesmo tema do cangaço.
Assim, problematizamos a ética e a estética da mitificação do cangaceiro no cenário da política cultural brasileira dos anos 1950/1960, período no qual começa a internacionalização do cinema brasileiro, com o primeiro modelo clássico no filme O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto. A tese principal que defendemos aqui é de que o aspecto documental e ficcional das narrativas naturalistas brasileiras, principalmente o hibridismo estilístico cinemanovista e contemporâneo, tem a fonte nos discursos dos documentos oficiais jurídicos e jornalísticos sobre o cangaço, pois estas linguagens jurídicas e jornalísticas são contaminadas pela informalidade que desrecalca as imagens populares dos mitos que rasuram os limites entre a verdade histórica e a verossimilhança ficcional.
O mito de Corisco aparece da força performática na narrativa documental e ficcional produzida por jornalistas, fotógrafos e cineastas e policiais da época. Desde o cinema primitivo e o cinema clássico, de 1920 a 1950, estas imagens ganham força no projeto cultural literário nacional-popular inaugurado no regionalismo de 1930 e no cotidiano da imprensa moderna, popularizando-se nos romances e telas de cinema, como é o caso da extraordinária aventura do mascate libanês Benjamin Abrahão, registrando, no ano de 1936, as mais conhecidas imagens de Lampião e seu grupo, inclusive fotografando Corisco no ambiente real da luta dos cangaceiros no interior do Nordeste brasileiro.
Imagens estas já foram reutilizadas em filmes documentais do cinemanovismo, como Memórias do Cangaço (1963), de Paulo Gil Soares; e em filmes de ficção da retomada do cinema brasileiro, como Baile Perfumado (1997), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas. Enquanto personagem principal do ciclo cinematográfico brasileiro de cangaço, Corisco tem várias representações, algumas mais históricas da ação do cangaço; outras mais marcantes na estética inovadora. A performance dramática deste personagem nofilme Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), de Glauber Rocha, por exemplo, tem conseqüências políticas e estéticas definitivas para compreendermos a alteridade do discurso nacionalista no Brasil, tornando-se uma das obras inaugurais da ficção revolucionária do cinemanovismo; já a performance épica do filme de aventura Corisco, o Diabo Loiro (1969), de Carlos Coimbra, marca a permanência da linguagem melodramática clássica do cinema sem maiores repercussões políticas fora da tela, durante o período de censura do cinema nacional; e mais recentemente, o filme Corisco e Dadá (1996), de Rosemberg Cariry, marca a heterogeneidade do tema do cangaço na perspectiva crítica da contemporaneidade, buscando na performance do mito do cangaceiro uma representação da imagem da nação estilhaçada no espelho fragmentado.
A narrativa deste filme é trágica-dramática-lírica, sendo, ao mesmo tempo, enredo de aventura para a indústria cultural e também uma reflexão sobre a identidade fragmentária do mito agrário no mundo urbanizado, traço que caracteriza grande parte dos filmes da retomada pós-1990, quando os diretores articulam as teorias da cultura e da semiologia, revisitando as fontes literárias modernistas e dos cinemanovistas; e lendo com outros olhares os discursos dos documentos oficiais sobre o cangaço.
A Certidão de Óbito de Cristino Gomes da Silva de 27 de Maio de 1940 é um exemplo marcante, pois registra a morte do cangaceiro juridicamente, mas possibilita uma leitura que recompõe a tensão do discurso informal no jogo entre o documental e o ficcional, estratégia que consolidou o cinema moderno brasileiro sobre a temática histórica e social do cangaço. O poder do discurso oficial no documento procura desmistificar o discurso popular que engendra o mito do cangaço na memória nacional, mas a tensão entre os discursos pode ser flagrada na leitura em contraponto, articulando o texto reativo da escrita oficial sobre as condições da morte do cangaceiro com a escritura performática e ficcional que ativa a vida / morte do personagem Corisco na mitologia cinematográfica. Entre os vários filmes desta temática, selecionamos aqui dois deles, para estabelecermos este contraponto entre a política cultural da cinematografia brasileira e a política oficial do discurso do documento de óbito de Cristino Gomes. São os filmes: Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), de Glauber Rocha, do cinema novo; e Corisco e Dadá (1994), de Rosemberg Cariry; da retomada do novo cinema brasileiro contemporâneo.
A Certidão de Óbito original transcrita pelo oficial Evandro Cardoso de Andrade, da comarca de Miguel Calmon, Bahia, lavra a morte do cangaceiro nos seguintes termos: “Certifico que, em data de 27 de maio de 1940, no Livro n0 C 12, à fls 7 verso. sob o n0 1.567, foi feito o registro de Óbito de CRISTINO GOMES DA SILVA (vulgo Curisco)”. Neste primeiro traço narrativo da certidão, o morto tem a sua identidade apresentada com o destaque em vermelho e CAIXA ALTA do nome civil; e os (parênteses) utilizados para aprisionar o nome do cangaceiro grafado em letra regular e em vermelho, com o fonema kü grafado na forma mais popular Curisco e não Corisco, conforme a sintaxe culta mais aceita. O vermelho; a citação do vulgo entre (parênteses) e a grafia mais popular do fonema kü sugerem o ruído lingüístico de elementos populares recalcados na CAIXA ALTA e inércia do nome cartorial Cristino Gomes da Silva, que apaga a agilidade do raio significativo do nome vulgar atribuído ao mito do cangaceiro.
Os nomes – oficial e popular – são grafados no documento seguindo uma hierarquia da superioridade do primeiro em relação à inferioridade do segundo, conforme as marcas lingüísticas e gráficas da caixa alta do primeiro e da forma regular e do distintivo “vulgo” no segundo. Mas a reversão da leitura do significado pelas marcas discursivas da cor vermelha destrói a hierarquia e acende as nuances da cor vermelho / sangue, que banha a imagem da violência do cangaceiro. Esta imagem do vermelho / sangue é a marca problemática da fala do personagem Corisco de Glauber Rocha, em Deus e o Diabo, quando coloca a violência do cangaço na crise social e existencial do herói vencido na seqüência das mais emblemáticas do filme, quando Corisco baila em transe e promete matar o responsável pela traição e morte de Lampião.
Na seqüência ele contracena com o vaqueiro Manuel, com Rosa e com Dada, que não entendem a razão de tanto sangue, mas compreendem o transe do cangaceiro na autofagia da sua luta sem poder escapar da violência. Entretanto, a imagem da violência no filme de Glauber Rocha não é mais a cilada do naturalismo literário e cinematográfico tradicionais, pois a representação é construída revolucionariamente do hibridismo ideológico de traços “primitivos” do irracionalismo do cangaço, mas também vislumbra os traços de outra racionalidade dialética do cinema novo, que ativa nova compreensão sobre o cenário da violência agrária no Nordeste brasileiro. A fala de Corisco na cena desloca a categoria naturalista tradicional da violência do cangaço para um lugar político radical na história do cinema brasileiro:
Corisco – Tira os fantasma da cabeça que eu num agüento mais ver você no sofrimento... já faz três dia, é muito tempo pra quem viveu na guerra. O corpo de Maria Bonita inchou, apodreceu, os bicho agora tão comendo os olhos bonito dela... morreu Maria mas Lampião está vivo. Virgulino acabou na carne mas o espírito está vivo. O espírito está aqui no meu corpo que agora juntou os dois... Cangaceiro de duas cabeça, uma por fora e outra por dentro, uma matando e outra pensando! Agora é que eu quero ver se esse homem de duas cabeça pode consertar esse sertão. É o gigante da maldade comendo o povo pra engordar o Governo da República! Mas São Jorge me emprestou a lança dele pra matar o gigante da maldade. Ta aqui! Ta aqui o meu fuzil pra num deixar pobre morrer de fome! (ROCHA, p 274)
A transcrição da Certidão de Óbito continua desdobrando os traços “ficcionais” das informações sobre o morto: “... falecido em 25 de maio de 1940, às 17: 00 horas, nesta cidade de Djalma Dultra, comarca de Jacobina-Bahia.” Neste trecho, surgem situações discursivas relevantes, como a dos dois dias de decurso entre a constatação da morte e o seu registro oficial, o que permite inferências quanto à escolha do textodiscurso para oficializar a morte do cangaceiro, após as devidas autorizações legais, conforme requer um caso de Estado como o do cangaço, numa região praticamente sem a presença estatal, a não ser através da cobrança de impostos e da força policial.
O decurso do tempo entre a morte e o documento também pode indicar as condições de localização da luta e a deficiência de transporte na região. Mas um traço importante são mudanças estruturais da nação brasileira, configuradas nos elementos textuais e paratextuais referentes ao território do país em conformação, como na mudança do nome do distrito de Jacobina – Djalma Dultra, que após a emancipação passa a ser a comarca de Miguel Calmon. Na transcrição atual o documento é atualizado e o registro substitui a comarca sede na época da morte do cangaceiro - Jacobina, pela comarca atual de Miguel Calmon. O que parece irrelevante para a discussão identitária, assume um sentido importante, pois a reivindicação do título de sede do cartório onde está o registro da morte do famoso e mitológico cangaceiro Corisco, configura uma mudança na política cultural brasileira, pois, para a antiga comarca o importante era ter registrado em seu cartório o documento de extermínio do último cangaceiro, mas para a comarca atual o valor do documento é a preservação da memória do mito do cangaceiro. Esta mudança configura a nova política cultural brasileira contemporânea de resgate da história cultural do país.
Isto repercute com intensidade na ética e na estética cinematográfica do cangaço, que chegou a ser, durante a República Velha e o Estado Novo, no auge do cinema primitivo e do surgimento do cinema clássico, caso de polícia e de política, que repercute também na censura da ditadura militar contra a veiculação de filmes violentos que maculavam a integridade moral do país no exterior; repercute ainda hoje, quando as imagens do cangaço estimulam o público a compreender metonimicamente e metaforicamente a realidade nacional, através dos filmes que abalam a Identidade Nacional oficial, como é o caso do filme Corisco e Dadá.
Na Certidão de Óbito de Corisco surgem outros traços discursivos que dialogam mais fortemente com o mito do cangaço nocinema, causando mais fissuras no discurso do documento oficial sobre a desmistificação do “bandido social”. Vejamos os termos do documento: “sexo masculino” de “cor branca”, “profissão bandido”, “natural do Estado de Alagoas”, mas domicílio e residência “nômade”, contando “33 anos de idade” e “estado de civil solteiro”, “filho de Manoel Anacleto e Firmina Maia”, estes “residentes e domiciliados no Estado de Alagoas”. O sexo da violência no cangaço é o masculino, conforme a cultura patriarcal do Nordeste brasileiro. Mas Lampião introduziu a mulher no cangaço, passando ela a viver as mesmas experiências ativas e passivas da violência; no entanto a memória patriarcal ainda reluta em aceitar o novo papel feminino nas mesmas condições do homem.
Nos filmes de cangaço, mesmo do cinema moderno, as mulheres são geralmente vítimas do destino patrocinado pelo homem condutor da família, que não respeita as tentativas das companheiras para abandonar a violência. No filme Deus e o Diabo, uma das cenas enfoca a tensão do gênero, quando Corisco prepara os seus planos de vingança e, ao fundo da tomada, Rosa e Dadá alheiam-se à violência “masculina” e trocam carícias “femininas”. O discurso, que parece reproduzir a cultura convencional desvia-se quando a resistência de Rosa aos projetos de Manuel culmina com o assassinado do beato por ela, para livrar Manuel do inferno sebastianista que prometia o céu. A percepção política de Glauber Rocha desloca o discurso patriarcal da exclusividade masculina sobre a violência para a ação de Rosa ao matar ao beato, tendo esta violência um aspecto de liberação redentora, ao mobilizar no filme as dobras do discurso de Frantz Fanon na forma revolucionária do cinema novo, com a reversão da violência para despertar ao opressor o oprimido no ato violento assimilado e sublimado pelos dominados contra os projetos autoritários dos dominantes.
Para Frantz Fanon, “le colonialisme impliquait un univers manichéen oú l’inferiorité permanente du colonisé était tenue pour établie”. (FANON, 1991, 23) No filme Corisco e Dadá, a mulher acompanha a ações do homem, articulando a dialética do amor / dor na condição do papel feminino da donzela roubada da família, ou a mulher consciente da violência ao assumir a luta com companheiro na mesma condição, ressaltando outra racionalidade da personagem, em contraponto ao paradoxo da razão “instintiva” que associa a violência ao homem, ou masculiniza a mulher.
Na Certidão de Óbito, a questão identitária da cor “branca” atribuída a Corisco é o reflexo da memória vulgar que o populariza como o “diabo loiro”; a raça branca colada ao sertanejo encena uma contradição da teoria de miscigenação clássica, que via no branqueamento a melhora do mestiço. Mesmo “branco / loiro” atribuído a Corisco um estereótipo sem conotação étnica é importante discutirmos este discurso no documento, seguindo as recorrentes questões de raças no Brasil até hoje. Já a profissão de “bandido” instaura uma situação discursiva mais problemática ainda, devido ao inusitado uso do termo no documento oficial de óbito. O “bandido primitivo” no documento desvela o ressentimento social da escrita que desqualifica a vida social e econômica de Corisco.
Mas a história econômica do Nordeste cruza inevitavelmente com o cangaço, conforme a vasta documentação de teses como a de Rui Faço e Frederico Pernambucano de Mello, quanto à condição desprivilegiada de grande parte da população, que conduzia os jovens aos grupos de cangaceiros, grupos estes que movimentavam somas de pilhagens em negócios com mercadorias e armas, que enriqueciam muitos comerciantes, os quais diversificavam seus empreendimentos para “lavar” o dinheiro acumulado no comércio com os criminosos, sendo esta estratégia econômica da diversificação uma das condições primordiais do capitalismo moderno no Nordeste, apesar do combalido estágio econômico da região. Além do comércio nos negócios do cangaço, os cangaceiros também prestavam serviços ao latifúndio na rede de influências das disputas entre os senhores de terra na região. Ou seja, a “profissão de bandido”, conforme registra o documento, para justificar e desqualificar a morte do cangaceiro acaba por afirmar uma condição econômica fundamental da economia do sertão nordestino. Para Pernambucano de Mello:
Surpreendentemente é possível afirmar-se hoje, imagem literária à parte, que os maiores cangaceiros, entendidos estes como os chefes de grupos de maior expressão, gostavam da vida no cangaço. Num sertão profundamente conturbado pelas disputas entre chefes políticos, lutas de famílias, ausência de manifestações rígidas e eficazes de um poder público longinquamente litorâneo; sertão povoado pó um tipo especial de homem, individualista, sobranceiro, autônomo, desacostumado a prestar contas de seus atos, influenciados pelos exemplos de bravura dos cavaleiros medievais; sertão que tinha no épico o seu gênero maior, fazendo vivas páginas de um Carlos Magno e os Doze Pares de França, de um Roberto do Diabo, de um Donzela Teodora, de um João de Calais; num sertão assim anormal a olhos urbanos, o cangaço representava, na verdade, uma ocupação aventureira, um ofício epicamente movimentado, um meio de vida, ou até mesmo um amadorismo divertido de jovens socialmente bem situados, carentes de afirmação. (MELLO, 2004, 117)
Quanto aos termos da Certidão de Óbito sobre à origem do cangaceiro morto, do “Estado de Alagoas”; e ao seu domicílio “nômade”, ficam patentes outros traços circunstanciais do discurso de uma região informal na aparente formalidade do texto, circunstâncias que representam situações sociais e antropológicas fundamentais para o discurso da nacionalidade no Brasil. O deslocamento do cangaceiro entre o seu nascimento em Alagoas e sua morte na Bahia, reconstrói a divisão geopolítica da região cultural nordestina, que não se caracteriza nas fronteiras fixadas.
A gênese do nomadismo das memórias do cangaço percorre um longo corredor geográfico, atravessando as fronteiras geo-políticas do Ceará à Bahia, passando pelos territórios da Paraíba, do Piauí, de Sergipe, de Pernambuco, ou seja, por 7 (sete) Estados da Federação, dos 9 que compõem a região Nordeste do Brasil. Esta condição nômade repercute jurídica e militarmente sobre a condição federativa, levando a política de segurança do governo às estratégias de agrupamentos policiais que transitavam entre as fronteiras dos Estados, conhecidas pelo nome popular de forças militares “volantes”.
Quanto ao termo nômade utilizado na Certidão de Óbito, por certo o escrivão não levou em conta os problemas filológicos, sociais e antropológicos, muito menos, a tensão filosófica do conceito de nomadismo em relação ao termo migrante, qualificador mais comum deste personagem nordestino, tanto na nomenclatura oficial, quanto na arte regionalista tradicional. Para Gilles Deleuze (1997, 13), o nômade não é binário, mas “antes como a multiplicidade pura e sem medida, a malta, irrupção do efêmero e potência da metamorfose”, como o cangaceiro, o nômade “desata o liame assim como trai o pacto”, segundo Gilles Deleuze, (op. cit.) o nômade:
Faz valer um furor contra a medida, uma celeridade contra a gravidade, um segredo contra o público, uma potência contra a soberania, uma máquina contra o aparelho. Testemunha de uma outra justiça, às vezes de uma crueldade incompreensível, mas por vezes também de uma piedade desconhecida.
No qualificativo de nômade o escrivão flagrou a condição de Corisco e a memória coletiva do Nordeste, sendo esta a memória ativada na narrativa cinematográfica alegórica do cinema novo ao cinema contemporâneo de cangaço.
Os filmes Deus e o Diabo na Terra do Sol e Corisco e Dadá refletem nas imagens da nação a preocupação ética através da estética, impulsionando a recepção do cinema moderno brasileiro para o “entre-lugar” do espetáculo de ação e a reflexão identitária. Para realizar o contraponto ético e estético é importante percebermos os elementos articulados na linguagem do cinema, através da escolha da luz e da angulação das tomadas, mecanismos que produzem os sentidos epifânicos das personagens; é também necessário observarmos o diálogo entre a ficção e os discursos sociais, antropológicos e históricos oficiais sobre o tema do cangaço. A leitura deve atentar para os traços discursivos dialógicos entre obras de arte ficcionais e documentais e os textos oficiais, como a Certidão de Óbito de Corisco, para flagrarmos os sentidos que atravessam as descrições de Cristino Gomes da Silva, como, tinha “33 anos de idade”; era “solteiro” e filho de Manoel Anacleto e Firmina Maia.
Os 33 anos de idade atribuídos a Corisco realçam a juventude etária do líder cangaceiro, mas destaca também a precocidade da morte no violento sertão brasileiro da época, paradoxalmente uma longevidade aos 33 anos de idade, pois já se consagrava o mito. A figuração mítica da idade do cangaceiro pode ainda ser um oposto simétrico do Cristo, o cangaceiro ocidental da “não-violência”. A reversão entre violência / não-violência associada à percepção da performance social e mítica do Corisco versus Cristo, ou de Deus versus Diabo, deixa marcas fortes nas narrativas cinematográficas, como o São Jorge guerreiro enfrentando o Dragão da Maldade na obra de Glauber Rocha e em toda a tradição cinematográfica de cangaço.
Já a classificação civil de “solteiro” para o cangaceiro é mais uma marca da convenção social no documento, pois sabemos que Corisco convivia com Dadá com quem teve filhos e viveu segundo as normas da Igreja Católica, informalmente, por não poderem contrair o sacramento oficialmente, pelas óbvias razões do nomadismo. Seus pais sim, estes tinham os nomes firmados e domiciliados fixamente, portanto não tinham a necessidade de serem nomeados pelos nomes vulgos, apesar de ser esta uma norma social da região Nordeste, que sempre associa a pessoa a um nome popular.
Finalmente, a Certidão de Óbito de Cristino Gomes da Silva lavrada no cartório da Comarca de Miguel Calmon diz que as informações do documento tiveram como declarante o “Sargento José Fernandes da Silva”; e quanto à atestação do óbito, o texto explicita que “não teve assistência médica”; apontando como causa da morte “tiros de metralhadora no abdomem ”, e que o corpo foi sepultado no “cemitério da consolação, desta cidade.”
Cortesia Sergio Augusto de Souza Dantas
O declarante militar e a ausência de atendimento médico definem as condições da morte do cangaceiro, segundo uma lógica estatal do extermínio, o que caracteriza a luta do cangaço para além do rebelde primitivo de Eric Hobsbaw, atribuindo ao combate militar um aspecto de guerrilha com repercussão social e política, transformando o cangaço em mito no meio intelectual. Já os “tiros de metralhadora no abdomem” explicitam a guerra fratricida que não dá chances de vida ao “cabra marcado para morrer”. Apesar dos tiros fora de zonas mortais, a belicosidade moderna da metralhadora canta mais alto do que o grito de Corisco em Deus e o Diabo: “mais forte são os poderes do povo”. O ato de cortar as cabeças dos cangaceiros confirma esta descrição da morte marcada.
A cabeça cortada no plano real da luta entre o cangaceiro e o Estado é a imagem repetição do discurso ideológico oficial dos documentos sobre as trágicas epopéias populares da história social do país. Contudo, os mitos têm muitas cabeças, como diz o Corisco de Glauber, e uma delas é a memória popular que atravessa a linguagem oficial por dentro transformando as narrativas artísticas em releituras da nação oficial.
Bibliografia:
CAETANO, Maria do Rosário (org). Cangaço – O Nordestern no Cinema Brasileiro. Brasília: Avathar, 2005.
DELEUZE, Gilles. Mil Platôs – capitalismo e esquizofrenia. Trad. Peter Pal Pelbart e Janice Caiafa. São Paulo: editora 34, col. Trans, 1997, vl 5.
DE MELLO, Frederico Pernambucano. Guerreiros do sol – Violência e bandistismo no Nordeste do Brasil. São Paulo: Girafa, 2004.
FANON, Frantz. Lês damnés de la terre. Paris : Gallimard, 1991.
GALVÃO, Maria Rita e Jean-Claude Bernardet. O Nacional e o Popular na Cultura Brasileira – Cinema. São Paulo: Brasilense, 1983.
LEAL, Wills. O Nordeste no Cinema. João Pessoa: UFPB/FUNAPE, 1982.
ROCHA, Glauber. Revisão Crítica do Cinema Brasileiro. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
SENNA, Orlando (org). Glauber Rocha - Roteyros do Terceyro Mundo. Rio de Janeiro: Embrafilme/Alhambra, s/d.
TOLENTINO, Célia Aparecida Ferreira. O Rural no Cinema Brasileiro. São Paulo: Unesp, 2001.
* Cláudio C. Novaes é Professor da Graduação dos Programas de Pós-Graduação do Departamento de Letras e Artes da Uefs contato cledson@uefs.br
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